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Quando bebês nascem na água,
eles não respiram até sua pele tocar a superfície.
O bebê ficaria submerso como um peixe,
até alguém puxá-lo pelo cordão umbilical e tirá-lo da água.
Perguntei ao meu pai por que partíamos.
Ele disse que
era pelo que ele fizera ao pai.
Somos uma família de surfistas.
Minha mãe era campeã mundial.
E o trabalho do meu pai era surfar ondas que ninguém tinha surfado antes.
O que faremos é entrar assim...
Engancha, puxa.
E volta aqui. Segure isso.
Engancha.
Com cuidado. Se fizer assim e escorregar...
Dor e hospital.
Coloque isto bem aqui.
Vamos cavar mais.
Entra assim.
Temos que escavar tudo.
Meu pai
trabalha com artesanato a vida toda.
Ele diz que veremos muito dos trabalhos dele pelo mundo.
Ele diz que é importante aprender,
mas não podemos esperar.
Os Fijianos lhe ensinaram tudo.
Ele pesca qualquer coisa.
Minha mãe diz que trazer um bebê ao mundo
será o começo da nossa grande aventura.
É uma garota?
Olhe para você.
O nome dela é True.
Em seus primeiros anos,
você absorve tudo ao seu redor.
Esta será nossa vez de aprender.
Mas antes, a True precisa crescer um pouco,
antes de podermos viajar.
Na espera,
meu pai me contou uma história
sobre um grande peixe.
Há milhões de anos,
o oceano se encheu durante uma chuva gigantesca.
O peixe bebeu tanta água
que salvou o mundo do afogamento.
E se tornou tão grande que, sempre que nadava,
fazia grandes ondas e mudava as marés.
O grande peixe espera
para que um oponente forte e valoroso
liberte seu espírito inquieto.
Quem pegar o grande peixe
carregará o espírito do oceano dentro de si.
Vamos seguir as ondas
e vamos pegá-lo.
O primeiro lugar que fomos foi outra ilha.
Mas estava coberta de gelo.
As praias eram negras
e as montanhas eram brancas.
Eles usavam a fumaça que saía do chão
como energia em casa.
Na Islândia,
o sol nunca se põe.
É tão diferente de casa.
Parecia que ninguém morava lá.
Um dia, depois de passarmos pelo deserto negro,
conhecemos dois surfistas morando num ônibus.
Eles viviam no meio do nada.
E o ônibus deles parecia uma nave espacial azul.
É aqui.
Eles nos mostraram num mapa onde podíamos surfar.
Pai, o que é isso?
Eles não tinham visto o grande peixe.
Na Islândia, pode-se surfar no meio da noite
porque o sol nunca se põe.
Um dia, achamos ondas que tinham sido congeladas no lugar.
O grande peixe não estava perto,
porque as ondas não eram boas.
Mas meu pai ainda surfou.
Ele diz: "Às vezes, é só uma questão de experimentar algo novo."
Na Irlanda,
o oceano era verde.
E às vezes, parecia achocolatado.
Também havia cavalos,
mortos e vivos.
Conhecemos um homem
com o rosto cheio de linhas
e que passava o dia escavando a terra.
O homem nos contou sobre a floresta antiga
que vivia sob a terra.
No passar dos anos, a terra e a madeira cresceram juntas.
E agora, podem fazer fogo.
Podemos usar a terra para aquecer as casas.
Conhecemos outro homem
que tocava histórias musicais sobre o passado.
Era algo assim.
Mamãe surfava quando o sol se punha.
Eu amo ver minha mãe surfar.
Parece que ela dança na água.
Conhecemos um homem chamado Israel, a terra do leite e mel.
Não vi leite, mas vi muito mel.
Ele disse que tinha muita terra,
mas só era boa para abelhas.
Ele conversa com as abelhas.
Ele é gentil com elas,
e elas dão mel.
Abelhas não são diferentes das pessoas.
Nossas colmeias são maiores.
Em Israel, todos sempre estão na praia.
Um míssil pode explodir a qualquer momento,
é o que dizem,
então deve-se viver cada dia como se fosse o último.
Fomos a um shuk.
É como as pessoas de Israel chamam um mercado.
E escolhemos a primeira refeição sólida da True.
Com cuidado.
Não a deixe engolir a colher.
É sua primeira refeição.
Na Tailândia,
vimos uma família que faz borracha das árvores.
Eles cortam as árvores à noite
e coletam a seiva pela manhã.
Quando endurecem a borracha,
parece pizza.
Há tanto para ver
que às vezes me esqueço de caçar o grande peixe.
Meu pai me disse que há muitas artes a se aprender
das pessoas que encontra.
A arte desse homem é dançar.
Com cobras.
As garotas aqui têm pescoços longos.
Elas adicionam anéis ao pescoço
todo ano.
Então, quando ficam velhas,
têm os maiores pescoços do mundo.
Antigamente, as pessoas daqui achavam isso bonito.
Mamãe disse
que é bom estarmos crescendo,
para podermos acomodar tudo o que aprendemos.
No barco,
o oceano parecia ser infinito.
Como acharíamos um peixe neste oceano imenso?
Papai foi até o fundo do mar, para procurar por ele.
Ele pode segurar o fôlego,
assim como os peixes.
Ele não achou o grande peixe,
mas trouxe jantar.
Aqui está o jantar.
Olhe aqui, Given.
Papai, entre no barco.
Não quero ainda, Given.
Mas quero que entre no barco.
Mas não quero que o sangue dele caia no barco na limpeza.
Não quero que caia do barco.
Não se preocupe. Estou segurando.
Estavam comendo algo no mar.
É assim que peixes respiram no mar.
Pegue o peixe, limpe.
E aí está, hora do jantar.
Acima da água é muito barulhento.
Mas abaixo,
é um universo diferente.
É um lugar onde se pode voar.
É onde o papai e a mamãe me ensinaram a voar.
Viajamos há seis meses.
Sem sinal do grande peixe.
Fomos a muitos lugares
e vimos muitas pessoas.
Às vezes, as coisas se misturaram.
Peru é tão verde nas montanhas.
É onde tudo cresce.
A água lá faz as coisas crescerem.
Também ajuda a fazer sal.
Quando a água desce a colina,
sal é deixado para trás.
Esse é o último homem fazendo sal do jeito antigo.
Às vezes, eu me cansava de viajar.
Vimos um homem numa colina.
Perguntamos se ele tinha visto o grande peixe.
Ele disse:
"Cuidado com por quem se apaixona.
Eu pulei no mar por causa de um coração partido."
Ele gritou para o céu e pulou no oceano.
No Nepal, não há oceano.
Fica no alto das montanhas
e é difícil de respirar.
Viemos procurar os homens
que se pintam com fogo.
Soubemos que podiam nos ajudar a achar o grande peixe.
Minha mãe disse que girar a roda de orações
é o mesmo que orar em voz alta.
Ela diz que tudo está conectado.
Eu nunca tinha visto alguém morto antes.
Papai diz que a morte é parte natural da vida.
Pensei muito nisso.
Se os peixes vivessem para sempre,
o oceano estaria tão cheio
que não haveria lugar para peixinhos.
Os motoristas dirigiam rápido,
mas isso não me assustou.
Papai disse que
tudo sempre parecia dar certo.
Chegamos?
Parece que está quente, explodiu.
Na cidade, era tudo barulhento e cheio.
Lembro de ver muitos macacos.
Pessoas jogavam tinta nos prédios.
Havia esses homens que moravam em templos.
E pintavam seus corpos.
Este é o homem que pinta o rosto com fogo.
Ele coloca cinzas no rosto todo dia.
Ele era assustador.
Mas não tive medo dele.
Sadhus escolheu uma vida santa.
Ele parecia uma pessoa com muitas respostas.
Então perguntei se ele tinha visto o grande peixe.
Ele disse: "Continue em frente, e encontrará o que está buscando."
Há muito, muito tempo,
quando meu pai era pequeno,
ele e meu vô
pegaram esse ônibus na mesma estrada.
Então seguimos o mesmo caminho.
Fomos da ilha norte
à ilha sul.
Às vezes, parecia que ficaríamos para sempre na estrada.
Papai me mostrou
um dos lugares onde eles moravam.
Ele disse: "É importante refazer seu caminho,
porque te ajuda a entender quem você é."
Acho que todos que fizeram meu pai quem é
se mudaram.
Porque tudo foi comido pelas árvores.
A única coisa que restava
era a casa na árvore que meu vô fez para meu pai
há muito tempo.
Meu pai disse: "Somos como pássaros.
Fazemos um ninho aonde vamos."
A coisa legal de morar num ônibus
é poder chamar qualquer parada de lar.
Meu pai diz: "Se pegar uma estrada
e dirigir através dela, nunca sabe o que encontrará."
Papai, fico achando esses pedacinhos.
Vamos pegar mais.
Minha nossa. Quantos pegou?
Cem pedaços.
Papai.
-O que estamos fazendo? -Olhe só.
Olhe para aquilo.
Pode surfar naquilo.
Era o que eles usavam.
Os primeiros surfistas.
Essas eram as primeiras pranchas.
Cinco, seis, sete, oito, nove, dez.
Aí está você.
Você me achou.
Primeiro coma aqui.
Sente-se. Pode ir. Pronta? Aqui está.
Saindo do grande ônibus!
Não morda.
Izzy, o que é isso?
É bom tomar chá quente em dias frios, sabia?
Antes de mamãe e papai dizerem algo,
eu senti que íamos partir.
Papai disse: "As estrelas nos guiarão."
Sempre parecemos estar no meio do nada.
Montamos um novo ninho
num bom lugar para procurar pelo peixe grande.
Aqui vamos nós.
Nesta data querida
Muitas felicidades
Muitos anos de vida
-Assopre. -Um, dois, três.
Faça um pedido.
-Um, dois, três, vai. -Um, dois, três.
Estávamos na estrada havia nove meses.
Um dia,
achei que meu pai tivesse pegado o grande peixe.
Mas eu estava errado.
Apesar de ser um peixe grande.
Ele disse que um dia,
eu poderia fazer o mesmo.
Ele disse não haver sensação melhor
que jogar o que você pegou na mesa
e alimentar sua família.
Minha mãe disse:
"Quando aprende a andar,
começa o seu caminho."
Acho que True está pronta.
Um dia, ela se virou
e, do nada, começou a andar.
Talvez foi um sinal.
Porque no mesmo dia, as ondas ficaram enormes.
E eu podia jurar ter visto o grande peixe nadando.
Papai disse que ondas assim
fazem-no querer buscar o grande peixe para sempre.
Papai surfou até o pôr do sol.
Começamos a pensar que ele nunca voltaria.
Quando ele voltou,
disse ter visto o grande peixe nadar.
E que parecia que o grande peixe
ia para a África.
Então eu disse: "Vamos lá."
Lembro de acordar num vilarejo de pescadores.
True estava falando muito.
-O que a vaca faz? -Mu.
Ela estava mais corajosa.
Na África do Sul,
muitas pessoas comem pap.
Pap é como um purê de batatas,
mas feito de milho.
As mamães esmagam o milho como o poi esmagado havaiano.
Papai disse que, se eu ia ajudar a pegar o grande peixe,
era hora de começar a treinar.
Vá pegá-lo, filho.
Pegue-o.
Segure a lança e...
Pegue a lança assim...
Ponha a mão na lança,
pegue o peixe e o puxe.
Tudo parece tão velho no Marrocos.
Havia castelos
que cairiam quando fossem tocados.
Havia muitos velhos fumando cigarros.
Algumas mulheres escondiam o rosto.
Vimos ovelhas tendo o pelo cortado,
ouvimos o som de lã sendo escovada
e assistimos a pessoas colhendo flor de papoula no campo.
As papoulas transformam a lã em cores bonitas.
E aí, são penduradas para secar.
Pareciam miojos gigantes pendurados do céu.
Aí as mulheres pegavam a lã e teciam tudo junto.
Havia tantas mãos trabalhando juntas.
E uma pessoa orava a Deus.
Soubemos de ondas
não muito longe dos tapetes.
Então pulamos no carro e voltamos para a estrada.
Estávamos há tanto tempo caçando ondas, e eu não sabia ainda
como nossa história terminaria.
Os senegaleses fazem todo tipo de arte.
Eles são lutadores,
pescadores,
surfistas
e fabricantes de tambor.
Há uma família no Senegal
que transforma toras em tambores.
Cada pai ensina o filho
a fazer e tocar um tambor.
Cada família
tem a própria batida e ritmo, passados em gerações.
Se os pais não ensinassem os filhos a fazer e tocar tambores,
como as pessoas saberiam quando dançar?
Se mamães e papais não passassem o que conheciam,
tudo seria perdido.
Fiji era a última parada.
Foi aonde meu vô viajou com meu pai
na minha idade.
Fomos a toda parte no mundo.
O grande peixe tinha de estar aqui.
Esse é meu avô.
Ele era cientista no Texas.
Um dia, quando meu pai era bebê
ele saiu de casa e o levou pelo mundo nas costas,
e nunca voltou.
Ele deixou tudo o que tinha,
mas sabia que precisava ir.
Ele nos disse que precisava achar um lugar para viver,
onde pudesse ser livre,
ser quem era.
Ele e minha vó vieram aqui porque os deixa felizes.
Vovô também vem aqui para pintar.
Aqui vamos nós. Um, dois, três...
Num ângulo assim. Pode cortar em ângulo?
Um, dois, três.
Meu pai cresceu com esses quatro irmãos.
Eles caçavam e brincavam juntos.
Todos ajudaram a construir o bure
para nossa família morar.
Meu pai subia em coqueiros
para pegar as palmas para fazer o telhado.
Meu trabalho era carregá-las de volta.
Passamos o dia costurando.
Mamãe ajudou com as outras mamães.
Em Fiji, usamos cocos para tudo.
Pode tirar a casca e abri-lo.
Pode raspar dentro e fazer leite de coco.
Pode usar a casca para fazer fogo.
Mas não beba os velhos.
Porque são amargos e difíceis de abrir.
Os jovens são os melhores.
E o suco é tão doce.
Na ilha, há os
caranguejos-do-coco.
Depois de pegá-los, você os coloca nas árvores.
Descem quando você está pronto para comê-los.
Quando o bure estava pronto,
tivemos uma cerimônia kava
preparando para a caçada.
Na minha idade, meu pai
via os anciãos de Fiji
pularem das pedras e pegarem peixes grandes.
Todo dia, meu pai se sentava no recife
esperando o grande peixe.
Mas ele nunca veio.
Nos trouxe muitos peixes,
só não o grande.
Acho que queria pegá-lo para mostrar ao pai dele.
Andamos pela ilha, esperando que as ondas se acertassem.
Vovô estava feliz em ver
que seguíamos o caminho começado
por ele há tanto tempo.
Disse ser nosso caminho,
e que, um dia,
eu passaria a história à minha família.
Quando tem casca,
vaporiza a madeira e faz a umidade sair.
Em Fiji, é chamada de "Lemon Kali".
É uma das madeiras mais retas
que usamos para lanças.
Esta é a lança Kama Kama.
Lança para o caranguejo das rochas.
Veja o quão lisa é.
Perfeita para eles.
Estamos nos preparando.
Eu treino todo dia.
Não era bom no começo,
mas peguei o jeito.
Meu trabalho era pegar a isca que seria usada
para pegar o grande peixe.
Vi meu pai sair do recife aquele dia.
Ele me contou uma história.
Uma história sobre um peixe grande.
Há milhões de anos,
o oceano se encheu durante uma tempestade gigante.
O peixe bebeu tanta água
que salvou o mundo de se afogar.
Se tornou tão grande que, quando nadava,
criava ondas enormes e mudava as marés.
Quem pegar o grande peixe
carregará o espírito do oceano dentro de si.
Quando vi meu pai segurando o grande peixe,
não achei que era real.
Era o maior peixe que eu tinha visto.
Papai dizia estar feliz,
mas triste também.
Ele esperara a vida toda para pegar
seu grande peixe.
Eu disse que o grande peixe estivera por aí
fazia muito tempo,
e que a morte é parte natural da vida.
Meu pai riu.
E disse que eu agora era contador de histórias.
Meu nome é Given.
Um nome dado pelos meus pais.
Não precisa de magia para pegar um peixe grande.
Só precisa seguir as estrelas,
ouvir as pessoas que encontra
e perseguir as ondas.
Meu pai pode ter inventado a história do grande peixe.
Mas agora é minha história.
Traduzido por: Luiz Almeida
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