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Original subtitles

Mitzy, abre os olhos.

Acalma-te.

Eu estou aqui.

- Badi, tenho medo. - Não tenhas medo, querido.

Estavas numa das tuas ausências, mas eu estou aqui.

Abre os olhos.

Eu não quero ter estes sonhos.

Acende as luzes, Badi. Podes ficar comigo?

Claro que sim.

Vem cá, deita-te.

Deita-te.

Aqui.

É isso mesmo.

Oh, querido.

"Oh aqui, assim."

- Obrigada, Badi. - Não tem de quê.

- Sra. Lety? - O que se passa?

O menino teve um pesadelo ontem à noite.

Eu disse-te para não encorajares esse tipo de coisa, Badi.

Se não o fizeres, ele vai continuar a fazer isso.

Mas, minha senhora, ouça, o rapaz vê coisas.

Ele desenhou o fogo que aconteceu na fábrica há seis meses.

Muito antes de acontecer, senhora.

Badi, por favor.

Há incêndios todos os dias.

O miúdo não é presciente, só tem muita imaginação.

E não ajuda o facto de passares o dia a contar-lhe histórias.

Sobre Boquia, Yosipa ou Bimasofo.

O miúdo absorve isso tudo como uma esponja.

- Mas veja o que ele desenhou... - Eu já disse que não!

- Minha senhora... - Chega!

Pára com essas histórias infantis.

Não quero ver esses desenhos na minha casa outra vez.

Está claro?

Badi.

O que é isto?

São as tuas ausências, querido.

- Eu guardo-as para tentar entender... - O que é que eu disse, Badi?

Outra vez não. Não vou aturar isto.

Vem cá, querido.

Espera aqui.

Eu fui muito clara, Badi.

- Eu só estava a tentar ajudar, senhora. - Estás a fazer exatamente o contrário.

Sinto muito, mas não posso tolerar isto.

- Tens de te ir embora, desculpa. - Mas o menino precisa de mim.

OS ENVIADOS

Sim, infelizmente...

Encontrámo-la dentro da sua própria casa.

Neste momento estamos a proceder à transferência do corpo.

- Na vossa bondade. - Afirmativo, sim.

- Estamos a conduzir a investigação. - Concedei-lhe o descanso eterno.

Em nome de Jesus...

Afirmativo, vamos proceder à transferência.

R-10.

Padres!

Que bom os ver!

Antes de irem embora.

Podem-me explicar...

o que estão aqui a fazer? Quem vos autorizou?

- Estávamos à procura da Helena, mas... - E o que está a fazer o senhor agente?

Como é que dois padres encontraram uma pessoa desaparecida, morta na sua casa

e a polícia não conseguiu?

Achei que o senhor, como mexicano, entenderia o que eu quis dizer.

Não sei como dizer isto... Não se metam.

Lamento imenso, mas temos uma missão a cumprir.

Eu sou médico e exijo estar presente na autópsia.

Tenha cuidado, Padre.

Porquê? Não me diga que está a ameaçar um padre, senhor agente.

Não é estranho quando dois padres do Vaticano aparecem aqui e, logo a seguir,

o santo desaparece e a namorada dele se suicida?

Para si, podemos ser apenas dois padres do Vaticano,

mas garanto-lhe que estamos aqui para cumprir uma missão.

E não queremos arranjar problemas.

Senhor agente, por favor. Podemos começar pelo início?

Teve um dia muito complicado,

- como é que está? - Saiam da minha investigação.

Aqui as vossas vestes não valem nada.

Sim.

Vamos lá.

Veja?

Ver o quê? As pessoas?

Não! Não vê?

Há câmeras por todo o lado.

Aqui, aqui, ali.

Mas são turistas. Têm sempre um telemóvel ou uma máquina fotográfica.

Mas não há nenhum vídeo na Internet.

Não há nenhum no Twitter, Facebook, Instagram, Google ou Youtube.

Todos os turistas querem partilhar as suas aventuras, mas não o fizeram?

E daí?

Alguém está a apagar as provas do que aconteceu.

E quem está a fazer isso?

É uma pergunta interessante.

Mas eu tenho outra.

Estiveste com o teu irmão, certo?

Estiveste com o teu irmão?

Um pouco...

Emília, já sabes que não podes!

Não podes sair do Vaticano.

Não te posso proteger se fores e vieres, sempre que te apetecer.

É perigoso, eles podem encontrar-te.

Peço desculpa, Excelência. Prometo não voltar a fazê-lo.

Não é a mim que tens de prometer nada.

Acalma-te, Irmã. Mais devagar, por favor.

Por que é que me tenho de acalmar?

Estão a apagar os vídeos todos e tu dizes-me que tenho de me acalmar?

Ei! Estás a ouvir-me?

Mas quem está a apagar os vídeos?

Se eu soubesse isso.

Tenho de ir, falamos mais tarde. Adeus.

Feito.

Aluguei-o por uma semana.

Se precisarmos dele por mais tempo, é só ligar para eles.

Não tem rádio nem aquecedor, mas foi o que se conseguiu arranjar.

Nada parece ter aquecimento nesta aldeia, é consistente.

Obrigado.

Com quem estava a falar?

Com a minha assistente de Roma, nada de importante.

Este deve ser o caso mais estranho que já viu, não?

Ou acabam todos com desaparecimentos estranhos e suicídios?

Já vi todos os casos que possa imaginar.

Mas um homicídio...

Então descarta o suicídio?

Não posso descartar a hipótese, mas é tudo um bocado estranho.

Estamos ao telefone, ela diz que está a chegar,

- e, de repente, encontramo-la enforcada. - Sim.

Não costumo causar a melhor impressão, mas acho que isto foi um pouco exagerado.

Bom trabalho, Salinas, em interligar os pontos que levaram à Helena.

Fantástico.

Continuo a pensar naquele agente que nos quer expulsar daqui.

Quem é que ele pensa que é?

Queria falar consigo sobre isso.

Como pode ter havido um homicídio, devíamos tratar a polícia...

- Com mais simpatia. - Mais simpatia, diz o Padre?

Por favor, Padre. Estamos no México.

Está claro que este agente é mesmo incompetente.

Temos de continuar.

Estive a pensar sobre isto, se continuarmos com a investigação

e descobrirmos que o Quintana é legítimo.

Que está a dizer a verdade.

Então ele foi maltratado.

Estamos a ajudá-lo.

Mas se descobrirmos que o Quintana estava a mentir, a Igreja terá encontrado uma fraude.

- Todos ganham. - Bom.

De qualquer forma, temos de ter cuidado.

Diz o padre que só invade a casa das pessoas.

Mas ninguém reparou!

É muito diferente.

Padre, temos sempre de nos comportar como Deus.

Este café...

a tua fruta, a mesa, o café...

a aldeia, tu, eu.

É tudo criação de Deus, certo?

E onde é que está Deus?

Viste-o? Eu não. Ninguém O viu.

Olha para tudo o que Ele é capaz de fazer, sem que ninguém O veja.

Sem barulho nenhum, nada.

- É esse o nosso objetivo. - Porquê?

- Por que não podemos dizer a verdade? - Deus não protege esta aldeia.

Lembra-te disso.

Viemos aqui para descobrir quem é o Quintana e sair daqui com vida.

Nesta aldeia, não se pode ir contra a polícia.

Quem desaparece a seguir? Nós. Todos perdem.

Não gosto da sua maneira de trabalhar.

Com licença.

O Padre Salinas tem de se ir embora. Como é que o faço entender?

- Padre Antequera, acalme-se. - Eu estou calmo. Escute.

Esta é uma situação séria, não se trata de uma fraude.

Houve um homicídio.

E eu não acho que a polícia vá ajudar.

E o Salinas está a criar problemas.

Padre Simón, por favor. Sei que costuma trabalhar sozinho.

Não é isso.

A viagem do Santo Padre depende desta investigação,

no que me diz respeito, o Padre pode receber os aplausos sozinho.

Não é isso! Oiça-me, por favor. O Salinas não está preparado.

Ele não tem experiência, é arrogante. É perigoso.

Não me parece que nos tenhamos de preocupar com a falta de experiência.

Não está a perceber.

Mas eu conheço-o. O Padre Salinas fica aí consigo.

Está bem, obrigado.

Padre!

Pensei que estivesse contente com o meu trabalho.

- Não, eu posso explicar. - Explicar o quê?

Está bem claro, Padre.

Não suporta não estar no comando.

- Não aguentas não ser o número um! - Não.

Está assim, chateado, porque eu encontrei a Helena.

E porque confrontei o agente.

- O que está a dizer? - É isso, é esse o seu problema.

Tudo tem de ficar nas sombras.

Tudo tem de ficar escondido.

Mentindo, negociando, seduzindo.

Como é que um padre pode ser tão hipócrita?

Como pode fazer isso e ser padre? Eu não conseguiria.

É uma vergonha para as vestes que usa.

Hipócrita, soberbo, arrogante.

Eu vou chegar ao fundo da questão, Padre.

E vou mostrar-lhe quem é a autoridade.

E se não gostar, bem, então pode ir-se embora.

Eu sou a pessoa local, aqui.

Por favor, deixe-me explicar.

Padre, importa-se que falemos, por um momento?

Vamos suavizar um pouco as coisas, Padre.

- Antes de entrar... - Guadalupe?

Padres, prazer em ver-los, não estávamos à vossa espera.

Se for possível, gostaria de falar com o director.

Ele está a celebrar a missa para os doentes.

Claro.

- Aqui, na capela. - Obrigado.

Bem...

- acho que é melhor ser eu a falar com ele. - Sim, claro.

Acho que é melhor esperar por mim aqui.

Não sei se já reparou, mas irrita as pessoas.

Por que é que viemos à Terra?

Não para fazer a nossa própria vontade!

Mas para cumprir a vontade do Senhor.

E a partida do nosso colaborador,

Santiago Balam,

pode parecer prematura. Quem somos nós para o questionar?

Só nos resta confiar e rezar.

Temos de rezar pelo regresso do nosso irmão, o Padre Quintana.

Rezamos para que o Senhor faça a Sua vontade.

E que nos dê esperança e boas notícias.

Ou a sabedoria, para compreender as más notícias.

O que posso fazer por si, Padre?

Não sei se ouviu falar da Helena.

Pedi-lhe que intercedesse, pelo seu descanso eterno.

São muitos golpes de uma só vez, para esta aldeia.

Foi por isso que vim aqui vê-lo, para me submeter a si.

E para oferecer as minhas desculpas pelo comportamento do meu parceiro.

Ele entrevistou um dos seus pacientes sem autorização.

Sim, esse seu espanhol.

Ele pensou que podia vir aqui e fazer o que quisesse.

Como todos os espanhóis, acha que somos todos índios dele.

E eles não o avisaram de que o México é um país livre.

É assim que as coisas são, Padre.

- Parece que foi educado, Padre. - Obrigado.

- Talvez eu deva pedir desculpa. - Não é preciso.

A morte do Santiago, toda esta situação com o Quintana...

a sua investigação...

- é muita coisa para digerir. - Não se preocupe, é compreensível.

- Sente-se, por favor. - Obrigado.

Diga-me, como posso ajudá-lo, Padre?

Apesar de tudo, temos ordens para continuar com

a investigação do Padre Quintana,

e queríamos começar pela Valentina.

Tendo em conta que ela foi, presumivelmente, o primeiro milagre.

Suponho que o seu colega lhe disse que a Valentina está muito doente.

Sim.

Viu quando ela fugiu, não foi?

Não é a primeira vez, já o fez muitas vezes.

E, uma vez, morreu numa barragem não muito longe daqui.

Felizmente, o Quintana chegou e o que aconteceu, aconteceu.

Quem tem os registos desse dia? Houve uma ambulância? A polícia?

Alguém que possa ter feito um relatório oficial?

Pergunto porque essa documentação pode ajudar a comprovar os atos milagrosos.

Não, nada.

O Quintana chegou quando não havia mais nada a fazer.

Quando ela já estava morta.

Então acredita mesmo que ele ressuscitou um morto?

Que intercedeu por ela?

Eu sou apenas um servo do Senhor. Não sou eu quem deve perguntar.

Eu não sei se foi o Quintana, ou se foi o Senhor através dele.

Ou se foi tudo uma mera coincidência.

Mas, felizmente para todos, a Valentina ainda está connosco.

Bendito seja o Senhor nosso Deus.

Uma última pergunta, Padre.

Quem é que declarou a morte da Valentina?

Adriana Cortés?

Ela também declarou a morte do Balam.

Que negócio foram montar estes dois!

Encontram um idiota, contam-lhe uma história, e o pobre coitado acredita.

A médica confirma a morte.

O Padre reanima-o. Torna-se num santo. É tudo uma farsa.

Então, a sua teoria é que ele fugiu por causa disto.

Eu não tenho teorias, Pedro.

Eu tenho pequenos pontos e fios que vou puxando pouco a pouco,

até chegar ao centro da questão.

Boa tarde.

Um fio faz-me pensar que o Quintana assassinou a amante para ela não falar.

Ou que ela se suicidou para ficar escondida.

Mas não posso excluir nenhuma possibilidade.

Não vamos excluir que possa ser uma coincidência.

Também é uma possibilidade.

Que não haja uma explicação racional porque, estamos perante um milagre.

Que não haja uma explicação.

Há, sim, Pedro.

Há, vai ver.

Filho, apaga isso.

Vais acabar como o teu pai.

Já chega, mãe.

Esteban, por favor, ninguém te pode dizer nada.

Nem a ti.

Pelo menos olha para mim quando estou a falar contigo.

- Filho! - Já chega, mãe!

- Padres, que surpresa! - Bom dia.

- Querem entrar? - Se possível, sim, obrigado.

Entrem.

Desculpe incomodá-la, Adriana, não queremos ser uma inconveniência.

De maneira nenhuma, entrem. Sintam-se em casa.

- Eu volto já. - Obrigado.

- O que estás a fazer? - Pára com essa música, temos visitas.

- Quem? - Os Padres do Vaticano.

Adolescentes. Desde a morte do meu marido, a casa desmoronou-se à minha volta.

Lamentamos muito. Foi recente?

Sim, cancro do pulmão. Muito agressivo.

- Não havia muito a fazer. - Lamentamos muito, Adriana.

Não queremos desperdiçar o seu tempo,

só queríamos fazer-lhe umas perguntas sobre o Padre Quintana.

Já sabem de alguma coisa?

Vivendo numa aldeia pequena, imagino que tenha ouvido as notícias.

- Sobre a Helena? - Sim.

Meu Deus, tanta tragédia nesta aldeia.

Para além desta loucura toda.

Não sei se as cruzes que puseram nas colinas estão lá para nos proteger,

ou se estão lá para nos manter separados dos outros.

Mas, o que querem saber sobre o Rafael?

Nós praticamente crescemos juntos.

Não sabíamos disso.

Lamento imenso, Adriana. Podemos voltar noutra altura.

- Nós não queremos... - Não, está bem.

Tem a certeza?

Adriana, creio que nos possamos ajudar uns aos outros.

Então, foi a Adriana que confirmou a morte da Valentina.

E depois, o Padre Quintana reanimou-a, e ela foi a primeira.

Sim, a Valentina.

E lembra-se do que aconteceu nesse dia?

Bem, isso foi há muito tempo.

Não tem pulso.

Está morta.

- Espera, não! - Pai Nosso que estais no Céu,

vós que vencestes a morte e ressuscitastes ao terceiro dia,

confio-vos a alma desta pobre serva.

Não sei por quanto tempo ele rezou.

Podem ter sido apenas alguns segundos, mas pareceram uma eternidade.

Deixa-a ficar.

Ele é um homem maravilhoso.

Sim, mas e a sua opinião médica?

Estou a dar-lha, Padre. Não tenho outra opinião.

Ele é um homem maravilhoso.

Somos como irmãos.

Nada mais.

Nem menos, acho eu.

Ela morreu de manhã cedo, certo?

De manhã, aqui, fica muito frio.

Quase a congelar.

A hipotermia pode ter-lhe escondido o pulso, ficaria quase impercetível.

Ela estava morta, Padre.

- Sim? - Eu sou médica.

Claro.

O Padre Salinas não é apenas padre, é também um médico talentoso.

Então, como médico, sabe quando um paciente está morto.

- Sim. - A Valentina estava morta.

E o Balam também, caso haja dúvidas.

Não estávamos a falar do Balam.

Sim, eu sei, mas esse é o vosso trabalho, suspeitar.

- Bem... - E o meu é salvar vidas, mesmo que...

nem sempre seja capaz de o fazer.

E, nestes casos, não fui capaz.

Há mais alguém que nos possa ajudar a corroborar esta história?

O Prado, claro.

Foi o Jerónimo quem a encontrou.

Mas ele já não trabalha connosco, pediu transferência.

O Jerónimo estava no clero?

Não, estava no seminário. Estava a fazer uma espécie de estágio.

Já percebi.

E sabe onde é que ele está agora?

Não faço a mínima ideia.

- Nada? - Nada.

Claro, muito bem. Obrigado.

- Claro. - Obrigado pelo seu tempo.

Com certeza.

- Eu acompanho-os à saída. - Obrigado.

Boa sorte com o adolescente.

Adriana, uma última pergunta.

Desculpe se isto é desconfortável, não precisa de responder, mas...

se o Quintana estava a fazer estas curas, porque não levou o seu marido?

Eu levei-o, Padre.

Mas a ciência e a fé nem sempre são suficientes.

Claro.

- Ela não parecia estar a mentir. - Não sei.

Achas que o Jerónimo foi transferido e ela não sabe para onde?

- Esta aldeia é pequena demais para isso. - A suspeita assombra a mente culpada.

Se tem um problema, diga. Para as parábolas já nos basta Cristo.

Eu já lhe disse.

Pediu ao Zuliani para se livrar de mim. Isso não é nada?

- Eu estava a protegê-lo. - De quem?

De si próprio.

- Não seja ridículo. - Ainda não tinha terminado.

Pelo amor de Deus!

Está demasiado tenso! Essa arrogância não está a ajudar.

Eu sou padre. Só falo com a autoridade do Espírito Santo.

Mas que espírito, homem? A Helena foi enforcada por pessoas.

Pessoas com motivações, não as podemos vencer frente a frente,

nem recitando parábolas ou versículos.

Cristo disse que "se pode derrotar César com as armas de César".

- Cristo nunca disse isso, Padre. - Como é que sabe?

Qual é o seu plano?

Confie em mim.

E traga o formulário de inscrição.

- De volta, tão cedo? - Sim, eu sei, desculpe.

Não quero incomodá-lo, mas ainda tenho alguns assuntos pendentes.

- Importa-se? - Não.

Vamos dar uma volta?

- Claro. - Obrigado.

Não pude deixar de reparar no seu anel, no outro dia quando nos encontrámos.

A minha família tinha uma relação muito próxima com a Opus Dei.

Pude conhecer o Monsenhor Ocáriz Braña, há uns anos, na Santa Sé.

- A sério? - Sim, por pouco tempo, mas foi comovente.

- Pertence à ordem? - Não, a minha família era só próxima.

Considero-me muito próximo, mas nada mais.

Um bom primeiro passo, Padre.

E lembra-se da oração que o Quintana recitava?

Não eram orações. Eram...

eram palavras ou pedidos.

Não me lembro bem.

- Foi há tanto tempo. - Claro.

- E aconteceu tudo tão rápido. - Não se preocupe.

Vamos tomar um café no meu escritório.

Estou bem, Padre. Não vou dormir se tomar um café a esta hora.

- Mas eu preciso de algo quente. Vamos lá. - Claro.

CARTÓRIO DE HIDALGO ESTADOS UNIDOS MEXICANOS

CERTIDÃO DE NASCIMENTO RODRIGUEZ GONZÁLEZ JERÓNIMO

PADRE P. SALINAS SAIA!

Que estranho. Deixei a porta aberta.

A que horas é que a fechei? Não sei.

Entre, por favor.

Tem a certeza de que não quer um café?

- Uma chávena de café. - Não.

Tenho andado ansioso, ultimamente. Não sei porquê, Padre.

Irmã, preciso da sua ajuda.

Um milagre?

Vou enviar-lhe uns ficheiros sobre o seminarista Jerónimo Rodriguez.

Acreditamos que ele estivesse no Seminário de Huejutla.

Por favor, veja os ficheiros, veja se consegue encontrar a morada.

Isso seria um problema para si?

- Bem, não é legal. - É pecado?

Não, acho que não.

Nunca lhe pediria para cometer um pecado. Por favor, ajude-me, Irmã.

Está bem? É urgente. Obrigado.

Da próxima vez, pare-o. Era esse o plano.

Desculpa por não ser um ladrão profissional como tu.

Pelo amor de Deus! Eu não lhe pedi para o esfaquear!

Apenas para o distrair, foi só isso que pedi.

Desculpe, Padre, não percebo por que não podemos pedir os documentos.

Porque não sabemos em quem podemos confiar!

O Padre pede-lhe os documentos, o que é que ele vai dizer?

"Não os tenho", e depois queima-os. É isso que vai acontecer.

E então, conseguiu alguma coisa?

Não, tenho de enviar as fotos Emília e rezar que ela envie uma morada.

Vamos rezar então.

É uma maneira de dizer, Padre. Pelo amor de Deus!

- O seu currículo é interessante, Padre. - Ah, sim?

É uma pena que eu não tenha registo criminal.

- Podia ser que confiasse em mim. - Ainda está zangado?

De todos os pecados capitais, acho que a raiva é, provavelmente, o pior.

Sim, o orgulho é o seu favorito, de certeza.

Nem por isso.

Vou confessar uma coisa, consigo tolerar a gula,

mas a preguiça...

Gosto muito desse, na verdade.

Achei muito interessante que, para além de estudar medicina,

tenha tido tempo para estudar filosofia e teologia mesoamericana.

De repente, está interessado nos meus estudos.

Não foi falta de interesse, foi falta de tempo, Pedro.

Importa-se que o trate pelo primeiro nome?

Está bem.

- Boa noite. - Padre Jerónimo.

Boa noite.

Podemos falar?

Lamento que tenha sido difícil encontrar-me, mas não vos posso ajudar.

Eu estava apenas no seminário, não tomava as decisões.

Não vamos pedir muito de si, e não terá qualquer responsabilidade.

Só queremos que nos diga o que viu naquele dia.

Não me lembro de muita coisa sobre esse dia, na verdade.

Foi há muito tempo.

É compreensível que se tenha esquecido.

As memórias mais traumáticas são as que mais queremos esquecer.

Mas, às vezes, faz-nos bem recordá-las.

Quando é que deixou de trabalhar no hospício?

Por volta dessa altura. Depois de tudo acontecer.

Voltei para Huejutla e terminei o seminário.

Quando me tornei padre, senti que...

havia outros sítios que também precisavam de mim.

Eu não precisava de trabalhar no hospício.

Não houve outra razão?

Padre, não queremos deixá-lo desconfortável.

Diga-nos só se a Valentina já tinha morrido quando chegaram, é tudo.

Não tenho mais nada a dizer.

Desculpem por vos fazer perder tempo.

Não se preocupe.

Padre, se nos der o seu contacto, podíamos fazer o seguimento mais tarde.

- Se se lembrar. - Não, Padre, por favor.

Preferia que não me telefonassem.

Não me contactem, não falem de mim, não vou ter nada a ver com isto.

Padre.

Não está a perceber. Nós estamos do seu lado.

Pode receber proteção institucional.

Os nossos superiores, que também são os seus, ordenaram que encontrássemos a verdade.

Não vale a pena esconder o que sabe de nós.

Todos nós temos o mesmo superior, e não se pode guardar segredos Dele.

Eu entendo, Padre.

Mas não vos posso ajudar, lamento.

Padre, pode falar-nos sob o selo da confissão.

Quer que eu me confesse?

Quero reconciliá-lo com Deus, sim.

Muito bem,

mas com ele.

Tudo bem, eu espero lá fora.

Ave Maria puríssima.

Concebida sem pecado.

Abençoe-me, Padre, porque pequei.

Quando foi a sua última confissão?

Confesso-me todas as semanas, Padre.

Mas carrego isto há dez anos.

Qual foi o seu pecado?

O silêncio.

Guardei um segredo durante muitos anos.

Eu menti quando vos disse que não sabia de nada.

Que não me lembro de nada.

Eu fugi de tudo isso.

E consegui fazê-lo durante muito tempo.

De que é que fugiu?

Tinha medo de voltar, depois do que vi.

Veio para me perguntar se a Valentina estava morta.

Sim, ela estava morta.

Tenho a certeza.

Mas a Valentina não sofreu um acidente.

A Valentina não se afogou.

A Valentina foi assassinada.

Como é que ela foi assassinada?

Ela foi...

foi assassinada em agonia.

O que é que isso quer dizer?

Se a tivesse visto, Padre.

Saberia a que me refiro.

Quem a matou?

Eu absolvo-o de todos os seus pecados,

em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Vou sentir-me melhor, Padre?

Sim.

Só quero que seja feita justiça.

Percebe o que quero dizer?

Sim.

E será.

Então?

- O quê? - O que é que ele disse?

O que é que ele disse, Padre?

- Diga-me. - É um perito em Direito Canónico, Padre.

Sabe perfeitamente que o sigilo sacramental é inviolável.

Incomoda-me até que me pergunte isso.

Está a brincar comigo?

Não está a falar a sério.

Não está a falar a sério.

- Padre, pelo amor de Deus! - Não pode ser verdade.

A nossa investigação está acima do sigilo sacramental.

É o Padre que decide isso, agora?

Não, mas não podemos esconder criminosos através do sigilo sacramental.

Na Austrália, a lei exige que os padres denunciem abusos sexuais, no Chile também.

E na Califórnia é a mesma coisa!

Quer ter um debate sobre a jurisprudência, agora?

Não vou debater consigo.

O Santo Padre sempre foi muito claro em relação a isso.

Não vou ser excomungado.

Pelo amor de Deus!

A confissão foi ideia minha, e o Padre estragou tudo!

- Eu não estraguei nada! - Estragou sim!

Ele escolheu-me.

Um padre é mais que um colarinho branco. Já pensou nisso?

Isto é a coisa mais incrível que já ouvi.

Jesus Cristo.

Meu Senhor e Salvador, livrai-me da culpa por este derramamento de sangue.

Oh Deus, meu Salvador.

À uma da manhã, Padre?

Sim.

- Posso? - Claro.

Abra os meus lábios, Senhor.

- E a minha boca declarará o vosso louvor. - E a minha boca declarará o vosso louvor.

O Senhor ressuscitou do túmulo. Aleluia.

É um salmo responsorial, não precisa...

Desculpe, só tenho a mente ocupada com outras coisas.

Não, continue, Padre.

- Não quero incomodá-lo. - Não vos agrada o sacrifício,

ou eu o traria, não vos aprazem ofertas queimadas.

Eu só queria dizer que...

tem razão, não devia quebrar o selo da confissão, Padre, a sério.

Obrigado.

É por isso que estou a rezar, porque estou...

a pedir a Jesus que me guie e ilumine, pois não sei o que fazer.

Não sei o que fazer com a informação que o Jerónimo me deu,

mesmo tendo sido útil.

- Não posso dizer. - Pode, sim, Padre.

Pode confessar-se a mim, certo?

É verdade.

É como o sigilo profissional com os psicanalistas.

Eles não podem revelar informações confidenciais dos pacientes,

mas, como pacientes, estão protegidos profissionalmente.

Se se confessar comigo, isso não quebra o selo da confissão,

mas teríamos a mesma informação.

É perfeito, toda a gente fica protegida.

Não me parece que funcione assim.

- Está a ouvir o que estou a dizer? - O quê, Padre?

Depois fica ofendido quando o quero fora do caminho,

mas não foi feito para este trabalho.

O Padre é como um laser, sempre no ponto, não se desvia nem meio milímetro.

Não pode mijar fora do penico.

Este trabalho é mais complexo do que isso.

É um trabalho sujo.

É complicado.

É confuso.

Mas o Padre não é assim.

Porque é apenas uma criança mimada,

a sua presunção impede-me de avançar, é por isso que o quero fora daqui.

A sua rigidez,

o seu apego às normas, aos protocolos.

Não é apenas justo, será o nosso fim.

Então, Padre, comece a ponderar, porque se quiser ser verdadeiramente útil,

se quiser ajudar um homem desaparecido e cumprir os desígnios de Deus.

Ouça.

Os desígnios de Deus.

Então tem de fechar os olhos, respirar fundo e confiar em mim.

Senão, o autocarro está de partida, o Padre é quem decide.

- Olá. - Entre.

Aqui está, Comandante.

Diga-me em voz alta, eu leio devagar.

A causa da morte é "asfixia por estrangulamento".

Claro, encontraram-na enforcada.

Eu disse estrangulamento, não enforcamento.

Quero dizer, houve asfixia, mas não foi auto-infligida.

A vítima apresenta uma fratura no osso hióide,

bem como lacerações em ambos os antebraços e nas unhas.

E não encontrámos filtração de sangue no sulco.

Ouça, eu sei que tenho cara de cientista, mas as aparências iludem.

Bem, Comandante,

quando uma pessoa é estrangulada, é fraturado o osso hióide,

que fica na garganta, mais ou menos a meio.

Isso não ocorre num enforcamento,

porque, nesse caso, o dano ocorre pela altura da mandíbula.

Aqui temos presentes dois ferimentos,

o da corda, e o de estrangulamento.

Também percebemos que o enforcamento aconteceu post-mortem.

Quando uma pessoa é enforcada, encontramos fluxo de sangue à volta deste local.

E não há nada aqui.

Isto significa que, quando foi enforcada, já não havia circulação de sangue.

- Há quanto tempo é que ela está morta? - Entre 24 e 36 horas.

- Obrigado. - Boa sorte, Molina.

Ave Maria puríssima, concebida sem pecado.

Bem.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Abençoe-me, Padre, porque eu pequei.

Diga-me, como pecou?

Tenho sido um homem orgulhoso, Padre.

Não se preocupe com isso.

Eu estava zangado.

Diga-me.

Eu escondi informações úteis para a Congregação,

e que podem pôr outras pessoas em risco.

Ótimo. Diga-me. Ótimo, ótimo.

Fui informado de que a Valentina não...

ela não se afogou.

Ela não se afogou antes de o Padre Quintana a reanimar.

- Claro, ela estava viva. - Não, o Jerónimo disse que...

Jesus! O Jerónimo disse que a Valentina.

Sim.

A Valentina não se afogou.

A Valentina foi assassinada.

E foi assassinada em agonia.

O que é que quer dizer? O que é que isso quer dizer?

Essas são as palavras exatas que o Padre Jerónimo usou.

Mas o que quererá dizer isso?

Não sei, são as palavras que ele usou, percebe?

Ele estava muito nervoso, o Padre Jerónimo estava muito frágil.

Mas isso não importa. Depois, com um pouco de ajuda, ele disse...

- que o Padre Prado. - Prado?

Que o Padre Prado, com outras pessoas, que ele não quis identificar...

abusaram da fragilidade mental da Valentina até ela morrer.

- Esses desgraçados. - Sim.

- Ela morreu em agonia. - Não, ela foi assassinada em agonia.

- Foi o que ele disse. - Bem.

E como é que ele sabe isso?

Não sei.

Não sei, ele estava frágil, estava perturbado e assustado,

e eu não o queria forçar ou fazê-lo arrepender-se mais tarde.

Mas por que não lhe perguntou mais nada? Como é que perdeu essa chance?

- Vá lá, Padre. - Ei! Meu Deus!

Não me faça arrepender de lhe contar isto.

Ouça.

Uma suspeita não é o suficiente para agir,

mas,

se o que o Jerónimo disse for verdade,

talvez possamos prender o Prado e possivelmente salvar vidas.

Agora,

se eu dissesse isso,

seria imediatamente excomungado.

Não, Padre. Não está a pensar bem.

Não está.

Vejamos.

Moisés tinha o mandamento "Não matarás",

mas depois escreveu no Deuteronómio 20 instruções para a guerra onde disse,

"matarás todos os homens, mulheres e crianças, e o gado tomarás como despojos."

É um sacramento de Deus.

Mas depois Jesus Cristo refutou isso no Evangelho.

Bem, isso é entre Pai e Filho, é melhor não nos envolvermos.

A nossa missão é encontrar a verdade.

O que significa que uma pequena mentira, não vai magoar ninguém.

Se pensarmos na grande verdade, tem tanto custo quanto benefício, Padre.

Cristo sacrificou-se pela humanidade, a sua confissão não é grande coisa.

Está a dizer que a morte de Nosso Senhor foi uma coisa de custo-benefício?

Não sou eu quem está a dizer isso, está na Bíblia.

- Vamos terminar isto, Padre. - Sim.

- Salinas. - Já acabei. Sagrado Coração de Jesus.

Isto ajuda-nos a evitar infeções e também a conter a ferida,

por isso, não posso remover. Tente descansar.

Melhor?

Doutora?

O que estão a fazer aqui? Não podem estar aqui.

Estamos à procura do Padre Prado.

Estes pacientes são propensos a infeções. Preciso que se vão embora, por favor.

Se nos disser onde ele está, não voltamos a incomodá-la.

- Procurem na capela. Saiam, por favor. - Pedimos desculpa.

Veja. É a Valentina.

E ali também.

- Precisam de alguma coisa, Padres? - Guadalupe, prazer em vê-la.

- Como está? - Estamos à procura do Padre Prado.

- Ele não está cá. Foi-se embora mais cedo. - A sério?

Não ouviram?

Era o que faltava, não precisamos de saber sempre que ele sai!

- O quê? - Não, a Valentina fugiu outra vez.

O Diretor já lá está com o Comandante Molina Reyes.

Só uma pergunta rápida, aquela é a Valentina quando era jovem?

Sim, ela sempre ajudou.

- E aquilo era um acampamento? - Sim.

Encontraram-na na barragem.

Outra vez?

- Desculpem-me, Padres. - Sim, claro.

Estava a pescar, assim como outro dia qualquer,

e, de repente, vejo aquela coisa ali. Foi inacreditável.

Viu alguém por aqui?

Não, não, ninguém.

Sim, éramos só o meu parceiro e eu.

O que estão a fazer aqui?

O que é que aconteceu?

Desde que vocês os dois chegaram, tenho três mortos e uma pessoa desaparecida.

Ou vocês têm muito azar, ou têm muito que explicar.

O Procurador entrará em contacto.

Padre.

Está bem?

TERRÍVEL INCÊNDIO DEVASTA FÁBRICA EM PUEBLA

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