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No centro da vida, está o DNA.
Quando um filamento sofre uma modificação.
Ocorre uma mutação que é repassada adiante.
Se criar uma vantagem,
a mutação irá prosperar
conduzindo a evolução, a energia vital de nosso planeta mutante.
PLANETA MUTANTE
O cerrado do Brasil é uma vegetação vasta,
similar à savana africana.
Mas onde ficam os rebanhos de antílopes e os predadores que os perseguem?
O cerrado parece vazio, mas nesta terra misteriosa
as aparências enganam.
Ela é repleta de seres bizarros.
O predador é um mamífero mutante, cuja língua é maior que um braço.
O lobo se alimenta de frutas.
Os macacos andam eretos, como os humanos.
Os fantasmas de criaturas extintas assombram a vegetação
fornecendo pistas de um passado violento.
Neste amplo teatro da evolução
toda criatura sobrevive graças as mutações sofridas
e porque os personagens evoluíram juntos
em uma comunidade única.
Como este mundo estranho funciona?
E como ele se transformou?
CERRADO BRASILEIRO
América do Sul. Estendendo-se pelo centro do Brasil está o cerrado
que significa "fechado".
Uma vegetação de 200 milhões de hectares três vezes maior que o estado do Texas.
Nesta noite de fim de outubro
parece que as estrelas caíram do céu.
Um fenômeno misterioso que existe há milhões de anos.
A luz do dia revela uma paisagem estranha.
A marca registrada do cerrado: o cupinzeiro.
Muitos, muitos cupinzeiros. Mais de 50 por hectare.
A seca chegou. São seis meses praticamente sem chuva.
Onde estão os habitantes que vivem aqui?
A região parece vazia, com exceção dos montículos.
Mas há movimento.
É um tamanduá-bandeira em sua incursão matinal.
Com um corpo de 2 metros e 36 quilos
garras parecidas com as de um urso e um rabo similar a uma vassoura de bruxa
o tamanduá-bandeira é um mamífero bizarro.
Esta é a fêmea.
Com um filhote de seis meses.
Por fora, os cupinzeiros parecem abandonados.
Mas, por dentro, há uma obra-prima da arquitetura
com túneis, passagens e câmaras repletos de milhões de cupins.
E o tamanduá tem as ferramentas sensoriais e físicas para achá-los.
Apesar de quase cego
ele tem um olfato 40 vezes mais aguçado que o do ser humano.
Localizar o banquete é fácil.
Os cupinzeiros são fortalezas de barro.
Mas as garras do tamanduá foram feitas para escavá-los.
A boca especializada cuida do restante.
O tamanduá não tem dentes e sua língua chega a 60 centímetros.
Ela é ligada a músculos abaixo do osso esterno
que impulsionam a língua a se mover para dentro e para fora mais de 150 vezes por minuto.
A presa gruda na saliva
produzida pelas glândulas salivares
e viaja por um tubo estreito em seus maxilares fundidos.
Ela pode ingerir até 30 mil cupins por dia
a quantia necessária para sua sobrevivência.
Por que ela mantém algo tão pequeno?
A resposta está no que os cupins comem.
Quando a escuridão cai, as legiões de operários deixam o cupinzeiro.
Eles trabalham à noite por causa dos habitantes que rondam esses montes
e porque eles não suportam a luz solar.
Durante a noite, todos os cupins obtém até 45 quilos de gramíneas secas e ervas.
Quatro vezes mais do que uma vaca come por dia.
Dentro dos montes, os cupins estão digerindo a grama,
e o seu sistema digestivo a converte em proteínas.
Cada cupinzeiro possui
mais de um milhão de cupins cheios de proteína,
não é uma má alimentação assim para este gigante.
Mas há uma parte do cupinzeiro
que nenhum tamanduá pode explorar.
Nas profundezas de uma câmara subterrânea vive um ser monstruoso.
É a rainha dos cupins, que controla a colônia.
Como a única reprodutora,
ela bota dez mil ovos por dia
criando uma ampla família de irmãos e irmãs.
Os ovos se alimentam de feromônios antes de eclodir
predeterminando seu futuro papel.
Mas todos trabalham sem parar para a sobrevivência da colônia
expandindo o ninho à medida que a família cresce.
Leva-se décadas para construir um cupinzeiro.
Mas os fósseis são provas
de que os cupins tiveram mais de 200 milhões de anos de prática.
Por que o tamanduá-bandeira só existe na América do Sul
Se os cupins espalharam-se por todo o planeta?
Uma vista aérea do antigo cerrado proporciona uma pista.
A vegetação se parece muito com a da savana africana.
O ciclo climático de seca e chuva no cerrado
também é similar ao africano.
E esta ema enorme parece muito com o avestruz africano.
O macho cuida dos ovos, assim como o avestruz macho.
Não é uma coincidência.
Há 180 milhões de anos atrás
a América do Sul, a África e a Antártida eram interligadas
como parte do supercontinente Gondwana.
Há cerca de 150 milhões de anos atrás
a África começou a se desligar da América do Sul
um processo que durou 45 milhões de anos.
À medida que o continente se separava os primeiros mamíferos pequenos surgiam.
Alguns ficaram presos na África e outros, na América do Sul
onde começaram a evoluir tomando rumos bem distintos.
A maior parte da América do Sul estava coberta de florestas
quando a família do tamanduá-bandeira surgiu.
Ela se chama Xenarthra que significa "articulações estranhas"
porque ao contrário de qualquer outro mamífero
os desta ordem têm articulações extras entre as vértebras
que fortalecem suas costas e auxiliam as patas traseiras durante a escavação.
O DNA mostra que os primeiros xenartros surgiram na América do Sul
há 70 milhões de anos atrás.
Cerca de 5 milhões de anos depois,
o xenartro ancestral evoluiu em muitas espécies.
Um ramo da árvore genealógica gerou as criaturas com casco
como os tatus.
Outro ramo produziu famílias de xenartros peludos
incluindo os tamanduás.
Muitos ancestrais tornaram-se extintos.
Mas o tamanduá-bandeira e o tatu sobreviveram.
Milhões de anos de pequenas mutações no DNA
geraram maxilares, línguas e garras especializadas
para coletar formigas e cupins.
A vida do tamanduá-bandeira centralizou-se nos cupinzeiros.
A relação entre predador e presa parece uma via de mão única.
É conveniente para o tamanduá,
mas como os cupins minúsculos lutam contra o gigante e sobrevivem?
É a estação da seca no cerrado brasileiro.
Toda a umidade da temporada de chuva se foi.
Mas a fêmea de tamanduá continua sua caminhada rotineira
entre os 300 cupinzeiros que ela visita diariamente.
Suas garras curvadas
chegam a 15 centímetros
e são tão difíceis de se equilibrar quanto um salto alto.
Assim, ela aprendeu a usar a lateral das patas.
Ela precisa de 30 mil cupins por dia
para abastecer o corpo
e produzir leite para seu filhote.
Mas, curiosamente, ela gasta apenas três minutos em cada cupinzeiro,
como se estivesse cronometrando cada parada.
Ela dedica ao menos dois minutos para o trabalho exaustivo de perfurar o barro.
Ela poderia facilmente destruir o cupinzeiro com as garras
e comer todos os cupins de que precisa.
Mas ela não faz isso.
Os cupins soldados, alertados pela perfuração partem para o ataque.
Mas sua camada densa de pelos a protege das mordidas
enquanto ela devora seu banquete.
Este é um dos exemplos mais claros da coevolução predador e presa
no reino animal.
O tamanduá geralmente faz apenas um buraco em cada cupinzeiro
e ingere aproximadamente a mesma quantidade de cupins em cada um.
O cupinzeiro sofre um prejuízo mínimo
e os operários o reparam com grãos de fezes envoltos em terra.
Surpreendentemente, cada baixa de cupins estimula a rainha a botar mais ovos
os quais substituem os operários devorados pelo tamanduá.
Portanto, a população permanece estável.
Neste antigo contrato entre predador e presa
os cupins obrigam o tamanduá a seguir adiante antes de destruir a colônia
o que garante o futuro de ambos.
Mas isso não explica como pequenos cupins
e xenartros esquisitos vieram a dominar o cerrado
no lugar dos antílopes e felinos da savana africana.
Algo significativo deve ter acontecido aqui.
Mas, por muito tempo, ninguém sabia o quê.
A resposta foi encontrada em 1988, a sudoeste do cerrado
no vale do Tinguiririca, nos Andes chilenos.
Paleobiólogos descobriram fósseis de 30 milhões de anos
que abriram uma janela importante do passado.
O professor Darin Croft mostra um fóssil da escavação.
Este é o crânio de um animal chamado hegetotherium.
Ele tinha um tamanho médio para um notoungulado.
Era como uma raposa.
A ordem Notoungulata era bem diversificada.
Havia criaturas pequenas e grandes.
E cada família tinha características particulares.
Aparentemente, rebanhos de herbívoros com cascos os notoungulados,
prosperaram na América do Sul.
Mas nessa época o continente era coberto por florestas densas.
Portanto, o que os animais comiam foi uma revelação surpreendente.
Este comia plantas. Sabemos disso por causa dos dentes.
E também podemos dizer que tipo de planta.
Ele comia plantas abrasivas em hábitats abertos
que desgastavam os dentes, por isso eles são bem coroados.
Era um hipsodonte.
Se olharmos esta dimensão, vemos que é achatado em cima
porque foi desgastado pela vegetação muito firme.
Essa vegetação muito firme era grama.
A descoberta de um animal com casco que pastava não é revolucionária.
Mas os antigos animais descobertos na escavação do vale Tinguiririca
viveram há 32 milhões de anos atrás.
Cerca de 14 milhões de anos antes da criação da savana africana
que, até hoje, era considerada a mais antiga pelos paleobiólogos.
Isso proporcionou aos cupins do cerrado e aos animais que dependem deles
um pontapé evolucionário.
Mas como esta savana sul-americana surgiu?
Há 34 milhões de anos atrás, um evento geológico gigantesco ocorreu.
A Austrália finalmente separou-se da Antártida e Gondwana deixou de existir.
Correntes polares fluíram para a recém-isolada Antártida
que começou a congelar.
Uma das primeiras porções de terra a sentir os ventos gelados da Antártida
foi o continente mais próximo, a América do Sul.
Isso pode ter provocado a redução das florestas no Chile e Brasil
e o surgimento de uma planta que dominaria os solos expostos.
A grama. Com crescimento rápido e rica em minerais
ela transformou a vegetação sul-americana para sempre.
Os fósseis encontrados em Tinguiririca representam os mamíferos
que teriam pastado no antigo cerrado.
A regra universal da natureza é que onde se veem animais de pasto
também se encontram grandes predadores.
No cerrado, um deles tinha 3 metros e 360 quilos.
A ave do terror.
Ela era incapaz de voar, mas corria tão rápido quanto um guepardo.
Era uma assassina especializada
que podia engolir uma presa de uma só vez.
Pequenos notoungulados e os ancestrais do tamanduá-bandeira
foram vítimas da ave do terror.
Mas 30 milhões de anos depois,
o tamanduá-bandeira ainda existe,
enquanto a ave do terror e os notoungulados, há muito se extinguiram.
Há 2 milhões de anos atrás
a América do Sul vivenciou sua primeira era glacial.
Nos 2 milhões de anos seguintes
o ciclo de eras glaciais e períodos de aquecimento, repetiram-se 20 vezes.
Durante os períodos mais quentes,
mais da metade das espécies antigas de herbívoros foram extintas
porque a pastagem tornou-se escassa.
Mas o cupinzeiro resistiu a cada crise
e, com ele, o tamanduá.
Por depender de cupins pequenos e abundantes
o tamanduá-bandeira evitou a extinção.
Mas para aproveitar o máximo de sua presa
ele desenvolveu mecanismos para armazenar energia.
O tamanduá tem um cérebro bem pequeno em relação ao corpo.
O cérebro consome a maior parte da energia de um mamífero.
Portanto, um cérebro pequeno preserva energia.
A temperatura de seu corpo é de 32 graus,
a menor de qualquer mamífero terrestre, poupando assim mais energia,
enquanto a camada de pelos aquece seu corpo.
Ele não é o único sobrevivente deste planeta mutante.
Este é o lobo-guará
que tem uma espécie de crina nos ombros.
Comparado ao tamanduá, ele é um habitante recente do cerrado brasileiro.
Como seus ancestrais chegaram aqui é uma pista à mudança geológica
que liquidaria o restante dos animais de pasto.
O lobo-guará se adaptou perfeitamente à vida na vegetação rasteira.
Suas patas compridas
permitem que ele veja por cima da grama.
Como todo lobo, ele caça pequenos mamíferos.
Mas curiosamente, este lobo também se alimenta de frutas,
principalmente da fruta-de-lobo.
A lobeira, da mesma família da venenosa beladona
é tão amarga que a maior parte dos animais a evita.
Mas sua fruta contém componentes que matam os parasitas renais
que assolam o lobo-guará.
Sem a fruta-de-lobo, a vida do lobo-guará seria miserável.
Estranhamente, a maior parte das lobeiras cresce em pequenos montes.
Os lobos sempre defecam ali
para marcar território.
Sua dieta rica em frutas
libera sementes de lobeira nas fezes.
E estas sementes não germinam se não forem ingeridas por um animal como os lobos.
Graças ao lobo-guará, lobeiras crescem no cerrado.
Este é outro exemplo de um pacto coevolucionário para sobrevivência mútua
provocado por um evento geológico dramático.
Há 3 milhões de anos atrás, uma elevação tectônica
fez surgir vulcões no mar entre a América do Norte e do Sul.
Cem milhões de anos de isolamento depois
uma ponte de terra ligava os dois continentes.
Em um grande intercâmbio
os animais começaram a transitar de um lugar para o outro.
A maioria rumou para a América do Sul
inclusive cervos, cavalos e lhamas.
Eles foram perseguidos por uma nova raça de predadores.
Raposas, onças-pardas, tigres-dentes-de-sabre, ursos e lobos.
Os carnívoros atacaram os animais de pasto remanescentes
e, consequentemente, provocaram sua extinção.
A antiga ave do terror também desapareceu superada pelos novos predadores.
Nas montanhas rochosas que margeiam o campo
uma comunidade de macacos-prego também resiste à seca.
Seus ancestrais surgiram nas florestas africanas
há 30 milhões de anos atrás
e chegaram à América do Sul bem antes do intercâmbio
provavelmente por outro método de colonização
transportados em troncos ou fragmentos pelo oceano.
O macaco-prego alimenta-se de frutas em florestas tropicais.
Como as árvores do cerrado não produzem muitas frutas
estes macacos vão até o solo para se alimentar.
Com a fartura de cocos
os macacos-prego descobriram como retirar sua água.
Há cerca de três meses
estes macacos ousados colheram outro punhado de cocos
e os deixaram secar ao sol.
Agora, eles estão prontos para serem abertos.
Estes primatas geniais usam ferramentas
para romper a casca firme
e ter acesso à polpa nutritiva.
Algumas rochas têm a metade do peso do macaco.
Golpes repetitivos nos frutos e carregamento de rochas
modificaram os músculos das pernas e costas dos macacos-prego.
Assim, eles andam eretos, como os humanos.
O clima seco do cerrado conduz a evolução deste comportamento extraordinário.
Todo este barulho e agitação atraiu a atenção de um grande carnívoro do cerrado.
O jaguar.
Com a crescente seca, o risco de predação aumenta.
A vastidão de grama do cerrado tornou-se mais seca.
O tamanduá fêmea atraiu a atenção dos machos,
exalando odores, demonstrando que está pronta para o acasalamento.
Intimidado pelos machos, o filhote foge e se esconde.
O tamanduá-bandeira acasala a cada dois anos
e as fêmeas geram apenas um filhote.
O jovem tamanduá volta para sua mãe
mas apenas temporariamente.
Quando chegar a hora de sua mãe dar à luz, um período que dura mais de seis meses,
o jovem tamanduá terá de deixá-la e seguir seu próprio caminho.
É meio de outubro, e nuvens de tempestade surgem.
Mas não chove.
Em vez disso, a tempestade produz relâmpagos
e, de repente, o cerrado está em chamas.
Sem chuva por seis meses
o fogo se alastra rapidamente pela grama seca.
Os habitantes do cerrado enfrentam sua maior provação.
Todos fogem,
no desespero de escapar e desviar do fogo desenfreado.
As chamas consomem os cupinzeiros.
Quando a queimada chega ao fim o cerrado parece sem vida.
Provocada pelos relâmpagos, a queimada é um evento anual
há milhões de anos.
Muitos habitantes aprenderam a evitar sua devastação
como a jiboia, que sobreviveu ao se esconder em uma toca.
A vegetação se transformou em terra chamuscada.
Mas os jovens pica-paus estão seguros
protegidos pelas paredes sólidas construídas pelos cupins
assim como todos os outros habitantes do cupinzeiro.
O cupinzeiro resiste a todo desastre
do cerrado.
À prova de chamas, seus buracos ao nível do chão
evitam a asfixia dos habitantes por fumaça e gás carbônico.
Gradualmente, os sobreviventes reaparecem.
Após a queimada, a chuva finalmente cai.
Assim como o cerrado adaptou-se à seca, ele reage à chuva.
As plantas e árvores têm seus próprios truques evolucionários
para reviver após o fogo.
No solo queimado,
o verde avança com a germinação das sementes de grama.
Para sobreviver ao fogo
a grama armazena nutrientes no subsolo.
Mesmo as poucas árvores desenvolveram camadas de cortiça
para proteger o tecido vivo da queimada.
Agora, graças a chuva, o cerrado transforma-se em um oásis.
Felizmente, o tamanduá fêmea e seu filhote escaparam
da queimada deste ano.
É fim de tarde e a chuva cessa brevemente.
As condições são boas.
No interior dos cupinzeiros
as rainhas têm gerado crias diferentes dos operários.
São cupins alados
e agora é a hora de revelar o porquê.
Um sinal invisível provoca um êxodo
de milhares de machos e fêmeas com asas.
Uma vez por ano esta revoada de acasalamento perfeitamente coreografada
é um método genial
de permitir que cupins da mesma família
possam copular com cupins de ninhos diferentes.
Isto rompe o domínio genético
reprodutivo de cada rainha.
Depois de acasalar, cada fêmea torna-se uma rainha
e retorna ao solo com seu parceiro
para construir um novo monte
que abrigará bilhões de ovos durante dez anos.
Com o cair da noite, os cupinzeiros transformam-se.
Cada um brilha com pequenos pontos de luz verde.
Todos parecem sincronizados ao começarem a reluzir.
É como se as estrelas do cerrado tivessem caído sobre a terra.
Esta é a larva do vaga-lume, outro habitante do cupinzeiro.
Uma reação química produz uma bioluminescência verde
em um poro de sua cabeça.
Estas larvas viveram enterradas nas paredes de barro por três anos.
E nas profundezas de seu DNA,
elas são programadas para este evento anual.
Sua iluminação acende repentinamente e os cupins alados são atraídos pela luz.
Ao se aproximarem
a vibração das asas intensifica ainda mais a luz das larvas.
Esta é uma atração fatal.
As larvas de vaga-lume aguardaram um ano para este banquete.
É a única vez em que se alimentam.
Elas não podem se movimentar
portanto a luz é a única fonte para atrair alimentos.
Sem proteína, elas não sofrerão a metamorfose para a vida adulta.
Este espetacular show de luzes ilumina o gênio da evolução.
Mas o seu brilho não termina aqui.
Um último elo une esta comunidade como nenhum outro.
Na temporada de crescimento que sucede a chuva
o cerrado fica ocupado dia e noite.
Novos cupinzeiros são construídos
e a lobeira dá mais frutos, para sorte do lobo-guará.
Mas, de todas as espécies, esta é a mais diligente.
Formigas-cortadeiras marcham em ordem fazendo o que seu nome sugere.
Elas ficam invisíveis durante a estação seca
porque se alimentam de plantas verdes.
Agora, chegou sua vez.
Mas como elas sobrevivem durante a outra metade do ano?
Seus ninhos subterrâneos fornecem abrigo e segurança
além de um jardim secreto.
Ali dentro está a diferença entre as formigas e os cupins.
As formigas levam as folhas até um jardim de fungos.
Os cupins comem grama seca, convertendo a celulose em proteína.
Mas as formigas-cortadeiras não podem fazer isso.
Então, elas levam as folhas para os fungos comerem
a partir do qual elas absorvem seus nutrientes.
As formigas cuidam do jardim de fungos o ano todo.
E os fungos retribuem o favor abastecendo toda a colônia.
Na temporada de crescimento as formigas trabalham a mais
para colher o alimento dos fungos.
Elas carregam folhas, flores e, principalmente, sementes.
Na noite passada, o lobo-guará comeu frutas,
e, como sempre faz para marcar território
defecou no topo de um monte.
Agora as formigas-cortadeiras confiscam as sementes de lobeira
que passaram pelo sistema digestivo do lobo.
E elas vão parar no formigueiro, para alimentar os fungos.
Algumas das sementes germinam dentro do formigueiro
e crescem para além do jardim de fungos
atravessando os túneis até alcançar a luz do sol.
Isso explica por que as lobeiras crescem sobre montes.
Com o jardim de fungos abaixo fornecendo nutrientes às raízes
as lobeiras crescem o ano todo, na aridez do cerrado
beneficiando os lobos e as formigas.
É outra antiga parceria
que propicia vantagens mútuas para cada elo da cadeia da vida.
Entretanto, há uma influência que interfere na sincronia da vida no cerrado.
Em algum momento, os homens chegaram aqui.
E como os cupins e as formigas aprenderam a tirar proveito da vegetação.
Mas os homens negligenciaram a complexa cadeia da vida
tão essencial ao cerrado.
Eles retiram mais do que deveriam
e fracassam na retribuição.
A agricultura reduziu o cerrado em dois terços
nos últimos 50 anos.
Mas a parte remanescente agora está protegida.
Meses de chuva constante transformaram a vegetação.
O filhote de tamanduá, agora independente
logo irá se separar da mãe,
que está prenha novamente.
Quando crescer, ele poderá escavar inúmeros cupinzeiros
que imperam aqui.
Mas, como sua mãe
ele terá uma cota restrita a cada banquete
e nunca gastará mais de três minutos em cada cupinzeiro.
Encoberto no DNA deste jovem tamanduá há um código antigo
para garantir que ele permaneça fiel a esta notável parceria.
Se ele honrar o contrato
o reinado dos cupins continuará a prosperar
ao lado de outros elos na complexa cadeia da vida
que compõe o cerrado brasileiro
única neste planeta mutante que chamamos de Terra.
Legendado por: Pedro Dantas
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