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Sabias que eu ia chamar-me Scott em vez de Gordon?
"Scott Ramsay" não soa…
É melhor que Gordon, porra.
Tenho mais sete anos do que tu. Havia…
- Oito. - Sete.
- Havia uma… - Oito.
Depende da altura. Agosto, novembro.
- Sete e meio. - Ficam perto.
Havia uma música horrível na escola, em Stratford,
do Jilted John, "Gordon Idiota".
No início…
Tenho de pôr a tocar. Jilted John, "Gordon Idiota".
Ainda me assombra…
Quando ouço na rádio, desligo.
Jilted John, "Gordon Idiota".
Não sabia que tinhas problemas com o teu nome.
Pois.
Prontos?
Ouvia sempre isto na discoteca. Prontos?
Tenho saído com uma miúda Uma tal de Julie
Mas ontem ela disse-me a mim
Quando estávamos a ver TV
Aí vem o refrão.
Eu sei que ele é um idiota
O Gordon é um idiota
Cum caraças!
O Gordon é um idiota
Adoro que esta canção te tenha afetado tanto.
Não sabias, pois não?
Vou mostrá-la ao Oscar.
Não vais nada.
Têm alguma música para passar no genérico?
Vamos! Dois, três, quatro
EU, GORDON RAMSAY
Fiquei triste e chorei E fui até ao tasco
Quando saí, estava lá o Gordon Na paragem de autocarro
Vamos?
O Gordon é um idiota
- Bom dia. Como estás? - Ótimo.
Que maravilha.
Vou demorar dois segundos.
- Olá. Uma selfie rápida? - Obrigada.
- Vou só sair. Depressa. - Depressa.
Um, dois, três.
- Já está. Tem um bom dia. - Obrigada.
Selfies em todo o lado.
O meu ritmo é mil à hora.
Parece caótico, frenético e louco,
mas é um caos controlado.
Aula de coquetéis para influenciadores de tarde
e, à noite, o evento com o presidente da câmara os Dolphins.
A sério? Que dia cheio.
Este ano, a pressão é enorme.
BISHOPSGATE LONDRES
Não há tempo para parar.
O 22 Bishopsgate será o projeto mais ambicioso
que já criei em toda a minha vida.
Não será apenas um restaurante. Serão cinco.
Mas a Bread Street está atrasada, temos um a menos.
A Bread Street era a nossa segurança.
Falamos de milhões de faturação.
Deu para o torto e a pressão aumenta.
Por motivos financeiros, os quatro negócios têm de abrir a tempo.
Por baixo das rugas e do sorriso, estou todo borrado em silêncio.
Faltam duas semanas para as férias de Natal
e voltamos a 2 de janeiro.
O restaurante abre a 3 de fevereiro.
MESTRE DE OBRAS
Já terão clientela.
Por isso…
Estamos ocupados.
A cozinha principal está quase.
É muito grande e pesada, temos de estar atentos ao transporte
para não danificarmos os acabamentos.
Porra!
Tenho as obras loucas no Bishopsgate,
a todo o gás, a mil à hora.
Mas não posso estar sempre lá,
porque tenho de gerir o negócio internacional.
Não estou só ocupado com os restaurantes.
Programas de televisão, anúncios,
podcasts e publicações nas redes sociais.
Como se faz um coquetel com um telemóvel na mão?
Como é possível?
Detesto que achem que prefiro ser um chefe da televisão a um chefe a sério.
Não aceito isso.
Matei-me a trabalhar na cozinha e mato-me a trabalhar na televisão.
Não sacrifiquei os restaurantes pela televisão
e não usei a televisão para fingir o que se passa nos restaurantes.
Os restaurantes são verdadeiros.
Para mim, andam de mãos dadas,
e uma mão alimenta a outra.
Fechem isto!
OS PESADELOS DE RAMSAY
Isto tem tanta… que parece a peste.
Fizemos mais de dez temporadas e cem episódios de Os Pesadelos de Ramsay.
Acho que fui a quase todos os estados dos EUA.
Estou muito orgulhoso desse programa.
Vamos.
Foi uma espécie de primeira perspetiva
do perigo de brincar aos restaurantes.
Chamava os bois pelos nomes, não estava para brincadeiras.
Leva já a porra da comida.
Corre.
Não fazes isso há 19 anos.
Quando dizem que deixei a indústria e fiquei demasiado famoso,
eu digo: "Vão-se lixar, que disparate."
Vou além disso e mostro que ainda sou capaz.
Raios! Vá lá, meu.
Estamos atrasados, mas têm de falar.
Tens dois minutos.
A minha vida é muito diferente agora.
Gordon, adoramo-lo!
Se me tivessem dito há 20 anos que eu teria um império e vários negócios,
e que ia vingar nos EUA…
Olá, pequenote.
Queres entrar no MasterChef Júnior?
- Sim! - Queres?
Acho que não teria conseguido entender
como seria esse tipo de exposição mediática.
Boa noite.
Obrigado. Boa noite.
Mas ficaria desiludido se achassem
que venderia a minha alma em troca de popularidade.
Não sabem aquilo que me é mais importante,
que é a minha reputação como chefe.
Estamos sempre a ver o Gordon Ramsay e eu adoro-o.
Adoro a nossa cidade, estou feliz por ele vir cá.
O que é isso?
- Andas com isso atrás? - Sim.
- Meu Deus! - Fui eu que o programei.
Certo.
Obrigada, Gordon. Adoramo-lo.
Posso fazer videochamada com os meninos?
O Oscar está na casa de banho? É melhor não fazer videochamada.
É muito difícil quando alguém se ausenta muito
e tem um trabalho tão exigente como o do Gordon.
Já lá vão trinta e tal anos e nunca ficou mais fácil.
Está?
- Olá! - Olá!
Meu Deus! Está a gatinhar tão depressa.
- Parece um foguetão. - Sim. Meu Deus!
Houve alturas difíceis, em que aprendemos.
Temos de continuar na vida um do outro
e fazer um esforço para criarmos uma ligação.
Vou aonde o Gordon está e, enquanto ele trabalha,
vou ao hotel para tomar um duche, trocar de roupa e ir ter com ele.
O teu quarto de hotel é tão arrumadinho.
Deixas tudo do teu lado da cama e o outro está pronto para mim.
Fico triste por ele estar sozinho,
mas depois fico feliz por estarmos uns dias juntos.
- Temos saudades tuas. - E eu vossas.
- Diz "boa noite". - Boa noite, papá!
Adeus, Osc.
Credo! Vai lá. Amo-te, querida.
Mas o Gordon também mudou.
Tornou-se disciplinado para ter tempo livre.
Acho que é por isso que ele decide: "Pronto.
Não vou trabalhar durante um mês no verão."
Não vai trabalhar, só vai estar na Cornualha.
CORNUALHA REINO UNIDO
Achava que era um helicóptero, mas não é. É um pássaro!
A Cornualha é o nosso lugar feliz.
Vamos até lá
e depois de um dia ou dois de estarmos juntos no exterior,
sentimos uma certa calma.
Isso é muito especial.
Estou tão entusiasmada. Nem acredito.
O Gordon passou seis semanas fora, foi demasiado. Mal podemos esperar.
Apanha!
Passou-te por cima!
Vai ser caótico. O Oscar vai comer baldes de doces.
E eu vou ficar para segundo plano.
Acho que o Oscar vai querer todo o tempo dele.
É merecido.
É um avião? Acho que estou a ouvir.
Ali! Olhem!
Começa a acenar!
- Olá! - Por aqui!
Aqui, papá!
Papá, aterra aqui!
Olha só. Não é fantástico, Osc?
Papá!
Papá.
Sabes o que dizer ao helicóptero?
"Obrigado por trazeres o meu papá em segurança."
Papá.
Vai, querido! Depressa!
- Vai lá! - Vai!
Olá, papá!
- Olá. - Olá.
Companheiro! Olá! Estás tão grande!
- Estás bem? - Sim.
- Cresce mais. - Obrigado.
Cresceste!
- Pai, é tão bom ver-te. - Que maravilha.
Há quanto tempo, Gord.
- Levo alguma coisa? - Estou mortinho por mijar.
Meu Deus! Mas…
Papá, podes fazer xixi aqui!
- O quê? - Podes fazer xixi aqui.
- Posso? - Não.
- Estou a ver… - Depressa.
- Vou ficar ao teu lado. - Papá.
Pequenote.
T?
T?
- T! - Não sei do que…
Credo!
Tira os meus óculos!
São os meus óculos novos! Vais alargá-los!
Sempre que o Gordon volta de uma viagem,
as coisas normais e rotineiras vão por água abaixo.
Isso deixa-me louca.
Grande Oscar.
- Pai. - O que foi?
Ainda nem são 10h.
Para alguém tão consciente de tudo,
adoras encher o Oscar de doces.
É uma goma de fruta, por amor de Deus.
Açúcar para o acordar.
Sim, ele está cansadíssimo.
O que chamam os teus amigos ao papá?
O homem dos doces.
É uma goma de fruta.
Acho que atrapalho a rotina porque a Tana é muito disciplinada.
- Às vezes, em demasia. - Demasiado disciplinada?
Tens de deixar que façam as coisas à sua maneira.
- Não tem demasiado calor? - Pai…
- Ele está bem. Estás de todo. - Tem a cara vermelha.
Não.
É difícil deixá-lo regressar, o que soa estranho,
mas o Gordon disse-me que é um pouco difícil voltar ao ritmo.
Acabamos por discutir e depois fica tudo bem.
Aqui tens, amigo. Dás-me um beijinho?
- Pai! - É uma goma de fruta.
Acho que é uma espécie de distúrbio.
Distúrbio do homem dos doces.
Tenho saudades disto quando estou fora e tento integrar-me depressa.
E… é complicado.
Demoro umas 24 horas só para descontrair.
Este sítio é uma escapadela, um pequeno esconderijo.
Credo! Aqui está o grande White, o homem.
- Tens uma foto do teu herói? - O Marco…
Ele está sempre de olho,
a olhar para baixo.
Trabalhar para o Marco Pierre White
foi uma das melhores coisas que me aconteceu,
porque me transformou.
Um ano depois de começar, o Marco foi a um evento em Yorkshire e disse-me:
"Ficas por tua conta durante uns dias."
E eu: "O quê? Tenho 22 anos e dirijo o Harveys."
Fiz todos os molhos,
desossei pés de porco, recheei-os e fiz os raviólis.
Estava entusiasmado com o regresso do Marco e tirei os molhos todos.
Vi a provarem com entusiasmo.
Ele virou-se e disse:
"Isto está uma merda. Que porra estás a fazer?"
Eu sabia que ele estava a mentir.
As pessoas comentavam:
"Deem os parabéns ao Marco…"
E o Marco nem estava na cozinha, por isso…
Esse foi o meu passaporte.
Foi aí que soube que era capaz.
Temos Os Pesadelos de Ramsay e o pesadelo da Michelin,
com a atribuição de prémios e de todas aquelas estrelas.
O objetivo é sempre conquistar as estrelas?
Acho que as estrelas são só uma confirmação.
De ser bom como o caraças.
Todos os chefes mentiriam se não quisessem esse reconhecimento.
Os futebolistas querem ganhar a Liga dos Campeões ou a Premier League.
Os chefes querem a estrela.
Quando ganhei a primeira, o Marco ganhou a terceira.
Foi o início para mim e o auge para ele.
Isso ditou tudo. Pensei: "Vou ganhar duas. Vou ganhar três."
Estas coisas são poderosas e também devastadoras.
Porque, quando as perdemos, é uma porcaria.
Sentimo-nos os maiores idiotas da indústria
e sentimos muita vergonha.
E perdi estrelas, seja por inconsistência…
Segui em frente, fechei o restaurante…
É uma faca de dois gumes.
Mas é…
É um bico de obra. É mesmo isso que queremos.
LONDRES
8 SEMANAS ANTES
Vamos à sede do Restaurant Gordon Ramsay.
Umas degustações antes do Bishopsgate.
Sei que é cedo,
mas se lhe vamos chamar Restaurant Gordon Ramsay High…
Porra, temos de estar à altura.
É um restaurante de alta cozinha, certo?
É comida única, uma perfeição inacreditável.
O James Goodyear vai dirigir o Gordon Ramsay High.
Ele não faz parte da nossa equipa, vamos arriscar um pouco.
Mas criei uma rede de segurança para o James.
Reuniu-se com a Kim e o Matt,
número um e número dois dos restaurantes principais.
Teve a oportunidade de começar a entender a sério
o Restaurant Gordon Ramsay.
Chegámos. Ainda me arrepio ao passar aqui.
Sacrificámos tudo para termos as chaves disto.
O Restaurant Gordon Ramsay começou do nada.
A única segurança era um apartamento que comprámos.
Obrigado, amigo.
E eu convenci a Tana a vendê-lo.
Lembro-me de quando disseste que tínhamos de conversar.
A Meg era recém-nascida.
Sentámo-nos na sala e tu disseste-me:
"Acho que temos de vender a nossa casa."
Foi assustador.
O banco não investia. Era um sonhador. "Não, obrigado."
Mas, por causa da vontade de avançar e de alcançar,
nunca desistiríamos, só tínhamos de nos concentrar.
Fico mais nervoso a entrar pela frente do que pelas traseiras.
Bom dia, malta.
Gosto de tratar das entregas.
Consigo entrar naquela sala de jantar, fechar os olhos,
andar entre as mesas e lembrar-me de todos os espaços e cadeiras.
- Tudo bem? - Como estás?
- Quantos anos tem ele? - Vinte.
Parece ter uns 12 anos.
A sério, juro por Deus.
O Harry Potter de Royal Hospital Road, com 20 anos.
Fantástico.
No início, não tinha dinheiro para filet mignon.
Tive de usar… rabo de boi.
Ganhei duas estrelas Michelin com isso.
Quando ganhámos a segunda estrela, pensei: "Podemos comprar filet mignon."
Com duas estrelas, as coisas estavam a ficar sérias.
Entre os melhores dos melhores.
Perguntam como se chega às três estrelas.
Temos de ser originais e temos de nos destacar.
Quando ganhamos a terceira estrela,
todos dizem que é um suspiro de alívio, mas não é.
É mágico como o caraças.
De quanto tempo precisas?
- Dez minutos? - Sim.
O que acharam os seus pais?
A mãe aparecia e cumprimentava a equipa da cozinha,
mas ficava intimidada para se sentar e comer.
O meu pai nunca ficaria à vontade naquele cenário.
Fomos tomar o pequeno-almoço juntos.
Havia pequeno-almoço inglês com pão frito.
Eu pedi uma torrada ao empregado.
O meu pai disse: "Ficaste todo chique. Esqueceste-te de onde vieste."
Se tentasse mostrar-lhe o que aprendi ou o que fiz,
isso passava-lhe ao lado.
E de repente, um ano depois, morreu de ataque cardíaco.
Por isso, sim…
Ele nunca se sentou à mesa
e nunca pude dizer: "É para o meu pai."
- Que pena. - Sim.
Sim, é a vida.
James, vem cá.
Senta-te.
Tenho grandes planos para o James.
CHEFE-EXECUTIVO, RGR HIGH
Acho que ele tem capacidades para ganhar uma, duas, três estrelas.
Mas a ementa do 22 Bishopsgate tem de estar imaculada.
É difícil trabalhar para mim.
Kim, começa, por favor.
Temos aqui o nosso creme de ostras de Colchester.
Ao lado, temos tempura de ostras.
O gel tem ostra picada?
- Não. - Não?
Está delicioso.
A minha única sugestão
é pôr picles no fundo, antes do creme.
Tem de ser assim tão grande?
São ostras gigantes, não são?
É muito para comer, não é?
Não?
Acho leve o suficiente.
Na minha opinião.
Acho muito cremosas e leves.
Não são demasiado intensas.
Está muito bom, sem dúvida.
Inspiro-me na natureza e nos produtos.
Trabalhar com ingredientes fantásticos e com as estações
é o que me liga à comida.
Tento representar isso sempre que cozinho.
Sou louco por ser o melhor em tudo o que faço.
Gosto mesmo de estar no topo, é lá que quero estar.
O mundo está de olhos postos no novo restaurante do Ramsay no céu.
Acho que estou concentrado em dar o meu melhor.
Estou confiante de que isso é suficiente.
Se duvidarmos de nós mesmos,
não devemos estar numa posição destas.
10 SEMANAS PARA A ABERTURA
- Entrem por aquela porta. - Por aqui.
Estamos em obras. Não matem ninguém e não morram.
Comparado com um restaurante normal,
a planta do Bishopsgate é enorme.
Mas, por milímetro e por metro quadrado,
é um dos imóveis mais caros de Londres.
Não usamos muito.
A Academy, o Lucky Cat e o RGR High têm de partilhar espaço.
- Ótimo. - É para os três. Quatro.
Isto é minúsculo.
Como o caraças.
Os chefes querem mais espaço do que nunca.
Os empregados querem as maiores bancadas do planeta.
É uma confusão, lutam por cada centímetro,
por cada milímetro do chão.
- Precisamos de mais espaço. - Podemos fazer prateleiras.
Sim, sem dúvida. Vamos fazer.
Mas também temos de pensar na BSK, quando abrir.
Tudo se resume ao custo.
Temos de ser muito eficientes,
trabalhar em conjunto e partilhar espaço.
Temos de partilhar entre três negócios.
Tudo vai funcionar.
É muita coisa, mas…
CHEFE-EXECUTIVO, LUCKY CAT
Vai correr tudo bem.
A verdade é essa.
Toda a boa comida sai de uma cozinha pequena,
porque produz grandeza, porque temos controlo absoluto.
É bom estar no local. Vai ficar agradável e íntimo.
Os convidados vão sentar-se aqui e nós vamos cozinhar aqui.
Fica muito perto.
Alguns convidados vão levantar-se para falar e interagir connosco.
Vão andar pelo espaço.
Vai parecer um ambiente de jantar informal.
Mal posso esperar por estar aqui.
Vai ser qualquer coisa de especial, principalmente com as luzes no escuro.
Ainda não sentimos isso, mas é muito empolgante.
Como vai a escola de gastronomia?
Vai muito bem, obrigada.
Qual é o exame de sexta-feira?
Reconhecimento de ervas e saladas.
Tu não ias passar. Não passas tempo na cozinha.
Não, passava.
Queres ver os meus cartões? Para veres…
A alface?
Acho que eu e o meu pai somos as pessoas mais parecidas da família.
Ele é competitivo e eu também.
Somos muito teimosos.
Mas só um com o outro, acho eu.
Não perdoo nada ao meu pai,
- É alface-manteiga. - Não.
- O quê? - Alface-folha-de-carvalho.
- Tens a certeza? - Sim.
E essa?
Rúcula.
- Não é rúcula. - É.
- Não é nada. - É rúcula caseira.
Tem folhas grandes.
- Credo! - Trevo-azedo.
Não é trevo-azedo. As imagens são péssimas, Tills.
A cozinha aproximou-nos, sem dúvida.
Na universidade, quando não conseguia fazer alguma coisa,
ligava-lhe de imediato.
Como estudo gastronomia, volto para lhe mostrar
que faço as coisas de outra forma.
E ele diz: "Não te ensinei isso."
E eu: "Pois não, foi outra pessoa."
Acho que ele…
Ele pensa: "Mas a minha maneira é a certa."
E eu: "Sim, mas esta também está certa, pai."
Observa. Primeiro, uma pequena fatia no fundo.
Uma fatia em cima.
Mantém a laranja na tábua e corta em redor.
Nunca a seguras assim. Nunca, nunca, nunca.
Isso é muito perigoso. Ela está a pagar.
Na minha cozinha, não pagava.
Punha-a 12 semanas na cozinha e criava uma chefe fantástica.
És um palerma.
Estás a fazer mal. Falta isto tudo.
- É a parte branca. - Não é nada.
"Branca" daqui.
Estás a ver? E cortas.
E tu ainda estás…
Olha, que loucura!
Não gosto que ele se meta quando estou na cozinha,
mas, lá no fundo, gosto disso, porque ele é melhor do que eu.
Nem sempre, mas às vezes é.
- Tills. Demasiados grumos. - Não és o meu professor.
Tive de ir ter com os peritos.
Precisas de gastar energia. Pareces um cão.
Porque não vais dar um passeio?
Podemos ir surfar?
- Sim. - Vou atirar-te às ondas.
O tempo está perfeito para isso.
- Vamos lá. - Vamos, papá!
Queres que te atire às ondas?
Para mim, o exercício é crucial.
Seja ir surfar com o Oscar…
Vamos, meu!
Perco-me de bicicleta durante horas.
Podemos acelerar?
Depressa! Vamos!
Vamos!
Começámos a inscrever os nossos filhos em maratonas no 18.º aniversário,
enquanto outros pais compram carros e iPads,
porque quero que compreendam a importância de manter a forma.
A forma física mantém-nos intactos.
Posso comer o que quiser porque treino.
Não tenho de ter cuidado com a dieta nem com o colesterol.
Não tenho peso a mais. Estou em boa forma e sou forte.
É preciso estar em forma para fazer o que eu faço.
Quanto mais ocupado estou, mais em forma fico.
Reforço isso a todos os chefes.
Arranjem tempo para isso, porque esta indústria não cuida do corpo.
Com o colesterol alto, muita pressão e longas horas,
é preciso descomprimir.
- Vamos, amigo. - Está bem.
Acho que os cozinheiros não costumam ter a melhor forma física.
Esta maldita indústria destrói-nos se não cuidarmos de nós.
Já estive fora de forma porque havia demasiada coisa.
Fui alertado.
Tinha 35 ou 34 anos.
"Tens de começar a cuidar de ti."
E o meu pai morreu de ataque cardíaco seis meses depois.
Aos 53 anos.
Apanhei um susto do caraças, a sério.
Acima de todo, temos de cuidar de nós.
Podes apertar atrás?
Posso, amigo. Inspira.
- Inspiro? - Omoplatas para trás.
Meu Deus! É tão bom voltar aqui.
Fizeste falta.
Queria uma bicicleta, mas estavas de férias.
Se vives na Cornualha, estás sempre de férias.
Acho que o Gordon tem muitos conhecidos,
mas não tem muitos amigos normais, é difícil encontrá-los.
Pessoas que não veem o Gordon de forma diferente daquilo que ele era.
Vais de sapatos, Paul?
- Não. Vou descalço e sem luvas. - Sem nada?
EMPRESÁRIO E AMIGO
A amizade do Gordon com o Paul é fantástica.
Conhecemo-lo desde que ele tinha uns 18 anos,
quando trabalhava para o Gordon.
Meu Deus! Vamos.
Tenho xixi suficiente para me aquecer.
- Foste mijar? - Ainda não.
Guarda o xixi de aquecimento para a água.
Merda! Que fria!
Merda!
Vimo-lo a crescer,
de chefe em início de carreira até ao patamar onde está agora.
Não é revigorante?
Faz-nos sentir assim.
Mantém um velho como eu em forma, garanto-te.
Sempre me senti grata por eles terem uma ligação com o exercício
e por ele ter algo que o faça deixar o telemóvel para trás
para espairecer com um amigo.
É um descanso a sério.
Muito bem.
Estou a congelar.
Vai uma corrida de volta?
Vamos a isso. Vamos!
Adoro esta cozinha. Quando é que o Oscar pode vir?
Para a semana, se quiser.
- Pode entrar? - Sim.
Queria que passasse umas horas aqui no verão.
Pode ser? Ele adora isto.
- Fantástico! Parecem deliciosos. - Obrigado, Jon.
Olha para esta vista.
Nunca cansa, pois não?
Não.
- É linda. - Nunca cansa.
Adoro isto aqui.
Talvez me reforme depois do Bishopsgate.
Isso é uma treta do caraças.
- Não podes. - Não posso?
- Não podes. - Isso assusta-me.
Não tens cara de quem gosta de golfe.
Que se lixe. Não jogo golfe. Tu jogas?
- Não. - Não.
Posso provar? Meu Deus! Que delícia.
- Meu Deus! Que lindo. - Como estás?
Cum caraças. O Gordon Ramsay High…
- Quero logo duas estrelas. - Certo.
O James é promissor e jovem.
É sério. Esteve seis meses em Royal Hospital Road.
Acho que há muita pressão, mas ele é criativo, sério e jovem.
Isso entusiasma-me. Uma equipa jovem e ambiciosa.
Como éramos no início, em Royal Hospital Road.
Lembro-me de que todos queríamos ganhar,
todos queríamos o sucesso.
Vou lembrar-me sempre do dia em que nos contaste…
- Das três estrelas? Caraças. - Sim.
Parece que foi há três meses.
- Que idade tinhas? - Tinha feito 21 anos.
Lembras-te disso, que loucura.
Quero mostrar-te o Bishopsgate.
Podias celebrar lá os 40… Já fizeste 40?
- Eu… - Já fizeste 40?
- Pareces ter 25 anos. - Sim.
- Como estás tão ocupado e… - Nadar em água fria.
Nadar em água fria.
Óleo da Olay.
Não mudes.
8 SEMANAS PARA A ABERTURA
Isto é quadrado?
Medi 1,62 metros.
Medi 1,2 metros.
É o meu olho, rapazes.
Posso ter quase 60 anos, mas ainda vejo bem.
Rapazes, muito obrigado.
Como estamos na época natalícia e sexta-feira é o último dia,
as prendas de Natal são muito bem-vindas.
Estamos a chegar ao Natal, as pessoas estão a ficar cansadas.
É uma obra demorada. Estamos a chegar a um ponto decisivo.
Tem de ser mais escuro, porque parece um pouco poeirento.
Desculpem. É ótimo, mas fica um pouco mal.
Escolher um designer é uma das escolhas mais difíceis.
DESIGNER DE INTERIORES
Quando estamos metidos nisto,
não podemos parar um projeto por causa da decoração.
Trabalhei com o Russell várias vezes, ele é genial.
Apesar de ser desleixado e de ter a fralda da camisa de fora…
A zona de banquetes ali.
… ele compreende.
Tenho sido um chato do caraças para o Russell,
porque sou meticuloso.
Vai ficar incrível.
Está fantástico.
É bom que esteja. Senão, estamos feitos.
O Gordon foi o meu primeiro ou segundo cliente, há 22 anos, acho.
E o Bishopsgate é um dos projetos mais complexos que já fizemos.
Os designers têm egos, que temos de controlar.
Querem manipular a nossa ideia para seguir o rumo que acham melhor.
Temos de aturar as atitudes deles
para vermos como as coisas se desenvolvem.
Estamos no Gordon Ramsay High.
É muito requintado e exclusivo.
Tivemos uma breve discussão sobre o que pôr nestas colunas.
No início, mostrámos quadrados de couro acolchoados.
Mas as colunas iam aumentar de tamanho
e perderíamos dois lugares na mesa grande que fica entre elas.
Temos de pensar quanto valem esses lugares para o Gordon.
Talvez 300 libras por pessoa, por noite.
Por isso, são 600 vezes 7.
Dá entre 2 e 8 mil libras por mês.
Falámos de uma perda de cem mil libras só por termos pormenores em couro.
Por isso, a cobertura tem de ser muito mais fina.
A maior frustração é o Gordon chegar e dizer que não lhe agrada.
Mas nós percebemos disto.
- Já abrimos as marcações. - Certo.
Isto não pode atrasar.
- Tudo bem. - Não pode.
Não te preocupes. Vai correr bem.
Dizes sempre para não me preocupar.
Eu preocupo-me.
O teu trabalho é esse,
mas preocupo-me mais, para não teres de te preocupar.
Não te preocupes.
A sério, não te preocupes. Está quase pronto. Não te preocupes.
- Está bem? - Porra!
Hoje é um grande dia.
Vamos ver as fardas e fazer uma degustação com o James.
Vamos fazer figas.
É um grande dia. Quero cozinhar para ele.
Estou pronto para ouvir o que ele acha.
Sim, estou nervoso.
A expetativa é alta,
mas não gosto do que faço se não tiver essa pressão.
Isso dá-me motivação.
- Bom dia. - Bom dia.
Obrigado.
Meu Deus! Olá, malta.
ESTILISTA
- Gianni. Prazer. - Prazer.
As cores são impressionantes.
É só que o avental…
O hexágono dá logo nas vistas. Foi intencional?
- Sim. - Certo.
A minha ideia era usar o hexágono do logótipo.
Mas não são bem hexágonos, pois não?
São metades de hexágonos.
Certo…
Estes aventais parecem dos anos 80.
Os aventais têm bolsos de lado.
Não sou fã de bolsos. Começam a acumular tralha.
Inclina-te.
A gravata está solta. Entra no copo de água.
Vai ficar péssima com nódoas.
Está demasiado sério.
- Foste ao sítio? - Desculpe?
- Foste lá? - Ainda não.
Caramba! Porque estás a desenhar para um sítio aonde não foste?
Quando fores, vais perceber a minha visão.
É fixe como o caraças.
Não é aborrecido.
Vamos tornar isto mais leve.
Obrigado.
- O zabaione está pronto? - Sim, James.
- Tratas do frango com parfait? - Sim.
O James Goodyear é o Sr. Mistério.
Há sempre esse medo.
E se ele não se sair bem?
Vi de manhã e temos duas mil reservas.
Ainda não disse ao James,
mas o Gordon Ramsay High estará cheio nos primeiros dois meses.
A pressão é alta. As pessoas pagaram cauções.
Temos de nos organizar.
Começa a fazer o sorvete.
Certo.
A pressão é enorme.
Sinto-a todos os dias.
Trabalhámos muito nisto. Por isso, estamos apreensivos.
Ele pode cometer vários erros pequenos,
mas uma asneira da grossa, a um nível destes,
nunca na vida será permitida.
- Olá. - Olá, Gordon.
- Estás bem? - Sim, obrigado. Estou entusiasmado.
Eu também. Começa a trazer.
- Chefe. - Sim.
Começa lá, James.
Começamos com uma seleção de canapés.
Será servida à chegada.
Vamos servir individualmente.
Depois, sablé de parmesão com creme de cebola francês,
caviar e cebolinho.
Um gelado de ostra.
Servimos com maçã fresca, endro e azedas para refrescar.
É diferente de há dois meses.
Parecem maiores só de olhar.
Ótimo.
Serve dois canapés de cada vez.
Se a Tana estivesse aqui, ela comia o sablé e eu comia a ostra.
Dá opções e deixa desfrutar.
Muito bem, sem dúvida.
Penso sempre como comemos.
Comer algo com uma perfeição tão refinada nunca deve ser desconfortável,
seja pela forma como é cortado, pelo tamanho da porção…
Isto é tártaro de vieiras com sumo de clementina,
óleo de avelã,
calamansi e trufas, para dar vida,
e cobrimos com gelatina feita de consomé de marisco.
Visualmente, está lindo.
Eu registo as notas, os temperos,
a acidez e a textura.
Precisa de tempero nas vieiras, porque estão muito doces.
Temos ácido e doce. Só falta um pouquinho de sal.
Mas está lindo.
A seguir, temos a lagosta. Viu-a a ser defumada em pinho.
Aqui, temos uma tartelete.
Por dentro, écrasé de abóbora.
Creme de pinho, para dar frescura ao prato.
- Óleo de lagosta para terminar. - Que maravilha.
Visualmente, está lindo, James.
Está lindo. Adoro a tartelete. Tem muito requinte.
Crocante desde o início.
A grande questão é: precisa do caviar?
- A lagosta é a estrela. - Sim.
A comida do James é única.
A única coisa que ele tem de melhorar é a personalidade.
A personalidade faz o restaurante.
É o ingrediente especial que não podemos comprar.
Ele é tímido por natureza, tem uma personalidade reservada,
que tem de se abrir agora.
Tem de abrir o bico.
Quero ouvi-lo, e a malta também.
O James tem de ser assim agora.
Como isto é muito íntimo,
não tornes isto uma missa e não sussurres.
Quero mais envolvimento.
Tens de entrar nessa zona de conforto.
Mas está ótimo. Os sabores estão incríveis, a sério.
As entradas, as vieiras e a lagosta merecem duas estrelas.
Depois do Natal, vamos pôr-te lá.
Bom trabalho.
- Ótimo trabalho. - Obrigado.
Estou muito feliz.
- Vamos arrumar. - Sim.
É ótimo saber a perspetiva dele.
Deu-nos algumas ideias.
Vamos pegar nisso e melhorar.
Sabemos o nível a que temos de estar.
Temos de saber como melhorar daqui em diante.
Não estou diretamente no fogão
como estava aos 20 ou 30 anos,
mas apoio a minha equipa, porque têm uma responsabilidade imensa.
Os clientes já entram lá com as expetativas aqui.
Qualquer negócio desta dimensão depende do fluxo de caixa.
Financeiramente, a Bread Street é um buraco enorme.
DIRETOR DE RESTAURAÇÃO
- É a Bread Street, certo? - Sim.
De momento, é um estaleiro para todos os materiais.
A Academy é íntima e pequena.
Não podemos usá-la para equilibrar as finanças.
Temos um percalço no terraço.
- Um percalço? - Sim.
Que porra!
Quando começamos o projeto, sabíamos que pôr um telhado num edifício…
Sim.
… que não foi concebido para tal ia ser ambicioso.
A ideia era ter um terraço japonês com um bar aberto
e um jardim incrível, quase zen,
com um telhado retrátil.
Para terem uma medida exata antes de fabricarem,
precisavam de cinco dias de bom tempo.
Não tivemos tempo.
Não pudemos ir ao telhado para tirar as medidas.
Isso causou um atraso na produção.
Merda!
O que atrasou a abertura no dia 3 de fevereiro.
Como agendamos cinco dias de bom tempo no inverno?
Credo! Está horrível.
Pois, não vai haver bom tempo antes do dia 3 de fevereiro.
Credo! O contratempo com o terraço é…
O tempo britânico de merda.
É um choque.
Aquele telhado está assim tão mau?
Porra!
Que trabalho…
Que trabalho.
Credo!
O que fizemos? Parece mais real.
Que porcaria.
Está a acontecer.
Legendas: Pedro Marques
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