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Quando estive na Marinha, no sul de Espanha,
tínhamos um telescópio.
Sempre que podia, ia ver as estrelas.
Adorava passar noites a tentar ver as crateras da Lua,
ou uma nova estrela ou supernova.
Olhar pela lente
é como quando olhas para a tua vida.
Tentamos sempre ver o que está além do horizonte.
Toda a minha vida, decidi conhecer outros países,
outros sítios, outras pessoas.
Ir para uma terra nova,
para uma aventura.
Não hesitem. Não tenham dúvidas.
Porque a vida começa no limite da nossa zona de conforto.
CHEF'S TABLE: LENDAS
Nos últimos 20 ou 30 anos,
um pequeno grupo de pessoas mudou o modo como olhamos para a comida.
O Anthony Bourdain abriu o elemento cultural da comida.
O René Redzepi viu a cozinha como uma ponte para o mundo natural.
E depois temos o José Andrés.
O José é um maximalista.
Por um lado, temos o chef,
que fundou um pequeno império de restaurantes incríveis.
Basicamente, levou a cozinha espanhola para os Estados Unidos.
Por outro lado, temos um tipo
totalmente dedicado à World Central Kitchen,
uma organização sem fins lucrativos que quer alimentar o mundo.
É totalmente irracional tentar fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Mas o José quer tudo.
Está em todo o lado em simultâneo.
Corre rumo ao perigo.
Incêndio florestal? Ele está lá.
E agora vai abrir um restaurante.
Vemo-lo num festival noutro sítio qualquer.
Tudo numa semana.
Ele tem uma energia que nos faz pensar: "Como faz ele aquilo?"
Muitos dos que chegam ao nível dele
aprendem a dizer "não".
O José não conhece essa palavra.
Quer levar a vida até ao ponto de rutura.
Ao mesmo tempo, fala do desejo
de ter uma vida mais simples,
de abrandar um pouco.
Mas, no dia seguinte,
o relógio volta a contar.
Há tanto para fazer.
Quando tantos acordam de manhã com os punhos cerrados,
em que discutem,
o José é um símbolo de bondade,
de curiosidade.
Ele inspira as pessoas.
Vamos divertir-nos. Pago eu os caranguejos.
- Obrigado. - Querem um jarro?
- Para já, um. - Um jarro?
- Também temos champanhe. - Não!
O champanhe é para os meus amigos sofisticados.
Os outros amigos podem beber a cerveja que quiserem.
Onde estão os teus amigos sofisticados? Não vejo nenhum aqui.
Não te preocupes.
Há muita bondade no mundo.
Desfruta da cerveja no copo de plástico.
Não escrevemos sobre isso.
As notícias e a televisão nunca falam de coisas boas que acontecem.
São sempre sobre coisas terríveis.
Vou pô-los à vossa frente. Mesmo ao centro.
Ou as poucas vozes da discórdia.
Ou o caos.
Ou o ódio.
O amor supera o ódio.
Mas tens de trabalhar muito pelo amor.
Leva anos, décadas e gerações a construir algo grandioso.
É preciso muito pouco ódio para destruir algo espantoso.
Quero que a comida seja a solução.
A comida tem de estar em todos os departamentos.
Porque a comida é defesa, saúde, imigração, ambiente,
ciência, política, história, cultura pop.
A comida é tudo.
Aqui está a segunda ronda de caranguejos.
São estes pontos que quero ligar.
O melhor mestre de caranguejo!
Sem essas ligações, nenhum problema será resolvido.
ASTÚRIAS, ESPANHA
Na minha infância, vivíamos bem, mas o dinheiro não era abundante.
Os meus pais eram enfermeiros.
Era uma família trabalhadora.
No final do mês, o frigorífico não estava muito cheio.
Mas isso não era triste.
Porque vinham aí croquetas.
Acho que todas as mães em Espanha sabem fazer croquetas.
A minha mãe usava tudo até ao limite.
Restos de um ovo esquecido e restos de presunto.
Restos de frango assado.
E isto ia para um bechamel
que ela fazia o mais leve possível para ficar muito cremoso.
Com a menor quantidade de farinha possível.
Depois passava as bolinhas por pão ralado.
Fritava-as em azeite, uma a uma.
O exterior ficava crocante e dourado.
Por dentro, tinha um bechamel cremoso e lindo.
A minha mãe mostrou-me que podíamos fazer coisas mágicas com nada
se lhe déssemos o amor que merecia.
Nasci nas Astúrias, a zona norte de Espanha.
Na minha terra, se dissesse que sabia cozinhar, achavam:
"És uma pessoa poderosa. Sabes cozinhar."
O meu pai era um cozinheiro assim.
Era um cozinheiro excelente. Fazia cozinha excelente.
Acendia o lume para fazer paelhas e pratos tradicionais.
Quando era miúdo, eu esforçava-me para fazer parte disso.
O meu primeiro trabalho foi ir para junto das árvores,
apanhar lenha,
e depois ajudar a fazer lume.
Para um rapaz, era fixe. Estava a ajudar o meu pai a fazer lume.
Mas um dia percebi que queria mais.
Eu queria cozinhar.
O meu pai disse: "Não, tens de me ajudar com o lume."
Fiquei chateado.
E mandou-me embora. Disse: "Podemos fazer disto sem ti."
Quando acabámos, ele disse-me:
"Meu filho, eu sei que querias cozinhar.
Mas, na verdade, fazer o lume,
controlar o lume, dominar o lume,
é o mais importante que podes fazer."
Ainda me lembro desse momento
e acho que a lição do meu pai foi importante.
Tentar controlar o lume e compreendê-lo.
É o que tenho feito a vida toda.
BARCELONA, ESPANHA
Dá-me vinagre de sidra.
Um dos bons.
- Vou levar isto. Dá-me um fio. - Um fio de chouriços?
- É bom para a sidra? - Muito bom.
Mas não tens um mais fresco?
Não… Confio em ti.
Está bem, eu calo-me.
Estes já foram campeões do mundo duas vezes.
Está bem, pronto!
Prova este.
É bom.
Quando tinha 15 anos,
fui para a escola de culinária.
Tens um bom presunto?
- Pernil ou barriga de porco? - Ambos.
Pernil e barriga de porco. Não vamos passar fome.
Mas não passava muito tempo nas aulas.
Para mim, a ação acontecia nos restaurantes.
A minha escola era em Barcelona,
uma grande cidade de culinária.
Eu queria aprender.
Cheirar.
Provar tudo.
Dos pequenos bares de tapas
às pastelarias,
passando pelo bar informal no meio do nada.
Lembro-me destes momentos de descoberta.
Pratos e ingredientes que nunca tinha comido.
De me apaixonar pelas coisas, do tipo…
De passar à frente de restaurantes sofisticados,
de ver pela montra,
só para tentar vislumbrar a essência do restaurante.
Para um jovem cozinheiro em formação,
estava a conhecer o mundo que me rodeava
e a tentar apanhar um pouco do espírito.
Aquilo, para mim, era lindo.
Olá!
Já pusemos sal? Sal grosso?
Ali? De certeza?
Vamos ver.
Água do mar!
Água do mar, mas o sal…
Raios. Temos de pôr mais.
Faz-se assim. Para ficar bem.
Certo. Começamos com o lagostim grelhado?
Quando tinha 17 anos, arranjei um emprego no verão
num restaurante chamado L'Antull no norte da Catalunha.
E o chef demitiu-se.
De repente, era eu o chef e não havia mais ninguém.
Havia um tipo que vinha muito tarde, mesmo antes de fecharmos.
Pedia camarão ao alho, com o belo camarão vermelho de Roses.
Era o Ferran Adrià.
Eu já o conhecia porque todos falavam dele.
Era um jovem chef que fazia umas coisas doidas
num restaurante chamado El Bulli.
Um dia, a mãe de um amigo que tem restaurantes naquela cidadezinha
pagou para irmos lá.
Já nessa altura, o El Bulli era muito moderno,
comparado com o resto de Espanha.
O Ferran estava a reinterpretar,
a modernizar a cozinha tradicional catalã.
Mas começou a criar pratos
que não tinham qualquer ligação com a tradição.
Encontrar alguém que fazia algo tão moderno
era surpreendente.
Eu senti logo que, no ano seguinte, queria trabalhar no El Bulli.
Se for a última dentada antes de ir para o inferno,
tem de ser…
A crocância é como…
Claro, se for num programa de TV, ninguém percebe a crocância.
Normalmente, o tipo do som está muito longe.
Essa crocância
também é um ingrediente.
Para mim, o El Bulli
foi o Big Bang.
O Ferran tinha uma forma de olhar para o horizonte
que era fascinante.
Sabia que queria chegar a algum lado
e queria levar-te com ele.
Ele levava-se a si e aos outros ao limite,
para longe da nossa zona de conforto.
Todos falam do El Bulli, de cozinha molecular, de espumas e…
O melhor legado do Ferran
foi ter começado a olhar para tudo com outro prisma.
E, de repente,
os mesmos quatro ingredientes podiam criar mil pratos.
Não tomes por garantidas as coisas que julgas conhecer.
Senão, vais perder coisas fantásticas à tua frente.
Esta vontade de saber à sua maneira.
De procurar.
De encontrar novas formas.
Foi isso que o Ferran plantou em todos nós.
O El Bulli fez isso.
Depois do El Bulli, eu procurava o que estava além do horizonte.
Eu queria aventura.
Quando fiz o serviço militar,
já era um cozinheiro em formação, e a Marinha não me meteu num barco,
mas em casa do almirante de Espanha para cozinhar para ele.
Eu tinha um apartamento. Só tinha de cozinhar para ele e para a família.
E correu tudo bem.
Mas…
Havia um barco, o Juan Sebastián de Elcano.
Um navio grande, de quatro mastros.
Um barco fascinante.
Quando voltei para cozinhar para o almirante,
comecei a dizer-lhe:
"Adoro que goste muito da minha comida.
Mas não seria bom se os marinheiros naqueles barcos
pudessem desfrutar da comida que lhe faço?"
Ele satisfez-me o desejo, e fui para aquele barco.
Foi a primeira vez que saí da Europa.
Já chorei ao vir para cá.
Não me consigo conter.
É a verdade.
É uma grande parte da tua vida.
A partir daí, a vida mudou para sempre.
Fui à Costa do Marfim.
Lembro-me de chegar ao Rio de Janeiro
e de apanhar uma lula enquanto esperávamos na baía.
E depois cheguei a Nova Iorque.
Estar no mastro…
… ver a Estátua da Liberdade ao longe.
É uma das imagens mais fascinantes que alguém pode ter na sua vida.
A voz interior de "vai ver o mundo" era muito forte.
Tornou-se um chamamento.
Quando terminei o serviço militar,
recebi uma oferta para ir cozinhar nos EUA.
Ligaram-me do nada.
"Há um trabalho para ti em NI. Queres? Mas tens de dizer já.
Não tens tempo para… 'Deixa-me pensar nisso.'"
Uns dias depois, fui para Nova Iorque.
Foi rápido assim.
Ótimo!
Vamos.
Nova Iorque foi incrível.
Eu tinha um emprego num restaurante chamado Paradis Barcelona.
E um bom salário.
Passei lá uns meses.
Mas eu vinha de restaurantes Michelin em Espanha,
onde a busca incessante estava impressa na nossa testa.
Então, fui para Porto Rico e depois para La Jolla.
"Vamos aqui. Vamos ali. Vamos aprender mais."
Não sabia o que procurava.
Não conseguia ficar no mesmo sítio.
Um dia, recebi um telefonema.
"Uns tipos vão abrir um restaurante espanhol em Washington, D.C.
Provaram a tua comida quando estavas em NI
e adoravam que viesses ver se te queres juntar."
Foi uma oportunidade de ter o meu restaurante, à minha maneira.
Vi um propósito.
Levar a verdadeira cozinha espanhola para os EUA.
As Astúrias são um dos sítios onde me sinto mais feliz.
Mas não vou lá muito.
Foi onde nasci.
Quando lá vou, passa-se algo muito difícil de explicar.
É quase como se as minhas células penetrassem no solo.
Como se ficasse ligado.
Quando tenho um queijo azul das Astúrias,
volto àquelas memórias,
a esses cheiros.
A imagens do início da minha vida.
Nas Astúrias, faz-se queijo em grutas.
Essas grutas fornecem a refrigeração onde os queijos podem ser produzidos.
Fermentam durante dias, semanas e meses.
O penicillium entra aos poucos no queijo,
dando-lhe uma maturidade e singularidade.
Nas mãos dos artesãos certos,
o queijo torna-se lendário.
Como os EUA são a minha nova casa, a milhares de quilómetros das Astúrias,
queria fazer um queijo azul
que, de alguma forma, me ancorasse,
me ligasse ao sítio onde nasci.
Quem tem aquele queijo azul, pode dizer: "Nós somos assim."
O melhor presente para aos EUA é trazer o melhor de Espanha.
Íamos abrir um novo restaurante espanhol,
um restaurante de tapas.
Vamos provar.
Mas, na altura, nos EUA,
as pessoas nem sabiam o que eram tapas.
Nos anos 80 e 90,
a cozinha espanhola não era muito conhecida,
e o José levava isso a mal.
Para começar, temos croquetas mixtas, croquetas de frango e de presunto.
O Jaleo oferecia uma verdadeira refeição espanhola.
O José estava basicamente a dizer: "Esta é a melhor cozinha do mundo,
e não vou parar até todos os americanos concordarem comigo.
Se tiver de vos dar de comer à mão para reagirem, faço-o."
Isto são gambas al ajillo, camarão fresco com alho.
As tapas eram a forma perfeita de compreender a comida espanhola.
"Passa-me isto, passa-me aquilo."
Quando se tem quatro, cinco, seis, sete tapas,
faz-se uma viagem fascinante por Espanha.
O Jaleo foi inovador,
ao abrir este portal para Espanha.
Alimentar 600, 700, 800 pessoas por dia.
- Queres provar? - Sim.
Tornou-se o restaurante mais responsável por apresentar a um público vasto
os prazeres da cozinha regional espanhola.
Aos poucos, alargava o horizonte
do que os EUA sabiam sobre a cozinha espanhola.
Para mim, foi lindo de ver.
O Jaleo foi muito gratificante.
Um restaurante divertido e informal com boa comida.
O meu lado tradicional.
Mas faltava-me algo.
Tinha criatividade dentro de mim que tinha de expressar.
Voltando às raízes,
ao espírito do Ferran e do El Bulli,
queria fazer parte disso.
E foi o início do Minibar.
HÁ SEMPRE ALGO ALÉM DO HORIZONTE
Nesta altura, estou a tornar-me um jovem americano.
Para falar a mesma língua,
comecei a desconstruir clássicos americanos.
Como o Philly cheesesteak,
a salada César,
a sopa de amêijoa da Nova Inglaterra.
Pratos que adoro através da minha lente,
da lente espanhola, da lente do El Bulli.
O José trouxe para o Minibar o espírito da culinária espanhola modernista.
A comida é para brincar.
A comida é para ser desconstruída e reconstruída.
E é uma experiência extraordinária.
O El Bulli foi o Big Bang
e o Minibar era uma dessas estrelas originárias desta bela explosão.
Foi a saída criativa dos meus sonhos.
Este livro é apenas o primeiro olhar para um conceito.
Por isso, não fiques preso às fotos.
Uma ideia é juntarmos as fotos.
O que aconteceu aqui? É demasiado…
Mas não faz mal.
- Podemos usar esta. - Não gosto.
Gostas de alguma destas?
Esta tem uma cor mais bonita. Ou se…
- Ele pode iluminar isto. - Mas esta tem tanto azeite.
O problema desta é que temos de dizer como se come.
- Com uma concha? - Este empratamento é mais ou menos.
Porque é que isto parece arroz Basmati?
O José tornara-se um ponto de viragem aqui, em Washington, D.C.
E depois começou a abrir restaurantes noutras cidades.
E, pelo caminho, construiu um império.
Podia ter ficado na cozinha espanhola e só na Espanha.
Mas quem fica no mesmo sítio
nunca se mexe.
Por isso, decidi estar noutras plataformas,
noutras dimensões.
Abrir restaurantes era quase como uma droga.
Tivemos de aprender grego e turco, chinês e peruano.
Quando o fazemos, queremos passar ao próximo.
"Próximo."
"Próximo."
Com mais horas, mais trabalho, mas nada supera a adrenalina.
É um restaurante novo.
Tradicional, sofisticado,
noutras cidades.
Eu disse: "Se o céu é o limite, até onde posso ir?"
Quando dei conta, já tinha 40 restaurantes.
Então?
Olá, amiga!
Como estás?
Olha para este espanhol.
A sonhar alto!
Como estás?
- Olá a todos! - Olá!
- Tudo bem? - Olá, chef.
O meu primeiro dia de voluntariado aqui foi por volta de 1994.
- Eu licenciei-me neste programa. - Sim.
Deram-me um diploma honorário.
O meu primeiro curso foi tirado aqui.
Não é sucesso se não for partilhado.
Foi algo que aprendi cedo.
Comecei a doar o meu tempo, a ser voluntário no D.C. Central Kitchen.
Primeiro dia, a descascar batatas.
Depois, a partilhar conhecimentos culinários.
Ali vi que um cozinheiro como eu podia alimentar alguns,
mas podia tentar alimentar muitos.
Lembro-me de ver o furacão Katrina.
Nova Orleães ficou num caos.
Os diques estavam a ceder.
A paisagem é apocalíptica.
80 % de Nova Orleães está submersa.
Foi tão devastador,
sobretudo no Superdome.
Ficaram lá presas cerca de 25 mil pessoas.
Milhares de americanos numa arena sem comida e sem água durante dias.
E eu pensei: "Como é possível?"
É um restaurante gigante que entretém com desporto e música.
Estão a dizer-me que num sítio com uma zona de restauração enorme
não podemos alimentar pessoas em seis horas ou menos?
Lembro-me de nesse momento pensar:
"Podíamos fazer melhor."
Obrigado.
- Em 2010… - Saúde.
… estava a fazer um evento culinário nas Caraíbas.
De repente, não muito longe, houve um terramoto devastador.
A ilha caribenha do Haiti
foi abalada pelo maior terramoto em mais de 200 anos.
O terramoto de 7.0…
Estava a ver na televisão.
Mas, desta vez, pensei: "Aqui estou eu. Vamos a isto."
Fui para Port-au-Prince.
Não tinha um plano.
Só queria ver pessoalmente.
No primeiro dia, começámos a comprar alguns tachos e panelas locais,
tábuas de cortar e facas.
Fizemos lume.
Mas era muita gente
e precisava de ajuda.
Para minha surpresa,
homens, mulheres, voluntários
começaram a cozinhar.
Todos queriam ajudar.
Começámos a fazer milhares de refeições por dia.
A dado momento, percebi
que, se dermos às pessoas a faísca da possibilidade,
ela torna-se uma grande chama de esperança.
Precisa de mais maracujá.
O maracujá não sabe sempre ao mesmo.
O queijo não sabe sempre ao mesmo.
- Mais maracujá? - Não quero que saiba só a isso.
Mas o queijo diz: "Estou aqui."
O sucesso no Haiti abriu um novo corredor no José.
Achava que, apesar do esforço da maioria das organizações humanitárias,
havia muita ineficácia.
Quando as pessoas passam fome,
porque não se chamam chefs,
cozinheiros profissionais, que sabem alimentar as pessoas?
E começou a alimentar o mundo, uma zona de desastre de cada vez.
O grande momento da verdade foi no Maria,
um furacão gigantesco em Porto Rico.
As autoridades porto-riquenhas dizem
que é a tempestade mais letal em mais de um século.
O desastre foi inacreditável.
Teve uma resposta péssima do governo federal.
As pessoas tinham fome em toda a ilha.
Ativámos a comunidade de restaurantes.
Aqui temos as paelhas. Temos três paelhas em curso.
Chegámos às 150 mil refeições por dia.
Unimos a ilha toda.
E o povo de Porto Rico tratou de Porto Rico.
Após 21 dias na bela ilha de Porto Rico,
estamos prestes a chegar a um milhão de refeições.
Ele nunca dormia, nunca tomava banho. Só alimentava a ilha.
E chamou muita atenção.
Bem-vindos ao The Tonight Show em Porto Rico!
As pessoas viam o esforço incrível e perguntavam: "Como posso ajudar?"
Aplausos para o chef José Andrés!
O chef José Andrés!
Estrelas de Hollywood, políticos.
E o José pegou nisso tudo
e transformou-o numa organização cada vez maior.
Ninguém poderia ter imaginado que continuaria a crescer
àquele ritmo.
José Andrés foi nomeado para o Prémio Nobel da Paz de 2019.
Mais de 260 milhões de refeições na Ucrânia.
Mais de 60 milhões de refeições na Palestina.
Três milhões de refeições em Israel.
Milhões de refeições na Turquia e na Síria.
Éramos enormes.
Chef Andrés!
- É ele! - Adoramo-lo!
Não sou ele.
Adoramo-lo!
- Como estão? - Obrigada!
- Adoro-o. - E eu ainda mais.
Olá, malta!
O José tornou-se uma personagem tipo super-herói.
As tapas são boas?
Olá!
Olá!
Até ao ponto em que, quando acontece um desastre,
há a expetativa de que o José Andrés e a sua equipa estejam lá.
Ele está ali!
Chef Andrés!
- Olá! - Adoramo-lo!
E eu ainda mais.
Muito obrigado.
Aqui tem.
Imaginam como seria
acordar com notícias devastadoras e a primeira coisa que pensam é:
"Como levo a minha equipa para lá?"
Desfrutem. Família, divirtam-se!
"Como alimento toda a gente?"
- Obrigado por tudo o que faz. - Obrigado.
Olá!
Divirtam-se!
Há uma parte do José que é tipo:
"Posso continuar a fazer isto?"
Não conseguia evitar.
Sempre a tentar assumir cada vez mais
porque sentia essa responsabilidade.
Às vezes, acordo de manhã e o meu corpo diz-me:
"Abranda. Faz menos."
E outra parte de mim diz-me:
"O tempo não chega. Não tenho dias suficientes."
Vivo num corpo que me diz duas coisas ao mesmo tempo.
E debato-me comigo.
Às vezes, é cansativo ser o José Andrés.
Os últimos anos foram mais pesados.
Às vezes, desejo poder voltar a um restaurante.
O problema que enfrento agora é este enigma da vida.
Qual é o melhor uso do meu tempo?
Entre desastres, fome e guerras,
sei que há pessoas que vão dormir com fome,
mas não tenho esse problema.
Deito-me todos os dias, a desfrutar de uma vida fantástica.
Essa coisa simples também traz um peso.
Posso estar aqui a falar consigo agora,
ou posso estar com as botas no chão,
algures em…
… Gaza ou algures na Ucrânia,
no Brasil, no Iémen
ou na Somália.
No final, somos uma pessoa, um ser humano, como toda a gente.
Isso é o mais difícil.
Tenho 54 anos, a caminho dos 55, e a vida é efémera.
É como uma estrela… que atravessa o horizonte.
A vida é assim.
Agora, estás a brilhar.
É quando tens de fazer com que valha a pena.
Em que podes pressionar pela mudança.
Em que podes exigir a política certa para acabar com a fome.
Em que te podes esforçar para conseguir um restaurante de três estrelas.
Agora é o momento.
HÁ SEMPRE ALGO ALÉM DO HORIZONTE JOSÉ ANDRÉS
QUEIJO AZUL E TARTE DE AMÊNDOA MARCONA
NOVA SOPA DE AMÊIJOAS DE NOVA INGLATERRA
TACO DO JOSÉ
PRESUNTO IBÉRICO DE BOLOTA
CROQUETA DE PRESUNTO
ABALONE E SHITAKE
"AZEITONAS" FERRAN ADRIÀ
TACO AONORI
CEVICHE DE PITAIA
FOIE GRAS DE ALGODÃO DOCE
GEMA DE OVO CURADA EM SOJA, GELADO DE BAUNILHA
"LEITE DE MORANGO"
GOTA DE ORVALHO DE MAGNÓLIA
MARGARITA AR SALGADO
PÊSSEGO JAPONÊS BEBÉ, BURRATA
ARROZ COM GAMBA VERMELHA
Vamos!
Salada de batata, ostras, vieiras, abalone,
escalivada, cava.
Saúde!
É difícil quantificar o legado do José.
Podemos quantificar o número de refeições servidas
e o número de restaurantes dele.
Mas acho que a medida mais importante é provavelmente intangível.
O número de pessoas inspiradas pelo seu exemplo.
Espanha não podia ter pedido um embaixador melhor.
Há um orgulho profundo do José pela cozinha espanhola.
E o impacto que o José teve em todo o país
perdura até hoje.
Ao mesmo tempo,
procura uma nova forma de alimentar os mais desesperados e esfomeados.
No final do dia, será esse o legado do José Andrés.
Os melhores momentos da minha vida ocorrem sempre no fim da minha zona de conforto.
O mundo é tão lindo e tão grande,
e queremos vivenciar todos os lugares, pessoas,
ingredientes e cheiros,
mas não conseguimos.
O tempo que passamos na Terra é muito curto.
E temos de tomar decisões,
porque o relógio não para.
Será que a outra versão do José vai simplificar, abrandar?
Será que essa versão vai ganhar?
É difícil imaginar,
porque está ligada ao seu ADN.
Ele diz: "Enquanto estiver aqui e tiver saúde,
enquanto tiver energia,
vou continuar."
Legendas: Liliana Murilhas
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