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E todos olharam assustados para o cara com pinta de mendigo.
- E a�? - Luis, o seguran�a,
pediu para que se retirasse.
Eu n�o achei certo, mas o pessoal estava assustado.
O cara come�ou a gritar: "Tragam o diretor" ou algo assim.
- Era louco? - N�o.
Acontece que ele era um artista da exposi��o,
um franc�s superimportante, que s� se veste assim.
Javier�
Javier aqui. O que houve?
Por favor, compare�a � sala de informa��es imediatamente,
o diretor o procura.
O diretor? Por qu�?
N�o tenho ideia.
Pode deixar a�
Obrigado.
O MUSEU
Oi, Javier, como vai?
- Bem, diretor. - N�o se levante.
Me chame de Antonio.
Como quiser, Sr. Antonio.
Eu o chamei aqui porque voc� � peruano, n�o?
Sim. Por qu�? O que houve?
N�o, n�o, n�o. Eu amo o Peru.
Amo Peru e acho que Lima
possui os melhores restaurantes do mundo.
E claro, a qualidade das pessoas�
a hist�ria.
S� estrangeiros enxergam o pa�s assim.
� um pa�s muito dif�cil.
Desemprego, viol�ncia, pobreza, desigualdade�
Sim, mas a dificuldade est� em todos os lugares.
N�o, l� � muito pior, por isso imigramos para onde podemos.
Sim, entendo. Bem�
Vamos ao ponto.
Veja, Javier, eu preciso�
enviar� algo. Preciso enviar�
dinheiro para uma �rea remota do Peru.
E�
Se tivesse que fazer isso, como faria?
Porque os correios convencionais
n�o permitem enviar dinheiro em esp�cie.
� f�cil.
- F�cil? - Sim.
Envie a uma casa de encomendas,
� como fazemos.
- Meu primo faz isso. - Legal.
Chama-se Rogelio.
- � de confian�a? - Claro.
- � meu primo. - �.
Mas preciso enviar�
muito dinheiro, sabe? � na selva, em Lampa.
- Sem problemas. Eu falo com ele. - Pode falar agora?
Agora?
- Se puder, ligue. - Sim.
Seja discreto. N�o diga exatamente do que se trata.
Sei.
- Fala, primo. � o Chavito. - E a�, Chavito?
Meu chefe est� perguntando
se poderia enviar um pacote no meio da selva�
- Claro. - Sim?
- Ele pode, senhor. - Pergunte quanto tempo levaria.
- Quanto tempo levaria? - Dez dias.
Uns dez dias, senhor.
Certo, e o pre�o?
- Quanto custa? - Trezentos.
- Trezentos euros. - O qu�? Trezentos euros?
Ele � louco? N�o, vamos�
- Pode coloc�-lo no viva-voz? - Sim.
Al�, Rogelio. Meu nome � Antonio Dumas,
sou diretor do museu onde seu primo trabalha.
- Prazer, senhor. - Igualmente.
Veja�
Preciso enviar algo a uma pessoa muito querida,
e preciso que� Bem, voc� me garante
- que chegar� at� ela? - Sim, claro.
O problema, Rogelio, � que 300 euros � muita coisa.
Posso pagar 150.
Posso fazer por 250, � o m�ximo que posso descontar.
Cento e setenta?
- Duzentos. - Perfeito.
Trato feito.
Certo, entregue ao meu primo e ele mandar� para mim.
Muito obrigado, Rogelio.
T�. T�
- Valeu, primo. - Nos falamos depois.
Muito obrigado por tudo, "Chavito".
- Ok. - Eu darei o pacote mais tarde.
- J� pode ir. - Ok.
PELOS VELHOS TEMPOS. ANTONIO
Marisa, pode vir aqui, por favor?
DE: ANTONIO DUMAS
O que foi, Antonio?
Olhe�
preciso que entregue isso ao Javier, da limpeza.
Ok. Posso perguntar qual � o servi�o com Javier?
Nada. � um assunto pessoal.
E depois h� a quest�o das resid�ncias art�sticas.
Resid�ncia art�sticas, sim. Como imagina que seja?
Atrav�s de uma convoca��o aberta,
selecionamos projetos de artistas contempor�neos
e financiaremos um m�s de resid�ncia
para desenvolverem suas performances
e apresentarem-se em uma sala do museu.
� um upgrade, muito melhor do que uma exposi��o tradicional.
Eu gostei.
Desde que n�o traga mais um animal em decomposi��o
de volta ao museu, qualquer coisa � um upgrade.
Como outra vantagem,
n�o h� transporte de obras, pagamento de seguros,
apenas o traslado das pessoas, que � muito mais econ�mico.
Sim. Muito bem, vamos seguir com isso.
Posso chamar Alma Kramer para me ajudar com a sele��o?
- Como queira, sim. - Ok.
Com licen�a, Antonio, seu filho, Josep, mandou uma mensagem de �udio.
� urgente?
- Vamos ouvir. - Oi, Marisa.
Por favor, diga ao meu pai para buscar o neto na escola �s 13h.
Ele n�o pode recusar desta vez. A escola j� foi avisada.
Tentei falar com ele v�rias vezes, mas ele n�o atendeu.
Mandarei o endere�o por mensagem.
Diga para ser pontual, o menino estar� esperando.
Eu buscarei meu filho no museu l� pelas 19h.
Certo? Obrigado.
- Quer que eu v�? - N�o, n�o.
Obrigado, Marisa, eu vou. Me passe o endere�o da escola.
N�mero 11.
ESCOLA INTERNACIONAL NEWTON
Sim, Marisa, pode falar.
Manifestantes de qu�?
N�o, a escultura outra vez?
Puta merda!
Consolos? N�o consigo ouvir.
Consolos? Dildos?
N�o. N�o pode ser.
Em plena luz do dia?
Os seguran�as n�o fizeram nada?
Que ignorantes, puta merda! N�o posso acreditar.
A pol�cia?
N�o entendo por que os idiotas dos seguran�as n�o fazem nada.
Vamos, v�. Voc� est� h� uma hora no celular.
Quer ficar quieto? N�o, voc� n�o. Continue.
Mas mesmo que tenha sido r�pido, � inaceit�vel.
A ILUSTRA��O CELSO SANTORO - 1958
MONSTRO ESTUPRADOR
MUSEU IBERO-AMERICANO DE ARTE MODERNA
- Amei, vov�. Genial. - Primeiro,
n�o me chame de "vov�". Sou Antonio. Tenho um nome, igual voc�.
Por acaso�
eu te chamo de "neto" ou de Lucas?
N�o me chame mais de "vov�".
Segundo, isso n�o � nada engra�ado.
Foi feito por imbecis,
porque est� cheio de pessoas est�pidas, intolerantes e ignorantes,
que fingem reescrever a hist�ria.
E como n�o podem atacar o artista, que morreu h� meio s�culo,
descontam em sua obra,
sem perceber que est�o punindo o objeto, n�o seu criador.
E a pior parte�
� que n�o � um caso isolado, � uma tend�ncia mundial
que pretende regular n�o s� o presente
com um �nico pensamento e uma moral puritana,
mas tamb�m o passado.
� uma loucura, entende?
- Eu gostei. - � um horror.
� propriedade p�blica. O que fizeram � crime de acordo com o c�digo penal.
Podem pagar multa ou serem presos.
Marisa, por favor, chame Amaia.
- Vov�, empresta o celular? - Agora n�o.
- Por favor. - J� disse n�o. Continue desenhando.
J� postaram um v�deo nas redes sociais.
- S�o os mesmos? O tal� - Sim, DestapArte.
O que far�o agora? Mand�-lo para a pris�o por aus�ncia?
Mostre-me o v�deo.
- Vamos! - R�pido!
- Vamos! - Parem!
Ol� a todos, todas e todes.
O DestapArte quer despertar a sua consci�ncia
da letargia burguesa que afeta gravemente
o legado da hist�ria.
Sen�o, estamos condenados a repetir os erros do passado.
Celso Santoro n�o era s� um escultor,
mas tamb�m um homem mis�gino e violento,
que, al�m de humilhar e espancar diversas mulheres,
tinha como esposa uma menina de 13 anos.
� inaceit�vel
o museu e o Minist�rio da Cultura serem complacentes
ao continuar o honrando e encobrindo seus crimes,
ent�o exigimos que retirem sua obra do espa�o p�blico.
Todes juntos, sempre atentes!
Qu�o baixo caiu o esp�rito revolucion�rio.
- Zo�, escreva um comunicado � imprensa. - Ok.
Andr�s,
comece a preparar um rascunho do boletim de ocorr�ncia
e adicione o link do site do DestapArte.
Pense em quais a��es legais podemos tomar contra os imbecis.
Est�o encapuzados, mas n�o deve ser dif�cil saber quem s�o.
- Ol� a todos. Antonio. - Diga.
Analisamos a escultura
e vamos colocar uma tenda por cima
para que possamos tirar o olhar p�blico
e poder trabalhar sem pessoas nos incomodando.
Muito bem. Podem come�ar.
O que voc� fez?
Sem problemas, eu seco ele.
Lucas, tem outra camiseta para trocar?
N�o se preocupe, eu resolvo.
Bem, preste aten��o e fique quieto por um segundo, ok?
Vamos ver algumas cole��es do museu,
e eu vou te contar as hist�rias das obras.
Tudo bem?
Mas precisa se comportar.
N�o pode correr, n�o pode gritar
e n�o pode tocar em nada, ok?
Bom.
- Posso usar o seu celular? - N�o!
Este � um dos tesouros do museu.
- Gostou? - N�o. N�o sabe desenhar.
� assim de prop�sito.
N�s chamamos de retrato cubista.
Ele tenta incluir o tempo na pintura,
mostrando coisas de frente e de perfil ao mesmo tempo.
Mas ficou horr�vel.
� uma das obras mais importantes
e mais caras de todo o museu.
Mais caro do que todo esse pr�dio.
Mais do que o pr�dio?
Por que um desenho t�o pequeno
vale mais do que o pr�dio inteiro?
Primeiro, n�o � um desenho,
� uma pintura.
� um marco na hist�ria da arte,
porque ningu�m havia feito algo assim antes dele.
E custa mais do que esse pr�dio,
porque h� pessoas que pagariam uma fortuna por esse quadro.
E as coisas custam�
de acordo com o que estamos dispostos a pagar por elas.
� um absurdo, mas � assim.
Esta obra pertence ao movimento
chamado Arte Povera,
que usa materiais comuns, pobres�
Que feio.
A arte n�o se trata de coisas feias ou bonitas,
mas de coisas que te emocionam e te fa�am pensar.
Como decide que isso � uma obra de arte e n�o uma pilha de lixo?
Na esquina de casa, jogam coisas quebradas, m�veis velhos�
Isso � lixo.
N�o entendi. Na rua � lixo e aqui n�o?
� algo assim, � algo assim.
Para ser considerado como arte,
� preciso ter algu�m
que a apresente e proponha como tal.
E � preciso algu�m que a receba e aceite como tal.
Entende? Esses galhos
e os espelhos quebrados,
em qualquer outro lugar,
seriam considerado lixo,
mas aqui no museu,
voc� � convidado para ver como arte.
Eu n�o entendo.
Essa.
- Eu gostei dessa. - Uma grande obra, sem d�vidas.
- Conte-me sobre ela. - Antonio.
N�o. Meu tempo acabou, vamos.
- N�o. - Sim.
CABINE DE AVI�O, 2003 PLUGUE, 2003
E isso?
J� disse que n�o. O museu est� fechando. Tenho coisas para fazer.
J� perdi muito tempo.
Esta � a autoriza��o de empr�stimo�
- Vov�, t� chato. - Nada de "vov�".
- Sim? - A�
Pode me dar o celular?
Eu j� disse que n�o.
Enquanto estiver comigo, n�o ficar� encarando uma tela como um zumbi.
Volte para a exposi��o.
H� obras que ainda n�o viu.
V�, depois volte e me diga de qual gostou mais.
N�o aguento mais.
Esta � uma autoriza��o urgente para o empr�stimo das obras
- do museu de Vars�via. - �.
Ei, pare a�!
Venha aqui! D�-me isso imediatamente!
D�-me isso.
D�
Posso fazer o que eu quiser, meu av� � dono do museu!
O que ele fez?
Desculpe, mas a crian�a est� com voc�?
- Sim, � Lucas, neto do diretor. - O que voc� fez?
- O que tem na m�o? - Carv�o.
Ele tirou da pe�a.
N�o avisei para n�o tocar em nenhuma obra? Avisei ou n�o?
Devolva imediatamente! Devolva.
- Obrigado. - Desculpe.
- Eu n�o� - N�o se preocupe.
Est� tudo bem. � s� esse moleque que � mal-educado e tonto.
Pode voltar ao sal�o.
Mas n�o foi s� o carv�o.
� melhor ver o que ele fez.
Se quiser, chamarei as equipes de limpeza e montagem
para deixarem tudo em ordem.
Um momento, por favor.
ISSO � UM COC�
Agora, podem deixar tudo como estava.
Josep, � a terceira mensagem que eu deixo.
J� passou meia hora, o garoto n�o aguenta mais.
Estou atrasado para um compromisso. Por favor!
V�, Marisa. O imbecil vai chegar tarde.
N�o, est� tudo bem, Antonio, n�o ligo de ficar.
Josep! Onde voc� est�?
Como assim, voc� n�o vem?
N�o, j� disse que ele n�o gosta de tanto carinho.
- Ele gosta, sim. - N�o discuta.
Finalmente.
Sim. Suba!
Lucas, pegue suas coisas.
O que aconteceu?
Est� tr�s horas atrasado.
Cancelei um compromisso muito importante.
Perd�o, pai. Minha reuni�o foi longa.
- �, claro. - Oi, meu amor.
Ele deve estar faminto.
N�o alimentou a crian�a?
- Voc� n�o comeu? - N�o.
- O servi�o de bab� acabou. - Ficou maluco, pai?
Como pode ser t�o negligente?
Voc� � o negligente, eu esperei por tr�s horas!
� a primeira vez que pedi um favor,
como pai, e faz esse esc�ndalo?
Esse foi seu erro. Voc� tem seu pr�prio filho.
Meu papel de pai acabou para voc� come�ar o seu. S� isso.
Legal, ent�o que tal cumprir com a fun��o de av� uma vez na vida?
Eu n�o sou av�.
Que imbecil.
- Quer um hamb�rguer? - Por favor, estou morto de fome.
Como foi seu dia? Cad� suas roupas?
Ele vai contar tudinho.
H� alguma obriga��o
em amar os netos?
Porque filhos, eu consigo entender.
Educa��o, responsabilidade e tudo mais.
Mas os netos?
O que houve?
- J� se arrependeu do que me disse? - N�o. Nem uma v�rgula sequer.
Lucas me contou o que fez no museu.
Ele quer te falar uma coisa.
Oi.
Queria pedir desculpas por tudo que fiz no museu.
Lucas�
o que voc� fez foi muito errado,
mas l� no fundo�
foi muito certo.
- Um dia entender�. - Eu te amo muito.
- Tchau. - Tchau.
Borges�
Voc� tem netos?
Legendas: Jacqueline Gomes
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