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Eva Maria se foi Atrás do sol e da praia
Com a malinha de couro E o biquíni listrado
Ela foi embora e só deixou Lembranças dessa ausência
Sem a menor complacência Eva Maria se foi
Que coisa mais linda Tomando banho de mar
E torrando na areia!
E eu fico com a dor De viver sem esse amor
O que eu posso fazer? O que eu posso fazer?
O que eu posso fazer? Se Eva Maria se foi?
De tanto sol que tomou Queimou até a periquita!
Mal consigo viver Imaginando se ela me ama
Já chega dessa porcaria!
Esta é a geriatria.
-Chega. -Nós somos mocinhos, poxa!
-É isso. Mocinhos. -Caramba!
RETORNO A ÍTACA
-O que você ganhou? -É Tàpies. Pode invejar.
Não! Sensacional, Amadeo. Sensacional.
-Aqui ninguém conhece Tâpies. -Eu também não conhecia bem.
Mas estive na fundação dele em Barcelona e quer saber?
Fiquei de queixo caído. Sabe o que ele conta?
Que pintava assim porque é míope e não enxerga bem.
-Não! -Pois é.
Pode deixar que eu resolvo,
Você não tinha parado de fumar?
Tinha, amigo, mas cheguei aqui e me deu vontade.
Só faltava essa! Comecei a fumar por causa dele.
AÍ ele largou, e eu fiquei viciado. Ele fumando, e eu ficando doido.
-E já faz dez anos que parei. -Nove, nove...
Ai, caramba!
Viramos umas porcarias de uns velhos... não é?
E as festas que a gente dava aqui?
Com água quando não tinha rum.
Da torneira.
Lembra quando você foi procurar um baseado?
Andei meia Havana e ninguém me ajudou.
Ficamos na vontade.
E o medo que eu tinha de ser pego?
-Tonto! -Incrível. Sabem o que é incrível?
A primeira vez que eu vi alguém fumar isso foi na Espanha.
Você desmaiou?
-Chegou a tocar? -Ah, não!
Do jeito que eu sou fraco, ia provar esse treco e... Já sabe.
Fique sabendo que aqui a coisa degringolou.
Meus vizinhos tomam uns comprimidos que nem conheço.
Misturam com "reggaetón" e rum, ficam muito loucos.
Aliás, de quem foi a ideia de ir atrás de erva?
-Foi minha? -Não, não...
Já esqueceu? Esqueceu que a Ángela ficou furiosa...
porque esse doido entrou na sua e foi atrás também?
Pois é, meu amigo.
Nossa! Como ela ficou brava!
Ela era toda certinha.
Foi nessa noite que vocês ficaram juntos?
Não! Foi na casa da Margarita Bunduda.
Nossa! A Margarita Bunduda! Nem me lembrava dela.
Esse aí lembra! Ele babava naquela bunda. Não negue!
E você não? Nem o Eddy? Nem este aqui?
Vamos ver. Não foi porque ela nem olhava pra você...
que você foi pra cima da Ángela?
Vocês não sabem nada.
Ficaram sabendo naquele dia...
mas a coisa já vinha acontecendo.
Não me surpreende. Ele sempre foi misterioso.
Sempre muito misterioso, Puro mistério.
E aquele ali é um grande safado.
Já estava com a Xiomara e se assanhava com a bunduda.
Quem não gosta de bunda grande?
Não ria.
Não ria não, que você sempre foi sem-vergonha.
O que foi que eu fiz?
Vivia se esfregando em mim. Não escapava festa nenhuma!
Você adorava!
Nunca fez diferença se eu tinha namorado...
se você tinha namorada...
Você queria o quê?
Vivia enrolada com alguém. E não se faça de santa não!
-Pare. -A lista não acaba!
-Então pode falar. -Olhe, que eu me lembre...
tinha o Román... Você se lembra do Román?
-Tato, o grandão. -Espera... Tato?
-Tato! O grandão. -Ah, sim!
O Luisito.
Agora deu nojo, é? O Luisito mesmo!
-O Otto, da moto. Lembra? -O Otto! Me lembro desse!
-Eu me lembro. -Que memória! O Otto da moto!
Um momento, um momento... Aquele cara era demais.
-O quê? -Ele tinha uma Harley. Desculpem.
Que nada! Parecia o Drácula, com dentões assim!
-Me lembro dos dentes dele. -É inveja. Ele era demais.
Era um vampiro.
Silêncio, por favor.
Ai, essa música é incrível!
Vocês lembram que vimos Serrat no Parque Lênin?
Nossa! Meus pés doem até hoje.
Achei que a Xiomara fosse matar você.
-Por quê? O que eu fiz? -Como assim?
Você ficou chapado. Por causa da sua bebedeira...
perdemos o ônibus e voltamos a pé. Sinto dor até hoje.
-Você vive inventando! -É verdade, Rafa.
A Ángela se encheu de bolhas, parecia leprosa.
Fui ver Serrat por causa de vocês. Nunca gostei dele.
Que absurdo! Todo mundo gostava do Serrat.
Espere aí. Eu também não gostava.
Agora escuto. Me traz lembranças.
Fomos ver porque o Eddy era muito fã.
O Eddy e o Serrat.
O Eddy gostava mais do cabelo do Serrat que das músicas.
-Verdade! -Ele faria de tudo...
para ter aquele cabelo comprido.
Vocês adoram falar do Eddy.
Quando está junto, ele mesmo fala dele.
Agora que não está, vocês falam.
Lembra o trabalhão que dava esconder o cabelão dele na escola?
Nossa! Como não lembrar isso? Ele passava sabão...
e ficava meia hora arrumando.
Sempre que eu passava lá para sair, a gente se atrasava.
-Sempre. -Ele cheirava a cachorro molhado.
Como ferravam a nossa vida!
Cabelo comprido não. Calça apertada nem pensar.
-Ouvir música americana? Nossa! -Era desvio ideológico.
E prova de imaturidade política.
E diziam que os Beatles tinham... Como era?
Penetração cultural!
-Essa foi a melhor. -Era rigidez absoluta, gente.
Eu tirava nota acima de 9 em tudo...
e nunca fui "aluno exemplar".
Não dê risada não! Só porque eu gostava dos Beatles.
Tenha dó! Você era um verdadeiro "penetrado cultural",
Se tivessem flagrado você ouvindo Rolling Stones...
teriam feito a mesma coisa...
mas teria sido por uma boa causa, por música boa.
Você adora falar merda! Só fala merda! Tem dó!
Vai me dizer que "Abbey Road" não é o máximo do máximo?
-É música de maricas. -De maricas o cacete!
Vão continuar brigando por isso?
-Ele me provoca! -Espere aí, senhorita.
Quer ouvir a minha opinião mais sincera e embasada?
Não existe nada mais sério do que ouvir música.
E aqueles sacanas sabiam disso.
Enfiaram na nossa cabeça a porcaria pop do Fórmula V...
e depois, dá-lhe ralar! Muito trabalho voluntário...
escola no campo, cortar cana, colher cítricos e tabaco...
Amigo, e só um par de sapatos por ano.
Porque o novo homem se formava com o estudo...
com o trabalho e com o fuzil!
E todo cubano tinha que saber atirar. E atirar bem!
-Ai, caramba... -Prestem atenção.
Eu gostava de estudar no campo. A gente se divertia à beça.
E aqui vocês não parecem nem um pouco tristes. Vejam.
A gente podia fazer o que quisesse. Não era tão ruim.
Para com isso! Não era tão ruim?
Não quero nem lembrar aqueles meses cortando cana.
-Esta é a Eva? -A Lily.
A Lily... -Você lembra?
Era uma gostosa.
-Vejam essa figura! -Não me digam que é o Eddy.
E vejam o trator. O trator!
Me contem do trator. Eu não estava lá.
Ele quase morreu nesse dia, caiu no barranco.
E o dono do trator foi atrás dele com um facão. Lembra?
Vocês precisavam ver a cara do Eddy!
Agora parece engraçado...
mas quando a gente levantava às 2h...
e ia para o canavial naquele frio... Caramba!
-E eu vivia com fome. -Era difícil mesmo.
Você sempre foi comilão.
Falando dessas coisas, a única coisa que sinto...
é o mau cheiro do canavial de manhã.
Qual era o nome daquele cara que, no desespero...
deu uma facada na perna para ser trazido de volta?
Perdomo. Perdomo, o Manco.
Com essa gracinha, cortou um tendão e ficou manco.
Encontrei com ele esses dias. Continua manco.
Acho que é cobrador da companhia de luz,
-Aldo, o Perdomo era veado ou não? -Eu acho que era.
Sabe o que é pior?
Na época, a gente achava tudo isso normal.
Não tinha como ser normal. Como poderia ser normal?
Tania, quando você vai parar com essas merdas?
E as suas merdas?
Você foi embora e deixou um monte de merda.
-Deve ter ficado seco. -Tania...
Vamos deixar quieto. Pare.
Vocês se lembram disto?
Vejam o cabelo do Eddy.
Se eu olhar, vou ficar um mês sem me olhar no espelho.
Você está linda. Está linda.
Olha a sua cara!
Parece um mosquito.
O tempo é implacável.
Admirando o bairro?
Veja a praça.
Achei que fosse mais longe, mas é pertinho.
Continua no mesmo lugar. Não mudaram isso.
-E a sacada do Ramón. -Ele morreu faz uns 10 anos.
-O Yoenis vem? -Ele vem...
mas você sabe como são esses jovens. Nunca se sabe.
Não espere muito.
Uma festa de velhos... Qual jovem vai querer vir?
Caramba, Tania!
Mas é verdade. Se eu tivesse 20 anos, querido...
ninguém me seguraria aqui. Adeus!
Oi, gente!
Eddy! Que bom que você está aqui!
Caramba! Que vontade de ver você!
-Você trouxe o uísque? -Olha o que eu tenho aqui.
Original! Isso não tem por aqui.
Caramba, Amadeo! Finalmente você veio!
Rafa! Como eu queria ver você!
Então você disfarçou bem.
Você ficou totalmente careca?
Olha a doutora.
Você está bonita. Ainda pode rodar um tempo.
Eu sempre fui bonita.
-Bonita pulseira. Virou religiosa? -Faz tempo, meu amor.
Você mergulhou na África. Oxum ou lemanjá?
Agora sim vamos construir o socialismo! Com os orixás.
Me desculpem, eu estava enrolado numa reunião...
mas mandei à merda, Neste país, sempre tem reunião.
E como são produtivas! Se isso fosse verdade...
já teriamos derrubado o imperialismo e seus lacaios.
E construído o comunismo, fase superior do socialismo.
E último degrau da ascensão social da humanidade.
Rafa, é para você, mas vá com calma.
Não esqueço como você ficou mamado no show do Serrat.
-Vocês lembram? -É, já falamos disso.
Aos seus entardeceres vermelhos
Meus olhos se acostumaram Como a curva à estrada
Sou cantor, sou trapaceiro
Gosto de jogo e de vinho Tenho alma de marinheiro
O que eu posso fazer Se nasci no Mediterrâneo?
Nasci no Mediterrâneo
Esperem, esperem. É importante. É a chefia.
Alô!
Gente...
este uísque eu nunca tomei na Espanha.
E olha que bebi muito uísque.
E servia para quê?
Para apagar o sofrimento ou embebedar os remorsos?
Tania, me faça um favor,. Eu vou pedir...
Não, não. Fico quieta.
O que houve comigo e com a Ángela...
Não! O que houve com ela. Com você não aconteceu nada.
Sei que algumas perguntas machucam muito...
fazem sangrar, mas me diga uma coisa...
Onde você estava quando ela estava morrendo?
Você não sabe como foram os últimos meses dela. Eu sei.
Sei, sim. Você não faz nem ideia.
-Tania, vou dizer uma coisa. -Para mim, não vai.
-Você não tem direito! -Quem é você para me dizer coisas?
Escute! Por favor!
-Não enche! -Parem com isso.
Não viemos tirar satisfação de nada. Está bem?
Quem joga hoje? Tem algum jogo?
Vou perguntar ao especialista.
-Julio César? -O quê?
-Quem joga hoje? -Industriales contra Santiago.
Que vontade de ver um bom jogo!
Na Espanha, nem sabem o que é "home run",
Pare de falar da Espanha.
Tania, um terço da minha vida eu passei lá.
Eu falo porque vocês são meus amigos.
As pessoas acham que a gente vai embora, e coisas boas caem do céu.
Você vai me fazer chorar.
Tania, no meu primeiro inverno lá...
sobrevivi graças a umas freiras que me salvaram...
com agasalhos de um cara que tinha morrido.
Você dormia com as freirinhas, safado?
Eddy, por favor!
Mas não foi fácil. Vou falar pra vocês!
Meu primeiro emprego foi de guarda de um depósito.
Eu morava lá mesmo, num cantinho que arrumei...
onde ficavam os paletes de uma empilhadeira.
Banho era na casa de um marroquino. No quartinho dele...
que era guarda de dia e me ajudava.
Passei tanto frio ali!
Depois fui trabalhar com o Jesús, um cubano...
que pintava casas e prédios.
E continuei no emprego da noite.
Depois as coisas melhoraram. O Jesús conhecia uma advogada...
e fiz um acordo com ela. Eu pintava a casa dela...
e ela me ajudava com o visto de trabalho.
-Esse Jesús caiu do céu. -Ilsso mesmo. Foi o meu salvador.
Mas era meio filho da puta, me pagava metade do que deveria.
Desgraçado! E eu acreditava em Jesus...
E eu achei que fosse normal.
Eu era estrangeiro e era tratado de acordo.
Sim, mas agora você é espanhol, não é?
Sou, sim. Claro que sou. Nascido e criado, poxa!
Com a documentação, comecei a dar aulas...
e aí tudo melhorou.
-É uma novela mexicana. É.
Tudo bem. História encerrada, senhorita.
Só queria que me ouvissem.
E daí? Temos que começar a chorar? Agora?
Poxa! Você se deu bem, pronto.
Lá você é professor. Aqui, professor sobrevive por milagre.
-O salário... -Tudo bem, chega!
Não vou mais encher vocês. Não digo mais nada.
Por que eu reclamaria, não é?
Tenho um bom agasalho, tenho casa...
um computador com Internet 24 horas...
conheci a França, a Holanda, matei a vontade de ir à Itália...
Mas sabe o que acontece e que você não quer ouvir?
Sou sozinho pra caramba. Fico entediado.
Contar lá o que vi na Itália é diferente de contar para vocês.
E o pior...
Não consegui mais escrever.
Não consegui mais.
Nem eu voltei a pintar. Mesmo.
E estou aqui, não fui para lugar nenhum.
Então por que você não pinta como antes?
A, cara...
Sei que para vocês parece muito fácil...
mas você sabe muito bem.
Quando alguma coisa dá errado aqui dentro...
é difícil consertar.
No meu caso, parece definitivo.
Você não escreveu uma peça de teatro?
Aquilo era uma merda.
E estava quase pronta antes de eu ir embora.
Eu tinha medo de ser como os outros.
Pessoas que não eram ninguém aqui...
e que, chegando lá fora, começaram a inventar histórias...
que nem tinham a ver com elas.
Que este era o país da humilhação, da miséria...
que eram perseguidas aqui.
Você podia escrever sobre o tal Jesús.
Ou sobre o marroquino que salvou você do frio.
Sobre o que estava vivendo.
Foi o que eu fiz, o que pensei. Falar do que eu via na Espanha.
Mas o que eu tenho a dizer da Espanha?
Depois de 16 anos, ainda não entendo aquela gente.
Comecei três romances, mas era um pior que o outro,
Eu só expressava amargura, raiva...
Não quero escrever sobre isso.
Mas era o que você tinha. Amargura, raiva.
Isso também é a vida, o que você deixou para trás.
Escute bem, porque ela é especialista.
Uma coisa é não querer escrever sobre certos assuntos.
Outra é não conseguir escrever. Aqui você escrevia,..
E a situação era péssima, em plena crise.
As pessoas passavam fome, não tinham luz...
estavam malucas, se jogavam no mar...
e iam embora em bacias de plástico.
-E você escrevia. -É. Mas morar aqui era verdadeiro.
Para escrever lá, eu tinha que lembrar essa vida.
E eu não queria lembrar.
Queria apagar. Conseguem entender?
Sem memória, como escrever? Me diga.
Caramba! Falando sério...
Não estou entendendo nada.
Por que você foi embora?
-O mistério do Amadeo... -Eu me faço outra pergunta.
Como você conseguiu não vir quando deveria ter vindo?
Diga a verdade.
Como pôde não vir quando a Ángela adoeceu?
Achou que a mixaria que você mandava curaria o câncer?
Achou isso?
Tania...
eu trabalhava para isso, para mandar o dinheiro...
e para mandar os remédios.
Dia e noite, todos os dias! Às vezes passando fome!
E o que eu achava...
você nem faz ideia.
-Não me faça falar disso. -Tudo bem.
É melhor.
Que saco! Vou desligar essa droga de celular.
Se quiserem me achar, que mandem a polícia.
Pela festa, parece que o Industriales ganhou.
Nesse caso, Havana vai ficar agitada.
Mas que droga!
Como dizia o Bola de Nieve...
a falta de gelo estragou as melhores festas de Havana.
-Vou pegar lá embaixo. -Não, eu vou.
Não quero ver esse espetáculo.
Não falem mal de mim.
Coitada! Está muito maluca.
Tem gente que não fica assim quando os filhos vão embora.
Veja o meu caso. Dos cinco, três já foram.
Três filhas minhas...
"Fasten seat belts!"
Não sabia que ela estava fazendo macumba.
Ela disse que estava mal e isso ajudou,
-Foi a Xiomara que levou. -A Xiomara também faz...?
As igrejas estão cheias, todo mundo tem santos em casa.
Tomara que os orixás ajudem em alguma coisa.
Ela não vai se destruir assim.
Acho que a morte da Ángela foi marcante para ela.
Caramba! Ainda esse assunto? Chega!
Não posso dizer o que eu quiser?
Por que neste país a gente tem que dizer...
pensar e fazer o que os outros mandam?
Não matei a Ángela. Ela ficou doente e ponto final.
-Eu não tinha como vir. -Você tentou?
Não, nem fiz isso. E sabe por quê?
Por medo de não me deixarem entrar.
-Ou de entrar e não poder sair. -Do que você está falando?
Sabe de alguém que entrou e não pôde sair?
A Ángela estava morrendo.
Ela ia morrer de qualquer jeito. Dá para você entender?
E ela era minha mulher, não sua. O problema é meu.
-Tudo bem. -Se vocês continuarem com isso...
vou ligar o celular de novo.
Que saco! Sem gelo, vejam.
Você tem namorada lá?
Bom... tem uma catalã que... mais ou menos e tal...
Acontece que lá isso também é difícil.
O quê? Comer uma catalã?
Caramba, Eddy! Não enche, é sério.
Estou dizendo que as mulheres lá são mais complicadas.
Na segunda vez que você sai, elas já perguntam...
"O seu apartamento é próprio ou é alugado?"
E querem saber quando você vai casar com elas.
É verdade, elas ainda são assim. São medievais, as safadas.
Lá em Madri, quando saio com os amigos...
para beber alguma coisa...
acabo sonhando em estar aqui em Havana tomando rum...
falando pelos cotovelos, passando calor...
testemunhando matanças brutais como essa.
Se for pra falar merda, pode contar com a gente.
É o que nos resta.
Outra coisa que não esqueço são as lembranças...
das noites em que queríamos mudar o mundo...
e acreditávamos de verdade nisso.
Não tenho idade para nostalgia, para acreditar tanto.
Foi uma época de agitação, a gente pensava.
Somos uns velhos de merda! Admitam!
Velhos de merda são vocês.
Amadeo, pare de reclamar, cara! Você está muito chato.
ÀAs coisas são como são.
A idade da credulidade feliz já era, acreditávamos em tudo.
É que tudo que a gente fazia era histórico.
Estávamos escrevendo a História. Éramos o farol do mundo!
Pode ser... vai ver que estávamos escrevendo a História.
Tudo bem, podem tirar sarro, mas me deixem dizer uma coisa.
Nós acreditávamos de verdade.
Não tínhamos outra opção.
Acreditávamos de verdade! Você sabe muito bem!
Queríamos estudar para viver melhor, para melhorar.
Você ficava bravo quando não era "aluno exemplar"...
por conta da música americana.
-Lembra? -É, eu ficava bravo.
Eu era exemplar e me irritava ser excluído.
E queria ser militante. Por que não?
Viu só? Você acreditava.
Você militante? Do jeito que era falastrão? Nunca ficava quieto!
Para ele, não bastava ouvir música. Ele ouvia Beatles...
e todo mundo tinha que saber que ele ouvia Beatles.
O Amadeo e eu nunca tivemos problemas com as nossas leituras.
E por quê? Porque fazíamos em silêncio. Tinha que ser assim.
-Orwell. -Cabrera Infante.
Vargas Llosa.
Quero ver se você lembra uma coisa.
"Conversa na Catedral". Vamos ver.
"Da porta do La Crónica...
Santiago olha a Avenida Tacna sem amor...
automóveis...
edifícios irregulares e desbotados...
esqueletos de anúncios luminosos flutuando na neblina...
o meio-dia cinzento, e se pergunta...”
"Em que momento o Peru tinha se fodido?"
Ele sabe de cor!
Chegou o gelo!
Eddy...
você se lembra do Perdomo, o Manco?
-O que se cortou? -|Isso.
-Você acha que ele era veado? -Acho que sim.
Era veado sim, porque nunca olhou pra mim.
Que delícia!
A prática como critério da verdade!
Me solta, menino! O seu momento já passou.
Amadeo!
Vamos ver se você se lembra desta.
Tania, é especial para você.
Assim você vai me matar.
Venha. Faz uns 20 anos que não dançamos juntos.
E por que dançar comigo?
Porque você é minha amiga, porque é louca...
porque é louca por The Mamas and The Papas...
e vai ser sempre louca.
Sabem o que esse sacana disse? Vou contar.
Que veio para ficar, que não vai voltar para a Espanha.
Que veio para ficar!
Venha dizer. Diga você.
Está de brincadeira?
Meu irmão, você não sabe como está a situação aqui.
Não sabe no que está se metendo.
De qualquer forma, não vai poder ficar.
Quando vencer o visto, vão pôr você no avião e pronto. Adeus de novo.
Já falei que esse negócio de ficar é uma burrada.
Então você sabia.
Não vão poder me expulsar. Este é o meu país também.
Vocês entendem? "Meu" país!
Você quer mesmo se meter nessa?
Está sendo ingênuo ou cínico?
Se quiserem, eles expulsam você e pronto!
Para eles, se você foi embora, este não é mais o "seu" país.
-Ou você não sabe? -Não me encham.
Vou ficar e pronto. Custe o que custar.
Não quero nem saber.
É uma tremenda sacanagem. Tremenda sacanagem!
Escute, Amadeo, quando nos vimos lá na Espanha...
você já tinha essa ideia? Não me falou nada! Por quê?
-Explique, caramba! -Não tenho que explicar nada.
Não tenho que explicar coisa nenhuma.
Sabem por que eu vou ficar? Porque estou com vontade.
Estou com vontade e pronto.
Às vezes temos que fazer o que temos vontade.
Parar de fazer coisas por medo.
Mas que imbecil!
É verdade, gente.
Fazer o que temos vontade uma vez nesta merda de vida.
-Joga a chave! -O que você disse? O quê?
Não! Me diga onde você estava.
-Trabalhando. -Trabalhando? A essa hora?
Você é um safado! Estava com aquela puta!
É a voz do povo mais culto do mundo.
Até dessas baixarias eu sentia falta.
-Que vontade de beber! -Nem pensar.
Amadeo, vamos falar sério?
Meu amigo, se você ficar, pretende viver de quê?
De qualquer coisa.
Vai criar porcos?
Ou se meter numa oficina, fazer baterias, como o Aldo?
Se for isso, olhe as mãos dele queimadas de ácido.
Me deixe em paz com as minhas mãos.
Rafa, se não morri de fome aqui, nem de frio na Espanha...
o que pode acontecer não me assusta.
Vou ficar porque quero escrever.
Quero voltar a me sentir escritor, porque perdi isso há anos.
E foi a pior coisa que me aconteceu.
Você acha que só de voltar já vai ser escritor de novo?
Assim, magicamente? Como se fosse fumar?
Me deixe tentar. Eu quero.
Seja como for, você precisa entender uma coisa.
Este não é mais o país da nossa juventude,
-Nem o que você deixou há 15 anos. -Dezesseis.
Quinze, dezesseis... Não importa.
Importa. É um ano a mais. -Tudo bem, dezesseis.
Seja como for...
não é o país de antes. Acredite.
É esquisito, não sabemos no que vai dar.
Caramba, Rafa! Sim, isto aqui não é o paraíso...
mas a gente vai sobrevivendo. Eu não reclamo.
Bom, não reclamo demais.
Com as baterias, sim, eu queimo as mãos...
mas me sustento...
e, embora ninguém se importe, continuo sendo Aldo García Ferrán.
Sou negro e tudo bem.
Sou engenheiro e fabrico baterias com peças roubadas.
E sou cubano como qualquer outro, às vezes vou ver meu time perder,.
Torcer para o Industriales é masoquismo.
Nossa! Esse cheiro de sangue do porco me deixa alterado!
Tudo bem, você fica.
Você fica, se inspira e começa a escrever.
E para publicar? Onde, quando e como?
Ou vai viver dos seus direitos?
Não brinque!
Amadeo, você acha que eu vivo de quê?
Acho que ela virou puta, sabe?
Não é do meu salário. O dinheiro que um oftalmologista ganha aqui...
não dá nem para começar.
Eu vivo do que os meus filhos me mandam de Miami...
e das coisas que ganho dos pacientes.
Um pedaço de queijo, um frango, um sabão...
porque tem gente agradecida aqui, embora você não acredite.
E isso me faz ser puta sim. Trocar favores é...
-Olha, Tania, eu... -Trocar favores é ser puta!
Aqui, na China, em Hong Kong...
E você? É o quê?
O celular... o Ray-Ban...
Esse paletó deve passar de cento e tantos dólares.
E o uísque que estamos tomando... Você pagou com o seu salário?
Bom, cada um aproveita o que tem, como dizem.
Você não sabe o que eu passei para ter o que tenho.
Eu sei sim. Isso também é ser puta, Eddy.
Conheço você há um tempão.
-Vai pegar no pé de outro. -Não, agora vou continuar.
Vamos continuar a análise. Vamos ver...
Você dizia que seria escritor, jornalista...
Talento você tem. O que você é?
Um quadrinho. Um chefe?
Um fator.
Vai saber o que você teve que fazer,..
Quanta... você teve que passar.
Quantas mentiras teve que dizer para estar onde está.
Para fechar com chave de ouro, você deve ter uma conta...
escondida em algum banco, para quando a coisa ficar feia.
Você vai embora.
Vai viver com alguma ex. E com as filhas, claro.
-Do que você está falando? -Vai dizer que não tem conta?
Que não é corrupto?
É o que vocês todos acham de mim, não é?
Vocês, que vivem reclamando.
Este aqui, que já não pinta como antes...
e faz aquelas porcarias que vende por uns poucos dólares.
O Amadeo, que não consegue escrever,..
Ou ficou com medo do que escrevia...
e que acha as espanholas complicadas sei lá o quê.
E você, Tania? Você...
que se matou de estudar para virar uma médica frustrada.
Que deixou que os filhos fossem embora...
para virar uma pessoa amarga, que ninguém quer comer!
E o oportunista e descarado sou eu, Tudo bem.
Prefiro ser oportunista e descarado...
a viver reclamando e me arrependendo como vocês...
como se tivessem roubado as suas vidas.
Se roubaram as suas vidas, foi porque vocês deixaram!
Vou embora daqui!
Eddy. Eddy, meu amigo... Eddy!
Eddy, meu irmão!
Me solta, Aldo.
Caramba, meu irmão... Sabe por que acontecem essas coisas?
Porque você é um babaca.
-Ah! Babaca também? -É. E sabe por quê?
É esse seu personagem, sempre se fazendo de superior...
falando de viagens, do que você tem...
Para com isso.
Sei que você não é assim. Os outros também sabem...
mas você sempre se achou melhor que nós.
É mentira, Aldo! Eu nunca achei isso.
Mas é o que parece.
Terminou?
Pode me soltar?
Você provocou demais.
Alguém tinha que dizer a verdade.
E você quer que a gente agradeça?
-O que aconteceu? -O Eddy ficou bravo e foi embora.
Fizeram alguma coisa com ele?
-Nada, Fela. Foi uma bobagem. -Não, não.
Ele não teria ido embora por uma bobagem.
-Foi bobagem. -Tudo bem, não me contem.
Mas mesmo sendo chatos e insuportáveis...
vocês se aturaram por 40 anos.
Vale a pena brigar por uma bobagem?
-Olha... -Me deixe terminar.
A presença do Amadeo é o mais importante.
A amizade é o mais importante. É um privilégio.
Já terminei o meu discurso. Vou cuidar dos meus feijões.
Agora vocês se servem. Não sou empregada.
-Achei que você fosse servir tudo. -A mandioca está aí do seu lado!
Que linda a minha mesa...
com a minha menina e os meus meninos!
Desculpe, mãe. Eu esqueci.
Sabe qual é o segredo do meu feijão preto?
-O cominho? -Não! Que nada!
O azeite de oliva que eu jogo no final.
Da garrafa que o Eddy me deu faz um tempo. É muito bom.
-Vem comer com a gente. -Não, meu filho.
São onze da noite. Imagine! De jeito nenhum!
Comi um pouco de inhame, já está bom. Imagine!
-Você vai dormir, mãe? -Daqui a pouco.
Bom, recolham tudo e lavem. Já fiz a minha parte.
-Não se preocupe. -Tudo bem.
Fela, você continua sendo a melhor.
E espero que você continue sendo sempre o mesmo.
Bom... vocês também.
Assim já está bom.
Não façam barulho. Pensem nos vizinhos, está bem?
Quem pagou tudo isso? Foi o Eddy também?
O Amadeo. E trouxe o vinho da Espanha.
Obrigado, amigo!
Tania, por favor, mais um pouco de feijão.
-Não vou passar a noite servindo. -Um pouquinho. Está uma delícia.
Você tem braços.
Obrigado, meu amor. Muito obrigado, querida.
Vocês lembram, durante a crise...
quando a Xiomara fazia bife com casca de toranja?
-Ficava horrível. -Mas todo mundo comia.
Aldo, desde quando você se interessa por cactos?
Dessa eu não sabia.
Terapia. Fecharam a fábrica...
a Xiomara me deixou, meu pai morreu...
A coisa só foi piorando. Para espinhos, os cactos.
Aquele que você me deu está lindo.
Claro que está.
É um Acanthocalycium Violaceum dos mais bonitos.
Mas ainda não deu flor.
Já falei, deixe do lado de fora. Ele precisa de muito sol.
-Não tenho tempo para isso. -Veja. Este é irmão do seu.
Qual é o nome mesmo? "Aca" o quê?
Acanthocalycium.
São 12 espécies. O nome comum é Acanthocalycium.
Esse é o comum? Imagine o científico!
Para o meu, eu escolhi Pepe.
Foi uma daquelas fases difíceis, que você acha que não têm fim.
A Xiomara me largou.
Levou tudo.
Tudo...
menos o Yoenis, que não quis ir com ela.
Perguntei por que ela ia embora, ela disse que...
eu era um babaca fracassado.
Que eu estava cego e não via que estávamos morrendo de fome.
Que eu achava que tudo ia melhorar...
e que ela não ia esperar. Não ao meu lado.
E o pior... é que ela tinha razão.
-Ela continua com o italiano? -Continua.
O sujeito tem uns mil anos, mas não é fracassado como eu...
tem dinheiro, enche a barriga dela...
e compra de tudo para ela.
Tem que encher alguma coisa, não é?
Se não pode encher outra coisa, que seja a barriga.
Nossa! Você é venenosa, minha amiga!
Isso porque a Xiomara é sua amiga.
-Pelo menos você tem o Yoenis. -Pois é.
Vocês acharam o quê? Que eu ia perder o feijão preto da Fela?
Vou buscar um prato.
Eu sirvo.
Como você quer o feijão?
Em cima do arroz, igual a esse babaca aí.
Você descobriu quem ganhou o jogo?
Gente, foi um milagre. O Industriales! Seis a dois.
-Que bom! -Então vamos ao estádio amanhã?
Posso levar.
Lembra quando o Marquetti fez o "home run"...
-e ganhamos o campeonato? -A série de 86.
Como eu poderia esquecer?
Está registrado profundamente na minha cabeça e no coração.
Escutem, por que não vamos à praia amanhã?
Espere. Tem que ser sem pressa. Quero ir para Varadero.
-Vai ser só praia. -Eu trabalho amanhã.
O único que trabalha neste país. Vejam quem é.
Isso merece um gole.
Vejam quem chegou.
Que cabelo lindo!
Me dá um abraço.
Impressionante!
Vi você quando era pequeninho assim.
Desculpe.
É a minha namorada. Leidiana.
-Parente da Lady Di? -Quem?
Esquece.
Eu me lembrava de você, mas achei que fosse mais alto.
Ele encolheu com a idade.
Você se lembrava mesmo? Você tinha uns cinco anos.
Você e a Ángela me levaram para Varadero.
É verdade! Quando ganhei o prêmio com aquele conto,
Você tinha três ou quatro anos. Não é, Aldo?
-Uns quatro. -Era isso, não era?
Não tinha um joguinho no hotel igual ao Play Station?
Ele não queria ir à praia. Passava o dia todo na maquininha.
Era um peso a cada 10 minutos, sei lá.
Quase me deixou falido. É sério. Aquilo ali engolia um dinheirão!
-Vocês já comeram? -Não. Estamos com fome.
Pegue os pratos. Sente aqui ao lado do Amadeo.
Vão pegando. Tem de tudo.
Carne, salada, feijão, mandioca...
Um vinho?
Yoenis, eu trouxe este presente. Espero que goste.
Caramba! Muito legal. Obrigado, Amadeo.
Olhe para cá.
-Fique perto do Amadeo. -Isso.
Caramba, Eddy! Não.
-Vamos! -Vamos lá.
-Pronto. -Isso.
Que beleza de presente!
Mas o mais provável é que ele venda ainda hoje.
-Não diga besteira. -Conheço a figura.
Eu nunca tinha visto o jacarezinho. Na idade dele...
eu daria tudo para ter um jeans e uma polo,
-Saúde. Quem quer uísque? -Eu quero,
Está bom. Pai, é essa a festa que vocês iam fazer?
É a festa sim. Eu juro.
Não convidaram a minha mãe? Ela teria gostado de vir.
-Não tenho certeza. -Mas eu tenho.
Ela teria gostado de ver o Amadeo.
Bom... ela vai ter tempo. Ele veio para ficar.
-Ficar aqui? É.
Estão de brincadeira.
Vai ficar mesmo?
-Por quê? -Porque sim.
Porque sou daqui e quero ficar.
Quero ir embora.
Não vamos falar disso agora.
Pai, todo mundo sabe. Não é segredo pra ninguém.
-Fique quieto. -Deixe o menino falar.
Não, tia. Eu já disse o que tinha que dizer.
Vou dizer uma coisa, e pode parecer conselho de velha.
Você ouve se quiser.
Aqui você tem a sua mãe, O Seu pai e a sua avó...
-e eles protegem você. -É... sou muito protegido.
Minha mãe foi embora e se acertou. Meu pai... vejam aí.
Leva uma vida dura.
E não tenho nem um centavo, Muito protegido.
Bom, digamos que você queira ir... Continua estudando?
Ele não faz nada.
Não estuda e não trabalha.
E trabalhar resolve aqui?
Com o salário de merda, só se você for louco.
Escute, não sou louca e trabalho. Não estou nessa.
-Ah, não? -Não.
Não se meta!
Ela não é louca! É muito louca!
Parece vela de barco!
Escutem...
viram a voracidade da Lady Di? Comida e uísque.
A realeza inglesa está mudando, amigo.
É verdade. Eu sou velho...
mas me diga como ela entrou naquela calça.
Vou dizer.
Mudando de assunto...
quando perguntei do Yoenis ao Aldo...
ele disse que estava tudo bem. Não entendo.
Se isso é estar bem...
Até quando temos que ouvir essa música?
Enquanto eles quiserem. Cuba é isso. Bem-vindo à selva.
O Eddy arrumou emprego para o Yoenis num hotel.
E o menino, você lembra?
Começou a roubar com o rapaz do estoque.
O Eddy tirou o menino de lá, ele ia ser preso.
O que o Aldo acha disso?
Nem toque no assunto.
Eles já sofreram demais.
-Mas o Aldo dá dinheiro a ele. -A Xiomara também. E presentes.
Para ele ficar calminho, para não ir embora de balsa.
É como se comprassem a vida dos filhos.
Continuem. Sei do que estão falando.
Também não precisa fazer drama. Os jovens são todos iguais.
-Aqui, na Espanha, em Hong Kong. -Mas aqui imaginávamos outra coisa.
Acontece que... Caramba! Sempre voltamos ao mesmo assunto.
Nós acreditávamos. Agora vimos que não.
Estamos numa pior. É isso.
Nem você, que sempre foi o que mais acreditou...
pensa do mesmo jeito.
Rafa, pare com isso. Não fale por mim.
Tudo bem... mas você sabe que é verdade.
Continua falando por mim.
Escute bem. Preciso acreditar em alguma coisa...
senão é melhor eu sumir.
Então continue acreditando. Você sempre foi assim.
Por acreditar, você foi para a guerra de Angola...
sendo que poderia ter caído fora. Mas você achava que tinha que ir.
E continuo achando.
Sorte que voltou para contar. Você nunca falou de Angola.
Não tenho nada para dizer. Fui para Angola e pronto.
Vi o que se vê em qualquer guerra.
E acho que foi uma guerra justa, vocês aprovando ou não.
ÀAs coisas estão bem piores agora, mas eu preciso acreditar.
Me deixem acreditar, caramba! Preciso acreditar...
que todos merecem viver melhor depois do que passamos.
Quero acreditar que meu filho vai se encontrar.
Não é preciso ir embora.
As famílias não precisam se desfazer.
Caramba, Aldo! Acorda!
Abre os olhos. Olha!
Vejam ali, vejam.
E fotografem.
Antes que toda essa merda...
vá pro brejo.
E você, Aldo...
no meio de toda essa destruição, vai ser o último que acredita.
Eddy, meu irmão, eu não sou tão imbecil.
Olhem, quando voltei de Angola...
diziam que tinha gente importante lá...
traficando marfim e diamantes.
Caras com duas ou três mulheres...
que mandavam madeira boa para cá, para fazer suas casas.
Achei que a coisa estava degringolando mesmo.
-E continuou acreditando? -Não do mesmo jeito.
A credulidade feliz tinha acabado.
Outra coisa que eu não contei...
foi o que o meu pai disse dias antes de morrer. O coitado...
estava só pele e osso.
Me disse que sentia dor...
e achei que fosse por causa do câncer.
Eu disse que ia pedir um pouco mais de morfina.
Ele disse que não...
e pôs a mão no peito. No que restava do peito dele.
Me disse que era outra dor.
A dor de não saber se tinha errado...
ou se tinha sido enganado, o que era pior.
Disse para ele esquecer essa dor, que ele não tinha errado.
Que pelo menos ele não tinha errado.
Você fez bem, poxa...
Seu pai era valente, um homem de coragem, de respeito.
Já imaginaram se ele ouvisse o Yoenis?
Cara... ele acreditou no que tinha que acreditar.
Com o Yoernis, é diferente. Veja o lado bom.
Ele não tem que se jogar no mar para poder ir embora.
Tira o passaporte e sai.
O problema é o visto no lugar de destino.
-E o dinheiro. -Claro, mas você entendeu.
Comigo ele não pode contar, não tenho dinheiro.
-Ele conta com o tio Eddy. -Caramba! Era só o que faltava!
Quer dizer que os apagões continuam?
Vejam. Chegou a luz.
Tire isso daí! Seu idiota!
Tire isso da minha cara. Parece interrogatório.
Não precisei usar a bateria.
Ser "chefinho" tem suas vantagens.
-O celular é de graça. -A luz da chefia!
E foi a minha última exposição.
Saiu até uma crítica no jornal.
-Quando foi? -No ano passado.
Foi uma exposição de merda numa galeria de merda...
Mas a que eu ia fazer em Paris em 98...
Aquela sim!
E briguei sozinho por ela. Só eu...
quando estávamos no pior momento aqui.
Trabalhei à beça, lembra? Fazendo os quadros.
Acho que foi o meu melhor trabalho.
E o que eles disseram?
Nada.
Isso foi o pior.
Que o curador tinha escolhido e minha obra não iria.
-E você falou com ele? -Que nada!
Não era coisa do curador. Ele gostava do meu trabalho.
Alguém mais importante não me quis lá.
Por inveja, para enviar um amigo... A mesma merda de sempre.
Souberam que tinham interesse no meu trabalho em Paris e...
Eu já tinha visto esse. Você fez antes de eu ir embora.
É muito bonito.
Por que você não continuou pintando assim?
Eu não conseguia. Me tiraram a vontade.
Entrei numa depressão horrível, comecei a beber todo dia.
Eu nem via vocês. A minha mulher me aguentaria por quê?
-Nem eu me aguentava. -E a tal galerista de Paris?
Ela se matou. Num "acidente".
Nossa! Parece tragédia grega.
E tudo isso em 1998?
Pouco depois que você foi embora. Exatamente.
Foi o pior ano da minha vida.
Mas não me dei por vencido, eles não iam me ferrar.
Comecei a pintar coisas que...
Acontece que depois me afundei. Ninguém queria expor meus quadros.
Nenhuma galeria me convidava, nem aqui, nem fora.
As editoras não me pediam capas.
Eu me acabei.
O que eu queria era morrer.
Quase conseguiu.
Sorte que encontrei a Karelia, arrumei um médico muito bom...
e parei de beber.
Ela também me levou a um babalaô.
Na verdade, fiz assim para que me jogassem uma corda, sei lá,
Mas o sujeito não me convenceu,
Eu sabia que bruxaria africana não resolveria.
Quando voltei a pintar, já não era igual.
Era como se o meu mundo tivesse mudado.
E comecei a "sujar" telas. Muita cor, muita cor.
É essa merda que eu continuo fazendo.
O mais triste é que vende.
É barato, mas vende.
Você pinta. Você pinta, sim.
O que eu faço não é pintura. Sujo a tela para ganhar dinheiro.
Feito uma puta.
Tenho uma coisa aqui há 16 anos.
Era eu que deveria ter ido embora. Eu, o rebelde. O falastrão.
Por que você foi daquele jeito?
Era do grupo de teatro, escrevia...
E era publicado quando tinha papel.
É verdade, Amadeo. Você podia ir e vir como bem entendesse.
Por que foi embora?
Porque eu tinha medo.
Está falando de quê? Que medo?
O medo que fez o Rafa virar alcoólatra...
e não pintar mais como antes.
O medo que fez você deixar de escrever, Eddy.
Não é bem assim.
-Eu nunca seria escritor,. -Não!
Você seria o melhor de todos e sabia muito bem.
Ficou com medo do que havia na sua cabeça.
Como ele e como eu.
O medo é uma coisa horrível.
Tudo bem...
talvez você tenha razão, mas eu não fui embora.
Fiquei e enfrentei as coisas.
E o que eu fiz foi dizer a mim mesmo...
"Que se dane! Se não posso escrever,..
Pelo menos vou viver. E vou viver bem".
Comecei a dizer sim para tudo.
Era o que queriam que eu dissesse. Sim.
Que todos dissessem sim.
Que levantássemos a mão...
e aprovássemos tudo.
E sim, eu nunca fui escritor.
Eu virei... como você disse, um chefinho.
Mas viajei meio mundo...
e quando havia fome, desemprego e necessidade aqui, eu vivia bem.
Não saía do carro.
Era do carro para o aeroporto, para o avião, para os hotéis.
Isso tudo é uma merda.
Eu sou um merda.
Me deixei transformar num merda.
É verdade.
Mas não me roubaram a vida. Me roubaram o sonho de escrever...
mas a vida não. Nem ferrando!
-Eddy, você está bêbado, amigo. -Não, Rafa.
Estou bem sóbrio.
Tão sóbrio que não sei onde vou estar amanhã.
Por que isso agora?
Estão fazendo auditoria na empresa. Está um caos lá.
Dois contadores foram presos.
-Você está metido nisso? -Sim, não! Depende!
-Sim ou não? -Eu sei me virar...
mas aqui você tem que sujar as mãos para resolver as coisas.
Eles deixam, mas ferram você quando quiserem.
-O que você pretende fazer? -Vou fazer o quê? Me diga.
Vou fazer o quê? Esperar.
Ou procurar o "padrinho" da Tania...
tentar fazer uma limpeza. Sei lá.
Ou...
Você acha mesmo que o Eddy tem dinheiro no banco?
Do Eddy e de gente como ele, podemos esperar tudo.
Não sei.
Mas você acha que ele pode ser preso?
Vai saber no que ele está metido...
Pensei muito em você quando soube dos seus filhos.
Já são quase homens.
Quer dizer, eles são, mas...
continuo achando que são meninos.
Quando o pai deles apareceu em casa...
pedindo autorização...
para tirá-los do país...
Você não imagina O que eu pensei.
Como ele podia achar...
que eu autorizaria isso? Entende?
Eu não tinha com quem conversar. Comecei a analisar...
a Ángela já não estava, você tinha ido embora...
o Eddy no mundo dele, o Rafa alcoólatra...
e para o Aldo eu não podia contar. Sabia o que ele ia me dizer.
"Não deixe que ele leve os meninos. Não fique sozinha."
-Quando você esteve com eles? -Já faz...
Perdi a conta.
Eles me mandam dinheiro e...
O que eu estou dizendo? Não me mandam dinheiro...
nem eu tenho como ir lá. Você entende?
Nem me convidam. Às vezes se mudam, nem sei onde estão,
Não sei...
Muitas vezes eu penso e digo...
"Meu Deus!"
Dá vontade de morrer. E sabe o que é pior?
A gente não morre.
Continua aqui.
Você acha que tomou a decisão certa?
Não dá para saber, se todo o sofrimento...
impede você de viver. Dá para viver assim?
Merda!
Quando eu fui viajar...
eu...
não sabia se ia ficar.
Por isso não me despedi de vocês.
Mas, mesmo que eu soubesse, não teria contado.
Claro.
Tinha medo que a gente dedurasse?
É que eu prejudicaria vocês.
A Ángela sabia que talvez eu não voltasse.
O difícil foi ir embora sem ela.
Mas juro, não podia ser de outro jeito. Eu não podia voltar.
A Ángela sabia disso.
Me explique uma coisa que está na minha cabeça faz tempo.
Me diga como você conseguiu...
que essa mulher, nos piores momentos...
não dissesse que você era um filho da puta? Me diga.
-Olha, Tania... -Não! Com palavras não.
Estou cansada! Você passou a noite explicando...
o que não tem explicação.
Vou embora daqui.
Gente, vou embora. Eddy?
-Você me leva? -Você já quer ir?
Eu também vou.
-Por que a pressa? -Estou acabado.
Esperem, não vão. Quero falar com vocês.
Rafa, fiquei na Espanha para não atrapalhar.
-Para não trair você. -O quê?
Não sei se lembram, mas em 1994...
fiz uma peça em Nova York. Às escondidas.
Ganhei 500 dólares. Eu não tinha autorização para isso.
Um dia, bêbado...
comecei a dizer coisas que não deveria.
Dias depois...
apareceu uma mulher que se chamava Gladys.
Assim...
só Gladys.
Era do Ministério da Cultura...
e eles sabiam que eu tinha feito coisas ilegais.
Mas se eu colaborasse...
eles deixariam tudo para trás. Ela disse...
que me tirariam do grupo e me prenderiam por causa dos 500.
O que eu tenho com isso?
A coisa piorou depois dos anos 90, lembra?
Você era o mais bocudo. Mais que todos nós.
Dizia coisas que eles não aprovavam.
Estavam atrás de você, Rafa. Queriam ferrar você.
E daí? O que você tinha com isso?
A Gladys aparecia de tempos em tempos...
fazia perguntas sobre as pessoas do teatro.
Bobagens, fofocas.
Quem era gay, quem tinha roubado parte do cenário...
Essas coisas.
Mas fui burro e contei algumas coisas.
Eu contei.
Por causa do medo.
Então me enrolei muito e um dia...
ela me pediu para falar de você.
O que você disse?
O que você disse, Amadeo?
Para escapar e ganhar tempo para pensar...
eu disse que não via você fazia tempo, que não sabia de você.
Mas eu não sabia como me livrar daquilo.
Em 15 dias, o grupo ia excursionar pela Espanha...
e a Gladys disse que talvez não me autorizassem.
Depois disse que confiaria em mim...
e que esperava que eu entendesse o que ela estava fazendo.
Que, na volta, falaríamos sobre isso.
Foi por isso que eu fiquei.
Por isso eu não podia voltar.
A Ángela sabia da confusão toda. Ela mesma me pediu para não voltar.
Quando decidi ficar, escrevi pedindo para ela não contar nada.
E depois daríamos um jeito para ela ir também.
E ela ficou doente.
Ela nunca contou isso para ninguém.
Nem para você, Tania, que era como uma irmã.
Nem quando ela estava morrendo.
Dá para imaginar?
Dez anos em Madri...
e, de pensar em encontrar a Gladys, me suavam as mãos.
Jure que isso é verdade.
Juro pela memória da Ángela.
-Por que você não contou antes? -Porque seria pior para os dois.
Pior?
Pior foi o que aconteceu, você não percebe?
Ferraram a sua vida, depois ferraram a minha.
Quem era essa Gladys pra ferrar a gente assim? Me diga!
Por que você não me contou antes?
Me fiz essa pergunta todos esses anos.
E ainda tenho que agradecer, não é?
Supor que você ficou por culpa minha.
Que, para me ajudar, não viu a Ángela viva.
Chega dessa maldita culpa. Ninguém tem culpa de nada.
Como não? Sempre acreditamos e nos encheram de medo.
E sabem por quê?
Porque queríamos acreditar e não contestávamos.
Tínhamos que ser puros, sinceros, honestos.
Os filhos da puta sabiam e nos encheram de medo!
Sabem qual é a melhor parte?
Há alguns meses, no metrô de Madri...
vi uma mulher parecida com a Gladys.
Comecei a tremer quando vi. Era muito parecida.
Fiquei tremendo, não conseguia controlar.
Mais uma vez, o medo que tinha me perseguido tanto.
Mas sentei ao lado dela.
E perguntei se me conhecia. Ela disse que não.
Perguntei se o nome dela era Gladys...
ela disse que não e riu.
Nessa hora, eu vi que era ela.
Me deu vontade de bater nela.
Ela tinha ido embora.
Aquela mulher tinha saído de Cuba.
A mulher que me enchia de medo por ter 500 dólares.
Eu levantei.
É... levantei, olhei para ela...
e vi que ela já não tinha poder sobre mim. Eu não tinha medo.
Foi aí que decidi voltar para cá.
Para a minha casa.
Tradução CLÁUDIA BERTOLUCCI
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