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No centro da vida, está o DNA.
Quando um filamento sofre uma modificação.
Ocorre uma mutação que é repassada adiante.
Se criar uma vantagem,
a mutação irá prosperar
conduzindo a evolução, a energia vital de nosso planeta mutante.
PLANETA MUTANTE
Três lagos na África
onde cardumes de pequenos, peixes chamados ciclídeos
levam vidas de drama intenso.
A superpolução e a competição geram violência
traições e armadilhas.
Por isso, eles desenvolveram adaptações incríveis
incluindo o melhor método de proteger a prole entre os peixes
comparável ao de muitos mamíferos.
Chimpanzés que moram nas margens de lagos africanos
são conhecidos por suas sociedades complexas
que se assemelham as nossas.
Será que pequenos peixes
que desenvolveram talentos especializados mais rápido do que qualquer outro vertebrado
poderiam ser considerados tão inteligentes e afetuosos quanto primatas?
Tudo é possível, neste planeta mutante.
O VALE DO RIFT, NA ÁFRICA
Ao longo da costa leste da África
uma cicatriz de 6.400 km cobre a crosta terrestre.
Ela é chamada de Grande Vale do Rift.
E ao longo de milhões de anos três grandes lagos se formaram aqui.
O lago Vitória
o lago Tanganyika
e o lago Malawi.
A África Oriental é repleta de animais africanos típicos
onde o embate diário entre predador e presa
gerou sobreviventes fortes e bem adaptados.
Às margens dos lagos do vale, vivem nossos antigos primos.
Chimpanzés altamente sociáveis que criaram sociedades complexas,
baseadas em status
e laços de parentesco.
Como todos os animais, as principais condições para sua sobrevivência são encontrar comida
e produzir e proteger as gerações futuras.
Mas estes primatas inteligentes desenvolveram uma cultura
que transcende os instintos básicos de sobrevivência.
É o fim da tarde.
Os membros de um grupo de chimpanzés cochilam no calor
até que o macho alfa avista algo nas árvores.
O alfa dispara, seguido por um pelotão de machos.
Eles se espalham
cortando a rota de fuga do macaco, e começam a fechar o cerco.
Ele não tem chance alguma.
Com exceção dos humanos, os chimpanzés são os primatas superiores
que caçam regularmente e comem carne.
Os chimpanzés não precisam comer muita carne
porque eles são principalmente herbívoros.
Mas o que leva-os a caçar?
Privacidade ou sexo.
Os chimpanzés desenvolveram uma cultura onde a carne pode comprar favores.
O macho alfa distribui a caça entre seus colegas machos
em troca de apoio durante futuros conflitos pela liderança.
Mas ele também guarda um pouco para fêmeas específicas.
Primatologistas observaram que as fêmeas que recebem carne
parecem se lembrar do favor e são mais inclinadas a cruzar com ele, no futuro.
Para além desta sociedade complexa
os lagos do Vale do Rift contam outra história intrigante
que contém paralelos surpreendentes
com o comportamento evoluído dos grandes primatas inteligentes.
Sob a superfície vivem até 900 espécies de peixes de água doce
chamados ciclídeos.
São todos parentes
mas apresentam uma variedade espantosa de cores, padrões e formatos.
Eles vivem em comunidades populosas, como muitas espécies.
Mas dois elementos os diferenciam.
Os ciclídeos se adaptaram a desafios
evoluindo com mais rapidez do que qualquer outro vertebrado.
Além disso, eles demonstram uma incrível inteligência social
ao julgar e planejar estratégias para sobreviver.
Nesse grande cardume de peixes superinteligentes
há muito drama, conflitos, enganações e truques
como em qualquer grupo de chimpanzés.
Muitos ciclídeos são predadores
que empregam estratégias sofisticadas de ataque
comparáveis às dos chimpanzés caçadores.
Este é um predador de emboscada.
Ele se enterra e aguarda as presas.
Outro assassino se finge de morto, para atrair observadores curiosos.
Ele chega a suspender o movimento de suas guelras.
Mas estes ciclídeos espertos não se deixam enganar.
Este caçador tem outra tática inteligente.
Olhando assim, o pavão-ciclídeo parece inofensivo
se alimentando apenas de minúsculos organismos na areia.
Mas isto é um erro fatal.
Ele finge engolir minúsculos organismos na areia para chegar perto da vítima.
Esta é uma obra-prima de engano.
O próximo na galeria de caçadores é o notório comedor de escamas.
Ele desenvolveu uma forma de se alimentar sem destruir a vítima.
O agressor se mistura à multidão
e localiza um alvo saboroso.
Ele age da seguinte forma
o comedor de escamas se lança contra a vítima
cravando os dentes em suas escamas.
Ele gira o corpo para arrancá-las e se afasta com a boca cheia.
Escamas são muito nutritivas.
E sempre há uma refeição ao alcance.
Ciclídeo contra ciclídeo
é a rotina diária nos lagos do Vale do Rift.
Mas, à noite, um predador muito maior espreita.
Os ciclídeos dormem à noite,
de olhos abertos, porque eles não têm pálpebras.
Enquanto eles dormem, apesar dos olhos abertos, estão indefesos.
Um bagre gigante, conhecido como kampango ataca os ciclídeos adormecidos.
Os bigodes no queixo desta fêmea, chamados de barbilhões são repletos de papilas gustativas.
Então, ela pode provar antes de abocanhar.
À noite, os ciclídeos adormecidos não têm nenhuma chance.
Mas, com o nascer do sol
os papéis se invertem, e os predadores noturnos se encontram cercados.
O casal de kampangos passa o dia inteiro protegendo seu ninho com filhotes vulneráveis
de ciclídeos oportunistas que espreitam ao redor
com o objetivo de roubar o ninho, caso os pais se distraiam.
Eles podem ser predadores temíveis à noite
mas os kampangos são pais extraordinários
que passarão três meses guardando sua cria
até que eles cresçam o bastante para se defenderem sozinhos.
Nas margens dos lagos do vale,
o grupo de chimpanzés está em guerra.
Eles lutam por território
e por mais alimento.
Com mais alimentos, torna-se maior as chances de se atrair as fêmeas.
Quando os chimpanzés se atacam, eles lutam até a morte.
O vencedor ganha o território.
Como os primatas,
os ciclídeos e os bagres vivem constantemente numa corrida armamentista evolucionária
desenvolvendo novas táticas para superar uns aos outros,
e garantir a sobrevivência da prole, e consequentemente, a sua espécie.
A evolução dos ciclídeos, que visa proteger os jovens
é o principal tema da história dos lagos do Vale do Rift.
Um comportamento universal em espécies altamente desenvolvidas
é o processo meticuloso de cuidar dos mais jovens.
Nos primeiros meses,
a mãe-chimpanzé carrega seu filhote junto ao corpo
sem permitir que nenhum outro chimpanzé o toque.
Ela cuidará de cada bebê por até sete anos.
E como só dá cria a cada cinco ou seis anos
cada bebê é um investimento enorme.
O cuidado extremo com os filhotes não é incomum entre primatas e outros mamíferos.
Mas, entre os peixes?
Apesar de que os ciclídeos não são peixes comuns.
A história de como os ciclídeos se tornaram uma espécie única
coincide com o nascimento do primeiro dos grandes lagos.
Por milhões de anos, na África Oriental
a atividade térmica nas profundezas da Terra esticou e fraturou as placas tectônicas
gerando uma grande falha.
Há 10 milhões de anos atrás, rios começaram a desembocar nesta falha
e surgiu um lago.
Era o lago Tanganyika.
Pequenos peixes parecidos com percas nadavam nos rios africanos.
E algumas espécies acabaram indo parar no lago Tanganyika
onde iniciaram sua jornada incrível para se tornarem bons pais.
Os ciclídeos colonizadores
tinham um método primitivo de reprodução,
comum a muitos peixes nos rios e mares.
As fêmeas botavam ovos no fundo e os abandonavam nas mãos do destino.
Mas este destino logo obrigou os ciclídeos a mudar de abordagem.
Predadores como enguias e outros ciclídeos famintos
estavam sempre à espreita.
Então, seus pais desenvolveram uma estratégia de defesa.
Eles se esforçavam para proteger seus ovos.
Mas, apesar de todo o seu esforço ainda haviam perdas.
Esta pilha de conchas de caramujos é acredite se quiser, o próximo passo da evolução.
Isto é um castelo, construído por um callipterus macho também chamado de ciclídeo do castelo de conchas.
É assim que ele age.
Os machos passam horas procurando conchas adequadas
a uma distância de até dez metros de seus castelos.
Normalmente, eles as roubam de um vizinho, que protesta.
Mas quanto maior o peixe, maiores suas chances de roubar uma concha e levá-la embora.
Cada concha se torna um quarto para uma de suas fêmeas
onde elas botarão seus ovos e criarão os filhotes em segurança.
Parece um final feliz.
Mas há uma ressalva cruel, nesta estratégia.
Às vezes, os callipterus roubam conchas com fêmeas dentro
Mas quando eles as colocam em sua pilha
em vez de dar as boas-vindas a seus novos moradores, ele começa a despejá-los.
A fêmea se recusa a sair, porque está protegendo seus filhotes, que também estão na concha.
Mas nenhum macho protege os ovos de outro macho.
Ele quer uma nova fêmea para criar seus próprios descendentes.
Ele joga areia para tentar sufocá-la em seu próprio lar
até que, finalmente, ela abandona a concha.
Sob o olhar do rei do castelo
a fêmea procura desesperadamente seus pequenos filhotes.
Mas ele ataca novamente
obrigando a fêmea a abandonar seu lar e sua família.
Sem proteção, seus bebês se tornam vítimas de um frenesi alimentar.
Isto parece um trágico desperdício de vida.
Mas o callipterus sabe que uma concha já usada por uma fêmea fértil
tem mais chances de ser escolhida por uma de suas fêmeas.
O rei das conchas é muito semelhante ao macho alfa de chimpanzé.
Seu maior sucesso é a fertilização de muitas fêmeas.
O macho alfa ignora os filhotes,
ele não participa da criação da prole.
ele prefere gastar tempo catando parasitas em seus companheiros.
Mas o cuidado paterno excepcional pode ser visto no maior de todos os ciclídeos.
Os ciclídeos kuhe, de 60 centímetros
encontram um parceiro no primeiro ano de vida.
Na época da reprodução, a fêmea usa o método tradicional.
Ela bota até 20 mil ovos sobre uma pedra.
Após alguns dias, os alevinos se libertam dos ovos gelatinosos
ainda com o saco vitelínico, que os alimentará nas próximas horas.
O casal vigia a prole de perto, nos primeiros dias.
Mas gangues de predadores ciclídeos ardilosos espreitam
prontas para atacar.
Basta os pais darem as costas por um segundo
para que a gangue ataque.
Motivado pelo desespero o kuhe desenvolveu uma estratégia única.
Ele transporta sua família inteira na boca até um local mais seguro.
Quando os ciclídeos espertos descobrem o novo santuário
o dedicado kuhe transporta sua prole outra vez.
E outra vez,
no período crítico após a eclosão.
Os cientistas acreditam que esta técnica ilustra o estágio inicial
da mais impressionante estratégia.
Se olharmos com atenção, esta fêmea de ciclídeo está com a boca cheia
de jovens ciclídeos.
Com ladrões de ovos e filhotes escondidos atrás de cada rocha
a incubação oral impede que sua cria seja comida.
Funciona da seguinte forma
uma fêmea bota seus ovos.
Seu parceiro os fertiliza.
E sem perder tempo, ela suga os ovos para dentro da boca
frustrando os predadores que a rodeiam.
Na segurança de sua boca, os ovos se desenvolvem
eclodem
e os filhotes crescem.
Chocando por volta de trinta jovens ciclídeos
a fêmea passa fome por mais de um mês.
Até lá, ela evita sufocá-los, revolvendo-os dentro da boca
banhando-os constantemente com água rica em oxigênio.
Dependendo da espécie
as fêmeas podem chocar de trinta a cem filhotes por vez.
Após uma semana, sua família está pronta para se aventurar no exterior.
Mas, como sempre gangues de predadores avistam a prole.
O macho os espanta.
E os filhotes correm de volta para a segurança do lar.
Esta estratégia engenhosa de cuidado materno
que promove estes peixes discretos a estrelas da evolução
começou no lago Tanganyika.
Mas uma família excepcional de ciclídeos a levaria ainda mais longe.
Logo, eles se encontrariam nadando em um novo corpo de água doce
onde a velocidade da evolução superaria a de qualquer outro habitat do planeta.
Há 8 milhões de anos atrás
a atividade tectônica sob a savana da África Oriental
continuava forte, abrindo outra fenda profunda na crosta terrestre.
Então, o lago Tanganyika transbordou
criando um novo sistema de rios ao sul
que começaram a preencher esta fenda.
E cerca de 4 milhões de anos atrás, outro lago profundo se formou.
O lago Malawi.
Alguns peixes transbordaram com o Lago Tanganyika
e foram levados pelos rios em direção ao novo lago.
Mas apenas uma espécie de ciclídeo sobreviveu à jornada de 160 km.
Era um incubador oral do grupo dos haplocromídeos
segundo o cientista evolutivo, professor Tom Kocher.
Provavelmente, foi uma única espécie que invadiu o lago.
A migração do Tanganyika para o Malawi não foi tão rápida durante a enchente.
Foi uma longa viagem, por muitos quilômetros de rios.
Quanto tempo a migração levou é um mistério.
Mas os haplocromídeos devem ter se reproduzido no caminho.
E a incubação oral teria garantido a sobrevivência dos descendentes.
O que aconteceu a seguir, no lago Malawi
não tem precedentes na história do planeta.
Em pouco mais de um milhão de anos,
a população original de ciclídeos se multiplicou de um para muitos ramos diferentes
resultando em mais de 500 espécies diferentes.
Os chimpanzés e os seres humanos surgiram de um ancestral comum em um processo similar.
Hoje, nós dividimos cerca de 98% do nosso DNA com os chimpanzés.
Nós somos mais próximos dos chimpanzés do que os gorilas.
Este grupo oferece uma janela para o nosso passado distante
mostrando a evolução da variada gama de interações humanas
e as origens do nosso sofisticado uso de ferramentas.
Mas nosso ancestral primata precisou de mais de 10 milhões de anos de mutações
para dar origem a três grandes primatas e ao ser humano moderno.
Compare com a rapidez e a variedade da evolução do ciclídeo.
A especiação dos primatas também foi acelerada quando os primatas antigos
trocaram as florestas pelas savanas.
separando-se fisicamente do nosso ancestral comum.
No lago Malawi, os ciclídeos não têm como fugir dos vizinhos.
No entanto, novas espécies podem surgir em poucos séculos.
Pelo menos dez vezes mais rápido.
Esta é a especiação mais rápida já vista em vertebrados,
e é um modelo para o estudo dos processos de evolução.
O melhor de tudo é que este ainda está em curso no lago Malawi
em alta velocidade, até hoje.
O motivo por que estes ciclídeos começaram a sofrer mutações e evoluir dez vezes mais velozmente
do que nosso ancestral primata
é uma história de sobrevivência nas condições mais adversas.
Os lagos dependem dos ventos e tempestades para que os minerais do fundo subam a superfície
agindo como fertilizante para o plâncton e outros organismos.
Com o lago Malawi ficando cada vez mais profundo,
surgiu uma competição intensa pelo alimento disponível.
Uma das famílias começou a peneirar o fundo
adaptando-se para sugar bocados de areia,
filtrar minúsculos organismos nutritivos e eliminar o restante.
Outro grupo, chamado de utaka
se desenvolveu para coletar um plâncton invisível, na água.
Enquanto isso, a luz solar que atravessava a superfície do lago
permitiu que algas crescessem em rochas a 10 metros de profundidade.
Fornecendo comida a outro grupo de especialistas, chamados mbuna.
E suas adaptações para compartilhar as algas nutritivas
ilustram o poder da evolução no lago Malawi.
Apesar da competição por comida
duas espécies de mbuna podem se alimentar lado a lado no mesmo chumaço de algas.
Uma espécie se alimenta em posição perpendicular à rocha
abrindo a mandíbula 180 graus para maximizar o contato de seus lábios.
Seus dentes são curtos e dispostos em várias fileiras
ideais para raspar células microscópicas dos ramos de algas.
Ele não come os ramos.
É por isso que o dono da rocha permite que ele a use.
Em contraste, os dentes do dono da rocha crescem em filas
e são feitos para triturar.
Ele se alimenta em um ângulo de 30 graus
mastigando os ramos de algas, como uma vaca pastando.
Então, os ciclídeos comedores de algas se dividiram em 400 variedades
entre raspadores, cortadores,
mastigadores e arrancadores.
Todos de espécies diferentes que só podiam se reproduzir com seus semelhantes.
Mas a competição por comida não explica toda a variedade de espécies de ciclídeos.
Outra forte influência impulsiona a evolução no lago Malawi.
E esta força vital é
o sexo.
Na sociedade dos chimpanzés,
a hierarquia dita que os machos dominam o processo de cortejo
e do acasalamento.
Como as fêmeas investem tanto tempo cuidando dos filhotes
a lógica diz que elas deveriam ser muito exigentes ao escolher os pais de seus descendentes.
Mas as fêmeas cruzam com vários machos
durante seus ciclos reprodutivos,
embora favoreçam aqueles que lhes trouxeram carne das caçadas.
Essa estratégia encoraja uma guerra entre os espermatozoides
na qual os genes de melhor qualidade fertilizam o maior número de fêmeas.
E como os machos agressivos não sabem quais são seus filhos
eles são menos incitados a machucá-los.
Em contraste, a vida sexual dos ciclídeos gira em torno da escolha das fêmeas.
No lago Malawi, as fêmeas de cada espécie desenvolveram uma série de critérios exigentes
para as qualidades que desejam em um parceiro.
Esta pequena fêmea passa por um canteiro de obras que pertence a um macho.
Para impressionar parceiras em potencial os machos erguem montes de areia que serão usados como ninhos
para os ovos da fêmea.
Os morros são erguidos lado a lado, em uma área específica
onde as fêmeas se reúnem para conferir as obras.
Este macho escava ao redor de uma pequena rocha
empilhando a areia para criar uma rampa em sua tentativa de atrair uma parceira.
Mas é impossível saber qual projeto será o vencedor.
Quando uma fêmea aparece
os machos também dançam para reforçar sua sedução.
As fêmeas exigentes vão de morro em morro
avaliando os dançarinos e suas obras antes de fazer uma escolha.
Esta fêmea prefere um morro, com uma encosta íngreme.
Outras preferem cones mais baixos e circulares.
É o poder das fêmeas de fazer escolhas sofisticadas
que arma o cenário para a mudança evolutiva rápida.
Uma nova espécie pode surgir quando certas fêmeas
só cruzam com machos que constroem montes com um formato específico.
Como este, construído em cima de uma pedra.
Logo, surge uma divisão
com algumas fêmeas preferindo os montes com o novo formato,
enquanto outras preferem o mais tradicional.
As fêmeas começam a ignorar certos machos
e eles acabam parando de se reproduzir
tornando-se duas espécies distintas.
De agora em diante, esta fêmea só cruzará
com machos que erguem montes inclinados.
E suas descendentes fêmeas provavelmente farão o mesmo.
É fim de dezembro, no lago Malawi.
Começa a temporada de chuvas.
Ao anoitecer, uma tempestade se aproxima.
O dedicado casal de kampangos guarda um novo ninho
repleto de alevinos famintos.
Os filhotes têm por volta de 15 centímetros de comprimento sem contar os bigodes,
Mas os ciclídeos predadores garantem que qualquer fugitivo esteja condenado.
Mas os jovens bagres precisam comer.
Seus pais exemplares resolveram este problema
com um fantástico truque evolutivo.
A fêmea retorna de sua caçada.
Imediatamente, sua prole corre até ela, e se concentra sob sua barriga, cutucando-a.
E quase como um mamífero lactante
ela produz ovos não fertilizados para alimentá-los impedindo que morram de fome.
Os kampangos são os únicos peixes do planeta que desenvolveram esta capacidade.
Ela garante a sobrevivência dos filhotes
em meio ao caos da vida entre os ciclídeos.
Nos lagos do Vale do Rift, a incubação oral
levou os predadores a tomarem atitudes extremas, e desenvolveram táticas
para contornar as defesas da boca.
A incubação oral parece infalível.
Mas neste lago cheio de mutantes, há uma reviravolta sinistra.
A fêmea do ciclídeo horei, protege cuidadosamente sua boca cheia de ovos.
Mas, se olharmos com atenção
parece que suas defesas já foram penetradas.
Ela está transportando ovos amarelos menores
que pertencem a outro peixe.
Enquanto seus ovos continuam se desenvolvendo
os ovos menores começam a eclodir
dando origem a invasores.
Alevinos de bagres.
Depois de absorver seus vitelos
os jovens bagres começam a devorar os ovos de ciclídeos.
É um banquete macabro
que dá início à jornada destes predadores implacáveis.
Este comportamento em que uma mãe desavisada cria os filhos de outra espécie
é conhecido entre os pássaros, especialmente os cucos.
Mas a fêmea de horei sofre um destino especialmente cruel.
Quando ela liberta seus filhotes
todos os seus bebês desapareceram.
A fêmea de bagre botou seus ovos ao lado dos dela
e a induziu a criar uma família de parasitas ferozes
que comeram toda a sua preciosa prole.
Mas os ciclídeos possuem uma última tática diabólica
em seu antigo embate evolutivo com os bagres kampango
que confirma seu status como os peixes mais inteligentes do planeta.
Bem acima do lago Malawi, dois meses de chuva
culminam em um espetacular enxame de mosquitos-pólvora.
Milhões de pequenas larvas se desenvolveram no lago
e agora, multidões de adultos decolam para se acasalar
em vastas nuvens de 180 metros
oferecendo um banquete a revoadas de pássaros.
Quando os ovos do acasalamento em massa caem no lago
os kampangos jovens deixam o ninho pela primeira vez
para devorar as larvas recém-nascidas dos mosquitos
detectando as presas com seus bigodes longos e sensíveis.
Os bagres kampango do lago Malawi vinculam seu ciclo reprodutivo a este evento sazonal
para garantir um começo de vida nutritivo para sua cria.
Mas algumas espécies de seus rivais ciclídeos
desenvolveram um último estratagema que usam para levar vantagem.
Neste ninho de kampango
os filhotes de bagre com um mês de idade, são cercados por convidados improváveis e indesejados.
Jovens ciclídeos.
Eles deviam estar protegidos na boca de sua mãe.
Por que eles estão aqui?
Alguns dias antes uma ciclídeo fêmea com a boca cheia de filhotes
escolheu este ninho como sendo adequado, e libertou sua prole.
Contrariando todos os instintos de voltar para casa
os jovens ciclídeos invadem o ninho do inimigo.
Em uma trégua espantosa entre inimigos ancestrais
o casal de kampangos não come os intrusos.
Eles os ignoram
porque os filhotes são tão pequenos que não vale a pena comê-los.
E porque, provavelmente, o caos gerado pelos filhotes extras
pode salvar alguns dos alevinos de kampango dos predadores.
Para a fêmea de ciclídeo seus filhotes saem ganhando com a proteção extra
e com as sobras da comida dos kampangos
neste acordo evolutivo entre dois oponentes inteligentes.
Às margens dos lagos do Vale do Rift, na África
nossos primos chimpanzés oferecem um vislumbre único do nosso próprio passado evolutivo.
Com seu vasto repertório de comportamentos, tão familiares para nós.
Comparar primatas sofisticados com pequenos peixes pode parecer um exagero.
Mas os ciclídeos não são peixes comuns.
Cada aspecto de suas vidas foi aprimorado à perfeição pelo processo da evolução.
Novos dentes para novos alimentos.
Soluções engenhosas para a construção de ninhos.
E um talento diabólico para enganar seus inimigos.
Mas, no fim, é sua complexa inteligência social
e a devoção de fêmeas e machos a suas famílias
que oferece uma nova perspectiva à vida de todos os primatas.
Em meio ao caos que é a vida nos lagos do Vale do Rift
os pequenos e inteligentes peixes ciclídeos são os sobreviventes por excelência
neste planeta mutante.
Legendado por: Pedro Dantas
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