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Aqui vamos nós!
Estão todos prontos?
Um, dois, três!
Um cavalo!
Nathan!
Feliz aniversário, Nathan.
Está vendo? Tem girafas e zebras.
Nathan, pare.
Pare de comer os doces.
Olhe. É aqui que vamos dormir.
Tem uma piscina enorme para nadar, está vendo?
Chega de doces.
Nathan, sua mãe está vindo.
Nathan.
Então, tchau.
-Tchau. -Tchau.
JORNADA DA VIDA
Rápido.
Demba, espere!
Eu ganhei de você, Demba.
Tenho uma coisa para o senhor.
-Não, obrigado. -É uma máscara Dogon.
O Pássaro Kanaga.
-É ancestral! -Doze mil.
-Não... Sete mil, então. -Está vendo as orelhas?
-Dez mil. -Certo, pode levar.
É sobre um menino da vila de Yvelines.
Onde fica Yvelines?
A família dele emigrou do sul do Senegal.
Ele cresceu em Yvelines, cheio de sonhos.
Ele quer ser boxeador ou embaixador.
Mas, para isso, você precisa ir para a faculdade,
e ele não gosta de estudar.
Então, ele larga a escola e sua grande aventura começa.
É bom irem andando!
O que estão fazendo, bando de malandros?
Estão esperando que a escola venha até vocês?
Vá embora, malandro!
Você vai ver o que é bom!
Malandro!
O livro!
Oumy, espere!
É uma corrida!
Vamos recapitular a lição de ontem.
Quem lembra do que fizemos ontem?
Sim? Você.
Aprendemos sobre o corpo humano, professora.
Certo. Então, hoje...
O que vai fazer?
Vou costurar de volta.
Mas tem páginas faltando.
O Demba vai conseguir papel, e eu vou escrever.
Quer ajudar a gente?
Nos encontre na árvore hoje à noite.
A respiração é um ciclo de duas vias.
Temos a inspiração e...?
Expiração.
E hoje, vamos...
Yao, leve esse pacote para a Sra. Diallo.
-Mas, pai! -Não seja respondão!
Você está sempre perdido nesses livros.
Oumy, consegue guardar um segredo?
Não conte! As meninas não sabem guardar segredo.
Yao, eu não vou contar para ninguém.
Qual é o segredo?
Seydou Tall está vindo para Dakar. O Demba e eu vamos vê-lo.
Para conseguir um autógrafo no livro.
Sério?
Vamos amanhã de manhã.
Meu primo vai nos colocar em um caminhão.
E temos dinheiro também.
E a escola?
Quem liga para escola? É o Seydou Tall!
Ele vai me dar dicas de atuação.
E você, Yao?
Quero vê-lo pessoalmente.
E conseguir o autógrafo dele.
Você acha que ele vai assinar essa coisa?
Vão para Dakar mesmo?
-Pois não? -Sou eu.
Já desço.
Tentei te ligar de manhã. O Nathan está doente.
O que foi?
-Uma febre. -Está alta?
Está.
Ele está bem quente.
É só uma reação à vacina. Ele vai ficar bem.
Eu vou nessa viagem justamente para ficar com ele.
Eu entendo, mas ele está com dor de ouvido.
-Ele não pode ir. -O quê?
Ele está com dor de ouvido.
Deve ser uma otite.
Ele não pode viajar de avião.
Não faça isso comigo.
Adie a viagem.
Não posso, Laurence.
É uma pena.
Uma pena?
-Oi, Barry. Posso? -Claro.
Obrigada.
-Obrigada. -Não há de quê.
Deixe-me subir e me despedir.
Ele está doente e não pode viajar. Fim de papo.
Tchau.
Pare...
Laurence...
Que pena.
Era importante.
Agora viagens são importantes?
-Claro que são. -É?
Você nunca viajou com a gente, mas agora é importante?
Estou dizendo que é uma pena.
É só isso. Uma pena.
Tenho pena de você.
Laurence...
-Onde está o Demba? -Está vindo.
Está com o dinheiro?
Me dê.
Rápido!
Você vai naquele caminhão.
Espere! O Demba ainda não chegou!
Demba!
O que foi?
Eu te esperei. Onde você estava?
Seu primo pegou o dinheiro. O que vamos fazer?
-Você disse que iria. -Yao, é longe demais. Não podemos ir.
Está com medo?
Não, mas você é louco.
Passagens, por favor!
Se esconda!
Obrigado.
Passagens, por favor!
Muito obrigado.
Passagens, por favor!
-Bem-vindo ao Senegal. -Obrigado.
-Uma pergunta, por favor! -Ele não pode responder agora.
-Selfie! -Desculpe, agora não.
O avião atrasou, estamos muito ocupados.
A RTS vai te entrevistar no festival.
Vamos te ver na Bienal?
Claro, é por isso que estou aqui.
-Sinto muito, obrigado por virem! -Sem fotos!
Desculpe, não achei que pegaríamos trânsito.
Olá.
Obrigado.
O que está fazendo aqui, seu ladrãozinho?
Saia daqui!
Vá!
Muito obrigado.
Bom dia.
Espero que não peguemos mais trânsito.
-Você acha possível? -Estamos em Dakar.
Sr. Tall!
Podemos tirar uma foto?
-Uma selfie? -Claro.
Sr. Tall! Pode autografar meu livro?
Ele não vai autografar seu livro. Vá embora!
Espere...
Por favor, Sr. Tall.
Venha cá.
Deixe-me ver seu livro.
Venha comigo.
É culpa da cabra.
Que cabra?
Uns toubabs deram o livro de verdade ao Demba.
Deixamos debaixo de uma árvore, e a cabra comeu.
Pegamos a cabra e tentamos consertar o livro.
-Da onde você é? -Kanel.
-Onde fica? -Fica a 387km daqui.
Aproximadamente.
Com quem você veio?
O Demba ia vir comigo, mas ele ficou com medo.
Então eu vim sozinho. Um homem me levou até a estação.
Eu peguei um trem.
Sozinho?
E como vai para casa?
-Aqui tem trens noturnos? -Não sei, Sr. Tall.
Para que lado é sua cidade?
Boa noite, senhor.
O que você quer?
Uma "gazelle" de abacaxi. Com canudo!
-É bom? -É uma questão de gosto, senhor.
Vou querer o mesmo. Com canudo também.
-Tudo bem. -Obrigado.
Você é um menino tímido que sabe exatamente o que quer.
Eu sou o oposto.
Vou autografar seu livro.
Meu nome é Yao.
"Y" maiúsculo, "a", "o".
PARA YAO
Pode colocar "para Demba" também?
"D" maiúsculo, "e", "m", "b", "a'.
Muito obrigado.
Você copiou o livro?
Sua letra é bonita.
A parte sobre aventura, na página 12.
"A aventura de um homem toca a humanidade."
Toda a humanidade, sim.
-Sabe de cor? -Sim, de cor.
Sou filho de alfaiate também.
-Seu pai é alfaiate? -É.
E eu sou Tukulor, como você, e falo Pulaar, como você.
Eu entendo, mas não falo.
Não fala?
Não mais.
E, como você, adoro o som de máquinas de costura.
Me ajuda a fazer a lição de casa.
Como o aluno exemplar vai voltar para casa?
Eu pego o trem ou uma carona.
Eu sei me esconder.
Não tem escola amanhã?
Tem.
E faltou hoje?
Não tem importância.
E seu pai também acha isso?
Precisa contar a ele.
Me dê o número dele.
Meus pais sabem.
E onde você vai dormir?
Não sei, Sr. Tall.
De certa forma, Sr. Seydou Tall,
é o símbolo vivo desse laço.
Atores nos inspiram a sonhar com um mundo melhor.
O senhor transforma cobre em ouro,
palavras em risadas e lágrimas.
Resumindo, em poesia.
Como o Presidente Senghor disse:
"A poesia não pode perecer.
Pois, se isso acontecer, onde encontraremos esperança?"
Obrigado.
Com o Sr. Tall!
Mais um admirador!
Preciso admitir que estou com ciúmes. Seydou!
Sr. Tall...
Podemos tirar uma foto, por favor?
Obrigado.
Maravilhoso, obrigado.
Mais uma?
Obrigado! Boa noite.
-Olá. -Olá.
-Para onde? -Para a rodoviária.
Vamos lá.
Me diga, Sr. Tall.
Dizem que as mulheres desmaiam quando entra no set.
É verdade?
Não.
Não é verdade.
Tchau, Sr. Tall. Foi uma honra tê-lo conhecido.
Tchau.
Consegue achar seu ônibus?
Foi mais difícil encontrar o senhor do que encontrar um ônibus.
Como chama sua cidade mesmo?
Kanel, Sr. Tall!
Espere.
-Você conhece? -Conheço!
Bolinhos de camarão, mulheres com flores no cabelo!
Pode nos levar até lá?
Conheço o oeste da África muito bem. Tombuctu, Djenné, Lomé, Acra, Kanel.
-Kanel! -Conseguimos chegar lá até amanhã?
As pessoas me chamam de trem bala!
Ótimo.
Venha!
Eu te levo.
Podemos adiar o voo de volta?
Ótimo! Obrigado.
Não, mande para mim mesmo. Eu me viro.
Tchau.
Me diga, patrão... Seu pai é daqui, não é?
-Como você sabe? -Você é famoso, esqueceu?
Nós lemos jornal aqui também.
-De onde são seus ancestrais? -De uma vila chamada Tialaga.
Você conhece?
Tialaga!
Bolinhos de camarão, mulheres com flores nos cabelos!
Onde é?
-Não faço ideia. -Vamos encontrar.
O país é grande, mas vamos encontrar.
Eu tenho um voo amanhã à noite. Só vamos levá-lo para casa.
Mas é a terra dos seus ancestrais!
Precisa conhecer a terra de onde veio.
Não.
Tialaga?
Então você é Haalpulaar?
Isso.
Oi, primo!
Esse é meu primo.
Não tem problema.
Está muito quente.
Não está com calor?
Não.
-Pode aumentar o ar condicionado? -Está no máximo.
-Aonde ele vai? Não tem nada aqui. -Ele vai.
Para algum lugar.
Onde ele está?
Foi para lá.
Em direção às árvores.
Ele disse algo?
Pediu para esperarmos.
E para relaxarmos.
Acha que ele vai voltar?
Claro.
Quando?
Não faço ideia.
Vamos procurá-lo.
Vamos.
Deve ter algo por aqui.
Com licença.
Estou procurando um motorista de táxi
que está vestindo um negócio azul.
E está com um outro negócio na cabeça.
Vocês o viram?
De que eles estão rindo?
O que estão dizendo?
Não sei.
Para lá?
Obrigado.
É o Seydou!
-Tudo bem, irmão? -Não, não está nada bem.
Ela estava aqui, eu estava aqui...
Seria errado não fazer uma visita.
Certo, mas agora precisamos ir.
Certo, patrão. Depois que comermos.
Não!
Esperamos por uma hora! Você saiu sem dizer nada!
Irmão, você está aqui, eu estou aqui. O carro está lá.
Relaxe, nós vamos chegar lá.
Quando? Preciso estar em Dakar amanhã!
Eu te disse! Tenho um voo à noite!
-Pare de se preocupar. -Não consigo!
Tudo acontece no tempo certo.
Olhe, essa é a família da minha segunda esposa.
Eles cozinharam, mataram uma ovelha para nós.
Não podemos ir embora assim, é errado.
Nós vamos, mas, primeiro, vamos comer.
Você é nosso convidado.
Já entendi.
Quanto você quer?
Fale! Quanto?
-Eu disse que eu te levo. -Então me leve!
-Eu vou. -Então vamos!
-Quando é o seu voo? -Às 18h.
Legal, sem problemas.
Acalme o coração, não precisa se preocupar tanto.
O que ele disse?
-Ele tem um carro. -E ele pode ir agora?
Não, não posso ir.
Mas posso vendê-lo para você. É um carro francês.
Pode viajar pelo país com o seu filho.
Ele não é meu filho, mas...
Escute...
Yao, o que eles estão dizendo?
O motorista está bravo. Eles mataram uma ovelha para nós.
E daí?
Me mostre seu carro.
Fique com a sua esposa!
Quanto?
Mil euros.
800. É tudo que eu tenho.
Tudo bem.
Ótimo, obrigado.
O tanque está cheio.
Muito obrigado.
Você acha que eles me roubaram?
Pelo menos o tanque está cheio.
O quê?
Nada, Sr. Tall.
Vamos, desembuche.
Você está com bico, o que foi?
Aquilo foi errado.
O que foi errado?
Ir embora desse jeito.
Foi ele que nos abandonou!
É, mas eles cozinharam.
E você fugiu!
387km de casa.
Isso não foi errado?
Pare com essa pose.
Vamos, coloque o cinto.
Não tem cinto.
Por que disse que eu não sou seu filho?
Porque você não é.
E por que seu filho não está aqui?
Ele ficou doente.
Ficou com a mãe dele.
Ela é bonita?
E isso é da sua conta?
Desculpe, Sr. Tall.
Tem sanduíches?
Olhe só isso.
Loucura!
Direto da pré-história!
Aqui.
Vá pegar nossos sanduíches.
Você é divorciado?
Não.
Estamos separados.
Separando.
É coisa de adulto, não se preocupe.
-Você a ama? -Amo.
Mas, às vezes, os adultos se separam mesmo assim.
E o Nathan mora com a mãe dele?
Como sabe o nome dele?
Está no livro, eu li o livro.
É, ele mora com a mãe dele, e comigo também.
Meio a meio?
E fins de semanas alternados.
Obrigado.
Meio a meio.
Ele mora com a mãe dele, mas te vê em fins de semana alternados.
Por que alternados?
Por que esse interrogatório?
Quer ser policial ou coisa assim?
Tenho amigos que querem ser policiais.
Mas eu não.
Se eu te disser meu sonho, não pode dar risada.
Vá em frente.
Meu sonho é o projeto "Mars One".
O que é isso?
-Não conhece? -Não.
Eles vão levar humanos para Marte em 2025.
Eles vão morar lá e nunca mais vão voltar.
A cada dois anos, novos astronautas vão chegar.
200 mil pessoas se candidataram.
Escolheram 30, e elas já estão em treinamento.
Sortudas.
O que eu deveria ser?
Astronauta ou mergulhador?
Quando eu li "Vinte Mil Léguas Submarinas",
eu quis ser mergulhador.
Eu também.
Ambos usam roupas especiais.
É verdade.
É difícil escolher uma vida.
E eu nunca vi o mar.
Talvez eu tenha medo.
Você?
Você não tem medo de nada.
-Você estar aqui prova isso. -Você também.
Verdade.
Qual você prefere?
"Da Terra à Lua", "Vinte Mil Léguas"
ou "Viagem ao Centro da Terra"?
Sabe de uma coisa?
Nunca li nenhum deles.
-Nunca leu Júlio Verne? -Não.
-Onde consegue seus livros? -Na biblioteca Nelson Mandela.
Não existia bibliotecas quando você era mais novo?
Claro que sim.
Mas elas eram para meninas.
Se seus amigos te vissem entrando em uma, você estava morto.
E, se conseguisse entrar, te expulsavam por conversar.
Mesmo se não estivesse conversando.
Se eu não for astronauta ou mergulhador, escreverei um livro.
O que vai escrever?
"Harry Potter".
Isso já foi feito.
Escolas africanas de bruxaria são diferentes.
É verdade.
Tenho uma pergunta.
Sério?
Por que escreve mais sobre sua mãe do que sobre seu pai?
Meu pai é muito fechado.
Por quê?
Não sei, é escolha dele.
Por que nunca vem para o Senegal?
Você não para!
-Não quer contar? -Não tenho nada a dizer.
Por favor.
Pare.
-Para onde vai? -Fazer xixi.
O que acha de uma "gazelle" de abacaxi?
Sim, nada melhor que "gazelle" de abacaxi com canudo.
Concordo.
O que eu posso comprar para o Nathan?
Não sei.
Talvez um livro?
Ele só tem seis anos.
Se ele estivesse aqui, poderíamos brincar juntos.
Quer ver uma foto dele?
Você é o palhaço?
Não, não sou eu.
Por que não?
Você paga uma pessoa para se vestir de palhaço em festas.
Por que seu filho não estava sorrindo?
Ele é tímido, acho que é por isso.
Também sou tímido, sabia?
Você é tímido?
Está muito bem para alguém que é tímido.
O Nathan teve dois aniversários?
Pode-se dizer que sim.
Na festa da mãe dele também teve palhaço?
Não, teve um mágico.
É, eu sei.
Precisa seguir os passos dos seus amigos.
Eu queria saber qual das festas ele gostou mais.
Que tal uma camiseta?
Você tem tamanho infantil?
Sim, feito em Bamako. Qualidade boa.
Qual você gosta mais?
Aquela.
Tem o tamanho grande também.
-Essa aqui? -Assim, vocês terão a mesma camiseta.
Tem alguma mais simples?
Essa.
Posso ver a pequena?
Aqui.
Vou levar as duas.
-Uma para ele também. -Certo.
Qual você quer?
Obrigado, Sr. Tall, mas...
Eu prefiro essa.
Tudo bem.
Sr. Tall?
-Fico feliz de tê-lo como cliente. -Obrigado.
-Quanto ficou? -5 mil.
Yao é um nome engraçado.
Significa alguma coisa?
Sim, "quinta-feira".
Sério?
Eu nasci numa quinta e sou menino.
É assim que funciona em Togo.
O pai da minha mãe é de lá.
Meu nome completo é Yao Racine Tidjane Kane.
Então me diga, Yao Racine Tidjane Kane...
Por que fez essa viagem sozinho?
Eu sou ator, não astronauta.
Quem sou eu para um garoto como você?
Lembra do meu amigo Demba, que eu falei?
Ele quer ser ator. Ele interpreta o Scapin.
Ele é muito bom e quer melhorar.
Ele quer dicas suas sobre como interpretar o Scapin.
E você?
A professora diz que eu recito.
Não sei o que fazer com as minhas mãos.
Não tenho dicas.
Eu caí de paraquedas nisso.
Eu imitava os clientes do meu pai.
Notei que eles sempre faziam as mesmas coisas.
Dá para notar muitos detalhes observando pessoas.
Você se diverte, age como bobo,
faz seus amigos rirem... E aí, se apaixona pela arte.
É só isso.
Se me perguntar quanto eu cobro,
eu arranho sua cara!
Eu não disse nada.
Mas você pensou.
Meu nome é Gloria.
E você?
Seydou.
Você não é daqui.
Como sabe?
Dá para notar.
Como assim?
Não sei, seus sapatos...
Seu relógio.
Suas unhas!
Você age diferente dos homens que são daqui.
O que faz na França?
Sou ator.
Sério?
Trabalha na TV?
Pode me contar o que quiser.
Não assisto TV.
Meu negócio é a música.
Você também dança bem.
Não foi nada demais.
Sabemos rebolar um pouquinho.
Mas não é nada demais.
Essas garotas não escolheram estar aqui.
E nem eu.
De onde você é?
Mali.
É um país lindo,
mas está difícil por lá agora.
Muito complicado.
Então me mudei.
Eu, minha guitarra e meu djembê.
Surpreso?
Não.
A mulher africana aventureira!
Sempre que faço algum dinheiro,
mando para a minha mãe.
Para ela e para o meu filho.
Me conte...
Está hospedado aqui?
Estou.
-Qual o número do quarto? -Não estou sozinho.
Isso não está certo.
Claro que está! Você fez assim.
É assim.
É uma dança.
Rebole bem assim.
E aponte para a pessoa.
Não estou apontando para ninguém.
Me dê cinco minutos.
Um cabaré está procurando uma cantora. Acho que vou tentar.
Fica no seu caminho.
Você me deve pelo menos isso.
Yao, vá atrás, por favor.
Vamos!
Seu carro é engraçado.
Um artista que passa fome?
Não tem problema, gosto de você mesmo assim.
Está indicando "cheio" desde ontem.
Todos juntos!
-Olá. -Olá.
Para onde vai?
Estamos indo deixar essa senhorita na cidade.
Documentos do carro.
Dê dinheiro a ela.
Por quê?
Seu carro está um horror. E é clandestino.
O carro de todo mundo é!
As pessoas pagam?
É parte do orçamento.
Baksheesh, propina.
E você precisa pagar o dobro.
-Por quê? -Porque você é branco.
Eu sou branco?
Yao?
Você não é branco, é igual Prestígio.
Tem catalisador no carro?
Na verdade, esse carro é emprestado.
Abra o porta-malas.
-Sua licença é francesa? -Sim.
Você veio da França?
Sim, para passar uns dias.
A colonização já acabou.
Temos leis aqui.
Catalisador é obrigatório em todos os veículos
que pesam até 3,5 toneladas e com pelo menos quatro rodas.
Tenha um bom dia.
Obrigada.
Eu paguei, mas não sou um Prestígio.
Pare com isso.
CASA
Alô?
Alô.
-Quem está falando? -Meu nome é Yao.
-Posso falar com o papai? -Você é o Nathan!
Seu pai está ocupado.
Onde ele está?
Espere.
Está ouvindo aquela garota?
-Acha que ela canta bem? -Não.
Você tem razão.
Não canta nada.
Você precisava vê-la.
Por quê?
Como ela é?
Ela é o tipo de garota que bota os seios para fora para chamar atenção.
Todas as histórias têm uma.
Assim como as sereias em "Ulisses".
Sabe?
Eu peço para o seu pai te ligar de volta.
Certo, tchau.
Tchau.
Venha para Paris comigo.
Para cantar.
Você tem uma voz linda.
Eu posso ajudar.
Promessas vazias.
Já ouvi isso antes.
Você não me conhece.
O que eu faria na França?
Eu me viro por aqui.
Aqui, dizemos:
"Se for embora, quem cuidará do seu campo?"
-Você não tem campo. -Como você sabe?
E eu tenho um filho!
E você? Pode ficar?
Também tenho um filho.
Compre uma passagem de avião para ele.
Certo, eu vou.
Para onde?
Ver o seu teste.
Você será grande, vai ver. Eu te ajudo.
O quê?
Você será famosa.
Famosa!
Você será meu agente?
Vai cuidar dos meus contratos?
Sim, contratos grandes. Vai ver.
Seydou...
Você não conhece a África.
Não sabe nada de música.
Não existem contratos aqui.
Você me ensinará.
Desculpe, Sr. Tall.
Esqueci de dizer que seu filho te ligou.
-Quando? -Mais cedo.
Droga! Espere...
Qual seu problema?
Está com ciúmes? Me quer só para você?
Você é pequeno demais para mulheres bonitas como eu.
Olá, aqui é a Laurence. Não posso atender agora.
Por favor, deixe uma mensagem.
Sou eu, e foi para a caixa postal de novo.
O Nathan me ligou. Diga a ele que está tudo bem.
Vou pegar o avião
hoje à noite.
Chego logo.
-Sim, senhor? -Olá.
-Encha o tanque, por favor. -Claro, senhor.
Esse também.
-Aceita cartão? -Sim.
Podemos ir?
Por que está tão quieto?
Kanel, Kanel!
Kanel.
Kanel, Kanel!
Desculpe.
Eu realmente queria te levar para casa.
Mas tudo deu errado.
Preciso pegar meu avião.
Você vai procurar a Gloria?
Preciso ir para casa.
Entendo.
Kanel, Kanel!
-Quando o ônibus sai? -O quê?
-Quando vão sair? -Quando o ônibus estiver cheio.
Você vem?
Kanel, Kanel!
Não vá!
Saia da frente! Preciso pegar meu filho!
Saia!
Yao!
E o seu avião?
Vamos embora.
Que tal vermos o mar?
Vamos!
É como um lago sem fim.
Parece que está fervendo.
Como se tivessem acendido um fogo debaixo dele.
Aqui, olhe!
Aqui.
Vamos mais para o fundo.
-Aí vem ela. Cada um por si! -Não!
Você consegue!
Mexa seus braços como eu.
Agora você vai nadar.
As pernas... Nada mal.
Sr. Tall, está dormindo?
Estou pensando no Nathan.
O que tem ele?
Você contou para ele?
-O quê? -Quando você não chegar,
o Nathan vai ficar assustado.
Yao, durma.
Não consigo.
E os siris?
O que tem eles?
Eles dormem à noite?
Dormem.
Não vão vir atrás de nós?
Venha cá.
Se aconchegue.
Relaxe.
Eu vou ficar de olho.
O que eles estão falando?
Para puxar de volta as redes.
E agora?
Peixe Imperador no mar!
Peixe frito no mar!
Peixe defumado no mar!
É isso?
Cante para mim.
Peixe frito no mar!
Poeira na estrada!
Tempestade de areia no ar!
Não há mais "gazelle" de abacaxi!
Um menininho espertinho!
-Um cara que não transou com a Gloria! -O quê?
-Um cara que nunca leu Júlio Verne! -Pare com isso...
Eu li outras coisas.
Droga.
Acabou a gasolina?
Não é isso...
Olhe o pedal.
O cabo da embreagem deve ter se soltado.
Não temos mais embreagem!
Por favor!
-Salaam Aleikum. -Alaikum Assalam.
Tall.
Seydou Tall.
Tudo bem.
Ele está feliz por você ser Tukulor como ele.
Tem comércio por aqui?
Ele disse que os produtos vêm da Mauritânia.
É do outro lado do deserto.
O que ele disse? Eu ouvi "Tialaga".
Ele está indo buscar a família dele.
Eles vão para o batizado do sobrinho dele
em Tialaga.
Acha que tem muitas vilas chamadas Tialaga?
Não sei.
Talvez.
IBRA PEÇAS DE REPOSIÇÃO FRANCESAS
Obrigado.
Já sei. Foi a embreagem, não é, amigo?
A embreagem.
O guincho já está vindo.
O Ibra vai cuidar disso. Ibra...
Sou eu!
Olá.
Nesse meio tempo,
será uma honra dividir minha mesa e minha casa com vocês.
Você é muito gentil, obrigado.
Tanam!
Se eles cozinharam, não podemos ir embora.
Seria errado, não é?
Olá.
De onde você é?
França.
Nunca veio para cá?
E por que ele viria? Deixe-o em paz!
Deixe-o descansar.
Yao!
A Mauritânia fica do outro lado.
A 160 metros daqui.
Ibra?
Conhece uma vila chamada Tialaga?
Tialaga? Claro.
É perto, por quê?
Meu avô está enterrado lá.
Mas talvez existam muitas Tialagas.
Seu avô imigrou para a França?
Sim, ele foi para Sochaux.
Ele trabalhava para a Peugeot.
E, então, deram dinheiro para que ele voltasse para casa.
Ele morreu aqui.
Os franceses vieram por eles, lá no rio.
Eles eram jovens e sonhavam em ir embora.
Meu marido fez como o seu avô.
Ele entrou no barco e partiu.
Vinte anos depois,
eu os vi voltar,
com o dinheiro que receberam para voltar para casa.
Tinham envelhecido muito!
E por que você não veio?
Meus irmãos vieram com o meu pai.
Eu era muito pequeno.
E o pai dele morreu.
Então nunca o conheci.
E acha que ele não te conhece também?
Pergunte a ele.
Como?
Você vai descobrir.
-Seu carro quebrou aqui. -Isso.
E daí?
Só estou dizendo que quebrou.
Quebrou porque é velho.
O carro velho do Seydou quebrou aqui
porque era velho e usado.
Isso.
Você pensa como um homem branco.
É muito ingênuo.
Mas a embreagem quebrou, não é, Ibra?
Preste atenção nela. Ela vê muitas coisas.
Estou interessado. O que está querendo me dizer?
Por que você, em específico?
Naquele mesmo dia, milhares de carros velhos
andavam por todo o mundo sem quebrar.
E, então, você decide
que o motivo é a embreagem.
Porque o carro é velho.
Fim da história.
Só que é aí que a história começa.
Nós temos um ditado:
"O destino é Deus viajando escondido."
Pensei em uma coisa.
Seu avô fabricava carros da Peugeot.
O carro que quebrou é um Peugeot.
Talvez seu avô o tenha feito.
Pare de pensar.
Olhe para as estrelas, quietinho.
Está bem?
Você também?
O que está escrevendo?
Deixe-me ver.
Me mostre.
Boa noite.
Boa noite.
Que o caminho dos seus ancestrais continuem a guiar seus pés.
Agora, leve o menino para casa e volte para a sua também.
Obrigado.
Muito obrigado.
É a vila da sua família?
É.
Vamos?
Agora não.
Vou voltar com o Nathan.
Tem certeza de que ele é famoso?
Ele? Famoso?
Na França, eles têm o de Gaulle,
o Zidane
e o Seydou!
Ele é lindo!
Tem um sorriso bonito!
Ele é casado?
Não precisa perguntar, dá para ver que é casado.
Vou pedir à esposa dele
para ir só um pouquinho para o lado,
assim consigo colocar pelo menos parte do quadril na cama.
É para isso que esse quadril serve!
PARA NATHAN
Salaam Alaikum, meus amigos. Escutem!
Esse é o Seydou Tall.
Ele trouxe o Yao de volta.
Yao, vá brincar com seus amigos.
Yao, estamos ouvindo.
Eu vi o mar.
Quem mais já viu o mar?
Fale para os seus amigos como é o mar.
É como um rio,
mas sem margens.
Ou como um lago muito grande.
Um lago sem fim
e que borbulha.
Como se tivessem acendido um fogo por baixo.
O carro quebrou, estava calor lá fora.
Não tínhamos comida, nem água.
Os adultos nem sempre sabem o que fazer.
Mas Seydou Tall sabia o que fazer.
Havia duas árvores. Uma para ele, uma para mim.
Eram pequenas, e as sombras também.
Mas foi o suficiente.
Nós esperamos, vendo o tempo passar.
O tempo aqui demora para passar.
Não é como o tempo na França.
Seydou Tall aprendeu que o tempo passa devagar no deserto.
Ele não tem pressa, já que carrega a eternidade.
Para Jacques Godeau e Demba Sy
Tradução: Natasha Marques LEGENDAS ETC FILMES
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