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"A COISA MAIS IMPORTANTE DA VIDA É DESCOBRIR SUA VOCAÇÃO:
EMBORA ISSO DEPENDA DO ACASO."
JUNHO
Naíma!
Naíma!
Onde ele está?
-Vem cá. Te adoro. Até mais. -O que foi?
-Quero te dizer uma coisa. -Diga.
É surpresa.
Ela está vindo.
O que estão fazendo?
Parabéns pra você
Nesta data querida
Não precisava.
Muitas felicidades, Naíma
Muitos anos de vida
-Assopre. -Felicidades.
Aí!
-Para a Naíma, o quê? -Nada!
Obrigada.
Feliz aniversário.
-Feliz aniversário, linda. -Valeu.
O melhor por último.
-Aqui. Um presentinho. -O que é?
Não...
Que legal.
-Sério? -Claro.
É para mim?
Claro que não. E para a vizinha.
-Pare. -Claro que é.
Vou chorar.
Quanto drama. Venha. Vamos para a praia.
Garota, eu arraso em qualquer circunstância.
-Eu não acho. -Olhe para mim.
-Com os tênis saindo do pé? -Cuidado.
Ai. Está com inveja de mim?
Que saco. Você não decorou.
Decorei, sim. Não se preocupe.
Sua fala é: "Você é tão doida, minha filha, que parece sua mãe."
Você é tão doida, minha filha, que parece sua mãe.
Sabe de uma coisa?
Você vai terminar apodrecendo aqui como seus pais fracassados.
Nossa, você é muito bom.
Fiquei até arrepiada.
-Você acha? -Acho.
Estava totalmente na personagem. Lindo.
-Você que é linda. -Você que é.
Esse foi o primeiro dia de férias.
Eu acabava de fazer 16 anos.
Sofia?
Como você mudou!
Minha querida priminha.
Desde que Sofia foi para Paris, não nos víamos mais.
Pode me ajudar com isto?
Que língua é essa?
Isso? Latim. Quer dizer "aproveite o momento”".
Ela acabara de perder a mãe naquele verão.
Parabéns pra você
Ela também havia mudado.
O que vai fazer se não liga para dinheiro?
-Sei lá. Você sabe o que vai ser? -Sei. Comediante.
Sério? Que legal. E você?
O mesmo. É.
-Vamos fazer um teste no dia 13. -E mesmo? Que bom. Para o quê?
É uma cena livre.
-Faço o papel da Leila. -Quem é Leila?
-A Bekhti. -Você a conhece?
Um pouco.
-Verdade? -Ele fez uma selfie com ela.
Já se acha amigo dela.
-Está com inveja. -Não fique se achando, querido.
-Bonita, sua bolsa. -Obrigada.
-É legítima? -É.
Deve custar uns...
-3.000 ou 4.000. -Euros?
Tive um namorado naquele ano.
Ele se chamava Enzo.
Terminamos pouco antes do verão, mas eu nem pensava mais nisso.
Minha relação com Dodo bastava para mim.
-Bom dia, meninas. -Bom dia.
Naíma, ainda está dormindo?
Não, estou acordada. Ela está lendo para mim.
"Cartas dos leitores:
Nunca me apaixonei,
e isso não me incomoda."
-Tenham um bom dia. -Você também.
-Acorde, Naíma. -Estou acordada.
Ela está atrás da porta. Continue.
"Mamãe garante que, um dia, vou encontrar meu príncipe encantado.
Eu não acredito nisso.
Na verdade, as histórias de amor me parecem deprimentes.
Prefiro sair, me divertir."
Sofia?
-Feliz aniversário. -Sério mesmo?
Gostou?
Você comprou?
Claro. Como eu ia fazer?
Estou chocada.
Não...
Até o tecido é bonito.
Vamos ficar iguais.
-Mesma bolsa. -Estou tão feliz.
Obrigada, querida Sofia.
De nada.
"...e cabelo sedosos.
Você desembaraça de cima para baixo. Da raiz. "
E é isso. "Deixa úmido e forte."
-Quer ouvir as dicas para o cabelo? -Por que não?
"Para os cabelos encaracolados,
entre o suor nas raízes e o amarrotado do travesseiro,
-O cabelo encaracolado...” -Um beijo.
"Para evitar o efeito palha, a regra de ouro é hidratar.
Um cabelo hidratado é macio, forte e resistente.
Você precisa de xampus nutritivos e cuidados regulares.
Deixe a máscara algumas horas ou até a noite toda.
Cuidado. Use o alisador ocasionalmente.
Até um bom aparelho causará pontas duplas e secas."
Eu uso cinco vezes por dia.
"Limite-se a alisar o cabelo uma vez por semana...
abaixo de 100 graus.
Para ter cabelos sedosos sem muito volume,
desembarace-os pelas pontas." Vem gente aí.
Por aqui.
"Começando pelas raízes..."
Conto com você.
"...pode danificar os cachos...
triplicando o volume.”
Está vendo isto?
São os órgãos reprodutores.
Muito interessante.
Você é como um ouriço do mar. Você pica.
Não pico, não. Muito pelo contrário. Veja.
Viu?
Macio, não?
Aqui também, mas...
é aqui...
que é mais macio.
Isso, porque acabo de me depilar.
Minha prima é doida.
Alguém perguntou?
Quem fala com minha prima fala comigo.
E aí?
Vai deixar para lá?
-Para os cabelos. -Obrigada.
Você leva sua bolsa? Eu levo a toalha.
Ei, meninas! Não vão embora! Venham aqui!
-Venham aqui. Quero vê-las! -Pode esquecer!
Venham!
Esqueça essas putas.
Está falando de quem?
Você é uma puta.
Está falando com quem?
Vá para a casa da mamãe. Dê o fora!
Você é doido de me chamar de puta.
Vá catar ouriço e não encha o saco.
O quê? Vá se catar, vagabunda!
Ele nos chama de puta, e você não diz nada?
E daí? Grande coisa.
Ele me chama de vagabunda, e ela não diz nada.
Palhaços.
Olhe as putas.
Olhe para mim. O que ganhou com seu último namoro?
Qual é o nome dele?
-Enzo? -Isso. E então?
Sei lá. Amor.
É, amor.
Amor não me interessa.
-Interessa a todo mundo. -Não a mim.
Eu gosto de sensações, de aventura.
Para mim, os sentimentos não valem de nada.
Quer um conselho?
Nunca espere nada. O certo é fazer acontecer.
Entendeu?
Entendeu?
Vamos?
MARÉ VITORIOSA
Na minha ilha
Ah, que vida boa
Na minha ilha
Nunca se faz nada
Só nos douramos ao sol
Que é como carícia
Tudo é preguiça
Sem pensar no amanhã
Na minha ilha
Como o tempo é bom
Tão tranquilo
Perto do meu bem
Sob os altos coqueiros
Que balançam
Em silêncio
Sonhamos com nós dois
-Você não vem? -Não.
O que o incomoda exatamente?
Jantar aqui...
na frente deles...
é um tanto estranho.
Um tanto violento, quase zoológico.
Pois não deveria.
As pessoas olham, porque faz parte do prazer delas.
O prazer das férias delas.
E das nossas?
Talvez das nossas também.
Não sei, não.
O princípio do verdadeiro luxo
é ter conhecido o inverso.
Um depende do outro.
É preciso ser um pouco pobre para ser realmente rico.
E vice-versa. Para suportar a pobreza, você precisa saber que a riqueza existe.
Que existe outra coisa.
Qual é o prazer deles, então?
Acabei de explicar. Você é tonto?
O uísque não é bom?
Bonito, não?
É. E por que você comprou?
O belo é objeto de satisfação, alheio a todo interesse.
É belo o que não desejamos possuir,
mas admirar.
Não sou consumidor.
Sou amante. É diferente.
Bom, Sócrates.
Vamos sair.
-Não, por favor, estou morto. -Sim. E verão.
Quero me divertir. Vamos.
Esta noite
Vou dançar o mambo
No Royal Cassino
Embaixo do lambri rococó
A chuva
Vai me fazer esquecer
Você vai me fazer sonhar
Como em um hit de verão
Vamos nos apaixonar na praia
Olho nos seus olhos
Beijos e conchinhas
Entre você e o azul do mar
Obrigada.
-Você se divertiu? -Tem um cigarro, Philippe?
Aí está.
-É o seu barco? -E esse aí.
Você é cantora?
-Não. Eu, cantora? -Você canta bem.
-Por que zomba de mim? Ridículo. -Philippe, ela não canta bem?
-Até parece. Pare. -Divina.
É brincadeira.
Claro que é.
Melei a minha mão toda.
Eu também.
Ela gosta de velhos?
Sei lá. E daí?
Só pergunto por perguntar.
-Por que fica assim quando falo dela? -Não fico.
Fica, sim.
Já aprendeu a cena?
Já. Vai ficar me pressionando assim a vida toda?
Por que está gritando? Perguntei porque está chegando a hora.
Não quero chegar lá e dar vexame.
Você é muito chato.
-Como uma tia. -Chata. Chato, não.
O que vai fazer?
Como assim? Vou com você.
Alô.
Boa noite.
Olá.
Então, qual é o país da bandeira?
Ilha de Man.
É um país?
Claro.
-É uma ilha britânica. -Champanhe?
Não, estou tomando uísque.
Aqui, estamos em território estrangeiro, sabia?
Não estamos na França?
De jeito nenhum.
-Sério? -Você precisa de um passaporte...
-Um visto. -Eu já tenho um.
-Que bonito. -Na verdade...
Somos livres neste país?
-Somos. -Podemos tudo.
-Tudo. -Tudo.
-Tudo que você quiser. -Então, eu vou.
-Você mora aqui? -Nós, sim.
-Eu moro em Paris. -Adoro Paris.
Podemos saber o que faz em Paris?
Que pergunta.
Estamos de férias.
Não vamos falar de trabalho.
Estamos aqui para nos divertir.
-Não vá ficar com frio. -Obrigada.
Vamos nos aquecer lá dentro.
Vocês trabalham juntos?
-Sim. -Não é verdade.
Na realidade...
-Ele meio que trabalha para mim. -Não, sou o escravo dele.
Até parece.
Eu é que sou seu escravo.
-O escravo do olhar dele. -Por quê?
-Ele sabe o valor das coisas. -Você não?
Eu?
Eu sei comprar.
-O que deu em você, Dodo? -Nada.
-Por que fechou a cara? Algum problema? -Não fechei.
-Diga. -Dodo!
Venha, Dodo. Também tenho um iate.
Vamos. Só perdi as chaves.
Não tenho nada.
-Diga. -Não estou de cara feia.
Não vai dizer? Sério?
-Não é nada. -São amigos seus?
Conhecidos.
Pode pedir para saírem daqui?
Pode pedir?
Por que eu? Peça, você.
Eu peço e você: "Por que eu?"
-Você não pode? -Sério?
Meninos, por favor.
-Eu peço. -Não, deixe que ele peça.
-Como é? Quem você pensa que é? -Você não foi convidado.
Quem você pensa que eu sou?
-Pare. -Metida.
Só sabe rebolar. Quem você pensa que é?
Já entendi. Está com inveja, porque ninguém olha para você.
Venha comigo.
-Tudo bem? -Tudo.
Naíma, venha.
Naíma, venha.
Podemos saber quantos anos tem?
Acho que todo mundo tem uma idade a vida toda.
Ou seja?
Ou seja... é verdade.
Crescemos e envelhecemos...
mas eu conheci homens que tinham 30 anos a vida toda.
Há outros que param nos 15.
E outros que mal podem esperar os 50 anos.
Gostei da sua teoria.
E eu?
Quantos anos tenho?
Você?
Não sei.
Antes, vou precisar conhecê-lo.
-Você vai se decepcionar. -Por quê?
Por quê? Mulheres, sempre perguntando por quê.
-Venha. -Há outro andar?
-Boa noite. -Boa noite.
Agora, é só dobrar.
-Você vem? -Sim.
Tchau.
Tenha um bom dia.
Espere por mim.
Sete e oitenta euros, por favor.
Obrigada.
-Pague a conta. Não tenho nada aqui. -Eu também não.
Não trouxe a sua bolsa?
É que, quando saio, nunca levo nada comigo.
-Você espera que eles paguem tudo. -É.
E acha isso normal.
-Sim. -Que legal.
-Como duas mendigas, não podemos pagar. -Calma, não é nada demais.
-Aonde vai? -Já volto.
Obrigada.
Bom dia, senhora e senhor.
Oi, Naíma.
-Como vai você? -Oi!
-Bem, obrigada. -Organizem isso melhor.
Viu sua mãe?
-Ei, bonita. -Sim?
E o estágio que ia fazer aqui?
É verdade.
Foi minha mãe que contou?
Porque estou muito ocupada. Vou fazer um teste...
mas gosto da ideia.
-Volte quando estiver pronta. -Certo.
-Tchau. -Tchau.
Vamos mandar o continental.
Quanto lhe devo?
Sete e oitenta, por favor.
Aí está.
Obrigado.
Até logo.
Até logo.
-Já paguei. -Espere.
-Tudo bem? -Tudo. Por quê?
Não precisava. Está brava por ontem à noite?
Não.
Para mim, não aconteceu nada ontem.
Bom, vamos indo.
Bom dia, senhoritas.
-Olá. -Olá.
O que procuram?
-Achei que não tinha dinheiro. -É um presente.
De quem?
Do André.
Os preços são altos.
Ele é muito gentil.
Adorei.
É muito bonito.
-Por favor. -Sim?
-Pode me dizer o preço dos dois relógios? -Claro.
-Ludivine, a lista de preços. -Sim, senhora.
Cada um é 1.500 euros.
É o mais caro?
Não, temos este a 3.500 euros.
Fique com este então.
Gostei menos. É muito pequeno.
E daí? Pegue o mais caro.
Se não gostar, pode voltar e pegar estes dois.
Para que dois relógios?
Sei lá. Dê um para a sua mãe. Ela não vai adorar?
-Licença. -Sim?
Já decidimos.
-Vou levar este bracelete. -Certo. Uma escolha excelente.
-Ludivine, por favor. -Sim, senhora.
Dou para a senhora? Fico com ele na mão?
-Pode pôr na conta do Sr. Montero. -Perfeito.
Licença.
Tchau, meninas.
-Senhores, bom dia. -Bom dia.
-Como vai? -Bem, obrigado.
Você sabe como quer morrer?
Não.
Lembra dos passageiros do Paris-Rio?
Morreram de repente, uma noite.
Parece que ninguém sentiu nada.
Todo mundo achou incrível.
Nem perceber que morreu. Eu não acho.
Eles perderam a chance...
de pensar,
de ter medo,
de dizer adeus.
De perdoar.
De pedir perdão.
Está pensando na sua mãe?
Vamos sair.
Não. Esta noite, não.
Mas saia, você.
Quer que eu a deixe só?
Naíma!
-Tudo bem? -Tudo, e você?
-Quer um pedaço? -Não estou com fome.
Ainda está zangada comigo?
-Por quê? -O lance com a Sofia.
Não. Já passou.
Fui um pé no saco.
-Venha. -Aonde? A Nice?
Quero fazer uma.
-Uma o quê? -Tatuagem.
Sério? Como vai pagar?
Com o seu presente.
É uma piada?
É um presente ou não?
Você não vai gastar o dinheiro com isso.
Vou, sim.
Mas é que eu pensei...
em irmos para Paris, não fazer uma bobagem dessas.
-O presente é para você ou para mim? -Para você.
Então, pronto.
Olá.
Dodo, me dê a mão, por favor.
Eu deveria deixá-la sofrer em silêncio.
Sofia?
-O quê? -Veja.
Ficou feliz?
Gostou?
Acorde!
O que está fazendo?
Vamos perder o programa. Nunca perdemos.
-Que bagunça. -Onde está Sofia?
Foi fazer compras.
Quer que eu faça um café, bebê?
Não me chame assim.
Que relógio é esse?
-Não é nada. E é feio. -E isso que faz com seu dinheiro?
Ligou para o hotel para saber do estágio?
Já disse que não sei se quero fazer.
E seu teste? Passou ou não?
Deixe-me viver um pouco.
Não vê que me sufoca o tempo todo?
A vida é sua.
As escolhas são suas. Só vivemos uma vez.
Acha que Sofia é livre?
Ela não é?
Ser livre dá trabalho também.
É um trabalho mais duro que trabalho de escritório.
Não vê como, às vezes, ela está cansada?
Você também, aliás.
Espero que esteja curtindo as férias, pelo menos.
Férias são uma coisa muito boa.
Pare.
Não queríamos admitir,
mas, no fundo, esperávamos os caras do iate.
Sofia tinha uma regra:
nunca ligar de volta.
Dois dias depois, a mensagem chegou.
OLÁ, PRIMAS. VAMOS JANTAR COM AMIGOS. VOCÊS VÊM?
Sabia que ele ligaria.
Você prega o durex aqui.
Depois, você puxa assim.
Para um efeito olho de gato.
Você não põe todo o cabelo para trás.
Deixa um pouco na frente.
E aqui, você tem vários buracos.
Para a intensidade desejada.
Assim, é pouco puxado, médio e muito puxado.
Sophia Loren fazia isso.
Gostaria de trocar o relógio.
Deseja escolher outra coisa?
Obrigada.
Você está fazendo comida?
Vamos jantar fora.
Sempre jante antes de sair com rapazes.
-Ah, é? -Você não sai para comer.
Então, para quê?
Você sai para conhecer as pessoas, conversar.
E é muito importante estar atenta às pessoas ao seu redor.
Se você fica assim...
Comendo como uma esfomeada, não dá.
-Faça um molho, pelo menos. -Não sei fazer.
-Quer que eu faça? -Você sabe?
Espere. Vou fazer para você.
Mas você é uma chef.
Já pensou em ser chef?
-É só um molho. -Mas você faz bem.
E não há muitas chefs.
Chefs mulheres.
Pois é!
-Gostei disso. -Gostou?
E aí, meninas? Aonde vocês vão?
Veja.
Não.
Sério?
Parem!
Você me dá 18€...
Isso. Você sai daqui...
Você sai daqui,
anda uns 300 metros.
-Não podemos dividir... -Thierry, você precisa de ajuda.
Mas você terá a parte de baixo.
Você é atriz? É muito bonita.
-Obrigada. -Quando eu era anfitrião...
Estávamos nos divertindo, porque ele estava entediado.
Andy, vai ficar aqui?
-Não é história. -Eu sei.
Mas, então, já entendi.
Nós viemos com...
Então...
Pensei...
Sim, vamos fazer isso.
Sabia que essa música tem seu nome?
Mesmo? Não sabia que eu tinha uma música.
-Pois é. -E bom saber.
O que está acontecendo?
-Não se conversa muito aqui. -Não tenho nada a dizer.
-Enfim, alguém que reconhece. -Não é possível.
É, sim. Juro.
Não sei muito bater papo.
-Não? -Não faço isso bem.
Mas não significa que não tenha nada a dizer.
Significa que não quer dizer nada.
Certo.
Quer cair na piscina?
Não quero nadar!
Seraphin, você vai dormir com a babá.
Vamos dar uma nadada.
Claro.
Vamos!
Para a piscina!
André, venha!
Que comportado.
Não sei, não.
Vá fundo!
Cuidado!
Ai!
Venha comigo. Você é lindo.
Quem a ama que a siga!
Vamos lá!
Caramba, a piscina é de água salgada!
Venha!
Dê uma gorjeta para eles, está bem?
Vou aliviar sua tristeza.
-André, prefere ir para casa sozinho? -Por quê?
-Por ela? Não. -Certeza?
-O que vamos fazer? -Nada. Não fomos convidadas.
Sofia?
Espere. Já volto.
E minha prima? Não posso deixar que vá para casa sozinha.
Vou dormir no barco esta noite.
Você volta para casa a pé?
Bem... sim. Sem problema.
Certeza? Posso ir com você.
-Não se preocupe. Tudo bem. -Certo.
Amanhã, vamos passear de barco.
Traz para mim vestido, biquíni e chapéu?
-Amanhã? -De manhã.
Pode deixar.
-O preto? -Não se importa?
-Não tem problema. -Até amanhã.
-Vamos. -Espere por mim.
TESTE DODO
-Atenção à posição da mão. -Complicado, durante o jogo.
-Só duas cartas cada? -É.
E três cartas no centro.
-Mas sem mostrar... -Nunca.
Não, vamos virá-las.
E apostamos a partir daqui.
A partir daqui?
Você precisa ter alguma coisa. Isso é importante.
-Que cartas tem? -Posso mostrar?
-Pode. -Bom...
-O objetivo é ter o máximo de cartas? -Três cartas.
Sofia!
Venha.
Os sapatos, por favor.
Gosta?
-Gosto. -Não é bonito?
Minha primeira vez em um barco.
Há pouco, vi meu prédio pequenininho.
Primeira vez? Mas você mora em Cannes.
Tudo tem uma primeira vez.
Que delícia.
Faz um lindo dia no norte da Toscana...
com temperaturas de 30 graus em Florença, 33 em Pisa
e máxima de 35 em Livorno...
Seu barco está vindo.
-Oi, Ricardo. Como vai? -Bem, rapazes!
Bom dia.
-Bom dia. -Bom dia. Com licença.
Sim, este...
Aqui.
Se eu fosse você...
-Pronto. -Obrigado.
-A senhorita. -Segure meus sapatos.
Cuidado.
-Este... -Sentem-se.
-Ciao. -Estamos com pressa.
Philippe nos levou à casa de uma amiga.
Ela se chamava Calypso.
Eu não sabia que a Itália era tão perto de casa.
Calypso.
Que felicidade.
André Montero.
-É muito bom chegar pela praia. -E realmente fantástico.
Vim pegá-los, porque é meio que um labirinto.
Marco e eu dormíamos muito embaixo.
-É uma selva. -Philippe aproximava seus amigos ricos.
Adoro o jardim botânico.
Era o trabalho dele.
Aqui, começamos...
a comprar cada vez mais arte.
A casa é muito bonita.
Rita!
Essas são as obras que colecionamos com Marco.
-André é de família de marujos. -Estou fazendo o almoço!
-Chegaram. -Ele é obcecado por antiguidades.
-Ele adquiriu um sextante do século 17. -Ah, é?
-Acho que eu já lhe disse. -E está no barco?
Sim, mas Philippe pode ir pegar.
-Por que não? -Não, vocês acabam de chegar.
Beba alguma coisa antes.
-Você não se importa? -Não. Com prazer.
-Se quiser, eu vou. -Não precisa.
-Obrigado, Philippe. -De nada.
Espere por mim.
-Onde amarraram o barco? -Lá.
Ela é bonita.
-A casa ou a mulher? -Sua amiga.
Claro que é.
-E também muito perigosa. -Por quê?
Eu também gostaria de ser perigosa.
O que você quer fazer?
-Quando? -Da vida.
Não sei.
Não quer ser atriz?
Não.
É o Dodo que quer ser atriz.
Não quer estudar?
-O senhor estudou? -Pare com o "senhor". Ou a jogo na água.
-Não estou brincando. -Não consigo usar "você".
Quer saber a verdade?
Estudei a coisa errada.
Como assim? Você está bem.
Não lhe falta nada.
Liberdade é acordar na hora que quiser e sem patrão.
-E não é o caso? -Não.
Não é ficando na sua que vai ser uma mulher perigosa.
É tomando a palavra que aprendemos.
É fácil não dizer nada, se esconder.
Olhe para mim.
Senhor.
Lá vai.
-Que horas são? -14h30.
Ela me faz de idiota, sem brincadeira.
Ela me irrita.
-Sua vez. -Minha vez?
-Desculpe. Minha amiga não... -Não há tempo. Estamos com pressa.
Porra, como vou fazer agora?
Obrigada.
É bonito.
Esse é o meu trabalho.
Querem mais alguma coisa? Um café, sei lá...
-Uma grappa? -Café.
Vocês se conhecem há muito tempo?
Há sete, oito dias, mais ou menos. Não é isso?
-Então, é recente. Não? -Sim.
Que louco.
Quando ouço a buzina de nevoeiro de um barco...
me lembro de Marguerite Duras.
Marguerite Duras?
-E qual livro dela você prefere? -Gosto de todos.
Você deve ter um preferido.
Depende. Sempre muda.
Depende do momento, de como me sinto.
Agora, seria qual?
É uma pergunta delicada, porque...
vai revelar tanta coisa sobre mim. É constrangedor.
Sim, mas...
-Fica entre nós. -Chega, vai.
Não, é sério.
Antes, era A Dor.
E...
hoje, eu diria que é O Amante.
O Amante...
é maravilhoso.
De fato, é...
maravilhoso, O Amante.
-Posso fazer uma pergunta direta? -Claro.
-Diga se estiver sendo indiscreta. -De jeito nenhum.
-Quantos anos tem? -Vinte e dois.
Foi o que pensei.
-Mas é muito doido isso. -O quê?
Não sei. Tanta cirurgia estética...
Na sua idade, não entendo. Você é tão bonita.
-Não? -Obrigada.
Por que "obrigada"?
Dizer que sou bonita...
é muito gentil.
Você também é tão bonita...
Obrigada.
Talvez por não ter feito nada no rosto.
Lutar, para mim, é patético.
É como se eu recusasse a morte, entende?
Além do mais, acho que envelhece. Vocês não acham?
Patético? Não.
Acho mais comovente.
-Comovente? -É.
-Adorei sua casa. Muito bonita. -Obrigada.
Sonho ter uma igual na sua idade.
Está quente, não?
-Podemos nadar? -Claro. Aproveitem.
-Não vai nadar também? -Não, obrigada.
E nós? Vamos nadar, passear?
-Passear. -Passear? Está bem.
Você também precisa vir
-em setembro, outubro. -Adoraria.
André? Um dia, me contaram uma coisa surpreendente de você.
Isso me interessa.
Disseram que você era... anarquista.
Ainda sou.
Anarquista, claro.
Um dos colecionadores mais ricos do Brasil.
Especula com artistas, cotas. Está na bolsa.
Claro que é anarquista.
-Perfeitamente. -Vai ter que me explicar isso.
-Eu entendo. -Muito bem. Então, nos conte.
Os anarquistas...
-querem liberdade, não? -E mais complexo.
Deixe-a desenvolver.
O que nos torna livres na nossa sociedade?
-O dinheiro. -Exatamente.
Para os anarquistas, o dinheiro não importa.
-Sim, não é um valor. -E daí?
É mais fácil desprezar o dinheiro quando temos do que quando não temos.
Aí está. É isso.
Ela entendeu tudo sem precisar de explicações.
É verdade.
E eu, traduzindo desde a manhã.
Estou fazendo papel de idiota.
Não.
Se é algo que lhe dá prazer, eu fico contente.
-Vamos indo? -Até logo.
Boa viagem.
-Cuidado! -Desculpe.
Agora, limpe.
-Não tinha visto. Foi sem querer. -Quieta.
Naíma, levante-se.
Como ousa falar com ela assim?
-Vou pegar água com gás. -Não vai, não.
Antes, desculpe-se com nossa convidada.
-A culpa é minha. -Não faça nada.
Fique aqui.
Estou esperando.
-Sinto muito. -"Sinto muito, senhorita."
Sinto muito, senhorita.
Posso?
Assim?
-Você gosta? -Faça o que quiser.
Sou seu.
-Gosta do meu dedo aqui? -Gosto.
-Continuo? -Sim.
Posso?
Sim.
-Mas isso, não? -Sim.
O que está lendo?
Ah, não.
Você é só uma criança, Naíma.
Não.
Sim.
Não.
Sim.
-Não. -Eis a prova.
Alô?
Levante-se!
-O que houve? -Rápido. Vaza.
-Saia. -Sofia, o que houve?
-Vá. -Por que está me empurrando?
Mas me diga o que houve!
-Quer me revistar? -Por que isso?
Não fomos nós.
Quer revistar? Onde eu esconderia?
-Venha. -Não se preocupe.
-André as quer fora. Roubaram o sextante. -Vamos agora. Pegue suas coisas.
Não deveríamos estar aqui com essa gente.
Volte para a sua cabine. Eu cuido de tudo.
Fora.
-Solte-me. -Saia.
Ande. Fora.
Sofia!
Sofia!
Sofia, venha.
Sofia, venha cá!
Sofia, venha.
Vamos provar que não fomos nós.
Provar o quê? O que isso vai mudar?
-Venha. Venha, Sofia! -Vá embora.
Você não é ladra, e eu também não sou!
-Não estou nem um pouco aí. -Volte aqui.
-Sofia! -Me deixa.
Quero ficar sozinha.
O que foi?
Não íamos nos casar com elas.
Poderia ter sido de outra forma. Elas não ficariam eternamente.
-Como você sabe? -Eu sei.
Então, eu errei.
Mas não é tão grave.
-Boa noite, Sócrates. -Não me chame de Sócrates.
Nunca mais.
Onde está o Dodo?
Acho que ali.
Dodo, preciso falar com você.
-Por favor. -Não.
Por favor.
Estou com amigos.
-A sós. Dois segundos. -Não.
Saia, me deixe em paz.
Suma.
-Você conseguiu? -O quê?
Bem... passar no teste.
Consegui.
Estou orgulhosa.
-Você é um porre. -Também te amo.
Não está mais bravo?
Dê sua bolsa.
-O quê? -Você é teimoso.
Meus pés estão doendo muito.
Pudera. Não sabe andar de salto alto.
-Pode me levar? -Vai quebrar minhas costas.
Por favor.
Pule!
Porra, que pesada!
O que houve?
Acharam que roubamos uma coisa.
Que coisa?
-Um objeto, uma obra de arte. -Um ou outro?
Sei lá. Às vezes, objeto é obra de arte.
-Só sei que era caro. -Foi você?
-E não foi Sofia, se é o que quer saber. -Caguei para ela.
Você mudou.
-Pare. -Juro.
Você não era assim.
-Admita. -E daí?
É errado mudar? Não tenho o direito?
Por que se irrita? Perguntei gentilmente.
É que, antes, éramos tipo...
irmãs. Agora, somos um casal de velhos que não transam.
É isso que você quer? Transar?
Safadinha. Seus peitos são perfeitos, boboca.
-Mas é Irritante. -Estou vendo.
-Eu Irrito, é? -Não faça isso.
Ria um pouco.
Você bagunçou tudo.
Sofia?
Ela foi embora como chegou.
Sem se anunciar ou quase.
Como o fim do verão.
Sabemos que está vindo, mas só nos damos conta no dia seguinte.
Philippe!
Philippe!
Philippe!
Philippe!
Tudo bem?
Não sei o que vim fazer aqui.
-Não queria que eu achasse que era ladra. -Não.
Queria que soubesse como me sinto. Não estou apaixonada.
Só vim me despedir.
Bom...
então...
tchau.
-Acha que sou ladra? -Não, não.
Ele também não. Não se preocupe.
Nada disso importa.
Sei que tem princípios. E não se trata de princípios.
Tem a ver com valor.
E isso, você tem de sobra.
Sabe disso, não?
As férias não foram boas?
-Foram. -Não?
-Sim. -Não.
-Não. -Sim.
-Sim. -Não.
-Sim. -Não.
Tchau, Naíma.
Tchau, Philippe.
Sofia não voltou mais.
Recebi um e-mail dela, contando da mudança para Londres.
Ela estava feliz lá.
SETEMBRO
Andem com isso!
Concentração!
Vamos lá.
Deem tudo de si. Estamos quase prontos.
O caldo.
Onde está o meu caldo? Está bom?
Vamos lá!
Legumes bem picadinhos.
Do outro lado, por favor. Corte menor.
Quando os crèmes ficam prontos?
No vestido, você consegue 170 euros.
Na bolsa, uns 180.
Isso, você pode vender bem mais caro.
-Isso, não. -Por quê?
-Nunca a vejo com ela. -Mas não vendo.
É uma lembrança.
Pronta, chef?
Pronta, chef.
À MEMÓRIA DE PHILIPPE ELKOUBI
Legendas: Guilherme Vasques
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