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The Last Bath
Oh menina Rita? O que é que estás a fazer aqui em cima? Vai lá para baixo!
Desculpe, irmã.
Ainda bem que te vejo! Já te deixei lá as flores. Está lá tudo.
- Já está tudo no altar? - Sim sim, deixei como pediste.
Então meninas... Vá! Almoçar.
Não é para a carrinha ficar à vossa espera, como ontem.
Andor!
Rapariga tu estás aqui há meia hora.
Anda lá. Despacha-te.
Dá cá que eu faço isso.
Vais lá em abaixo
e em frente ao altar já tens tudo para fazeres o arranjo.
E é: uma, três, cinco. E aquelas folhinhas todas à volta no vaso.
- Uma, três, cinco... - Uma, três, cinco...
E faz isso rápido que é para irmos almoçar, está bem?
Está bem.
Irmã Josefina, tens uma chamada.
Deve ser a Lurdes. Diz-lhe que eu já lhe ligo, está bem?
Não é a Lurdes, é de fora.
- Está bem. - Até já, então.
Até já.
- Olhe, infelizmente não lhe trago boas notícias.
Sim?
- O seu paizinho estava doente já há algum tempo, e...
- Olhe, Josefina,
- o seu paizinho faleceu hoje.
- Foi o seu sobrinho, o Alexandre, que o encontrou na cama.
- O padre Manuel já tratou de tudo.
- O funeral vai ser já amanhã.
Sim.
- O Alexandre está aqui comigo.
- Ele não pode ficar sozinho naquela casa, não é?
- Coitadinho...
- Fez quinze anos na semana passada...
- ainda é muito catraio.
E a minha irmã?
- A Ângela? Ainda ninguém conseguiu falar com ela.
Amigos e companheiros fogem da minha desgraça.
Os meus parentes ficam ao longe.
Os que procuram tirar-me a vida armam ciladas.
Meu Deus, reconhece a minha culpa.
Não me abandonais, Senhor a minha salvação.
Deus, nosso Pai,
justamente condenastes o homem pecador e lhe prometestes a vida
pela penitência e pela ressurreição final;
humildemente vos suplicamos que vos digneis a abençoar esta sepultura
enquanto desce à terra o corpo do vosso servo,
recebei a sua alma no Céu, por Cristo, nosso Senhor.
Ámen.
Deus omnipotente quis chamar para si o nosso irmão
cujo corpo entregamos à terra para que volte ao lugar de onde foi tirado...
Recebei a sua alma e levai-o à presença do Senhor.
Oh filho, então?
Então... vá.
Não fiques assim, rapaz.
Vá...
Tu vais ver que vai correr tudo bem.
Olha que ainda hoje à noite vais dormir na tua caminha, no teu quartinho.
E olha que a tua tia vai tomar muito bem conta de ti.
A minha mãe ainda não chegou...
Vocês já conseguiram falar com a Ângela?
Não.
Ele está com aquela ideia que ela vem.
A última vez que ela veio por cá,
olhe, foi nas Festas de Nossa Senhora da Agonia,
há quatro anos.
Apareceu aí com um homem,
nem se sabe se era namorado, se era marido.
Mas ela desde que se desentendeu com o pai,
ela nunca mais cá voltou a pôr os pés.
Posso?
Tens ali um bocadinho de chá de camomila com umas bolachas para comeres qualquer coisa.
Andaste a enrolar o jantar todo. Anda lá.
Tens que comer.
Tens que ajudar a tia. Anda lá.
A Adelaide falou com o teu professor e não tens de ir à escola amanhã.
Come mais um bocadinho, Alexandre.
Alexandre, come mais um bocadinho...
Eu não tenho fome.
Não devias andar por aí descalço.
Os chinelos estragaram-se quando eu caí.
Desculpa.
Vira, vira, vira, vira.
Levanta aqui.
- Queres o cobertor? - Não.
Fica aqui dobrado ao fundo da cama, para o caso de teres frio durante a noite.
Até amanhã.
- Boa tarde. - Boa tarde.
Sou da segurança social, e venho falar do Alexandre.
Permita-me apresentar-lhe os meus pêsames.
Tenho aqui uns documentos D. Josefina, e gostaria que os lesse com muita atenção.
A nossa grande preocupação, D. Josefina,
é realmente o bem-estar do Alexandre.
Se ele não tiver ninguém que cuide dele,
terá que ir para um centro de acolhimento.
Mas gostaria que reconsiderasse esta possibilidade.
Eu não consigo é imaginar-me a voltar para aqui.
Mas não tem de ser aqui.
- Pode ser... - Sim, sim. Eu percebo, mas...
Eu não sei se o Senhor Padre Manuel lhe explicou,
Sim.
Pronto, eu tenho a congregação...
- Sim, ele falou-me. - e seria... seria muito complicado,
porque estou a poucos meses de fazer os votos perpétuos
e de repente isto é um...
- Eu compreendo. - é uma reviravolta um bocadinho grande demais.
Mas claro que eu entendo que ele não...
- É que o Alexandre sozinho não pode ficar. - Não pode ficar.
Não pode.
Infelizmente
ou felizmente é o meu dia a dia na congregação.
Porque nós também temos uma instituição de meninas que vêm por ordem do tribunal.
E portanto conheço estes processos.
Mas neste momento...
acho que preciso de encaixar.
Porque a D. Josefina assumiria o poder parental.
- Perental. - Exatamente.
Pensava que estavas no teu quarto.
Às vezes é importante desabafar.
Se quiseres falar...
Eu hoje quando vim para casa,
eu... eu passei pela Alice.
Ela esteve cá, não esteve?
Esteve.
A Alice esteve cá porque ela está preocupada contigo.
Eu vou para o orfanato, não é?
Nós depois falamos sobre isso. Agora,
quando tu chegas a casa nesse estado a primeira coisa que tens de fazer é ir para o banho.
Anda lá.
Vá lá.
Há quanto tempo é que tu não tomas banho, Alexandre?
Não sei.
- Ãh? - Não sei.
Não sabes?
Então e não tomas banho porquê?
- Por causa da mão. - Por causa da mão?
E vais andar porco enquanto estiveres com a mão assim.
Não faz mal.
Faz sim senhora. Então?
Pões um saco de plástico na mão, isso não tem problema nenhum.
Oh! Tira lá!
Mas tia, estou com frio.
Estás com frio, nada. Tens de ficar mais um bocadinho assim.
Que é para ter a certeza que isso morre tudo.
Levanta a cabeça para cima, porque ainda te entra para os olhos, anda lá.
Pronto. Deixa-te estar assim mais um bocadinho.
Não faz mal a ninguém.
Vais sair nesta.
Trata bem a Adelaide que ela tem sido muito tua amiga.
Eu venho logo à noite.
Até logo.
Nós não vivemos sozinhos no mundo.
Às vezes antes de nós pensarmos na nossa pessoa
temos de pensar nos outros.
- Custava-te alguma coisa teres ido a casa da Adelaide, tê-la avisado?
Não.
Não?
Tens alguma coisa para me dizer?
Desculpe, tia.
Vamos dormir?
Até amanhã.
Alexandre.
Então?
O que é que se passa?
Não consigo dormir, tia.
Que horas é que são?
São três e meia.
Vai lá para a tua cama, vai.
É que eu tive um pesadelo com o avô.
Vai beber um copo com água.
E depois voltas para a cama.
Mas...
eu fiz xixi na cama, tia.
Então vá...
vamos dormir.
Até amanhã.
Tia.
Quando é que vamos ao Porto?
Quando tu te portares bem.
Queria mesmo lá voltar.
Só lá fui uma vez com o avô. Fomos ver o jogo ao dragão.
A mãe também foi connosco só que ela não chegou a entrar.
Será que ela fez como a tia? Foi viver para o Porto...
Tu hoje estás chato.
Mas de certeza que ela já não gosta de mim.
Claro que gosta.
E a tia também me vai abandonar? Também vai voltar para o Porto?
Mas quem é que ficava aqui a tratar de tudo? Eras tu?
Sim. Já consigo tratar da casa, então!
Também ia ser fixe morar sozinho.
Ai é? Não precisas de mim?
Não.
Não?
Então queres vir aqui lavar a roupa?
Oh tia...
a tia conhece o meu pai?
Não.
O avô e a mãe nunca lhe disseram nada?
A mim nunca me contaram nada também.
Ele era de cá?
Se eu te disse que não sei quem é,
como é que tu queres que eu saiba se ele era de cá ou não?
Estás a olhar para onde?
- Cala-te! - Estás a olhar para as maminhas da Sandra.
Eu logo mostro-te umas cenas na net.
Olha, logo queres ir a minha casa jogar consola?
Ya, pode ser...
Mas depois emprestas-me o teu telemóvel para eu falar com a minha tia?
Bruno, Alexandre!
Vamos parar de cochichar?
Meu Deus, porque sois tão bom?
Se me confiaste o meu sobrinho...
se é isto que pretendes de mim...
dá-me um sinal.
Ajuda-me a saber o que devo fazer.
Não lavaste o cabelo?
Não, vou ter de lavar com aquela porcaria daqui a oito dias.
Está bem. Mas entretanto podes lavar com o champô normal.
Olha lá, isso é que foi banho?
O que é isto aqui?
- Não sei, não deve ter saído. - Tudo sujo.
Banho!
Ai...
O que é que foi?
Nada.
Ai.
Desculpa lá vais-me ter que dizer o que é que é isso.
Dói-me aqui.
Está um bocado vermelho e dói-me.
Mostra lá.
Anda lá.
Não, deixe estar.
O que tu tens toda a gente tem. É tudo deste mundo.
Tu estás com isto tudo inflamado.
Experimenta lá lavares-te e puxares isso para trás.
Não consigo.
- Não consegues? - Não... Dói-me.
Então nós temos de ir ao médico para vermos o que é que tu tens aí.
Podes precisar de uma circuncisão ou isso estar só inflamado.
Não sei. Vira-te lá.
Pronto.
Agora...
Cuidado que ela vai sair quente.
Dá cá.
Vem aqui.
Pronto. Eu vou aproveitar e vou fazer o jantar.
E despachas-te, está bem?
Dou-vos graças Senhor.
Porque estando irado contra mim
A vossa ira se aplacou e me consolastes.
Deus é o meu salvador. Tenho confiança e nada temo.
O Senhor é a minha força e o meu louvor.
Já pode vir.
Bom dia.
Cuidado que eu vou abrir a janela.
Então?
Conseguiste dormir?
Não tiveste dores?
Não. Já não me dói.
Suminho de laranja...
A tia tem que ir ao Porto amanhã. Se tu quiseres vir comigo?
- Posso ir? - Podes.
Então quero.
Tia, podemos ir ao estádio do dragão?
Isso é que já é mais difícil.
Não sei.
Não sei se temos tempo.
Dá cá.
Já sei que foste muito corajoso.
Quando eu abri o lábio eram dez. Foram dez pessoas a agarrar-me.
Mostra. Pois eu já reparei que tens aqui uma cicatriz.
Desta vez foram só três.
Quando tu nasceste tinhas a enfermaria toda à tua volta.
Porquê?
Porque já não nascia uma criança há muito tempo e foste assim uma espécie de...
Ah, pois foi. O avô chegou a contar-me essa história.
Olha, aqui é a Igreja de Santo Ildefonso.
É no campo da Batalha.
E aqui é a tal rua que eu te falei.
Olha o eléctrico.
Vamos andar?
- Não, não temos tempo. - Ah, ok.
A cidade do Porto há uns tempos não era assim.
- Pois, imagino. - Com tanta gente.
Tia, tia, tia! Compra-me estas sapatilhas?
- Anda lá. Vá... - Tia! Por favor!
Já demos um passeio tão grande.
- Ó tia, olhe aqui! - Eu agora tenho de ir. Anda lá.
40% de desconto, tia!
Tu não precisas de umas sapatilhas. Já paraste três vezes em lojas.
Preciso sim, vá lá! Por favor, tia.
Deus vos abençoe. Até breve.
Eu sinto tanto a vossa falta, irmã. Preciso tanto da vossa ajuda.
Eu sei.
A morte de teu pai deve-te ter abalado muito.
E agora há essa criança.
Mas sê forte e reza muito para que Deus ilumine a tua vida.
Eu seria incapaz de deixar o meu sobrinho.
Há muitas formas de amar a Deus.
A devoção aos outros, a caridade
são outras formas de nos relacionarmos com Deus.
Vocês são a minha família.
Josefina, nós gostamos muito de ti.
Mas tens de continuar a tua vida espiritual onde quer que estejas.
Podes sempre contar connosco.
Obrigada, irmã.
Quatro.
Cinco.
Até amanhã.
Tia.
Pode-me fazer festinhas só até eu adormecer?
Dá lá um jeitinho, vai.
Já só pões mais uma vez amanhã de manhã.
Depois já não há mais gotas.
Já não sentes aquelas picadinhas, pois não?
Não, tia. Mas agora não fale...
És tão mimado.
Oh tia, não me seque muito o cabelo. Para ficar mais sexy.
- Para ficar mais quê? - Sexy.
Foi o que a Cláudia disse.
Quem é que é a Cláudia?
Uma amiga minha.
Senta-te aí que eu vou-te cortar um bocadinho desse cabelo.
Põe a cabeça para trás.
Olha para mim.
- Queres que eu te corte a franja? - Não. Deixe estar.
- O meu nome é Nuno Mota. Sou o notário da Vila de S. Sebastião.
- Ontem esteve cá a sua irmã.
Sim.
Ela é a cabeça de casal e por isso podemos prosseguir com a distribuição de bens do seu falecido pai.
Eu peço imenso desculpa... A Ângela esteve na vila de S. Sebastião?
- Ângela Antunes, certo?
Ângela Antunes, sim.
- Queria saber em que dia é que a Senhora D. Josefina poderia vir ao meu gabinete.
Só uma pergunta. Por acaso não tem o contacto dela?
- Não lhe posso facilitar isso, Senhora D. Josefina.
- Mas marcamos uma data e a Senhora esclarece tudo com a sua irmã.
Uma hipótese: se a mãe volta, o que é que acontece?
- Bom...
- Se a mãe volta é evidente que a mãe tem sempre prioridade.
Mas se...
como é que eu hei-de explicar isto? É assim...
Havendo um historial de uma mãe que já abandonou diferentes vezes,
como é que isso se processa?
- Só se alguma coisa de muito grave acontecesse
- é que se poderia impedir a união entre uma mãe e um filho.
- Está tudo bem, D. Josefina?
Oh tia.
Tia!
Tia, pode-me comprar esta camisola?
- Tão feia. - Não é nada.
Gostas disto?
Gosto.
Vê lá, anda cá.
Que tamanho é.
Sim, é só um.
É um M.
Pode experimentar?
Sim.
- Quanto é que é? - Dez.
- Quanto? - Dez.
- Três? - Dez. Dez euros.
- Dez?! - Ya.
- Gostas disso? - Gosto!
Está bem.
Então Josefina?
Ângela.
Queres entrar?
Eu vou primeiro.
Como é que está o Alexandre?
Está bem.
Onde é que ele está?
Ele anda com jogos de futebol lá no campeonato e...
hoje chega um bocadinho mais tarde.
Há laranjas?
Não. Este ano ainda não apanhei laranjas.
Tenho saudades das laranjas do nosso quintal.
Está tudo tão arrumado.
Eu tenho pena que ele não esteja cá.
Eu passei por momentos muito complicados.
Estive internada e...
entretanto casei-me
com um homem maravilhoso que me tem ajudado muito.
E eu acho que eu estou pronta para recomeçar
e gostava muito de ter o meu filho a meu lado.
Eu vou deixar aqui o meu cartão.
Diz ao Alexandre para me ligar.
Porque é que não me acordou, tia?
Bom dia.
Desculpa, adormeci.
Então e o professor Filipe não ligou?
Ligou, mas não sei porquê o telefone estava em silêncio e não ouvi.
Tia, temos o dia cheio de jogos importantes. Eu tenho mesmo de ir.
Não, não é importante. Tu nunca ficas aqui a almoçar comigo portanto hoje vais ficar.
Tia, mas eu tenho mesmo de ir.
E vais como? Diz lá...
- Vou de táxi. - Vais de táxi? Com que dinheiro?
Com o meu, das minhas poupanças.
Alexandre, eu não te quero a andar de táxi sozinho.
Tia, eu já não sou nenhum bebé.
E se está assim tão preocupada, compre-me um telemóvel.
Joga, joga!
Olha aqui, olha aqui!
Olha aqui.
Vai!
Vamos, Alexandre. Vamos!
Atira!
Vais falhar, matulão!
- Boa! - És um trengo.
Alexandre.
Vamos, Frederico! Boa finta.
Vai, vai!
Corta!
Vamos Alexandre é teu. Chuta!
Golo!
Bem jogado!
Bem jogado!
Parabéns. Parabéns.
Olha... vais para o liceu em S. João em Setembro, ou não?
Sim, vou. Também vais, não vais?
- Vou, vou. - Vai ser muita fixe.
- Olá. - Olá.
A mãe já chegou?
Não Fred, eu acho que é o Rafa que nos vem buscar.
Ok, eu vou ver.
- Então tudo bem? - Olá.
- Sabes ontem foi mesmo fixe depois do jogo. - Foi, não foi?
- Chegaste bem a casa? - Cheguei, tu também?
- Jogaste bué bem. - Obrigado.
O meu irmão é que já nem tanto.
Oh, não digas isso.
- Cláudia!
É o meu irmão.
- Adeus. - Adeus.
O que é que está aqui a fazer?
Vim te ver jogar.
Mas não ficámos de nos encontrar em casa?
Assim voltamos juntos.
Tens fome?
Estou esfomeado.
Isto não era o telemóvel do avô?
Era. E agora é teu.
Tens aí o meu número.
E pus-te dinheiro no telemóvel para o caso de precisares de falar comigo.
Obrigado, tia.
Tia,
vai haver várias festas agora de despedida do segundo ciclo.
Mas eu só queria ir a uma. Posso ir?
E só queres ir a uma, porquê?
Para a tia me deixar ir.
E isso é quando?
Para a semana.
Se te portares bem, pode ser.
Se não te portares bem, não vais.
E tu Gabriel, o que é que estás a desenhar?
É um pato e um coelho.
Filipe!
Eh lá!
Oh, Bruno!
Posso falar com o Alexandre?
Alexandre, podes-te levantar por favor, e vir aqui?
Filho...
Desculpa.
Este é o Edgar, o meu marido.
Alexandre, o meu filho.
Olá.
Eu fui lá a casa.
Não estavas. Deixei o meu número,
estava à espera que me ligasses.
Foste?
Não sabia...
A tia não me disse nada.
Queres mais pão? Que eu não vou comer.
Está bem.
É muito.
Chega, chega.
O meu filho é fantástico, não é?
É.
O que é que achas de nós os três irmos viver juntos?
Eu, tu e o Edgar.
Então, e a tia Josefina?
- Meu querido... - Ela tem estado a tomar conta de mim.
A tia veio-te ajudar e eu agradeço.
Mas a vida é assim.
Que é que dizes?
Alexandre, não é para chegares tarde!
Estás a ouvir?
A tua mãe também te tira fotos a partes do corpo ou ao cabelo?
Como assim?
O que é que tem o meu cabelo?
Estou sim, boa noite.
- Josefina?
Alô, Ângela.
- Passa-me ao Alexandre, por favor.
O Alexandre foi para uma festa do final de curso e não está.
- Anda lá. Vai lá chamá-lo.
Ângela eu estou-te a dizer que o Alexandre não está cá.
- Ele nunca está?
- Vais-me obrigar a ir aí para falar com o Alexandre?
- Anda lá. Vai lá chamá-lo.
Faz o que tu quiseres.
Eu não sei o que é que te hei-de dizer mais.
- Estou farta de ligar e ele não atende o telemóvel.
- És tu que o tens?
Não.
- Está bem.
- Então adeus.
Boa noite.
- Anda lá. - Ajuda aí.
O estado deste gajo...
Rafael, olha o casaco dele.
Foda-se!
Calma.
A chave?
Calma.
Abre lá a porta.
Estás bem ou não? Estás bem para entrar?
Tou.
Calma.
Estás bem?
Anda cá.
Consegues apoiar-te aí?
Ajuda me lá a tirar-te as calças... Vai.
Olhe, só para avisar que eu me vou embora.
Alexandre, então?
- Vais-te embora assim? - Sim.
Porquê?
Já que me mentiu e enganou. Não é?
- Eu menti? Em quê? - Sim!
Que a minha mãe esteve cá em casa e não me disse nada.
Ela deixou-lhe o seu número e escondeu-mo, não foi.
- Podemos conversar? - Não quero conversas consigo.
Espera, espera, espera. Podemos conversar?
Às tantas, já que me mente tanto, também me pode ter mentido sobre o meu pai.
- Não menti. Não te menti! - Largue-me. Largue-me!
- Eu não te menti, Alexandre. - Largue-me, largue-me!
- Largue-me, largue-me! - Eu não te menti, eu não te menti.
Mãe, vamos jantar?
Amor, trazes a mala para aqui?
Vamos jantar?
Amor, dá aí dinheiro ao Alexandre
para ele ir comer qualquer coisa.
Chega?
Mas não íamos todos juntos?
Vai ao restaurante aqui em baixo e come qualquer coisa
que nós já estamos estafados.
Vem cá, Alexandre, vem.
Ouve...
a tua mãe tem estado com enxaqueca nos últimos dias.
Por isso é melhor ficarmos, está?
Ok. Mas querem alguma coisa?
Não, não é preciso nada.
Mas vai é rápido, antes que feche.
Ah, e se faltar dinheiro diz lá em baixo que nós vamos lá amanhã e pagamos.
Estás a falar de quê?
Eu quero ir-me embora por favor.
Eu já não consigo...
O quê?
Eu já não consigo.
Não consegues o quê?
Ângela, fala comigo.
Não consegues o quê?
Vamos embora.
Vamos embora para onde?
Por favor, vamos embora.
Vamos embora para onde, Ângela?
Eu não quero voltar para aquela casa.
- Eu não quero, por favor. - Calma, calma Ângela.
Ângela, Ângela.
Acalma-te, está? Acalma-te, acalma-te.
- Boa noite. - Boa noite.
Quero uma bebida forte.
Por favor.
Como é que te chamas?
Josefina.
Josefina...
É um bom nome, Josefina.
Foi a minha mãe que escolheu.
E tu... és de onde?
Sou daqui.
De Untim.
Do Douro.
Untim do Douro.
Bom,
termina lá isso que eu levo-te a casa.
Não porque o meu sobrinho vem-me buscar.
Não...
Tia, não. Tia, venha cá eu ajudo.
Tia, venha cá. Tia, venha cá.
Venha cá. Passe o braço.
Venha cá.
Consegue subir?
Apoie-se aí...
Tia, quer que lhe vá buscar alguma coisa?
Não. Fica aqui.
Fica aqui.
Senta-te aqui ao pé de mim.
Há tanta coisa que eu gostava de te explicar.
- Tia, não fale agora. Deixe estar. - Eu não sei como...
Tia...
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