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Original subtitles

DO ANTROPOCENO � BIOCENOSE

- Bom dia. - Bom dia.

Antonio, aqui!

- Bom dia. - Bom dia.

- Como vai tudo? - Bem.

Faltam umas coisas, mas estar� tudo pronto para amanh�.

O que est� faltando?

Esta obra com as TVs est� quase pronta,

� de uma artista uruguaia que vive em Berlim, Catalina Aguerre.

Ela est� ali. Cata!

Cata, este � o diretor do museu, Antonio Dumas.

- Oi, prazer. - Oi, encantada.

- Obrigada pelo convite. - Sem problemas.

Foi ideia do Leo, nosso curador estelar.

At� mais.

Matthew Fontanilla.

- Sim. - Esse eu conhe�o.

Est� h� 20 anos fazendo a mesma coisa.

Ele est� aqui?

N�o, ele chega amanh� para a inaugura��o.

- Ele � muito ocupado. - Sim, eu imagino.

E neste espa�o vazio estar� a obra de Selk'nam.

- De quem? - Selk'nam.

- �, seu nome� - "Selsnam".

Selk'nam.

Seu nome � Tom�s Obreg�n, � um artista chileno,

e filho do dono do Banco Obreg�n, um dos mais importantes do Chile.

Ele adotou Selk'nam como nome art�stico

porque parece que sua tatarav�

era de origem Selk'nam,

uma tribo ind�gena extinta do sul do Chile.

Sua obra � um peixe enorme enrolado numa rede de pesca com pl�stico.

Que coisa original, um moleque rico

denunciando a polui��o dos mares.

A obra chegar� de �ltima hora, pois � uma baleia morta de verdade,

mas a montagem ser� bem simples.

Claro.

Essa � Anka Poderowska, outra artista da exposi��o.

Ela � polonesa.

Oi, Anka.

Quero apresent�-la ao nosso diretor, Antonio Dumas.

� um prazer conhec�-lo.

Igualmente, � um prazer t�-la aqui.

- Bem-vinda ao museu. - Obrigada.

- Fala espanhol muito bem. - N�o.

N�o muito, s� um pouco.

Um pouco? Estou entendendo perfeitamente.

- Esta obra � sua? - Sim.

- Me fale sobre ela. - Ainda est� em processo.

Ainda n�o terminei.

Tomapavich,

o macaco n�o fica aqui, � o�

poodle. E as girafas, onde est�o?

- Pode pegar as girafas, por favor? - Sim, claro.

Sim�

Essa�

Estou sem palavras.

� muito sens�vel porque�

� carinhoso e monstruoso

ao mesmo tempo, n�o?

Essa montanha multicolorida

� a combina��o perfeita

entre o inocente

e o transgressor.

Bem�

Claro�

Claro�

Mas�

Anka, posso dar uma dica? Voc� tamb�m, Leo.

Sim, por favor.

Acho que a obra deveria ser movida para c�,

pois onde est� agora, sobrep�e com o trabalho de Fontanilla.

Sim?

� uma pena, pois ambos perdem.

Pelo menos at� aqui.

- Tem raz�o, ficar� melhor. - Sim, � melhor.

Ok. Lucio!

- At� quando ficar� em Madri? - S� mais dois dias.

S� isso? J� esteve aqui antes?

- N�o, � a primeira vez. - Que pena.

Madri � uma cidade bel�ssima.

H� tanta coisa para conhecer.

- Eu sou um especialista. - Antonio.

- Eu poderia te dar um tour� - Perd�o.

O seguran�a avisou que h� um guindaste removendo a escultura.

O qu�? Como?

- Anka, desculpe. - Tudo bem.

O dever chama, mas nos veremos em breve.

- Um guindaste? - Com oper�rios removendo a escultura.

- Pare! - Ei!

- Parem agora mesmo! - O que est� fazendo?

Sou diretor do museu.

A ILUSTRA��O CELSO SANTORO, 1958

Pare.

Pode explicar o que est�o fazendo?

Fomos chamados pelo Minist�rio da Cultura para levar a est�tua.

Veja.

N�o. Ligue para seu chefe.

Quero falar com ele.

Sim, engenheiro? Sim.

Sim, � o Miguel. Sim.

Ainda n�o retiramos, porque o diretor do museu est� aqui

e quer falar com voc�.

Vou passar o telefone.

Aqui.

Al�? Aqui � Antonio Dumas.

Prazer. Bom dia.

Sim, voc�

Mas foram contratados pelo�

"departamento de infraestrutura do minist�rio".

N�o, eu garanto que trata-se de um equ�voco.

Vou falar diretamente com a ministra e resolveremos tudo.

Perfeito, obrigado. Pronto.

Coloquem de volta, desamarrem e v�o embora.

O que foi?

N�o fui claro?

O celular.

Sim.

Inacredit�vel.

Vamos abaixar, Pedro.

Com cuidado.

O MUSEU

Eu falei com a ministra.

Ela mandou retirar a escultura para evitar problemas.

Que maneira sofisticada de evitar problemas.

Claro, eu disse absolutamente n�o a ela.

Que mediocridade, por favor.

Como est�o os preparativos para amanh�?

Confirmaram os chefes de cultura das embaixadas do Uruguai e Pol�nia,

e os diretores do Thyssen e do Reina Sofia.

- �timo. - O buffet j� est� pronto.

E o cartaz j� est� colocado.

Me diga o que est� faltando.

- A montagem est� pronta? - Sim.

S� falta a baleia que chegar� amanh�.

Baleia?

- Mais uma? - Ok.

Gosto muito de seu trabalho.

Muito obrigada.

Pronto, obrigado.

- E agora? - Uma com o Selk'nam.

A arte n�o pode ser separada da realidade,

porque, na verdade, a arte � mais potente do que um rev�lver.

Sua fun��o � mudar as coisas.

Caso contr�rio, n�o contribui, n�o transcende,

� in�til, porque, francamente, o gozo est�tico passivo n�o me basta,

parece decadente e antiquado.

Como fede, n�o?

Anka!

- Antonio. - Como vai?

- Bem. - Sim?

- Vamos andar um pouco? - Sim.

Conhece nossa cole��o permanente?

N�o, mas eu adoraria.

Quando assumi a dire��o do museu,

reformulei toda a cole��o permanente. Criei�

uma ordem, um crit�rio que antes n�o tinha.

NASCER - COMPRAR - MORRER

Nossa, �

muito bonita.

- Impressionante, n�o? - Eu amei.

Esta � a minha favorita. Venho aqui todos os dias

para admir�-la, mesmo que s� por um momento.

Depois sigo ao trabalho.

Legal.

Fale-me sobre voc�.

Por onde come�o? N�o sei.

Do mais interessante.

Claro, muito bem.

Quer uma bebida?

Obrigado.

Com licen�a.

- Bom dia. - Bom dia.

Est� um cheiro horr�vel, n�o?

� da sala de exposi��o.

Ah, sim.

E n�o d� para usar um aromatizador de ambiente

ou diminuir a intensidade com algum produto de limpeza?

J� passamos o aromatizador na sala.

Quer que a gente passe no animal?

N�o, tudo bem, n�o se preocupe.

Falarei com o pessoal da Conserva��o.

N�o h� o que fazer.

� um cad�ver em decomposi��o e o processo continuar�.

Puta merda.

Vejamos,

poder�amos tentar injetar formol, mas�

n�o acho que funcionaria.

Onde diabos est� o Leo?

Ele tem que cuidar desta cat�strofe!

Voc� � o respons�vel por essa exposi��o.

Creio que voc� sabia o que era a obra quando escolheu.

Agora temos uma situa��o muito complicada. Est� insuport�vel.

Para mim, a obra � uma merda.

Merda.

Eu retiraria agora mesmo, mas n�o podemos.

Porque pareceria que somos amadores.

- Claro. - Eu�

Direi o que vamos fazer.

Voc� vai falar com o artista idiota,

que tem 1% de DNA ind�gena,

e dir� a ele que mandaremos fazer

uma r�plica da baleia beluga feita de resina,

substituindo a pe�a real, e para ele n�o se preocupar.

- Acho que ele n�o aceitar�. - Ele vai.

Ele vai aceitar.

V� e diga a ele.

Diga a ele

que vamos remover o cad�ver podre,

mas que iremos colocar uma r�plica da baleia em resina.

Pronto.

Celeste Malbr�n ligou v�rias vezes.

Ela disse que � um assunto pessoal.

Sim, diga para que venha

- ao museu na quinta-feira, �s 11h. - Ok.

Sim?

Sim, est� bem.

Ok.

- Antonio. - Portas abrindo.

O que foi?

O minist�rio acaba de ligar.

O Chefe de Gabinete quer v�-lo amanh�.

Ai, Deus.

Portas fechando.

A ministra insiste em remover a escultura.

Remover uma obra de arte por alguns coment�rios na Internet?

V�rios coment�rios. A ministra n�o quer problemas.

N�o sente um cheiro horr�vel?

- De peixe? - Sim, � uma instala��o.

Voltando ao assunto, teremos problemas se removermos a obra.

Imagine a cr�tica que vamos receber.

V�o nos acusar de censura.

E tudo por causa de um grupo min�sculo de ativistas, os�

- Como se chamam? - DestapArte.

Esse mesmo, DestapArte. Parece nome de desentupidor de vaso.

E n�o acusar�o a n�s, mas ao minist�rio, a ministra,

de realizar um ato horr�vel de cancelamento.

Parece que ele era violento com mulheres.

De onde tiraram isso, Rodrigo?

E se for isso, bem,

o homem era o violento, que morreu h� 50 anos,

n�o a escultura.

Por favor!

E? Nada.

Para mim, seria muito mais f�cil retirar a obra.

Seria um problema a menos.

Mas n�o vou ceder, por voc�s.

Por voc�s, eu n�o vou ceder.

Para todos, � melhor que a obra fique onde est�.

Sim, talvez tenha raz�o.

Que bom que estamos de acordo.

A DAN�A DA EST�TUA

� t�o�

Viram o Leo?

- N�o. - N�o.

Desculpe, Antonio. Liguei dez vezes, mas ele n�o atende.

Continuarei tentando.

Puta merda, Leo!

Ligue 20, 30 ou mil vezes se for preciso.

Por favor!

Diretor, quero falar em nome de todos.

Manuel, eu entendo e tamb�m me compade�o,

mas entenda que este � um museu de arte,

e n�o um setor administrativo.

N�o deve ser a primeira vez que uma obra incomum

- entra no museu. - Aqui? Nunca desse jeito.

� um animal morto.

Perd�o pela compara��o, mas j� tivemos o vel�rio do pintor.

� o segundo cad�ver em decomposi��o.

� perigoso para meus colegas, podem pegar alguma doen�a do animal.

Veja.

Eles est�o ali.

Vamos ver se o paliativo de Amaia conserta isso.

D�-me at� amanh�.

Tudo estar� melhor.

Que tipo museu � esse?

Est� com um cheiro podre insuport�vel!

D� para visitar um museu p�blico com um animal em decomposi��o?

Minha filha vomitou.

Finalmente.

O senhor diretor chegou.

Eu estava esperando.

Queria saber se pode ver minhas humildes obras.

Em outra hora.

Por que n�o agora?

- N�o posso. - � s� um minuto.

Voc� d� uma olhada e me diz se tenho um estilo pr�prio.

Da� voc� me d� sua opini�o. N�o custa nada.

Com licen�a. Por favor.

Disse que agora n�o!

Olha o tom de voz.

Acalme-se ou perderei a paci�ncia.

Voc� � muito complicado.

Deixaremos pendente.

- Como assim, ele n�o aceita? - Exatamente isso.

Falei com ele e expliquei como voc� mandou,

mas ele disse que pensou em sua obra assim desde o princ�pio

e que n�o aceita a ideia de colocar uma r�plica.

Que imbecil!

Disse a ele que, al�m do inc�modo � equipe do museu,

recebemos v�rias reclama��es e den�ncias

- dos visitantes? - Sim, mas ele n�o liga.

Ele considera a modifica��o de seu trabalho inaceit�vel

- e um ato de censura. - Ato de censura? Filho da puta!

O que voc� acha?

Vejamos�

O cheiro � realmente insuport�vel,

mas tamb�m acho que colocar um boneco de resina n�o � t�o potente.

Ok.

Eu pedi para resolver algo que voc� n�o conseguiu,

- e ainda toma o lado dele? - N�o, Antonio, quero ajudar.

Mande o contato dele, eu mesmo resolvo!

Claro.

Sim, Marisa?

O qu�?

� uma medida preventiva ordenada pelo juiz

at� o caso ser resolvido.

At� quando ficaremos fechados?

N�o sei, cabe ao juiz decidir.

Eu asseguro que resolveremos o assunto hoje mesmo.

Celeste Malbr�n est� esperando. Pe�o para vir outro dia?

N�o.

Encontrarei com ela l� fora.

Mantenha-me informado das novidades.

Ok.

Pensei bastante em nossa conversa, e � verdade que Mariel

foi importante na minha vida,

mas tamb�m � verdade que n�o a vejo h� d�cadas.

Me chamou aqui para dizer isso?

Quero deixar claro que nunca ofereceria um cargo

para algu�m com la�os familiares.

Mas n�o � o caso de Mariel,

voc�s nunca foram casados ou tiveram filhos.

Ela foi minha parceira por anos,

d� no mesmo, seria nepotismo.

Nepotismo?

Mariel � brilhante ou j� esqueceu?

Eu n�o esqueci. Sei que ela � brilhante.

Seria uma falta de respeito enviar dinheiro.

Voc� � um p�o-duro que intelectualiza tudo para n�o ajud�-la.

N�o � isso, mas�

Eu j� dei meus motivos e creio ter sido claro.

Clar�ssimo.

Enfim, vou embora.

Fique com o cheiro de merda saindo da merda do seu museu.

ATIVIDADE ENCERRADA POR ORDEM JUDICIAL

Eu j� disse ao Leo, e n�o,

eu n�o deixarei que mude minha obra.

A ideia era de gerar justamente tudo isso.

Sacudir,

modificar, questionar�

O cheiro � insuport�vel, est� sentindo?

Claro. Mas � uma parte fundamental de minha obra.

A cada dia que passa, o cheiro de merda fica pior.

Mas voc� sabe que recebemos muitas queixas,

e agora a C�mara Municipal fechou o museu por ordem de um juiz!

�timo.

Minha obra funciona.

Funciona, mas ningu�m pode entrar no museu para ver sua obra!

Tudo isso � a minha obra.

A obra n�o termina quando sai do ateli�.

� exatamente a� que ela come�a a sua jornada.

Ok? As queixas,

fechar o museu, o juiz�

Essa � a obra.

At� mesmo esta conversa.

- Claro. - A obra vive,

e continua sua jornada.

A obra continua sua jornada, claro.

Quer saber?

Voc� tem raz�o.

Voc� tem raz�o. � uma vergonha admitir, mas�

estou agindo como um burocrata.

Como um funcion�rio p�blico med�ocre.

Seus argumentos s�o muito s�lidos

e convincentes.

Pe�o desculpas.

Gostaria de parabeniz�-lo,

pois acaba de dar uma aula sobre arte contempor�nea.

Obrigado.

Obrigado. E pode ficar�

tranquilo.

Tudo ficou muito claro para mim.

"A obra continua sua jornada."

Que filho da m�e.

Legendas: Jacqueline Gomes

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