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A maioria dos filmes foram dirigidos por homens.
A maioria dos ditos cl�ssicos foram dirigidos por homens.
Mas h� 13 d�cadas, em todos os seis continentes onde se fazem filmes,
milhares de mulheres tamb�m t�m dirigido filmes.
Alguns dos melhores.
Que filmes elas fizeram?
Que t�cnicas usaram?
O que podemos aprender sobre cinema com elas?
Vamos revisitar os filmes atrav�s dos olhos das diretoras.
Vamos fazer um novo road movie pelo cinema.
MULHERES FAZEM CINEMA
UM NOVO FILME DE ESTRADA ATRAV�S DO CINEMA.
Os filmes s�o t�o cheios de vida.
Mas como eles s�o na morte?
Todos j� vimos tiroteios e cenas no leito de morte,
mas e as formas criativas, incomuns, ou talentosas
que a morte tem sido representada no cinema?
E o que podemos aprender com elas?
38 - MORTE
Comecemos logo antes da morte. Com o seu fasc�nio.
A c�mera segue uma mulher no corredor escuro de uma cl�nica.
Ela tem c�ncer de mama e est� morrendo.
Agora ela olha para n�s, enquanto recuamos.
THE ETERNAL BREASTS JAP�O, 1955
A�, este plano expressionista.
Ela segue um cad�ver no caminho para o necrot�rio.
R�stias de luz.
� como se ela fosse son�mbula.
Fascinada pela morte, atra�da por ela.
Um belo ritmo nesta cena, dirigida por Kinuyo Tanaka.
A morte chama, e a� acontece.
NECROT�RIO
Tantas maneiras de mostr�-la.
Que tal esta, da diretora Wang Ping, em 1965?
O LESTE � VERMELHO, 1965
Uma luta coreografada.
Trabalhadores � esquerda, contra capitalistas � direita.
Uma dan�a.
A�, um homem corre.
Tambores.
E sua postura heroica, quando a vida come�a a deixar seu corpo.
Outro tiro...
e uma panor�mica se comp�e como um quadro.
� como se ele tivesse morrido num afresco ou numa tape�aria.
Uma morte tamb�m pouco convencional.
O enorme bal�o que flutuava sobre a cidade cai no ch�o.
Os alde�es d�o vivas.
Mas a�, a pol�cia atira.
E agora, a met�fora da diretora b�lgara Binka Zhelyazkova.
O bal�o � como uma baleia.
Gigante, gentil,
assassinado.
Um menino chorando.
Ele esvazia, como a esperan�a e a felicidade dos alde�es.
A matan�a se torna fren�tica.
Das mortes estilizadas �s simples.
�Le Lit�, de Marian Hansel.
O homem moribundo.
Uma imagem parada.
E a�, seu �ltimo suspiro.
Agora, estamos aos p�s dele, como um quadro renascentista.
A c�mera se aproxima, e uma �nica voz.
N�s dizemos que o esp�rito deixa o corpo,
mas aqui, nos aproximamos dele.
Ent�o, um v�u se interp�e.
Eles se movem do outro lado do v�u.
Assim como a c�mera.
Menos dram�tica ainda � esta cena
da diretora americana Liza Johnson,
de �Amores Inversos�.
AMORES INVERSOS EUA, 2013
Johanna?
-Estou aqui. -Sim.
Kirsten Wilg interpreta uma cuidadora.
Uma c�mera im�vel. Nenhuma m�sica.
Nenhum clima especial.
Eu gostaria de usar meu vestido azul.
Sim, senhora.
A c�mera corta da anci� para outro �ngulo,
outro plano est�tico.
Mas quando voltamos, a senhora est� morta.
Seus anos terminaram.
Nenhum tambor.
Nenhuma mudan�a no mundo.
Depois que algu�m morre, os entes queridos precisam saber.
Era uma sexta � tarde,
quando eu voltei e vi uma multid�o na frente da nossa casa.
Uma multid�o.
Ela se funde. Se afasta. Um dedo.
A�, passamos para o chap�u dele
e subimos as escadas, at� onde a av� morreu.
A marca registrada de Caroline Leaf, suas imagens desfocadas.
-A sua av� morreu. -Cad� a mam�e?
No quarto com...
-� melhor voc� n�o entrar. -Eu quero v�-la.
N�o entre aqui.
E pessoas desfocadas, papel de parede, vozes.
Pintura a dedo?
Em marrom e cinza, como uma pintura rupestre?
A vov� deixou umas joias.
O colar � para Brefka e o anel � para sua esposa.
Quem vai se casar?
De que outra forma sabemos que algu�m morreu?
Dificilmente pode ser mais criativa que esta.
A c�mera avan�a. Cores suaves.
Estamos entrando em um mundo. Que mundo?
CRULIC - O CAMINHO ADIANTE DIRE��O: ANCA DAMIAN
Imagens planas. O telefone toca.
Um document�rio estilizado narrado pelo protagonista falecido,
um romeno na vida real,
que morreu em uma greve de fome na Pol�nia em 2008,
ao protestar contra sua pris�o.
Ele diz ser embaixador romeno em Vars�via.
Ele quer que meu tio Leontescu
confirme o parentesco com Claudiu Crulic, que sou eu.
A�, ele informa ao meu tio que estou morto.
E pede 2.500 euros para me levarem para casa
e ser cremado.
N�o, o consulado n�o pode ajudar na repatria��o.
Um visual parecido em �El Camino�, de Ana Mariscal.
EL CAMINO ESPANHA, 1963
Dois planos descendentes, em dire��o ao caix�o.
Mas a�, isto.
N�o h� cortes neste momento imprevisto.
Desculpe, Tiny.
O menino � ao mesmo tempo destemido e assustado.
Vamos a outro funeral.
Nas montanhas albanesas. Com uma por��o de homens.
VIRGEM PROMETIDA
IT�LIA, SU��A, ALEMANHA, ALB�NIA, KOSOVO, FRAN�A - 1968
A�, a mulher de cabelo curto, a virgem prometida do t�tulo.
A c�mera segue o caix�o.
E a�, isto.
Quase um document�rio tosco de um ritual de enterro.
Tristeza, lamentos,
mas tamb�m � como se tentassem traz�-lo de volta da morte.
A�, ela beija o padrasto.
De uma cena de gritaria a outra.
O GIGANTE EGO�STA DIRE��O: CLIO BARNARD
O amigo do menino teve uma morte horr�vel.
O homem � o maior respons�vel.
Solte-o! Solte-o!
F�ria, c�mera na m�o. Uma tempestade de dor.
Maldito desgra�ado! Eu te mato! Patife!
Imagens ca�ticas.
Me soltem!
E o menino � carregado. Explodindo.
Ele � preso no cont�iner.
A onda de choque destrutiva da morte.
E quando a onda passa? Vem outra.
Choques subsequentes.
Um homem desliga a TV.
Seu filho morreu numa estrada, andando de bicicleta.
Na TV, h� imagens do acidente, mas ele n�o aguenta olhar.
Um mundo azul de a�o.
Mas ent�o, ele volta. A cabe�a totalmente enquadrada.
O local, o trevo, segundos antes de acontecer.
Rua vazia. A�, l� em cima, um vislumbre do rapaz.
N�o, filho.
Ele congela a imagem, claro.
Voc� n�o faria isso, para deter o passado?
Ou poria em c�mera lenta...
segundos antes do tornado?
N�o.
N�o.
A diretora holandesa candidata ao Oscar, Paula Van der Oest
e o ator Pierre Bokma
nos levam cada vez mais perto do momento,
da agonia.
Ent�o, corta e n�s ficamos do outro lado,
na escurid�o.
Mas � poss�vel sair da escurid�o.
Nossa �ltima cena de morte.
A senhora polonesa que conhecemos antes.
Ela se deitou para morrer.
Segurando seu ter�o.
Sobre aqueles ramos que tremulam contra o frio.
Coros em ru�nas, onde tardiamente doces p�ssaros cantaram.
-Em mim, tu... -A vela esmaece.
Como depois que o sol se p�e no oeste,
que pouco a pouco a noite escura carrega.
Mas a�, ela revive.
HORA DE MORRER POL�NIA, 2007
...que encerra tudo.
Este plano f�nebre do quarto.
Que torna o teu amor mais forte,
te faz amar t�o bem.
E a�, a vista de cima, tamb�m chamada de vista do caix�o.
E a�...
-Ela volta! -Voc� est� louca?
-Morrer? -Como se acordasse de um sonho.
Sem chance.
H� 39 cap�tulos, mais de 13 horas atr�s,
n�s perguntamos como se faz uma grande abertura de um filme.
Agora, perto do fim da hist�ria, perguntamos sobre o final.
39 - FINAIS
Eu estava no templo.
Vejamos alguns pouco comuns.
Em �Hotel Very Welcome�, de Sonja Heiss,
Svenja n�o quer que sua estranha aventura em Bangkok termine.
Ela fala com o agente de viagens,
e apesar de ele ser meio incompetente,
e provavelmente nunca terem se encontrado,
eles n�o querem que a liga��o termine.
-Eu tamb�m. N�o te vi. -Nem eu vi voc�.
Eu preciso... voltar. Estou na lista de espera.
A� vou voltar para Washington.
-Washington? -�.
Vou sentir falta de falar com voc�.
Eu sei.
-Venha comigo. -N�o posso, eu...
Voc� pode... vir comigo.
-Estou no aeroporto. -Aeroporto?
�, aeroporto. Hoje. Agora.
Hoje? Agora?
-Darei meu n�mero em Washington. -Washington?
-�. -N�o.
-Eu vou... com voc�. -Que fofo.
Eu quero te ver.
-N�o posso... -N�o chore!
-Eu choro. -N�o chore.
Cortes entre tomadas simples, luz natural.
Final adiado.
O que voc� disse?
-N�o, n�o, n�o. -N�o, n�o, n�o?
-N�o, n�o, n�o. -Sim, sim, sim.
Eu n�o entendo tailand�s. Desculpe, Mick.
-�Rak khun.� -�Rak khun.�
�Rak khun� � �eu te amo�.
�Rak khun� � �eu te amo�?
-Pensei que fosse �at� logo�. -N�o � �at� logo�.
-Tchau. -N�o.
Tchau.
Um quase final.
-Fique na linha. -Ficar na linha?
Fique na linha.
Para sempre?
-Para sempre? -Para sempre?
-Para sempre? -Para sempre.
Os finais mais comuns s�o otimistas.
Em Hollywood e Bollywood, o final frequentemente � feliz.
�A P�tria da Eletricidade�, de Larissa Shepitko
est� longe de Hollywood,
mas tem o final feliz.
Camponeses ucranianos constru�ram uma bomba
para irrigar seus campos ressequidos.
Mas a bomba explodiu e agora, est�o chorando.
Os espl�ndidos rostos difusos de Shepitko.
A solenidade.
A colheita ser� perdida de novo?
Mas a�, n�s vemos que come�a a chover.
A colheita ser� salva.
Eles est�o exaustos demais para festejar. Sem sons sincronizados.
S� alguns dos melhores closes do cinema.
Um final feliz como um resgate, um sacramento,
quase que uma revela��o.
...mas as pessoas n�o sentiam a chuva,
porque tinham deixado de esperar que ela viesse.
Elas n�o tinham percebido, na esperan�a de sobreviver,
que haviam se tornado a esperan�a encarnada,
ajudando-as a fazer o poss�vel e no entanto, imposs�vel.
Como a esperan�a se tornou parte de uma esperan�a maior,
uma esperan�a de um mundo futuro comunista,
uma parte de uma esperan�a maior que precisavam para viver.
E essa esperan�a s� manteve sua humanidade.
Passemos de finais felizes para algo deste tipo.
Kusum tem sido infeliz no amor e est� fugindo.
Zoom out.
Um filme cheio de zooms aumentando e diminuindo tristeza e alegria.
Mas a�, ficamos com ela.
E suas l�grimas.
E zoom in.
A�, este close congelado,
para um plano no in�cio do filme.
E a voz dela em off nos atualiza.
E voltaram...
Nada oficial.
Eu n�o consegui entrar na universidade
e entrei para as fileiras dos desempregados.
Esse foi o fim dos meus doze anos de estudos?
Apenas a bochecha e um zoom lento.
Os lindos tons em preto e branco...
e a� nos aproximamos novamente. Do qu�? Do rosto dela no espelho?
Sim, mas tamb�m de uma imagem emba�ada.
Um ponto de interroga��o.
Isto � tudo que a vida me reserva?
Um dos finais mais incertos e ousados do cinema.
THE GIRLS DIRE��O: SUMITRA PERIES
Este final � incerto de um jeito diferente.
Ela foi atropelada por um carro e est� no hospital.
A brancura e a suavidade desta imagem.
Mas a�, corta para seu suposto amante.
Num carro, no escuro, numa esp�cie de inferno.
CARTAS DE AMOR DIRE��O: KINUYO TANAKA
Agora, ela move a cabe�a.
Agora, ele segura a dele.
E os olhos dela se abrem. Uma imagem quase celestial.
E a m�sica muda de tom.
Foi um final feliz, ou triste?
Ambos. Houve uma transfer�ncia.
Um reequil�brio. Uma incurs�o de gra�a.
Vamos, campe�.
-Vamos para casa. -Sim.
Em muitos finais, o mundo parece julgar os personagens.
Ou a hist�ria os julga,
ou as imagens.
Claire Trevor, uma m�e controladora,
conseguiu o que queria.
Isto � seu.
Voc� ganhou.
Um trof�u.
Mas a que custo?
Da dignidade dela? Do respeito dos outros?
Florence!
Voc� n�o vai esquecer...
vai?
Anoitece e ela fica embalando o trof�u,
a �nica coisa que lhe resta.
Ent�o esta lente grande-angular se afasta e a perde de vista,
e encontra os pap�is caindo, o vento gelado
e o vazio do mundo e do cora��o dela.
FIM
FIM
FIM
Esta luta n�o vai terminar em terrorismo e viol�ncia.
Bem mais radical e determinado � este final.
Uma locutora de r�dio feminista em Nova York.
Bem enquadrada.
Sua mensagem ousada, mas conciliat�ria.
...em luz.
Este � o momento da esperada mudan�a para todas n�s.
Aqui � Isabella, da R�dio Phoenix, me despedindo at� amanh�.
N�s fomos longe demais.
A� corta para este homem, com um traje formal,
como s�o filmados os rep�rteres de TV.
N�o podemos ignorar nossa infla��o monumental.
Nem tolerar o abuso desenfreado em nossos programas sociais.
Neste pa�s, estamos encurralados pela burocracia.
Ele expressa um medo comum da direita.
A dire��o teme que a socializa��o tenha transformado nossa democracia
num estado de bem-estar social.
Se queremos que nossos ideais sobrevivam,
precisamos considerar suas implica��es.
Mas a�, o choque. Ele � interrompido por...
Uma explos�o no alto das torres g�meas,
dezoito anos antes de realmente explodirem.
Um final chocante. Uma destrui��o.
O final de Claire Denis em �35 Doses de Rum�
� o oposto visual das torres explodindo.
O pai que j� conhecemos.
Sua filha acabou de se casar.
Ele a ver� menos agora.
Eles viviam juntos, felizes, ternamente.
A�, corta para esta imagem.
Nenhum rosto, nenhuma emo��o �bvia, nenhuma despedida.
A panela vermelha � esquerda.
Mas depois, ele descobre outra panela de arroz que ela comprou.
A diretora Denis ama o final do filme de Yasujiro Ozu,
em que um homem solit�rio descasca uma ma��.
Este � seu equivalente de descascar a ma��.
A amargura dos objetos.
Os desenhos infantis na panela da filha.
A segunda panela n�o foi usada e talvez, nunca seja.
Uma nota encantadora. Um final zen.
RITUAL IN TRANSFIGURED TIME DIRE��O: MAYA DEREN
O que poderia ser menos Hollywood, menos Bollywood?
Talvez isto...
Uma mulher fugindo de um homem. A dan�a do desejo, de certa forma.
Ela gira. Mas ent�o, isto.
Ela fica branca, afunda, cai, em c�mera lenta.
Ela est� embaixo d��gua, ou numa posi��o inversa?
Chegamos ao fim da estrada, nosso �ltimo cap�tulo.
Vamos terminar em grande estilo.
� bom terminar com m�sica e dan�a.
Junto a corridas de carro e tiroteios,
os n�meros musicais s�o as cenas mais elaboradas no cinema.
40 - M�SICA E DAN�A
Todos vimos os cl�ssicos. S�o mais ou menos assim.
Um artista falta e ent�o, um substituto, algum novato
precisa ir em seu lugar.
A m�sica toca.
Isso a perturba. Ent�o, ela � empurrada.
Puxa. Ela � boa.
Um redemoinho.
O olhar arregalado ao entrar no palco pela primeira vez.
Aplausos. Cabe�as se viram.
De repente, todos olham para ela.
Nasce uma estrela.
Ela faz mais um pouco, e aplaudem mais.
Um momento cl�ssico no not�vel filme chin�s de Huang Shu-gin,
�Woman, Demon, Human�.
Huang toma emprestado do teatro e da �pera, claro,
como muitos musicais fazem.
A diretora sovi�tica Vera Stroeva faz isso de forma expl�cita
em sua adapta��o de 1954 da �pera de Mussorgsky, �Boris Godunov�.
Um exterior realmente moscovita.
Uma prociss�o.
E a�, esta lente grande-angular, que parece um quadro medieval.
Teatral, decoroso.
Brancos, vermelhos e azuis.
Talvez n�o totalmente cinematogr�fico. Mas este plano, �.
Longa vida a Boris Fedorovich!
E o corte para o coro da multid�o.
Longa vida e felicidade!
Louvem-no!
E este �ngulo � muito cinematogr�fico.
A emo��o e a multid�o numa �pera, mas com proximidade.
Primeiro plano dram�tico.
Cen�rio glorioso.
Trinta e tr�s anos depois de Stroeva fazer seu filme,
ele foi exibido em Cannes.
O cinema se apoderou das tradi��es musicais do teatro e da �pera,
mas aumentou seu senso de movimento,
sua �nfase no movimento.
Aqui Margaret Tait nem usa a c�mera.
Ela pinta diretamente no filme.
Movimento em duas dimens�es, tremulante, puro.
As origens dos filmes.
Em seus prim�rdios,
Alice Guy mostrou o chamado da m�sica no cinema.
Uma fam�lia burguesa comum, a esposa, o marido e a empregada.
Mas a�, a esposa ouve algo e levanta a m�o esquerda.
Ela levanta as duas m�os, se levanta e a empregada ouve.
A�, ele tamb�m se levanta.
S�o como marionetes. Precisam dan�ar.
A m�sica � o fio condutor. O fio condutor do cinema.
Ontem
Esta mulher est� vestida como uma est�tua grega.
A diretora Marion Hansel
fez seu filme em c�mera lenta,
para que possamos ver os movimento do tecido,
a ilus�o que os escultores cl�ssicos esperam alcan�ar.
Billie Holiday canta. Fascinante.
Ela � como uma an�mona do mar.
Estamos no alto.
O fundo � marrom escuro.
Corpo e roupa quase t�o abstratos quanto o filme de Margaret Tait.
E o amor
Ent�o a juventude festiva era minha
Ela parece flutuar.
Flutuar.
Muitas cenas musicais no cinema tentam remover a gravidade,
e passar a um estado de leveza, de aus�ncia de peso.
Este � o document�rio �Elena�, da diretora brasileira Petra Costa,
sobre sua irm� que foi a Nova York e depois cometeu suic�dio.
A leveza daqueles deixados para tr�s,
do mundo flutuante.
Muitos n�meros musicais aspiram a um mundo flutuante.
Este tipo de mundo.
Garotas juntas num quarto. � tarde, mas n�o est�o cansadas.
S�o movidas pela m�sica. Leves.
A diretora Edith Carlmar
e o diretor de fotografia Mattis Mathiesen as seguem.
Mant�m elas enquadradas.
A c�mera n�o se aproxima demais.
Queremos ver todo o movimento, sentir todo o movimento.
Eu s� quero sentir o amor verdadeiro
E por falar em sentimento,
um bombeiro, um centro comunit�rio.
Porque eu tenho muita vida correndo nas veias
N�o precisamos nos afastar desta vez.
Um close basta.
� como o filme de Gene Kelly,
esperando para fazer seu n�mero em �Cantando na Chuva�.
A m�sica o p�e em um mundo pr�prio.
Estou me preparando para deix�-la
Os olhos est�o fechados, claro.
Ele dan�a como se ningu�m estivesse olhando.
Uma simples cena de dan�a. A mais ador�vel de todas.
Antes de eu chegar
Eu j� me via chegando
Eu s� quero sentir o amor verdadeiro
Sentir a casa em que eu moro
Porque eu tenho muita vida
Correndo nas veias
Indo para o lixo
E eu preciso sentir o amor verdadeiro
Palmas erguidas para o universo enquanto brilhamos com a lua
Sentimos o calor
� como se ela estivesse olhando para ele.
Somos diamantes no c�u
Voc� � uma estrela cadente
A�, ela se levanta, como se fosse se juntar a ele.
Estou viva somos como diamantes no c�u
-Logo eu senti a energia -A famosa cena em �Garotas�.
Quatro jovens do sub�rbio de Paris em um quarto de hotel.
-A festa de fim de semana. -Esta noite, voc� e eu
A diretora Sciamma e a diretora de fotografia Crystel Fournier
mant�m o close.
E o azul de novo.
Elas est�o soltas, estas dan�arinas.
Escaparam das amarras de Paris e seus problemas.
Brilhe como um diamante
Brilhe como um diamante
Elas est�o flutuando.
-Como diamantes no c�u. -Diamantes no c�u.
Brilhe como um diamante
Outro uso cl�ssico da m�sica no cinema.
Somos lindas como diamantes no c�u
Brilhe como um diamante
Brilhe como um diamante
Brilhe como um diamante
Ent�o, brilhe
Esta noite
Voc� e eu
Somos lindas como diamantes no c�u
Olho no olho
Uma das primeiras diretoras brasileiras, Gilda de Abreu,
levou isto mais longe.
Cantora, dan�arina, compositora, escritora e diretora,
ela aqui dirige o marido,
em um dos filmes brasileiros mais famosos, �O �brio�.
Ele � um homem decente que finge a pr�pria morte
e reaparece como alco�latra.
Um quadro est�tico. Uma can��o melanc�lica.
E ent�o, quando ele vira um pouco a cabe�a,
a c�mera se vira para crian�as olhando o bar.
� quase um conjunto est�tico, ligado pelo arrependimento.
A�, esta linda imagem gr�fica e ela vira a cabe�a.
O que est� havendo aqui? Todos ouvem atentamente.
Uma comunidade tempor�ria se forma.
O tempo parece ter parado,
ou o resto do mundo, desaparecido.
S� resta a can��o, o momento,
a m�sica.
A diretora Ebreu capta o aspecto consciente de um n�mero musical,
a tens�o extasiada do momento.
Quatro d�cadas depois, a cineasta americana Joan Micklin Silver
usa a mesma ideia em �Amor � Segunda Vista�.
� o anivers�rio da protagonista, Izzy.
A fam�lia dela cantou parab�ns ao telefone.
Suas colegas intelectuais cantaram,
acompanhadas no violoncelo.
Mas na noite propriamente dita, n�o estar�o com ela,
ent�o, ela finge que vai a um restaurante chique.
Ela est� numa lanchonete movimentada, onde tocam rap.
Quase uma cena de document�rio.
Uma noite encantadora
Mas a�, esta mulher chega.
Voc� v� um estranho
E o cara para de tocar o rap.
E de alguma forma, voc� sabe
Os olhos se viram para a cantora e a c�mera avan�a em sua dire��o.
E novamente
Uma noite encantadora
Voc� o ouvir� rindo
O momento, novamente. Nem todos est�o paralisados,
mas o objetivo cinematogr�fico est� claro.
E torn�-lo seu
Um n�mero musical � uma imposi��o no mundo real.
Uma imposi��o de estranhos, muitas vezes.
N�o conformistas.
Nunca o deixe ir
Quando o encontrar
Nunca o deixe ir
Um �ltimo exemplo de como a m�sica � usada no cinema
no sentido tradicional.
Angola, 1961.
O protagonista do filme, o manifestante Domingos,
foi assassinado.
A c�mera sobe para seus amigos, que o pranteiam.
Eles cantam. O senso comunit�rio da m�sica.
Da dor.
A can��o os une. As imagens os unem.
Uma s�rie de closes e movimentos ligando uma imagem � outra.
Uma esp�cie de fio condutor.
Mas muitas cineastas quiseram desafiar as conven��es da m�sica,
ou desconstru�-las.
Vejamos cinco exemplos.
Primeiro este. �The Connection�, de Shirley Clark.
Come�a de forma convencional,
mas a� n�s vemos a sombra da c�mera na parede.
E vemos o homem que quer evitar a luz.
Qual �, cara.
Afaste isto de mim.
A m�sica � filmada em um �nico plano,
sem cortes, quase como um musical da MGM,
mas o conte�do � como um making-of, um document�rio,
um ensaio em que vemos os cabos sendo presos
e as luzes sendo ajustadas.
A cena de Clark faz o clima, mas tamb�m o quebra.
Ela � ambivalente sobre o momento musical.
Agn�s Varda faz algo semelhante em �As Duas Faces da Felicidade�.
O homem na hist�ria dan�a com uma mulher.
Mas a�, Varda passa a c�mera por tr�s de uma �rvore.
A�, outro deslocamento, na dire��o oposta.
Agora, ele est� dan�ando com outra mulher.
E ele dan�a com uma terceira mulher.
Ainda sem cortes.
Varda cria o momento e o quebra.
A unidade da m�sica e da imagem, sem cortes,
mas a desuni�o da vida do homem.
A leveza da m�sica e da c�mera, o peso da dor que ele causa.
Agora o filme da americana Dorothy Arzner, �A Vida � Uma Dan�a�.
Maureen O�Hara empurrada para o palco.
Um p�blico turbulento.
Ela tenta ser graciosa e dan�a bal�.
Roubou a roupa da Tiger Lily, menina?
Um defeito na roupa.
Ela faz parte de um show burlesco.
A roupa de outra dan�arina cai no palco,
como se estivesse se despindo.
Tudo bem, n�s aguentamos!
Ela vai para a casa da m�e.
A�, o close furioso de O�Hara. Ela percebe a goza��o.
A mulher que escreveu a hist�ria, Vicki Baum,
era boxeadora, na vida real.
O que vai fazer agora? Chorar?
Um discurso de luta.
Um discurso que desconstr�i Hollywood e o patriarcado.
Podem olhar. N�o estou com vergonha.
Riam, fa�am valer seu dinheiro. Ningu�m vai lhes fazer mal.
Sei que querem me ver rasgada, para seus 50 centavos valerem
o privil�gio de olhar uma garota como suas esposas n�o deixam.
O que acham que pensamos de voc�s aqui?
Com seus sorrisos pretensiosos, que envergonhariam suas m�es?
Sabemos que est� na moda homens elegantes rirem de n�s.
N�s rir�amos de voc�s, mas somos pagas para girarem os olhos
e fazerem seus coment�rios t�o inteligentes.
Para que isso?
Para irem ao fim do espet�culo se pavonear diante das mulheres
e brincar de ser o sexo mais forte?
Estou certa que elas veem atrav�s de voc�s como n�s.
A dan�a para, desafiando as normas dos filmes.
Deslizando sob as pontes de Amsterd�
Em um barco tur�stico holand�s
V�o as mulheres gr�vidas
N�s, as senhoritas, n�s, as senhoras
De volta a Varda, para o quarto desafio das normas da m�sica.
C�mera flutuante. M�sica flutuante.
Mas a letra nos leva a um novo territ�rio.
Um cruzeiro abortivo
As mulheres est�o em Amsterd� para fazer abortos.
O barco n�o � rom�ntico
A forma cl�ssica de um n�mero musical,
mas com um conte�do bem diferente.
A cena ainda � sobre solidariedade...
como a can��o de luto dos homens em �Sambizanga�,
mas Varda espreme um lim�o na letra,
para dar mais adstring�ncia.
Nossos filhos, nossos �vulos
N�s rimos e jogamos fora
Sem medo do rid�culo
Num barco de bandeira chique
Cheio de mulheres que abortam
Que abortam
Que tal isto?
�Attenberg�, de Athina Rachel Tsangari.
A protagonista p�e uma m�sica.
O pai est� num leito de hospital.
Uma c�mera im�vel, incomum para uma cena musical.
E luzes e cores sombrias. Uma esp�cie de cena de morte.
Esta m�sica � sobre a vida.
Vida real.
� como se ela fosse correr.
Frustrada por n�o poder dan�ar.
As m�sicas nos filmes costumam colocar o mundo em a��o,
mas muita coisa � est�tica aqui.
A impot�ncia da m�sica e da dan�a.
Podemos terminar com este tema aqui?
Ou devemos terminar com isto?
O �lbum visual de Beyonc�, �Lemonade�.
�They Don�t Love You Like I Do.�
Uma esp�cie de renascimento m�tico da m�sica e da dan�a.
Eles n�o te amam como eu
Devagar, eles n�o te amam como eu
Ela � Oshun, a guerreira Yoruba,
vestida de amarelo e em estado de f�ria.
Ela fica feliz enquanto destr�i, neste cen�rio urbano.
Ela � como Gene Kelly em �Cantando na Chuva�, na rua.
E a�, ela olha para n�s.
Vai nos esmagar tamb�m?
Eu pulo da cama e pego minhas tralhas
Olho no espelho e digo �e a�?
E a�?
Ent�o, � isso.
Com a c�mera sendo quebrada, nosso road movie chega ao fim.
Centenas de grandes exemplos de cinema.
Quatorze horas na estrada.
O que vimos nestas 14 horas?
Tudo.
Forma e conte�do,
viol�ncia e ternura,
amor e perda.
Bravura e document�rio. N�s vimos o mundo.
Houve menos acidentes de carro e cenas de batalha
do que se fossem diretores.
Mas n�s tememos generaliza��es.
Uma das poucas diferen�as claras entre nossos filmes
e a hist�ria do cinema dominada pelos homens � esta...
Os filmes que n�s vimos t�m mais protagonistas mulheres.
Bem mais mulheres no centro dos filmes.
Brindemos a isso.
As mulheres fazem filmes.
Grandes filmes.
Fazem isso desde que o cinema nasceu.
Isso ajudou a definir o ret�ngulo an�rquico, andr�gino...
no cinema, ou na tela de TV.
Tradu��o: SANDRA JONES
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