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AS APARÊNCIAS
Malo, olha a charrete.
Que bonita!
Nunca o levaram a andar de charrete?
Podes falar mais baixo? Por que gritas?
Não está aqui mais ninguém, só nós.
Lembras-te quando eras pequena?
Todos os anos íamos até à costa, a Lavandou,
e ela adorava passear de charrete.
E nós também iremos...
É melhor não ires pela circunvalação, a esta hora há muito trânsito.
Tinha sido mais fácil metê-la num táxi.
Queres saber?
Seremos cerca de 25 pessoas.
Ah, claro, na tua festa de anos.
Contaste ao Henri a minha ideia?
Mãe, deixa lá isso. Já te disse que não acho boa ideia.
Qual é a ideia?
Tinha dito à Evelyne...
Não, Eve, por favor.
Ah, sim, desculpa.
Tinha-lhe dito que seria engraçado
que viessem uns violinistas da tua orquestra para dar ambiente.
O que não te diz é que queria que viessem de perucas e jaquetões.
Claro, estamos no país de Mozart, não?
Lembras-te daquele grupo italiano dos anos 80?
Sim...
Que actuavam mascarados.
Os Rondò Veneziano?
Isso. Podias fazer o mesmo.
Eu acho cómico.
Agora já sabes por que não me parecia boa ideia dizer-te.
Sim. Eu não acho nada cómico ridicularizar os meus músicos.
- Vou fumar um cigarro e já vou. - Está bem.
O Henri está bom? Não o acho muito...
Muito quê? Não, está tudo bem.
Fica sempre stressado antes dos concertos, mas está tudo bem.
Olha, tira o passaporte.
É sublime.
É incrível.
Qual padaria? A que fica ao lado do museu?
Sim! A baguete deles é tudo menos uma baguete,
mas aos fins de semana fazem uns pãezinhos de queijo que são...
uma verdadeira delícia.
Olha, é sempre bom saber.
O que faz esta?
Magda, podes cortar bocados maiores, temos mais foie gras.
- Ah, está bem. - Está bem. Pois.
Põe-me doida.
Não te queixes, tu ao menos tens uma.
O quê? Ainda não encontraste uma substituta?
- Não. - É o cúmulo!
Por que não a dos Panafieu? Eles estavam muito satisfeitos.
Já tinha pensado nisso, mas ela voltou para Cracóvia.
Que chatice.
Do que falávamos? Ah, sim, sim.
Como está o Henri? Continua nervoso ou...?
Pois claro.
Embora não pareça, o Henri tem as suas inseguranças.
Mas, pronto, diz que a minha presença o reconforta nessas alturas.
E que ver-me na audiência o tranquiliza.
É um pouco como eu e o Thibault.
De certo modo, somos a bússola deles.
Creio que sim.
Vamos para a mesa?
Tenho que contar-te uma coisa.
Ainda não é oficial, e o Henri não quer que o diga,
mas vão renovar-lhe por mais dois anos.
Isso quer dizer que vais ficar mais dois anos em Viena?
- É verdade. - Mas isso é fantástico!
- Sim, estamos encantados. - Fico muito contente!
Do que mais sinto falta em Viena é de uma boa carne.
Ah, já cá faltava.
O que tem a nossa carne? Não a achas boa?
Não tem nada a ver com uma boa carne de Charolais.
Ou de Salers. Já a provaste?
Para mim a melhor é a de Aubrac.
Werner, quando provares um bom entrecosto de Aubrac...
Não ligues, Werner. De que te queixas tu?
Quando vem alguém de França, fazes-lhes encomendas.
Nunca tínhamos tido tantas provisões de carne.
Não, a sério, temos os congeladores cheios até cima.
- No nosso caso são os queijos. - Ah, sim?
- Congelam os queijos? - Não.
O Henri tem uma paixão pelos queijos franceses.
Por exemplo, a minha mãe veio e viu-se e desejou-se
para nos trazer um brie enorme.
Que, aliás, amor, já quase acabaste com ele.
Olha, e a tua mãe, ainda não a conhecemos.
- Onde está? - Não ficou muito tempo.
Mas nós queremos conhecê-la!
Sim, da próxima vez.
Vou ver se me mandou alguma mensagem.
É curioso porque viajou com a Mathilde.
Sabes? A mulher do Bertrand,
o correspondente do Le Monde.
Ah, já sei quem é a Mathilde. E vejo que não sabes de nada.
Sobre quê?
- Que ele a deixou. - Ah, sim?
Há dois anos que andava com uma austríaca.
Também jornalista.
Por isso estava tão...
E ela agora vai voltar para França?
Não tem muitas alternativas.
Ai, coitada.
Ela contou-me que foi com ele quando ele era correspondente nas Honduras.
E eu pensei: "Tem de estar muito apaixonada".
Pois, vocês conhecem as Honduras.
- Não foram lá buscar o Malo? - Não.
Não, foi à Guatemala. Mas é parecido.
A mim não me surpreende que isso tenha acontecido.
Até te digo que ela estava a pedi-las.
Clémence, como podes dizer isso?
Porque ela sempre foi emproada.
Quando criámos a associação,
não quis nem ouvir falar.
Que tem isso a ver com o facto do marido a ter deixado?
Confesso que não estou a perceber, querida.
Formamos uma comunidade. Somos unidos.
E se algum de nós sentisse que...
Enfim, se tivéssemos sabido algo, falaríamos,
ajudávamo-nos.
Ela dava-se ares de importante.
"Não preciso de ninguém, não aceito convites".
E agora ficou sozinha.
Sabes? Não tenho tanta certeza, de que por sermos unidos, como tu dizes,
estejamos livres de perigo.
Acho que te enganas.
O que a Clémence diz é que ela e o seu grupo,
nos monopolizam com os seus jantares, as suas inaugurações, conferências
e não temos tempo para fazer mais nada. Não é verdade, Henri?
Que par de enjoados.
Ela disse: "Fizemos Marrocos". Foram eles que fizeram?
Quer dizer que passaram uma semana num hotel de Marraquexe e pronto.
- Dás-me uma passa? - Sim.
Clémence, ainda há Apfelstrudel?
Sim, sim, sim!
Estou farta. Tira tudo antes do tempo.
Fica aqui, eu vou lá.
És um amor.
Perdão.
Em Dublin ganhava o mesmo que em Paris.
Mas na Irlanda os alugueres são mais caros que em França.
Sabem onde está o Henri?
Acho que foi ver dos miúdos.
E conta-lhes do mofo das casas.
Ah, sim, é uma calamidade.
O mofo que têm...
Malo, sabes onde está o papá?
Malo.
Fizeste um golpe jeitoso.
Vai-te arder um bocadinho.
Está bem.
- Está bem? - Sim.
Ai, desculpa, desculpa!
Obrigada por me teres vindo socorrer.
Querias que fizesse de enfermeiro?
Não, mas não te tinha ficado mal alguma compaixão da tua parte.
Alguma compaixão por um golpezinho de nada?
Por que não disseste uma única palavra ao jantar?
Como não disse?
Mal cheguei, abordaste-me como se fosse um vendedor da FNAC.
Pensei que não te importasses.
Tu é que és o especialista do som de alta fidelidade, não?
E depois?
Por que ficaste mudo?
Ninguém te ouviu a noite inteira.
Ao contrário de ti, que te fazes ouvir. Estás desperta?
Eve, não te quero maçar. Logo à noite?
Logo à noite, Éléonore.
Que bem que te fica essa cor nova.
Obrigada.
- Isto é para ele. - Obrigado.
- Ah, Sophie. - Sim.
Parece que teremos a Annie Ernaux na semana da francofonia.
- Genial. - Não é certo,
mas tem disponibilidade, gosta de participar nestes eventos
- e adoraria conhecer a cidade. - Perfeito.
E a Amélie Nothomb?
Não há novidades.
Reenviarei um email ao Albin Michel.
Que horas são?
Meu Deus, como o tempo voa.
Bem, vou andando. O mais tardar às 20:00h?
Até logo.
Oh, Eve!
Ah, Sra. Belin!
- Como estás? - Óptima.
Trouxe uns livros dos quais me queria desfazer.
Já conheces o Henri Troyat.
Tenho dois dele que estão em perfeito estado.
Tenho um do Robert Sabatier.
Deixa ver, este qual era?
É que sem óculos, nem vejo o título.
Deixe-me ver.
"Semear e Colher".
Um grande enredo.
Sim, é magnífico.
Desculpe-me, Sra. Belin, estão à minha espera.
A Sophie atende-a com prazer.
Até logo, muito obrigada.
Olá.
Como estão?
- Olá, Bruno. - Olá, Eve.
Esperem-me à porta.
Lembrem-se que têm que obter a autorização para a visita ao jardim zoológico.
Não se esquecem?
Sim, Malo?
Porque se não te lembrares, o que vai suceder?
Não podemos ir.
É simpática, a Tina?
- Têm que trazer a autoriza... - ...ção!
Vá, para casa!
Malo, Malo!
Tudo bem, amor?
Até logo! Põe-te bonita, hã?
São 142 euros, por favor.
Obrigada.
De nada.
- Obrigada. Adeus. - Adeus.
Escolhe um vestido mais brilhante...
Mas com poucos balões.
Um vestido de cor de lua, é o que vai ser.
Cor de lua?
Ei, aonde vais?
Não estás a ouvir? Estão a ligar por Skype.
Olá, Malo. Boa noite.
- Estás bem, meu amor? - Sim.
O que estavas a fazer?
Estava a ver a Pele de Bicho.
Outra vez? Vais decorar as falas.
Olha, lembraste-te de dar os parabéns à mamã?
Sim, sim, sim, mãe, lembrou-se.
- Olá, querida. - Olá.
Olha como estás linda.
Esses são os brincos que te ofereci?
Ah, não, não são os brincos que me ofereceste.
- Passaste um bom dia? - Muito bom.
Olha, vê o que eu encontrei. Espera.
Quem é?
Mãe, por favor, deixa lá essas fotografias antigas.
Porquê? Eu adoro esta fotografia.
- Bom, e o Henri? - O Henri o quê?
Como o quê? Está mais descontraído?
Mãe, enquanto não fizer o concerto vai andar algo tenso.
É normal.
Bolas, mas o que se passa? Está a passar-te o nervosismo a ti?
Que agressiva.
Não, é só que tens uma forma de perguntar as coisas.
Que forma de perguntar?
- Não posso perguntar como estás? - Não, não podes.
Agora vais voltar a soltar o sermão de que já não vivemos no mesmo mundo.
Não, não comeces, Ok?
Não comeces, mãe.
Está bem, não começo, de qualquer modo sou parva demais para compreender.
Diverte-te na tua festa chique.
Está completamente doida.
Mas...
Quando és um expatriado...
Tudo bem? Falta-vos algo?
Impecável.
- Os canapés estão divinais. - Sim.
Mas já provaram os pãezinhos? Estão fabulosos.
- Esta festa está um primor. - Sim?
Ainda só está a começar.
Atenção que o champagne não está suficientemente frio.
Sim.
Parece que o teu alemão melhorou.
Pois é uma língua que não me agrada nada.
Aqui o temos.
Perdão, perdão. Olá, minha diva.
Desculpa, vou-me mudar, tenho a camisa encharcada.
Venho já, está bem?
Temos que nos conhecer pessoalmente.
Todas essas aplicações são um horror.
Mas hoje em dia, Sophie, a vida não é como nos livros.
- Temos que nos adaptar aos novos tempos. - Claro.
Falo com conhecimento de causa.
Já o experimentei e por isso digo que nunca mais.
Como é que já experimentaste? Inscreveste-te nesses sites?
- A sério? - Sim.
- E não te correu bem uma única vez? - Não.
São homens casados que querem enganar a mulher.
Esses sites são uns autênticos bordéis.
Vejam só quem chegou.
Não tem vergonha.
Que descaramento.
É mais do que isso, pelo que me disse a Mathilde.
Ah, sim, o quê?
Está em casa da irmã dele num apartamento de três divisões.
- Não! - Sim, sim.
Com um sofá cama que quando aberto ocupa a sala toda.
Que horror.
Ah, que bom que vieste, Bertrand.
- Parabéns. - Obrigada.
- Apresento-vos a Pamela. - Encantada.
- Olá. - Olá.
- Sou a Clémence. - Olá.
Prazer em conhecê-la.
Desculpem, perdão.
Tinha a certeza que faltava uma batuta ou duas.
E disse-lhe: "Precisa de duas batutas". Que idiota.
Deixem-me passar.
Não...
Vai-te embora, vais estragar tudo.
Espero que gostes. Não é nada de especial.
"Um jardim sobre a lagoa". É o último.
Eu uso "Um jardim depois da monção".
- Mas este tem uns toques cítricos. - Sim.
E ao mesmo tempo cheira a baunilha, é original, mas eu adoro-o.
Obrigada! Muito obrigada.
De nada, querida.
- Adorei. - Ainda bem.
Feliz aniversário.
O que é?
Abre-o e verás.
Vais poder relaxar um dia inteiro no Spa do Hotel Kubinsky.
Foi todo remodelado.
Ah, sim, parece ser fantástico.
Sim, é.
Olha que sortuda que sou.
Obrigada. Muito obrigada.
Ah, sim.
- É bonito, não? - Sim.
Sim.
- Posso ver? - Claro.
Têm banhos de lodo.
Ah, sim?
E olha, tem piscina.
MEU AMOR, ESTA MANHÃ FIQUEI DOIDA QUANDO TE VI
TER-TE UM DIA SÓ PARA MIM... É TUDO O QUE SONHO
CAIXA DE ENTRADA
PROCURAR
ESPERO POR TI
A MINHA MORADA É: HAHNGASSE 20
Um copo de vinho branco, por favor.
Não tenho dinheiro comigo.
Posso-lhe deixar algo e voltar cá amanhã?
Não há problema, eu confio em si.
Não tem cartão de crédito?
Não.
Deixei tudo em casa.
Não faz mal.
- Pode-me dar os seus dados? - Sim, sim.
Muito obrigada, é muito amável.
Outro, por favor.
E ponha a despesa da senhora na minha conta.
Como? Não.
Não, por favor.
Fico muito envergonhada.
Não se preocupe. A sério. O prazer é meu.
Está bem.
Muito obrigada.
Tem sotaque estrangeiro ou é engano meu?
Não se engana.
Sou francesa.
Ah, sim.
Sempre me questionei de que me servia ter aprendido esta língua.
Finalmente, hoje obtive a resposta.
Jonas, encantado.
Tina.
Encantada.
Está cá em turismo?
Não, vivo em Viena.
Sim.
Há muito tempo?
Desculpe, mas hoje não me apetece muito conversar.
Obrigada pelo vinho, mas não espere muito de mim em troca.
Peço desculpa.
Boa noite.
Obrigada.
Peço desculpa, não foi muito delicado o que acabei de fazer.
Desculpe.
Sim.
Obrigada.
Não peça desculpa.
Compreendo-a, eu também vim aqui para estar sozinho.
Ah, sim?
Apetecia-me ter paz.
Foi um dia extenuante?
Difícil.
Sim.
Sim, mas não a quero aborrecer com os meus problemas.
Imagino que tenha os seus.
Sim.
É melhor não falarmos de nós.
Quero dizer, falemos, mas tentando esquecer quem somos.
Acha bem?
Creio que para isso, uma bebida não será suficiente.
Pois no que me diz respeito, não será a última.
Vá, saúde.
Propunha-te irmos a minha casa, mas...
moro algo longe, em Klosterneuburg.
Ah, está bem.
Não, mas...
Fiquemos por aqui, é melhor.
Moras longe?
Sim, sim, também.
Então despedimo-nos.
Precisa do número de telefone?
Sim.
Não te incomodes, hoje levo eu o Malo.
Ah, muito obrigada.
Tem um bom dia, querido.
Ah, bom dia, Sra. Monlibert.
Precisa de algo?
Sim.
É rápido.
Só lhe queria dizer que acho que ele a adora.
Ah, sabe? É recíproco.
Sim, é a impressão que tenho.
Está sempre ansioso por a ver.
"A Tina isto, a Tina aquilo"
Que querido.
Acha?
Pois devo reconhecer que me faz sentir algo ciumenta.
Por enquanto, é suposto eu ser a mulher da vida dele, não?
- Com certeza, absolutamente. - Pois é.
Ah, tenho de ir.
Sim, não se atrase.
E é tudo, pensei que ficaria contente em saber.
Sim, fico muito contente em sabê-lo.
Desejo-lhe um bom dia de trabalho.
Obrigada. Para si também.
- Bom dia. - Ainda aqui estou. Vou já sair.
Vou-me embora, a porta fica aberta.
Desculpe, esqueceu-se disto.
Obrigado.
Bom dia. O que vai ser?
Eu ontem estive aqui e...
Olá.
Como está?
Ah, olá, ainda bem que cá está.
Lembra-se que ontem paguei umas bebidas
a uma senhora que se tinha esquecido da carteira?
Sim.
E?
Passámos a noite juntos.
E ela apontou o número de telefone dela num papel.
E eu deitei-o fora sem querer.
E como ela nos deixou os seus dados, pensou em vir cá.
- Exacto. - Charlie, passa-me o caderno, por favor.
Não é um pouco jovem para ela?
Espero que me convidem se um dia se casarem.
Prometo-lhe. Bestial! Muito obrigado.
Chama-se Tina.
Não sei o apelido.
- O que disse? - Disse que se chama Tina.
Não.
Não é o nome que ela escreveu.
Lamento, não o posso ajudar.
Mas isso é absurdo.
Olhe, tenho o lenço dela.
Como quer que o devolva?
Lamento imenso.
Está a brincar? Dê-me só o número de telefone.
E se ela lhe mentiu e não quer voltar a saber de si?
Isso não faz sentido.
Quem pensas tu que és? Dá-me a porra do telefone!
Olha! Põe-te daqui para fora!
Tu não te metas.
E tu terás que pedir desculpa quando eu aqui vier com ela.
Grande vaca!
Como podes ser tão estúpida?!
Incrível!
Quer uns bombons, antes de mais?
Não, obrigada.
Ah, sim, primeiro queria mostrar-lhe a nossa revista.
Sim, já a conheço. Costumo lê-la.
Já sabe que a distribuímos aqui.
Ah, sim, sim, que parva.
Então sabe que é mensal, que é grátis,
e que os artigos são redigidos por jornalistas voluntários como eu.
Muito bem.
Bom, comecemos.
Primeiro, muito obrigada, Eve Monlibert, por aceitar dar esta entrevista.
É conhecida como a esposa do ilustre Henri Monlibert
- que dirige a Konzerthaus. - Efectivamente.
São pais do pequeno Malo que tem cinco anos.
Seis. Vai agora para a primária.
Muito bem, seis anos.
E vivem num magnífico apartamento na conceituada Rooseveltplatz.
A minha pergunta é a seguinte:
Como consegue gerir tanta felicidade?
Consegue manter os pés assentes na terra?
É verdade que me sinto acarinhada pela vida.
Só um momento, parece-me que não está a gravar.
Primeiro, muito obrigada, Eve Monlibert, por aceitar dar esta entrevista.
OS ENSAIOS ATRASARAM-SE
Ok, julgo que já está.
Perdão. Onde íamos?
Sim. Dizia-me que se sentia acarinhada pela vida.
Sim, completamente.
Que miséria.
Nem sei por onde começar.
A cama.
Uma cadeira.
A mesa.
O espelho.
O SEU DESTINO: HAHNGASSE 20
Tens a certeza que a tua mulher não suspeita de nada?
Por que me perguntas isso?
Porque veio ter comigo hoje de manhã
e, não sei, pareceu-me algo estranha.
E agora é que me dizes?
- Do que quis falar? - Do Malo.
Que me adora, que nunca teve uma professora como eu.
Bom, então está tudo bem.
Não suspeita de nada.
Eu também nunca tive uma professora como tu.
Obrigada.
Mamã.
O que fazemos aqui no carro?
O que dizes, amor?
Aonde vamos?
Viemos dar um passeio, mas já vamos voltar.
Volta a adormecer.
Ainda estás acordada?
Estou, como podes ver.
Como estás?
Bem.
Sim?
Os ensaios correram bem?
Muito bem, acho que estamos preparados.
A verdade é...
que este espectáculo nos afastou bastante.
Querida, não é a primeira vez que o trabalho me absorve.
Certamente.
Mas desta vez, não sei, é diferente.
Sinto-te muito distante.
Não, olha, estou aqui.
Estou contigo.
Queria dizer-te que...
Não sei,
fazemos coisas cada um por seu lado.
- Já não partilhamos nada. - Do que falas?
Anteontem jantámos em casa do Thibault e da Clémence.
Ontem celebrámos em grande o teu aniversário.
- Qual é o problema? - Bem, Henri...
Que foi?
Que foi?
Por que não voltamos a adoptar?
O que dizes?
Já sabes, agora os trâmites serão muito mais fáceis.
Mas, porquê? Não estamos bem assim os três?
Sim, sim.
Estamos maravilhosamente bem.
Ouve, amanhã é a estreia.
Preciso de tranquilidade.
Vou dormir e falamos disto depois.
Está sem bateria, tenho que o carregar.
Koala.
Ko...
Kosovo.
Merda.
Ko...
Ko...
Ko...
Ko...
Kos.
Era lindo.
Kosmetik
Ok.
MEU AMOR, NÃO QUERO QUE CONTINUEMOS A ESCONDER-NOS
ACABAS DE SAIR E AINDA TENHO O TEU CHEIRO. TINA
Era ela.
Um email? Que estranho.
Já está.
Fiz chá. Queres?
Sim.
Estou?
O quê?
Mas o que dizes?
Não, deve ser brincadeira.
Não acredito.
Espera.
Parece que todos os pais da turma
receberam esta noite um email da professora do Malo
que não era para nós.
Sim. Um email de amor, diz a Clémence.
Espera. Sim, vamos confirmar.
Anda, Henri, vem ver se o recebemos.
Henri, por que esperas? Anda.
Já vou.
Sim, estou a chegar ao computador. Espera.
Sim, nós também o recebemos.
Vê lá se também o recebeste no teu email.
Espera, Clémence, se bem percebi,
significa que tem um caso com um pai lá da escola.
Eles vão delirar com esta história.
Também recebeste?
"Cruzarmo-nos sem nos tocarmos é melhor do que nada".
Mas o que é isto?
Parece a letra de uma música pimba.
E bom, sejamos francas, não é nenhuma estampa, essa Tina.
A sério? Claro que é a sério.
Anda sempre mal vestida, muito provinciana.
O que dizes, Clémence?
Sim, é verdade, tem sempre a pele oleosa.
Vocês são mesmo quadrilheiras. Não têm nada melhor para fazer?
Clémence, despeço-me. O Malo acabou de acordar.
Falamos depois. Um beijo.
Como estás, miúdo?
É alucinante esta história.
Tão idiota, aquela rapariga.
Queres levar o Malo, ou preferes que seja eu?
Não, vai tu. Queres estar na primeira fila.
O que fiz às minhas chaves? Ah, aqui estão.
Estou farta do telefone.
Bom, em relação a Miss Brunner,
optei por lhe dar o dia de folga.
Agora se me desculpam, vou avisar os outros professores
para que possam repartir os vossos filhos pelas várias turmas.
Claro. Só uma coisa.
Esperemos que a Tina se recomponha, mas como vai ser quando ela voltar?
O que quer dizer?
O que se passou não é irrelevante.
Ela pensa dar-nos uma explicação?
Vai-nos mandar outro email?
Ela pode fazer o que quiser,
mas já se começa a falar e o ambiente pode tornar-se muito tenso.
Por isso julgo que algum dia nos terá que contar a sua versão dos factos.
Concordo.
Não há nada pior do que estes rumores. O mal está feito.
Isto será uma situação insustentável.
A minha proposta é que nos reunamos
e que a Tina nos diga a quem era dirigido originariamente esse email.
Assim tão fácil?
Eu não tenho nada a temer, a Eve também não.
- Não. - A Servane, não acredito. Mas...
Pode haver mães que comecem a questionar-se,
que comecem a suspeitar.
Há que tranquilizá-las, para que durmam descansadas.
Desculpa, Clémence.
Percebo perfeitamente o que dizes, mas...
acho que estamos a dar muita importância a esta história e...
Acima de tudo quero pensar nas crianças e acho que para elas...
é melhor que esqueçamos esta história.
Espera, Eve. Não sei se te estou a perceber.
Estás a dizer para virarmos a página e pronto?
Julgo que este erro lhe servirá de lição.
Pelo menos, assim espero.
Julgo que esse pai já lhe terá dado cabo do juízo,
e até pode ser que a esta hora, já a tenha deixado.
Não vale a pena massacrá-la mais.
Eu não quero massacrá-la, só quero perceber.
Ela é adulta, tem responsabilidades para com as crianças e os pais.
Que diga o que tiver a dizer
e tudo voltará ao normal.
Dê-me a outra mão, por favor.
Desculpe?
- A outra mão. - Ah, sim, desculpe.
Os novos amantes de Paris...
Fala francês?
Mais ou menos.
Não tão bem como gostaria, mas gosto muito da cultura francesa.
Ah, então tem de vir esta noite.
É...
Toda a comunidade francesa se irá reunir.
O marido da directora da biblioteca é o maestro da orquestra.
É mundialmente conhecido.
Você toca algum instrumento?
Algum instrumento musical?
Ah, não.
Lamento.
Quando eu era mais nova, aprendi a tocar harpa.
A harpa.
Ai, credo, este fato tem algumas rugas.
Onde? Por que me dizes isso mesmo antes entrar em cena?
Não, desculpa, desculpa. Não está assim tão mal.
Fazes sempre a mesma coisa.
E o cheiro a ranço deste sítio é insuportável. Sim!
Desculpe incomodá-lo. Olá, Eve.
Olá, Jan.
- Perdão, eu venho mais tarde. - Não, não. Podes deixar-nos?
Ah, sim, claro.
No final tocamos Massenet?
Não, Saint Saéns, tocamos Saint Saéns.
- Vou andando. - Está bem.
Acabei de ver o maestro, está a preparar-se.
Fantástico.
Amanhã, reunião na escola. Todos os pais estão convidados.
- Deves ter recebido a mensagem. - Ah, sim.
Mas, os miúdos não são obrigados a ir, pois não?
Ah, não, não, não.
Dividimo-los ou deixamo-los a brincar no pátio.
Pergunto-me quem será o eleito.
Achas que nos vai dizer o seu nome assim, abertamente?
Bem, não sei.
Mas pode ser que estejam preparados para o assumir publicamente.
Ai, não, por favor, ela não. Esconde-me.
É a Sra. Belin. Se me vê, já não me larga.
- Olhem, meninas. - Sim.
Apurei que o envolvido pode ser o... Bruno Pillet.
Com a Tina?
- É o pai do Simón. - Assim parece.
Como soubeste isso?
Foi a Tina que me contou quando me deixou.
És tão parvo. Só vendo.
Olá, Eve.
- Ah, olá. - Olá.
Queria dizer-lhe... Wunderbar.
Muito obrigado.
Como se chama a última peça?
É "O carnaval dos animais" de Saint Saéns.
- Conhece Camille Saint-Saéns? - Sim.
Tenham uma boa noite.
Obrigada.
Bem, vou-me embora. O Thibault está à minha espera.
- Aceitam boleia? - Não, tenho que ir ver os meus músicos.
Tu, o que preferes? Queres ir ou ficar?
Acho que é melhor ir. Por causa da baby-sitter.
Parabéns.
Ai, já não aguento estes saltos.
E então? Correu tudo bem?
Sim, muito bem.
Antes de adormecer, ele disse algo estranho, mas...
- Ah, sim? O quê? - Não, nada...
Enfim...
Perguntou-me se íamos para o carro, pois não queria dormir no carro.
Mas adormeceu de seguida.
Ah, que estranho.
Vejamos...
Toma.
Aqui tens.
Ouve, não tens medo de voltar sozinha?
Não, aqui em Viena é calmo, não tenho medo.
Está bem.
Tudo bem?
Tudo bem. Volta a dormir. Por que acendeste a luz?
Porque te queria admirar mais uma vez.
Foi magnífico.
E tu estiveste magnífico.
E o fato ficou-te muito bem.
Obrigado.
De facto, recebi muitos elogios.
- Sabes quem lá esteve? - Não.
O director do Festival de Leipzig. Quer contratar-me em Setembro.
Mas isso é óptimo, não?
Mas será com a orquestra dele.
E eu só conheço os metais pelo Réquiem de Berlioz.
- Já ouviste? - Sim, ouvi, claro.
Já vi que tenho de ouvir os outros para ter uma ideia.
Mas... Aonde tens que os ir ouvir?
- A Leipzig? - A Leipzig.
A ideia é ir com ele no avião de regresso amanhã à noite,
ouço-os no dia seguinte, e depois volto.
Ah, está bem. Compreendo.
Sim. Na verdade, o tempo urge.
Setembro está à porta.
É a forma mais fácil.
Tenho que saber se lhe imponho a minha orquestra ou não.
É importante. Percebes?
Sim, sim, claro. Percebo perfeitamente.
Pois eu gosto de o ver de gravata.
Fica muito bonito.
Parece um corretor.
Agora os lenços também vêm pelo correio.
O quê?
Não sei.
Malo, espera. Tens a mochila aberta.
Tanto faz.
Não, não tanto faz.
Pronto...
Peço-vos um pouco de paciência.
Ela disse-me que viria.
Mandou-me uma mensagem ontem à noite, não vejo por que não iria...
Ah, por falar no Diabo...
Desculpem,
desde que mudaram o sentido na Hermannstrasse, é uma chatice.
Sim, bem, vem, Tina.
Estávamos a ficar impacientes.
Muito bem. Por favor, tranquiliza-nos a todos.
Bom, não vou estar com rodeios.
O email que receberam,
que, efectivamente podia lançar a confusão,
é um excerto de um romance que estou a escrever
e que não é baseado em factos reais.
Isso vos garanto.
E como cada vez que escrevo, tenho o hábito de o enviar para mim por email,
para ter a certeza que não se perde,
neste caso sucedeu que, inadvertidamente,
porque era muito tarde e estava cansada,
o enviei para o grupo de pais.
Foi só isso.
Desculpe, mas... parece inacreditável.
Nós conhecemo-la como professora e agora afinal é escritora.
Compreenderá que estejamos perplexos, no mínimo.
Percebo perfeitamente, Sra. De Gourmay.
Percebo que este email tenha criado confusão, mas, sabe?
Eu sempre tive uma natureza muito criativa.
Não há dia em que não escreva.
Tenho muitos cadernos com desenhos, com poemas,
com canções...
E desde que cheguei a Viena, sinto-me como que...
possuída pelo universo desta cidade
e quiçá pelos fantasmas dos artistas que cá estiveram.
Egon Schiele, Stephan Zweig, Kokoschka, tudo isso me...
Verão vós mesmos porque vos trouxe o manuscrito
que estou a escrever actualmente.
- É algo cedo, mas... - Não, não, espera, Tina.
Guarda isso, ninguém te pede que...
A sério. Obrigada.
Bom queria acrescentar que também fiquei perplexa quando recebi esse email.
Contactei imediatamente a Tina, que...
posso dizê-lo, não? Estava a chorar.
Estava completamente desolada.
Inclusive, devo confessar... receei pela sua saúde.
Por fim, entre soluços acabou por contar-me este mal entendido.
Espere.
Está a dizer-nos que ontem já sabia
que esta mensagem era um excerto de um romance...
- Não... - Sim...
Enfim, eu não, eu...
A pobre Tina chorava tanto que era muito difícil percebê-la.
Perdão, mas nesse caso, desculpe, o Jean-Julien tem razão.
Por que não tentou tranquilizar-nos logo?
Enfim... Por que deixou semear a suspeita?
Há algo que não encaixa nesta história toda, mas...
Sra. De Gourmay, aqui o que não encaixa
é que sou uma nulidade em informática e que fiz uma figura ridícula...
Desculpem.
- Lamento. - Tina, Tina, acalma-te.
Bom, julgo que já tiveram a explicação que pretendiam.
- Sim. - Vá, Tina.
Toma. Um cleanex.
Pronto.
Bom, antes de saírem queria informar-vos
que me pareceu conveniente que a Tina só volte à escola na próxima semana.
Para que possa descansar, para voltar recuperada.
E, principalmente, livre de qualquer suspeita.
- Meu Deus, que perda de tempo. - Não é?
Tenho que passar pela Konzerthaus.
- Vemo-nos antes de eu partir? - Espero que sim.
Não é fácil, pois não?
Não gostava de ter estado no lugar dela.
Sim, de facto não deve ter passado bem.
Sei que não era muito a favor desta reunião.
Acho que, infelizmente, era difícil de evitar.
- Claro. - Esperemos que tudo volte ao normal.
Sabe se a Tina vai sair da cidade para descansar?
Não, não sei.
Mas tem razão, fazia-lhe bem.
Gosto muito desta rapariga.
Lembro-me que quando a conheci,
me disse que tinha passado uma fase muito difícil.
Ah, sim? Então?
Não sei ao certo, mas lembro-me que lhe perguntei de forma casual
se foi por alguma questão amorosa e ela respondeu-me, isso ficou-me gravado:
"Não, é mais grave do que isso".
- "Mais grave do que isso". - E eu não aprofundei.
Mas isso explicaria que viesse para Viena, uma forma de deixar a sua vida para trás.
Decerto que escrever esse romance a ajuda a esquecer.
Sim, provavelmente.
A ideia seria reestruturar esta área.
Sim, mas nesse caso...
Olha quem está aqui!
Como está?
Não o vi ontem no concerto, veio?
Sim, sim, foi fantástico.
Tinha-lhe dito.
Imagine que a mulher de Henri Monlibert,
o maestro da orquestra, é Eve,
a directora da nossa biblioteca.
Se já lhe tinha dito, desculpe, na minha idade repetimo-nos muito.
- Venha, que eu apresento-lha. - Não. Não, obrigado.
Venha, não há qualquer problema.
Vai ver, é uma mulher muito simpática, é...
Como disse que se chama?
Jonas.
Jonas.
Não é um nome muito comum.
Diga-me, Jonas, já se inscreveu na biblioteca para levar livros?
Porque é lendo livros em francês que poderá verdadeiramente progredir.
George Sand.
Eu acho que George Sand é muito bom para aprender francês.
Eve. Desculpa.
Queria apresentar-te ao Jonas.
Aproxime-se, jovem, não seja tímido.
É que o Jonas interessa-se pelo francês
e, a meu conselho,
foi ver o teu marido ontem à noite.
Formidável, formidável.
Desculpem, mas estava a tratar de uns assuntos com a Sophie e...
Continuamos depois.
Eu tenho de ir, de qualquer modo.
- Não tem tempo de se inscrever? - Não.
Mas voltarei.
Bom... O que queres?
Tina. Ah, não, desculpa, Eve.
Mas talvez prefiras que te chame Sra. Monlibert.
Óptimo, descobriste-me. Qual é o teu jogo?
Não jogo a nada. Eu fui sincero.
Por que me mentiste?
Mas, do que falas?
Passámos uma noite juntos, e depois?
- Não tinha que te contar tudo. - Sim.
Porque estiveste a troçar de mim.
Deste-me muita pena.
Não estás a exagerar um pouco?
Nessa noite disse-te que não estava muito bem.
Eu também estava mal. Muito mal.
Mas disse a verdade.
E não te menti sobre o meu nome.
E hoje perdoo-te.
Bom, é um alívio que me perdoes.
Mas agora deixa de seguir-me, está bem?
E se te quiser voltar a ver?
Acho que ainda temos muito que viver juntos.
Jonas, não me obrigues a repetir-me.
Deixa de seguir-me.
Bem vês que sou uma mulher casada, não estou disponível.
E a noite que passámos juntos, se é que se pode chamar uma noite,
pessoalmente já a esqueci.
Como queiras.
Portanto, adeus.
Puseste outro lenço.
Sim, tenho vários.
Bem... tenho que ir.
Vi a previsão do tempo para Leipzig e vai fazer um tempo horrível.
Não estarei muito ao ar livre.
Sim, imagino.
Há séculos que não uso isto.
Ah, sim...
Também vi que em Leipzig
têm uma especialidade pasteleira que se chamam "alouettes"
Ah, sim?
Na verdade, quando o Rei da Saxónia
proibiu a caça a esses pássaros,
todos os pasteleiros da cidade
criaram um bolo com a mesma forma
feito com massa folhada
e recheado com pasta de amêndoas.
Vejo que corre bem a semana da francofonia.
Não, só pensei que podias trazer um ao Malo, acho que ele iria gostar.
Sim, vou tentar.
E para mim, não sei.
Uma jóia?
Malo, vem jantar.
- Olivia! - Olivia!
Olá, somos amigos da Olivia, trouxemos bebida.
- Abres, por favor? - Já vou!
Ok, obrigado.
- Mamã. - Sim?
Por que estás vestida assim?
Pois, porque...
eu também tenho direito a usar um vestido cor de lua.
O que tens?
Não queres ir para um hotel?
A ideia de deixar terra firme não me agrada.
- Estaremos isolados do mundo. - Que mal faz?
É só por uma noite.
É excitante.
É como se fossemos embarcar no "Barco do Amor".
Vejo que já recuperaste de tanta emoção.
Sim, claro, tens toda a razão.
Dá-me um beijo.
Tenho uma boa notícia a dar-te.
Diz-te respeito. Bem, a nós dois.
- Estás grávida? - Não.
De todo. Que disparate.
- O que é? - Não, vamos fazer como deve ser.
Instalamo-nos e digo-te com uma taça de champanhe.
Está bem.
Vá.
O teu Juanito.
E um beijo grande.
Boa noite, meu tesouro.
Sabes, Malo?
O teu pai e eu nunca nos separaremos.
Nunca.
Quem é esta Bettina Lebrun?
Sabes quem é a minha amiga Hilde?
A flamenga, que trabalha em Viena, no Instituto Berlitz.
Ah, sim.
Enfim, fui a casa dela hoje à tarde
para lhe contar como dei a volta a toda esta história,
que agora sou escritora,
bebemos um café
e entretanto mostrou-me no seu iPhone fotos de um apartamento.
Porque quer comprar um de duas assoalhadas no centro,
um pouco deteriorado, mas bonito.
Estava a ver as fotos
e vejo fotos que ela tirou num bar
com as amigas e sucede...
- O quê? - Já vais ver.
No exterior do bar...
Quem é que vemos?
É a Eve.
Pois é, meu caro.
Temos provas evidentes que a tua mulher tem um amante.
E muito giro, aliás.
E então?
Como te sentes sendo um homem livre?
Como te sentes podendo esquecer esses disparates
de que a tua mulher é exemplar, recta?
Somos livres, Henri.
MORTE DA PEQUENA NIL: ARQUIVAMENTO PARA BETTINA LEBRUN
Não acredito...
ACUSADA DE NEGLIGÊNCIA PELA MORTE DE NIL, DE CINCO ANOS,
A FILHA DO SEU COMPANHEIRO,
BETTINA LEBRUN USUFRUIU DO ARQUIVAMENTO
Se há 30 segundos não havia rede, deve continuar sem haver.
Desculpa?
Nada.
Quem te esforças tanto por localizar?
A tua mulher? Tens saudades dela?
Gostas que a tua mulher foda com outros tipos?
Tina, por favor.
Só quero perceber.
Desde que te mostrei as fotos, não disseste nada.
Tens medo que eu te deixe? A tua virilidade está ferida?
Já chega.
O que foi?
Diz-me.
Ela ainda te excita.
- É isso? - Pára.
Dá-me tempo para assentar ideias.
Eu ligo-te.
Tem três mensagens novas.
Mensagem recebida hoje às 7:12 h
Tina, liga-me quando puderes.
Que história é essa de uma queda mortal?
Liga-me.
Mensagem recebida hoje às 7:46 h
Tina, acho que fui muito compreensiva quando mudaste de nome,
mas agora espero uma explicação.
Mensagem recebida hoje às 8:27 h
Bettina, os pais vieram ter comigo. Estão a pedir-me que te despeça.
Disse-lhes que nunca foste expulsa do sistema educativo
mas não querem aceitar. Já não te posso defender mais.
Mas, que fazes aqui?
Andas a seguir-me?
- Eras tu que estavas na festa? - Qual festa?
Espera, Eve, por favor, ouve-me.
Segui-te porque sei que não queres que vá ao teu trabalho.
Mas tenho coisas importantes a dizer-te.
Tu ouves o que dizes?
Eu vi-o. Vi o Henri.
O quê?
Vocês falaram?
Claro que não. Não te preocupes.
Mas não te deseja, como eu te desejo.
Estás completamente doido.
Puseste o nosso lenço.
Deixaste-o de propósito, não foi?
Os novos amantes de Paris.
Podemos viver juntos, se quiseres.
Não seremos ricos, mas arranjarei trabalho.
Basta!
Não te conheço.
Deixa-me em paz! Percebeste?
Por que estás tão agressiva? Podia ser muito doce, muito terno.
Eu não te quero! Não te quero!
E se continuas assim, vou apresentar uma queixa.
Para isso tínhamos que nos conhecer.
Mas dizes que não nos conhecemos, que a nossa história não existe.
Que disparate.
Nunca vi nada assim.
Não, se gostasses de mim, tinhas-me contado essa história sórdida.
Não há justificação.
Pois claro.
O teu email? Fico contente que to tenham pirateado.
Ao menos já sei o que se passa.
Ouve, isto tem de parar.
Henri! Estás aqui?
Sim, estou no piano.
Então? Onde estiveste?
No spa do hotel Kubinsky.
Fui relaxar, fez-me muito bem.
E tu, como foi em Leipzig?
Uma belíssima orquestra. Vai resultar.
Mas não tinhas de voltar tão cedo, pois não?
Porquê? Perturbo os teus planos?
Não. Não, não, de todo.
Não, é só que me tinhas dito que...
Não tinha nenhuma razão para ficar em Leipzig.
Aliás, nem tive tempo de ir às compras, lamento.
Estava impaciente por te ver.
Esperas alguma chamada?
Não, não, não.
Deve ser um tipo que insiste em vender-me uma cozinha equipada.
Não sei como fomos parar à base de dados dele.
Mas também pode ser para ti.
Se for para mim, é a Susan que quer uma partitura.
E não me apetece ser incomodado.
Nem eu.
Olha, meu amor,
encontrei-te Fourme d'Ambert,
Tome aux fleurs, Feuille du Limousin, Camembert e Morbier.
Adoro o Morbier.
- Isto merece abrir uma boa garrafa. - Sim, sem dúvida.
Tudo bem? Estás a gostar?
Ninguém atende?
Sim, claro.
Estou?
- Estou? - Merda!
Sou um desastrado, desculpa.
Estás desculpado.
E este? Como se chama?
- Vá. - É um violoncelo. E este é...
- Este é maior. - Sim, exacto.
- É o... - Contrabaixo.
É difícil, hã?
Vá, dormir.
Mamã, olha o que me deram.
Que bonito, é um polvo.
Eve, espera.
Deixa-me dizer-te, li um romance apaixonante
que recebi de uma amiga de França e que tens que obter.
É um pouco picante, mas absolutamente delicioso.
Por que não o anota no nosso livro de sugestões?
Sabe que o consultamos mensalmente e temos em conta as suas ideias.
Fico muito honrada e retribuo-vos a consideração
porque faço muito pela vossa instituição.
Sim, é muito amável.
Por exemplo, ainda há pouco, fiz com que o Jonas se inscrevesse.
Lembras-te? Aquele jovem encantador que queria melhorar o seu francês.
Sim, lembro-me. Ele voltou?
Sim, e disse-me que ainda não se tinha inscrito.
Arrastei-o logo até à recepção.
Por isso, agora já tem cartão de sócio.
O que recomendarias a alguém que quer melhorar o francês?
Desculpe, tenho que fazer uma chamada.
Até logo.
Incomodo?
Não, pelo contrário, que bom.
Estive no café Prueckel.
Como tenho algum tempo livre, pensei que podíamos ir jantar.
A Astrid pode ir buscar o Malo e olhar por ele.
Que bem... Já tens tudo programado.
Não é?
Se me desculpas, tenho algum trabalho.
Ok.
Venho buscar-te mais logo.
Está bem.
Jonas? Fala Eve.
Tenho que te ver, por favor.
Não, para falar com calma, entendermo-nos.
Ah, não, não, em tua casa não.
Não, nem na minha. Nem no meu trabalho.
Pois num sítio tranquilo.
Não quero que nos vejam.
Nas margens do Danúbio é perfeito.
Não, tenho GPS, descobrirei.
Daqui a meia hora.
Está bem, até já.
Jonas?
Jonas?
Jonas.
Jonas.
Já viste que bonito? Adoro este sítio.
Ouve, não sei se é a barreira da língua,
ou se apenas não queres perceber, mas eu já não posso mais.
Mas, porquê? O Malo mostrou-te o presente?
Não te aproximes do meu filho.
Proíbo-te de te aproximares dele!
- Não lhe quero fazer mal. - Estou-me nas tintas!
Esquece-me! Por que me tentas lixar assim?
Queres chantagear-me?
Pois aqui tens, levantei dinheiro para ti...
Mas, que dizes?
Tomas-me por um prostituto?
Tu é que vieste à minha mesa,
tu dançaste comigo, tu beijaste-me,
tu quiseste despir-te, eu amo-te!
Mas eu não!
Agora vais-me pedir desculpa!
Não faças fitas, levanta-te!
Estás bem?
Henri, o que fazes aqui?
Seguiste-me?
De onde saiu este tarado?
Henri!
Morre, cabrão!
Pára, Jonas!
Henri!
Henri!
Astrid. Então?
Está tudo bem?
Queria perguntar-te se te importarias de dormir aí em casa.
É que o Henri e eu acabámos de sair do restaurante
e queríamos passar a noite no hotel e desfrutar.
Ah, obrigada, és um amor.
Eu ligo ao Malo de manhã para lhe explicar.
E, obviamente, pagamos-te mais.
Sim, és uma querida.
A casa é tua.
Há de tudo no quarto de hóspedes: escova de dentes, toalhas...
Obrigada, até amanhã.
Foste perfeita.
Anda.
É lindo esse vestido e adoro esse azul lavanda.
É muito fresco e fica-te muito bem.
Tinha-o debaixo de olho há tempos, mas...
É magnífico.
Vão pensar que sou algo clássica,
mas não o usaria em minha casa. - Sim, és algo clássica.
Já sabem a novidade da Mathilde?
O que nos vai contar?
Que trabalha num hipermercado ou se dedica à prostituição?
Não, conheceu uma pessoa.
- Não acredito. Já? - Sim, sim, sim.
O Justin viu-a ontem em Paris e saía de um restaurante com um homem.
- Mas falou com ela? - Sim.
Inclusivamente, apresentou-o.
Eve.
- O que foi? - Tranquiliza-a.
Sim, não te preocupes.
Chefe?
- Chefe? - Sim?
Tinha estes documentos com ele.
Jonas Karez.
29 anos.
E? Soubeste algo?
Era conhecido da polícia.
Várias mulheres o denunciaram por assédio.
A última foi há pouco mais de um ano.
Uma tal Carla Kirchner Linz.
Ele seguia-a por todo o lado, como se fosse o seu passatempo.
Ela levou-o a tribunal.
Por isso usava a pulseira electrónica.
Sim?
Eve, está aqui a polícia, querem fazer-te umas perguntas.
A polícia? O que aconteceu?
Entrem, por favor.
Olá.
Sou Koch, da Polícia Criminal.
O meu adjunto, Herr Lehnsmann.
Estamos a investigar um tal Jonas Karez.
Afogou-se.
Conhecia-o?
- Não. - Curioso.
Ele parecia conhecê-la a si.
Tinha a sua foto colada na parede.
Como disse?
Felix?
Como se chamava?
- Jonas...? - Karez.
Esteve cá várias vezes, na mediateca.
Creio que era amigo de uma das nossas sócias.
Então afinal conhecia-o.
Sim, enfim, mal.
Passeava pelas estantes, queria melhorar o francês dele.
- Percebo. - Sim.
E quando ele passeava pelas estantes,
não notou nada de anormal?
Não.
Pode dar-nos os dados de contacto da pessoa que lho apresentou?
A Sra. Belin, sim.
Sim, dou-vos.
Engraçado, tem a mesma camisa que na foto que ele tinha de si.
Ah, sim?
Sim.
É a foto que consta na página web da mediateca.
Não é grave.
Fica-lhe bem.
Adeus.
Adeus.
Tens planos? O que vais fazer agora?
Tenho uma amiga que tem um apartamento em Bruxelas
e convidou-me para lá ir descansar.
Nunca vi o Manneken Pis, por isso...
É muito pequeno, verás.
Desculpa, é importante.
Estou? Sim, diga.
Ah, olá, tem informações?
O quê?
Posso ligar-lhe mais tarde?
Obrigada. Até logo.
Está tudo bem, Tina?
Sabe que pedi a uma empresa que descobrisse
quem foi o autor dos emails que receberam?
Descobriram o endereço de IP.
Os emails foram enviados do computador dos Monlibert.
E... achas que foi ela ou ele?
Ela.
Quando eu estava com ele.
Suponho que há gente que é capaz de tudo para preservar...
a sua honra.
O JOVEM AFOGADO NO DANÚBIO
É uma verdadeira púdica, a Éléonore.
Não tínhamos que organizar este jantar.
Por que dizes isso? Se está tudo bem.
Está tudo bem.
A nova é competente.
Quero lá saber que seja mais perto.
Sempre esquiei em França.
- Tenho as minhas rotinas. - Sim.
Se passasses um dia em Innsbruck,
davas em doida com a fila de campónios de Chamrousse.
Para começar, nunca vamos a Chamrousse.
Vamos a Courchevel já há muitos anos...
Esperam alguém?
- Não, não, não. - Não.
Ah, deve ser a Astrid.
Astrid é a babysitter.
Sim, esqueceu-se do livro de matemática e vem buscá-lo.
Boa noite, Sra. Monlibert.
Desculpe incomodá-la a esta hora
e em pleno jantar com amigos,
mas temos de falar consigo.
Não pode esperar por amanhã?
Receio que não.
Prefere que o façamos aqui ou na polícia?
Vou buscar a minha mala.
Não se importa
que o meu adjunto faça umas verificações de rotina?
Claro.
Boa noite.
O vinho é formidável, não?
- Sim, sim. - Excelente.
- Provaste os amendoins com wasabi? - Não.
São bons, são picantes.
O Lehnsmann telefonou.
Encontraram a morada do café
perto do local do corpo, no GPS do carro dela.
Muito bem. Já temos provas.
O Lehnsmann ainda lá está?
Acho que sim.
Óptimo. Diz-lhe que traga o marido.
Tenho umas perguntas para lhe fazer.
UNS MESES DEPOIS
Por volta das cinco da manhã,
uma patrulha policial tentou fiscalizar um veículo com dois ocupantes
na Avenida Dixmude, em Bruxelas.
Fim do processo Monlibert.
O caso que abalou a Áustria
e fez sentar no banco dos réus o famoso casal francês,
terminou com o arquivamento.
Eve e Henri Monlibert foram absolvidos por agir em legítima defesa,
mas foram forçados a demitirem-se.
Estes meses foram muito difíceis para os meus clientes,
mas alegro-me que se tenha conseguido demonstrar a sua inocência.
Agora só resta esperar que possam recuperar as suas vidas
e que o Sr. Monlibert possa voltar ao seu cargo de director de orquestra.
Bom dia.
Bom dia.
É possível fazer uma lavagem e penteado?
Deixe-me ver se ainda há vagas.
Sim.
Tem sorte, houve um cancelamento.
O Román virá já.
Quer um café ou um chá?
Não, obrigada.
Obrigada.
Como estás?
Bem. Bom dia.
Sophie.
Ah, Eve.
Que gentil teres vindo.
Venho despedir-me. Sabes que partimos amanhã?
Já?
E...
Então? Já têm as malas feitas?
As malas? As caixas, queres dizer.
Não sei como vamos fazer, mas...
- Sophie, desculpa... - Sim?
- Ah. Olá, Eve. - Olá.
- Já estás pronta? - Sim.
- Bem, eu vou... - Não, diz.
Acho que devíamos agradecer à Annie Ernaux.
Se puderes falar com ela e enviar-lhe uns bombons Mozart...
- Sim, não te preocupes, eu trato disso. - Bom...
- Bom regresso. - Obrigada.
Vou ter saudades dos bombons Mozart.
Eve. Espera.
Vi-te na recepção.
É bom ver-te. As coisas vão melhor?
Sim, muito obrigada.
Sabes...?
A mediateca perdeu muito desde que tu não estás.
A nova precisa de aprender tudo.
Tu fizeste um trabalho formidável.
A sério.
Porque o teu predecessor não era bem um ás...
Isso é verdade.
Eu...
Soube que regressas a Paris.
Sim.
Faz-te bem.
Faz-te bem mudar de ares.
E... já vi como aqui todos te viraram as costas.
Mas não ligues a essa gente.
Não são ninguém para te julgar.
Achas que eles não têm os seus pequenos segredos?
Agora tens que viver por ti.
Sem ligar ao que os outros pensam.
É por isso que...
eu tenho os meus livros, não me misturo,
prefiro assim.
E faz bem.
Não desperdices a tua vida por causa de uns imbecis.
Muito obrigada.
Tudo bem?
Custou-me muito adormecer.
Recebi uma mensagem da rapariga da agência.
Ficou para as 15h.
Assim temos tempo, não?
- A que hora vêm os tipos das mudanças? - Às 12h.
Até às 15h temos tempo suficiente.
Acho que não vou para Paris contigo.
O quê?
Estive a pensar e não acho boa ideia.
Não é viável.
Como é que não é viável?
Eve. Temos que fazer vidas separadas.
Senão, não viramos a página.
Não consigo esquecer o que fizemos, não consigo ultrapassar isso.
Henri, é absurdo.
Já virámos a página, sabes?
- Deram-nos uma nova oportunidade. - Não, não consigo.
Desde que estamos juntos,
quando voltámos, só penso nisso.
E sobretudo penso nas razões que nos fizeram chegar a esse ponto.
Traí-te.
Porque me enfadava. Porque me enfado contigo.
Por que ficaste? Por que não me deixaste?
Qualquer outra tinha desistido há muito tempo, acredita.
Por que me perdoas sempre tudo?
Nunca consegui engravidar-te, traí-te durante meses.
Nunca pensaste em divorciar-te? Nunca?
Por que te viraste contra ela?
Por que fizeste tudo para me recuperar? Porquê?
Para não perderes a face perante a Clémence e todos esses imbecis.
Não dizes nada? Não dizes nada.
É só o que te interessa?
O prestígio? As aparências?
Cabrão de merda!
Porco! És um porco!
Eu amava-te, Ok?
Sente-se, por favor.
Tradução e legendagem: caligiuri
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