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Tradu��o e Sincronia Juliana Lima
Saverio, o que dizer dele?
Ele nasceu para ser ator, tinha um talento nato.
Tinha a leveza de uma crian�a, a profundidade de um velho...
era um g�nio!
Me lembro da primeira vez que o vi recitar...
Bons tempos! �poca inesquec�vel!
Eu diria que a carreira do Saverio teve cinco etapas:
A estreia no teatro.
E depois...
a inesquec�vel �poca das com�dias italianas.
Realmente o Saverio sabia fazer de tudo.
Sabia atuar, cantar, dan�ar.
E ent�o chegou a vez de se aventurar nos grandes filmes.
Acho que devemos nos organizar.
Porque sozinhos n�o somos nada e o patr�o pode fazer tudo.
Nos demitir e fazer com que a gente se mate por hora extra!
Ah, que �poca maravilhosa!
Meu filho cresceu, mas eu n�o estava presente.
Saio antes que ele acorde, e volto quando j� est� dormindo.
Mas acabou, acabou.
1971 foi o ano decisivo para o Saverio.
J� tinha alcan�ado um sucesso mundial,
tinha vencido sua primeira Palma de Ouro.
E via se abrir a sua frente...
sua maravilhosa �poca francesa.
Obrigada por ligar de volta, doutor.
N�o... n�o. Venha, Saverio!
Acabei de chegar, ainda n�o as encontrei.
Sim, estou calma, calm�ssima.
Tomei minhas p�lulas, sim...
Eu sei, � a prova que esper�vamos h� muito tempo.
S�o minhas irm�s, eu sei.
Sim, sim...
eu sou t�o importante quanto elas, certo.
Bem, ficamos muito tempo sem nos ver...
s�o s� dois dias.
Nenhuma resist�ncia, aconte�a o que acontecer...
Tudo bem, querido? Sim, sim...
E como esquecer a �poca sueca.
Os grandes conflitos metaf�sicos,
o homem de frente ao abismo de si mesmo.
Quem sou eu?
St�phanie, sou eu, Solveig!
Solveig, incr�vel!
Como vai? Est� lind�ssima! Era uma garotinha.
- E ele? - Saverio, vem c�,
d� bom dia para sua tia sueca.
- Bom dia. - Bom dia.
A� est�o as filhas atrizes.
Prazer, Marco Serra, imprensa.
- Bem-vindas. - Podemos ir?
- Sim, por aqui. - � incr�vel como voc� mudou.
H� quanto tempo n�o se viam?
10 anos, desde o funeral do papai.
10 anos!
Que fofo! E os outros, quantos s�o?
- Os outros, dois... - Bem, outros dois,
Veronique, filha do ator Serg� Verroux,
conhecido no set do filme 'A sonhadora'
e Stella, a diretora de 'A �poca da minha vida'.
'As �pocas da minha vida'.
'As �pocas', isso.
- Cada filme um filho. - Nem tanto, eu fiz,
- quase 40 filmes. - 37, para ser exato.
- Voc� sabe tudo. - Eu tento.
Eu me formei com uma tese sobre seu pai, por isso...
Ent�o se esquecermos algo da nossa vida,
voc� pode nos ajudar.
Mas eu quero saber muito mais de cada uma de voc�s.
Tenho inten��o de escrever um artigo.
Temos que tomar cuidado com o que dizemos.
N�o o acham id�ntico ao papai?
Esperem, n�o se deixem enganar. Vejam os olhos!
Id�ntico a quando fez 'O segredo do coiote'.
- Eu estava escondida l� atr�s. - N�o acredito!
Espera que vou aproximar. N�o!
- Este � meu pezinho. - Olha s�!
- Que fofo, vou dar um beijinho! - Por favor!
Eu queria estar perto do papai e ele me p�s atr�s da rocha.
E me disse: "N�o deve se mexer nem respirar por motivo algum."
S� que ele n�o disse que eles atirariam.
Eu n�o me mexi. N�o respirei, mas me borrei de medo.
- Seu pai era um s�dico, sabia? - N�o! Ele queria me agradar.
A gente nunca se via. Essa era a �poca
em que ele vivia na Espanha com a nova fam�lia.
E voc� sempre o perdoou, n�o?
Como � bonito!
�, sim!
Venham, crian�as.
Esta � a casa que o vov� comprou quando era famoso.
Eu passava os ver�es aqui.
Que alegria!
- Segunda! - Oi, Rita.
- Seja bem-vinda! - Minha m�e italiana! Como vai?
- Como vai? - Tudo bem!
- Onde est� sua m�e espanhola? - Aqui!
- Mam�e! - Ramona!
Crian�as, venham cumprimentar a vov� italiana.
Meu Deus, dois netos de uma vez! Voc� mudou a cor do cabelo.
- Vermelho selvagem, gostou? - Gostei! E como voc� est�?
Destru�da. Quando eu era jovem sempre me neguei
a viajar sem bab�, agora a bab� sou eu.
Segunda diz que sou boa av�. Visto que nunca fui boa m�e.
- Ela est� me punindo. - A mim tamb�m!
Para ter uma fam�lia unida...
ela chamaria de m�e at� a puta americana.
Voc�s convidaram a puta americana tamb�m?
N�o, n�o me diga sen�o vou embora.
- S� a filha. - Schilly!
Voc�s poderiam evitar, ela nem veio ao funeral!
Ramona, mesmo ap�s trinta anos de chifre...
O primeiro a gente nunca esquece.
Susanna, St�phanie e eu, entr�vamos aqui embaixo
sacud�amos a �rvore e brinc�vamos que nevava.
O jardineiro contava para o papai, mas ele n�o ligava.
E dizia: "Minhas filhas brincam de cinema".
Que maravilha!
M�e Rita, Alfonso meu marido, se lembra dele no meu casamento?
Ele estava com voc� no altar.
- Como vai, Alfonso? - Bem. Feliz de ter chegado.
Se me permite dizer, a senhora est� muito bonita.
Ele � filho de um diplomata.
Alfonso, estamos em fam�lia,
n�o precisa beijar a m�o de todas.
Uma fam�lia meio, como se diz?
- Alargada? - Intercontinental.
Ainda assim uma fam�lia. Saverio, Cristobal!
Faz um ano que falamos dessa reuni�o familiar
e eu j� n�o aguentava mais.
- Como se diz? - Oi, v� Rita!
- Muito bem! - Obrigada, crian�as.
Acontece com todas, Rita.
N�o, comigo n�o acontece pois a Susanna n�o quer.
Onde est� a Susanna?
Est� dando os toques finais para a celebra��o.
Ela � o pilar da fam�lia.
Nos ver�es que pass�vamos aqui, ela bancava a m�e de todas.
Por isso n�o quer filhos.
- Quem colocou isto aqui? - Susanna.
Em cada quarto ela p�s uma foto de Saverio com cada filha.
E com cada mulher. Por sorte somos s� eu e voc�,
sen�o a casa viraria um harem.
Est�vamos no set de 'O amante estrangeiro',
era um belo filme.
- Nos divertimos. - Se divertiram muito.
Todos os jornais estavam repletos de fotos de voc�s.
Ramona e Saverio esquiando em Saint Morritz,
Ramona e Saverio na Costa Brava.
Naquele dia decidi que jamais abriria um jornal novamente.
Mas abriu um assim que a puta americana engravidou.
Voc� foi at� a Espanha.
Para te consolar.
Voc� estava gr�vida da Segunda. Todos os jornais falavam
de voc� e da americana que engravidaram ao mesmo tempo.
Saverio n�o queria reconhec�-la.
Mas depois nos tornamos amigas, n�o?
Amigas de desgra�a.
De qualquer modo, eu n�o roubei o Saverio de voc�.
Antes de mim teve a figurinista francesa, esqueceu?
Se eu esqueci? Aquela francesa de merda?
N�o � assim que voc� a chama?
Que o vestia e despia naquele trailer.
"Ele fica bem com tudo, mas quando o visto de branco!"
E enquanto isso tirava a cueca dele.
E St�phanie � como a m�e,
tr�s filhos de tr�s pais diversos.
Mas nisso ela tamb�m puxou o Saverio.
Que casa bonita! Ele morreu aqui, n�o?
Sim, bem nesta cama.
E voc� tinha que me colocar justo aqui!
- Cuidei dele at� o �ltimo suspiro. - Voc�s italianas s�o especialistas
em cuidar de maridos moribundos.
Achei que voc� gostaria de dormir na cama dele.
M�e! Veja a minha foto com o papai.
Veja que carinhoso. Que bonito, ele me amava demais.
Sim, na frente de uma c�mera era sempre muito carinhoso.
Pare de bancar a infeliz. S� as boas recorda��es contam.
- Se lembra do meu ursinho rosa? - O ursinho rosa.
- Como esquecer. - Que fim deu ele?
Alfonso!
Alfonso, querido! O que est� fazendo?
Estou tentando fumar um cigarro.
Suba que quero te mostrar uma foto minha com meu pai.
Saverio! Cristobal! Cuidado!
Chegamos.
A tia Susanna e a tia Segunda sempre ficavam aqui
e quando eu passava elas me assustavam.
As duas sempre ficavam contra mim.
Ganha 100 pontos se acertar o porqu�.
Acredito que por voc� ser a mais nova.
Agrade�o a gentileza, mas eu sou a segunda
e Segunda � a terceira.
Se bem que isso � um pouco estranho.
Mas elas se juntavam e ficavam contra mim
porque minha m�e roubou o papai da m�e da Susanna.
Anote isso.
Bom dia. Quem � voc�?
Eu sou Alfonso, o marido da Segunda.
Ah, ol�!
N�o nos encontramos no casamento?
N�o, est� me confundindo com a Susanna.
Eu n�o pude ir ao casamento porque estava filmando.
'Amantes por uma noite'.
Nome interessante.
Saverio, esses s�o seus primos espanh�is,
fa�am amizade! Sen�o ficarei brava.
Voc� prometeu. Onde est�o as outras?
- L� dentro. - Hora de entrar em cena ent�o.
- Boa sorte. - Obrigada.
- Quem � voc�? - Solveig, a �ltima filha.
�ltima mas n�o menos importante.
Quem � voc�?
Sou Alfonso, o marido da Segunda.
- Quer um cigarro? - Obrigada, n�o fumo.
Voc� deve ser Alfonso Vasquez Serrano De Ortega,
produtor de vinhos, primeiro e �nico marido da Segunda,
a segun... n�o, a terceira filha do Saverio.
- Voc� estuda bras�es familiares? - N�o, estudo Saverio Crispo.
- Fiz minha tese sobre ele. - Muito bem!
Entre, um homem nesta casa � artigo raro.
- Gostei do seu �ltimo filme. - Obrigada.
'Seus sapatos sobre meu cora��o.'
Na verdade se chama 'Caminha sobre meu cora��o'.
N�o foi lan�ado na It�lia, que estranho!
Todos os filmes franceses que fazem sucesso s�o lan�ados.
- St�phanie! - Segunda!
- Quanto tempo! - Vi seus filhos l� fora!
- E os seus? - Como cresceram!
Eu trouxe s� o Saverio, os dois mais velhos
ficaram cada um com seu pai.
Dois filhos de dois pais! E o pai do �ltimo de onde �?
- Da Jamaica. - Que ex�tico!
- E voc�, quem �? - Solveig.
Querida, sou a Segunda.
Meu Deus! Como voc� cresceu, eu n�o te reconheci.
Ol�, querida. Oi, Rita. Oi, Ramona.
Solveig, como voc� est� bonita!
Solveig, eu li a cr�tica do seu �ltimo espet�culo,
est� nascendo uma nova estrela!
Obrigada.
- Bom dia. - Bom dia.
- Muito prazer. - Voc� � o namorado da Solveig?
N�o, n�o, n�o. Eu sou Marco Serra.
Marco Serra, ent�o � o novo namorado da Stefania.
� St�phanie! N�o, ele �... especializado em n�s.
Pelo que entendi, acho que est� buscando novos segredos.
Tudo j� foi escrito! Amantes, esposas, filhas.
E da cadelinha, vamos falar dela?
L� est� ela. At� ela tinha que ser mulher.
Ela sempre dormia na cama dele.
At� que um dia simplesmente desapareceu.
Por sorte, daquele dia em diante n�o quis mais ter um c�o.
- Rita, o que voc� fez? - Ramona, deveria me agradecer!
Imagina se toda noite levasse uma cadelinha para a sua cama.
- Samanta ou Stefania! - Como assim Stefania?
No come�o ele quis chamar a cadelinha de Stefania.
Tchau. Por favor, amanh� n�o fique muito � vista
- sen�o minha m�e te nota. - Fique tranquila.
N�o estou tranquila. N�o estou tranquila.
Percebe que todos est�o esperando para me atacar?
- Quem, Susanna? - Como quem?
Picci, minha m�e, minhas irm�s, Ramona, meu pai.
- Claro, seu pai. - Eu sinto, posso v�-lo dizendo:
"Voc� errou tudo. Errou os cartazes,
a escolha dos filmes, errou a escrita da placa!"
Mas se ele odiava comemora��es, funerais, os mortos!
Claro! Mas s� os alheios, com o dele, ele se importava.
- Ele te disse isso? - Sim, me disse.
Antes de morrer, me disse: "Susannina, j� escreveram tudo
a meu respeito: as esposas, as filhas, os esc�ndalos.
- Cuide disso, zele por mim!" - Claro, voc� � a donzela dele.
- E por acaso sou virgem? - Claro que n�o �.
Est� certo, agora n�o. N�o posso, elas chegaram.
- Nos vemos � noite. - N�o, ficaremos todas juntas.
Ent�o at� amanh�. N�o muito � vista, j� sei.
- � bom ficar para tr�s. - Tranquila.
Tranquila... o qu�!
Voc� foi �tima organizando tudo, Susi.
Voc� acha? Me agrada fazer isso por ele.
Bem, para ele n�o importa muito.
S� disse a verdade! O papai est� morto.
Mas temos a responsabilidade do nome dele.
- Se pudesse mudar, eu... - E por que n�o mudou?
Voc� teria adorado!
- S�o deliciosas, voc� que fez? - N�o, minha m�e.
Marta, a m�e dela, cozinhava para o papai.
Marta, claro! Cozinhava arroz, batata e marisco.
- Ela � sua m�e? - Sim.
Mas � incr�vel! Ol�, como ela est�?
Est� bem! Vem para a prociss�o, era muito ligada ao Saverio.
- Essas alm�ndegas s�o deliciosas. - Onde est� a Solveig?
Foi comprar vinho com o Alfonso.
Os vinhos daqui s�o nativos e feitos com uvas vermelhas.
Aqui tem tantas op��es!
Tantas op��es, mas poucos t�m o corpo perfeito.
O corpo?!
O corpo se percebe no centro da l�ngua.
Enche a boca quando � polposo, carnudo.
Meu Deus, voc� descreve exatamente como o corpo...
Das mulheres.
O vinho � o deus de todos os l�quidos,
dos sucos da vida, da natureza �mida.
O deus louco pelas mulheres.
Tenho que ir, Segunda disse s� para comprar vinho.
Eu n�o a suporto. N�o mesmo.
Lembra do funeral? Se comportou como se fosse uma diva.
Mas amanh� n�o permitirei que se comporte assim.
- Por que est� nervosa, Susi? - Queria que j� tivesse acabado.
Mas eu sonho com o papai toda noite.
Pobrezinha!
Segunda!
Tenho a sensa��o que ele nunca foi embora desta casa,
que est� nos observando, nos controlando.
Mas se esque�o que sou filha dele, fico pior.
Susi, e o Walter vem?
Claro. Ele foi o montador dos seus �ltimos filmes.
Ele vem para a proje��o, mas n�o para c�.
- A mam�e n�o o suporta. - Ainda essa hist�ria
mesmo ap�s vinte anos! N�o sabe que est�o juntos?
Sim, mas n�o tocamos no assunto.
- Susi, calma! - Sim, n�s resistiremos.
Podemos dar uma volta no jardim? Deixa, deixa.
Podemos ir para o jardim?
N�o saiam do jardim e n�o subam na sacada.
Digo o mesmo, por favor!
Se a inaugura��o da placa � �s 11h, e vamos juntas,
no m�ximo temos que estar prontas �s 10h.
N�o vamos faz�-los esperar, por favor!
- Passe o a�ucareiro. - Como devo me vestir?
- A imprensa estar� l�? - Ramona! S� para voc�!
Imagina. Estou velha, Rita.
J� fui esquecida. Agora � a vez das atrizes jovens.
- Jovens como a Silveig! - Solveig!
- Solveig, St�phanie. - E as filhas que n�o s�o atrizes?
Elas trabalham. Nos bastidores,
- mas trabalham. - A Shelley n�o vir�?
Eu escrevi para ela, mas n�o sabia quando poderia vir.
- Melhor que n�o venha. - M�e!
Mais um pouco de vinho?
N�o, n�o.
Mas como ela �? O que faz?
Algu�m j� a viu?
Eu, quando estava em Nova Iorque com a Funda��o Crispo.
O papai te deixou um belo trabalho em tempo integral.
Por qu�? Para voc� n�o?
Diferente de voc�, eu sempre conquistei tudo sozinha.
Sem brigas, hein!
Como � a Shelley?
Uma garotinha loira, cheia de piercing,
com �culos escuros que ela nunca tira.
Ela trabalhava com m�sica eletr�nica.
- Parece com o papai? - Parece com o papai?
N�o deu para ver por causa de todas as coisas no rosto.
Mas precisamos ver como voc�s a convidaram.
Stefania, vamos parar de consider�-la uma v�tima.
- Me chamo St�phanie. - O Saverio a reconheceu, n�o?
- � uma hist�ria antiga. - Que ningu�m esquece.
- Mam�e, por favor! - Sim, eu sei, Segunda.
S� as boas recorda��es.
Mas as duas fotografias juntas no jornal,
com as duas crian�as no bra�o e escrito:
"Saverio, duas esposas, duas filhas."
Me fazia sentir como a esposa de um sult�o.
A primeira esposa do sult�o continua sendo eu, querida.
N�o deve ser ruim.
Quero dizer que os sult�es n�o vivem mal.
Sobre o Saverio j� foi escrito tudo.
O que mais quer descobrir? A vida dele � um livro aberto.
Pode acreditar em mim, n�o?
Para mim, ele era como um parente, um irm�o mais velho.
Sim, mas em rela��o �s filhas, eu as contei.
Tem a Susanna, a primog�nita,
St�phanie, a atriz francesa, Segunda, a m�e de fam�lia
e Solveig, a jovem atriz sueca.
- Mas antes dela, falta... - A americana!
- A filha do DNA. - Shelley!
Saverio sempre dizia:
"Em Hollywood fiz os meus piores filmes".
E ele tinha raz�o, eles o escureciam,
colocavam bigode de imigrante. Mas que bons tempos!
Quanto nos divertimos...
as americanas disputavam para lev�-lo para a cama.
O latin lover. Mas um belo dia,
uma delas apareceu com uma garotinha nos bra�os.
Saverio teve que pagar mensalmente, por muito tempo.
Para duas desconhecidas, at� que a garota, finalmente,
fez o teste de DNA e descobrimos que ela era filha dele.
Saverio nunca deixou que nada lhe faltasse,
mas nunca quis v�-la.
Dessa vez n�o venho at� voc� para tirar sua cueca.
Quando nos conhecemos, Alfonso me levou
para a sua cantina e me contou muitas hist�rias sobre vinho.
- O deus da natureza �mida. - Isso, antes de me casar...
ele fez um r�tulo em meu nome.
Luz da minha vida.
- Voc� gosta? - � rom�ntico.
- Rom�ntico. - Acham que posso us�-lo amanh�?
- Devo alongar mais? - N�o � ruim.
Sempre me mandam essas merdas de roupas
que n�o servem em ningu�m. Me ajude a abrir o z�per.
Fazem de prop�sito, para que a gente se sinta uma merda.
Vai, tire. Te dou de presente!
- Mas estava bonito em voc�! - Muito bonito.
Obrigada.
Vou tirar estes sapatos tamb�m que est�o me machucando.
Eu n�o queria vir, esta casa me d� nos nervos.
Por que diz isso? O papai ficava feliz em nos ter aqui no ver�o
e jantar conosco � noite, n�o se lembra?
N�o, s� lembro que ele saia toda noite.
Certa manh� eu tive um pesadelo, fui at� o quarto dele,
ele me olhou assustado e perguntou quem eu era.
"Quem � voc�?" E depois voltou a dormir.
St�phanie, voc� sempre faz drama!
O papai tinha orgulho de n�s, ele dizia em todas entrevistas.
Quando penso na cena que deveremos fazer amanh�,
com todos aqueles jornalistas, me d� um nervoso
- que n�o consigo nem respirar. - Ent�o poderia n�o ter vindo.
Voc� teria adorado, n�o?
Me diga francamente, voc� teria gostado?
N�o, mas voc� disse que n�o est� bem.
Que fica nervosa, ela mesma disse!
- Claro. - Mal respira...
Eu e meu psicanalista decidimos que seria pior n�o vir.
Porque eu tamb�m sou filha dele, certo?
- Claro. - Com certeza.
Como estou?
- Lind�ssima! - Lind�ssima!
De fato combina mais com voc�.
Eu s� estive nesta casa duas vezes, quando era pequena.
- N�o lembro de nada. - N�o lembra de nada?
N�o lembra que eu dava banho nela.
Que eu cozinhava para voc� porque voc� odiava
a bab� sueca que vinha com voc�!
Que aproveitava para sair com o neto do jardineiro.
Eles transavam na garagem.
Em todas as entrevistas me perguntam dele
e nunca sei o que responder.
Ele nunca viveu conosco em Estocolmo.
E quando veio embora, minha m�e colocou
um ma�o de flores em frente a foto dele.
E toda vez que passava em frente repetia:
"Ningu�m beijava como ele".
Ele dizia aos jornais: "Minha filha mais bonita, � a sueca."
- Como era o papai? - Como voc�! O mais bonito!
Egoc�ntrico, como todo ator. Quando atuava nada o preocupava.
Sorte que ele conseguia! Eu quando trabalho
estou sempre preocupada com as crian�as.
Era delicado, ir�nico, forte. Ele devorava a vida!
Semeava filhos e depois os abandonava.
Uma vez no set ele me carregou, assoprou meus cabelos e disse:
Susannina, a vida � um jogo, n�o deve lev�-la muito a s�rio.
� preciso deixar que a brisa te leve at� o fim...
Vem c�.
Tenho �timas lembran�as de cada uma das mulheres que tive.
S�o pontes que atravessei nas paisagens do mundo,
e cada uma me deixou o mais belo presente: uma filha.
Cujos nomes come�am todos com a letra 'S',
uma esp�cie de marca registrada.
No fundo as minhas filhas s�o as mulheres da minha vida.
Mas como voc� � babaca, Saverio!
Quando foi ao cabeleireiro?
- Eu mesma arrumei. - Ficou bom.
Como � que ap�s todos esses anos eu e voc� n�o ficamos juntos?
Mas se n�o me engano chegamos bem perto...
- Quando? - Como quando?
Quando voc� e o Saverio alugaram aquela linda casa com piscina
e ele estava sempre fora fazendo aulas de equita��o.
� verdade! Agora me lembro.
O que foi?
O Pedro.
O que ele veio fazer aqui?
Atrapalhar nossa vida, como sempre.
E agora quero agradecer a pessoa que nesses anos,
teve a tarefa mais �rdua, mais importante,
que � aquela de reunir, conservar, catalogar,
tudo o que est� relacionado ao nosso Saverio.
A diretora da funda��o Crispo, Susanna Crispo.
Muito obrigado por tudo o que fez, senhora.
E quem ter� a honra?
Bem... a ca�ula.
Ela � uma grande promessa, herdou o talento do papai:
Solveig!
Onde o Pedro se meteu?
Temos que impedi-lo de dar entrevista, Rita.
N�o v� a hora que chegue o momento dele.
Saverio jamais deixou o sucesso subir � cabe�a,
para ele, estar no set era como estar de f�rias.
No fundo ele sempre foi aquele garoto humilde
que todos conheciam.
Admirava as coisas simples, arroz, batata e marisco.
Para ele essas coisas eram uma esp�cie de religi�o,
at� em Paris pedia que preparassem isso.
Mas eram outros tempos, outros tempos...
Corta. Corta! Picci, corta!
- Algu�m tem perguntas? - Com licen�a, n�o � a minha.
Solveig! Solveig?
- O que foi? - Estou com a da Solveig.
Estou com a placa da Solveig. Est�o todas trocadas.
Susanna. Susi!
Segunda, o seu est� aqui.
Agora se comporte!
Desculpa. Alguma pergunta?
Uma pergunta para as filhas atrizes.
Como � terem escolhido a mesma carreira do pai de voc�s?
- Ent�o, eu pessoalmente... - Meu pai � inalcan��vel.
Uma orienta��o.
Este microfone.
Eu nunca quis competir com ele.
J� eu... eu n�o tenho...
Uma pergunta para todas as filhas.
Como o Saverio era como pai?
Bem, para mim...
Bem, digamos, digamos que...
foi o homem mais fascinante que encontrei na vida.
Quando era pequena eu tinha um �lbum
com todas as fotografias que recortava dos jornais,
onde ele aparecia com a minha m�e.
Geralmente eles estavam longe de casa,
e eu s� os via pela televis�o.
E vi todos os filmes deles.
Mam�e.
Oh, Segunda.
Eu queria responder, mas meu microfone n�o funciona.
Por favor, vamos falar do Saverio ator,
e deixar a vida privada pra l�.
Tenho uma pergunta para a esposa.
- Qual? - Na verdade, entre uma e outra.
Entre o per�odo italiano e o espanhol.
Saverio foi para a Fran�a e deu uma pausa.
Por dois anos deixou de fazer filmes.
- E eu nasci. - Falaram que era depress�o.
O livro do Picci n�o narra essa �poca.
Bem, Saverio sempre teve altera��es de humor,
mas isso � t�pico da profiss�o de ator.
�s vezes ficam euf�ricos outras caem em depress�o,
e daquela vez a depress�o durou um pouquinho mais.
Ap�s o par�ntese franc�s, ele foi para a Espanha...
Par�ntese franc�s.
E l� conheceu a Ramona que levantou o astral dele.
Ela me passou a batata quente.
A verdade � que Saverio
tinha que ocupar o centro da tela e da vida.
Bom dia.
Bom dia. Me chamo Pedro del Rio,
trabalhei em muitos filmes do Saverio, eu era o dubl� dele.
Vejo aqui tantos amigos e toda sua grande fam�lia.
Muito j� foi escrito sobre ele,
mas acho que ainda h� muito o que se falar da vida dele.
Claro que a vida de um ator como Saverio
ainda tem muitos lados para investigar e descobrir.
Algu�m tem mais perguntas?
Por que a filha americana n�o veio?
Simplesmente a Shelley n�o sabia se conseguiria vir.
Obrigado a todos.
Pedro, mas por que voc� veio?
Porque n�o quis ser deixado de fora como no funeral.
Ramona me prendeu na capela errada,
ondei passei a noite.
Mas voc� alguma vez pensou no que aquela mulher passou?
Os jornais, as duas filhas, o processo da puta americana.
Ela precisa de um pouco de paz, n�o?
De qualquer forma, ele falava mais de voc�.
Voc� � a �nica que ele amou de verdade.
Sim, eu era a m�e.
Rita, uma vez na vida quero me sentir parte da fam�lia.
E o que direi para a Ramona?
Ela tomou um susto quando te viu.
Est� certo, vou te dar uma entrada para a proje��o,
- mas j� vou avisando... - E para o jantar.
Quero entrar na casa dele, Rita.
Voc� j� entrou, se esqueceu?
Quando eu te chamei ele ainda estava quente.
Voc�s fizeram de prop�sito para que eu n�o falasse.
Voc�s estavam de acordo.
Voc� acha que chorei de prop�sito?
Eu n�o sou atriz, n�o sou como voc� que conhece
- os truques para chorar. - Mas a Rita fez de prop�sito
como fazia quando crian�a.
O par�nteses franc�s. A filha da figurinista.
- Sua m�e � figurinista. - Susanna, voc� me odeia.
- Pelo mesmo motivo. - Como voc� � dram�tica!
Eu fiz a Solveig falar, fiz com que descobrisse a placa
porque � a ca�ula. E n�o sei se voc� lembra,
mas no funeral ela era uma garotinha,
ningu�m lhe perguntava nada, enquanto voc� bancava a diva,
voc� falava com os jornalistas, e eu com os agentes funer�rios.
Voc� me odeia simplesmente porque minha m�e
roubou o Saverio da sua.
Por favor. Te imploro para n�o come�armos.
Essa festa � para o papai, n�s somos irm�s.
Pass�vamos todos os ver�es aqui juntas, certo?
Ele sempre levava voc�s para o set, eu nunca.
Tamb�m voc� era t�o manhosa.
Era manhosa porque assim ele era obrigado
e me carregar e eu podia sentir o cheiro dele.
Eau Sauvage. O perfume que ele usava.
Eu comprei para o Alfonso.
Um homem assim... um perfume assim n�o se faz mais.
Quem era aquele espanhol que se levantou
no fim da confer�ncia?
Eu j� o vi em algum lugar.
Me fez lembrar do ursinho rosa.
- O qu�? - O ursinho rosa?
Sim, n�o me perguntem o porqu�, mas quando
ele se levantou e falou, eu pensei no meu ursinho rosa.
Por isso eu digo que precisamos prestar aten��o
porque o jornalista Marco Serra est� a ca�a de not�cias.
Como assim? O que ele quer saber?
Sei l�, not�cias da Shelley, besteiras. Por exemplo,
me perguntou por que a Segunda se chama assim
sendo que � a terceira filha.
- Mas ent�o voc�s sabem! - N�o.
Voc�s sabem.
E ent�o batata, arroz e marisco. Era o prato favorito do Saverio.
Claro, eu escrevi isso na biografia.
E quem confirma � o Serughetti.
Escuta, ao menos o que ele colocava no est�mago eu sei!
Por uma tortilha de batata Saverio venderia a m�e.
� mesmo? Poderei colocar isso na nova edi��o.
Com licen�a um segundo, Picci.
O que o caub�i disse?
Que uma vez na vida quer fazer parte da fam�lia.
Que tem direito e quer vir para a proje��o esta noite.
E voc� acredita nele?
Ele � um mentiroso. Um louco que salta de cavalos, de motos!
Na Espanha fiz a loucura de deix�-lo entrar em casa.
Ent�o o que faremos? Me disse que durante o funeral
voc� o trancou numa capela onde ele passou a noite.
Sim. Era uma fam�lia respeit�vel. E ele n�o merecia fazer parte.
Ramona, tente raciocinar, agora ele est� aqui,
quer vir para a proje��o, o que faremos?
Vamos vend�-lo e tranc�-lo no por�o?
- Tem raz�o, n�o vai funcionar. - E ent�o, o que faremos?
- Vamos mat�-lo. - Mat�-lo.
Olhe s� para ele! N�o para de falar.
N�o v� a hora de estar novamente sob os holofotes.
- Voc� acha? - Tenho certeza.
Mas o que quis dizer com: "ainda h� muita coisa
para se descobrir sobre Saverio Crispo"?
Eu prometi para a mam�e Rita que me comportaria.
Walter!
Susanna!
O que faz aqui?
Estou me escondendo, assim sua m�e n�o me nota.
Muito bem, amor. Est� comendo?
Sim. Arroz, batata e marisco, o prato preferido do Saverio.
Por favor, voc� deve me ajudar.
Fora que o papai s� comia macarr�o orecchiette com nabo.
O que houve?
Marco Serra.
Est� fazendo v�rias perguntas sobre nossa fam�lia.
- E quem � ele? - Como assim?
Aquele ali, o jornalista. Com quem est� falando?
Pedro, Pedro! Voc� sempre se mete em confus�o.
- Ent�o voc� o conhece? - Sim.
Depois voc� come. Que confus�o?
N�o se preocupe. Eu cuido disso, fique tranquila.
Os dubl�s n�o ficam satisfeitos se n�o correm risco.
Pedro, o caub�i!
- Walter, o montador. - Sempre em forma, hein!
- Marco Serra, muito prazer. - Walter Sabatini, prazer.
- Jamais te perdoarei. - Pelo qu�?
Cavalguei por 9 tomadas, e na montagem voc� s� deixou
- o primeiro plano do Saverio. - Mas eu s� segui as regras,
voc� sabe que a culpa � do diretor.
- Sim, todos dizem isso. - Vamos dar uma volta?
Estava conversando com esse rapaz
que queria saber informa��es do Saverio, se sabia cavalgar.
Estava contando que eu o ensinei a cavalgar, atirar...
- Sim. - E muitas outras coisas.
Na verdade eu queria aprofundar isso...
E tantas outras coisas! Talvez muitas. Nos d� licen�a.
Venha, vamos tomar um pouco de ar.
Walter, estou feliz em te ver.
Queria que todas estivessem mortas, doutor.
Ou que estivessem milhares de quil�metros longe de mim.
Sim, tenho que continuar calma.
N�o oferecer resist�ncia, aconte�a o que acontecer, certo.
St�phanie, o que te aconteceu?
Sabe por que a Segunda se chama assim,
j� que eu sou a segunda filha?
N�o sei, pois na verdade nasceu depois da Susanna?
N�o, n�o. � porque minha m�e foi s� um par�nteses.
Ela � a segunda filha leg�tima. Eu s� sou... n�o sou nada.
Sou um incidente que minha m�e cometeu
enquanto costurava as cal�as dele no trailer.
� por isso que sempre deu tudo errado para mim.
Que sempre me senti uma merda, que errei tudo na vida.
Porque sou a filha ileg�tima.
Mas n�o era Shelley a...
Sim, mas ao menos a Shelley tem o teste de DNA.
Eu adoraria ter o teste de DNA.
- Mas voc� tem o Saverio! - Sim, tenho o Saverio.
Acho que muitos pisaram no seu cora��o.
Todo o sindicato dos atores, os protagonistas,
os coadjuvantes e at� alguns dubl�s.
Voc� fez uma bela surpresa a todos ao aparecer aqui.
- De quem � esse rev�lver? - Meu.
Me d�. Vou ficar com ele, assim voc�s n�o brigam.
Depois ele devolve. Ele gosta de brincar.
Voc� continua fascinado pelas armas!
Como vai, Walter? Ainda est� com a primeira filha?
- Ainda escondidos? - Acho que ser� assim para sempre.
E a culpa � sua tamb�m. Sua e do Saverio.
Amar �s escondidas pode ser muito excitante, Walter.
Sim, mas nem todos se excitam da mesma maneira.
Voc� � um dubl� e eu sou um montador.
Mas sabe o que desejo de verdade ap�s 25 anos de clandestinidade?
Um beijo p�blico, em frente a todos
como fazem as pessoas casadas.
Coisa que n�o somos. Que eu n�o sou.
Ela � t�o fofa e gentil com todos. T�o feliz.
Mas eu n�o sou feliz.
Solveig! Solveig!
Me fa�a feliz.
Desde que te vi pela primeira vez,
percebi que errei na escolha da irm�.
- Eu amo minha irm�. - Eu tamb�m.
Ent�o temos um amor em comum.
Isso n�o pode acontecer no 10� anivers�rio
de morte do papai.
Ele � o culpado.
O que est� fazendo? Patife!
Pedro, espere!
Aonde vai? Espere.
Onde estava? Susi quer que a gente tire foto!
Voc� viu o Alfonso? Ele sumiu!
N�o sei, n�o o vi. Eu sa� para fumar.
E depois desisti.
Quando come�a n�o consegue mais parar. De fumar.
O que deu nela?
- Onde foi parar o fot�grafo? - Eu tentei par�-lo
mas ele me deu um soco e sumiu na pra�a.
- E quem � voc�? - Passei a vida seguindo
e brigando com os paparazzi do Saverio.
Pedro! Por favor, fa�a um servi�o limpo.
Amigo... me d� a m�quina fotogr�fica.
M�e, quem � aquele Pedro?
A senhora de rosa pode dar um passo para frente?
Um dubl�, um de tantos.
Todos que conheceram seu pai acham que sabem algo dele.
Sorriam!
Segunda diz que ele a recorda o ursinho rosa.
Minha nossa! O ursinho rosa.
E agora entrem os maridos.
Quais maridos?
Um. S� temos um.
Alfonso!
- O que houve, querido? - Eu escorreguei...
- Onde? - Onde? L�...
- Mas est� sangrando... - Claro, foi uma grande pancada.
- Minha vida... - Prontos?
Solveig, eu sinto por voc� uma atra��o implac�vel
e nada pode ser feito contra a paix�o.
� como...
quando fuma um cigarro pela primeira vez, e gosta.
Gosta tanto que precisa fumar outro.
Eu n�o fumo.
Alfonso, temos que esquecer o que aconteceu.
- Ela � minha irm�! - De m�es diferentes.
Mas do mesmo pai.
E eu n�o gosto deste lugar. Quando eu era pequena
minha bab� sueca vinha para c� se encontrar com o jardineiro.
As tradi��es s�o importantes, amor.
Espere. Espere, espere.
Nada aconteceu entre n�s. E nada deve acontecer.
Onde coloco os pratos de fruta?
Coloque ali, depois dobre os guardanapos, por favor.
Ent�o o Pedro vem para a proje��o.
No meio de tanta gente ningu�m vai not�-lo.
Agora vamos nos trocar e n�o falaremos mais sobre isso!
Vamos, ande.
- Com licen�a. - Sim.
Minha m�e disse que na verdade o prato preferido do Saverio
n�o era arroz, batata e marisco, mas pur� de favas.
Sua m�e?
Sim, sua m�e trabalhou para n�s por tantos anos.
- Como voc� se chama? - Saveria.
- Essa n�o entrou nos c�lculos. - N�o, mas o que tem a ver?
Ela tem um pai bel�ssimo, n�o �, Saveria?
Eu nunca o conheci.
Vamos acabar logo com essa celebra��o, Rita!
Sen�o com o pouco dinheiro que nos deixou,
teremos que construir um col�gio feminino.
Mas o que � essa hist�ria do ursinho rosa?
O desgra�ado tinha sa�do com a menina
e marcou de encontrar o Pedro no parque de divers�o.
Segunda voltou para casa com aquele ursinho rosa
que o Pedro ganhou na barraca de tiro.
Ele era habilidoso com as armas.
Eu perguntei para ela quem tinha dado.
E ela disse que tinha sido o amigo do papai.
Eu arranquei da m�o dela e o despedacei.
At� minha filha deveria ficar em segundo plano quando se viam.
Quando se casou com ele, voc� sabia a verdade, Ramona.
A mat�ria j� tinha sa�do, por que levou adiante?
Porque eu era idiota.
Com as mulheres eu estava sempre pronta a lutar,
mas com o domador de cavalos...
Certa manh� acordei...
e o lado dele da cama estava vazio...
t�nhamos chegado tarde na noite anterior
e eu estava muito brava...
sa� no jardim ainda de camisola...
e os vi na borda da piscina...
com roupa de banho, como dois jovens...
e sorriam...
E Pedro estava com uma m�o nas costas dele...
e num instante entendi tudo.
Saverio e Ramona com a filha Segunda.
O casamento desmente os boatos sobre a sexualidade
do latin lover italiano.
- Mas � culpa sua. - O que � culpa minha?
� culpa sua. Quando Saverio adoeceu...
Quem lhes ajudava quando se encontravam secretamente?
- N�o me lembro - O Walterino aqui!
Claro, � por isso que Rita jamais me perdoou.
- � mesmo? - Claro.
Ele me procurava quando n�o aguentava mais
as mulheres, filhas, fam�lia. Ele me ligava e dizia:
"Pedro, compro o peixe, vou at� sua casa e voc� far� a sopa".
Sopa?
Sopa de peixe, como fazia a m�e dele, Angelina.
- E voc� sabia fazer? - No come�o n�o acertava.
"Primeiro tem que p�r a s�pia, a lula, e depois o bodi�o!"
- Primeiro os duros. - Sim, eu sei, mas...
Ele comia a sopa e em seguida molhava o p�o no caldo.
Depois eu lhe fazia uma massagem na nuca.
E ele dormia como um beb�.
- Espere! - Eu o cobria.
Espere, espere um segundo. A Susanna est� me ligando.
- Espere um instante. - Sim.
Susanna!
Walter, n�o vou sobreviver ao dia de hoje.
- N�o, eu n�o consigo. - O que aconteceu?
- O que aconteceu? - Voc� est� muito agitada!
Eu nem sei como dizer.
- Diga assim mesmo! - Por telefone?
- N�o tem outro jeito! - N�o, onde voc� est�?
- Estou aqui com o Pedro. - Com quem?
Com o Pedro, foi um �timo reencontro.
Reencontro? Com o Pedro?
Sim, n�s temos muitas lembran�as em comum.
Susi?
Susanna? Ainda est� a�?
Susanna, est� a�? Al�?
Voc�s est�o lindos!
Onde est� sua mam�e?
- N�o vai se trocar para a proje��o? - N�o trouxe outras roupas.
A tia Segunda cuida disso, querido. Vamos ver se serve.
- Gosta desta? - Sim.
Lind�ssimo.
Solveig!
N�o, n�o, o que est� fazendo? Voc� � louco?
N�o devemos. N�o podemos.
- Claro que podemos. - N�o pode ficar aqui.
- Por qu�? - Estou nua.
Estou me vestindo.
Temos que ir para a proje��o do papai.
Paizinho.
Mas eu n�o sou assim t�o velho.
Olha que lindo.
Como voc� o vestiu?
Ele queria estar elegante como todos.
E disse que voc� n�o trouxe nada para a noite.
Eu trouxe todas as coisas dele
e sinceramente n�o visto meus filhos como palha�os.
Pensei em agrad�-lo.
- Fiz por ele. - N�o fa�a nada por ele.
Cuide dos seus filhos e do seu marido que � melhor.
Como faz para tirar essa gravata!
Crian�as, saiam daqui e solte o Saverio.
V�o logo.
O que quis dizer?
O que eu disse, para cuidar da sua fam�lia.
Meu marido? O que o Alfonso tem a ver com isso, St�phanie?
Voc� est� sempre bancando a esposa feliz
tentando manter as recorda��es felizes.
Todas essas f�bulas, todas essas irm�s.
Belas irm�s!
Irm�s?
Alfonso? O que significa isso?
N�o queria te dizer, mas na verdade quero,
as vidas de todos n�s est� uma bagun�a.
E voc� sempre bancando a perfeitinha me d� nos nervos.
E agora resolve vestir meu filho...
- Solveig. - N�o sei. N�o tenho certeza.
Talvez eu esteja enxergando demais.
Susanna! Susanna!
Acho que n�o vi direito, talvez seja uma alucina��o.
- O qu�? - Me diga que n�o � verdade!
- O qu�? - Alfonso e Solveig.
- Onde? - Naquele quarto.
N�o, n�o, n�o � verdade. Entendeu? N�o est�...
Como transa com minha irm� na comemora��o do meu pai?
Acalme-se, Segunda. Acalme-se!
- O que est� acontecendo? - St�phanie me contou!
- A St�phanie viu. - Est� alucinando!
- Claro que eu te vi, Alfonso. - Voc� enlouqueceu!
Saia daqui!
Saia!
Como p�de? Voc� � minha irm�.
- Eu n�o queria, sou sueca... - Voc� � uma cretina.
O que quer dizer com "sou sueca"?
Talvez queira dizer que na Su�cia, ir para a cama
com um homem � como beber um copo d'�gua.
N�o, ele que me fez beber, me trancou na garagem
e depois se infiltrou no meu quarto...
Nada pode parar os homens, nem seu pai teria parado...
N�o me parece um bom jeito de consolar, certo?
E al�m do mais, por sorte nem todos s�o iguais ao papai.
Muito bonito o que voc� fez, Stefania.
Me chamo St�phanie e sou francesa.
- Voc� esqueceu? - Jamais, jamais.
Desde que recebi o telegrama:
"N�o vou voltar, gosto dos ares do Senna..."
A Susanna tinha dez anos...
Na festa do papai, na frente das crian�as.
As comemora��es para o papai, seria melhor ter destru�do tudo!
- O que est� dizendo, Susanna? - M�e, m�e!
Olhe s� para n�s, por favor!
Como estamos? Como estamos?
Nenhuma de n�s t�m uma vida decente!
Ainda fazemos de tudo para chamar a aten��o dele,
mesmo depois de morto!
E basta um segundo para esquecermos o homem,
o nome, porque todas pensamos a mesma coisa:
que ele era um grande homem, um grande pai.
Que nada, m�e! Ele era s� um grande ator
que fazia as mulheres sonharem, mesmo sem gostar de mulher.
- Meu Deus! - Ele adorava as mulheres, Susanna.
Mulheres, homens, todos, contanto que o amassem.
Ramona, o cabelo.
Eu o tiro assim que posso...
parece que tem um rato morto na minha cabe�a...
Quantas perucas colocaram nas nossas cabe�as,
quando atu�vamos, uma a mais, uma a menos...
Todas voc�s devem crescer.
Bete Davis em 'A malvada', dizia:
"Sem um homem, n�o se � mulher."
Sem cabelo, sem homem...
eu finalmente sinto que sou eu mesma.
E hoje � noite festejaremos seu pai, Segunda.
Amanh� pensar� no que fazer com o pai dos seus filhos.
Licen�a, mas o que significa
que o papai gostava de homens e mulheres?
- � uma express�o italiana? - Sim, � uma express�o italiana.
Ramona, conte a hist�ria do ursinho rosa.
O meu ursinho rosa?
O pai de voc�s teve muitas mulheres, mas s� um homem...
Essa � uma �tima piada, Rita.
N�o � piada, � o papai na cama com o dubl�.
- Susanna! - � a verdade, n�o?
Por favor, quem acredita nisso!
Falaram isso de todos os grandes atores:
- Marlon Brando, Cary Grant... - James Dean...
- Montgomery Clift... - Errol Flynn.
Rock Hudson.
Rodolfo Valentino.
Deve ter se cansado de tantas mulheres
e decidiu que precisava mudar de ares.
O amigo do papai do parque...
Meu pai, meu marido... n�o aguento isso!
Queria tanto ter um filho homem, que de certa forma...
Vamos ver pelo lado positivo, ao menos assim n�o teremos
- que encarar outra filha. - Claro.
- Aonde vai? - Para longe!
Longe dessa fam�lia de loucos... N�o quero mais saber
nem de pai... N�o me toque! nem de marido, nem de nada.
Me perdoe, me deixe ao menos explicar...
O que quer explicar? O que h� para explicar?
Quantas mulheres? Quantas mudan�as de ares?
- e quantos homens? - Homens?
Por favor... quantos homens?
Esta merda de carro... Sempre quis um carro de luxo...
e nem sei como funciona!
- Puta merda! - Que... Alfonso?
Eu o matei!
Doutor, estou atrapalhando? N�o, s� queria dizer
que aconteceu tudo o que deveria acontecer.
N�o sei o que mais poderia acontecer.
E estranhamente me sinto muito melhor...
Me dei conta que eu tamb�m tenho valor
e que minha vida n�o � t�o catastr�fica.
N�o, as minhas irm�s, pobrezinhas...
elas est�o devastadas,
estou preocupada com elas...
Me d� um gole.
Como est�?
Talvez eu tenha quebrado o bra�o dele.
- Eu poderia mat�-lo. - Poderia.
Um n�s t�nhamos, um.
No dia do casamento o que eu te disse?
Mam�e, cale-se!
O que disse, Ramona? Quero saber.
Que tinha beijado com muita paix�o
a m�o da costureira que fez o vestido de noiva.
Mas quando n�o se quer enxergar...
E alguma vez quisemos enxergar, Ramona? Nunca.
Voc�s n�o deveriam mais dar li��o de moral.
Exatamente.
Como voc� n�o percebeu?
Eu o via nos almo�os, jantares, caf�s da manh� e pensava:
"Que rapaz divertido e simp�tico."
Mas voc� tamb�m poderia ter se separado dele
depois que leu a mat�ria. Eu me separei tr�s vezes.
Quando voc� tem sucesso e est� feliz
os jornais sempre querem te destruir.
Eu achava que eram s� maldades.
N�s �ramos jovens, nos am�vamos...
Como ele te abra�ava e beijava nos filmes...
se eu contar para minha m�e ela enfarta!
Eu levei trinta anos para acreditar.
Eu tinha criado um homem maravilhoso na cabe�a,
adorava t�-lo por perto, sentir seu perfume.
Eau Sauvage...
E depois pensa que voc� o mudar�,
que com voc� ser� diferente.
Em uma noite, eu destru� minha vida
e a da Susanna tamb�m.
Perd�o, mas n�o entendi. O que eu tenho a ver com isso?
Nada, nada. N�o tem nada a ver com voc�.
Voc� ainda nem tinha nascido!
- Pode parar de beber? - Me deixe beber, certo?
Quero contar algo que nunca contei para ningu�m, certo?
Calada, fique calada.
Eu era loucamente apaixonada pelo seu pai.
E ele n�o queria casar comigo.
Eu ainda atuava, fazia teatro,
viajava pela It�lia durante seis meses por ano, entende?
E � noite quando chegava em casa,
me pendurava no telefone para saber o que ele tinha feito,
com quem estava... se tinha me chifrado.
E chorava, me desesperava, era um inferno!
E nem notava os olhares do diretor da companhia!
Rita, voc� era a atriz mais bela e promissora da sua gera��o.
Claro, depois de velhas todas ficamos muito generosas.
Enfim, pra resumir a hist�ria, uma noite o diretor
me convidou para jantar depois da pe�a.
E eu falei o tempo todo do Saverio.
Do quanto me fazia sofrer, dos chifres que colocava em mim.
Mas como voc� era idiota, Rita!
Se n�o fosse idiota, teria mudado minha vida �quela noite!
Mas ao menos transaram?
Tente adivinhar.
Adivinhe.
Tr�s, quatro, cinco vezes.
E foi incr�vel.
E ent�o, uma noite enquanto est�vamos abra�ados
no quentinho da minha cama, tocou a campainha.
- Era o papai? - Sim, era.
Era o papai!
Ele tinha me procurado sem me encontrar,
estava louco de ci�mes! E me pediu em casamento.
Oito, nove meses depois voc� nasceu.
Oito ou nove?
Qual a import�ncia de ser oito ou nove meses?
O outro, o diretor, tamb�m era ator, bonito, alto,
simp�tico. Quanto a gente se divertia nos camarins!
Voc�s n�o imaginam!
Meu Deus, que �poca!
Nossa Senhora, o que se pode fazer, � tudo passado.
Ent�o voc� praticamente � a filha do diretor.
Ela disse que n�o sabe se foram oito ou nove meses.
N�o sei. N�o d� para saber!
M�e, Ramona, existem outras reviravoltas?
Pois podem parar a proje��o que n�o quero saber.
Deus, a proje��o j� deve ter acabado!
Vamos!
E que nenhuma de voc�s queira comemorar
o 20� anivers�rio de morte.
O que foi?
Como o cinema se tornou chato hoje em dia, n�o acham?
Antigamente as hist�rias nasciam por acaso,
- nas conversas de amigos... - Quando chegar�o?
Vivemos uma �poca inesquec�vel, maravilhosa,
mas agora acabou. Acabou.
Temos que faz�-lo parar, porque n�o aguento mais.
Faz 30 anos que enche nossas cabe�as com lembran�as! Basta!
J� deveriam ter chegado a fam�lia dele, as filhas,
as mulheres que ele tanto amou.
Eu assumo daqui! Com licen�a um instante.
S� para animar um pouco a noite.
� que estamos ficando entediados.
Obrigado, obrigado. Assim voc� pode descansar um pouco.
Por favor. Muito bem. Obrigado. Obrigado.
Voc�s devem estar se perguntando quem sou eu.
N�o sou da fam�lia, mas houve uma �poca
em que o grande Saverio Crispo chorou nestes ombros.
Coitadinho. Coitadinho!
N�o tinha recebido os aplausos que esperava
no fim de um espet�culo...
"Vou choramingar um pouco, Pedrito, depois passa."
- Por que ele est� l�? - Voc�s n�o chegavam, ent�o...
- Comece a proje��o, amor. - Voc� est� bem?
- O que houve? - N�s nos rebelamos.
A profiss�o de ator � estranha.
Meu lugar � aqui...
Se mistura com a vida e se confunde com ela.
Eu tamb�m j� quis ser ator.
"Para ser ator, voc� n�o deve saber quem �, Pedro."
O interessante � que quando estava com o Saverio,
nunca sabia quem estava diante de voc�.
Hoje � um dia bel�ssimo...
Desligue, desligue...
A for�a do homem...
Passei a vida sendo a sombra dele...
aquele sou eu! Visto de longe nas cenas de a��o.
Aqui me queimei com um morteiro.
As balas usadas no set n�o te matam
mas causam queimaduras...
O exibicionista de sempre.
Ap�s o primeiro filme nos tornamos amigos.
- Est�o vendo? - Amigos! Combatam!
- � dif�cil esquec�-lo... - Avante, amigos! Juntos!
Ele me fez sofrer, mas eu faria tudo de novo.
Eu o tenho estampado por todo o corpo.
- Se pud�ssemos ver todos... - Sem vergonha.
Filho da puta... Corno.
Filho da puta. Quaquaraqua.
O Saverio nos comoveu.
Nos fez rir.
E tamb�m sonhar.
Que medo!
Mas quem era voc�?
N�o podia dormir sozinho.
Veja, eu abro a camisa e as mulheres surgem.
As mulheres.
- Ama-me. - Ama-me.
O meu fogo arde. O seu gelo derreter�.
- Tire a roupa. - As mulheres...
Uma vez ele me disse: "Nunca pensei muito nas mulheres...
jamais as compreendi, s� fazia o que elas esperavam..."
Um beijo na m�o.
"...mas por que elas pensaram tanto em mim?
Sou eu, sou eu.
Estamos distantes como dois desconhecidos...
quanto � amargo o sabor da sua aus�ncia...
Depois continuaremos.
Saverio odiava as celebra��es...
n�o ia a funerais, casamentos...
mas se hoje estivesse aqui...
olhando para cada uma de voc�s...
que s�o t�o bonitas...
certamente pensaria:
"O que foi que eu perdi!"
- Agora voc� tem o que escrever. - � mesmo.
Escreverei que o cinema de antigamente era grandioso.
Isso � indiscut�vel. Mas tamb�m era mais f�cil contar hist�rias.
O homem era o homem, a mulher era a mulher,
o her�i era o her�i o vil�o era o vil�o.
Ou ao menos era o que parecia.
Mas esse cinema grandioso deixava de fora...
muito dos bastidores.
E tamb�m tantos personagens interessantes.
Esta noite me sinto leve como uma garota.
Mas voc� � uma garota.
Com tr�s filhos e tr�s maridos.
Est� vendo? T�o jovem e j� fez tanta coisa.
E n�o s�o suficientes. O afeto, os pr�mios.
Passa a vida toda pedindo esmolas a todos.
Aos homens, �s mulheres.
Precisa sempre ter um homem, um filho nos bra�os.
Depois o filho cresce e seus bra�os ficam vazios.
Mas agora n�o quero mais ter filhos, n�o quero mais...
- seduzir homens, assim n�o... - � mesmo?
E justamente hoje decidiu isso.
- Quem quer tentar agora? - Eu, eu.
Um momento. Sil�ncio.
Cristobal, vem c�.
Pare. Assim.
Pegue com um dedo e o fa�a girar.
Perfeito, seu av� levou muito mais tempo que voc�.
Saverio, agora � sua vez.
Aqui, isso, pegue com um dedo...
esse aqui, e o fa�a girar.
N�o vamos desanimar, tente outra vez.
Alfonso, n�o vamos nos enganar, nossa rela��o nunca funcionou.
Eu quis um homem bonito, n�o me importei se seria um cretino.
- Eu sou um cretino? - Claro que �.
Acha que n�o sei que voc� falava de vinhos com as mulheres
e depois transava com elas? Mas � bonito e isso me bastava.
- E agora? - Agora n�o.
Agora percebi que os homens bonitos...n�o...
Coloque o gelo em cima.
E agora?
Agora nada. Me agradava voc� ter me levado
para o altar, te apresentar minhas amigas,
te dar import�ncia na frente das crian�as,
comprar roupas para voc�...
Mas agora n�o mais.
N�o me arrependo pois os meninos s�o lindos gra�as a voc�,
mas neste momento da minha vida quero um homem de verdade.
De verdade!
Susanna, me desculpe se nunca te contei a verdade,
eu sempre soube, e � por isso que sua m�e
- nunca me suportou... - Meu pai. Minha m�e.
O diretor da companhia. S�o todos ex!
- O diretor da companhia? - Mas tudo passou, acabou.
Oi, m�e, cumprimente meu namorado.
Walter, vamos nos divertir esta noite.
Susanna, acho que a revela��o do Pedro mexeu com sua cabe�a.
Quem � Pedro? Meu pai? Meu pai era o Saverio?
- N�o sei, sei l�. - Claro que era o Saverio.
N�o, n�o, sinto muito. S� a m�e sabe a verdade.
N�o h� mais nada para descobrir sobre o Saverio.
Sobre mim, muit�ssimo.
Voc� ser� o meu descobridor.
- O que devo fazer? - Esque�a de quem sou filha.
Monte uma nova cena entre n�s dois.
E corte as lembran�as, discursos,
celebra��es, placas.
E as cenas com muitos di�logos.
#Diga quando voc� vir�
- O que � isso? - N�o sei.
#Diga quando, quando, quando...
#O ano, o dia e a hora em que
#Talvez voc� me beijar�
#A cada instante esperarei,
#At� quando, quando, quando...
#De improviso a verei
#Sorridente perto de mim
#Se quer dizer-me que sim
#Deve diz�-lo porque...
Shelley?
- Ol�. - Oi.
Porra!
Quantas s�o?
- Shelley, Susanna. - Oi, Susanna.
Oi!
- Oi! - �... a Shelley!
- Oi. - Oi.
- Que horas ser� a celebra��o? - Na verdade j� foi ontem.
Meu Deus... ontem!
Na Am�rica ningu�m mais sabe quem � Saverio Crispo.
- � mesmo? - Sim.
Dei uma entrevista para a TV por causa do meu �ltimo disco.
Voc� gravou um disco?
- Sim, j� gravei tr�s. - Que incr�vel!
Mas este � de can��es �talo-americanas,
e vendeu muitas c�pias.
Para o desgosto da minha m�e
e do cheque que o Saverio enviava...
Shelley, tem uma coisa que quero te dizer...
seu pai, o Saverio, antes de morrer me disse
que sentia muito por nunca ter te encontrado
- enfim... queria te dizer. - Obrigada.
Mas na verdade nos encontramos uma vez.
- � mesmo? - Sim.
- Onde? - No Festival de Veneza.
Eu fui at� l� porque sabia que um filme dele
estava concorrendo, e ele o apresentaria.
O procurei pela cidade...
depois o encontrei no hall do hotel.
Ele estava sentado num canto com um homem.
Me aproximei sem dizer quem eu era
e me sentei na mesa com eles.
Saverio ficou me olhando...
e eu pensei que ele tinha me reconhecido.
Como uma coisa leva a outra, acabamos indo parar no quarto...
- Me desculpe. - N�o, tudo bem.
E que quarto! Uma su�te cheia de rosas brancas,
um frigobar enorme, uma vista lind�ssima da lagoa.
Enquanto eu procurava o Campan�rio de S�o Marcos
senti a m�o dele na minha bunda.
Ele n�o tinha me reconhecido coisa nenhuma,
ao contr�rio, estava prestes a me levar para a cama!
Por favor.
A ideia era tentadora.
No fundo, aquele tamb�m era um jeito de t�-lo, n�o?
E ent�o o que voc� fez?
Nada, no fim achei que era melhor n�o...
n�o queria me aproveitar como minha m�e.
E tamb�m... ele era muito velho.
Licen�a, me deem licen�a.
Passei para buscar as atrizes.
Estamos praticamente prontas.
Passei a noite em claro, Segunda,
realmente n�o entendo por que aconteceu...
quando o via de longe, ele n�o fazia meu tipo, juro...
ent�o ele se aproximava e eu ficava confusa,
minha cabe�a rodava, o cheiro da pele dele me atordoava.
N�o fa�a isso! Me perdoe!
Eau sauvage... o perfume do papai,
eu errei em comprar esse perfume.
Ent�o foi isso! Foi isso.
O perfume n�o justifica nada. N�o.
- Tchau. - Tchau.
Venha, Saverio. R�pido, venha.
Desta vez posso me sentar ao seu lado?
Claro que pode.
Tchau, irm�. Me escreva, por favor.
Segunda, nada de voltar para ele.
Nem pense... olhe para mim.
- Tchau, amor. - Nos vemos no pr�ximo funeral.
N�o contem comigo.
- Tchau, Susanna. - Rita.
Ramona minha amiga, obrigado por tudo.
- Eu dirijo que est� machucado. - Posso muito bem dirigir.
N�o, saia e v� atr�s com as crian�as.
- Com as crian�as? - Sim.
Assim os vigia para que se comportem durante a viagem.
Incr�vel, isso � uma loucura...
Obrigado.
Deixei o rato morto no seu quarto,
- n�o preciso mais dele! - E o que eu farei com ele?
Pode deix�-lo l�, � minha lembrancinha para ele.
Voc� � mesmo maluca. Tchau, Ramona.
- Tchau, crian�as. - Tchau.
Boa viagem.
Coloquem o cinto.
E o seu namorado?
- Walter. - Sim, Walter.
Est� dormindo.
M�e? Como nos divertimos no quarto ontem � noite,
voc� n�o imagina!
#Voltar� para mim
#Pois � o �nico sonho do meu cora��o
#Voltar�
#Pois sem seus beijos l�nguidos
#N�o viverei
#Passa o tempo e voc�
#Onde est�, com quem est�
#Voc� n�o pensa em n�s
#Mas eu sei que para mim
#Voltar�
#Voltar� para mim
#Pois � o �nico sonho do meu cora��o
#Voltar�
#Pois sem seus beijos l�nguidos
#N�o viverei
#Passa o tempo e voc�
#Onde est�, com quem est�
#Voc� n�o pensa em n�s
#Mas eu sei que para mim
#Voltar�
#Durante a noite e durante o dia
#Voc� n�o est�
#Ao meu lado
#Nos meus sonhos
#Me diga quando
#Voltar�
#Voltar� para mim
#Pois � o �nico sonho do meu cora��o
#Voltar�
#Pois sem seus beijos l�nguidos
#N�o viverei
#Passa o tempo e voc�
#Onde est�, com quem est�
#Voc� n�o pensa em n�s
#Mas eu sei que para mim
#Voltar�.
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