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Corações & armaduras
Muitas lendas nasceram no tempo das guerras entre cristãos e sarracenos.
Contavam-se as façanhas de cavaleiros solitários e ferozes guerreiros,
da colisão entre suas espadas e armaduras.
Contava-se,também,sobre a beleza e o amor de princesas.Era um tempo de
magos e profecias.
Vais-te apaixonar por um inimigo.
Um mouro. Um príncipe.
Olha.
O seu nome é Ruggiero,e aquele é o homem que vai matá-lo.
O destino tem sido bom para o Ruggiero até agora
Ele é bonito,forte. Nunca conheceu a derrota.
Mas o seu destino está selado.
A morte vai apanhá-lo!
Bradamante, deixaste para trás a tua riqueza e o teu conforto.
Mas a tua coragem não é suficiente para te proteger.
Pega a minha armadura e espada e nunca ninguém te ferirá outra vez.
Mãe!
Mãe! Mãe!
- Crianças! - Todos para aqui!
- Será cristão ou mouro? - Qual é a diferença?
Pão!
Isso!
Mexe-te! Dá-lhe! Dá-lhe!
Ainda têm alguma dúvida sobre mim?
Bem vindo, Orlando! Senti a tua falta, meu amigo.
Estou contente que estejas aqui. Fizeste-me recordar dias mais felizes.
Orlando, vamos ver se ainda és tão bom quanto costumavas ser!
Guarda isso para o inimigo.
Devo-te a minha vida.
Porque tens de ir? Porquê tu?
- E se fores morto? - Por um cristão? Achas-me assim tão incapaz?
- Eu preocupo-me com a tua vida. - Eu preocupo-me com a minha irmã.
- E com a minha honra. - Por favor, não.
Declara quem és, estranho!
Foste vencido por uma mulher, meu amigo!
E é tão boa de aparência como a combater.
E quem és tu a fazer de conta que és um cavaleiro? - O meu nome é Bradamante.
Esta é a minha prisioneira, Angelica. Filha do nosso inimigo, o rei dos mouros.
Caça afortunada! Caçaste bem.
Estou a levá-la até ao nosso rei.
Caíste na tua própria armadilha!
O Orlando age como se fosse o melhor, mas não é.
Tens de admitir, ele ganha sempre os torneios.
Não nos estamos a preparar para um torneio, agora.
Vamos para a guerra, a guerra santa.
Mouros!
À tua, Orlando! À tua luta de amanhã
com o nosso nobre convidado. - Eu vou lutar com ele!
Angelica é minha prisioneira.
Porque não? Porque não deveria ser eu a lutar contra ele?
Acham que vou perder? Tu achas, Aquilante?
Tenho de vos desafiar a todos para ganhar o direito?
Então será o que farei! Ganelone, eu desafio-te!
E a ti, Rinaldo!
Selvaggio, Orlando, todos vocês!
Quero libertar a minha irmã, mas não te posso desafiar
porque és uma mulher.
- Mas lutarei contra qualquer cavaleiro que queiras. - Luta comigo!
É contigo, Orlando! É suposto seres o melhor.
Luta comigo!
Porque não respondes, Orlando? O que se passa, perdeste a coragem?
Amanhã, ao amanhecer.
Porque queres lutar com o meu irmão?
Eu também desejava que não fosses tu a lutar com ele.
Pega na Angelica e parte! Agora! Antes que seja tarde demais.
Queres que me esgueire como um covarde?
Acredita em mim, vais morrer se lutares com ele amanhã.
Eu não vou perder. Não tenho medo.
Não te compreendo.
Primeiro salvas-me, depois queres matar-me
e agora queres ajudar-me novamente. Porquê?
Porque ...
- Porque choras? - Por favor, vai. Por favor.
- Tira essas mãos imundas dessa mulher! - Não!
Tu! Que bruxaria é esta? Fala!
Digo-te, ela é uma bruxa.
Ela fez o bastardo do irmão dela desaparecer!
Vais derramar bom sangue cristão para
defender um mouro?
De quem foi essa magia? Tua? Foi mesmo verdade?
- Quem foi? Onde foi ele? - Eu não sei.
Volta para o teu pai.
- Porque estás a fazer isto? - Vai! Vai!
Chega! Vocês são ambos cavaleiros!
O que se passa contigo? Quase que o mataste. Porquê tanta raiva?
- Ele atacou a Angelica. - Não mates um dos teus próprios homens
só para defender um inimigo.
Como é que coração de um homem pode distinguir um inimigo? Diz-me isso.
Não sou feito de ferro.
- O Orlando foi embora! - Eu sei.
Pergunto-me de que anda ele atrás, sangue ou beijos.
- Aquela bruxa matou o Selvaggio! - Pode ter sido o irmão dela!
Se ele anda atrás de beijos, o teu herói voltará?
Voltará, isso eu prometo-te.
Bom dia!
Bom dia. É bom ver-te de novo.
- Tu outra vez, homenzinho? - Espero que a cama estivesse confortável.
- Era o melhor que tinha. - Tu não és um caçador.
Não, não, não sou um caçador, mas trouxe-te aqui.
E na hora certa, não achas?
Lembra-te, tu ajudaste-me e agora ajudo-te eu.
Bem, obrigado.
- Como te chamas? - Atlante.
Agradeço-te, Atlante, mas não posso ficar.
Seja lá como for que me trouxeste aqui, meu amigo, faz-me agora regressar.
Ingrato. Agora estás em sarilhos!
Se fosse a ti preocupava-me.
- Oh não, ela não. Ela não! - Bradamante.
Bradamante! Bradamante!
Sou eu, o Ruggiero!
Desculpa!
Devia ter-te deixado pendurado naquela árvore!
Eu só te quero proteger.
Pára de te intrometeres!
- Chega de magia. - Eu só te quero proteger.
Não me podes proteger do meu destino!
Posso, posso! É por isso que estás aqui. Estou a tentar salvar-te, Ruggiero, a tentar!
O teu destino é morreres pela mão do Orlando!
De qualquer forma,
O que achas que aquela miúda pode fazer por ti? Nada!
Nada, acredita em mim, nada! Ela não te pode ajudar.
Ela não te pode ajudar! Ela só te ama, é tudo!
Mulheres!
Estou vivo há 1460 anos e sempre foi o mesmo!
Acham que podem resolver tudo com amor. Anda daí.
Temos muito que andar.
Agora perdeste um filho para além de uma filha.
- Vou encontrá-lo. - Vão-te matar.
Não me importo se morrer. Sem o Ruggiero, estaria morta de qualquer forma.
E se morreres e ele estiver vivo? Então o quê?
O que terás alcançado?
Não, temos de esperar. Temos de ser pacientes.
- Do que estás à espera? - Das minhas amadas armas. Dos meus desavergonhados mercenários.
Eles vivem para matar.
Eles amam a morte.
Princesa Angelica! Princesa Angelica!
Quem se atreveu a tocar-lhe? A si?!
A mais delicada rosa de todo o universo.
Estou bem, Ferraù, só quero voltar para o meu pai.
- Vais-me ajudar? - Oh, princesa, também eu
ia para o acampamento do teu pai, quando o meu cavalo morreu de exaustão.
Mas, claro, eu, Ferraù, vou-te levar lá
e defender-vos, se necessário, até à minha última gota de sangue.
Nenhum mal vos atingirá.
- Não! - Minha querida princesa.
Larga-me!
- Não! - Oh, princesa.
- Vou-te mandar decapitar por isto! - Sim! Sim! Decapitai-me!
Fervei-me em óleo! Esfolai-me vivo!
Cortai-me em pedaços!Seja o que for! Desde que não seja agora!
Luta comigo!
- Aquela era a Angelica? - Quem mais seria?
- Temos de a alcançar. - Não é seguro para ela andar por aí sozinha.
Ouve, eu diria que parávamos com isto,
vamos atrás ela e depois recomeçamos a nossa luta.
- Tens a minha palavra. - E tu tens a minha. Monta no teu cavalo.
Eu não tenho cavalo!
Porque não vou eu atrás? Assim é como as mulheres são levadas, não um guerreiro.
Podes sê-lo, mas também és um mouro e não quero nenhum mouro atrás de mim.
- Cristão, adeus! - Vou apanhar-te, Mouro!
Tira o teu elmo!
Não! Espera! Espera!
Não devias tratar um velho feiticeiro dessa maneira.
- Não é justo. É humilhador! - Porque é que me querias matar?
Só assustar-te, assustar-te. Não matar-te.
Sê gentil, sê gentil com essa coisa.
Eu sabia que não devia ter tentado.
Nunca fui bom neste tipo de coisas.
Bradamante, estás a deixar-me maluco. Cavalgando por aí toda a noite, a chamá-lo.
Ruggiero, Ruggiero, não consigo dormir!
Tenho ouvidos muito sensíveis. Sim, muito sensíveis, minha querida.
Devias deixar o Ruggiero em paz. Só o vais magoar!
Então foi assim que ele desapareceu. Foste tu.
- Porque disseste que o vou magoar? - Porque ele é um homem
- e vai-se querer provar a ti lutando. - Onde está ele? Diz-me!
Cuidado, cuidado. Não sou invulnerável a isso, sabes?
- Então responde-me. - Ouve, posso-te dar tesouros, se quiseres.
- Poderes inimagináveis! - Quero o Ruggiero!
Pelo amor de Deus, por que insistes? És tão teimosa como ele!
Olha, eu dou-te... e que tal isto? É magia.
- Quero o Ruggiero! - Amor, amor, mulheres apaixonadas!
Atlante, Atlante! Onde estás ..?
Nada de bom virá disto. Acreditem em mim, nada!
Vais morrer se não prestares atencão ao que te digo. Estás a ouvir-me?
- Consegues ver-me? - Vejo-te.
Porque nenhum de vocês me ouve, hum?
Também aqui estou! Já ninguém me dá mais ouvidos!
Pensava que os mortais nunca queriam morrer.
Pensar que costumavam respeitar-me! Antes faziam-no.
E agora? Agora, olhem para mim!
Estou impotente, impotente. Devo estar a ficar velho.
É isso! Devemos estar a ficar velhos.
- O que queres? - Precisamos de ti, Orlando.
O Orlando já não existe.
Vai-te embora!
Mouros!
Podias, pelo menos, ter guardado um para mim.
Bem, sentes-te melhor agora?
Voltemos ao acampamento.
Tenho de encontrar a Angelica, primeiro.
Vais-me ajudar?
Dois, dirigindo-se para leste.
Não tenhas medo, filha. Os meus olhos não contemplam coisas mundanas.
Posso descansar aqui um pouco? Fiz um longo caminho.
A casa do senhor está aberta a todos.
Obrigado, sagrado homem.
Há uma velha lenda que diz que São Simeão tentou,
em vão, terminar esta igreja.
Ele possuía uma esmeralda mágica, que fazia quem quer que a pusesse na sua boca
tornar-se invisível.
Era verdade?
Minha filha, são apenas superstições antigas de pessoas ignorantes.
Maravilha das maravilhas! Linda!
Não resistas! Não resistas!
Deixa-me acariciar-te. Não conseguirás fugir, querida!
Malvada!
De quem é aquele cavalo?
Cavalo? Que cavalo? Oh, aquele!
- Pertence a ... eu não sei. - Onde está a mulher que o montava?
Mulher? Não há aqui nenhuma mulher.
Podes ver por ti próprio.
Amor.
Amor!
Pobres almas, que crianças tolas.
Sempre ansiosas, mas nunca espertas.
Mas que inocência, a tua magia não é nada comparada com isto, Atlante.
Nada!
Pára! Pára aí!
Quem és tu? Como chegaste até aqui?
- Estou à procura do meu príncipe, Ruggiero. - Ruggiero?
Ruggiero? Que Ruggiero? Ruggiero! Ruggiero!
Ruggiero!
Ruggiero! Ruggiero! Ruggiero!
Acorda, Ruggiero, acorda! Anda, anda Ruggiero!
Anda, olha!
Eu não te posso mais proteger!
Não, não posso lutar contra todas estas mulheres. Desisto!
Força, porque não?
Se queres morrer, morre Ruggiero! O teu destino está decidido!
O Orlando vai-te matar! O Orlando vai-te matar!
Se eu tiver que morrer, então morrerei.
Perdoa-me.
Perdi o meu melhor amigo.
Meu irmão.
O teu povo fez isto.
E quantos cadáveres não deixaste tu atrás de ti?
- É meu dever lutar. - Assim como o deles!
Não te estava a perseguir para te fazer mal.
Nunca te faria mal.
Eu sei.
Se eu não soubesse disso, nunca teria vindo até ti.
Agora tenho que pegar nele e regressar.
Se regressares, o meu coração vai transformar-se no seu pior inimigo.
- Eu tenho que regressar! - Regressa!
Regressa e luta! Mata mais pessoas!
Quantos morrerão a seguir, Orlando, quantos?
Porquê?
Ruggiero?
Ruggiero!
Atlante!
Consegues ouvir-me?
Onde está o Ruggiero?
Responde-me!
Se o deixares ir, ele morrerá!
Salva-o! Salva-o!
Eu tentei.
É tudo tão desesperante.
Estamos prontos para lutar!
Quero que todos vocês três liderem o nosso exército.
Não, nada de exércitos, apenas os nossos três melhores homens
- contra os três melhores deles. - Porquê?
Porque vamos ganhar e porque o queremos.
Eles não têm três homens que nos possam derrotar.
- Três bons cavaleiros. - Quatro!
Quatro.
Sim.
Este será o último desafio deles!
Oh, princesa Angelica.
Vim para vos implorar o vosso perdão
e agradecer por não terdes contado ao vosso pai, que seguramente
e justamente acabaria comigo! E teria perdido esta grandiosa
e gloriosa batalha.
E portanto amanhã, irei matar Orlando e os outros
em vossa honra!
O que vos fiz foi terrível!
A vossa beleza conduziu-me a isso.
Perdoai-me, fazei de mim íntegro novamente!
Um homem, digno de ser um guerreiro!
Eu perdoo-te, Ferraù.
Não lutes contra o Ruggiero. Deixa-o comigo.
- Talvez queiras mesmo morrer. - É possível vencer eu,
não achas?
Ela significa assim tanto para ti?
Foste tu quem veio recordar-me de quem eu sou.
- Eu pertenço aqui. - Não estás a falar com o teu coração.
- Estou a falar a verdade. - Então é a verdade que mente, Ruggiero.
O teu dever é seguir aquilo que sentes, assim como o meu.
Ruggiero!
Mata-me!
Ruggiero.
Ruggiero!
Não!
Não o deixes odiar-me por isto.
Fiz isto por ele.
Ele não é um covarde.
Não!
Eu pus uma poção na bebida dele
para o pôr a dormir.
Era suposto ser eu.
- Eu não te teria vencido. - Terias sim!
- Era o meu destino. - Então, porque ainda estás vivo?
- Não podes enganar o destino. - É porque a luta ainda não acabou.
- Não tires sentido à morte dela. - Viverei desonrado.
Isto é a honra.
E aquilo é a honra.
Se queres a tua honra, mata-me, então.
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