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Original subtitles

DECEP��O

LONDRES 1987

N�o vou dizer meu nome,

mas tenho 33 anos.

Meu casamento fica a cada ano mais desastroso.

Mas temos uma ador�vel menina de 4 anos.

Eu conheci Philip h� um ano e meio.

Philip � um romancista americano que vive em Londres.

Nunca entendi o porqu� do ex�lio intencional.

Mesmo que eu finja que a fama do meu amante n�o me impressiona,

li todos os seus livros.

E l� no fundo, tenho orgulho que um artista reconhecido

me achou interessante para ter encontros secretos

� tarde.

Por favor.

Feche os olhos.

Eu n�o vou ser amarrada!

Minha querida amiga, quem sugeriu

amarrar voc� a essa hora do jogo?

Eu li sobre isso em livros.

Ent�o?

Os escritores escrevem esses livros.

Feche seus olhos.

Muito bem.

Vamos ver se voc� tem prestado aten��o.

Agora descreva esta sala.

Para come�ar, tem duas belas janelas francesas.

De frente para um gramado.

Em harmonia com o estilo da sala.

As janelas n�o t�m cortinas,

assim, as casas vizinhas podem ver tudo dentro da sala.

O que mais veem � algu�m digitando.

Ou me veem lendo.

Eles merecem ver algo muito mais interessante.

H� uma poltrona confort�vel.

Nela, tem uma mulher que deveria estar trabalhando.

E ouvindo as reclama��es sobre seu casamento,

est� um homem,

sentado em uma cadeira de escrit�rio de couro.

Sua mesa, de cerca de 1 m por 1,40 m,

� uma t�bua de madeira sobre um pedestal met�lico.

H� pilhas de pap�is por toda parte:

um manuscrito inacabado, pilhas de cartas,

e recortes de jornais sobre Israel

para provar � sua esposa que todos os brit�nicos s�o antissemitas.

Perpendicular � mesa est� a m�quina de escrever.

Ela tem sua pr�pria mesa especial. Pica 72.

Excelente.

Atr�s, est�o as estantes.

"A Com�dia Judaica de Heine",

"Judeu como p�ria", de Hannah Arendt,

"Noites Brancas", Menachem Begin,

S� livros sobre os judeus,

de autores judeus,

para os judeus.

Pendurado, um globo de papel,

todo empoeirado, japon�s.

Um r�dio,

duas l�mpadas cromadas.

Um tapete pl�stico para exerc�cios nas costas e adult�rio.

No lixo, embalagens de alimentos prontos.

Um detalhe siberiano:

uma decora��o floral em gesso na moldura do teto.

Maravilhoso.

Acabou?

Sim.

Agora feche os seus.

Certo.

Vamos ver se prestou aten��o.

V� em frente.

Agora...

me descreva.

1. OUTONO

A namorada do meu marido deu a ele um presente.

Ela � muito pretensiosa.

O tipo de pessoa invejosa e ambiciosa.

Ela lhe deu um disco.

Uma pe�a de Schubert, muito bem conhecida, muito bonita.

Inspirada pela

grande paix�o de sua vida, a mulher mais interessante.

Tudo isso escrito na capa do disco.

Ele poderia simplesmente ter dito que foi ele quem comprou.

Mas n�o, ele disse que sua namorada o deu.

Estava b�bada uma noite, e tinha um marca-texto rosa.

E sublinhei todas as frases particularmente hil�rias.

"A maior paix�o de todos os tempos".

"Uni�o de esp�ritos".

"�xtase".

Ent�o calmamente e com dignidade,

entreguei-lhe a capa do disco.

Isso foi horr�vel da minha parte?

Por que estava b�bada?

Eu n�o estava b�bada, mas bebi muito.

Voc� bebe muito � noite?

- Sim. - Quanto?

Bastante.

Noites quando estou sozinha, eu n�o bebo nada.

Sen�o eu poderia facilmente tomar v�rias doses antes do jantar.

E vinho no meio.

Mas eu nunca fico totalmente b�bada.

S� fico um pouco alegre.

Voc� leva uma vida t�o bizarra.

� bizarra.

� um erro, mas � assim.

Essa � a minha vida.

Qu�o infeliz voc� est�?

Depende do per�odo.

Temos per�odos de horror.

Depois, longos per�odos de sil�ncio e amor.

Voc�s ainda dormem juntos?

Eu imaginei que perguntaria isso.

Eu n�o pretendo responder.

Boa noite.

Boa noite.

Est� tendo um bom dia?

Um dia miser�vel de escrita...

Meu pobre her�i, est� triste.

Um beijo.

Sim.

- N�s nos conhecemos. - Sim, nos conhecemos.

O que est� fazendo?

Revisando minhas notas.

N�o se deite muito tarde.

J� vou deitar.

Muito impressionante!

O qu�?

- Eu te amo. - Eu te amo.

Voc�, com uma fita em seu cabelo.

Voc� n�o gosta?

Eu gosto.

Por que voc� n�o est� feliz com sua esposa?

Por que ela n�o � suficiente?

Por que seu marido n�o � suficiente?

Eu j� falei muito dele.

Quero saber por que sua esposa n�o te basta.

Voc� est� fazendo a pergunta errada.

Qual � a correta?

N�o sei.

Por que estou aqui?

Porque me deixei levar pela tenta��o.

Eu fa�o isso agora que sou mais velho.

Por que tanto medo de n�o feri-la?

Por que eu deveria querer feri-la?

Voc� n�o parece livre para fazer tudo.

O que � livre? Voc� � livre?

Um pouquinho livre.

Mais livre do que voc�.

Que besteira! Vamos encurtar esta conversa.

Por qu�?

Talvez um adult�rio funcione melhor

se s� um do casal reclame das insatisfa��es conjugais.

� o que faz que sua insatisfa��o seja banida.

Exceto suas insatisfa��es com a Inglaterra e tudo que seja ingl�s.

Consegue aceitar que as insatisfa��es dom�sticas

n�o t�m nada a ver com minha paix�o por voc�?

Al�m do deslocamento cultural.

� tudo pelo deslocamento cultural?

Talvez.

Ent�o nossa hist�ria � uma hist�ria cultural?

� um g�nero que sempre me interessou.

Mulheres gentis.

Voc� � apaixonado pela antropologia.

H� formas piores de ver as diferen�as antropol�gicas.

As formas cl�ssicas: �dio, xenofobia,

viol�ncia, assassinato.

Sim, meu querido, voc� �...

voc� � o Albert Schweitzer do sexo multicultural.

Malinowski est� bem, ele serve.

O que h�?

Responda.

Eu sei que algo est� errado.

Uma bab�,

uma crian�a, duas donas de casa brigando.

E a habitual umidade inglesa.

Eu n�o acho que podemos continuar nossa rela��o.

Os dias s�o muito curtos.

� mesmo?

� uma pena.

Voc� n�o concorda?

Nossa �ltima conversa n�o foi para esse lado?

Ah, estou vendo.

Como voc� quiser.

Eu acho que � o melhor.

Voc� disse que est� te enlouquecendo.

O que est� me enlouquecendo?

Esses problemas sexuais.

Voc� disse que n�o se interessa em s� uma amizade rom�ntica.

Vou simplifica para voc�, se quiser que seja simples.

Por que o sil�ncio? Eu odeio quando voc� se cala.

Estou aqui.

Recebeu minha carta?

Sim, recebi. � uma carta... maravilhosa.

Eu a rasguei.

Obviamente, � claro.

- Parecia a melhor coisa a fazer. - De fato.

� estranho te ver.

� estranho, n�o �?

Isso eu n�o sei.

Voc� sumiu por tanto tempo.

Voc� tamb�m mudou.

Voc� parece um pouco diferente.

- O que aconteceu com voc�? - Eu pare�o muito diferente?

Mais alto?

Mais baixo?

- Mais gordo. - N�o sei.

� muito sutil.

Muito sutil?

Sim.

Tive saudades de voc�.

Estou congelando.

Eu fui muito est�pida com meu marido.

Ele teve que me suportar terrivelmente solit�ria

e deprimida por anos.

Eu n�o tive casos. Pensei que ele era vulner�vel.

Seu marido n�o parece t�o vulner�vel.

Por que n�o diz a ele: "Se voc� n�o desistir dela,

vou dormir no outro quarto?

Voc� est� livre. Ou voc� transa com ela ou comigo.

Fa�a a sua escolha".

Ela � parte importante da vida dele.

Seria ego�sta da minha parte.

Ego�sta da sua parte?

Se voc� pensa isso case-se comigo.

� ador�vel ouvir uma mulher dizer:

"Seria ego�sta pedir ao meu marido

que desista de sua namorada".

Mas eu acho que seria.

� mais f�cil quando eu n�o te vejo.

N�s nos distra�mos, esquecemos.

N�o tem essa terr�vel compara��o.

Eu queria explicar o que passa na minha cabe�a.

Mas...

Sinto que estou abusando.

Vamos falar disso.

Gosto de saber o que est� em sua mente.

Eu gosto muito de sua mente.

Recebi minha m�e no fim de semana.

E ele simplesmente desapareceu.

Vou almo�ar amanh� com minha sogra, que � totalmente desagrad�vel.

Voc� sabe o que � um colo do �tero?

Eu acho que sim.

Eu tenho um caro�o no meu.

Vou fazer um exame ou algo assim.

Meu marido me acusa de arruinar sua vida sexual.

Eu n�o tenho muito prazer com ele.

� sempre...

brutal e solit�rio.

� assim que as coisas s�o.

� a vida, n�o �?

Por que n�o faz um favor a seu marido e tentar gozar?

Eu n�o vou.

� melhor do que discutir.

Fico t�o nervosa com ele.

N�o fique nervosa.

� seu marido transando com voc�.

Deixe-o.

N�o est� sob meu controle consciente.

Seja uma puta por meia hora. Isso n�o vai te matar!

As prostitutas n�o gozam?

Interprete uma puta!

N�o seja t�o s�ria em rela��o a tudo.

Ele �...

o tipo de homem que pensa que todas as mulheres devem ter orgasmos m�ltiplos,

e que todos gozam juntos.

Normal para os jovens, n�o �?

Mas quando temos experi�ncias, ressentimentos,

como explicar que perdeu o interesse sexual por algu�m?

Por que n�o pergunta por que existe neve?

N�o � um motivo para deix�-lo?

Voc� sabe,

quando te conheci, voc� estava madura.

Pronta para a colheita.

N�o, eu estava...

no ch�o, apodrecendo debaixo da �rvore.

No ch�o, apodrecendo debaixo da �rvore.

Seu marido est� em seguran�a em um quarto de hospital?

Acha que a ninfeta est� l�?

"Ninfeta" � uma palavra t�o maravilhosa.

Sim, eu achei que voc� iria gostar.

Eu dei a ele m� fama indevidamente.

Ele tem muitas qualidades.

Mas a verdade � que...

J� n�o durmo t�o bem h� s�culos.

Eu acordei esta manh� sentindo-me absolutamente normal.

Ele voltar� amanh�.

Voc� est� tremendo. Est� doente?

Estou muito excitada.

O qu�?

"E voc� me d�

o prazer de seus olhos,

de seu rosto,

de sua carne".

Talvez porque era dia de S�o Valentim,

eu acordei no meio da noite

com uma sensa��o extraordin�ria.

Parecia que sua m�o estava no meu pau.

N�o era de ningu�m.

Era um sonho.

Como eu acabei ficando t�o viciado em voc�?

� que voc� passa o dia todo nesta sala.

Voc� n�o tem novas experi�ncias aqui.

N�o tem aventuras.

Eu tenho voc�.

Quanto tempo j� se passou?

Um ano e meio.

Eu n�o sei nada sobre voc�.

Claro, eu sei um pouco.

O que eu li em seus livros. Mas n�o muito.

Seria melhor estarmos escondidos no s�t�o da fam�lia Frank.

Sim.

Nossa sorte na vida.

O que est� pensando?

Preciso urgentemente de um per�odo de solid�o.

Voc� parece t�o cansada.

O que eu posso fazer?

N�o sei, fuja!

Desculpe-me.

Sabe o que vou fazer na ter�a-feira?

N�o.

Vou ver um advogado.

Voc� vai se divorciar?

S� para saber o que est� acontecendo.

Vou chegar na sua casa em um estado alterado.

Estou indo.

Vai ser interessante.

Quando eu morava no campo,

antes de vir para a cidade,

eu era t�o simples.

Quando se luta muito, isso morre.

Eu era muito divertida.

Eu gosto de como voc� � agora.

E se ele perguntar como voc� fez o hematoma?

Ele j� perguntou.

E?

Eu disse a verdade.

Eu sempre digo. Assim, voc� nunca ser� pego.

O que voc� disse?

Eu disse: "Fiz este hematoma

em um encontro ardente

com um escritor desempregado

em um apartamento

sem elevador, em Notting Hill".

E ent�o?

Parece bobagem e todos riem.

E voc� mant�m a ilus�o de honestidade.

Perfeitamente.

II. PRAGA

Eu era uma garotinha tcheca.

Fui ao seu hotel.

Voc� me convidou para ir ao seu quarto

para ajud�-lo a carregar alguns livros.

Eram 10 horas da manh�.

E foram muito grosseiros comigo.

Eles me trataram como uma puta.

E voc� fez um esc�ndalo.

Voc� foi gentil.

Ent�o eu te fiz atravessar a Ponte Charles

e voc� me ensinou toneladas de palavras coloquiais.

Jantamos em seu hotel.

Voc� n�o se interessou muito por mim.

Eu tinha cerca de 21, 22 anos.

Estou muito mais velha agora.

Como se chama o parque no topo de Praga onde nos sentamos?

N�s n�o fomos l�. Essa era outra pessoa.

N�o, n�o h� ningu�m mais.

Eu me interessei particularmente por voc�.

Voc� me telefonou uma vez para me convidar para uma orgia, lembra?

Sim!

Eu n�o tive coragem de ir.

Voc� n�o perdeu nada. Muito entediante.

Voc� sempre era seguido.

Quando nos sent�vamos em um restaurante,

aquele rapaz da pol�cia sempre sentava ao nosso lado.

N�s o ach�vamos insuport�vel.

Era insuport�vel.

Trabalhei na biblioteca dos Estados Unidos.

Meu professor me conseguiu o emprego.

Ele disse que seria �timo para todos n�s

porque poder�amos conseguir livros...

Livros.

E era um trabalho fant�stico.

Mas, no final, se tornou dif�cil.

Eu tinha que decidir

entre trabalhar para o Servi�o Secreto ou sair.

Agora voc� est� em Londres. Voc� pode falar. Fale.

Eu vou te contar.

Eles me disseram:

Sabemos que voc� gosta de seu trabalho,

que voc� ganha muito dinheiro.

Deram-me um papel para assinar.

A discuss�o que estar�amos tendo era um segredo de Estado.

Se eu falasse com algu�m,

incluindo minha fam�lia,

eu seria processada

e presa por sete anos.

Sentenciada por qu�?

Eu arrisquei a pris�o.

Eu estava t�o assustada que disse a todos os meus amigos.

Foi o que eu disse:

"Por que assinar algo? Eu n�o sei de nada".

Assine! Pare de fazer perguntas!

N�o posso assinar nada Eu n�o sei!

Seu trabalho, amigos, o pa�s,

est� tudo acabado, entendeu?

"N�o", eu disse imediatamente, "Eu n�o posso, n�o farei isso".

Ent�o me disseram: "Voc� ter� que achar outro emprego.

N�o h� futuro para voc� na biblioteca".

Eles n�o me demitiram imediatamente.

Voltei ao trabalho. N�o contei a ningu�m.

Ent�o o pesadelo come�ou.

Os americanos fizeram a mesma coisa.

Disseram que se interessavam por mim,

que eu deveria ser espi� para eles.

Jana!

A mesma coisa, tamb�m recusei os americanos.

Naquela �poca, minha situa��o havia se tornado

absolutamente horr�vel.

Ambos estavam interessados porque eu falo outras l�nguas.

Sou muito bom em tradu��o.

Eu sempre gostei de literatura.

Eu sei.

Traduzi hist�rias

para jornais tchecos.

Na biblioteca, eu ficava t�o isolada que tive que me demitir.

Eu parti logo depois.

� por isso que me casei com aquele ingl�s est�pido,

ao menos eu sabia que ele gostava de mim.

1978.

Voc� se casou para ir embora. Que absurdo.

Para deixar o pa�s,

� preciso ter muitos documentos, leva uma eternidade.

Quando sa� da Checoslov�quia, eu n�o o amava mais.

Quando cheguei na Inglaterra,

eu n�o aguenta mais.

No in�cio ele ficava t�o chateado por me ver chorar.

Eu me senti miser�vel e sentia falta de todos os meus amigos.

Fiz todos os trabalhos imagin�veis.

E no terceiro dia, eu era expulsa

porque eu respondia.

Eu ainda era tcheca.

A hist�ria de sua vida � mais interessante.

De forma alguma. Continue.

O marido ingl�s, como isso terminou?

Mal.

Eu odiava a Checoslov�quia

porque tinha regras muito estritas.

Eu n�o conseguia respirar.

Mas n�o gosto da Inglaterra,

porque tem outro sistema de regras.

De casinhas e hortas,

e a vida � tentar conseguir algo assim.

Eu n�o posso ser assim.

Porque eu estudei.

Eu n�o tenho lugar aqui.

N�o mesmo.

Ol�. Sou eu.

Ah, � voc�.

Como vai?

- Estou bem. - Voc� sabe de algo?

Alguma novidade?

N�o.

Tenho que fazer uma tomografia esta manh�.

� um dia muito pesado.

Entendo.

A tomografia vai te dizer o qu�?

Quanto tempo eu tenho.

N�o.

Se a tomografia mostrar tumores, � uma m� not�cia.

Significa que os rem�dios n�o funcionaram.

E se n�o mostrar nada, ainda assim preciso de cirurgia

para ver o que �.

O resultados sai segunda-feira.

Ent�o, � um fim de semana importante.

Sim.

Bem importante.

Conseguiu escrever alguma coisa?

As narrativas desabaram.

N�o, eu tenho feito ioga.

Alimenta��o macrobi�tica.

Macrobi�tica...

S� estou tentando viver com a alegria que me resta.

- Como est� sua rede de apoio? - �tima!

At� meu pai telefonou de onde quer que ele viva agora.

Ent�o, n�o � t�o �tima assim.

� sim! Um telefonema de meu pai faz o c�ncer valer a pena.

N�o, eles s�o �timos.

Todos os meus ex s�o maravilhosos.

Muito gentis.

Muito atenciosos.

Nunca mais voltar� aos Estados Unidos?

Vou a Nova York no m�s que vem. Vou te ver assim que chegar.

Que bom.

E por a�?

Como � a vida em Londres?

N�o muito diferente da rua 81.

Deixe aqui.

Obrigada.

Ainda escrevendo?

Sim.

Pensei que, com sorte, voc� desistiria.

N�o. Tenho minha m�quina de escrever no quarto.

E � noite, eventos culturais, eventos sociais.

Muito ins�pido, muito ingl�s.

Eventos sociais s�o chamados de jantares.

Sim.

O problema � me sentar perto das esposas dos outros.

Naturalmente.

Sabe sobre as esposas dos outros?

Elas s�o entediantes.

Muito.

Ao contr�rio de voc�, quando era a esposa de outro.

Onde est� meu livro?

Que livro?

O livro que escrever� sobre mim.

Eu gosto desse.

Ent�o fa�a algo interessante para que eu possa escrever!

Eu?

Eu posso estar morrendo.

Voc� n�o sabe disso.

Saberei na segunda-feira.

Ligarei na segunda para saber o resultado.

Agora eu vou parar antes de proferir mais banalidades.

Sim.

Quando ou�o banalidades,

meus ouvidos sangram.

De fato.

Tchau.

Tenha um bom dia.

Tchau.

IV. INVERNO

Espere...

Vou escrever.

Voc� come�a.

Como se chama?

Eu n�o sei. Como iremos chamar?

"Question�rio sobre o sonho de fugirmos juntos".

Legal. "Question�rio...

sobre os amantes...

que sonham em fugir juntos".

"Question�rio sobre os amantes...

Amantes de meia-idade que sonham em fugir juntos.

- Voc� n�o � de meia-idade. - Eu sou!

Voc� me parece jovem.

Acrescente isso ao question�rio.

"Question�rio sobre os amantes que sonham em fugir juntos".

"Fugir juntos".

Voc� come�a.

Qual � a primeira coisa sobre mim que te deixaria nervoso?

Voc� � uma extrovertida charmosa ou introvertida neur�tica?

Quanto tempo vai demorar...

at� voc� se sentir atra�do por outra mulher?

Ou voc� por um homem?

Voc� n�o pode envelhecer.

Voc� pensa o mesmo de mim?

Quantos homens voc� precisa?

Voc� � totalmente heterossexual?

Voc� tem uma ideia

do que te interessa em mim? Seja precisa.

Voc� j�...

j� mentiu para mim?

Voc� conta mentiras?

Voc� � contra a mentira?

Voc� acha que a generosidade

� um sinal de fraqueza?

� importante para voc� ser fraco?

� importante para voc� ser forte?

Quanto dinheiro voc� vai me deixar gastar?

Voc� me deixaria ter algum poder sobre o seu dinheiro?

Quando eu te desiludi?

Voc� vai morrer?

Voc� � f�sica e mentalmente sadio?

Quais s�o seus reais sentimentos sobre os judeus?

Qu�o est�pido voc� seria se meu marido nos descobrisse?

Se ele entrasse agora?

Espere.

Dezessete. Mais alguma coisa?

N�o pensei em mais anda.

- Aguardo ansiosamente suas respostas. - E eu as suas.

Eu tenho mais uma.

Sim?

Voc� gosta de como eu me visto?

Essa � dif�cil.

Canalha.

N�o � dif�cil.

Quanto mais trivial for o defeito, mais raiva inspira.

Uma �ltima pergunta?

Eu tenho uma.

A �ltima pergunta.

De alguma maneira,

no fundo do seu cora��o, ainda existe a ilus�o

que o casamento

� um caso de amor?

Se disser que sim, podemos ter muitos problemas.

Eu odiava estar gr�vida. Eu ficava louca.

Eu pensava sobre potenciais doen�as de nascen�a

que n�o eram detectadas antes do parto.

Perguntei aos m�dicos:

"E se houver algum problema s�rio com o beb�?"

Fiquei triste com uma not�cia pouco antes do parto.

Sobre uma mulher com uma crian�a deficiente.

Ela parou de aliment�-la, para mat�-la.

O beb� foi adotado.

Os bastardos adoram infort�nios alheios.

Voc� n�o � uma deles?

Voc� �? Voc� n�o quer nem mesmo uma crian�a saud�vel.

Um dia, um m�dico que eu vi me disse em segredo

que se pode sufocar um beb� com cotonetes cir�rgicos.

Eu respondi que deve haver uma maneira menos cruel

de se livrar de uma crian�a.

Isso me preocupou muito.

Na Inglaterra,

se uma mulher comete um crime dentro de 6 semanas ap�s o parto,

ela n�o ir� a tribunal.

Eu li isso.

Nossa lei tem uma cl�usula estipulando que...

durante esse tempo as mulheres n�o est�o s�s.

Voc� pode matar seu filho e se safar!

Teria que ter cuidado, mas sim.

Sinceramente...

j� te passou a ideia

pela cabe�a

de pular de uma janela?

Sim.

Muito?

�s vezes.

O que a impediu?

N�o � que eu queira morrer,

� que eu quero viver.

Eu quero que a vida seja melhor.

Ent�o, � melhor ficar aqui um pouco mais.

Voc� n�o est� falando muito.

Estou ouvindo.

Eu sou um ouvinte.

Eu sou um audi�filo.

Eu sou um fetichista do verbo.

Muito er�tico.

Voc� s� fica a� sentado, ouvindo.

Um novo cinto!

� delicioso passar com voc� um dia de neve.

Deitar assim, a neve caindo aqui.

� maravilhoso.

Est� se sentindo bem?

Garota...

am�vel.

O que voc� est� pensando?

Em nada.

Est� bom?

Est� sublime.

Sublime...

Qual voc� prefere?

N�o posso responder a essa pergunta.

Mas eu quero saber. Qual voc� prefere?

Para car�cias?

Os n�o circuncidados.

� interessante mexer no prep�cio.

Sim.

E para transar?

N�o � uma pergunta a se fazer a uma inglesa bem-educada.

Para transar?

Para transar...

os circuncidados.

Por qu�?

� como se estivesse nu.

O p�nis nu.

O p�nis nu.

P�nis nu.

Por que todos odeiam tanto Israel?

Voc� pode me explicar isso?

Acho que posso.

� mesmo?

Eu tenho um argumento toda vez que eu saio.

E volto para casa furiosa e n�o consigo dormir.

Tenho conex�es com os dois grandes flagelos do mundo:

voc� e voc�.

Israel e Am�rica.

Vamos admitir que Israel � um pa�s terr�vel...

Eu n�o vou, eu me nego!

Mas vamos admitir isso. Tudo bem?

Ainda assim, h� muitos pa�ses muito mais terr�veis.

Eu mesmo nunca entendi.

� uma das aberra��es mais curiosas na hist�ria moderna.

Mas por qu�?

Diga-me.

- Voc� j� perguntou �s pessoas? - Sim, com frequ�ncia.

E o que elas dizem?

Que a forma com que tratam os �rabes � o maior crime da hist�ria?

Claro, � o que dizem!

Uma das mais extraordin�rias hipocrisia na hist�ria!

V. O DIRETOR TCHECO

Olina me encontra no aeroporto.

Eu trouxe um vestido Laura Ashley. Um perfume.

Ela me beija. Tem um jantar pronto.

Ent�o a porta se abre.

Um homem negro de 1,80 m. Sapatos de 200 d�lares.

Colar de ouro, anel de ouro.

"Este � Andrew.

Ele pode morar no quarto de h�spedes?"

"N�o cabe todos n�s aqui".

Ela: "Ele pode ficar para o jantar?"

� a minha primeira noite de volta, mas tudo bem.

N�o se pode dizer a um homem negro: "N�o, voc� n�o pode ficar para o jantar".

Na manh� seguinte, minha Olinka me diz:

"Eu o amo. Quero me casar com ele".

Eu estava ao ponto de comprar uma espingarda de ca�a.

N�o uma pistola, uma porra de uma espingarda de ca�a.

Tive um ataque card�aco.

Dores terr�veis no peito.

Uma semana no hospital, me custou uma fortuna.

Meu advogado ri: "Voc� e sua esposa t�m uma conta conjunta?"

Voc� n�o poderia ter?

Eu confiei nela!

Ela era uma garotinha tcheca!

Olhe para ela.

N�o � uma vadia americana!

Ivan, eu sou americano...

Esta garota, cat�lica, era virgem!

Ela ia para a cama com uma longa camisola.

Nunca teve um orgasmo.

Eu n�o sou jovem, mas sou esfor�ado.

Nada! Imposs�vel!

Agora ela quer se divorciar.

Ela ama aquele homem, ela sofre muito.

Certo, tudo bem, perfeito!

Mas ele n�o a fodeu como voc�.

Ele a fodeu por foder.

Voc� est� mais interessado em ouvir do que foder.

Eu nunca transei com Olina.

Voc� est� mentindo para mim, amigo.

Ela est� mentindo, ela me contou.

Transaram quatro vezes em Nova York.

Quando �ramos melhores amigos depois que eu vim de Praga.

Nem mesmo uma vez!

Pare! Olina me contou tudo!

"Por que ele faz essas perguntas irritantes?"

Pare, n�o � verdade!

Sacana mentiroso! Voc� n�o resiste a um rolo

mesmo se for a esposa do seu amigo refugiado.

Isso te limita como amigo e como romancista.

Meus livros s�o ruins?

- Ivan, est�o esperando... - N�o, sai daqui.

N�o grite com ela!

O que esperava, seu bastardo?

Que eu te ajudasse com sua arte in�til depois que fodeu minha esposa?

Me xingue se voc� quiser!

Se fazendo de idiota?

Olhe para voc�! N�o est� nem suando.

Sim, um grande ator! Mas um p�ssimo escritor.

N�o estou suando porque nada disso � verdade.

Quando eu sou culpado, sou um ator horr�vel!

Acredite em mim,

eu transpiro mais que o Nixon!

Pare com isso. J� chega.

Se ela te abandonar estar� obviamente matando voc�.

� horr�vel. E profissionalmente, as coisas n�o funcionaram aqui.

E agora voc� perde Olina.

Desde a primeira vez que nos encontramos,

voc� a devorou com os olhos.

Sim, eu a devorei! Ela � jovem e bonita.

Mas cobi�ar n�o � transar!

Seu americano de merda.

Mimado e mentiroso!

Largue isso! Voc� vai ter outro ataque card�aco!

N�o se preocupe, pequeno americano.

Eu n�o vou atirar no meio das suas cal�as.

N�o h� motivo para isso!

N�o, eu vou atirar entre as orelhas.

VI. O PERD�O DO GOVERNADOR

Sim, sou eu. Como foi?

Um milagre...

N�o!

Sim!

N�o!

� um milagre!

Me conte tudo sobre o milagre.

A tomografia n�o mostrou sinais de patologia.

Ent�o esta coisa que era incrivelmente virulenta

est� respondendo ao tratamento.

- Isso � maravilhoso! - Sim, espere.

O m�dico est� satisfeito. Ele tinha me dado um ano.

O progn�stico mudou!

Ufa!

Ufa!

Como voc� diz.

Voc� fez tudo certo.

Sim, eu fiz tudo certo.

Sabe como isso se chama?

O perd�o do governador.

Mas quem � o governador?

N�o tenho ideia!

Mas claramente devo estar ao seu favor.

Voc� fez tomografia de todo o corpo?

N�o.

Fiz da virilha at� o cora��o.

E o m�dico disse

que se houvesse um tumor em qualquer outro lugar,

haveria um l�quido, uma sombra, nessa �rea,

onde ele come�a.

Chama-se...

"O Caminho Preferido" destes c�nceres.

J� ouviu isso?

"O Caminho Preferido".

Inacredit�vel.

� extraordin�rio, � uma not�cia fant�stica!

Sim!

Tem sido um dia e tanto.

Eu estava assustada.

Eu estava t�o assustada.

Pensei que talvez houvesse algo...

hediondo em minha natureza

que me faria chorar no resultado.

Voc� tem direito a qualquer rea��o.

N�o h� caminhos preferidos

para as emo��es.

Por isso, agora vou me despedir.

J�?

O que mais posso dizer?

Eu sabia que voc� reagiria assim.

- Escute... - N�o!

Devemos permanecer amigos.

Velhos amigos.

De qualquer forma, n�o estou totalmente fora de perigo.

Ent�o, pode continuar a ser um pouco gentil comigo.

E quando voc� estiver fora de perigo?

Ent�o pode voltar a ser voc� mesmo.

Combinado.

Muito bem.

Tenha um bom dia.

Boa noite.

VII. ESPORTES DE INVERNO

Lembra de mim?

Estou lembrando.

Pouco a pouco.

Leve seu tempo.

Voc� emagreceu?

Voc� se acostumou a algu�m mais gordo.

� �timo ver voc�.

Queria que voc� tivesse esquiado.

� t�o tranquilo.

Subir a montanha silenciosamente no elevador.

- Voc� esteve comigo em muitas montanhas. - Eu?

Sim, quando eu segurava a vara do esqui.

Eu e o chiado da vara.

Isso mesmo.

Est� tudo bem em casa?

Sim, perfeito.

Nada melhor para um casamento do que um antigo namorado por perto.

� isso que voc� pensa?

Minha m�e me ensinou a nunca sentar de perna aberta.

E botar as pernas nos ombros de um homem?

Ela nunca mencionou isso.

Acho que ela n�o fazia a menor ideia

que eu faria isso.

Sinta este cheiro.

Cheira realmente bem.

Voc� est� bem?

Farei outro anivers�rio amanh�.

- Outra vez? - Sim. N�o tenho como evitar.

Subtraia 1929 de 1988,

isso d� 59.

Por que leva t�o a s�rio?

Ou�a o que voc� diz.

Voc� reclama por ter 34 anos.

Eu sei por que me custa tanto.

Mas e voc�?

Porque a vida vai acabar em breve.

Eu estarei morto.

� isso.

Vodca?

Por que esses eslavos v�m te ver?

Porque eu gosto deles.

S�rio? Mais do que dos ingleses?

Por qu�?

Por que eles sofrem muito?

Voc� sabe,

os deslocados t�m coisas a dizer. �s vezes podemos dar uma m�ozinha.

Uma quedinha pelas v�timas por ser judeu?

Eu n�o me vejo como uma v�tima judia.

Voc� est� entre os poucos judeus nascidos neste s�culo

que milagrosamente escaparam ao horror.

Assim, os que n�o escaparam, judeus ou n�o, fascinam voc�.

Eles n�o te fascinam?

Sou curiosa,

mas nunca iria de f�rias a esses pa�ses,

devo admitir.

Como voc� se envolveu nisso?

Por acidente.

Eu havia terminado um livro, estava viajando.

Foi em 71.

Meu amigo e eu dirig�amos de Viena a Praga.

Andei um pouco por a� e me sentia bem.

Eu tinha um editor l�, ent�o imaginei que poderia ir conhec�-lo.

No dia seguinte, vou l� e me apresento.

E o diretor

re�ne todo o seu pessoal ao meu redor

para brindar a mim com slivovitz.

Eles j� estavam todos b�bados.

Depois um empregado sussurra para mim:

"Nosso diretor � um cretino.

Ele vai nos denunciar ao regime".

Achei isso extraordin�rio e me senti ainda melhor.

Mil hist�rias depois,

fui detido na rua pela pol�cia.

Isso foi em 75.

Eu j� era acostumado a policiais me seguindo,

especialmente ao visitar escritores.

Mas era a primavera,

dois policiais se aproximaram de mim na rua e pediram meu documento.

Mostrei meu passaporte, meu visto, minha ficha do hotel

e disseram que eu deveria ir para a delegacia.

Ent�o eu vi um bondinho a alguns metros de dist�ncia.

Eu come�o a gritar:

"Estou sendo molestado pela pol�cia!

Exijo ser levado para a Embaixada Americana".

O policial se repete: "Venha para a delegacia".

Ele falou em tcheco mas eu entendi perfeitamente.

Eu me recusava a me mexer, e gritava.

Durou uns 15 minutos.

"N�o! N�o! N�o! N�o!"

O policial uniformizado sobe a rua

e pede a um policial � paisana que v� l�.

Neste momento, um bondinho para na esta��o.

E penso "Por que esperar para ser preso? Eu sou est�pido"!

Eu pulo no bondinho.

Meu cora��o est� acelerado, estou coberto de suor.

Eu troco os bonde, correr pelas ruas.

Volto para o meu hotel, tremendo.

Eu chamo meu amigo tcheco.

E meu amigo explode em gargalhadas e diz:

"A pol�cia s� quer assediar voc�. Eles te assustaram".

Nunca mais consegui um visto para a Checoslov�quia.

Na noite em que sa�,

eles prenderam meu amigo, o interrogaram durante toda a noite.

"Por que este escritor vem sempre para a Checoslov�quia?"

Responda, seu idiota!

Por que ele vem a Praga?

Voc� ainda n�o leu os livros dele?

Ele vem para a Checoslov�quia

pelas mulheres!

Pelas mulheres.

Isso era verdade?

N�o, foram as piadas tchecas que me atra�ram.

Na Inglaterra, s�o as mulheres que me atraem.

Tenho a sensa��o que n�o tenho vagina hoje.

Deixei em casa. N�o fale nisso.

Certo.

- Quer que eu v� embora? - Claro que n�o.

Voc� quer chorar de novo?

Sim, eu me sinto cansada.

Posso comer alguma coisa?

Tenho morangos, mel�es, vinho, um pouco de p�o.

Tenho at� maconha.

Um pouco de cada, por favor...

� claro!

Imagine se eu morro e lendo minhas anota��es,

um bi�grafo se depara com seu nome. Ele te pergunta:

Voc� o conhecia?

Voc� falaria com ele?

Depende...

do n�vel de intelig�ncia dele.

E se ele for algu�m realmente s�rio.

Ele gostou muito de voc�, posso te dizer isso.

Voc� pode me dizer algo sobre ele?

Por que est� fazendo isso?

Estou curioso. O que voc� diria?

Ele n�o escreveu nenhum livro.

Foi uma s�rie de amantes que os escreveu.

Eu escrevi os dois �ltimos.

Olhe, senhorita, voc� � muito querida e muito bonita.

Mas voc� n�o est� me dizendo a verdade.

Que tipo de caso que voc� tinha com ele?

Muito ocasional.

- Ele era apaixonado por voc�? - N�o.

Ele iria querer saber como voc� era.

Ou como eu achava que voc� era.

Eu seria maravilhosa nisso.

� mesmo?

Ent�o, qual � a resposta?

N�o h� uma resposta curta.

Voc� estava prestes a me dizer que tipo de homem ele era.

N�o vou dizer.

Mesmo que eu dissesse, voc� n�o colocaria isso no livro.

Como ele era para voc�?

Ele era...

muito gentil.

Podemos parar?

N�o, ainda n�o.

Voc� foi ao funeral?

Gra�as a Deus, foi pela manh�. Meu amado marido chega tarde em casa.

Para n�o deix�-la sozinha, levei minha filha ao parque.

Se eu fosse ao cemit�rio,

eu n�o poderia falar com ningu�m.

L�, estariam

sua fam�lia, seus amigos, sua esposa.

Um funeral judeu que eu n�o acho

que ele quisesse.

Podemos parar agora?

Voc� est� pegando fogo, continue.

O que ele amava tanto em voc�?

Suprima o "tanto" e eu responderei.

Pronto, o suprimi.

Eu era jovem, era carente, eu estava presente.

N�o muito diferente de suas mulheres,

mas eu era inglesa.

E isso...

me tornava um pouco estranha para ele.

Ele gostava de como eu falava.

Depois da morte dele, voc� est� melhor?

Vamos, vamos...

Mais ou menos...

Minha vida recome�ou definitivamente no dia...

em que desisti dele.

Eu me senti muito melhor.

Mas reviver isso...

reviver isso, na sua frente,

de uma forma t�o fria,

me enche de tristeza.

Para mim, aqueles tempos...

foram maravilhosos.

Maravilhosa. Eu te amo.

Voc� deveria ser escritora.

N�o.

Sei no que estou me metendo. Voc� n�o tem escr�pulos.

Voc� � um amigo?

�timo. Tenha um bom dia.

Eu adormeci.

Sim.

Eu sonhei com voc�.

Foi o sonho mais maravilhoso.

A sua ess�ncia, meu querido.

Voc� pode falar mais alto?

Eu sonhei com voc�.

� dif�cil dizer estas coisas.

� por isso que sua voz est� t�o doce.

O que aconteceu conosco em seu sonho?

Foi como antigamente?

Melhor.

Deve ter sido um bom sonho.

Sim.

Eu fui muito apaixonado por voc�.

- Voc� tem certeza? - Sim!

Devo dizer que...

isso ajuda.

� maravilhoso ver voc�.

Eu queria que voc� tivesse o mesmo sonho encantador que eu tive.

Escreva-o.

Dessa forma eu posso coloc�-lo no livro sobre voc�.

N�o seja bobo!

Eu n�o vou me arriscar.

Voc� parece estar tremendo.

Fiz quimioterapia esta manh�.

E vou fazer essa opera��o horr�vel.

Os efeitos colaterais s�o bem desagrad�veis.

Por que est� ficando pior?

Porque o veneno est� aqui, no interior.

Quando voc� sai do hospital?

Amanh� de manh�.

Eles simplesmente te expulsam, eu juro.

Depois vou para casa...

dormir 14 horas seguidas.

Voc� est� p�lida...

e voc� est� magra.

Voc� est�.

Eu queria estar magra.

Pare�o estar repleta de sa�de.

Eu perco meu cabelo, mas de resto estou �tima.

Voc� perde seu cabelo. Voc� usar� uma peruca.

N�o, nunca.

Eu prefiro estes len�os horr�veis.

Seus cabelos voltar�o a crescer.

Sim?

- Com alguma ajuda. - Voc� parece bem.

Isso deve significar algo.

Sim.

Que eu n�o vou morrer imediatamente.

N�o, mas, o pior de tudo � que...

se uma surpresa aguardar os m�dicos quando eles me abrirem

e veem que estou cheia de tumores.

- Isso � poss�vel? - Acho que n�o.

Eu n�o acho que eu v� morrer.

Voc� n�o vai.

Voc� disse isso em meu sonho!

Viu?

N�o posso estar errado duas vezes em 24 horas.

- Diga isso novamente. - Eu n�o posso estar errado.

Mais uma vez.

Voc� n�o vai morrer.

Uma �ltima vez.

Voc� n�o vai morrer. Voc� vai viver.

Obrigada.

Como voc� est�?

Nada mal.

O que aconteceu com a melhor estudante do meu semin�rio?

Parece que n�o consigo me comunicar com as pessoas.

� isso.

� assim que eu sou.

- Voc�? - Sim.

� assustador. Parece que n�o consigo me lembrar do passado.

Lembro de voc� muito vagamente.

Sinto muito.

� porque...

tive que fazer terapia de choque. Isso piorou a situa��o.

Que terapia?

Na verdade, foi bem agrad�vel.

Me deram Tiopental.

Voc� apaga. Quando volta a si, est� grogue.

N�o eram muitas vezes. S� duas vezes por semana.

Eu n�o tinha medo.

Eu espero por algo,

uma energia, voltar.

Na verdade, eu n�o sinto nada.

Quando eu falo com as pessoas, � uma experi�ncia...

deprimente,

Preciso fazer um enorme esfor�o.

Como neste momento, com voc�.

Desculpe-me.

Philip, pode me passar o cinzeiro?

Voc� toma rem�dios?

Como eu estava deprimida, me deram uma combina��o.

Eu n�o gosto disso.

Disseram que...

as p�lulas eram todas compat�veis, mas comigo...

n�o funcionou.

Passei muito mal.

Eu fiquei extremamente paranoica.

Ent�o, fui hospitalizada de novo.

Pensei que a sala de exames era uma c�mara de tortura.

Lembro que entraram no meu quarto com um papel.

E disseram: "Por favor

assine este papel dizendo que voc� matou sua m�e"?

Eu entrei em crise.

Como me pedem para assinar isso?

Como se atrevem?

Foi em setembro.

Foi uma alucina��o.

Agora tomo um antipsic�tico para preven��o.

Uma pequena dose, mas ainda assim...

O que te destruiu assim?

Voc� estava bem quando te conheci.

Intelectualmente teimosa,

muito astuta.

Com muito estilo nesses trajes pretos, muito Hamlet.

Sua palidez de estudante.

Isso descreve seu fardo?

Isso o que voc� disse foi h� 5 anos.

Quando voc� me levou ao restaurante da 3� avenida.

Eu me lembro do jantar, n�o do que conversamos.

Voc� me desejou sorte, disse que eu precisaria.

Por qu�?

Porque algumas pessoas poderiam me achar irresist�vel.

Eu estava t�o nervosa, foi uma das poucas coisas que ouvi.

Isso eu me lembro.

Eu mesmo n�o estava muito calmo.

Eu n�o imaginaria. Voc� era meu professor.

� por isso que eu n�o estava muito calmo.

Voc� entrava na classe com aquele cabelo desgrenhado.

Eu me lembro de todas aquelas nerds lendo Kafka,

explicando como A Metamorfose e O Processo

derivavam de sua rela��o com seu pai.

E voc�...

voc� dizendo exaustivamente "n�o".

Era exatamente o oposto.

A fonte de seu relacionamento com seu pai deriva

da Metamorfose e do Processo.

Ent�o voc� deu a cartada final.

"Quando um escritor tem 36 anos,

ele renuncia de traduzir a experi�ncia em fic��o,

ele imp�e sua fic��o � experi�ncia".

Aos dezenove anos,

voc� j� era algu�m.

Eu j� estava louca?

De forma alguma.

Talvez voc� tamb�m fosse louco.

Depois de uma das minhas aulas, voc� me escreveu:

"Eu rezo por s� uma coisa, todas as noites:

para ser uma boa escritora".

Uma boa escritora...

Conte-me novamente o que aconteceu.

Fa�a-me entender os tratamentos de choque, os hospitais.

A velha hist�ria de sempre.

Eu me sentia atra�da por...

sedutores irresist�veis.

E eu fiquei louca.

Foi o meu castigo.

Isso � uma acusa��o?

N�o, n�o.

N�o, com voc� era novidade.

Gentil, t�o �ntimo.

Foi inebriante.

Voc� nunca teve casos que n�o fossem...

t�o arriscados?

Somente agrad�veis?

Muitos!

O que aconteceu?

Aconteceu...

que eu fiquei entediada.

IX. O PROCESSO

Pode explicar � corte por que odeia as mulheres?

Eu n�o as odeio.

Se voc� n�o as odeia,

ent�o por que tantas difama��es e cal�nias em seus livros?

Por que abusa delas em seu trabalho e na sua vida?

Nem em meu trabalho nem em minha vida abuso delas.

Ouvimos depoimentos de especialistas.

Voc� diz, perante o tribunal,

que esses especialistas com evidentes compet�ncias profissionais

ou est�o enganados ou mentindo?

Posso perguntar algo?

O que voc� j� fez de �til para as mulheres?

Por que voc� interpreta

a representa��o de uma mulher como a de todas?

Voc� n�o pode fazer perguntas,

apenas respond�-las.

Voc� � acusado de sexismo,

misoginia,

abuso de mulheres,

cal�nia de mulheres,

e de sedu��o impiedosa.

Senhor?

Sim?

Por que voc� publicou livros que causam sofrimento �s mulheres?

Nunca pensou que seriam muni��o para nossos inimigos?

Eu s� posso responder

que os objetivos desta autodenominada democracia de direitos iguais,

do qual voc�s gostam, n�o s�o os meus como escritor!

N�o temos desejo de ouvi-lo falar de literatura.

Em seus livros, todas as mulheres s�o estere�tipos pervertidos e perversos.

Por que retratar a Sra. Tarnopol,

� assim que se pronuncia?

Como uma hist�rica e psicopata?

Por que retratar as mulheres como megeras?

Por que Shakespeare fez isso?

Voc� faz parecer como se toda mulher devesse ser elogiada.

Voc� se compara a Shakespeare!

Vamos ver seus antecedentes.

Voc� foi professor universit�rio, certo?

� isso mesmo.

Como tal, voc� se engajou em pr�ticas sexuais com estudantes?

Isso � humilhar mulheres?

N�o, � se humilhar.

Elas se orgulharam de serem escolhidas?

Com que frequ�ncia voc� as for�ou

a copular com o professor agindo in loco parentis?

N�o havia necessidade de exercer for�a, eu asseguro.

Quantas alunas voc� influenciou e explorou?

Tr�s!

Ao longo dos anos, tive casos amorosos s� com tr�s!

Depois de nos presentear com uma palestra de literatura,

devemos agora suportar outra sobre o amor?

De voc�?

- Voc� praticou adult�rio? - Eu ainda pratico.

Com esposas de amigos?

Mais frequentemente com esposas de estranhos, como voc�.

Quem te atrai mais sadicamente?

Amigos cujas esposas voc� implacavelmente seduziu?

- Ou estranhos? - Voc� � linda!

Ele est� me seduzindo no tribunal!

N�o, voc� � encantadora!

Brilhante!

Eu n�o sou uma garotinha.

Eu transaria com voc�, querida.

Isso � pura pornografia!

Eu te comeria em um tribunal de justi�a!

Venham, senhoras, venham todas!

X. PRIMAVERA

At� que horas vai trabalhar?

At� o fim da tarde.

Eu provavelmente n�o devo ir te ver.

Eu tenho sido caprichosa.

Acho que voc� quer tentar algo.

Voc� tentou.

Para mim, voc� n�o � caprichosa.

Eu n�o quero falar sobre isso.

Ent�o, talvez...

� melhor que voc� n�o venha.

Mas eu queria muito te ver.

Estou morrendo de vontade de te ver.

Voc� me deixou muito perturbado.

Desculpe se eu sou um inc�modo.

N�o seja boba.

Voc� sente minha falta?

� claro que sinto.

Principalmente esta tarde.

Na verdade.

Do que voc� sente falta?

- Quer saber? - N�o.

Sem sacanagens, por favor.

Est� bem.

Aqui estou.

- Eu engordei? - Ainda n�o parece uma m�e.

Eu n�o me preocupo com mais nada.

- N�o estou mais ansiosa. - Desde que eu sumi.

N�o sei desde quando.

Ent�o, como est�o as coisas em casa?

Como ele gosta?

Corpulenta e bonita?

Eu gosto como voc� era.

Magra e nervosa.

As coisas est�o muito melhores.

Desde que voc� se foi,

o que aconteceu foi uma mudan�a no equil�brio de poder.

Em meu favor.

Ele se comporta muito melhor comigo.

Excelente.

Obrigada, doutor.

Me ver � dif�cil para voc�.

Eu deveria t�-la avisado.

Eu teria vindo mesmo assim.

O meu velho pai vive sempre sob press�o.

Tem uma opini�o sobre tudo

e, muitas vezes, difere da minha.

Com meu pai, �s vezes devo

me impedir de agir como uma crian�a de 14 anos.

No �ltimo ver�o,

ele se irritou quando o filho do meu irm�o decidiu casar-se com uma porto-riquenha.

J� que n�o esconde seus sentimentos, tamb�m irritou o garoto.

Eu entrei no meu carro,

dirigi de Connecticut para Nova Jersey.

Quando eu cheguei l�, ele come�ou a me contar.

Eu escutei meia hora.

Ent�o eu decidi dar a ele uma pequena li��o de hist�ria.

Eu disse: "Escute, querido pai,

seu pai, na virada do s�culo, tinha..."

3 escolhas.

Primeira: ficar na Gal�cia judaica com a av�.

Se ele tivesse ficado, o que teria acontecido com ele,

com ela, comigo, com todo mundo?

Cinzas!

Pai! Cinzas! Tudo em fuma�a!

- Voc� n�o concorda? - Sim, mas pare!

Vou continuar minha l�gica. Segunda escolha.

Seu pai poderia ter ido para a Palestina!

Segunda escolha. Seu pai poderia ter ido para a Palestina.

Voc� e Sandy em 1948 teriam lutado contra os �rabes.

Pelo menos um de voc�s teria perdido uma perna, um p�, um bra�o!

Em 1967, eu teria lutado na Guerra dos Seis Dias.

Ao menos alguns estilha�os na minha cabe�a.

- Claro, com certeza. - Eu poderia ter perdido um olho!

Seus netos: L�bano, 1982.

Vamos supor que s� um morresse. Isso � a Palestina!

Terceira escolha: Am�rica. Aquela que seu pai escolheu!

Terceira escolha!

Ir para a Am�rica!

Na Am�rica, o que � a pior coisa que pode acontecer?

Seu neto se casar com uma porto-riquenha!

Ficar na Pol�nia e aceitar as consequ�ncias!

Ir a Israel e aceitar as consequ�ncias de ser um judeu israelense!

Ou ent�o viver na Am�rica! Ent�o?

O que voc� prefere?

O que ele disse?

Ele disse: "Muito bem, pare! Voc� est� certo! Voc� ganhou!"

Fiquei entusiasmado, pela primeira vez eu o superei.

Eu disse: "Pai, sabe o que vem a seguir?"

Eu vou visitar a m�e dessa garota.

Ela deve estar se martirizando com um ter�o.

Eu direi: "Voc� quer morar..."

"Voc� quer morar em Porto Rico?

Ent�o sua filha se casa com um porto-riquenho.

Mas todos voc�s v�o morar em Porto Rico."

"Caso contr�rio, voc� vem morar no Brooklyn,

e no pior cen�rio poss�vel, sua filha se casa com um judeu."

E meu pai come�a de novo.

"Pior cen�rio poss�vel?" Como assim?

"Por que o pior cen�rio?"

Ela deveria estar feliz com quem sua filha vai se casar.

"Ela deve estar feliz com quem sua filha vai se casar!"

"Sim, quase tanto quanto voc�."

Eu?

Ent�o? Como isso terminou?

O casamento foi realizado na Catedral St. Patrick

com um rabino presente

no caso de eles tentarem escapar.

Que hist�ria!

Por que todos tentam aumentar a import�ncia disso?

Por que todo tentam minimizar?

Na Inglaterra, quando estou em um lugar p�blico, um restaurante, uma festa,

se algu�m usar a palavra "judeu", a voz diminui um pouco.

� mesmo?

Todos voc�s dizem "judeu"

da mesma forma como a maioria das pessoas diz "merda".

Judeu.

Meu Deus, voc� � mesmo o filho de seu pai.

De quem eu deveria ser?

De sua m�e?

Todo mundo que encontro ultimamente diz:

"Eu me lembro de voc� em Oxford.

Voc� usava blusas transparentes e sem suti�".

Ent�o, voc� � uma ex-extrovertida.

Todos criticam meus cabelos azuis,

e que eu exibia meus seios.

Eu n�o os vejo exibidos por aqui h� muito tempo.

Eu n�o gosto mais deles.

Eu te escuto.

Muito.

Demais.

Por qu�?

O que � isso?

Estou pensando que ainda te amo.

Apesar do qu�?

Apesar disso.

N�o, n�o...

Pare.

Voc� n�o merece ficar casada

s� por achar que n�o pode conseguir outro emprego

e que voc� ao menos tem um vale-alimenta��o.

Um vale-alimenta��o n�o comanda ningu�m.

Sim, est� te comandando voc�.

Se o casamento acabou, por que n�o se separa? Eu n�o entendo!

Eu n�o quero.

A� est� sua dignidade.

N�o h� dignidade sem renda.

Boa resposta, mas est� errada.

A verdade � o contr�rio disso!

Veja.

Eu te darei um cheque.

� muito gentil da sua parte.

Sinceramente, n�o posso aceitar.

Por que n�o o desconta? Coloque no banco, ou esconda.

S� n�o coloque em sua conta conjunta.

Posso emoldurar?

N�o.

S� n�o o perca.

Posso guardar na minha b�blia?

N�o, deposite no banco para que n�o pegue chuva.

Por que n�o pensa antes de jogar isso fora?

Muito obrigada.

Seria melhor se voc� pegasse.

Vou sentir sua falta.

Sentirei muitas saudades.

Vou pensar em voc� tamb�m.

� uma grande pena para n�s dois.

XI. O MARIDO

Conte o que est� te incomodando.

N�o posso voltar do meu est�dio para jantares como estes.

Voc� n�o fala.

Voc� est� horr�vel.

Eu n�o durmo.

- Por que n�o? Diga-me! - Eu n�o sei.

Algo a ver comigo?

Eu quero saber...

e n�o quero saber.

Aqui vamos n�s.

Do que se trata?

Voc� n�o vai ao seu est�dio para trabalhar.

Voc� vai ao seu est�dio para transar.

Voc� est� tendo um caso.

Voc� acha?

Sim.

N�o h� mulheres em meu est�dio, infelizmente.

Al�m das personagens do meu romance.

N�o no seu romance, no seu caderno de anota��es.

Voc� esqueceu de guard�-lo em sua maleta, ent�o eu li.

Estupidamente. Eu sabia que n�o deveria abri-lo.

Voc� est� assim por nada.

Por que voc� viu algumas notas?

N�o s�o notas. S�o...

conversas com aquela mulher.

- Ela � imagin�ria. - Ela n�o �.

- Ela �. - Ela � real.

Ela vai ao seu est�dio.

Ela � o motivo de voc� andar t�o distra�do ultimamente.

Quando eu falo, voc� quase n�o fica acordado.

Mas no segundo que ela abre a boca,

voc� n�o pode deixar de anotar cada palavra.

Que s�o todas maravilhosas.

"Um ouvinte".

"E audi�filo".

Quanta besteira pretensiosa!

Talvez seja por causa do livro que estou escrevendo

que estou desinteressado...

Admita!

O qu�?

Que voc� nunca me amou tanto.

Porque ela n�o existe!

Se voc� n�o existisse, eu te amaria da mesma forma.

Incr�vel!

N�o acredito que estamos discutindo por isso!

� um absurdo!

E eu suponho que...

a conversa com Rosalie Nichols...

era imagin�ria tamb�m?

Mas � verdade.

Voc� me disse que havia falado com ela.

De Rosalie Nichols, eu escrevi partes do que dissemos

e outras que n�o dissemos

e que eu inventei.

Eu inventei essas coisas!

Voc� leu sobre meu amigo tcheco?

Sim, eu li tudo.

Eu estupidamente sentei e li tudo isso.

Meu amigo tcheco Ivan, por mais louco que ele seja,

nunca me acusou de dormir com Olina!

� muito melhor n�o saber.

N�o, eu n�o acredito neste melodrama.

Voc� fica nesse estado...

Voc� n�o quer ouvir...

Voc� dramatiza tudo.

� voc� quem dramatiza tudo!

N�o vou me explicar.

Ou te lembrar que o som de vozes exercem um charme para mim.

Este caderno � a prova!

Eu imagino

uma hist�ria de amor. � o que eu fa�o o tempo todo.

Esse caderno � uma mulher de verdade.

Esse caderno � como se Tolstoi tivesse...

imaginado se apaixonar por Anna Karenina.

Ou Thomas Hardy com...

Eu s� sigo minhas inclina��es.

Nem por voc� nem por ningu�m serei censurado!

Pare com esse jogo hip�crita, n�o grite.

N�o suporto que grite comigo.

Voc� est� tentando me confundir.

Estou tentando fazer com que voc� veja as coisas direito.

Sim, Olina deitou-se com um rapaz negro.

E Ivan me falou sobre isso.

Mas ele nunca me acusou de tra�-lo.

N�o � algo que eu fa�a.

Quando escrevo, preciso me comprometer!

Isso � o que me motiva.

Como � provado por esta maldita briga.

E a pequena americana lun�tica?

Controle-se! Pense!

Ela pensa.

Ent�o, v� pensar com ela.

Muito bem, muito bem, vamos pegar o caderno.

Vamos sentar-nos, explicarei a voc� linha ap�s linha

o que eu tenho feito,

supondo que eu consiga entender!

Eu devo acreditar que esta inglesa n�o existe?

Ent�o, como voc� sabe tanto sobre a vida inglesa

que esta mulher imagin�ria te conta?

Ei, � meu neg�cio parecer saber mais do que sei.

Mas � t�o �ntimo.

A intimidade � interessante. � o assunto.

Voc� vai publicar o caderno?

Eu n�o sei. J� me ocorreu.

Public�-lo como est�?

Eu disse que n�o sei.

Talvez n�o seja aconselh�vel mudar seu nome?

Poderia "Philip, me passe o cinzeiro" virar um"Nathan"?

N�o, Zuckerman � meu personagem nos romances.

Isto � diferente. O caderno sou eu.

Voc� acabou de dizer que n�o � voc�.

Sou eu imaginando. � sobre imagina��o.

Uma vez publicado, ningu�m dir� que � imagina��o.

J� dizem que minha fic��o � autobiogr�fica.

Que minha autobiografia � fic��o.

J� que sou burro e eles s�o t�o inteligentes,

deixe-os decidirem o que �.

Parece um jogo divertido.

E se isso me humilha?

� um jogo!

� uma par�dia de mim!

Eu sou meu ventr�loquo, � homo ludens.

Quem saber� disso al�m de n�s?

Eu n�o posso e n�o vivo em um mundo de discri��o.

A vergonha n�o exite em romancistas!

Tudo o que tem que fazer � que a miser�vel americana diga:

"Nathan, passe o cinzeiro" e n�o "Philip". Isso � tudo o que pe�o.

N�o.

- Onde vai? - Sair.

Fico louco se me dizem sobre o que escrever.

N�o saia sozinho! Eu vou junto.

Acabou. J� foi longe demais Eu n�o posso ser acuado.

Eu escrevo o que escrevo, eu publico como eu quiser.

- Que se foda se n�o me entendem! - Ou entendam bem.

� s� um caderno, n�o um ser humano!

Voc� � um ser humano, goste ou n�o. Eu tamb�m sou, ela tamb�m!

N�o, "ela" s�o s� palavras.

Mesmo que eu queira, n�o posso fazer sexo com palavras!

Eu vou sair.

Sozinho.

XII. EP�LOGO

�timo, pontualmente.

Est�o preparando uma mesa para n�s,

ainda n�o est� pronta.

Ent�o... como...

- Como voc� est�? - Como estou?

Estou muito bem.

E voc�? Como est�?

Queria te ver para perguntar estas perguntas fascinantes.

Ent�o, como voc� est�?

Bem, estou muito bem.

Eu tentei ligar, mas seu n�mero n�o est� funcionando.

Em que pa�s voc� tentou ligar?

- Em seu est�dio na Inglaterra. - Eu sa�.

Vim para Am�rica definitivamente.

Escute.

Como voc� est�?

- Estou muito bem mesmo. - �timo!

Estive pensando em voc�.

Eu li seu livro, hesitei em ligar.

- Pensei muito sobre isso. - Eu tamb�m.

E eu me perguntei se isso teve algum efeito

em seu casamento.

Ele n�o leu.

Maravilhoso. � claro.

Sua mesa est� pronta.

Ent�o, o que h� de novo?

Diga-me.

Estou bem, n�o estou?

Sim.

Eu n�o sei por onde come�ar.

Voc� me odiou por n�o ter ligado?

N�o, de forma alguma. Achei que era uma decis�o.

Creio que a �ltima vez que nos falamos,

nenhum de n�s estava muito feliz.

Pensei que voc� tivesse que seguir seu pr�prio caminho.

E por isso tive que seguir o meu.

Isso foi h� dois anos, seguimos nossos caminhos.

Sim.

Mas estou muito feliz por voc� ter ligado porque tive muitas saudades.

Voc� disse que ia parar porque...

o caso amoroso tinha acabado.

N�o. Voc� disse que queria parar de me ver.

- � mesmo? - Sim!

Mais de uma vez.

Tenho uma boa mem�ria.

� mesmo.

Eu fiquei surpresa.

Duas pessoas me disseram: "Eu ouvi sua voz no livro".

- � mesmo? - Sim.

Quem disse isso?

Eu tenho amigos que leem literatura e me escutem.

Voc� tem uma locu��o particular.

Eu era apaixonado por voc� por 20 raz�es,

e essa era a mais bela.

Para mim, foi...

algo longo, encantador,

finalmente muito triste, importante...

Eu diria o mesmo.

Ningu�m jamais foi t�o apreciada.

Eu era louco por voc�.

- Jura? - Voc� sabia disso.

N�o se fa�a de inglesa.

Bom...

Eu me preocupei muito com voc�.

S�rio?

Devo come�ar com a can��o?

Voc� se lembra

Naquela tarde

Quando o rel�gio badalava

Nos encontramos

Voc� e eu...

Sim, sim.

A prop�sito, n�o sou mais jovem.

Quando te conheci, eu ainda era jovem.

Mas quando fazemos 35, de repente, tudo acaba.

N�o tudo, mas algumas coisas acabam.

O brilho desapareceu?

Provavelmente desapareceu aos 16 anos.

Vou fazer 37 anos.

Sim...

Vou dar uma festa na ala de dinossauros do museu.

�tima ideia. �tima localiza��o.

Voc� est� convidado.

N�o sei como explicar,

mas estou come�ando a pensar em mim de forma muito diferente.

Sabe? Quando deixamos de ser jovens e animados.

� uma transi��o dif�cil para as mulheres.

Eu n�o te liguei antes

porque eu n�o queria perturbar sua vida novamente.

Voc� e seu marido

ainda vivem juntos?

Fazemos as coisas decentemente.

Eu fico me perguntando qual � o grande problema.

Obviamente, existem problemas insol�veis.

Como a solid�o.

Eu me sinto terrivelmente s�.

Eu fico entediada no trabalho.

Mas al�m dos grandes problemas, acho que est� tudo bem.

Voc� tem um amante?

N�o, n�o...

Ou�a,

fiquei surpresa ao ver esta personagem

t�o terrivelmente passiva.

Eu n�o tinha ideia, na medida em que eu sou essa...

Na medida em que � voc�...

Na medida em que � completamente voc�.

Bom, eu n�o sou mais assim.

� mesmo?

Agora sou uma pessoa positiva.

Gra�as a Deus terminei meu livro antes.

Pessoas positivas nos livros me fazem morrer de sono.

Sim, mas aquela passividade era aterrorizante.

Escrever altera as coisas.

Eu me senti furiosa.

Como os nativos que dizem que as fotografias roubam parte de suas almas.

Eu sabia que voc� ficaria furiosa.

Muito furiosa.

E quando voc� superou isso?

Provavelmente n�o superei.

Deus, como eu senti falta

de falar com voc�.

E n�o tomar notas?

� claro.

Eu tamb�m senti falta disso.

Tive tantas saudades.

Eu falo com voc� na minha cabe�a.

Eu tamb�m falo com voc�.

"Freshfield" n�o era um bom nome para mim.

Voc� deveria ter me consultado.

� de um poema ingl�s, "Amanh� dos frescos vales..."

Eu percebi, mas n�o funcionou. Muito �bvio.

Voc� continua voraz.

Ent�o agora voc� mora nos EUA.

N�o era crist�o demais para voc� aqui?

� verdade.

Estava me faltando algo aqui. Eu n�o me dei conta.

S�rio? O que faltava?

Os...

judeus!

Temos alguns aqui.

Estou falando de judeus com coragem.

Judeus com apetite, judeus sem vergonha.

Judeus irados que comem com os cotovelos sobre a mesa.

Insultam, brigam, s�o impudentes.

- De volta ao seio da tribo. - Exatamente.

- N�o � estranho? - N�o muito.

� aquele que retorna.

Voc� leu "A Odisseia"?

Uma epopeia de ex�lio e retorno. Qual � o seu papel?

Naus�caa?

Calipso?

Homero.

Vou escrever sobre voc�.

Apresse-se, � poss�vel que eu escreva outro sobre voc�.

Voc� n�o faria isso.

Voc� faria isso?

Voc� se atreveria?

� claro que sim.

Esta conversa far� parte dele.

Voc� estaria raspando o fundo do tacho.

N�o se subestime.

Voc� era um tacho formid�vel.

- Para mim, voc� era. - Eu era?

Fiquei t�o furiosa durante meses.

Fiquei destro�ada porque depois de ler eu n�o poderia me sentir furiosa.

Por qu�?

Porque...

porque era t�o terno,

eu acho.

A menos que eu tenha entendido errado.

Voc� n�o entendeu errado.

Boa noite, senhora.

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