All language subtitles for The.Story.of.Adele.H.1975.1080p.BluRay.x264-MELiTE

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Original subtitles

A história de Adèle H. É verídica.

Os factos e pessoas descritos são reais.

Estamos em 1863. A Guerra Civil dilacera há dois anos os EUA.

Aceitará Inglaterra a independência da Confederação Sulista

e entrará na guerra contra os Yankees?

Desde 1862, enviam tropas inglesas para a cidade canadiana de Halifax,

capital da Nova Escócia, ex-Acadia Francesa.

Reina em Halifax uma espécie de febre.

As pessoas traficam e perseguem espiões Yankees.

No porto, os ingleses controlam os passageiros europeus

que desembarcam do Great Eastern, o navio conhecido por "Cidade Flutuante".

- De onde vem? - De Bristol.

Obrigado. Pode ir.

- De onde vem? - Liverpool.

- Traz documentos? - Não, não trago.

- Embarcou em Liverpool? - Sim.

- Deixaram-no embarcar? - Sim. Ainda tinha os documentos.

- Então, por que já não os tem? - Foram-me roubados em N. Iorque.

- Então, não pode desembarcar aqui. - Foram-me roubados em Nova Iorque.

Isto é Halifax, não podemos deixá-lo entrar sem documentos.

Em Nova Iorque disseram-me...

- Posso revistar a sua bagagem. - Não. São documentos de negócios.

- Explique-me a que se destinam. - Não sei.

O meu superior decidirá se deve deixá-lo entrar.

Preciso deles, senhor.

- Hotel Halifax, menina? - Sim.

Não pode embarcar sem documentos. Devo informar a autoridade portuária.

- Dê-mos. Tem mais? - O que se passa aqui?

Não sei. Não tenho o direito de os abrir, e o senhor tão-pouco.

Pára quieto.

- É aqui o hotel? - É.

Não quero ficar aqui.

O Halifax está sempre cheio e o Atlantic é muito caro.

Não há outro hotel próprio para senhoras. Deveria ir para uma pensão.

Sim, por favor.

QUARTO E COMIDA

Sr.ª Saunders, tenho uma hóspede para si. Uma simpática jovem.

Obrigada, Sr. O'Brien.

- Podemos entrar, menina. - Obrigada.

- Eu levo a mala. - Obrigada.

- O meu nome é Menina Lewly. - Entre.

- Chamo-me O'Brien. Ando sempre por aí. - Muito obrigada.

A. LENOIR NOTÁRIO

Bom dia. O meu marido é médico. Dr. Lenormand, de Paris.

Acabei de chegar de França. Por isso me disseram para vir aqui.

Ainda bem que o fizeram. Sabe, gosto muito de França.

Será um grande prazer ajudá-la.

O que a preocupa ao certo?

Tenho uma sobrinha em França. Gosto muito dela.

É uma rapariga muito romântica.

Na sua visita a Inglaterra apaixonou-se por um oficial inglês.

Tenente Pinson da 16ª dos Hussardos.

Falou-se em casamento.

A nossa família não se opôs, mas, devido à guerra na América,

o regimento do Tenente Pinson teve de embarcar para Halifax.

Desde então, não soubemos mais dele.

A minha família quer que eu indague o que lhe aconteceu.

Para mim é embaraçoso porque o Tenente Pinson me é indiferente.

É totalmente indiferente.

Só quero a felicidade da minha sobrinha.

Penso que já lhe disse tudo.

- Quer que procure esse tenente? - Tenente Pinson.

Mas discretamente.

Dizem que estamos melhor abastecidos que a biblioteca militar.

É espantoso, visto termos mais problemas na alfândega do que vocês.

Ainda assim, espero ter esses 2 livros dentro de 1 ou 2 semanas.

Óptimo. Obrigado.

Adeus, Senhor Tenente.

- O que deseja? - Queria papel.

- Papel de carta? - Não. Uma resma. Escrevo muito.

Reconheci aquele oficial. Não era o Tenente Pinson?

Sim. É um bom cliente.

- Não fazia ideia que estava em Halifax. - Está cá há pouco tempo.

Mas já tem uma grande reputação. É o que dizem na cidade.

Palavra? Que mais dizem?

Para mim, é apenas mais um cliente.

Parece que contraiu dívidas. Mas aqui paga sempre a pronto.

- Perdão, minha senhora... - Menina.

É seu parente?

É cunhado da minha irmã. Mas raramente o vejo.

- Não me dou com a minha irmã. - Compreendo.

Levo este.

Faço também empréstimos de livros. Posso emprestar-lhe alguns.

Obrigada. Adeus.

- Boa noite, Srª Saunders. - Quer jantar comigo?

O meu marido irá servir esta noite no banquete do clube de oficiais.

Os oficiais ingleses estarão lá?

É em honra deles. Celebram a chegada da 16ª dos Hussardos.

- Então, o meu primo deve lá estar. - Tem um primo em Halifax?

Sim. Ten. Pinson. Chamo-lhe primo, mas não somos parentes.

Crescemos juntos. É filho do clérigo da nossa aldeia.

Ama-me desde que éramos crianças.

Nunca o encorajei. Perdemos o contacto há uns anos.

Poderá ser uma ocasião para o rever. Pode entregar-lhe uma carta?

Sim, claro.

Vou escrevê-la agora. Espere só uns minutos.

Albert, meu amor, a nossa separação destruiu-me.

Desde que te foste, penso em ti todos os dias. Deves sofrer como eu.

Não recebi as tuas cartas e decerto tu não recebeste as minhas.

Mas hoje estou aqui, do mesmo lado do oceano que tu.

Tudo irá começar de novo. Em breve me abraçarás.

Estamos na mesma cidade. Estou à tua espera. Amo-te.

Tua Adèle.

Deve ter sido um artista famoso que fez estes retratos.

- Foi o meu irmão. - Felicite-o.

Não conheço ninguém que consiga uma tal parecença.

Sinceramente, dir-se-ia estar viva.

Que belo retrato. É a senhora?

Não. É a minha irmã mais velha.

- Ela vive na Europa? - Morreu há muito tempo.

Lamento muito.

Léopoldine afogou-se logo depois de a nossa mãe ter feito este retrato.

Tinha 19 anos. Acabara de se casar.

Andavam num passeio de barco. O marido também morreu.

O nosso pai estava fora. Soube da notícia pelo jornal.

Quase enlouqueceu de desgosto.

E a senhora, deve ter ficado muito triste.

- Toda a família adorava Léopoldine. - Ela é linda.

O marido fez tudo o que pôde para a salvar.

Quando percebeu que a perdera, preferiu afogar-se com ela.

Estas são as suas jóias. Trago-as sempre comigo.

Não. Nunca as poderia usar.

Compreendo-a, menina Adèle.

Sempre quis ter irmãos.

Não me compreende. Não sabe a sorte que tem de ser filha única.

Querida. Não via o fim daquilo.

- Deves estar cansado. - Sim. E molhado.

- Vi o seu primo, menina. - Como estava ele?

Estava todo aperaltado. Nunca tinham visto ninguém tão elegante.

De que falava ele? Conseguiu ouvir?

Contava histórias cómicas. Pô-los todos a rir. Mesmo os de infantaria.

- Deste-lhe a carta da Menina Lewly? - Claro.

Por que esperas? Dá uma resposta à menina Adèle.

Não houve resposta. O Tenente leu a carta mas não quis responder.

Não faz mal. Na verdade, eu não esperava reposta.

Qual era o menu?

Foi o cozinheiro do Gen. Doyle que fez o menu.

Sopa de tartaruga, galinha de caril, salmão com chalotas,

bifes de veado aux piments,

filet de sole em molho de trufa,

alcachofras com pimentos,

galo silvestre em whisky, gelado de framboesa e canapés.

Aquela carta.

O tenente nem sequer a abriu.

Viu o envelope, encolheu os ombros, e meteu-o no bolso sem o ler.

Para um homem apaixonado, é um comportamento estranho.

- É este o banco, Menina Lewly. - Obrigada, Sr. O'Brien.

Por favor, estou à espera de um vale da Europa.

- Sim, minha senhora. Último balcão. - Obrigada.

- O que deseja? - Aguardo umas cartas e um vale.

- O seu nome? - Menina Lewly.

Aqui está.

Esta carta diz que deverei receber um vale postal.

Os vales demoram mais a chegar que o correio normal.

Volte cá dentro de 2 semanas.

Obrigada.

Queridos pais, parti sem dizer nada para evitar uma daquelas discussões

que até as coisas mais simples provocam na nossa família.

O Tenente Pinson arruinaria o seu futuro se deixasse o seu posto.

Assim, é-me impossível regressar agora.

Sabem que eu o amo. Ele também me ama e quer casar.

Mas nada farei sem receber o vosso consentimento formal.

Com o maior carinho. Adèle.

PS: O meu pai deve-me a pensão de dois meses - Maio e Junho.

Sei que uma parte me será enviada através do British Bank of N. America,

mas decerto precisarei da soma total.

A vida em Halifax é muito cara.

As pequenas coisas da vida são importantes.

Sei que as batalhas morais se travam a sós.

Longe da família, aprendo a ver a vida de modo diferente.

Agora, posso aprender tudo sozinha. Mas, no que toca ao amor, só o tenho a ele.

Quando o vir, dir-lhe-ei:

"Se um de nós não ama o suficiente para querer casar, isso não é amor. "

Ele censura-me as emoções violentas.

Quando a vida nos unir nada farei para o assustar.

Saberei conquistá-lo pela doçura.

Doçura.

Menina Lewly, chegou o seu vale.

Muito obrigada.

Vamos passar ao caixa.

Obrigada.

Vamos para casa, Sr. O'Brien.

- Desejo falar com a jovem que vive aqui. - A Menina Lewly. Quem devo anunciar?

- Diga-lhe... que é o amigo de Guernsey. - Entre, por favor.

- Tem uma visita. - Quem é?

- Penso que é ele, o tenente. - Desço já.

A Menina Lewly vem já. Desça e fique à vontade.

- Importa-se que continue a trabalhar? - Faça favor.

É o Tenente Pinson, suponho.

- Há muito que não vê a Menina Lewly. - Sim, há muito.

Não se pode dizer que a sua prima seja muito alegre.

Mas a casa está muito mais animada desde que ela chegou.

Adoramos tê-la cá. Vê-se logo que é fina, instruída.

E é tão bonita. Tem uns olhos lindos.

Ela vai gostar tanto de o ver.

- Tenho de ir. Estou de serviço. - Ela não demora.

- Lamento, não tenho tempo. - Albert.

Até que enfim, voltei a encontrá-lo.

Adèle, não pode ficar aqui. Este país não tem nada a oferecer-lhe.

Vou para onde quiser, meu amor. Obedecer-lhe-ei em tudo.

Sabe que lhe pertenço. Pode fazer de mim o que quiser. Amo-o tanto.

Decerto que fugiu. Veio sem autorização da sua família.

Eles sabem que estou em Halifax. Escrevi ao meu pai.

Que disse o grande homem?

- Decerto partiu sem lhe dizer. - Disse-lhe que ia para Malta.

- Só lhe escrevi ao chegar a N. lorque. - Malta?

Disse estar disposta a obedecer aos meus desejos.

Muito bem. Peço-lhe que regresse a Guernsey.

A sua família deve estar preocupada. Pense no seu pai, na sua reputação.

E não me deve seguir.

Há como resolver tudo. Quando casar, receberei 40.000 francos.

Receberei 2.000 francos por ano. Poderei gastá-lo como eu quiser.

Além disso, os meus pais consentiram no nosso casamento.

Não acredito. Mostre-me esse consentimento.

- Vou mostrar-lho. - Não o tem, estou certo.

O seu pai sempre me desprezou. Nunca o consentirá.

Mas não vim propor-lhe casamento e sim pedir-lhe que deixe Halifax.

Veja isto.

O que significa? Não compreendo.

É uma proposta de casamento para mim do Cannizzaro.

- Quem é ele? - Um amigo do meu pai, um poeta italiano.

- Então, é melhor casar com ele. - Não é ele que eu amo.

Já não me ama?

Albert.

Ainda me ama?

Já a amei.

Diga-me que posso ter esperança. Diga-me que me amará de novo.

Não quer responder.

Então, só lhe peço uma coisa. Mesmo que não me ame, deixe-me amá-lo.

Por favor, deixe-me amá-lo.

Se me abandonar, falarei com os seus superiores.

Mostro-lhes as suas cartas e conto-lhes a sua conduta.

Farei com que o expulsem do exército.

Não, não vá.

- Tome. - O que é isto?

- Para pagar as suas dívidas de jogo. - Precisaria de 10 vezes mais.

Guarde-o por agora, peço-lhe.

- Aceito, mas só como empréstimo. - Como queira, meu amor.

Voltará? Voltaremos a ver-nos?

Se preferir, vemo-nos na cidade. Como quiser, onde quiser.

É tão bonito.

Meu amor.

Estou tão feliz por nos termos reencontrado.

A pior coisa do mundo foi a tua ausência.

Nunca mais vamos permitir mal-entendidos entre nós.

Sabia que não poderias esquecer-me.

Quando alguém como eu se entrega a um homem, passa a ser sua mulher.

Já não estou a chorar.

Na vida, não podemos mudar de pai, de mãe ou de filhos,

como também não podemos mudar de mulher ou de marido.

Sou tua mulher para sempre.

Ficaremos juntos até à morte.

Escuta.

Pobre menina.

És tu, Léopoldine?

Sei que és tu.

Se estás aí, tens de me ajudar.

Já me deixei de ciúmes e de orgulhos. Ultrapassei o orgulho.

Como o amor não me sorri, condeno-me ao seu esgar.

Agora, quero pensar nas minhas irmãs que sofrem nos bordéis e no casamento.

Dar-lhes liberdade, dignidade, ideias na mente e amor no coração.

Tenho a religião do amor.

Não entrego o corpo sem a alma, nem a alma sem o corpo.

Sou jovem, mas, por vezes, pareço estar já no Outono da vida.

Menina Lewly. Está sem casaco, com este tempo.

- Vou fazer-lhe uma bebida quente. - Não, obrigada. Não tenho tempo.

- Vim só buscar papel. - Quantas resmas?

Preciso de 2 resmas, por favor.

Esta manhã, pensei que poderia vê-la hoje.

Como não veio a semana passada, disse para comigo:

Geralmente, a menina vem à quarta-feira,

embora, com este tempo, as pessoas prefiram ficar em casa.

Mas, para o caso de vir, pu-las de lado.

- Obrigada, M. Whistler. - Lembra-se do meu nome.

É fácil lembrar-me de si. Raramente alguém escreve tanto como a menina.

Espero não ter sido imprudente em preparar isto para si.

Não tenho que chegue para as duas. Dê-me só uma.

- Leve as duas. Paga para a próxima. - Não quero.

Sim. Tenho todo o prazer.

Obrigada.

- Adeus, Sr. Whistler. - Adeus, Menina Lewly.

Que aconteceu? Ela desmaiou.

Deixe-me ajudá-la.

Vou a casa da Madame Saunders. Ela pode precisar de um médico.

- Sr. Whistler, entre. - Boa tarde, Srª Saunders.

- Vim para... Como está a Menina Lewly? - Melhor, mas ainda está no quarto.

Este é o papel que ela costuma levar. Já se lhe deve ter acabado.

- Obrigado. - Espere. Eu digo-lhe que está aqui.

- Vai gostar muito de o ver. - Sim. Muito bem.

A Menina Adèle agradece-lhe o papel mas está cansada para receber visitas.

- Mas pensei que ela... - Não faz mal.

Estava de passagem e pensei que ela gostaria...

Não faz mal. Adeus, Srª Saunders.

Adeus, Sr. Whistler. Obrigada.

Caros pais, escreve-vos uma menina trémula acabada de ficar noiva.

O Sr. Pinson está decidido a desposar-me, mas só se ambos consentirem.

Estou quase sem dinheiro. Não se pode viver com menos de 400 francos por mês.

E detesto dever dinheiro às pessoas que me hospedam.

Estou de excelente saúde. Caros pais, saudades para todos.

Não deixem de mandar notícias sobre o meu álbum de música.

Levaram-no ao editor?

- Chegou o médico. É o Dr. Murdock. - Mande-o entrar.

O seu marido pode pôr isto no correio? Gostaria que seguisse hoje.

Com certeza. Doutor, pode entrar.

Dr. Murdock, a Menina Lewly.

Bom dia, Menina Lewly.

Dê-me a sua mão, por favor.

- Como está ela, Doutor? - É mais grave que uma constipação.

Um ligeira pleurisia. Se ela se deixasse tratar.

Será bem tratada, Doutor, garanto-lhe.

A nossa doente parece ser obstinada.

A recuperação poderá levar 2 ou 3 semanas, talvez mais.

Se a Primavera chegasse.

- Pode pôr-me esta carta no correio? - Com certeza.

Normalmente, pediria ao Sr. Saunders, mas ele vai chegar tarde.

Sr. Victor Hugo, Hauteville Hs., Guernsey, C. I.

Quem é que nesta casa escreve cartas ao Victor Hugo?

A Menina Lewly.

O que sabe desta jovem?

Não me falou muito de si, mas sei que é francesa.

Disse-me que a irmã morreu afogada aos 19 anos.

Afogada aos 19 anos.

É Léopoldine.

Deu-se conta que a sua hóspede é a segunda filha de Victor Hugo?

- Mas este Victor Hugo... - É o maior poeta vivo.

Como Homero, Dante, Shakespeare.

Foi perseguido pelas suas ideias políticas.

Com risco de vida, opôs-se ao golpe que derrubou a República Francesa.

Os seus dois filhos foram presos e ele refugiou-se em Bruxelas.

Agora, vive em Guernsey, uma ilha entre França e Inglaterra.

- Ela falou-me nessa ilha. - Garanto-lhe, este homem é um génio.

Incrível.

Estou muito orgulhoso de ter examinado esta jovem.

Sabe que a sua hóspede é filha do homem mais famoso do mundo?

Acha que devemos contar-lhe que sabemos?

Não. Se ela se esconde sob um nome inventado, deve ter boas razões.

Ela é uma pessoa honesta, incapaz de fazer algo de errado.

Se quer ocultar a sua identidade, devemos respeitar o seu desejo.

Tem razão. Devemos guardar isto para nós.

Só um momento. Vou anotar a morada. Nunca se sabe.

Sr. Victor Hugo,

Hauteville House,

Guernsey,

Channel Islands.

Não te esqueças de pensar em mim.

Tremo de amor. Não me podes abandonar.

Não sou ninguém sem ti.

Neste momento, não o amo.

É- me difícil guardar o nosso segredo.

Não se espante se me vir na rua proclamando o meu amor por si.

- Hathwell. - Sim, senhor?

- Onde foi limpa esta casaca? - No mesmo sítio.

- Alguém lhe mexeu? - Que eu saiba, não.

Muito bem, obrigado.

Aqui está o seu correio, Menina.

O que estás a fazer?

- Como te chamas? - David.

- É um lindo nome. - Como se chama?

Chamo-me Léopoldine.

A tua mãe está muito doente.

Quando escreveres, lembra-te que ela só percebe se a letra for grande.

Envio-te 700 francos através do banco, e o nosso consentimento para casares.

Eu, Victor Hugo, antigo par de França, autorizo a minha filha Adèle a casar.

Mas, atenção, Adèle: Casa já ou volta imediatamente.

Eu menti-te. O meu nome é Adèle.

Não a compreendo. O que faz aqui?

- Agora disfarça-se para me espiar? - Pelo contrário.

- Fi-lo para não o embaraçar. - Muito obrigado, Adèle.

Albert, eu tinha de o ver. Recebi o consentimento dos meus pais. Veja.

O seu pai mudou de ideias. Custa a acreditar.

- Agora, podemos casar-nos. - Já lhe disse, está fora de questão.

Como tu mudaste, Albert.

Não podes ter esquecido as cartas que me escrevias.

Eu não as esqueci.

Em algumas delas falava de casamento.

Posso mostrá-las às suas amantes.

Não se esqueceu?

Pensei realmente em casar consigo. Mas agora já não.

- Que mal há nisso? - Qual é o mal?

Mas não fui eu que te persegui.

Foste tu que me procuraste. Eras tu que me querias.

Tu que te aproveitaste dos serões do meu pai para tocar no meu braço.

Foste tu que me acariciaste nos corredores.

Entreguei-me a ti. Tens de ficar comigo. Ouviste?

O que é que pensa?

Conheci mulheres antes e depois de si, e hei-de conhecer ainda mais.

Mas quando formos casados, poderá ter a mesma liberdade.

Poderá dar-se com as mulheres que quiser.

Sabe, vi-o com aquela mulher dos cãezinhos.

Parece encantadora. Contou-lhe de mim?

Por vezes, interrogo-me sobre o que irá na sua cabeça.

Queria tanto que estivéssemos como em Londres,

naquele quarto onde fui ter consigo em segredo.

Por si, passei por cima de tudo, abandonei tudo.

Repeli o afecto dos meus pais. Traí o único homem que me amou.

- Nada de chantagens entre nós. - Mas eu amo-te.

É tão difícil compreender? Eu amo-te.

Se me amasse realmente, e não deste modo egoísta,

não tentaria obrigar-me a casar consigo.

Quando se ama alguém, dá-se-lhe liberdade.

Se me ama mesmo, deixará Halifax e voltará a Guernsey.

Diga-me que me ama.

Adèle.

Por favor. Estou disposta a afastar-me. Estou preparada para não o voltar a ver.

Mas só lhe peço uma coisa antes de nos separarmos de vez:

Que diga se ainda me poderia amar.

Beije-me.

Meus queridos pais, desposei o Tenente Pinson.

A cerimónia decorreu numa igreja em Halifax. Tenho de comprar o enxoval.

Preciso de 300 francos para além da minha pensão.

Se tivessem tratado da minha música como pedi,

teria dinheiro e não precisaria de pedir.

Escrevam o meu endereço assim:

Madame Pinson, 33 North Street, Halifax, Nova Escócia.

Peço que escrevam claramente "Madame" em todas as cartas.

Espero que estas boas notícias vos cheguem brevemente a Guernsey.

- O que fazem aqui? - Vimos visitar Victor Hugo.

Ele não está bem e não virá hoje.

Gostaria de falar com o chefe de redacção do jornal, por favor.

Aqui tem uma carta do Sr. V. Hugo para pôr um anúncio no jornal.

Então, a filha de Victor Hugo casou com um inglês?

Sim. O Tenente Pinson.

Pinson, o Coronel aguarda-o.

Pinson, ouça isto.

"Casou em Paris a 17 de Setembro,

o Sr. Albert Pinson da 16ª dos Hussardos ingleses,

que combateu com distinção na Guerra da Crimeia,

com Mademoiselle Adèle Hugo, filha de Victor Hugo,

oficial da Legião de Honra, outrora par de França

e ex-Representante do Povo durante a República,

membro da Académie Française

e Cavaleiro da Ordem de Carlos III de Espanha,

residente em St. Peter Port, Guernsey. "

Então, Pinson, agora tem o dom da ubiquidade?

Enquanto está em exercícios em Halifax,

o seu duplo está em Paris e casa com a filha de Victor Hugo.

E onde é que combateu a Guerra da Crimeia? Baden-Baden ou Monte Carlo?

Coronel, garanto-lhe que se trata duma brincadeira.

Visitei realmente a família Hugo no exílio. A Menina Hugo é uma jovem muito nervosa.

Ouvi dizer que deixou a casa do pai mas não faço ideia onde esteja agora.

Dou-lhe a minha palavra de honra de oficial

que não tive nada que ver com este anúncio.

É casado ou não é?

- Não, Coronel, não sou. - Estou disposto a acreditar em si.

Se o seu comportamento fosse irrepreensível,

não estaria exposto a estes contratempos.

Fará o favor de esclarecer este mal-entendido sem demora.

Mais uma leviandade e levo-o a conselho de guerra.

Pode ir.

Boa tarde, menina. Tenho uma carta para si.

Muito obrigada.

Adèle, estamos muito desapontados. Enganaste-nos.

Não és casada e não há esperança de que venhas a ser.

O Sr. Pinson escreveu-nos dizendo que nunca te desposará.

A tua mãe quis ir buscar-te a Halifax.

Foi difícil dissuadi-la. Tal viagem podia ser fatal para ela.

A sua saúde está a piorar.

Vou enviar-te 600 francos para o bilhete de regresso.

Se decidires regressar, o teu irmão irá esperar-te a Liverpool.

Saudades. Com sincera estima de teu pai.

Adèle, pensa na tua mãe. Pensa em nós. Volta para casa.

Meus queridos pais, têm razão.

Não pude casar com o Ten. Pinson pois ele faltou às suas promessas.

Escreveu-me várias cartas pedindo-me que o desposasse

e eu mandei fazer uma caixa para as guardar.

Não aceito a ideia de processar o tenente por quebra de promessa.

Se, realmente, lhe querem escrever, façam-no saber

como ficariam felizes em o aceitar na família.

E digam-lhe que não encontraria esposa mais amante.

Amo a minha mãe e o meu pai. Amo os meus irmãos. Amo-vos a todos.

Mas nada me fará deixar Halifax enquanto o tenente cá estiver.

Menina, tenho uma coisa para si.

É um presente.

Tinha-o de parte há algum tempo mas hesitei em oferecer-lho.

Tome.

É para mim?

Abra-o. Eu volto a embrulhá-lo.

Alguém me disse...

Alguém andou a contar histórias, e o senhor deu ouvidos.

Não quero que me espiem.

Deve haver outra livraria nesta cidade.

Tenente Pinson?

É para mim?

Albert, meu amor, gosta da mulher que levou este recado?

Se gosta, fique com ela até de manhã.

É tão bonito. Merece ter todas as mulheres do mundo.

Por favor, aceite o meu presente.

Já está tudo bem. Descontraia.

Pode deitar-se e voltar a dormir, Menina Tilly.

Já está tudo bem.

Está tudo bem.

Isso não passa duma intrujice.

- E agora, senhoras e senhores... - É uma grande intrujice.

- Saia do palco. - Quem é o senhor?

Porque não vem aqui, se é tão esperto?

Vou já mostrar-lhe. Que grande encenação.

- Venha. Estou à espera. - É fácil. Qualquer um o pode fazer.

É fácil. Canja. Simples.

Então é você o inteligente?

Como está? Prazer em vê-lo. Fique aqui um minuto, está bem?

Mesdames, mesdemoiselles, messieurs,

Tirarei agora a minha parceira, Menina Tilly Wong, do estado de hipnose.

Vou contar até 3 e ela acordará.

Ora... um, dois, três.

- Terminou. - É simples. Qualquer um o pode fazer.

- Agora, posso fazer eu. - Uma salva de palmas para a Menina Tilly.

- O seu nome? - R. Williams, Polícia Montada.

- Quer repetir? - Ralph Williams, Polícia Montada.

Visto que está tão bem montado, importa-se de se sentar?

Ponha-se à vontade. Descontraia.

Primeiro, vou pô-lo a dormir, já que está disposto a fazer a experiência.

Posso tirar-lhe o chapéu?

Descontraia, Sr. Williams.

Esqueça tudo. Ouça com atenção.

Concentre-se e siga todas as minhas ordens.

Tem muito sono, muito sono.

Tem as mãos e os braços pesados.

Tem as pernas pesadas como chumbo.

Dentro de momentos cairá num sono profundo.

Ao contar um, os olhos pesam-lhe.

Aos dois, os seus olhos fecham.

Aos três, cai num sono profundo.

Mesdames, mesdemoiselles, messieurs.

Está um lindo dia. O Sr. Williams rema num belo lago.

Está muito calor e ele rema com vigor.

Força. Mais.

Ainda tem muito que remar. Está muito calor, hoje.

Pode desabotoar a jaqueta, Sr. Williams.

Rema agora com muita força. Mais força.

Mais ainda.

Pode mesmo desabotoar as calças, Sr. Williams.

Mesdames, mesdemoiselles, messieurs.

Se eu quisesse, podia levar este homem

a deixar a polícia e a acabar os seus dias num convento.

Mas não iremos tão longe.

Chega, Sr. Williams.

Mesdames, mesdemoiselles, messieurs.

Quando eu contar até dois,

o Sr. Williams vai levantar-se, acordar e sair.

Ora bem. Um.

Dois.

Pare, Sr. Williams. A sua roupa.

Aqui tem.

Posso entrar?

- Faça favor. - Estive na sala. Assisti ao espectáculo.

Foi espantoso.

Fiquei muito impressionada.

Mas não vim aqui só para lhe dizer isso. Queria propor-lhe um negócio.

Negócio? Tem um teatro?

- Não. Não me referia a isso. - Sou todo ouvidos.

Não diz nada.

Estou muito intrigada com o seu poder.

É muito amável. Faço apenas o meu trabalho.

Sou só o instrumento de uma força que vem de algures.

- Este poder tem limites? - Sim. O espaço, por exemplo.

Não posso actuar em pessoas fora da minha presença.

- É jornalista? - Preciso de si para um assunto pessoal.

Para curar um doente? Já o fiz.

Não, não é para isso. Pode mudar os sentimentos de alguém?

- O que quer dizer? - Isto é...

Transformar o amor em ódio ou vice-versa?

Lamento, não consigo. Só sei trabalhar nos corpos, não nas almas.

A hipnose só permite forçar certas pessoas a actuarem contra sua vontade.

E só certas pessoas. Há pessoas rebeldes.

Ouça. Pode obrigar um homem a casar com uma mulher?

Contra a vontade dele?

Porque não? Desde que se consiga atrair o homem para um local combinado.

E reunir tudo o que é necessário para a cerimónia.

Um padre, claro, e 2 testemunhas.

Pensando bem, não é fácil.

Mas não é impossível.

É só uma questão de dinheiro.

Eu tenho dinheiro.

Tilly, sai. Despacha-te.

Vamos. Depressa.

- Com que então, tem dinheiro? - O meu pai tem.

- Onde está ele? - Na Europa. É um homem rico e famoso.

Então posso escrever-lhe para ele me mandar dinheiro?

Não. Não quero o nome dele metido nisto.

Ouça, minha cara, não resultará.

É um assunto muito sério para eu me precipitar às cegas.

Por que haveria eu de confiar em si?

Quem é o seu pai?

Ou a menina não tem nada a ver com este homem

e não terá dinheiro que chegue, porque eu vou pedir muito,

ou é mesmo filha dele, e nesse caso eu não corro o risco.

- Então, recusa? - Recuso.

Só o farei se...

Preciso de 5.000 francos adiantados.

- Terei o dinheiro para a semana. - Óptimo. Eis o que faremos.

Desculpe, chefe. Onde quer este uniforme? Aqui?

Madame.

Vê o que fizeste, meu idiota.

Sai.

Denuncio a impostura do estado civil, a fraude de identidade.

Filha de pai incógnito.

Eu sou filha

de pai incógnito,

de um pai totalmente incógnito.

Mas não conheço o meu pai se sou filha de pai incógnito.

Um jovem casal está sepultado na mesma urna.

Nem mesmo a morte os separa.

O vestido da jovem morta está exposto em casa dos pais.

Mas é meu também.

É a minha casa.

O vestido da jovem noiva está exposto como relíquia para as visitas.

E eu?

Que devo fazer?

Ardem-me os olhos.

Os meus olhos.

Já não posso olhar para eles.

Não suporto mais ver aquela mala de roupa.

Há que deitar fora a roupa da minha irmã. Há que a queimar ou dar a alguém.

Não suporto ver aqueles vestidos.

Os meus olhos não os suportam.

Os meus olhos.

Menina Adèle, deixe-me entrar. O que se passa?

Como é que ele pode fazer isto?

Ele não pode fazer isto.

Johnstone.

Agnes Johnstone.

- O'Brien, conhece o solar Mount Amelia? - Sim, Menina Lewly.

- Leve-me lá. - Tenho de dar a volta.

É no outro lado da cidade.

Espere por mim.

- Mademoiselle? - Gostaria de falar com o Juiz Johnstone.

Preciso muito de lhe falar.

- Tenho de falar com o juiz. - Só com marcação.

Quero falar com o juiz.

- George? - Está tudo bem, Menina Agnes.

Está aqui uma senhora para falar com o juiz mas não tem marcação.

Não armes confusão. Vou falar com o meu pai. Decerto a receberá.

Tenho de falar com ele.

Tenho que lhe falar. É imperativo.

O meu pai vai recebê-la agora.

Estou-lhe grata por me receber.

- É francesa, ao que parece. - Sim.

- Sou filha de Victor Hugo. - O escritor.

Não comungo das suas ideias políticas, mas admiro a sua coragem.

Vou direita ao assunto. Ouvi falar no noivado da sua filha.

O Ten. Pinson não é digno de entrar na sua família.

Avalia a gravidade do que está a dizer?

Perfeitamente. Conheço o Ten. Pinson há vários anos.

Ele insinuou-se nas boas graças da minha família.

Fez-me a corte discreta mas persistente. Admito que lhe correspondi.

Eu tinha pouca experiência do mundo - graças a dois anos de exílio.

Este jovem sabia seduzir uma rapariga ingénua, e se eu era ingénua.

Rompi o meu noivado com um amigo do meu pai.

Só pensava em casar com o Tenente Pinson.

- E os seus pais? - Opunham-se a este casamento.

A minha mãe desconfiou que nos encontrávamos e foi indagar.

Ele não é filho de um clérigo. Foi preso por dívidas.

Deram-lhe a escolher entre a prisão e o exército. Ele escolheu o exército.

Mas eu convenci os meus pais a consentirem, e nós casámos.

- O Pinson assinou mesmo o contrato. - Tem alguma prova?

Eis um recorte de jornal anunciando o nosso noivado e o casamento.

Se este tenente é assim tão mau, por que está ainda casada com ele?

As pessoas controlam sempre o que sentem?

É possível amar um homem e achá-lo desprezível em tudo.

E além disso...

Espero um filho dele.

É ridícula.

Virar à esquerda.

- Boa noite, George. - A Menina Agnes não está.

- Mas ela está à minha espera. - Não está em casa.

- Então, eu falo com o juiz. - Ele não está em casa.

- Mas a sua carruagem está no caminho. - Lamento. Não está ninguém em casa.

Vou mandar deportá-la. Ao diabo o escândalo.

Acalme-se. Há uma solução. Já alguma vez o aconselhei mal?

Sou todo ouvidos.

Basta que ela se vá embora e acabam-se os seus problemas.

Mas como fazer com que ela se vá? Já tentei tudo.

Ameaças, orações, promessas. Até lhe implorei. Nada resulta.

Visto que ela o segue como um cão, ela só partirá se você o fizer.

Nada feito, porque eu não faço tenções de partir.

Não foi o que ouvi. Diz-se que o regimento será transferido em breve.

Vamos sentir a sua falta, mas apraz-me que tenha tomado a decisão correcta.

E os seus pais vão ficar tão felizes de a voltarem a ver após tanto tempo.

Espero que...

Posso falar do Ten. Pinson? Espero que o tenha tirado da ideia.

Ele não é digno de si.

Quem pensa ele que é, para se recusar a casar consigo?

Está enganada. Fui eu que não quis casar com ele.

O casamento é degradante para a mulher, sobretudo uma como eu.

O meu trabalho requer solidão.

E pense só no meu nome. Pense no meu pai.

Nunca poderia desistir do apelido Hugo.

Sim, compreendo.

Esta coisa incrível de uma rapariga cujo pão

depende da caridade do pai, que ainda sente ódio após 4 anos,

isto é algo que farei.

Que uma jovem tenha de atravessar o oceano,

ir do velho para o novo mundo ao encontro do seu amado,

isto é algo que farei.

Menina Adèle, tenho um presente para si.

É uma capa. É bela de mais para mim.

Ficará muito melhor em si.

Guarde-a como recordação nossa.

Obrigada, Sr.ª Saunders.

Muito obrigada.

Adeus, Menina Adèle.

Escreva-me quando chegar.

Para onde, menina?

Já não sei.

Por que não fica com a Sr.ª Saunders?

Não posso. Não quero voltar a vê-la.

- Vamos para o hotel? - Já não tenho dinheiro.

Conheço um sítio onde não terá de pagar.

Não mexa nisso.

É o meu livro.

Por favor, tem o meu correio?

- Não a conheço. - Mas eu recebo sempre aqui o correio.

Vou verificar.

Conhece aquela mulher?

Conhece aquela senhora?

Desculpe. Estas pessoas são novas cá. Não a conhecem.

Vou ver se há cartas para si.

Obrigada.

Aqui estão 700 francos para o teu regresso.

Se continuares em Halifax, este dinheiro será um adiantamento da tua pensão.

Queixas-te que não mandei publicar a tua música.

Por agora, é melhor não atraíres as atenções.

A tua mãe está tão doente que não lhe mostramos as tuas cartas para não piorar.

Ela mudou de Guernsey para Bruxelas, estou sozinho em Hauteville House.

Minha querida, espero-te de braços abertos.

Estou velho. A minha maior alegria seria ter-vos todos a meu lado.

Bom dia, Sr.ª Saunders.

BRUXELAS: Tomámos conhecimento da morte da Sr.ª Hugo,

mulher do famoso poeta francês.

DESLOCAÇÃO DE TROPAS: A 16ª dos Hussardos, estacionada em Halifax,

desloca-se, em 15 de Fev. De 1864, para as Ilhas Barbados.

Afastem-se. Larguem a senhora francesa.

Desculpe, Sr.ª Pinson. Tenho de falar com o capitão.

Há algo que deve saber.

Estive esta manhã no bairro Negro,

e vi no mercado uma mulher europeia que armou uma grande cena.

Aproximei-me e era a Menina Hugo.

E tenho notícias piores. Ela dá pelo nome de Sr.ª Pinson.

Temos de a encontrar. Há que evitar aqui o que aconteceu em Halifax.

O que se passa, Albert?

Não é nada, minha querida.

Espere aqui por mim.

Vou ler-lhe a carta. Diga-me se está tudo bem.

"Sr., não passo de uma mulher simples das Ilhas Barbados. "

"Não sei ler, mas conheço o nome de V. Hugo. "

"Há dez anos era escrava,

e sei que é amigo e defensor dos oprimidos. "

"Reparei nas ruas de Bridgetown numa mulher vestida de modo invulgar,

que parecia ser pobre e marcada pela fatalidade. "

"As crianças troçavam dela na rua, o que me desgostou. "

"Um dia, senti-me no dever de a proteger. "

"Trouxe-a para minha casa e cuidei dela. "

"Soube que ela é sua filha. Foi abandonada por um oficial

que ela seguiu até Halifax e, depois, aqui para Barbados. "

"O desgosto destruiu-lhe o corpo e a alma. "

"Se o seu corpo sarou, já a sua alma deve estar perdida. "

"Adèle precisa de regressar a casa, ao calor da família. "

"Se concordar, Sr. V. Hugo, posso levar a sua filha para a Europa. "

"O Sr. Werder, da Martinica, adiantará o dinheiro para a viagem. "

E assim, Adèle regressou a França, acompanhada da Madame Baa.

A Europa havia mudado muito.

A queda de Napoleão III permitira a V. Hugo voltar a Paris após 18 anos de exílio.

Após o reencontro com Adèle, internou-a numa clínica onde ela viveu 40 anos.

Ela jardinava, tocava piano e escrevia o seu diário na sua linguagem cifrada.

Adèle sobreviveu a toda a família.

Seu pai morreu em 22.05.1885, a última coisa que disse foi "Vejo uma luz negra. "

O dia do funeral de Victor Hugo foi um dia de luto em toda a França.

O corpo ficou exposto toda a noite sob o Arco do Triunfo.

Dois milhões de pessoas seguiram a urna da Place de l'Etoile até ao Panthéon.

A morte de Adèle em 25 de Abril de 1915

passou quase despercebida no turbilhão da 1ª Guerra Mundial.

50 anos antes, ao deixar Guernsey, Adèle escreveu no diário:

Esta coisa incrível de uma jovem atravessar o oceano,

ir do velho para o novo mundo ao encontro do seu amado,

é algo que farei.

ESTA FOI A HISTÓRIA DE ADELE H.

Legendagem Visiontext: Teresa Amaro

PT

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