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Original subtitles

No centro da vida, está o DNA.

Quando um filamento sofre uma modificação.

Ocorre uma mutação que é repassada adiante.

Se criar uma vantagem,

a mutação irá prosperar

conduzindo a evolução, a energia vital de nosso planeta mutante.

PLANETA MUTANTE

A terra do calor,

do fogo

e do veneno.

Um continente seco, similar a Marte com solos tóxicos.

Ainda assim, os animais evoluiram para viver aqui.

Monstros improváveis,

dragões, dinossauros

e diabos.

Famílias de marsupiais excêntricos dominam cada hábitat

deste continente antigo.

De onde eles surgiram.

Que forças os formaram?

Como eles sobrevivem nesta terra de mutantes?

AUSTRÁLIA

A Austrália é um laboratório isolado e flutuante

onde os habitantes originais vivem há milhões de anos.

Ao se multiplicar, eles sofreram mutações.

Cada variação genética

foi testada pelo ambiente extremo.

Apenas as mutações vantajosas sobreviveram

e foram passadas adiante

até o continente ser dominado por criaturas esquisitas

encontradas em nenhum outro lugar do planeta.

O deserto cobre mais da metade da Austrália.

No auge do verão, é um dos lugares mais quentes da Terra.

Mais de 46 graus Celsius.

Répteis prosperam aqui.

O diabo-espinhoso, coberto de espinhos camuflados

é capaz de sobreviver com o mínimo de umidade.

bem como o varano-gigante, um predador e carniceiro cruel.

Que tipo de mamífero poderia sobreviver nessas condições?

O canguru vermelho.

Os machos têm a cor do deserto.

Chegam a 1,8 m e pesam 90 kg.

As fêmeas pesam 35 kg e apresentam tons cinzentos.

A heroína desta história é uma fêmea adulta mãe de um filhote de 10 meses.

Todos os filhotes de cangurus aqui são chamados de Joey.

Esta é a unidade familiar.

O macho não participa da criação do filhote.

A fêmea deve garantir a sobrevivência de cada geração.

Ela dedica a vida à prole.

Os cangurus pertencem a um grupo de mamíferos, os marsupiais

geralmente representados por uma fêmea com filhotes na bolsa.

No deserto esta mãe ainda fornece leite para o filhote

embora não beba água há cinco dias

tempo suficiente para matar um homem.

Mas os marsupiais são sobreviventes mutantes.

A evolução equipou todas as 156 espécies de marsupiais vivos

com uma variedade de armas secretas.

Algumas compartilhadas outras exclusivas

que os permitem explorar qualquer hábitat.

Nas florestas montanhosas da Tasmânia, vive o maior marsupial carnívoro da atualidade.

Em uma bolsa abaixo do estômago este diabo-da-tasmânia

guarda dois filhotes de oito semanas.

Uma maneira genial de transportar a cria.

Seu olfato aguçado a leva até uma carcaça de wallaby.

Os gritos expressam dominância.

E os maxilares mais fortes do planeta proporcionalmente ao tamanho do corpo

executam o trabalho diabólico.

Cinco deles limpam uma carcaça em menos de uma hora.

Nas florestas de eucalipto vive o arborícola coala

que leva a vida mastigando folhas de eucalipto,

que, por acaso são tóxicas.

Seu sistema digestivo é adaptado para desintoxicar esta fonte de alimento abundante.

Mais isso demanda muita energia

assim como criar os filhotes.

O cérebro queima muita energia.

Para compensar, eles têm um cérebro pequeno do tamanho de um tomate.

Ironicamente, isso proporciona uma vantagem evolucionária

que deixa mais energia livre para escalar, carregar filhotes,

e comer mais folhas tóxicas.

Seus primos, os vombates, cavam buracos profundos.

Para se proteger dos predadores

eles desenvolveram uma camada de pele impenetrável contra ataques pela retaguarda.

Mas os habitantes do deserto enfrentam o maior desafio.

Os buracos d'água secaram.

Então, surge a primeira habilidade de sobrevivência do canguru.

Ela praticamente parou de urinar.

Seus rins reciclam a uréia, ajudando-a a sobreviver

e a continuar produzindo leite.

O canguru-vermelho desenvolveu

uma série de ajustes extraordinários a estas condições adversas.

Como toda a família de marsupiais, estas mudanças evolucionárias

remetem a história geológica do continente australiano.

Uma história que começa no lugar mais improvável

bem antes de a Austrália existir.

Há 125 milhões de anos atrás,

a China Oriental

se agrupou à América do Norte

em um vasto bloco continental, chamado Laurásia.

Um fóssil da época

fornece a única pista do ancestral original dos marsupiais.

Ele se chama Sinodelphys szalayi.

Com 15 centímetros e 30 gramas ele parecia um pequeno rato.

O segundo fóssil de marsupial mais antigo foi encontrado no atual estado de Utah, nos Estados Unidos

datado de cerca de 110 milhões de anos atrás.

Aparentemente, os marsupiais da América do Norte teriam se dirigido para o Sul

provavelmente via ilhas vulcânicas.

Durante essa maratona

o pequeno Sinodelfhys

evoluiu para várias formas de marsupial.

E estas espécies espalharam-se pelo antigo continente de Gondwana.

Gondwana começou a se fragmentar há 130 milhões de anos atrás.

Finalmente, a Austrália separou-se da Antártida

e formou um novo continente

isolando muitas novas espécies de marsupiais.

É provável que tenha havido outros tipos de mamíferos.

Mas o que aconteceu a eles permanece um mistério.

O que sabemos é que a era de marsupiais começara.

O canguru-vermelho atual está a milhões de mutações genéticas

de seu ancestral chinês.

E mesmo essas mutações

podem não prepará-lo para o impiedoso deserto.

Com os buracos d'água secos

a família de cangurus enfrenta seu maior desafio.

Que tipo de adaptação evolucionária poderia salvá-los

nesta zona mortal?

Os habitantes do deserto abandonam o buraco d'água seco.

E a fêmea de canguru-vermelho sabe que deve seguir adiante.

Pasto e arbustos tornaram-se escassos.

Apesar de sua tolerância à desidratação extrema

ela precisa encontrar água logo.

Especialmente para o bem de seu filhote.

O varano-gigante representa apenas uma ameaça

para um jovem enfraquecido pela fome.

E a cobra mais perigosa do mundo a taipan ocidental ronda este terreno árido

armada com um veneno

que mataria um animal dez vezes maior que o canguru.

Mas o maior perigo para os habitantes do deserto

é o hábitat em que vivem.

A Austrália central sofre de estiagem há uma década.

Até os cangurus necessitam de água uma vez a cada dez dias.

Sem ela, o filhote morrerá,

e posteriormente, sua mãe.

Eles aguardam o vento fresco para iniciar a jornada.

Agora é hora de utilizar uma

de suas adaptações mais incríveis.

O salto.

Suas vidas dependem desta forma única de locomoção.

Deixe-me ver se consigo enquadrá-la. Espere.

O Dr. Adam Munn é um zoólogo conhecido no mundo inteiro.

Isso, isso. Mantenha a velocidade.

Apaixonado por cangurus, Adam os captou a 50 km por hora

e observou que um canguru-vermelho adulto atinge, em média, 25 km/h.

É uma boa velocidade.

Eles saltam com as patas traseiras bem juntas.

Parecem que pisam no chão com uma pata só.

Em longas distâncias, eles são muito mais eficientes que um quadrúpede.

Ficou perfeito.

A análise científica confirma

que, em velocidade de cruzeiro o salto do canguru

é mais eficaz do que o galope de um cavalo ou a corrida de um galgo inglês

devido à forma que os cangurus armazenam e reutilizam energia.

É fantástico.

Cada salto se inicia nos dedos.

Os músculos da panturrilha contraem-se.

E o longo tendão de Aquiles se estende ao máximo.

É como saltar com um par de molas.

Os tendões armazenam a energia de cada salto

e a liberam no próximo.

A cauda vigorosa também armazena energia e ajuda o animal a equilibrar-se.

Esta forma de locomoção

é exclusiva a um grupo de marsupiais conhecidos como macropodídeos, que significa "pé grande".

E todas as espécies da árvore genealógica

evoluíram do ancestral encontrado na China, o Sinodelphys

que não saltava.

Então onde e quando o salto surgiu?

Norte de Queensland, costa leste da Austrália.

Em bolsões da antiga floresta tropical reside uma pista para resolver este mistério.

O DNA deste rato-almiscarado-marsupial

data de 45 milhões de anos.

Esta pequena criatura é um exemplo vivo

de como os cangurus começaram a saltar.

Seus ancestrais ​​foram os primeiros macropodídeos

e seus pés grandes são prova disso.

Mas em vez de usar os dois pés ele salta com os quatro.

Apesar da diferença no rato-almiscarado-marsupial

o Dr. Adam Munn acredita que ele explica

como este salto evolucionário pode ter ocorrido.

Vemos que, quando estão se alimentando na floresta eles sentam nas patas traseiras,

e observam à sua volta em busca da próxima refeição.

Conforme eles foram crescendo

é possível ver em sua anatomia e movimentação

a origem do salto dos grandes cangurus.

O salto pode ter se originado com pequenos marsupiais da floresta.

Mas a Austrália estava prestes a entrar em uma nova fase

que transformaria o salto drasticamente.

Há 45 milhões de anos atrás, o continente inteiro era verde.

Vastos rios fluíam através de uma rica vegetação.

O local perfeito para o crocodilo que lembra um dinossauro.

Ele deve ter caçado antigos macropodídeos nas margens do rio de seu reino.

Embora fossem apenas um aperitivo para ele.

A Austrália verde não resistiria.

O novo continente derivava para o norte após a separação de Gondwana.

Enquanto ao sul

correntes oceânicas

fluíam pela recém-formada Antártida

esfriando-a.

Lentamente, ela congelou e sua umidade transformou-se em gelo.

Quando a Austrália moveu-se em direção a linha do equador o continente começou a secar.

Com a mudança climática

as florestas tropicais australianas tornaram-se campos abertos.

E os marsupiais tiveram de se adaptar, ou morreriam.

O rato-almiscarado-marsupial permaneceu na floresta tropical.

Mas seus primos começaram a se diversificar

desenvolvendo novas habilidades no percurso.

A mudança climática pode ter transformado o macropodídeo

de saltador quadrúpede a saltador bípede.

Ao longo de milhões de anos atrás, com o clima mais seco e quente

surgiram os macropodídeos mais recentes.

Há apenas um milhão de anos atrás, o canguru-vermelho dominou o deserto.

Hoje, é o maior marsupial do planeta.

Uma combinação de mutações genéticas únicas

que o permitem sobreviver em uma zona mortal.

Mas mesmo este herói mutante

pode ser vítima da longa seca

e dos predadores do deserto.

Amanhece no deserto

e faz oito dias que a mãe e o filhote canguru beberam água.

Com o calor crescente, eles precisam descansar.

Apesar da sua capacidade de armazenar umidade

a mãe precisa encontrar água nos próximos dois dias

ou deixará de amamentar o filhote.

Mas, por enquanto, ela ainda tem leite.

Nos últimos dois meses, o filhote cresceu demais e já não cabe na bolsa.

E a mãe não o deixa entrar

porque há mais alguém abrigado ali.

A fêmea tem outro filhote, quase sem pelos

com apenas 12 semanas.

A estratégia de reprodução de cangurus-vermelhos

é uma obra-prima da maternidade.

Há oito semanas,

a mãe recusou que o outro filhote ficasse abrigado em seu marsúpio.

Então, ela começou a lamber a parte interna da bolsa.

E sentou-se sobre a cauda

sinalizando o início de algo especial.

O nascimento de um novo filhote.

Todos os marsupiais chegam ao mundo desta forma.

É um recém-nascido minúsculo, cego e subdesenvolvido.

Ele navega instintivamente no canal de parto da mãe

até a segurança da bolsa.

O recém-nascido agarra-se firmemente aos mamilos

aos quais permanecerá colado nos próximos meses.

Sua mãe produz um hormônio que convida

outro macho a acasalar com ela.

Com uma expectativa de vida de 12 a 15 anos a fêmea

sempre consegue carregar um filhote na bolsa enquanto cuida de outro.

Esta super-mãe tem uma forma genial de alimentar ambas as crias.

Há quatro mamilos na bolsa dois curtos e extras, e dois longos, em uso.

Este sistema de amamentação

é o mais sofisticado dos mamíferos

e fornece um leite diferente a cada filhote.

O recém-nascido precisa de um leite

rico em carboidratos e sem gordura.

Enquanto o outro filhote requer um leite pobre em carboidratos e rico em gordura

para suplementar a vegetação que já começa a comer.

Este ciclo reprodutivo notável

garante a melhor chance de sobrevivência para os cangurus do deserto.

Mas o antigo continente da Austrália é um mosaico de hábitats desafiadores

para todos os sobreviventes mutantes.

Desde que a Austrália se separou de Gondwana

houve poucos terremotos e erupções vulcânicas.

Assim, trata-se do continente mais plano.

No sudoeste da Austrália o solo é praticamente areia.

Mas a vida aqui se adaptou de maneira surpreendente.

Flores selvagens parecem desafiar o terreno árido em que nascem.

E elas precisam ser vistosas

para atrair polinizadores neste ambiente inóspito.

E quem seriam estes polinizadores?

A professora e bióloga Marilyn Renfree é especialista em marsupiais.

É o suficiente.

Nos últimos 30 anos, ela cavou centenas de buracos

nesta área remota do sudoeste da Austrália.

Está perfeito.

Uma atividade esquisita para uma bióloga.

A manhã revelará tudo.

É a coisinha mais linda.

Os buracos são armadilhas

para que a professora estude as estratégias de reprodução

destes pequenos marsupiais.

Ela tem um filhote.

Está começando a crescer pelos.

Isto é um gambá-do-mel

o único sobrevivente de um grupo de marsupiais extintos.

Como eles superaram outros membros da família?

Cada aspecto da vida destes marsupiais únicos

guarda uma pista.

São um dos poucos animais nectarívoros do mundo.

Eles se alimentam do néctar e pólen destas flores banksia.

O gambá-do-mel coexiste

com a planta predominante do ambiente.

Em troca de alimento, algumas flores dependem dele para a polinização

conforme ele dispara de arbusto em arbusto.

O tamanho é a próxima pista.

O gambá-do-mel está entre os menores marsupiais.

A fêmea dá à luz o menor mamífero do mundo

com menos de cinco miligramas.

Pode imaginar o sistema que reproduz algo tão pequenino? É incrível.

No entanto, é o gambá-do-mel macho

que guarda o segredo para o sucesso neste tipo de ambiente sem água.

Eles têm os maiores testículos do mundo, em relação ao tamanho do seu corpo.

Já imaginou um homem com testículos do tamanho de melancias?

Um homem com testículos tão grandes não conseguiria se mover, ao contrário do gambá-do-mel macho.

Mas há algo ainda mais fascinante neles.

De todos os mamíferos, eles possuem o maior espermatozoide.

Com 0,36 milímetros, quase três vezes maior do que o espermatozoide do ser humano

e muito maior do que o de uma baleia cachalote azul.

O tamanho deste espermatozoide evolucionário é muito importante.

Quando a fêmea está no cio, copulando com vários machos

é o maior espermatozoide que obtém vantagem

em concorrência ao de outros machos.

Quanto maior o espermatozoide,

mais rápido ele vai chegar ao óvulo.

Durante milhões de anos, os machos com os maiores espermatozoides e testículos

recebeu a maioria de seus descendentes,

e assim eles passaram essa vantagem para a nova geração.

A estratégia inusitada de competição na reprodução,

deixou um primo do gambá-do-mel em segundo lugar.

Ao contrário do gambá-do-mel este pequeno rato-marsupial é carnívoro.

Ele possui um ciclo de vida incomum,

estabelecido em torno da Austrália.

Durante os primeiros 10 ou 11 meses de sua vida,

este rato-marsupial carnívoro só come e cresce.

Ele precisa reunir o máximo de energia

porque, no último mês de sua vida, este trabalho vai matá-lo.

Na primavera, os machos de rato-marsupial carnívoro tornam-se obcecados por acasalamento.

Param de comer e de dormir,

apenas para perseguir as fêmeas a todo vapor.

Duas semanas após o acasalamento, a testosterona

leva-os ao auge da glória, e depois todos eles morrem.

Os ratos-marsupiais carnívoros são facilmente substituídos.

Talvez a razão para esta estratégia

é que os ratos-marsupiais carnívoros não conseguiriam competir por comida e garantir sua própria prole.

Na sorte da genética, adaptações reprodutivas incomuns

ajudaram o rato-marsupial carnívoro e o gambá-do-mel

a sobreviver, enquanto outros marsupiais foram extintos.

Eles se adaptaram melhor, garantindo sua sobrevivência.

No deserto, os ajustes especiais do canguru-vermelho fêmea

já não são suficientes para salvar seus filhotes do calor implacável.

Onze dias sem água,

e a família de cangurus se vê em uma situação difícil.

A fêmea já não consegue produzir leite para suas crias.

O filhote mais velho corre mais risco.

Um predador em potencial anuncia sua presença.

É o suficiente para retirar os cangurus

do descanso

rumo ao calor implacável.

É o cão selvagem australiano, o dingo.

E esta fêmea avalia suas chances.

Em plena luz do dia, neste calor extremo uma caça bem sucedida é improvável.

Mas este momento é simbólico.

Cada um representa uma das principais linhas da evolução.

Ambos mamíferos

com estratégias reprodutivas bem diferentes.

A fêmea de dingo tem filhotes da mesma idade do jovem canguru.

Mas a grande diferença é que ela ainda não deu à luz.

Eles ainda estão em seu útero.

Ela nutre a cria pelo cordão umbilical

ligado à placenta

que fornece nutrientes da mãe e filtra os resíduos.

Primeiro, o feto de canguru, como todos os marsupiais

também recebe nutrientes da placenta.

Mas a semelhança termina aí.

O marsupial nasce antes de se desenvolver totalmente.

E faz sua jornada instintiva até o marsúpio.

Ali, ele troca o cordão umbilical pelos mamilos e continua a crescer.

Já o filhote de dingo se desenvolve no útero materno por nove semanas.

E nasce totalmente formado.

Duas estratégias completamente diferentes e bem-sucedidas.

Uma mutação ancestral pode ter causado essa divisão

fornecendo uma vantagem que foi passada adiante.

Mas qual delas veio primeiro

é um dos maiores mistérios biológicos.

A família de cangurus chega a outro buraco d'água seco.

Acompanhada por outros desesperados por água.

Alguns sofrem reunindo forças para continuar

enquanto outros desistiram.

A fêmea já não consegue alimentar o filhote mais velho.

Exausto, ele sofre para se sustentar com a vegetação seca.

Sem água ou leite materno ele tem pouco tempo de vida.

A mãe sabe o que deve fazer.

Fraco demais para continuar, o filhote está vulnerável

neste cenário impiedoso.

O varano-gigante sente a iminência da morte em sua língua bifurcada.

Após 11 dias sem água o pequeno filhote de canguru sucumbiu à estiagem.

Sua morte sustentará o varano-gigante por semanas.

Apesar das sofisticadas adaptações dos cangurus

80% dos filhotes não sobrevivem por mais de dois anos.

O fardo da fêmea adulta é aliviado sob um custo doloroso.

Mas ela ainda tem um recém-nascido no marsúpio.

Mesmo estressada ela tem mais um truque evolucionário

que garantirá a sobrevivência de sua espécie.

O canguru-vermelho viaja na noite fria

como faz desde o início

do aquecimento do continente há milhões de anos atrás.

No século 21, a Austrália continua esquentando

sempre de forma imprevisível, e a chuva torna-se cada vez menos frequente.

Cada estiagem dura mais que a anterior.

E o catalisador é um ciclo de eventos

que ocorre longe do centro árido da Austrália.

Uma imagem térmica mostra como, a cada cinco anos

a temperatura da água do Oceano Pacífico sobe.

Este fenômeno é conhecido como El Niño

e sempre foi culpado pela seca australiana.

Mas uma descoberta recente mostra que as estiagens

coincidem com dois ciclos de mudança de temperatura da água do Oceano Índico.

Um extremo gera ventos que acumulam umidade

causando chuvas pelo continente.

O outro enfraquece os ventos, reduzindo as chuvas.

Parece que o ciclo está na fase mais fraca desde 1992.

É a pior estiagem já registrada.

Esta é a realidade que os marsupiais devem enfrentar.

E eles desenvolveram estratégias para sobreviver ao calor

e ao fogo que a seca provoca.

Mas um milhão de anos de mutações não basta

para que este canguru-vermelho sobreviva a dias sem água.

Ao atingir o limite de suas reservas

uma nuvem de umidade da costa

é impulsionada pelos ventos até o centro da Austrália

onde se choca com o calor do deserto

e culmina numa tempestade.

Faz muito tempo que esta terra não sente a umidade.

A chuva finalmente cai no deserto icônico da Austrália

um evento extremamente raro.

A tempestade violenta envolve Uluru

com cascatas e riachos.

Pela manhã, o deserto transformou-se.

Vários buracos d'água criam uma rede de oásis.

As aves chegam primeiro.

Bandos enormes de cacatuas corella

uma águia-audaz

diamantes-mandarins.

Cacatuas de galah.

Finalmente a fêmea de canguru, desidratada avista a água da salvação.

Outros nômades do deserto a acompanham.

Ela pode enfim relaxar.

Mas seria tarde demais para seu filhote?

De alguma forma, esta mãe extraordinária continuou produzindo leite,

e protegeu sua cria.

A tempestade não acabou com a seca

mas a chuva pôde restaurar a força familiar dos cangurus.

Três meses depois, o filhote está robusto e brincalhão.

Mas havia outro milagre escondido dentro da mãe

durante sua longa jornada.

Lembram do último acasalamento,

quando seu filhote nasceu

pouco antes que ela saísse em busca de água?

Durante toda a sua jornada

a fêmea de canguru-vermelho carregava outro embrião

em um estado de animação suspensa chamado diapausa.

Ele não se desenvolvia, mas estava vivo

aguardando um sinal.

Incrivelmente, a mãe não controla o desenvolvimento do embrião.

É o irmão, no marsúpio.

Enquanto ele continua sugando o leite nos mamilos seu futuro irmão

permanece em animação suspensa.

Quando o irmão deixa de mamar e abandona a bolsa

as células fertilizadas viram um embrião.

Apenas trinta dias após a concepção

o recém-nascido faz sua jornada até a bolsa

e o ciclo começa novamente.

As fêmeas de canguru-vermelho

podem carregar filhotes em três estágios distintos.

Esta estratégia de reprodução extraordinária

possibilitada por seu marsúpio

e transportada por seu salto

é o ápice deste lugar e desta época.

Mas a evolução não tem fim.

Com as secas da Austrália cada vez mais extremas e frequentes

esta ilustre sobrevivente deve continuar evoluindo

para continuar sua jornada em nosso planeta mutante.

Legendado por: Pedro Dantas

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