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Ver�o de 1914.
Reinava uma atmosfera de euforia festiva.
Com Bertrand, meu melhor amigo,
e Th�ophile, nosso amigo de inf�ncia,
nos alistamos como volunt�rios, pois ningu�m escapou da guerra.
Nem mesmo Jaur�s.
Exijo que se levante.
Est� insultando o pa�s, n�o vou admitir isso.
Sou um homem livre!
Me recuso a saudar a guerra!
Eu tinha 19 anos e n�o sabia nada de guerra.
Fizemos bem em assassinar Jaur�s!
Vamos quebrar a cara dele!
� um espi�o! Ele gritou "Viva a Alemanha"!
Aquele homem foi a primeira v�tima da guerra.
Fora daqui!
Morte aos anarquistas!
Os pacifistas s�o todos uns canalhas!
Morte aos chucrutes!
E a sua consuma��o?
O safado ia sair sem pagar!
� hora da revanche! N�o ser� como em 1870!
Viva a Fran�a!
Esse homem tem coragem.
Uma coragem idiota. N�o se vai contra a opini�o p�blica.
A barb�rie estava nos port�es, e n�o sab�amos.
�ramos testemunhas silenciosas de um grande frenesi.
Bebida para todos!
Morte aos chucrutes!
O MEDO
Subrip: gooz Sincronia by DanDee
Eu queria conhecer tudo, viver tudo.
Tudo bem?
O amor, assim como a guerra.
Eu n�o conseguia deix�-la.
Marguerite era o meu sol.
N�o quero que voc� v�.
Na minha cabe�a, eu via a guerra como um cinemat�grafo.
Um grande espet�culo que n�o se podia perder.
Gabriel...
Gabriel Dufour.
1 metro e 71.
57 quilos.
-Gabriel Dufour, � voc�? -Sim, senhor.
Est� aprovado.
O pr�ximo.
-Bertrand Frontand. -Sim, senhor.
1 metro e 85.
70 quilos. Aprovado.
O pr�ximo.
Me chamo Th�ophile e sou poeta.
Qual o seu sobrenome, jovem?
Amigos, vejam!
Nem estou pelado. Viva a Fran�a!
Por favor.
-Seu sobrenome, jovem? -Sou um poeta.
Um poeta...
Querida Marguerite, a vida na caserna � uma com�dia.
Que piada, esse treinamento.
Vamos para a guerra! Por pura curiosidade!
Sim, somos curiosos!
Os uniformes n�o est�o completos e ainda esperamos os fuzis.
Com Bertrand e Th�ophile, pare�o embarcar numa aventura.
Vamos calar a boca dele!
Outro dia, um contratempo.
O velho capit�o me chamou ao seu escrit�rio.
Minha av� escreveu dizendo que sou delicado demais para a guerra.
Fiquei furioso.
Falei que ela exagera, como todas as av�s,
que eu n�o sou fraco. Foi uma vergonha.
Amanh� vamos para a zona militar.
Temo por Th�ophile, sinto pena.
No front a poesia n�o basta.
Um beijo, Gabriel.
Rever Marguerite foi bom mas, como vou dizer...
quero estar numa batalha, saber o que acontece.
Claro, estamos todos curiosos. S�o s� alguns meses.
A guerra termina antes do Natal!
Eu imagino o front como uma expedi��o colonial.
Vamos nos divertir.
Vamos at� Berlim conhecer as alem�s.
Vamos fazer barulho!
Jaur�s se enganou quanto �s for�as alem�s.
S�o mais fortes do que imaginamos.
Vamos ganhar, com certeza!
Vamos defender a Fran�a e seus valores.
Ser soldado � a melhor coisa, n�o?
Eu prefiro a poesia.
Seja s�bia, minha Dor Ponha-se tranquila
Voc� clamava pela Noite Ela cai, aqui est�
N�o ligamos pra sua poesia!
Th�o, n�o liga pra ele!
N�o est�o vendo? � um rom�ntico, um esnobe.
Bando de in�teis, vou fazer voc�s vomitar!
Formem fila dupla!
Em frente!
Ideias de grandeza nacional e revanche me s�o estranhas.
Fico alheio � propaganda e aos brados de vingan�a.
S� quero manter o ju�zo, n�o perd�-lo.
Meu ju�zo me far� forte.
Ele me dar� coragem na hora certa.
22 de outubro de 1914.
Esta manh�, desembarcamos na plan�cie de Artois,
a dez quil�metros do front.
Felizmente ainda estou com Bertrand e Th�ophile.
Passamos o dia famintos. S� pensamos em comer.
Como n�o chegamos ao front, estamos racionando.
A fome � terr�vel.
De manh� j� comi metade do meu p�o.
Precisava comer um inteiro.
� noite, carne salgada.
Pelo menos acalma o est�mago.
Isso � rid�culo!
-O que est� fazendo? -� mais pr�tico.
N�o pode mudar o uniforme da tropa!
Vou contar para o capit�o!
Vistam suas grevas!
O capit�o n�o � f�cil.
� um idiota.
Logo vamos estar em servi�o.
Isso vai nos ocupar.
O caporal-chefe nos faz marchar.
Odeio marchar.
A disciplina militar n�o � para mim.
Bertrand apelidou o caporal de Catilina,
para divertir os amigos.
O cara � um bruto, mas tamb�m medroso.
Ontem ele passou dos limites.
Apontei minha baioneta para o peito dele.
Eu mesmo fiquei surpreso.
O gesto podia ter custado caro.
Ele teve medo, eu acho. Agora me deixa em paz.
Bertrand e eu estamos de bom humor, apesar da fadiga.
Th�ophile s� fala em voltar.
Vamos ajud�-lo a aguentar.
-Blondin? -Sim!
-Dufour? -Presente!
-Frontant? -Aqui!
-Lespinasse? -Presente!
Desde a morte da minha m�e, n�o tinha sentido tanta dor.
Ver aqueles jovens voltando de Notre-Dame de Lorette
me deu um aperto no peito.
Tive tremores, boca seca,
como quando meu pai me contou da morte dela.
N�o entendi o que ele dizia.
Ele repetia e eu n�o entendia.
Pela primeira vez, Bertrand parece chocado.
Th�ophile n�o fala mais nada.
Caporal, veja isso!
Levanta da�!
Levanta da�! � uma ordem!
Em p�!
N�o temos medrosos no ex�rcito franc�s!
Levanta ou vai pra corte marcial!
7 de janeiro de 1915.
Minha querida Marguerite,
a terra amanheceu com 12cm de gelo.
A neve cobriu tudo.
Ainda esperamos a ofensiva.
O t�dio se espalha como um veneno.
Dormir � esquecer.
Mergulho no sono para fugir de tudo.
Mergulho as m�os nos seus cabelos.
Caporal, traga uma bebida!
Me mande uma mecha de cabelo ou um retrato.
Eu gostaria muito.
� quase primavera, amigos.
-Vamos logo para casa. -N�o brinque, Charles!
Fecha a porta!
-Piolhos do inferno. -Eu que o diga.
Pode escrever minha carta?
� para a minha fam�lia, para desejar boas festas.
Diga que vamos logo voltar.
-Voc� fala patois? -Minha av� s� falava assim.
-Essa � boa. -No interior ningu�m fala franc�s.
Voc� � corajosa, mulher, mas n�o se esque�a:
primeiro os bois,
os canteiros de alfafa,
depois a horta.
Vai levar uma semana.
S� penso em reencontrar voc�.
Enquanto isso, � incr�vel o que vejo aqui.
Soldados hindus
chegaram por aqui
portando orgulhosos seus turbantes na cabe�a
e um sinal colorido na testa.
Eles comem carne de cabra.
Tirando os piolhos...
nada nos incomoda.
Mande... um beijo...
para todos...
e tamb�m...
para a velha Lili.
Do seu... Jean-Baptiste.
A morte n�o existe.
Enquanto caminhamos, enquanto respiramos,
n�o h� risco nenhum.
Ou�o os canh�es cada vez mais pr�ximos.
Serei invis�vel para as balas.
Como os homens se matam em dias assim t�o lindos?
Eu, como anarquista, n�o devia estar aqui.
Melhor voltar antes que piore.
N�o vamos evitar o ataque.
N�o temos escolha, vamos esmagar os chucrutes.
Al�m disso, deser��o � morte certa.
Em forma��o!
Vamos, em linha!
Sargento, o pelot�o est� em forma!
Nossa tropa � aguardada no front!
J� fuzilaram quem entrou em p�nico.
Sentido!
Ordem do dia do General Joffre:
"Soldados da Rep�blica,
ap�s meses de espera, � hora de atacar e vencer.
Partir�o num ataque todos juntos.
Sua for�a ser� irresist�vel
e os levar� �s baterias advers�rias,
atr�s das linhas inimigas.
N�o lhes dar�o tr�gua nem repouso
at� conseguir a vit�ria.
Avancem de peito aberto pela liberdade do solo da p�tria,
pelo triunfo do Direito e pela Liberdade!"
Alem�es sujos! Est�o usando lan�a-chamas!
Est�o queimando nossos soldados!
Me ajudem, amigos! Me matem!
Aconteceu, Marguerite.
Nesta manh�, chegamos ao front.
O caporal p�s granadas no meu bolso.
Tenho medo que explodam,
me estourem a cabe�a e espalhem para todo lado.
Pouco depois, n�o ouv�amos mais o inimigo.
Mas eles podem voltar, a amea�a � constante.
Os nervos ficam arrasados.
� melhor n�o pensar para n�o sofrer demais.
Encontramos cad�veres a cada passo.
Jovens que sorriam de manh�
est�o mortos � noite, parecendo gado.
Os obuses rasgam os c�us e estouram como bal�es.
Algo em mim esmorece.
Mas fique tranquila, ainda estamos vivos.
Ter voc� ao meu lado me d� coragem.
Enquanto estivermos juntos, nada vai nos acontecer.
Me espera.
O ataque n�o est� dando certo!
Mas recuperamos o flanco!
-E logo perdemos! -Vamos recuperar!
Assim ganhamos 150 metros e logo perdemos de novo!
-Mas recuperamos, n�o? -E logo perdemos!
-Amigos, � melhor morrer. -Cala a boca!
Por que parar aqui em pleno bombardeio?
Gente instru�da pode ser idiota!
Idiota � o que n�o falta!
-Fiquem prontos! -Para onde vamos?
Em frente! Em frente!
Liberem a entrada!
Aten��o!
Vamos! Vamos!
N�o fiquem parados!
Vamos! Me sigam!
Baionetas caladas!
Vamos, amigos! N�o se deixem abater!
L� est�o os desgra�ados!
Avan�ar!
Mam�e!
Mam�e!
N�o me deixem aqui! Estou vivo!
Uma maca! Uma maca!
Me arrastei at� que a aurora revelou uma trincheira azul.
Voc� precisava ver, Marguerite.
Ela estava azul, coberta de cad�veres franceses.
As macas n�o chegavam aos feridos.
Era um caos.
Fiquei procurando Bertrand.
Sabe que ele � um irm�o para mim.
Perguntei se o tinham visto. Ningu�m tinha visto.
Eu precisava encontr�-lo.
Sem ele, como continuar?
O rosto dele estava calmo, parecia uma crian�a dormindo.
Uma crian�a que ningu�m lembra.
Uma crian�a morta por nada.
Tenho vontade de morrer tamb�m, de me enterrar com ele.
Me parece mais justo.
Eu me detesto por ainda estar vivo.
Eu rezo pela terra, n�o por um homem crucificado.
Cochicho na orelha do meu amigo:
"Seja s�bia, minha Dor Ponha-se tranquila
Voc� clamava pela Noite Ela cai, aqui est�
Uma atmosfera obscura Encobre a cidade
A uns ela traz paz A outros, sofrimento"
N�o ou�o mais nada.
Tenho frio, tenho dor.
Minha m�o, minhas costas.
Minhas pernas. Onde est�o minhas pernas?
Est�o aqui. Tudo est� aqui.
Estou quente mas tenho frio.
Foi-se o c�u, foram-se os barulhos.
Sua cabeleira de fogo, Marguerite.
Sua cabeleira sacrificada.
Ela est� na minha boca.
Eu a engulo.
Coc�. Coc�. � hora do coc�.
Th�ophile... Bertrand est� morto.
Coc�. Coc�. � hora do coc�.
-Coc�. � hora do coc�. -Vem c�, coc�!
-Ol�, meu filho. -Senhor capel�o...
O que quer me dizer, filho?
Nada especial.
N�o tem pecados para confessar?
N�o tenho mais.
Como assim?
Nos pediram para matar nossos irm�os, n�o foi?
S�o inimigos da p�tria.
No ex�rcito, tamb�m diziam: "N�o tentem compreender".
Era a l�gica do caporal.
Filho, tenho pena de voc�.
S� restam obuses no c�u, padre.
Ele est� vazio como um cad�ver.
Esta guerra � uma miss�o santificada.
Est� blasfemando.
N�o.
A guerra matou a Deus...
tamb�m.
Senhor capel�o, espere!
O General Poculote acordou, como podem constatar.
Ele est� de bom humor nesta manh� sem canh�es.
N�o �, soldados?
Meus velhos, tudo bem?
Longe dos cad�veres inchados e das granadas!
De p�! Peguem as senhas, garotas!
C� estamos, tratamento especial!
Meu vizinho � o sargento N�gre, um cara bem viajado.
Ele nos diverte imitando Poculote,
um general degenerado.
N�o conhecem Poculote?
Sangue azul, fam�lia de oficiais!
General, o que acha da economia das vidas humanas?
A guerra n�o � a economia, � a destrui��o das vidas humanas.
Uma miss�o generosa para nos livrar da barb�rie.
O 12 cicatrizou. J� pode ter alta.
Vai acabar esta vida mansa, estou avisando.
Est� bem, senhorita.
"J� era tempo da guerra chegar � Fran�a
para ressuscitar o senso de ideal e do divino".
Como escrevem essas idiotices?
O que voc� fez no front? Lutou?
N�o me respondeu da �ltima vez.
Vamos, responda.
Depende do que chama "lutar".
Viu alem�es na linha de frente?
Nunca vi um alem�o vivo.
Ent�o, o que voc� fez?
O que me mandaram, estritamente.
Voc� � irritante. Responda logo.
Perguntei o que voc� fez.
Caminhei dia e noite sem saber aonde ia.
Tive fome, tive sede.
Tive sono, tive frio.
Tive piolhos.
S� isso?
Vou dizer a �nica ocupa��o que conta na guerra:
tive medo.
Voc� � medroso?
Saiba, senhorita, que a coragem come�a com o medo.
Os outros tamb�m tiveram medo?
Evidentemente.
� a primeira vez que ou�o isso.
Quando temos medo, fugimos.
N�o podemos fugir na guerra.
N�o enfrentamos obuses
para ser atendidos por garotas da sociedade.
-E se pudessem? -Fugiriam todos.
Franceses, alem�es, africanos, russos, sem exce��o.
Amigos, a guerra n�o foi divertida?
Nos divertimos muito!
Vejo tristeza em voc�, soldado da Fran�a.
Mas voltaremos sem baionetas, armados de garfos!
Obrigado, crian�as!
Estarei atr�s de voc�s na batalha e � frente no desfile!
Mandarei voc�s enfrentarem os canh�es.
V�o calar os canh�es!
Meus bravos, � vida ou morte!
Querem uma ofensiva? Querem?
Depressa.
Para n�s, o hospital � uma terra prometida.
A presen�a das enfermeiras nos mant�m nessa ilus�o.
Mas N�gre decidiu semear a anarquia,
acordar os esp�ritos sonolentos.
Benzinho, precisamos nos ver a s�s.
Que isso n�o se repita, ou v�o se ver comigo.
Acho que tenho em mim o diabo.
N�o vou tolerar isso neste hospital.
Th�ophile!
Th�o!
Nada parece mais in�til do que o amor.
O amor n�o nos salva, o amor nada pode.
Mas, � noite, � nele que me refugio.
� para ele que estendo a m�o.
Quando eu revir voc�, Marguerite, talvez esteja mudada.
Talvez seus seios, como duas ma��s,
se despeda�ar�o nas minhas m�os.
Talvez seu corpo todo se despedace em minhas m�os.
S� assim poderei me lan�ar e beber
o que sai de voc�.
Minha cabe�a estala,
estala, estala...
Muitos perderam o ju�zo. Eu n�o.
Tenho pensamentos horr�veis, mas o ju�zo me mant�m de p�.
O que me falta � entusiasmo.
Nunca vou recuper�-lo.
Fui atra�do por esta guerra.
Hoje eu a vomito.
Quer ir almo�ar?
Sim, estou com fome.
Incr�vel como � confort�vel aqui, para sofrer.
N�o tenho medo de morrer. Mas a agonia, a mutila��o...
isso me d� medo.
Sua Marguerite manda cartas. � ador�vel.
Meus benzinhos.
Querem um her�i sangrento para faz�-las gozar.
O que teriam feito na guerra?
Teriam incitado os homens para ir � chacina.
Vagabundas!
N�gre...
Estive pensando, n�o quero voltar.
J� fomos destru�dos por esses mandachuvas.
S�o uns porcos!
Josephine, meu benzinho!
Quando quiserem, meninas.
Venham, vamos nos divertir!
Sente? � cheiro de morte.
Sou uma merda, uma pobre merda. Merda.
Th�o, fique calmo.
Se eu me injetar pus, v�o me dispensar.
Tamb�m pode fazer isso.
Eu trouxe uma para voc�.
Ainda prefiro voltar � guerra.
Meu nome � coc�.
Sou a verdade e domino a todos.
N�o vou falar do sofrimento,
dos pontos costurados com crina de cavalo,
da carne apodrecida, da carne que se rasga.
N�o vou falar da loucura de Th�ophile.
Se eu voltar, como pretendo, voc� ver� tudo nos meus olhos.
Mas preciso dizer a verdade.
Essa licen�a me deixou nauseado.
N�o esperava ver as pessoas da cidade
bebendo pelos caf�s.
Lucraram com essa guerra, os hip�critas.
Vim v�-la e a encontrei chorando de prazer, de alegria.
Chorando por nos separarmos de novo.
Nua nas minhas m�os, t�o branca que eu n�o ousava tocar.
Voc� me chamava, mas eu j� estava longe.
14 de maio de 1916.
Estou com meu pelot�o numa cidade maldita.
� uma guarni��o em agonia.
Falam de soldados que voltaram de Verdun.
Escaparam de uma carnificina.
Alguns n�o voltaram da dispensa, j� desertaram.
Correio!
Voc� n�o teve um ferimento grave? Pelo visto, n�o.
Os novatos chegam de caminh�o.
Os novos oficiais ficam gritando conosco,
esperando as ordens de cima que nunca chegam.
Eu conhe�o esse cara, posso levar a carta.
N�o precisa, ele morreu ontem.
N�o vai acreditar. Foi morto por uma bomba francesa.
Estas cartas eu devolvo para as fam�lias.
Um garoto que morreu tinha permiss�o para ir se casar.
Somos pe�as de xadrez. E eles ganham as medalhas.
Faz um ano que estamos nestas malditas trincheiras.
� revoltante!
Reynault!
O oficial-de-liga��o foi fuzilado tentando subir.
O comandante do batalh�o me enviou.
Me d� uma tragada, por favor.
O que me irrita...
� que n�o posso mais mijar sem ajuda.
Me ajuda aqui.
Ou�o tantas vozes que a sua, Marguerite, eu n�o ou�o mais.
S� ou�o os obuses.
Alguns assoviam, outros miam, outros gemem.
Alguns fazem tremer o capacete.
Dependendo do barulho, sabemos o que nos espera.
Sinto os primeiros sintomas do medo.
Em mim, tudo se esvazia. Aqui � o inferno.
-Aonde voc� vai? -� latrina.
N�o � hora!
Os alem�es estudam o terreno com fotos a�reas.
� tanta bomba que n�o d� para ver nada!
Como dormem com essa barulheira?
Se preparem, r�pido!
N�o vamos avan�ar nem 3 metros!
G�s! G�s! G�s!
Uma entrada desabou!
Os vigias foram soterrados! Precisamos tir�-los de l�!
-O que est� acontecendo? -N�o sabemos, comandante!
Mande oficiais-de-liga��o, r�pido!
V�o ser massacrados!
� uma ordem! Oficiais-de-liga��o!
R�pido! R�pido!
Ele est� cagado de medo! Onde est� a nossa artilharia?
Mate aquela borboleta ou vai ser fuzilado.
S�o ordens de P�tain.
Mas... � o meu cora��o.
A guerra � muito interessante,
mais interessante que a ca�a aos le�es.
De p�! Vamos, de p�!
Reunir o pelot�o!
O terreno que ganhamos ontem, perdemos hoje.
Vamos ganh�-lo de novo.
-Vamos todos avan�ar? -S� a metade.
Os outros ficam aqui. Quantos somos?
Tirando ordenan�as e ciclistas, somos cinco, capit�o.
Quem avan�a com a companhia?
Vamos ver.
Vamos tirar a sorte.
Palito curto, vai. Palito longo, fica aqui.
O que voc� tirou?
O curto!
Aten��o!
Levantem! Estamos na linha de fogo!
Nossa artilharia est� nos alvejando!
Idiotas! Est�o atirando em n�s!
Atiram pra todo lado, os filhos da puta!
Fiquem pr�ximos! Vamos subir o Chemin de Dames!
Vamos l�! Em frente!
N�o existem her�is, s� bucha de canh�o.
De Verdun ao Chemin de Dames, morrem sempre os mesmos.
O que acontece aqui � criminoso.
Dev�amos ter avan�ado com essa ofensiva,
mas numa semana s� ganhamos 30 metros.
� preciso encarar a evid�ncia: vamos de mal a pior.
Os alem�es seguem firmes
e os oficiais franceses mant�m suas ins�gnias.
� uma guerra desgastante e sem fim.
Alguns esperam uma medalha de bravura.
Eu n�o espero mais nada.
Ent�o, n�o batem contin�ncia?
De onde estamos vindo, contin�ncia s� para os mortos.
Aprendemos a n�o ser mais homens.
Me espanto mesmo assim.
Ainda resistimos tanto contra a morte.
26 de setembro de 1917.
Esta �poca ser� um marco na hist�ria do mundo.
Nos matamos por nada.
Quem n�o v� isso � um imbecil.
N�o beijarei mais sua boca, nem tomarei sua cabe�a nas m�os.
As lembran�as me doem, me impedem de avan�ar.
Ent�o as apago, enterro, abandono na noite.
Esta guerra me queimou por dentro.
Como voc� vai amar o que me tornei?
N�gre apareceu de repente, uma manh�,
com um uniforme novo, carregando uma galinha.
N�o est�o sendo massacrados, est�o dando a vida pela Fran�a.
-N�gre! -Meu filho!
O que est� fazendo aqui?
Esperei voc� um ano, nunca apareceu.
Aconteceram coisas engra�adas.
� a minha galinha dos olhos de ouro.
Consegui um fornecedor de molha-goela e cacau.
� um �timo esquema. E voc� vai me ajudar.
N�o vimos voc� em Verdun, nem no Chemin.
-Por onde voc� andou? -Virei marechal de alojamento.
Conselheiro do comandante que planeja um novo ataque.
Est�o pensando em Austerlitz. Eu n�o.
O �dio n�o deve se aplacar. S�o as ordens.
Coronel Foch!
Coronel Foch!
Na minha mente, os mortos colidem uns com os outros.
Pertencemos ao a�ougue nacional
e parece que ningu�m sabe de nada.
No momento de morrer, vou ter essa lucidez.
N�o haver� no meu olhar o espanto de quem foi pego de surpresa.
� estranho. Pela primeira vez, quero escrever para a minha m�e.
Ela morreu faz tempo. N�o sou mais ningu�m.
Meus fornecedores est�o por a�.
Vai, minha galinha. Encontre os safados.
Ferdinand? Ferdinand!
-O que foi? -Onde est� a minha tralha?
Escondida, general. Bem guardada.
Este dorminhoco n�o est� vendo nada.
Avisei que o molha-goela deixa voc� cego!
Oripot! Ainda est� cochilando?
Calce os sapatos, vai se resfriar!
Que bagun�a � essa?
Sem as bebedeiras, pra que essa guerra?
Me ajuda.
Onde est� minha tralha, Ducon?
Sua tralha est� bem escondida.
Por qualquer coisa, batem em n�s.
Espere, vou buscar. Morituri!
O que voc� fica fazendo aqui?
Observo os obuses ca�rem e saio de perto.
Chega de cachimbo, me d� um cigarro.
Est� pensando em desertar?
N�o.
Eu fa�o como os pol�ticos e os burgueses: estou cagando.
Acha que eles n�o podiam ter evitado essa matan�a de merda?
Eu sempre disse, meu filho: trate de salvar sua pele.
No fundo, n�o tenho �dio.
Meu patrim�nio � minha vida.
Quando morrer, n�o me importa como os vivos v�o repartir o mundo.
N�gre, vou perguntar uma coisa que me aflige.
O que voc� acha da coragem?
Aqui est�!
Obrigado, Ferdinand. Fez um �timo trabalho.
Tem mais, mas estou atrasado e preciso ir andando.
Quando nos revemos?
Eu chamo voc�, fique tranquilo.
Vai de uma vez, N�gre!
� um filho da puta.
Quer um gole, camarada?
De onde vem o molha-goela e o chocolate?
Eu explico. Temos um trato com um sub-oficial.
� um bom tipo.
Falei: "Vou com Oripot ganhar minha subsist�ncia".
Ele disse: "O que voc� precisa?"
Falei: "De umas gororobas".
Fu�amos neste deserto
e achamos uma casamata cheia de guloseimas.
O acesso n�o era f�cil, era vigiada por dois guardas.
Servi�ais, servi�ais! Falaram: "O que voc� quer?"
-"Quero umas gororobas, claro!" -"Trouxe os vales?"
"N�o! Precisa de vale? Que vale?"
Ele me explicou sobre os vales.
Falei: "Consigo os vales! Viva os vales!"
Fomos ao sub-oficial contar o caso.
Ele disse: "N�o vou assinar os vales".
"Assine um nome qualquer", respondi.
Voltamos aos guardas com vales para 25 homens.
Cinco gal�es de molha-goela e quilos de chocolate.
Nos escondemos e cozinhamos o chocolate no molha-goela.
Depois de 24 horas, t�nhamos bebido os cinco gal�es.
Ent�o voltamos com outro vale, depois outro e mais outro!
"N�o morre ningu�m na sua tropa?", perguntaram.
"Estamos numa �rea segura", respondeu Oripot.
Filhos da puta!
E N�gre, como entra nisso?
Ele soube do trambique, nos prop�s um mercado...
e ficou tudo acertado.
Filho da...
Vem comigo!
Vem comigo!
Nos mandaram levar uma carta a um general.
Atravessamos este inferno rastejando sobre os mortos.
Estou dizendo, caminhamos sobre carne crua.
Mas tenho um jeito de sair daqui.
Muitos foram fuzilados por um pelot�o formado de amigos.
Os poderosos ordenaram o massacre dos inocentes.
N�o vamos nos recobrar.
A depress�o torna os homens capazes de tudo.
Tira o pino e corre!
Vai, filho da puta!
Parem!
Podem levar meu amigo ao hospital?
Por favor, ele est� ferido.
Eu levo seu amigo.
N�o se preocupe, ele vai ficar bem.
Adeus, Ferdinand.
Duas, tr�s, quatro, cinco...
S�o as brasas no meu cora��o.
Sete, oito, nove,
dez, onze...
Doze brasas no braseiro da guerra.
Sou 17 vezes o fogo, 18 vezes o sol.
Um, dois,
tr�s, quatro...
O fogo � mais forte.
Onze, doze,
fugir do campo de batalha.
Treze, quatorze,
tarde demais.
Quatro, tr�s, um.
O molha-goela � eficaz.
Anestesia o esp�rito.
Sou 22 vezes a terra,
25 vezes o sol.
Este � o meu filho.
Est� de licen�a depois de um ferimento.
Bravo, meu jovem. Nossos parab�ns.
N�o fique em p�, venha se sentar.
-Est� melhor agora? -Sim, tudo bem.
Faz tempo que ando a p�.
N�o conseguiu nenhum distintivo?
N�o consegui, pai... papai.
Mais uma das suas idiotices.
Beba um pouco.
Mas isto � sangue.
De cavalo! Bom para a sa�de.
Eis meu sangue, derramado por v�s,
pela remiss�o dos vossos pecados.
Fazei-o em minha mem�ria.
Sabem os filhos de Maurin?
Um voltou caporal. O outro, sargento.
O velho est� orgulhoso.
N�o precisa me agradecer.
Sua m�e veio dar um ol�.
-Ela morreu quando eu era pequeno. -Meu filho.
Meu filho.
Meu filho.
Esta mulher nunca vai crescer.
E ent�o, jovem? Teve bons momentos no front?
Sim, senhor.
Nos divertimos muito.
Todas as noites, enterr�vamos nossos amigos.
Estou agora numa �rea de repouso.
Depois de tr�s anos e meio de guerra,
retomamos nossa posi��o em Champagne,
onde conheci Perrault,
um observador do 22o batalh�o franco-canadense
que limpava trincheiras em Argonne.
Todo dia fazemos reconhecimento dos detalhes topogr�ficos,
para aterrar trincheiras demolidas e escavar outras.
Preferia estar sozinho neste grande labirinto.
Eu caminho a esmo, �s vezes o dia inteiro.
Gosto do isolamento, de estar longe dos outros.
Ainda sinto dores nos ouvidos e na cabe�a.
De fato, tudo d�i, mas permane�o de p�.
� preciso a cat�strofe da guerra para avaliar o valor de um homem.
Um cavalo n�o � nada frente a um homem.
Sobretudo frente � for�a do �lcool.
A bebida vence tudo.
Eu n�o sabia nada disso.
� nojento usar vinho para se barbear.
Fa�a queixa ao Estado-Maior.
O que ele disse?
Sabem o que ouvi?
Os chucrutes viram que chegar a Paris n�o � f�cil.
Derrubamos outro avi�o deles.
Vamos ficar firmes.
Viva a Fran�a!
Isso mesmo.
N�o estou mais com medo.
Vejam aquilo!
-Camaradas! -Me seguiram como uns vira-latas.
Esses Fritz venderiam a m�e por uma lingui�a.
Filho, voc� por aqui?
E voc�, por onde andou?
-A guerra acabou? -Sim, sim.
-D� um prato para eles. -Sim, sim.
N�o parece nervoso, esse fedelho.
-Sim, sim. -Cala a boca, chucrute!
-Est� bom? -Bom, bom...
Bom, bom...
Na Alemanha tem o que comer?
Na Alemanha s� tem fome.
N�o � engra�ado, o chucrute?
� menos idiota que n�s.
Tiraram tudo de n�s.
Uma sombra passa pela trincheira.
�s vezes fico mais perto dos alem�es
do que das nossas linhas.
Nos ouvimos caminhar.
Nos ouvimos respirar.
�s vezes nos olhamos e fazemos um sinal.
Podiam me matar, mas n�o matam.
Uma lealdade m�tua nos impede de matar uns aos outros.
Nos encheram a cabe�a de �dio racial.
O fim se aproxima mas a palavra "vit�ria" n�o faz mais sentido.
Um sargento americano estava dando caf� para seus homens.
Um deles pediu mais.
"N�o", o sargento disse.
"N�o?" O cara sacou a arma e matou o sargento.
Os oficiais pegaram o assassino.
Penduraram uma corda numa �rvore e o enforcaram.
� o que contam.
Levei uma garota pra cama, mas peguei uma gonorreia braba.
Devia ter esperado o armist�cio.
Os telegrafistas captaram o r�dio.
Os Fritz demandam condi��es para a paz.
Se for verdade, vamos voltar.
A� podemos contar a verdade.
Para quem? Para os que ficaram lucrando com a guerra?
Voc� � uma v�tima, n�o interessa a ningu�m.
Enfia isso na cabe�a:
seremos vistos como imbecis, � preciso mudar de lado.
A gera��o futura nos escutar�.
Acredita nisso depois do que viu? Est� sonhando.
-Estou me lixando. -Tem toda raz�o.
Estamos � merc� dos fan�ticos.
Fiquem nos abrigos. Conselho de um s�bio.
Acham engra�ado eu roubar cad�veres?
Os chucrutes n�o precisam mais disso.
Queimei suas mechas, Marguerite.
Cheiraram a carne queimada.
O cheiro n�o sai de mim.
N�o vou mais pronunciar seu nome.
Bebida para todos. Estou pagando!
O amanh� n�o importa!
Aten��o!
Garotos, ainda n�o se acostumaram � paz!
Sim, n�o nos acostumamos a n�o ter medo.
Amigos, esta manh� fui ver o desgra�ado.
Espero por isso h� quatro anos.
Falei: "General, informo que, pelo resto da vida,
n�o queremos saber de voc� nem de seus colegas assassinos!
Nos deixem em paz! Em paz!"
Abaixo o general!
Abaixo!
A paz chegou, para surpresa geral.
Como um riso nervoso que n�o podemos pronunciar.
A p�tria tem um gosto de cinzas.
Me chamo Gabriel Dufour.
Acabei de fazer 23 anos.
tradu��o VLADIMIR FREIRE
legendagem AUWE DIGITAL
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