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Gostas do bolo?
Devias tê-lo visto antes.
Estava lindo.
É melhor do que a merda que nos dão aqui para comer.
E… e como te estás a aguentar?
Porque paraste de pagar a minha proteção?
Estou a trabalhar nisso.
Falaste com a mãe?
Não vou pedir nada a essa cabra!
Baixa a voz!
Sim. Está bem. Desculpe.
- Tenho de te dizer uma coisa. - O quê?
Estou a trabalhar numa coisa que vai resolver as nossas vidas.
- E… - Sem cochichar!
Tens um trabalho?
Não, é uma coisa ainda melhor.
Vou tirar-te daqui.
Que raio quer isso dizer? Eu preciso é de proteção aqui dentro.
Ainda tens amigos, certo? Gente que te deve favores.
Não podes pedir dinheiro a alguém?
Sem tocar!
Larguem-me! Larguem-me, cabrões!
Deixem-no em paz, cabrões! Larguem-me! Deixem-no em paz!
Deixem-no em paz!
Querida…
Qualquer pessoa pode dizer disparates, com uns copos a mais.
Não foram as bebidas, mãe.
Bem, o que esperavas?
Não falavas com elas há muito tempo.
Podem ter-se sentido rejeitadas.
Bem, não quero saber de como se sentiram pois não pretendo voltar a vê-las.
É esse o teu grande plano?
Ficar sozinha, sem amigos nem marido.
Como uma divorciada. Como aquela tua prima.
Chama-se Carolina.
Pois, isso. Carolina. Desde que pediu o divórcio ao Aníbal,
passou de ser uma mulher com um marido perfeito
a uma mulher sozinha e desamparada.
Como sabes que está mal?
Porque as raparigas do salão falam.
E o que dizem?
Que ela trabalha sem parar.
Que chega a casa de madrugada,
e que os coitados dos filhos perguntam onde está a mãe.
E ele já voltou a casar.
E vai ter gémeos.
O homem pode refazer a vida.
E a mulher será sempre a divorciada.
Não sou eu que faço as regras.
São só assim.
Porque chegou tão cedo?
Porque tem saudades tuas.
- Mãe. - Quer ver-te.
Val, o que fazes aqui?
- Tenho uma surpresa para ti. - Entra.
Os dedos.
São os mesmos que o assassino cortou ao Lucio Lima.
É a saudação do grupo.
Onde encontraste isto?
Fui ao funeral do Lucio Lima.
O quê? Porque o fizeste?
María, sei que não queres fazer nada nas costas deles,
mas esta é a chave para encontrar o assassino.
- O que foi? - Falei com o Gerardo, ontem à noite.
Já não temos de investigar nas costas de ninguém.
Hoje é o nosso aniversário. Um mês.
E, por seres a agente mais bonita de toda a esquadra,
fiz-te perninhas de rã.
Não quero comer rã.
- Obrigada. - Não.
Parece estranho, mas sabem a frango.
Então, porque não me fizeste frango?
Porque o frango não é especial, não é…
Faz-me um favor.
Entra no gabinete do Romandía por um instante, sim?
Devia cumprimentar o teu pai.
É boa educação.
Não.
Ouve-me. Não é uma boa altura.
Por favor.
Obrigado.
Pai. Bom dia.
Fiz isto para ti.
Este é um lugar
de polícias.
Não de cozinheiras.
Mais alguma coisa?
Não, senhor.
- Vemo-nos lá dentro. - Sim.
Se eu soubesse que atirar a moeda ao ar resolveria tudo,
teria feito isso mesmo.
Perdoa-me.
Desculpa. Sei que, ontem, meti as patas.
Só queria ajudar.
Achei que provocar o ego do Gerardo
poderia dar-vos um lugar.
De uma forma muito infantil.
Bem, na verdade,
atirar a moeda ao ar também não foi o mais maduro.
Pois, bem…
Porque não pomos isto atrás das costas, tenente? O que achas?
Acho bem.
Outra vítima.
Tiveram de libertar o suspeito, um homem chamado Mauricio.
Estava furioso.
Também faz parte do grupo.
- Que grupo? - Olha.
Temos de falar com o Gerardo.
- Aonde pensam que vão? - Não tens nada que ver com isso.
- Temos autorização. - Isso queriam vocês.
Vaca.
Deixa-as passar. Estão comigo.
Ouviste-o.
Que merda fazem aqui, Gerardo? Só nos vão atrapalhar.
Não me lembro de ter pedido a tua opinião.
Temos algo para te mostrar.
Onde arranjaram isto?
Alguém a deixou no funeral do Lucio Lima.
Identificaram os jovens da foto?
Não, só as duas vítimas.
"Brigada Marxista Narciso."
Não são vítimas aleatórias.
Quer dizer que qualquer um destes jovens pode ser a próxima vítima.
Só passaram 48 horas entre a primeira vítima e a segunda.
Temos de presumir que está a preparar o próximo homicídio.
Temos de identificar esses jovens.
Temos de os avisar.
- Sim. - Sim, senhor.
Lozano, dá-lhes a morada da mãe do padre.
- Obrigada. - Vamos.
Romandía.
Ficas aqui.
Encontrámos a primeira vítima dentro do confessionário.
Lorenzo Vargas.
Tal como o Lucio Lima,
foi espancado, asfixiado e mutilado.
Arrancaram-lhe exatamente os mesmos dedos.
A segunda vítima.
Como assim, "segunda vítima"?
Sofí.
Um funcionário da manutenção.
Saúl Romero.
Encontrámo-lo de barriga para baixo, dois tiros nas costas,
nenhum invólucro.
E os dedos?
Os dez intactos.
Os tiros foram disparados do confessionário, certo?
Certo.
Encontrámos vestígios de pólvora. Mas nenhuma impressão digital.
Parece que ele escorregou no sangue da vítima.
E deixou uma pegada à saída.
Isso quer dizer…
… que a morte do funcionário de manutenção não fazia parte do plano.
Posso fazer-te uma pergunta?
Claro que sim.
Quando é o momento certo para conhecer os pais de um parceiro amoroso?
Não sei. Depende.
Por exemplo, eu conheci o Alejandro numa terça-feira,
e ele apresentou-se ao meu pai
na sexta-feira da mesma semana.
Então, três dias.
Não. Ele era assim.
Era um romântico.
Mas, se queres dar esse passo no teu relacionamento,
fala com o Gabriel.
Às vezes, os homens precisam de um empurrãozinho.
Digam-me que têm alguma ideia de quem fez isto ao meu filho.
Ainda não.
Ainda assim, gostaríamos de lhe perguntar
se, recentemente, o Lorenzo teve contacto com alguém chamado Lucio Lima.
Não, não sei quem é.
E o nome "Marxista Narciso"? Diz-lhe alguma coisa?
Reconhece alguém desta fotografia?
Só o meu Lorenzo.
Quem são os restantes?
Membros de um grupo estudantil ao qual o seu filho pertencia.
Achamos que podem correr perigo.
Não sei nada sobre um grupo estudantil.
- Tem a certeza? - Quando entrou na universidade,
o Lorenzo distanciou-se de mim.
Só vinha a casa comer e dormir.
Deixou de falar comigo. Até deixou de ir à missa.
Mas…
Só Deus sabe endireitar até o mais torto dos caminhos.
A que se refere?
A Tlatelolco.
Quinze metros.
Dois tiros limpos.
O nosso assassino não era um amador a lidar com armas.
Com esta precisão, temos de considerar que tenha tido formação.
Talvez policial.
Estás louco, Romandía.
Para de dizer disparates.
Tens uma teoria melhor?
Que tal qualquer louco de Direita à procura de ajustar contas?
- Esses também sabem disparar. - Não assim.
A 15 metros,
dois tiros certeiros requerem muita prática.
E as balas não são baratas.
Soma-se a isso a pouca luz e um alvo em movimento.
Até para um polícia, é uma grande pontaria.
Então, agora és fã dele.
Já chega!
Concentrem-se.
Lozano.
É uma boa teoria.
Mas precisamos de mais informações.
Este grupo esteve ativo em 1968.
Queres mais informações?
Só há um lugar onde a podes obter.
O aumento de salário ainda não vigora.
Só no próximo mês.
Entendido.
Nem penses em me pedir tratamento especial.
Não, senhor.
Supervisora de caixa.
Sabes que és a primeira mulher nomeada supervisora?
Sim.
Que não te suba à cabeça.
E não penses que te vamos tratar por "senhora".
Deixem-me dizer-vos, queridas,
que ser supervisora de caixa não me chega.
Vou ser dona disto tudo, e vocês vão ver, se não se portam bem.
Agora, ao trabalho.
O que preferes? Ser cremada ou enterrada?
Nenhuma delas. Prefiro que me mumifiquem.
Desculpem, agentes, mas estou muitíssimo ocupado.
É só um minuto, por favor.
Embora… possamos sempre abrir uma exceção.
Ontem, realizaram aqui o funeral de Lucio Lima, lembra-se?
Porque perguntam?
Viu alguma destas pessoas no funeral?
Bem…
Talvez esta rapariga. Não sei.
- E sabe o nome dela? - Não.
Com licença.
Não registam as pessoas que vêm?
Não é uma cadeia.
E a pessoa que pagou o funeral?
- O que tem ele? - Pode dar-nos os dados dele?
Lamento. Não o conheci. Enviou o pagamento por estafeta.
Podemos ver o cheque?
Pagou em dinheiro.
Agora, com a vossa licença.
E agora?
Desculpe. Podemos falar em privado?
Obrigada.
A minha parceira é coscuvilheira. É melhor ela não saber.
Sabia que havia uma ligação especial entre nós.
Eu vou…
… chamar cá um inspetor das Finanças
porque aposto que não declaras o que te pagam em dinheiro.
Mas, apesar de teres cara de bandido, até podes ter tudo em ordem.
Não te deves importar
que os inspetores analisem os teus registos,
fatura por fatura, cheque por cheque.
Certo?
A polícia disse que o mataram por ser gay.
Pelo menos, foi por ser comunista.
- Desculpe, isso é menos mau? - Para o meu pai, sim.
Quando o meu irmão nos disse que gostava de homens,
o meu pai expulsou-o de casa para ver se ele reconsiderava.
Talvez se, em vez de o castigarem, o tivessem ouvido…
Talvez se o Lucio não fosse um idiota teimoso.
Se pensa isso dele,
porque lhe pagou o funeral?
Ele pode ter sido problemático…
… mas era meu irmão.
Sr. Lima, alguém está a matar as pessoas nesta foto, e precisamos de as avisar.
Para que mais ninguém tenha de enterrar um irmão.
Por favor.
Olga.
Olga. Eu… não sei o apelido dela.
Às vezes, o Lucio levava-a lá a casa.
Dizia que era namorada dele.
Não sei, talvez estudassem juntos.
Disse que o Lucio estudou Filosofia na UNAM?
Sim.
Lembrem-se. Aqui, não somos polícias.
Viemos ajudar a mãe da Olga a encontrar a filha
que não diz nada há dias.
Continuo a achar que estás a exagerar.
- Porque não nos ajudariam? - A Universidade Autónoma?
Aqui, a polícia não entra.
Se nos vissem fardadas, ia tudo por água abaixo.
Prontas? Vamos.
Procuramos esta rapariga.
Chama-se Olga. Conhecem-na? Somos amigas da mãe.
- Não. - Obrigada.
Se pudessem só ver a foto, por favor. Ou sabem o apelido dela?
Não sabemos o apelido dela, mas sabemos que estudava aqui.
Se puderem ver a foto, talvez se lembrem de algo.
Não sei quem ela é, mas espero que a encontrem.
Olá. Chamo-me María.
Procuramos esta rapariga.
Chama-se Olga. Já a viste? Ou sabes o apelido dela?
Porque a procura?
O que faz aqui? É da polícia?
- Quem a mandou? - A mãe da Olga.
Conhece a mãe dela, mas não sabe o seu apelido.
É melhor ir-se embora, se não quer arranjar problemas.
Vá-se embora daqui!
Não somos burros.
Identifique-se.
Queremos saber porque a procura.
A mãe da Olga está preocupada.
Só a queremos proteger.
Proteger os tomates.
Querem caçá-la.
Por favor.
A Olga precisa da nossa ajuda!
Pensem na mãe dela!
Por favor!
Então…
Não sabem em que faculdade a Olga estudou?
A licenciatura dela?
Nem sequer o apelido dela?
Sabemos que pode ter estudado aqui em 1968.
Isso já reduz um pouco.
Sra. Agente.
É verdade que não vêm fardadas,
mas eu não sou burra.
Explico-vos como funciona a UNAM, para que entendam.
Anualmente, matriculam-se mais de 25 mil alunos.
Temos mais de uma dezena de faculdades independentes.
Cada uma com a sua própria administração e registos.
A isso, somam-se as pós-graduações,
os mestrados, os doutoramentos, os centros de investigação…
Não há um único escritório, um único arquivo onde se possa dizer:
"Quero ver o processo da Olga",
e que alguém responda: "Claro. Aqui está."
E, mesmo que houvesse,
vocês são da polícia.
E se acham
que a UNAM vai mostrar os processos dos alunos
a agentes da polícia, sem mais nada,
sem uma ordem direta do reitor…
… sinceramente, estão loucas.
Estamos quase a fechar.
Boa tarde.
O que temos de descobrir…
MAIS UM SEM DEDOS!
… é se este grupo estudantil tinha inimigos.
Sabemos que o governo espiava grupos estudantis.
Não. Não diga mais nada, Herrera.
Trata-se de salvar vidas, chefe.
Detetive, imagine isto por um instante.
Pego no telefone e ligo ao Governo.
Peço-lhes que partilhem comigo
o que têm sobre a espionagem a grupos estudantis.
O Governo vai ligar ao Presidente.
E o Presidente vai ligar-me.
E vai perguntar-me que raio estou a fazer,
a meter o nariz em segredos do Estado.
E eu vou responder, como um idiota,
que estou a proteger um grupo comunista antigoverno.
Não tenho de lhe dizer, Herrera, o que o Presidente me dirá depois, certo?
Com todo o respeito, chefe, não procuramos segredos de Estado…
Tudo é um segredo de Estado, rapaz.
Parece que não correu bem.
Ele só quer saber da fachada.
A justiça para eles não vale nada.
Só percebeste isso agora?
Deixa-me tentar uma coisa diferente.
- Romandía. - Capitão,
precisamos de falar com o reitor da UNAM.
- O quê? - Só assim encontraremos a Olga.
Talvez o Chefe Escobedo lhe possa ligar, ou talvez o Presidente.
Tens sequer a certeza de que a Olga estudou lá?
Não, mas o Lucio Lima estudou, e…
E se a tal Olga estudou no Politécnico ou na UP?
Queres que o Escobedo peça ao Presidente para ligar ao reitor?
Não sabes que os dois se odeiam?
Então, o que fazemos?
Esquece. A UNAM não te vai dar as respostas que procuras.
- Amanhã, tentas outra maneira. - Não podemos esperar até amanhã.
Não tens escolha.
Às vezes, as coisas são assim.
Compra com o teu desconto de supervisora, e podemos sair para comemorar.
Mas que comemorar? Estás doida.
Amanhã, tenho de começar duas horas mais cedo.
Não sejas desmancha-prazeres.
Vá lá. Vamos ao bar que fica ao fundo da tua rua.
Porque estás a insistir tanto?
Discuti com a minha mãe. E…
Posso dormir em tua casa?
Só esta noite. Prometo.
Não.
Claro que podes.
Bem…
Mas vais comprar?
Não. Raios!
Não sei. Vou pensar.
- Vais ajudar-me? - Claro.
Está bem, e agora…
- Quer beber algo? - Não. Obrigada.
- O que fazes aqui? - Caro. Há quanto tempo. Anos.
Perguntei o que fazes aqui.
Não nos víamos desde que…
Desde que me divorciei. E então?
Só te queria dizer
que não deve ter sido fácil.
Sobretudo pela forma como me trataste.
- Desculpa? - Não fui clara?
Tu, a Esmeralda, a Tita, a Fabiola e as minhas outras alegadas amigas.
Desculpa.
Já não interessa. Viste-me, pediste desculpa, está feito.
A tua consciência está limpa.
Adeus.
O Alejandro traiu-me.
Deixei-o há um mês.
Porque tem tudo de ser tão complicado?
Bem-vinda ao México.
A informação da Olga está nos processos.
E, por algo que nada tem que ver connosco, jamais nos vão ajudar.
Deviam perceber que estamos do mesmo lado.
Que lado, Gabina?
Porque acreditariam em nós quando dizemos que queremos ajudar a Olga?
Porque é verdade. E porque, se não nos ajudarem, ela vai morrer.
Mas eles precisam de proteger os alunos.
E quanto à Olga e aos restantes?
O que lhes acontece?
Temos menos de 24 horas.
O assassino pode estar junto de qualquer um deles, agora mesmo.
A UNAM está a pôr a vida deles em risco
ao fechar-nos as portas.
Sei que te custa entender,
mas arriscam mais se abrirem as portas.
Então, seres traída pôs-te no caminho certo. Quem diria?
O que te fez deixar o Aníbal?
Três costelas partidas e uma hemorragia interna.
Ele era tão encantador.
Portanto, obviamente, todos me culparam.
Perdoa-me, Carolina, por favor.
Por te ter virado as costas.
Sinto-me tão mal.
Não te sintas mal.
Foi exatamente isso que me obrigou a deixar tudo o que me dava segurança.
E, graças a isso, conheci-me finalmente.
Eu gostava de me conhecer.
Diz-me uma coisa. Já fizeste sexo desde que te separaste?
Não. O Alejandro foi…
… o único.
María, querida, ouve-me.
Há muitas formas de nos conhecermos,
e uma delas é saber qual é a sensação de estar com outro homem.
Dizes isso como se fosse fácil.
E tu dize-lo como se fosse difícil.
Olha à tua volta.
Estás a dizer-me que não há ninguém?
Na tua vida?
No teu trabalho?
Acho que pode haver alguém no meu trabalho.
Nem hesites. Bate-lhe à porta. Quando ele abrir, salta-lhe em cima.
Não vou "saltar-lhe em cima". Quem fala assim?
Como vais saber qual é o teu gelado preferido
se só provaste baunilha?
Caro, és a seguir.
Obrigada.
Desculpa. Não te quero arranjar problemas com o teu chefe.
Qual chefe? Ele trabalha para mim.
Sou dona deste lugar.
Estás sentada diante da chefe deste sítio.
Desfruta do espetáculo.
- Bravo. - Bravo.
Porque não podemos ir contigo trabalhar por um dia?
Assim, vemos-te mais tempo.
Então, num sábado.
- Então? O que estão a fazer? - Estamos a falar com o pai.
Não.
Alejandro, é tarde. Vais vê-los amanhã. Desliguem.
Não acredito nisto. Já viram que horas são?
Ele não fez nada. Foi ideia nossa.
Não te zangues com o pai. Nós é que ligámos.
Mas o vosso pai é um adulto. Ele já devia saber
a diferença entre a hora de conversar e a hora de dormir.
Sim, mas temos saudades dele, e tu não estavas em casa.
Só queríamos falar com ele.
Ouçam.
Que tal se perguntarmos ao pai se podem ficar com ele, amanhã?
Gostariam disso?
Bem, mas agora para a cama.
É muito tarde, e amanhã há escola.
- Não é assim tão tarde. - É, sim.
Então?
- Estás atrasado, cabrão. - Nunca chego tarde.
Só queria que te fosses pondo à vontade.
- Obrigado. - Trouxeste o que te pedi?
Realmente, há um ficheiro do grupo.
Isso eu já sabia.
E eu não o trouxe.
Caraças, Guardado. Se me vais fazer perder tempo…
Calma.
Sabes o que te aconteceria se descobrissem
que tinhas um processo do Governo, sem autorização?
Estou a proteger-te, idiota.
O sacana pode matar a qualquer instante.
Eu sei.
Não te vou dar o processo.
Mas vou dar-te o nome do agente
encarregado de vigiar aqueles estudantes.
Um antigo polícia que recrutámos em 1960 e dispensámos em 1969.
E se há alguém que sabe quem lhes poderia querer fazer mal,
é ele.
Chama-se Filiberto Guerra.
Filiberto Guerra?
Sabes quem é?
Já ouvi falar. Sim.
O que é isso?
Não.
Conseguiste o processo do grupo?
Consegui o processo do agente encarregado de o vigiar.
E como raio fizeste isto?
Ao que parece, o cabrão era polícia.
Foi despedido em 1954.
Depois, o Governo contratou-o para vigiar os estudantes.
O processo não é muito recente, mas, pelo menos, temos alguma coisa.
Já agora…
… deves-me três mil pesos.
Paga-me quando puderes.
- Filiberto Guerra. - Exatamente.
Ele é o único que nos pode ajudar.
Mas não sei se quererá falar, depois de lhe termos tirado o distintivo.
Vai falar.
Era amigo do meu pai.
Então, temos sorte.
Precisa de alguma coisa?
Eu queria falar com a polícia.
Eu sou polícia. Pode dizer.
Não, com… com a polícia feminina, por favor.
Ela anda a vender perfumes.
A cave é por ali. É lá que elas estão.
Obrigada.
Ela chama-se Olga Correa.
É da Faculdade de Filosofia e Literatura.
Tínhamos uma aula juntas, antes de ela desistir, há dois anos.
Ela é de Morelos.
Lembro-me porque os meus avós também nasceram lá.
É tudo o que sei.
Obrigada, Mila.
Olá, boa tarde.
Olga Correa?
Em que vos posso ajudar?
Temos umas perguntas.
Estamos a investigar os homicídios de Lucio Lima e Lorenzo Vargas.
Não sei nada. Não os vejo há anos.
Desculpem.
Olga, é importante que nos ouças.
Há algum lugar onde possamos falar em privado?
Não, e se não saírem, terei de chamar a segurança.
Onde arranjaram esta fotografia?
Achamos que cada membro desse grupo, incluindo tu, corre perigo.
Perguntei onde arranjaram esta fotografia.
No funeral do Lucio Lima.
Precisamos que nos ajudes a encontrá-los para os avisarmos.
Mas não sabemos nem os nomes deles nem como os encontrar.
Então, não encontraram mais ninguém?
Podemos falar em privado?
Sim, claro.
Como te sentires melhor.
Vou buscar a mala. Esperam-me aqui?
- Claro. - Sim.
Filiberto Guerra.
Tens a certeza de que foi esse o nome que ouviste?
Sim, tenho a certeza.
- E vão falar com ele. - Sim, em breve.
Disseram que poderia ajudar na investigação.
Bom trabalho, filho.
Sim, senhor.
Para a menina com grandes sonhos.
É por isto que não quero ter filhos.
É um brinquedo, Val. Tive um igual.
E olha para ti.
Alguma coisa está errada.
O quê?
Desculpe. Viu a Olga Correa?
Foi fazer uma pausa. Disse que não se sentia bem.
Não pode ser.
Ouça-me.
Preciso da morada da Olga. A vida dela está em risco.
Olga.
Precisamos de falar contigo.
A tua vida está em risco.
Tirem-me daqui e falamos.
Liberdade! Revolução!
Caminhávamos tranquilamente.
O exército acompanhou-nos até ao centro da praça.
Até dada altura, as coisas estavam… em paz.
Foi quando começaram os clarões.
Ouvi os primeiros disparos.
Vinham das janelas.
Os soldados pensaram que tínhamos sido nós e abriram fogo.
Comecei a fugir.
Perdi de vista o Manuel.
A Vera
e, ao longe, vi o César.
Corri na direção dele.
Mas antes de eu chegar onde ele estava,
vi como o atiraram
contra uma monta, com tamanha força que ele atravessou o vidro.
Estava coberto de sangue, mas vivo.
Depois, vi um homem, vestido à civil,
a aproximar-se.
Era jovem.
Não como nós, mas jovem.
Acho que o César pensou que ele o ia ajudar.
Em vez disso, sacou de uma arma.
E ele…
Naquele momento, eu entendi,
que não ia sair dali com vida.
Os soldados não descansariam enquanto não nos matassem a todos.
Quantos do teu grupo mataram, naquele dia?
O César…
… a Lino,
o Paolo,
o Manuel e a Vera.
O Gamboa morreu quatro dias depois, no hospital.
Combinámos encontrar-nos
em casa da avó do Enrique, depois da manifestação, caso nos separássemos.
Eu não fui.
Acho que ninguém foi.
Restam quatro vivos.
Olga Correa, Damián Ojeda, Enrique Saravia e Lola Hoffman.
A Olga não soube dizer-nos onde os encontrar.
Certo. E conseguiu identificar o tipo que a estava a seguir?
- Não o viu bem. - Certo.
Vaca!
- Díaz. - Sim.
Investiga estes nomes
nos registos civis, de trânsito e da Segurança Social.
Precisamos de encontrar as moradas de todos.
Porque não fazem elas isso?
Porque te peço a ti.
Vamos.
Bom trabalho.
Esta noite, salvaram pelo menos uma vida.
Sim, mas temos de encontrar os outros.
O Romandía e o Gerardo estão a tentar.
Encontraram alguém que conhecia o grupo estudantil.
Um antigo polícia.
Tudo aponta para que, em breve, tenhamos a localização dele.
Bom trabalho, Azuis.
- Obrigada. - Boa noite.
- Estou pronta. - Ótimo.
Fazem ideia de quanto poderei voltar?
Não sabemos, mas esperamos que seja em breve.
O mais importante agora é que estejas a salvo.
Se houvesse mulheres polícias em 1968,
talvez tivesse feito isso, em vez de me meter em manifestações.
Acho que me teria corrido melhor.
Nunca é tarde.
Quando tudo isto acabar, estaremos à tua espera.
- Obrigada. - De nada.
O seu bilhete.
Obrigado. Faça o favor.
- Olá. - Olá.
Queria pedir-te desculpa por ontem.
Fui-me embora sem me despedir.
Não me queres apresentar ao teu pai.
Porquê?
- Não. Do que falas? - Mandaste-me embora quando o viste.
- Envergonho-te? - Não.
Gabriel. Allez.
- Não há pausas. Vamos. - Sim.
Desculpa, tenho de entrar. Hoje vieram muitas pessoas.
Mas ouve-me…
Claro que não me envergonhas.
É ele. Ele é que me envergonha.
Não és tu. É ele.
Bem, nesse caso, não te preocupes comigo.
Quero conhecer os teus pais.
E é o momento de dar o passo seguinte.
- Boa noite. - Boa noite.
Boa noite, pai.
O que fazes aqui fora?
Não sabia para onde ir.
Hoje, salvámos a vida a uma pessoa, pai.
A uma mulher.
E eu devia sentir-me bem,
mas não consigo deixar de pensar que o assassino continua à solta.
De vez em quando, todos devemos voltar a casa.
Para desanuviar.
Mesmo que sejamos polícias.
Entra. Bem-vinda.
Obrigada. Com licença.
Achas que ele vai falar connosco?
Porque não falaria?
Vimos em paz.
Sabes,
há outra possibilidade. Estou só a dizer.
Do que falas, Romandía?
Conheceste o Filiberto Guerra.
Não era o tipo mais estável.
E se…
Estaria a mentir se te dissesse que não pensei nisso também.
Pelo sim, pelo não?
ENCONTRA A TUA MÚSICA. CARO
Filiberto Guerra!
Sou o Gerardo Herrera!
Só quero conversar!
Merda.
O Filiberto Guerra é o assassino.
Filiberto!
Filiberto!
Queremos falar contigo.
Romandía!
- Cobre-me. - Sim.
Filiberto, não te mexas!
Está morto.
Quem raio o matou?
Legendas: Cláudia Nobre
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