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Tira as espadas!
Fica aqui.
Tira as espadas!
Sabias que saímos daqui a 15 minutos?
- Quero trocar. - Porquê?
- Porque… - Esta está partida!
Espera!
Tira as espadas!
Oscar. Hoje, a mamã e o papá vão ver o restaurante novo.
Olha o que temos de usar. Não é fixe?
És o Bob, o Construtor. Anda cá!
Só para prevenir. Já está.
Fica-te mesmo bem.
Oskie, podes pôr pedaços de panqueca no tabuleiro para lhe dares.
Deixa-o comer o que tem na boca.
- As panquecas ficaram muito altas. - Não eram para ti.
Oscar, as panquecas ficaram demasiado altas?
Não.
Nos EUA, são altas.
No Reino Unido, chamam-se "crepes".
- Diz "crepes". - Crepes.
Não se chamam nada. São panquecas.
Não, chamam-se crepes.
Ficaram muito altas.
São ótimas para manter a porta aberta.
T, vou buscar os sapatos e as meias.
Dá cá um beijo.
- Adoro-te. - Adeus!
As panquecas ficaram altas.
Querido, podes parar com isso?
- Está bem. - Estavam boas.
Bom dia.
Querido, as pessoas acham-te muito estranho.
Bom dia, Sr. Passarinho.
Calma lá. Cumprimentas todos os passarinhos que vês
e eu sou estranho por cumprimentar os vizinhos?
É normal. Muitas pessoas são supersticiosas.
- E tu? Porquê? - Porque estou nervosa.
É um grande empreendimento.
É o teu maior trabalho até agora.
Não é um restaurante qualquer.
Pode ser uma oportunidade única na vida.
Não estou para brincadeiras. Tens de ver primeiro.
- Está ali ao fundo. Vês? - Sim.
- Estás a ver? - Sim.
O que achas?
É alto.
Nesta fase avançada da tua carreira,
sabes que quero que pares um pouco.
Fase avançada? Estou quase a reformar-me?
Tens quase 60 anos.
Quase 60, o tanas!
- Quantos anos tens? - Tenho 57. Não é quase 60.
Sabes contar?
Foi quase há 30 anos que começámos a namorar.
- Cala a matraca. - Ouve o que te digo.
Estamos juntos há 30 anos…
Desculpa. Há ali um café, vou só…
Não consegues passar por um café sem…
Estava a dizer que…
Já volto. Não digas o que ias esquecer.
Apoiem os cafés locais. Vamos.
Credo, miúda!
Ele dá comigo em doida.
Bom dia. Era um latte com leite de aveia quentinho, por favor.
Obrigado.
EU, GORDON RAMSAY
- Estão cá todos. - Bom dia.
- Bom dia. - Estamos atrasados.
Inacreditável.
- Chocante. - Não me atrasei.
Bom dia.
Bom dia a todos. Não!
- Então? Olá a todos. - Olá.
UMA PEQUENA EQUIPA DE FILMAGEM ACOMPANHOU GORDON DURANTE UM ANO
Ótimo.
- Ótimo. - Muito bem.
- Meu Deus! Vá lá! - Sim!
É tão baixo.
Nunca me atiro para o sofá e…
- Atiras-te, sim. - Não me atiro nada.
Pronto.
E DOCUMENTOU TODOS OS ASPETOS DA SUA VIDA
ANTES DO LANÇAMENTO DO SEU MAIOR PROJETO
Estás confortável?
Só preciso de mais uma almofada atrás.
- É A Princesa e a Ervilha. - Não… Obrigado.
- "Doem-me as costas." - Meu Deus! Desculpem.
Já está.
- A seguir, vais tirar as calças. - Meu Deus! Recursos Humanos!
Vamos! 'Bora lá!
A 1 de setembro de 1998, abrimos o Restaurant Gordon Ramsay.
Passaram 30 segundos.
Se me dissessem há 25 anos
que eu ia ter três estrelas, um império e vários negócios…
Acho que não conseguiria compreender a imensidão do que foi feito.
Serviço, por favor.
Agora, temos mais de 95 restaurantes e 2500 funcionários.
O inigualável chefe Gordon Ramsay!
Temos restaurantes na Ásia, América do Norte, Reino Unido e França.
E continuamos a crescer.
E ainda temos a comunicação social.
Leva a porcaria da comida. Já! Corre!
Não fazes isso há 19 anos.
De programas de TV, a anúncios,
a podcasts, a vídeos para as redes sociais.
Milhões de seguidores
por todo o mundo.
Ficámos gigantes.
Como estás? Estás bem?
Temos de parar de nos encontrar assim.
Este ano é importante.
O 22 Bishopsgate é o projeto mais difícil,
mais sufocante e ambicioso
que já criei em toda a minha vida.
Vou abrir cinco negócios separados, debaixo do mesmo teto, num local icónico.
Há tanta coisa em jogo, a nível de reputação e de finanças.
Se o Bishopsgate falhar,
estou lixado.
Não há volta a dar.
- Temos 120 clientes, porra. - Sim.
Daqui a uma hora, teremos 240.
São chefes talentosos. Concentrem-se.
As pessoas pensam que conhecem o Gordon porque o veem em todo o lado.
Jovem, se eu entrego pratos, tu também consegues.
Vá lá, tu consegues.
É conhecido por ser opinativo e direto.
Está demasiado certinho.
Quero que tudo seja único nas mesas.
Tem de ser assim tão grande?
São ostras gigantes, não são?
- Não chega. - Certo.
Não chega.
Hoje, o senso comum não é assim tão comum.
Mas conhecem-no em casa, com a porta fechada? Não.
O verdadeiro Gordon existe quando estamos sozinhos, em família.
Aí, somos autênticos.
Para o Gordon, o mais importante são os miúdos.
Fizeste cocó? Fizeste?
Estás a fazer mal. Falta isto tudo.
É a parte branca. "Branca" daqui!
És um palerma.
Quando falaram do Bishopsgate,
fiquei nervosa com a sua grandeza.
Fico sempre preocupada quando ele aceita mais projetos.
BISHOPSGATE LONDRES
Olha para esta beleza.
Olha só.
Estás pronta?
- Vamos. - Estou sempre.
- Tenho medo de alturas. - Bolas! Só me dizes agora?
O 22 Bishopsgate tira-me o sono.
Estes sítios não passam despercebidos.
É um edifício icónico no meio da cidade
e salta logo à vista.
É gigantesco.
Dois mil e quinhentos metros quadrados.
É como um restaurante no meio do Wembley.
Tenho grandes planos para este sítio.
Primeiro, em cima de tudo,
um terraço com jardim, 60 lugares e um teto retrátil.
Debaixo, o Lucky Cat, um restaurante de inspiração asiática com 250 lugares.
Ao lado, o Restaurant Gordon Ramsay High,
uma experiência gastronómica única de 12 lugares.
Por baixo de nós,
a cervejaria aberta todo o dia, a Bread Street Kitchen.
Em quinto e último lugar, a Academy, uma escola de gastronomia deslumbrante.
É incrível.
É mesmo incrível.
E quero lá estar.
Abertura de portas.
Muito bem, estamos no…
Estamos no 59.º andar.
Isto é a Bread Street Kitchen,
um dos cinco projetos.
- Os meus ouvidos rebentaram. - Todos os clientes…
Estás pronta?
Terão de passar por aqui para chegar ao Gordon Ramsay High.
Então…
Olha só. Caramba!
Pois.
É enorme.
Olha até onde dá para ver.
Olha para os aviões.
Estão baixos.
- Estamos à altura deles. - Pois.
O Shard está ali.
Parece minúsculo.
Olha para baixo.
Não, vem cá. A sério.
Parece tudo pequeninho.
Não é uma sensação estranha?
Não, credo! Não…
O London Eye, o Parlamento…
A Catedral de São Paulo.
Parece um jogo, não parece?
É tudo minúsculo.
E ali em baixo,
logo depois da ponte,
foi onde nos conhecemos.
- Na Tower Bridge? - No Pont de la Tour.
Pont de la Tour, desculpa. Fica ali?
- Apresentaste-me a tua noiva. - Deixa-te de tretas. Credo!
A sério, porque falaste dessa porcaria agora?
Só estou a contar a história.
Cum caraças.
Quando conheci a Tana,
era amigo do namorado dela na altura.
Eles foram-me buscar.
Estava com a minha namorada, de Paris. Íamos ao casamento de um amigo.
A Tana estava a conduzir e eu estava no banco de trás.
Olhei para o meu amigo e pensei:
"Meu Deus! A tua namorada é linda."
Parecia a Julia Roberts em jovem
e tinha um entusiasmo como ninguém.
Não sei se foi o que a Tana disse quando me conheceu,
mas acho que ela não gostou lá muito de mim.
Não gostei dele.
Achei-o muito arrogante e convencido.
Ele irritava-me muito.
Mas será que não gostava dele por, no fundo, gostar dele?
Não sei. Cerca de um mês depois, ficámos os dois solteiros.
Ela sabia que eu estava nas lonas e, para ser sincero,
durante meses, achei a Tana areia a mais para a minha camioneta.
Depois, acabámos for passar uma noite inteira a conversar.
Acho que gostei dele.
Conquistei-a com comida, graças a Deus.
A enorme ambição e a dedicação absoluta estavam lá.
Ele sempre sonhou em grande.
Sabem que mais? Ele só…
Para mim, é só o Gordon.
Conheço-o desde os 18 anos.
Então, crescemos juntos durante este tempo todo.
Em teoria, nós não funcionaríamos.
Mas ela é o pilar de tudo, sem dúvida.
Acho que seria muito estranho
conhecer alguém já famoso sem saber
como era antes.
Passámos por isso juntos
e estou muito grata por isso.
Quero levar-te ao topo.
- Vamos? - Sim.
Espera até veres isto.
Estás pronta?
Não precisas de esperar por mim.
Desculpa. É o 61.º piso, estou entusiasmado.
- Não se nota. - Pronta?
- Meu Deus! - Estás pronta?
Merda! Que chave é?
Dizes mais palavrões quando estás nervoso.
Desculpa.
Não te preocupes, é só o vento.
- Porra! - Estás a fingir?
Não. Não estou a brincar.
Olha para a altura.
- Vai primeiro. - Não, vai tu.
Não. Eu fecho a porta, para não bater. Vai primeiro.
- Não há chão! - Vai-te lixar.
Isto vai ser um lindo terraço.
O teto é retrátil.
Podes celebrar o 60.º aniversário aqui.
Acho que vais celebrar primeiro. Não é para o ano?
Meu Deus! Olha para isto, querida!
É incrível, não é?
É incrível. É muita pressão.
Por agora, só temos a estrutura, mas não falta muito.
- Ia dizer isso. - Faltam meses, não anos.
Toda a gente aqui tem de entender que lutamos contra o tempo.
Sim.
Por cada semana com isto fechado, perdemos 100 mil libras.
Tem de abrir.
E vai abrir.
Vai abrir
Vamos pôr as coisas em perspetiva, está bem?
O Bishopsgate é muito arriscado, mas a recompensa é alta.
Tenho 57 anos.
Não vou para novo.
Nunca pensei dizer isto. É uma das minhas últimas jogadas de risco.
Vou ser recordado por isso.
O orçamento é de 20 milhões de libras.
É financiado por mim, com a ajuda do banco.
Estou todo borrado.
Cresci num bairro social em Stratford-on-Avon
e ainda me lembro do meu uniforme da escola,
com remendos pretos nas calças em segunda mão.
A minha mãe dizia que os remendos de cabedal ficavam bem.
Tinha buracos debaixo dos remendos.
Faço muitas coisas ao mesmo tempo porque a via a fazer isso.
Três empregos.
Cozinheira, cuidadora noturna e empregada de limpeza.
Cozinhava para nós e, de repente,
estava com as mãos num urinol, a limpar.
Vou ser sincero, tenho sempre aquela
pontinha de medo.
"Vais falhar."
E agarro-me a isso.
Quero ter isso comigo, para me lembrar.
É por isso que é difícil trabalhar para mim.
Quero que tudo fique perfeito.
Não quero que nada me escape.
É tudo ou nada.
Quero que este edifício tenha alguns dos melhores restaurantes do mundo.
Para alcançar isso,
temos de analisar muitos pormenores.
Até os guardanapos.
É uma cozinha aberta?
Precisa de algo mais íntimo? Primeiras impressões.
Precisa de impressionar.
Chefes fenomenais.
Uma brigada enorme.
Os uniformes.
Tamanho da ementa.
A disposição das flores.
O tamanho da garrafa de água.
Sou um chato do caraças, porque analiso tudo minuciosamente.
Antes de fazermos algo, temos de construir.
Não sou de Londres, sou de Birmingham. Vivo em Stirchley.
MESTRE DE OBRAS
Viajo três horas e meia todas as segundas-feiras de madrugada.
Acordei às três da manhã.
Apanhei o comboio e o metro
para chegar ao Bishopsgate.
Não passo muito tempo em casa no fim de semana.
Volto sexta-feira à tarde
e passo o fim de semana nas compras com a minha esposa.
E ficamos com um dos netos aos domingos.
Vou deitar-me às 21h e levanto-me às 3h ou 3h30 de segunda-feira.
22 SEMANAS ATÉ À INAUGURAÇÃO
É a quarta obra que faço para o Gordon.
Isto está noutro patamar. É um trabalho importante.
Quero que ele se lembre de mim
como um homem que faz sempre o seu trabalho a tempo,
sempre bem-feito e sem problemas.
Leva isso para o 60.º andar.
E o resto para o 59.º andar.
Está bem.
Os maiores problemas são as entregas.
É o edifício mais alto de Londres.
Só há um elevador até este piso.
Só cabem materiais com três metros de comprimento.
Passamos o dia a subir e descer escadas,
para garantir que a próxima entrega passa.
É um trabalho difícil e cansativo,
mas é um orgulho trabalhar nele.
Temos muito orgulho.
- Isto está cheio. - Gordon.
Tudo bem?
Quando o Gordon vem, a equipa fica uma pilha de nervos.
Deve chegar amanhã.
O que é isto aqui?
É madeira?
Sim, é…
Há muito que fazer.
ADMINISTRADOR DE RESTAURAÇÃO
Mas estão a dar o máximo.
- O que é isto? - É uma viga estrutural.
- Vai estar na parte do sushi. - Certo.
Devíamos pintá-la de preto?
É como preferir.
Pintada, ficava mais deslumbrante.
- Podes pôr isso na lista? - Vou pôr.
Ele é extremamente motivado e concentrado.
- O que há aqui? - Lava-louças.
Lava-louças tão perto da…
- Há uma porta. - Estou a falar do barulho.
O barulho?
Cum caraças.
Deixa bem claro aquilo que espera da nossa equipa.
O que é isto?
Uma sala privada.
- Sala privada. - Toda em vidro…
- Sim. Vidro fumado? - Pode ser, se quiser.
Devia ser ligeiramente fumado, não acham?
Para dar privacidade.
Se não tem privacidade, como é que vai ser privada?
- Pois… - Sim.
Sobretudo quando vão ao WC.
Não quero nenhum jardim zoológico.
Podem ser vidros fumados, por favor?
Temos 22 semanas para acabar isto.
Esta é a planta.
Faltam 30 mm aqui.
A pressão é maior, é um trabalho importante
e, ainda por cima, é para o Gordon Ramsay.
Afinal de contas, é o trabalho e o restaurante dele.
O Gordon é que manda.
Vês a parede que fizeste?
- Sim. - Manda-a abaixo.
- Está bem. - Já não a querem.
São teus filhos?
São parecidos contigo.
Obrigado. Não sou assim tão velho.
Mas falta pouco.
Parecem teus filhos.
Quero saber se estamos a tempo.
- Não. - Não?
Não, estamos adiantados.
O quê?
Adoro. Continuem assim.
Obrigado, amigo. É bom ver-te.
Obrigadinho, rapazes.
Pequeno, o Alfie vem aí. Pronto para cortar o cabelo?
Vou mostrar-te o que a avó fazia.
Punha-me uma tigela na cabeça e cortava isto tudo.
Parecia um capacete.
- Também queres? - Sim!
Sim!
O Gordon trabalha muito, mas somos felizes quando estamos em casa,
porque ele é muito descontraído com coisas mundanas.
Vamos! De quem é isto?
De quem é isto? T, não faças isso.
Nada nos põe mais os pés na terra do que ter filhos, não é?
Sim, chamo-lhes "mini-eus". Adoro.
Temos seis filhos, a nossa própria brigada.
A Megan, a mais velha, tem 27 anos.
Depois, os gémeos, a Holly e o Jack, com 25 anos.
A Matilda tem 23 anos.
O Oscar tem seis anos e o Jesse James tem 18 meses.
- Falta algum? - Não.
Ainda bem, caraças.
Gosto do meu cabelo assim.
Tens de cortar um pouquinho, porque não gostas que escove.
Não podes ir à escola sem ver nada.
A escola vai começar, está bem? Tens de parecer bonito e inteligente.
Estar com eles puxa-nos mesmo para cima.
São momentos muito especiais.
Essa foi boa.
Infelizmente, tinha uma péssima relação com o meu pai.
Só queria estar fora de casa, longe dele.
Podemos dizer que não eras o filho preferido dele.
Ele tinha prazer em dizer coisas que sabia que te iam revoltar.
Sim. Uma vez, o meu pai chamou-me snobe.
E eu disse: "Não sou nada snobe.
Só quero sair da porcaria em que nasci."
Tinha de passar os fins de semana
a vê-lo a arruinar a própria vida com álcool.
É difícil estar com alcoólicos.
É difícil criar uma ligação, porque estamos nervosos
e temos medo de que a garrafa chegue ao fim,
que a garrafa de Bacardi desapareça,
porque sabemos o que acontece depois.
Aproveito essa relação horrível de várias formas
para ser um pai melhor.
O que está aí?
É o Alfie? Abre-lhe a porta. Bom dia, Alfie.
Bom dia, Alfie.
Vou pôr um tigela na cabeça e tu cortas à volta.
Uma tigela de que tamanho?
Vou mostrar-te.
Bem…
Experimenta esta. Pequenote!
Que bela cabeça de gaita.
Pai! Não digas isso.
- Ele… - Não digas.
- Não digas. - Está…
Imagina ele dizer ao professor: "Gosta do meu penteado à cabeça de gaita?"
Queres fazer café comigo?
A Tilly e o Gordon são muito parecidos.
De todos os filhos, ela deve ser a mais parecida.
Estão unidos pela paixão da Tilly por gastronomia.
Acho que ele ficou muito feliz por ela enveredar nessa indústria,
porque parecia que nenhum estava interessado nisso.
Vamos fazer massa salteada.
Comecei a cozinhar muito nova.
Quando o meu pai filmava, eu espreitava pela porta.
Ele punha-me ao lado dele e foi começando a dizer:
"Podes misturar isto? Podes deitar uma pitada de sal?"
Para mim, era empolgante participar em tudo o que ele fazia.
Apanhei o bichinho da cozinha muito cedo.
Agora, tenho a oportunidade de ir para a escola de gastronomia,
de aprender por mim,
de aprender as minhas coisas
e dizer ao meu pai coisas que talvez ele não saiba.
A minha pequena vai tirar medidas
para comprar a primeira farda.
Várias vezes…
Eu vestia-a quando ela tinha quatro anos.
Comprei-lhe uma jaleca cor-de-rosa há anos
e achei que estava a pressioná-la.
Percebem?
Devia ser só se ela quisesse. E ela pediu.
É um momento importante.
Não tão intimidante como ver uma filha vestida de noiva,
mas está lá perto.
Está lá perto. Penso: "Porra! É um mini-eu."
- Adeus! - Tills.
Vamos, miúda.
Entra.
Pai.
Não tens espaço.
- Tills. - Espera pela mãe.
- Estás a exagerar. - Pai.
- Vá lá, Tills. - Vais bater no carro do Jack.
- Não vou nada. - Vais.
- 'Bora lá, boazona. - Pai.
- Engataste o carro? - Tilly, vá lá. Se engatei o carro?
Poupa-me.
Esta escola é uma das mais bem reputadas do mundo.
- A sério? - Não é só da Irlanda.
Se a comparares àquelas que já viste, como é?
É do melhor que há. Não vais querer sair.
- Não. - Não vais querer sair.
Estou muito nervosa.
É a primeira vez que vou estar num ambiente profissional.
Sei que estou a aprender, mas gosto que as coisas corram bem.
Mas vais cometer erros.
Estar nervoso é fixe.
Se não estivesses, eu ficava preocupado.
Absorve tudo e supera o erro.
Não fiques a matutar nisso.
Certo.
Qual foi a cozinha mais dura em que trabalhaste?
- Qual? Vendo agora… - Sinceramente, o Marco era cruel.
- Foi a mais difícil? - De uma forma incrível.
Foi a mais difícil, porque aprendi muito.
Quando comecei a cozinhar,
não tinha um pai que me orientasse na carreira.
Tinha um pai que me dizia
que cozinhar era para mulheres, que não era trabalho de homem.
Mas depois entrei numa cozinha
com o primeiro chefe britânico a conquistar três estrelas,
o maior chefe do país,
o Marco Pierre White.
Foi uma espécie de figura paternal.
Ele tinha o dom de um Picasso.
Empratava como ninguém.
Tínhamos de treinar muito os dedos e de o acompanhar depressa.
Se não estivéssemos ao nível daquilo que ele queria,
estávamos feitos ao bife.
Isso deixava-me todo borrado.
Eu era o braço direito do Marco.
Passava horrores todos os dias por ele,
dezoito horas por dia, seis dias por semana.
Mas aprendia muito, à velocidade da luz.
Tornei-me bom muito depressa,
ele despertou esse meu talento.
Lembras-te dos teus primeiros erros na cozinha?
Asneira da grossa.
Lembro-me da máquina de massa.
Havia duas máquinas iguais, mas, por algum motivo,
a massa ficava mais fina na mais velha, que tinha fita azul.
Era para os raviólis.
Uma vez, a meio, o Marco disse:
"A massa está grossa. Viste bem?"
"Duas vezes."
"Com a máquina da fita azul?"
"Sim."
Acabámos, ele virou a máquina e era a errada.
Estamos a falar de milímetros de diferença.
Depois, obrigou-me a pagar os raviólis.
Nunca mais cometi esse erro.
Tiveste de pagar todos?
E ele vendeu-os ao jantar.
A sério, foi absurdo.
Cabrão.
Vai ficar livre à direita.
Deixa-o sair.
Obrigado.
Merda!
Merda!
- Fui eu? - Pai.
Merda…
Porra.
- Merda! - Pai.
- Pai! - Não o vi.
- Ele vem atrás de ti. - Eu vou ter com ele.
- Pede desculpa. - Desculpe, não o vi.
A culpa foi toda minha.
Posso dar-lhe os meus dados? Desculpe.
Que chatice. Estava à esquerda.
Claro que não vi. Não tenho sensores.
Bem, esta viagem vai sair cara.
- Só quero comprar uma jaleca. - Tens de estacionar.
Sim.
Que merda do caraças. E foi com o carro da tua mãe. Porra!
Gaita!
Vamos entrar.
- Olá. - Olá.
- Como está? - Estou bem.
Ótimo. Vim comprar uma jaleca. É lá em baixo?
Obrigado.
A Tilly é a filha que me conhece melhor
e é ótima a desbloquear esse mecanismo de defesa.
Ela sabe lidar comigo.
Há desconto de chefe para a minha…
Claro que há.
Acabámos de bater com o carro, qualquer desconto…
- Nós? Não fomos nós. - Um desconto dava jeito.
Posso experimentar?
- Sim, claro. - Ótimo.
- É melhor experimentar. - Tem de ser branca.
- Sim. - A sério?
Quando o meu pai está na cozinha, está num ambiente stressante.
Ele reage assim porque é perfecionista.
Em casa, é o oposto.
Ele faz muitas coisas.
Há um aspeto dele que sempre admirei.
Ele pode ser a pessoa mais ocupada de sempre,
mas podemos enviar-lhe mensagem ou ligar-lhe sempre que precisarmos.
Credo! É o regresso às aulas.
Os pequenos vão regressar às aulas
e a mais velha vai para a escola de gastronomia.
- Credo! - A mais velha?
A filha mais velha.
Desculpa, a mais nova. Não ias trocar de roupa?
Ele fica comovido quando se orgulha.
Nota-se pelo piscar de olhos prolongado,
depois olha para cima, sem olhar nos olhos e…
Olha à volta. Não quer que o vejam a chorar.
- Estás pronto? - Estou. Vamos a isso.
- Mostra lá! - Estou aqui.
- Meu Deus! - O que achas?
- Sem estes ténis. - Adoro.
Dobrei, porque é comprida.
- Tem de ser comprida. - A sério?
Insistem nisso, pela segurança. Querida, fica muito bem.
Meu Deus!
Não se dobra assim. É por isso que é trespassada.
Fica-te muito bem.
Meu Deus!
As calças azuis também.
- Adoro o azul. - Que pinta de chefe.
Miúda, fica-te do caraças.
Vou usar sempre estas calças.
A jaleca fica-te muito bem. Assenta-te bem.
Como usas isto?
A jaleca tem um botão que se aperta aqui
e impede que se abra.
Muito bem.
Meu Deus! E dobramos isto.
Os miúdos fixes fazem assim, mas é o toque do teu pai.
Vou tirar uma foto. Nem acredito.
Vou enviar à mãe. A minha filhinha é cozinheira.
Pequenota.
Vou enviar à família. Incrível.
Olha.
Olha.
- Caraças. - Estou igual a ti.
Só falta cozinhares como eu.
Como estás?
Bati com o carro.
Para mim, Londres é uma das capitais culinárias,
não só da Europa, mas do mundo.
É um local muito procurado. É um destino para comida incrível.
Para que o 22 Bishopsgate se destaque da competição,
precisamos de chefes fenomenais a dar no duro.
Mas também é empolgante,
porque é uma oportunidade única para criar talento.
A Bread Street Kitchen é popular e está aberta o dia todo.
O Lucky Cat é um restaurante de inspiração asiática e influência japonesa,
onde quero fazer experiências híbridas
e desenvolver algo mágico.
O Michael é um jovem incrível, talentoso e ambicioso, na casa dos 20.
Ainda nem atingiu o auge.
Será o início do seu auge.
Ainda está a passar de chefe de cozinha a chefe-executivo.
Acho que será uma das maiores jogadas da sua carreira.
LUCKY CAT MAYFAIR LONDON
Gerir um restaurante àquela altitude será um desafio por si só.
Temos de subir 60 andares.
Não podemos receber entregas e entrar logo na cozinha.
CHEFE-EXECUTIVO, LUCKY CAT
Toda a equipa tem de adaptar
as atividades de uma cozinha normal a isso.
Bem, poder fazer parte
da abertura e contribuir para o sucesso é muito empolgante.
Mas é uma grande responsabilidade.
Faço isto há 13 anos.
Estou no Lucky Cat há dois anos.
Passei rapidamente de subchefe a chefe de cozinha e a chefe-executivo.
Assumir todos estes projetos
e tentar abrir um restaurante em Bishopsgate,
que é algo de grande dimensão para todos, até para o Gordon…
Isto é algo grandioso, até para ele.
Tudo o que eu e a equipa fazemos fica associado ao Gordon.
Tudo o que fazemos tem o nome dele.
Por isso, certificamo-nos todos os dias de que o nosso trabalho nos restaurantes
está sempre à altura da expetativa definida por ele.
Há uma determinação naqueles olhos que me lembra um pouco de mim.
A pressão é maior e mais dura do que imaginamos,
porque a indústria está num estado lastimável.
O custo dos produtos é exorbitante.
Aumentam os impostos todos os dias.
As taxas de juro estão a subir.
E as gerações… Várias gerações bebem menos.
Todo o setor está com dificuldades.
Fechei vários restaurantes ao longo da minha carreira
e aprendi que a concorrência é feroz.
Acho que 65 % dos novos restaurantes fecham nos primeiros 18 meses.
Temos de ser mais do que bons.
O primeiro restaurante que fechei foi na minha terra natal,
em Glasgow, há anos.
RAMSAY FECHA RESTAURANTE NA ESCÓCIA
Estava cheio às sextas-feiras e sábados durante seis meses,
mas parecia abandonado das segundas às quintas-feiras.
Ninguém ia gastar 120 libras para jantar numa segunda-feira à noite em Glasgow.
Então, saí de Glasgow com o rabo entre as pernas.
Foi doloroso.
Foi…
Foi uma grande chamada de atenção.
Tudo aquilo em que falhei,
tudo o que fechei, tudo o que abri
e tudo o que aprendi estará no Bishopsgate.
Para ter sucesso na indústria,
tem de ser extremamente popular.
Então, tive uma ideia para fazer uma festa antes e outra depois.
Acharam que eu estava louco.
"Espera lá, o que vais levar para as obras?"
Influenciadores.
"O quê? Estás a gozar?"
Está tudo cheio de construtores, coletes, botas e o caraças.
Mas, se servirmos comida incrível
neste terraço incrível com jardim,
nunca antes visto, com a melhor vista do país,
vão ficar de queixo caído.
Onde foi buscar ideias como a festa de capacete?
- Posso falar primeiro? - Força.
É para mandar todos os críticos gastronómicos à merda.
Há dez anos, dependíamos das suas canetas.
Há dez anos, dependíamos dos seus insultos.
Há dez anos, dependíamos dos seus egos.
- Destruíam restaurantes. - Sim.
Ao longo de 25 anos,
aturámos muitas tretas dos críticos.
Quando começámos a namorar,
queríamos muito criar uma família nos primeiros dois anos.
Um artigo de jornal dizia: "Futebolista falhado casa precocemente."
Isso magoou-nos muito,
porque não tinha nada que ver com comida.
Como se escreve sobre a ida a um restaurante com essa manchete?
Os críticos são importantes.
E críticas construtivas dão-nos força.
Mas quando se torna algo pessoal…
Vinguei-me à brava de um dos maiores críticos.
Ele foi com a Joan Collins
e achou que eu não tinha tomates para lhe fazer alguma coisa
por estar com a glamorosa Joan Collins.
Esperei que ele se sentasse, visse a ementa e, 20 minutos depois,
pedi-lhe para sair do restaurante.
Estivesse com a Joan Collins ou com a Rainha, ele tinha de sair.
Sei que não foi correto, mas é o que acontece
quando mulheres como a Joan Collins vão jantar com idiotas.
Foram 25 anos desses ataques disparatados…
O evento de influenciadores foi uma forma inteligente de dizer:
"Não, obrigado."
Bem-vindos à ensolarada Londres.
Sou o Harrison Webb, o vosso anfitrião.
Que constrangedor.
Mas não vou cortar. Vocês já viram.
Vamos comer em restaurantes do Gordon Ramsay durante 24 horas.
Adeusinho, conta bancária,
porque este vídeo não é patrocinado pelo Sr. Ramsay.
Muitos chefes odeiam estes influenciadores…
Daqui. Altamente, adoro.
… porque não compreendem o que fazem
com os telemóveis e as publicações constantes.
Mas têm muito poder e…
Deixam-nos sem vagas em menos de seis semanas.
FUI AO LUCKY CAT DO GORDON RAMSAY
Quando publicam, torna-se viral
e chega ao outro lado do mundo em segundos.
Está muito bom.
O meu parece um crime.
Deste cabo disso.
Quando é mau, somos afetados antes de o serviço terminar.
Atualmente, são os críticos mais poderosos.
Eu cá não percebo.
Esta noite, vou encher o último andar com 100 influenciadores poderosos,
para lhes mostrar como será.
Acho que nunca fizeram isso e é uma boa forma,
em primeiro lugar, de lhes mostrar a dimensão,
e, em segundo lugar, de lhes dizer
que preciso deles.
Isto vai ser o caminho para os influenciadores.
Quero fazer a maior parte hoje,
porque vou receber encomendas mais logo.
Esta zona tem de ficar livre.
Isto não me agrada.
Isto é um local em obras.
Entretanto, não estamos a construir o restaurante do Sr. Ramsay.
Estamos os dois a deixar tudo bonitinho para os influenciadores.
Devo estar enganado.
Estas pessoas são fotogénicas e arranjam-se bem, mas…
Só querem fotografar a comida para meter na Internet.
Para quê? Sentem-se, comam e desfrutem. Não deixem arrefecer.
Gyozas de cebolinho, sim. Carne fatiada, sim.
Agrião, posso tratar agora.
Dás-me um tabuleiro de agrião?
Tivemos de nos adaptar ao facto
de ainda não termos condições para fazer algo quente.
É, sem dúvida, um local em construção.
E não podem isolar a zona do pó.
Vamos trabalhar diretamente no telhado.
Não queremos chuva, mas estamos em Londres.
Não podemos parar de preparar nem mudar de planos.
Daqui a seis horas e meia,
saberemos se têm de trazer guarda-chuvas.
Não podemos ser os segundos ou terceiros melhores.
Não se podem fartar das ideias.
Lido melhor com as coisas aos 50 anos do que aos 40.
E lidava melhor aos 40 do que aos 30.
Haverá problemas.
Alguma coisa vai irritar-nos ao longo do dia.
Se chover entre as 14h e as 15h…
DIRETORA DE RELAÇÕES PÚBLICAS
… dá para preparar entre as 15h e as 19h?
Nem por isso. Não vale a pena fazer nada antes da chuva.
Pois.
Achei que havia um painel por cima.
Vai ser tudo retrátil.
A rede não é para sempre.
Ainda não chegámos lá.
Achas que a metade de cima da torre vai estar coberta de nuvens?
Está tão nublado, não sei a altura do teto.
Já dá para ver quase tudo. Antes, não dava, estava coberto.
Meu Deus! Esteve sol a semana toda.
Agora é a sério.
Estamos a arrumar e só voltamos às 23h ou meia-noite.
Verificámos todos os pormenores?
Quando estivermos lá em cima, não nos podemos esquecer do…
Verificámos, mas não sou meteorologista.
Se chover, chove. É o que é.
Tapem com toalhas.
Tapem com toalhas, para esconder.
Está a escurecer.
Sim, sem dúvida.
É das árvores e dos autocarros.
Tenho fé no clima britânico.
- Merda. - Falaste demasiado cedo.
Está tudo bem.
Vamos.
- Está a chover. - Sim.
Não vamos sair agora.
Porra!
O local da festa ainda não tem telhado.
Estão de olho nisto. Vão dizer que pareço um idiota.
Esperemos que a chuva pare.
NOS PRÓXIMOS EPISÓDIOS
Quero expandir e crescer.
Bom dia.
Que lindo. Muito bonito.
E quero ser um dos melhores chefes do mundo.
O chefe Gordon Ramsay está cá!
- É real? - Sim, chefe.
Mas tenham cuidado com o que desejam.
Cum caraças!
A caneta acertou-me no olho.
Todos acham que o sucesso é glamoroso,
mas é uma correria.
Infelizmente, prevemos um atraso de oito semanas.
Merda!
E há muitas figuras da indústria que adoravam ver-me cair.
Que merda!
Especialmente no Bishopsgate.
Isto não funciona…
Meu Deus! Isto piorou.
Se eu fosse construtor, estaria todo borrado.
Está muito pior.
Céus! Está horrível.
Quantas semanas temos?
- Mais 20 semanas. - Merda!
Mas isso dá-me uma motivação adicional.
Brutal.
'Bora lá!
Aqui, papá! Aqui em baixo!
Gordon, obrigado por me confiar a sua linda filha.
Aceito.
- Pequena, desculpa. - Olá!
Queria muito surpreender-te.
Talvez me reforme depois do Bishopsgate.
Isso é uma treta do caraças.
Que merda é essa? Parece um cagalhão.
Está horrível.
Vai ser preciso tomates para abrir isto.
Porra!
Os meus tomates parecem panquecas.
Três, dois, um.
Vamos!
Legendas: Pedro Marques
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