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Legendas: Lu�s Filipe Bernardes
N�o esque�a o barulho do cavalo hoje, hein?
Sim, meu querido.
R�camier, cad� o figurino? O trem parte daqui a 18 minutos.
Viu o circo na pra�a? Lotado. No m�nimo 4,000 fr. de bilheteria.
Encenar "Antony'' d� nisso. Teatro vazio.
� o fim da arte.
N�o tem como parar essa algazarra?
Devem estar ouvindo a m�sica no palco.
Pelo menos deve alegrar. Aqui entre n�s, "Antony" � um t�dio.
� de Alexandro Dumas. Pode ser, mas � um t�dio.
Madame Marceau, me passe sua capa de renda.
J� fez o caixa, M. Charles?
423 fr. S� d� para as passagens.
- Era de se esperar. - Por qu�?
Porque Antony � um t�dio.
Bem que disse ao patr�o para mudar o itiner�rio.
Assim n�o nos apresentar�amos junto com o circo.
Com 14 pessoas na plateia mais valia reembols�-los que trabalhar.
Saint-Clair insistiu. Pagaram ent�o me apresento.
Culpe dele se perdermos o trem. Leva a noite toda apunhalando a mulher.
O cinema em frente fez 1,200 fr.
- � o fim da arte. - Cuide da cortina. Eu acabo aqui.
Depressa, o �nibus est� esperando. V�o descendo com isso!
- Estou exausta! - Dormir� no trem.
"Minha filha, minha filha!"
"� uma crian�a. Achar� gra�a disso tudo."
''� Armand, � meu marido!"
"� Deus, tende piedade de mim!"
- "Est� tudo terminado." - "Est� subindo as escadas."
"� ele. V�, V�!"
"N�o fugirei!"
"Ad�le, h� pouco n�o disseste que n�o temias a morte?"
"N�o, n�o! Mata-me, por piedade!"
"Uma morte que salvar� tua reputa��o e a da tua filha?"
- Imploro-te de joelhos! - Abram esta porta!"
"Em atendendo �s tuas s�plicas n�o odiar�s teu assassino?"
"Bendi-lo-ei, mas apressa-te... a porta..."
"N�o temas. A morte se antecipar� a ele!"
"Sonha ent�o com a morte..."
"Eu a quero, a desejo. Imploro-lhe, venha ao meu encontro!"
Vamos! O trem parte em 14 minutos
''Muito bem, morre!"
"Infame! Que vejo eu? Ad�le!"
- "Morta! - Ela resistiu, eu a assassinei.''
Desce a cortina!
- Mexa-se. S� temos 11 minutos. - Subam as cortinas para os aplausos!
Aplausos, que aplausos? O trem parte em 11 minutos!
- Mas o p�blico clama por mim! - Passe a peruca.
- Ora... - Com licen�a, M. Saint-Clair.
Apresse-se. O �nibus est� esperando.
Certas noites matamos melhor que outras. Hoje foi perfeito.
Na primeira fila uma loirinha n�o tirava os olhos de mim.
Pouco lhe importava o Senhor Alexandre Dumas.
N�o tinha ouvidos, s� olhos.
Olhos para belo Saint Clair.
- "Aguardarei � meia-noite na igreja." - Como?
Nada. Estou decorando o texto para amanh�.
Amanh� se apresentar�o sem mim. Amanh� Saint-Clair os deixar�.
Saint Clair cansou de se apresentar para a ral�.
''Quinze para meia-noite l� estarei com o menino."
A vida � Paris, as mulheres. Tircis, h� que se desfrutar.
- Retiro-me para minhas terras. - Tem certeza que tem terras?
Pescar trutas, ca�ar fais�es, festas �ntimas, eis os meus planos.
N�o se esque�a de mim para os 'garden parties'.
Quase esque�o minhas cal�as!
Levarei as malas. Podem pegar na esta��o.
O trem parte em 8 minutos. O �nibus est� esperando.
Estamos a caminho.
- Peguem sua bagagem de m�o! - Tome isso. Vou pegar as passagens.
- Para mim s� at� Tarasco. - Est� bem.
Vai nos abandonar?
Saltarei em Villy Vou passar uns dias com amigos.
- Mas... - Deixarei meu endere�o.
Conhe�o o endere�o. Abadia St. Jean la Rivi�re.
- Retiro de Artistas. - N�o!
Sim, um asilo de velhinhos. Vi a carta de admiss�o no camarim.
Mas ele conta � sua maneira.
N�o sinto pena. Teve de tudo: dinheiro, sucesso, mulheres...
Infelizmente, faltou sorte no jogo.
- Como �, n�o vamos? - J� est� tudo arranjado.
� uma propriedade cercada de canais, jardins, espelhos d'�gua... me encanta.
- Podia ir te visitar. - Mas s�o pessoas de alto n�vel...
acho que se sentiria deslocada.
Tudo bem, mas na intimidade as coisas mudam de figura, n�o?
� verdade, j� notei, mas meus gostos mudaram.
Agora � bridge e ca�adas.
- Por que ele mente desse jeito? - Sempre viveu num mundo de sonhos.
Tamb�m j� pensei num retiro, mas n�o consigo me decidir.
Isso � natural quando se est� cansado....
...depois tr�s noites seguidas dormindo num trem.
Suas passagens.
O verdadeiro artista nunca larga o palco.
- Pode me ajudar a passar o texto? Quando chegarmos � villa.
Atores num asilo. Que idiotice!
Acham que douram a p�lula. Artistas odeiam viver no campo.
Adoram �rvores contanto que fa�am parte do cen�rio.
Onde eu estava?
Vamos, todos a bordo! Quem se atrasar fica para tr�s!
ABADIA DE SAINT JEAN LA RIVI�RE
RETIRO DE ARTISTAS
- Vou � esta��o pegar o rec�m-chegado. - Chama-se Saint Clair.
N�o preciso de nomes. Giselle reconhece um canastr�o de longe.
N�o �, Giselle?
Que cara � essa? Os canastr�es andaram aprontando de novo?
Parecem crian�as. Tenho que dar o exemplo.
Especialmente o Cabrissade!
� sol, � tocha de luz imortal!
Bom dia, Sr. Lucien. Bom dia, caro mensageiro.
- Alguma correspond�ncia? - N�o!
Me surpreende. Esperava uma carta.
Foi voc�, M. Cabrissade, que cortou minhas flores na cerca?
O inocente Cabrissade n�o saiu do seu quarto.
Pois bem, isto para aqui. Farei um relat�rio.
Ri melhor quem ri por �ltimo!
N�o tenho por que rir. E desprezo difamadores.
Pois o Administrador o aguarda em sua sala.
Irei com todo prazer. � uma boa conversa.
- Dormiu bem, Mme. Chabert? - N�o muito.
Ah�, violando os regulamentos cortando flores da cerca.
S�o para Saint Clair. Ele chega hoje.
Sabe como � duro o primeiro dia aqui.
� sempre o mesmo com primeiros amores: flertes e jogos de sedu��o.
Saint-Clair � uma chama antiga?
- Ora, faz trinta anos. - Cora��o n�o tem idade.
Eu j� vou.
A prop�sito, n�o viu Marny?
Ainda n�o, mas pela topografia deste castelo...
uma cat�strofe � iminente.
- Sabe o que ele pretende fazer? - A prop�sito de qu�?
N�o receia que fa�a um esc�ndalo?
S� porque Saint Clair tirou sua mulher dez anos antes da guerra?
Certas coisas n�o se esquecem.
As boas talvez, mas as ruins...
Um quarto de s�culo me parece suficiente
para se consolar de uma chifrada, n�o?
Sabia que os dois nunca mais se reencontraram desde ent�o?
Sabe como �, a vida, as turn�s...
um em Paris, o outro em Montauban...
e os anos v�o passando.
Minha querida Chabert, n�o � para enrubescer seus cabelos grisalhos...
mas se fosse para matar meu rival cada vez que fui chifrado,
a Fran�a seria uma necr�pole.
Quanto �s flores, n�o se preocupe. Direi que fui eu quem cortou.
Ainda est� para nascer homem que meta medo em Cabrissade. .
Obrigada, Sr. Cabrissade
Oh, perd�o, Mme. Marcellin.
- Voc� tamb�m pensou o mesmo? - Sim.
- Conheceu-o bem? - Sim, faz tempo, numa turn�.
E eu em Veneza. Uma temporada maravilhosa.
- Ele era t�o bonito... - N�o. Mas muito sedutor.
Ele me dizia, 'Voc� � meu primeiro amor.'
Para mim tamb�m.
- Para quem ser� que ele mentia? - Para n�s duas, provavelmente.
Sim, mas com tanta ternura.
O que vamos fazer? S� temos um vaso no quarto.
Na nossa idade ele achar� que foi voc�.
- Homens n�o t�m mem�ria. - Mas t�m sorte.
O drama, Sr. Administrador � ter mem�ria.
Conhe�o como ningu�m o efeito do tempo nas feridas...
mas elas podem abrir-se novamente.
Entendo bem, Sr. Marny, mas o que posso fazer?
N�o me for�ar a conviver com Saint Clair.
Tenho direito de descansar. Minha vida foi um fracasso.
- Tudo? - Sim, tudo.
Minha vida como ator e minha vida como homem.
N�o tenho ilus�es. N�o estou na ribalta. Sei o que valho.
Tive talento, mas n�o sucesso.
Tanta gente tem sucesso mas nenhum talento.
Quanto � minha vida privada, que engodo...
Ora, Marny, na sua idade, t�o passional... Precisa ser generoso.
- Sua mulher morreu h� tanto tempo. - Tanto tempo?
Para mim parece que foi ontem.
- Lembra-se das circunst�ncias? - Sim, um acidente de ca�a.
Um acidente. Sim, � o que disseram.
Um acidente...
Se apenas pudesse ter certeza.
Convenhamos, meu caro,
nem voc� nem Saint Clair t�m recursos.
Para os dois a Abadia � o �nico ref�gio.
- Eu sei, vivo de caridade. - N�o seja amargo. Voc� foi um grande ator.
- Um grande ator sem p�blico. - Ningu�m � dono do pr�prio destino.
Outros menos talentosos que voc� fizeram sucesso.
Voc� faz jus ao descanso oferecido aqui.
- Seus colegas de profiss�o o fazem com orgulho. - Ent�o feche a porta a Saint Clair.
Confie em mim.
Entre!
Confie em mim, vai dar tudo certo.
- Com licen�a. - J� vou indo.
- Boas not�cias, Phil�mon? - Sim? Carta dos filhos.
Agora � todo dia?
Cinco filhas, 3 filhos e 26 netos
...� muita carta. Veja a foto.
- Tiraram na comunh�o da �ltima. - Nossa, que tribo!
- Que crian�as bonitas. - Mas como d�o problema.
T�-los pode dar problemas, mas n�o os ter s� d� tristeza.
- Por sorte voc� tem as crian�as dos outros, n�? - Eles chegaram?
Aguardo uma carta, mas faz 8 dias que est�o de f�rias e nada.
- Deve chegar amanh�. - Mas n�o estou preocupado.
Mas h� regulamentos, Sr. Diretor. Pe�o que sejam respeitados.
- Mesmo pelo Sr. Cabrissade. - Precisamos ser indulgentes.
- Mas tem limites. - Claro, mas voc� ainda n�o soube.
Nossos pensionistas passam aqui seus �ltimos dias de tranquilidade.
Temos que poup�-los nestes seus �ltimos dias.
- �ltimos dias? - Exatamente.
Sabe que nossa Funda��o vai mal h� alguns anos.
Estamos a zero. Mais gastos, aumento do custo de vida...
N�o d� mais. Recusaram qualquer cr�dito adicional..
- Hoje farei uma �ltima tentativa. - E se n�o funcionar?
Fecharemos a Abadia.
- E os velhinhos, v�o para onde? - Isso eu n�o sei.
Eles n�o suspeitam de nada. Ent�o, voc� entende...
Claro...
Mas Cabrissade est� exagerando, d� uma palavrinha com ele.
- Sim? - Meu Coronel, me apresento.
Bom dia, Sr. Administrador, como vai? Sua esposa vai bem?
Muito bem, obrigado.
Meu camarada, tenho umas perguntas a lhe fazer.
O prazer ser� todo meu.
Por qu�, apesar de pedidos cordiais,
voc� teima em cozinhar arenque em seu quarto empestando os corredores?
Odeio vitela e adoro arenque.
Est� se tornando cansativo.
Tamb�m j� pedimos que n�o desfile pelado pelas �reas comuns.
Nudismo � o segredo da boa sa�de.
Pode ser, mas precisa ser em frente das mulheres?
Alguma reclamou?
- N�o. - Ah, eu sabia!
O corpo masculino � obra-prima da cria��o.
Apenas esp�ritos tacanhos e retr�grados poderiam ser t�o intolerantes.
Toda noite voc� pula os muros.
De noite preciso de companhia, e quando volto as portas est�o fechadas.
Mas � o regulamento. E ainda acaba com as beg�nias.
Salto onde o muro � mais baixo.
E j� pedi ao Sr. Assistente para deslocar as beg�nias.
Todo dia voc� apronta alguma para exasperar seu colega Marny.
Pernas do pijama costuradas, n�s nos seus len��is,
sapatos escondidos no arm�rio de medicamentos, p� de mico...
Marny � seu bode expiat�rio.
O Sr. Marny � um pilantra.
Ele me ofendeu profundamente ao declarar diante dos meus colegas
que eu nunca tive o menor vest�gio de talento.
Est� se comportando feito uma crian�a.
Pela �ltima vez, quando vai ser razo�vel?
Nunca!
- Como? - J� disse. Nunca!
Ser razo�vel significa resignar-se.
Resignar-se significa envelhecer e eu n�o posso envelhecer.
N�o � da minha natureza.
Seu colega Marny sofreu um grande golpe em sua vida.
Hoje o destino reservou-lhe outra prova��o.
Durante o almo�o, pe�o que lhe dirija algumas palavras amig�veis...
- ...e que lhe estenda a m�o. - Ora, se o faz feliz...
Sim. Obrigado.
E por favor, menos arenques e mais cal�as.
Muito bem.
Estelle, minha querida, por favor, avise na cozinha...
que novamente o salsich�o veio mal cortado.
Numa comunidade como a nossa...
� nas pequenas coisas que se deve manifestar o senso de igualdade.
O peda�o dela � o dobro deste.
Quando vai parar de cuspir na comida?
Ontem voc� foi a primeira a dizer
que as sardinhas n�o eram da mesma lata.
j� que umas eram pequenas, outras grandes.
N�o � raz�o para cuspir no prato.
Minha cara Tusini,
minha vida toda s� conheci um ser t�o venenoso quanto voc�.
Foi numa turn� pelo Chile, com a grande Sarah.
Ao abrir minha valise de maquiagem, encontrei um escorpi�o.
Voc� se situa entre esse inseto letal e um cogumelo venenoso.
Minha querida, deixe passar manteiga no seu p�o.
J� n�o enxerga t�o bem, minha velhinha.
Nobres cavalheiros, boa noite!
Cara Estelle, pode congratular o chef por sua imagina��o.
Quem diria haver uma 27a maneira de preparar uma vitela.
Me perdoe, hoje � minha vez de de me servir primeiro.
N�o, Sr. Deaudonne, isso foi ontem. A prova � que se serviu ap�s Lamoine.
N�o, � a Mme. Marcellin. Lamoine foi anteontem.
N�o tem import�ncia.
Vamos, sil�ncio, crian�as.
Pe�o a palavra!
Caros amigos, meu caro Marny.
Veem diante de si a imagem viva do arrependimento.
De cabe�a coberta de cinzas, p�s descal�os, cora��o exposto...
eu me acuso.
Sou eu o Tartufo, os deuses me perdoem.
O espalhador de p� de mico, quem d� n� em len��is,
o fantasma que erra � noite pelos corredores...
...sou eu. Sou eu o veneno.
Querido Marny, pe�o-lhe que perdoe minhas mistifica��es passadas, presentes e futuras.
Eis minha m�o, com toda honestidade.
Sempre o considerei um buf�o sinistro.
Sinistro n�o sei, mas buf�o voc� tem raz�o.
Sou um jovem perdido numa Assembleia de Patriarcas.
Ele ainda nos insulta?
� um absurdo que o mais obscuro dos artistas no nosso meio...
queira impor-se como exemplo.
Quando o ator mais obscuro entrava em cena...
ningu�m roncava na plateia.
Nunca teve o menor talento!
- J� fiz 30.000 fr. de bilheteria! - S� se for na �frica!
Na �frica?
Jamais interpretou um papel numa pe�a de fato.
- Quem sabe um dia? - Voc� � ruim de doer!
Est�o todos contra mim. � a conspira��o dos anci�os
Pois aceito o desafio e previno-lhes que Cabrissade...
Claro! Onde h� desordem tem dedo do Cabrissade.
- Oh, M. Saint-Clair! - Bom dia, Cabrissade!
Insuport�vel como sempre! Que prazer sua fu�a.
Queridos amigos,
Rapha�l Saint-Clair assume entre n�s o lugar que sua idade e talento fizeram por merecer.
Uma grande perda para o teatro franc�s,
mas uma grande honra para nossa casa.
Encontremos um lugar junto aos seus colegas.
Seu lugar � aqui, entre os que pisaram os palcos parisienses.
Escolho sentar-me cercado de charme e sorrisos.
Bom dia. Bom dia, Berthelin!
Bem, j� vou. Sei que est� entre de amigos.
Obrigado.
- Bom dia, Deaubonne. - Bom dia.
- Bom dia, Lacour. - Bom dia, Saint Clair.
Ora, Mme. Marcellin! N�o mudou nada, minha querida.
Marny, voc� tamb�m est� aqui? N�o sabia.
Marny, o grande Marny. O destino � injusto, n�o merecia isto.
Obrigado.
- Gosta de vitela? - Amo!
Ent�o este ser� seu para�so terrestre.
- Bom dia. - Bom dia. Bom dia.
- Bom dia. - Bom dia.
- N�o me reconhece? - Claro, Lucille Chasseur.
- N�o, Chavert - Claro, Jeanne Chabert.
- N�o, Marthe. - Marthe Chabert, isso!
- Lembra-se? - Como?
Veneza... "Voc� � meu primeiro amor."
Ah, sim. Em que pe�a foi isso?
N�o... n�o foi uma pe�a.
Ora, a insuport�vel Tusini! Ainda morde muito, boneca?
N�o disse que voc� acabaria num asilo?
Pois n�o comemore, estou aqui s� de passagem.
- Acho o local encantador. - Vai se decepcionar. � cheio de restri��es.
O melhor hotel � sua pr�pria casa.
Quero descansar um pouco antes de seguir para Londres.
- Londres? - Uma bela obra me aguarda.
Regulamento da casa: "� proibido aos pensionistas o exerc�cio da profiss�o.
Se Paris me chama tenho que ir.
Afinal, � Paris ou Londres?
Devemos isso ao p�blico, � arte!
N�o temos o direito de desertar.
� uma crian�a mimada. Crian�as assim s�o incorrig�veis.
- Acho que ele tem estilo. - Mais que isso, charme.
A ponto de perdoarmos tudo.
Estava maravilhoso no Frohlach.
Assisti pelo menos dez vezes. Uma das minhas melhores recorda��es.
E eu de voc� em "Vielle Heidelberg". Que desenvoltura, jovialidade.
- Fui apenas correto... - N�o, n�o, Saint Clair tem raz�o.
Voc� n�o viu, mas eu tamb�m estava na plateia.
Estava magn�fico, meu caro.
Linda m�sica, me traz recorda��es curiosas.
Lembro-me de uma noite, cantando numa �pera,
no Metropolitan Opera de Nova York...
- Em Nova York? - Tem raz�o. Foi na �pera de Chicago.
Uma admiradora jogou-me um ramo de orqu�deas.
Eu contei. Havia 74.
Contei-as entre duas ta�as de Cointreau.
Que hist�ria � essa? Nunca cantou na �pera nem esteve na Am�rica.
� verdade. Mas se n�o inventasse recorda��es, n�o as teria.
N�o pe�o que acreditem, s� que escutem. Voc�s s�o meu p�blico.
Te adoro, Cabrissade! Voc� mente com franqueza. Bravo!
- Obrigado. E voc�, esteve na Am�rica? - N�o, mas escutem esta hist�ria verdadeira.
Uma vez me apresentei n�o em Chicago, mas em Montlu�on.
Interpretava o amante, como de costume.
Ap�s a cena do rompimento, uma mulher na plateia d� um tiro no peito.
- Hil�rio, n�o? - Muito engra�ado.
Em esp�rito, ele substituiu a atriz que fazia minha amante.
N�o queria sobreviver � separa��o.
- Que tal, Cabrissade? - Incr�vel. E ela morreu?
N�o, mas o marido pediu o div�rcio.
Agora ela trabalha como ponto no Teatro Real de Bruxelas.
Encontrei-a numa noite em que interpretava o amante, como sempre.
Isso n�o � mais costume, � um tique. Ela o reconheceu?
S� via meus p�s.
Ah, o teatro. Que vida, hein?
E a vida, que teatro.
# Na cabe�a das donzelas o amor impera #
# Apaixonadas, seus cora��es brilham arfantes #
# Juntas esperam a vindoura primavera #
# Quando o melro cantar� mais doce que antes #
� horr�vel envelhecer.
� s� ignorar. Olhe para mim, tenho 20 anos.
N�o daria mais que isso.
O que � isso?
Ora, � voc�, n�o?
- Mas claro, voc� n�o mudou nada. - Ora se n�o mudei.
- Pouca diferen�a. - S�o 22 anos de diferen�a.
22 anos? Mas isto � uma instant�nea...
e aqui � voc� est� posando h� 22 anos. Que paci�ncia!
- O que acha dele? - Quem?
- O menino? - Alto, encantador. Seu filho?
- Sim. - � seu filho.
- Era. - Sinto muito.
- Era simp�tico. - N�o �?
- Sim, muito simp�tico e bonito. - N�o �?
- N�o reparou em nada? - N�o, por qu�?
Olhe bem.
Parece algu�m que eu conhe�o, � isso? - Sim.
- Algu�m que conhece muito bem. - Quem?
- Pense. - Quem poderia ser?
Com Saint-Clair.
Como?
Sim.
E voc� nunca me disse.
- Falar demais faz mal. - Por qu�
Para evitar tivesse uma m� influ�ncia sobre ele.
Mas n�o guardo m�goa.
Convenhamos que n�o foi feito para ser pai de fam�lia.
- Era um rapaz bonito... - Sim...
Teria 28 anos.
28 anos...
idade de um jovem gal�...
- Ei, j� vai? - Os grandes c�rculos me esperam.
- � assim todas as noites? - N�o, hoje � dia de festa.
- Ah, isso me tranquiliza. - Voc� me acompanha?
Sempre pode contar comigo em momentos de adversidade.
Uma partida enquanto esperamos?
- M. Cabrissade disse que ia voltar. - Ent�o outra dose para passar o tempo.
- O que deseja? - O mesmo de sempre.
J� vou levar.
Uma caixa de cacau para Mme. Verdun, ela pagou?
Sim.
- E Cabrissade, tr�s arenques. - Ele n�o pagou.
- Ent�o estourou o cr�dito. - Disse que ficava pela lenha que ele trouxe.
Ah, tem raz�o.
Deixe em infus�o. Acabei do p�r a �gua quente.
- N�o est� lendo seu jornal? - Estava pensando.
- Coisas alegres? - N�o muito.
N�o se incomoda que eu costure?
- Voc� � a �nica que n�o me incomoda. - Apesar de n�o ter nada para falar.
N�o � preciso falar. Sua presen�a me consola.
- De qu�? - Da vida
S� de me olhar?
Sim, voc� � simples.
Porque o amor ainda n�o pintou seus l�bios de batom.
Tem dias que me d� medo. J� tenho 17 anos.
Voc� ainda n�o mentiu, nem me enganou.
N�o tenho nada a esconder.
Nunca brigou ou insultou ningu�m.
- � isso o amor? - �s vezes.
Diz isso para me amedrontar.
�s vezes tamb�m � mais doce, mais terno.
Mas, enfim, tamb�m � terr�vel.
Boa noite a todos!
Senhores, eis aqui o ilustre Saint-Clair, o rei de Paris.
Pagar� uma rodada para todos.
Uma garrafa de champanhe bem gelada.
Vou pegar na adega. Mas tem que pagar adiantado.
- Sou Rapha�l Saint Clair. - Me desculpe, mas aqui...
S� de me ver, o ma�tre do Fouquet j� me adiantava 10.000 francos.
- Em Paris s�o todos uns ot�rios. - Vamos, � sua primeira noite aqui.
Bem, tenho um espumante, mas s� porque � voc�.
- Convidamos Marny? - Claro.
- N�o quer brindar conosco? - Obrigado, vou terminar meu ch�.
Jeannette, v� pegar um espumante.
Menina bonita, seios fartos, ancas torneadas, uma tanagra.
- Conseguiu ver tudo isso? - Sou escolado.
N�o comece, essa mo�a � s�ria.
- Vamos �s cartas? - Claro, se voc� for destemido.
- Cuidado, estamos de olho em voc�. - Est� insinuando que trapaceio?
Conhe�o os sinais...
espadas eu co�o aqui, copas apalpo o peito...
e tusso para os trunfos.
Hm, voc� � sabido para guarda florestal.
� sua sa�de, patr�o.
- N�o joga cartas, amigo? -N�o, nunca.
At� bacar� � divertido quando se aposta alto.
- Perdeu muito dinheiro, n�o? - E tamb�m ganhei muito.
Mas dinheiro atrai mulher e mulher custa caro.
Teve muitas aventuras.
Elas se sentem atra�das e sei do que elas gostam.
Aventuras s� aparecem para quem procura.
Curioso encontr�-lo aqui na Abadia.
Um jogador como eu vir parar aqui � normal, mas n�o me arrependo.
Vivi plenamente. Mas voc�, me surpreende.
Nenhum defeito, talentoso... O que foi que aconteceu?
- Nunca fiz sucesso. - N�o acredito.
- Mas � assim. - Por qu�?
Existem perguntas sem resposta.
E aconteceu uma trag�dia inesperada.
Ora essa, ainda pensa naquela velha hist�ria?
Achava que n�o tinha se importado.
S� tive uma mulher na vida.
Ora, devia ter escrito ou ligado para mim, isso � imperdo�vel!
- Ademais, na minha vida, Lucienne... - Simone!
Sim, Simone...
teve um papel muito modesto.
- S� mais uma aventura passageira. - E como...
- Como ela morreu? - Ah, ela estava muito exaltada...
...qualquer coisa ela fazia uma cena.
- Estava infeliz? - Ora, n�o conhece as mulheres?
Acham que fidelidade significa alguma coisa.
Ent�o um dia durante uma ca�ada...
Est�o jogando copas, n�o pode cortar.
- Tem que desculp�-lo. N�o viu o trunfo. - Ah, n�o viu!
Numa ca�ada?
Ficou nervosa manejando a espingarda e quis o acaso que...
Enfim, morreu duas horas depois. - Ent�o foi um acidente?
Era meio estourada, mas n�o louca.
O que foi?
N�o se inquiete. � um indiv�duo pouco soci�vel.
Esperaram muito?
Olhos t�o lindos tudo podem permitir-se.
Vi sua foto hoje no jornal.
- S�rio? - Sim.
Dizia que voc� vinha para St. Jean de la Rivi�re
- � verdade que � famoso? - Quem disse isso?
O jornal.
Como voc� se chama?
Jeannette.
Voc� � linda, minha pequena Jeannette.
� voc�. Como chegou tarde.
Fui ver o Ministro, estava ocupado.
- Esperei horas em v�o. - E n�o falou com ningu�m?
Um funcionariozinho qualquer.
"A funda��o � uma institui��o privada, fa�a seu relat�rio."
N�o adiantou dizer que, oficial ou privada, 60 velhinhos iam ser postos na rua.
O que vai fazer?
Tentar sensibilizar a opini�o p�blica atrav�s dos jornais,
mas h� pouca esperan�a.
- Preparei uns frios para voc�. - Agrade�o muito, mas n�o estou com fome.
Acabei de passar pelo jardim. Os quartos estavam todos acesos.
V�o todos dormir sonhando com seus sucessos de outrora.
N�o suspeitam de nada.
Que mis�ria!
Ent�o, quando vai sair da�?
- J� faz 45 minutos. - E n�o � a vez dele.
- Pensa que est� num pal�cio. - Quem fica 45 minutos numa banheira?
O que faz algu�m
Estou terminando o cap�tulo. J� vou sair.
- Ouviram s�, lendo na banheira! - Ele � imposs�vel!
- O que foi dessa vez? - M. Saint-Clair se trancou de novo no banheiro.
- Pois tenho uma carta para ela. - Passa.
Isso deve fazer ele sair!
Mais carta de mulher. Cheirem!
- Todo dia � isso. - Inacredit�vel!
- Abra. Tem carta para voc�! - Um momento, farei o poss�vel.
N�o, imposs�vel. Estou completamente nu.
Bom dia, crian�as. Que desgra�a!
Uma noticia formid�vel, assombrosa, fenomenal.
- Onde est� Marny, o ilustre Marny? - L� embaixo bebendo.
Falaram dele no jornal.
E desta vez n�o � opini�o da buf�o sinistro Cabrissade.
Est� escrito aqui preto no branco.
Veremos um espet�culo sem precedentes.
Os f�s podem se empoleirar nas escadas. A apresenta��o ser� gratuita. Cortinas!
''Not�cias de Teatro''
Comunicamos a morte no Retiro de St. Jean la Rivi�re
do ator Gilles Marny.
Gilles Marny foi um ator de talento original,
pitoresco e �nico.
Criou importantes pap�is no teatro de boulevard
sem jamais conseguir conquistar o grande p�blico.
S� logrou sucesso entre seus pares.
Estranho caso desse ator...
que sempre teve que lutar contra a indiferen�a do p�blico.
Pode-se dizer que Marny foi uma estrela desconhecida, uma celebridade ignorada.
Este homem letrado, amigo de poetas e dramaturgos,
foi um grande protagonista que ser� mais lembrado por seus pap�is coadjuvantes.
etc... etc... etc...
Sua aus�ncia, portanto, passou despercebida.
P�gina 5, Coluna 3, em letras min�sculas.
Canalha!
- M. Cabrissade! Telefone! - Uh? Ah, sim...
Al�?
Al�? Eh? N�o escuto nada.
N�o escuto nada, meu Deus!
Como?
Mas como, � voc�?
Por que n�o me escreveu? H� tr�s dias estou aguardando sua carta.
Ahn?
E onde voc� est�?
No mesmo lugar de sempre?
Bem, em dois minutos estarei a�.
- Escoteiros! Em forma! - Sim!
Pierrot! Nem posso acreditar!
Tropa, descansar!
Bom dia, Sr. Cabrissade!
Como vai? Que bom te ver de novo!
Est�vamos esperando-o, Sr. Cabrissade.
- Voc� est� um homem. - O senhor n�o mudou nada.
- Um pouco mais barrigudo. - Trataremos de tir�-la, ent�o.
- Temos um projeto formid�vel. - Vamos construir uma ponte.
Ora, Toto! E Fernand, e Maurice!
Me digam por que se atrasaram este ano?
Por causa dos meus exames. Terminei o secund�rio.
- Inacredit�vel! - Venha jantar conosco.
- Sim, M. Cabrissade! - Ao trabalho, meninos!
Quando te conheci voc� era desse tamanho, quem diria?
Lembro bem, foi logo ali. Voc� cortava lenha.
Senti alguma coisa. Como se reencontrasse um filho perdido.
- Gostaria de ter tido um filho? - Ah, sim, um filho como voc�.
Se pudesse escolher acho que teria arriscado.
- Oxal� pud�ssemos escolher nosso pai. - N�o est� satisfeito?
Estou, mas ele que impor suas ideias e nem sempre concordamos.
Fam�lia � assim.
Se eu fosse seu tio ou um primo afastado tamb�m n�o me aguentaria.
- O que � isso? - Um acampamento de escoteiras a 300m.
Isso n�o � bom. � por isso que v�o construir a ponte?
N�o, elas acampam exatamente como n�s.
- Onde h� mo�as h� Historias de amor. - N�o � do nosso feitio.
Chefe, falta algu�m para as batatas.
- Onde est� Ra�l? - Raul est� cuidando da lenha.
- Ent�o o Andr�. - Andr� est� cuidando da �gua.
Ent�o eu! As batatas lembrar�o meu regimento.
- O senhor quer? - Assim n�o, precisa dar uma ordem!
- Cabrissade, Herm�s! Designado para as batatas! - Me sinto 20 anos mais jovem!
- Bom dia, Sr. Saint-Clair. - Bom dia, senhora.
N�o me cumprimenta por qu�?
Por que parou de cantar. Gosto muito da sua voz.
Quando voc� chega come�o a sentir medo.
- De mim? - � que me olha de uma maneira t�o engra�ada.
Que ideia!
Outro dia fui tomar banho de rio perto do castelo.
Nunca tem ningu�m.
De repente vi um cavalo me olhando. Fiquei t�o envergonhada.
Com voc� � a mesma coisa.
Quando me olha assim me sinto despida.
Faz-me lembrar de uma jovem encantadora que dizia a mesma coisa em outras palavras.
Aos poucos foi se acostumando e passado um tempo...
faz�-la vestir-se era uma dificuldade.
Qualquer coisa que digo voc� se lembra de uma mulher.
No seu lugar consideraria isso um elogio.
Evocar pessoas t�o sedutoras.
Seus olhos, uma princesa russa.
Sua boca, a mulher de um diplomata que se arruinou por mim.
Suas pernas, uma dan�arina.
E, no conjunto, uma mulher deliciosa que se matou.
Por sua causa?
N�o por minha causa. Por mim!
E voc� fala assim?
A morte amedronta os med�ocres, mas atrai os loucamente apaixonados.
Um minuto antes de morrer, ela escreveu, "Eu te amo, estou feliz."
Ent�o...
Ora veja, � minha camisa que est� passando.
Sim, s� voc� tem camisas de seda.
Gostaria de ter uma assim?
E meias t�o finas que � menor car�cia se sentisse o calor de sua pele?
- Essas coisas n�o servem para mim. - At� o dia em que algu�m lhas ofere�a.
Sei muito bem como a vestiria. Vejo-a envolta em peles deslumbrantes...
E sinto o perfume.
Diga-me, Jeannette,
podia pedir ao seu patr�o uns cigarros para mim?
Ontem mesmo ele disse, "Acabou o cr�dito, sobretudo para Saint-Clair."
- Mas voc� conseguiu mesmo assim. - Como gosta tanto, tirei das minhas economias.
Voc� � um amor.
Se n�o for inconveniente,
separe alguns de reserva para evitar coment�rios desagrad�veis.
Claro que lhe pagarei mais tarde.
Se lhe d� prazer, n�o tenho pressa.
Claro. Mas isso fica entre n�s.
Um segredo entre n�s � maravilhoso.
Est�o chamando o senhor, M. Saint-Clair.
J� vou.
Ele chegou.
Gaston Noblet.
Disseram na abadia que o encontraria aqui.
- Achei melhor do que esper�-lo. - Fez muito bem.
- Toma alguma coisa? - Uma cerveja.
Patr�o, duas cervejas.
Sou encarregado dos neg�cios da fam�lia Marsotte.
- N�o tenho a honra. - Ah, isso remonta a 1905.
Em agosto de 1905 voc�...
... voc� conheceu Mlle. Henriette Marsotte.
Ora, 1905 faz muito tempo.
Mme. Marsotte morreu em Paris no m�s passado.
Meus p�sames.
Pediu em confid�ncia a seu filho mais velho que devolvesse a M. Saint Clair...
- A mim? - A voc�.
Pediu que lhe devolvesse um anel que lhe pertencia.
- Curioso. -Um anel muito bonito. Talvez o reconhe�a.
Bonita joia.
Dada por um homem de bom gosto.
Espere, 1905? Deauville, o Grand Prix. Eu me lembro!
Mme. Marsotte usou esse anel at� seu �ltimo dia.
N�o lembro de Mme. Marsotte mas lembro perfeitamente de...
An�mone III, una linda potranca.
O palpite foi meu. 64/1. Lembro-me da corrida.
Achei que ia perder mas na �ltima volta An�mone avan�ou...
N�o se trata de um cavalo, mas de uma mulher...
que nutriu por voc� um sentimento profundo.
Lembro-me dos detalhes: a cabe�a sempre ereta...
acess�rios fin�ssimos de linhas arrojadas...
Senhor... a mulher est� morta.
Falava do cavalo.
De fato, naquela noite, tendo ganhado uma fortuna,
dei um anel a uma jovem que deve ser essa a quem se refere.
Devido � natureza excepcional do legado,
a fam�lia Marsotte decidiu exclu�-lo do invent�rio.
N�o precisa de recibo.
Quanto vale?
Qualquer joalheiro daria... 100.000 francos.
100.000! Grande An�mone!
Isto �, pobre Henriette! Espero que n�o tenha sofrido.
Ela se foi lentamente.
Minha miss�o est� cumprida.
Foi uma honra. Patr�o, a conta.
Jeannette, pode me trazer tinta e papel?
D� 4,50.
Quero que mande isso pelo correio.
M. Victor Leloup, valete do Marqu�s de Mircourt.
Salvo pela justi�a,
aguardo-o amanh� com tudo que for necess�rio.
M. Victor Leloup...
- Bom dia, Victor - Bom dia, patr�o.
- Dormiu bem? - Deliciosamente.
Deu trabalho encontrar ovos cozidos, torradas e o Le Figaro.
� bom saber que est� a�, Victor.
Sabe que � s� chamar que eu venho correndo.
- Sempre com a��car? - Sempre.
- O que fez do marqu�s? - Caso de for�a maior. Pedi demiss�o.
- Ele n�o disse nada? - "Victor, voc� � um desertor."
E voc� respondeu?
O servi�o do senhor marqu�s � uma necessidade
- ...o do Sr. Saint-Clair um prazer. - Era enfadonho?
Gente que n�o sabe viver. Dinheiro, rela��es, mas nenhum brilho.
Servir ao senhor � outra coisa: tem estilo e � pitoresco.
- O carro est� a�? - No parque e com tanque completo.
N�o criaram nenhuma dificuldade para o aluguel?
Nenhuma quando disse que era para o senhor.
- Ele corre? - Como um puro-sangue.
Voc� tem umas notas de mil para o primeiro dia, n�o?
N�o se preocupe, senhor.
- Quem �? - Um recado da Dire��o.
Estranha maneira de entregar documentos.
Ignore, nossa Dire��o est� em Monte Carlo.
Ah�, o coro dos anci�os.
- V�o cantar o que hoje? - Voc� n�o leu isto?
- O qu�? - O comunicado da Dire��o.
Nunca leio, � um princ�pio do qual me orgulho.
V�o suprimir o vinho das refei��es.
Cortar�o a luz a partir das 9 ou 10 da noite.
Enviar�o os enfermos para o hospital.
- � piada? - Pois leia.
- E por que tudo isso? - Aumento do custo de vida.
At� parece que custamos caro!
Ent�o � o grande penit�ncia que come�a. Era inevit�vel.
De tanta pol�mica que criou, os deuses te ouviram e acabaram se cansando!
Ficaram fartos e acabaram castigando voc�s.
N�o � gentil matar velhinhos, mas tudo tem limite!
Ainda bem que j� nos acostumamos � sua linguagem violenta.
Parece que houve problema na Abadia.
Estou por fora dessas coisas.
Foi o vinho que cortaram?
Quando se vive de caridade alheia n�o se pode formular reivindica��es.
Um sif�o, por favor.
Mesmo assim � duro.
- Quem �? - Vim pegar a mostarda.
Leve o sif�o.
Obrigado.
- Nunca mais se sentou comigo. - Tenho muito trabalho.
Anda distra�da. Est� pensando em alguma coisa.
- N�o � nada. - N�o estou pedindo que me conte.
N�o gosta mais de velho Marny, s� isso.
Isso me entristece.
Eles confirmaram? M. Cabrissade n�o vai deixar por isso mesmo.
Mas as bravatas de Cabrissade s� metem medo nas crian�as.
- Tem cigarros? - Ainda devo ter alguns.
- S�o para M. Saint-Clair. - Ah, ent�o n�o tenho mais.
Pagaremos � vista. Quatro ma�os. Uma pequena provis�o para a viagem.
- M. Saint-Clair vai embora? - Parte para Monte Carlo daqui a 10 minutos.
- Ol�, Jeannette! - Voc� vai embora?
Sou um p�ssaro, gosto do espa�o.
- Ficar� fora muito tempo? - Pergunte �s estrelas.
E eu?
N�o a esquecerei. Mandarei cart�es postais.
Vamos, Victor!
Disse que longe de mim ficaria triste.
Eu disse isso?
M. Saint-Clair, se n�o voltar... se n�o voltar logo...
Escute s� esse motor. Adeus, Jeannette!
Ele foi embora.
Gosta dele tanto assim?
O que esse homem tem?
Est� chorando?
Acredite em mim. Ele fez bem de deix�-la.
Quem permitiu que entrasse no meu quarto?
M. Marny!
O porteiro pensou que estivesse em casa e me mandou subir.
- N�o recebo visitas. - Sou enviado do Press du Soir.
Foi meu jornal que publicou aquele artigo infeliz.
Ningu�m entende como essa informa��o passou.
- Queremos fazer repara��es. - N�o vale a pena retificar.
Que me julguem vivo ou morto, n�o faz diferen�a alguma.
Afinal, deixei de viver h� 7 anos.
� impressionante! Sua voz n�o mudou.
Tantas vezes ouvi-o no teatro em Lille. Lembra-se?
J� me viu atuando?
Nunca perdi uma apresenta��o de teatro cl�ssico.
�dipo, Rodrigo, Nero, todos os her�is.
Na universidade todos eram loucos pelo senhor.
Pensamos at� em procur�-lo para falar da nossa admira��o.
- Mas n�o nos atrevemos. - Pois deviam.
Podia calhar de ser um dia de ang�stia...
- Teria me dado prazer. - Por que deixou o teatro?
Os pap�is que me atra�am n�o agradavam ao p�blico.
Hoje quem encena Racine, Musset, todos os expoentes?
- Claro! - E que interpreta��es?
Antes havia amor e respeito pelo teatro que n�o existem mais.
Melhor � calar-se.
E tem outra coisa...
- Outra coisa? - Sim.
Outra coisa que nunca disse a ningu�m mas que agora n�o tem import�ncia.
Eu representei os apaixonados, os amantes.
O que n�o sabe � que eu tinha uma mulher.
Uma mulher que eu amava profundamente.
Um dia ela me abandonou.
Foi o fim.
Deixei de acreditar no amor, deixei de acreditar nos personagens.
Nunca mais consegui, carregando dentro de mim esse fracasso sentimental,
ir a fundo nos meus pap�is.
Representei vazio...
e de tanto representar vazio, desapareci...
sem deixar vest�gios.
Desapareceu mas h� gente que n�o o esqueceu.
Serviu aos poetas com tanto talento, tanta sensibilidade.
N�s temos aqui uma colega que todos ignoram.
Interpretou Musset, Shakespeare como n�o se faz mais...
�s vezes lemos juntos uma cena, um ato...
Sem isso n�o poder�amos viver.
Como gostaria de v�-los.
O regulamento pro�be que representemos em p�blico.
� melhor assim.
Enfim, uma Julieta de 70 anos e um Romeu da minha idade...
seria at� c�mico.
Veja esta cicatriz.
Um dia um colega me disse...
N�o posso repetir o que ele disse. Mas n�s brigamos.
Porque insult�-lo � o mesmo que insultar toda a poesia...
todos os her�is que eu amava.
Quando penso em Rodrigo, Cinna, Hip�lito, � o senhor que eu vejo.
Escute, no final do parque h� um celeiro abandonado.
Esteja l� hoje � noite �s nove.
Por sua cicatriz, representarei alguma coisa.
Ei, M. Cabrissade! Venha, precisamos de sua ajuda!
- Falarei com Pierrot, depois eu vou. - Ele est� perto da fogueira.
Tenho certeza que meu pai dir� sim.
Ele a conhece e gosta de voc�. E j� expliquei tudo na minha carta.
Vai ficar feliz de se ver livre de mim.
Ele n�o vai achar que ainda � jovem demais?
H� muito tempo ele sabe que quero ir para o Marrocos.
Um pa�s novo, onde se respira.
Agora ou daqui a dois anos, sozinho ou com minha mulher,
para ele tanto faz.
Com sua mulher?
N�o conte para ningu�m at� que ele responda, porque...
Ora, isso � um banquete?
Bom dia, senhorita.
- Estou atrapalhando? - De jeito nenhum.
N�o conhece Danielle Michelet.
� chefe das escoteiras acampadas l� embaixo.
� um prazer poder cumpriment�-lo.
Est�vamos falando da ponte. Est� quase terminada.
Diz�amos que era preciso alargar a passagem.
Falar de pontes e passagens...
com uma jovem t�o linda... � a coisa mais natural.
- � bonita, n�o? - Nada mais perfeito para construir pontes.
Vou chamar o resto das meninas. J� volto.
Estamos te esperando.
As meninas v�o comer conosco hoje.
O Prefeito da cidade nos deu um cordeiro e um barril de vinho.
Ser� delicioso.
- O senhor n�o gosta? - Sim, mas me d� um pouco de remorso.
Quando fala s�rio assim acho que vem alguma piada.
Se hoje estou s�rio � por raz�es tristes.
O que foi?
H� 5 anos, desde que voc� apareceu por aqui, s� tenho contado lorotas.
Fiz acreditar que eu era tesoureiro numa casa de sa�de mas n�o � verdade.
- N�s sabemos. - N�o, n�o sabem.
Sou um velho canastr�o despedindo-se de sua vida med�ocre...
num lar de idosos em St. Jean la Rivi�re.
N�o tenho do que me envergonhar mas...
...sempre fui dado a mentiras.
N�o por mal, s� para que as coisas pare�am mais bonitas.
Uma casa de idosos n�o � l� essas belezas.
H� muito tempo j� imagin�vamos.
E te amamos ainda mais por isso.
Um artista! � maravilhoso!
Que vida fascinante o senhor deve ter levado!
- Ora, vida fascinante. - Tinha talento?
Pondo a m�o na consci�ncia, posso dizer que n�o era dos piores.
S� que n�o gostavam da minha cara em Paris. Isso me prejudicou.
- Fazia drama ou com�dia? - Sabia fazer os dois.
Mas esse � o problema, nunca entrei em cena.
Nos grandes teatros as maiores estrelas t�m sempre um substituto...
caso fiquem doentes.
Toda minha vida sempre fui substituto de algu�m.
Algu�m que nunca adoecia.
Tinham uma sa�de de cavalo, os animais!
O f�gado, gripes, epidemias...
nada os botava de cama.
Nunca entrei em cena, entende?
Assim, nunca fui muito famoso.
Por que s� hoje me conta isso?
Porque hoje as coisas n�o est�o indo bem no retiro.
A partir de hoje cortar�o a eletricidade �s nove,
tiraram nosso vinho... Sei que n�o � grande coisa, mas...
n�s idosos n�o temos mais o que esperar da vida.
Vamos mirrando, acabam os pequenos interesses. as pequenas alegrias...
Um copo de vinho que nos suprimam...
...� como um dente que se arranca. � pequeno mas faz muita falta.
- N�o podem fazer isso! - Mas � como estou dizendo.
O que diria de os jovens ajudarem os velhos?
- O que voc� pode fazer? - Escute, � muito simples.
�s nove horas, quando cortarem a luz...
Convido-os a uma sauda��o discreta mas calorosa...
em homenagem aos nossos jovens amigos que nos ofereceram as armas da revolu��o.
- Hip-hip-hip... - Hurr�!
Agora v�o embora. Se nos pegarem n�o podem saber como conseguimos.
Nos veremos amanh�?
Sim, mas n�o muito cedo. Estaremos de ressaca.
Cuidado, esse � dos fortes.
Senhoras e senhores, queridos amigos,
permitam-me abrir a torneira
e encher o primeiro copo desta comemora��o.
Ergueremos a ta�a da revolta e beberemos � guisa de protesto!
- Bons franceses, quando eu...! - Shhh!
quando tomo meu vinho de cor flamejante,
sonho em agradecer a Deus...
por n�o terem igual na Inglaterra.
Venham, venham.
Sirvam-se, meninos.
Agora que comece a festa, primeiro este senhor.
- Madame Chabert n�o est� aqui. - Nem Marny.
N�o falemos nesses abst�mios.
- N�o tenho cadeiras a lhe oferecer. - Estou bem aqui.
H� tr�s s�culos os atores se apresentavam em celeiros como este.
Esse � o verdadeiro esp�rito da poesia: mist�rio e pobreza.
Ent�o, o que ser�? Hamlet? Otelo?
Toda minha vida sempre preferi Romeu e Julieta.
N�o tenho mais idade para Romeu.
- Ah sim, por favor, Romeu e Julieta. - Que seja.
Chabert, minha querida, n�o est� enxergando?
Sei tudo de cor. Estreei como Julieta.
E terminei como a ama.
Tr�s batidas. A cortina se ergue sobre uma pra�a.
Estamos em Verona,
um sal�o magnificamente iluminado na casa dos Capuleto.
Entram Teobaldo e Paris, m�scaras em punho.
Bebo aos nossos vinte anos, foram bem regados.
E s� melhoram com a idade. Este vinho n�o lhe lembra nada?
N�o preciso beber para me lembrar de voc�.
Nosso primeiro beijo se deu com um vinho.
Foi um vinho do Reno.
- Voc� me atraiu para o Vale de Chevreuse... - Te atra�?
Me atraiu, sim... e eu me deixei levar. Foi maravilhoso.
Bebo para n�o esquecer. Aos nossos 20 anos!
N�o beba tanto. � seu quarto copo!
- Ent�o aos nossos 4 x 20 anos. - Ainda bem que n�o � mais velho.
Pe�o sil�ncio!
N�o estamos aqui apenas para beber.
mas para obrigar a Dire��o
a atender a todos os nossos protestos.
Est�o esperando o qu�? N�o estou representando. Podem aplaudir!
Obrigado! Redigiremos a ordem do dia...
e preparar uma lista das nossas reivindica��es.
Obrigado.
N�o tenhamos a medo das palavras.
Palavras n�o nos amedrontam.
E n�o deixemos nada de fora.
Um ve�culo automotor, custeado pela comunidade,
ser� colocado � disposi��o dos pensionistas...
que poder�o utiliz�-lo revezadamente.
N�o gosto de autom�veis. Velocidade me d� enjoo.
Contesto.
Pensa que somos americanos? Bem, chega de brincadeira.
Um r�dio ser� instalado em cada quarto!
N�o, n�o. N�o gosto de r�dio. Prefiro um fon�grafo.
Com pavilh�o.
Sil�ncio!
Uma franquia postal ser� fornecida aos pensionistas duas vezes por semana.
N�o gosto de franquia postal.
Pe�o a cria��o de uma caixinha de emerg�ncia...
que nos permita visitar de 15 em 15 dias...
as casas que a pol�cia tolera e que a moral repudia.
Tem raz�o! Assim nos deixa em paz!
Isto ser� objeto de delibera��o especial do subcomit�.
Duas dessas reivindica��es formam um bloco
Recusamos de antem�o qualquer discuss�o a respeito.
Amanh� cedo o Conselho entrar� em delibera��o!
Nada de procrastina��o! A justi�a se far�. Greve j�!
N�o acha mais prudente que aguardemos at� amanh�?
N�o! Representamos a Fran�a e a Fran�a n�o transige!
Aquiesc�ncia imediata ou san��es instant�neas!
� primeira recusa, abrimos as torneiras em todos os quartos.
Na segunda, explodimos todos os aquecedores!
Na terceira...
- Mere�o a confian�a de voc�s? - Sim!
A certeza de uma velhice feliz com dignidade e confortos modernos...
� o que lhes prometo!
Ei, o que � isto? Que algazarra � essa? O que fazem aqui?
Ah, chegou na hora certa!
Os atores aposentados de St. Jean la Rivi�re,
reunidos em assembleia, com exce��o de Mme. Chabert e do traidor Marny,
acordaram e votaram o seguinte:
Voc� est� b�bedo, fedendo a vinho!
- O que significa isto? - Artigo Primeiro:
A Dire��o da Abadia ser� doravante confiada a um comit� eleito pelos artistas.
Queiram subir para seus quartos imediatamente!
- Artigo Dois... - Sua atitude � escandalosa!
- Ser� mandado embora! - Isso � o que veremos! Chega de amea�as!
D�-me isso, acabou a ditadura!
- N�o me empurre! - � a lista das nossas reivindica��es!
- Conversaremos quando estiver s�brio. - N�o tem conversa! � um ultimato!
- Ultimato? - Sim, e tem dez minutos para aceit�-lo!
- V� dormir! - Sen�o, espere pior!
- Vai voltar para o quarto, sim ou n�o? - N�o!
Se recusar-se, eu e meus colegas vamos embora!
- V�o embora? - Vamos embora!
- Ah, querem tratamento melhor? - N�o aceitamos suas insinua��es!
Se querem saber para onde v�o, eu lhes direi.
Delormel, Asilo de Touraine, Strasbourg.
Marny, Casa de Sa�de dos Idosos Desassistidos, Valenciennes.
Berthelin, Lar de Idosos de St. Andr� de Cubzac.
Mas o que � isso?
Lacour, Asilo de Verdun, em Manosque.
Verneuil, Casa de Sa�de Notre Dame, Bayonne.
- O que � isso? - � o destino de todos voc�s!
Ah, ent�o n�o est�o satisfeitos aqui, querem mudar de ares?
Pois ficar�o satisfeitos. A Abadia ser� fechada!
Ela foi adjudicada. Em dez dias ser�o todos transferidos.
- O que est� dizendo? - Ah, voc�s insultam a caridade privada.
Pois agora conhecer�o a caridade oficial.
Comunico-lhes que a casa vai fechar. Podem fazer as malas.
Hoje voc�s s�o um bando de revoltados ingratos,
amanh� ser�o velhos dispersados em todos os asilos da Fran�a.
- S� pode ser piada. - N�o estou com humor para rir!
N�o est�o satisfeitos, armam um esc�ndalo � noite,
enquanto isso eu luto para salvar a institui��o!
- Salvar a institui��o? - Est� perdida. N�o temos mais um tost�o!
Vai se juntar aos velhinhos desamparados que ningu�m quer saber de sustentar.
Mas n�o � poss�vel!
S� ia lhes contar em cima da hora
mas j� que querem ir embora, podem ir. Eis seus endere�os.
Cabrissade, Casa de Sa�de Municipal de Roubaix.
- Roubaix, n�o pode ser verdade. - Por qu�?
M. Laroche, n�o � poss�vel. N�o podem fazer isso conosco.
Pois considere-se feliz de n�o ser posto na rua.
- V�o colocar-nos junto com velhos comuns. - Voc� � melhor que velhos comuns?
- N�o somos como os outros. - S�o mais insuport�veis que os outros!
N�o � nossa culpa.
N�o! � minha, sem d�vida!
N�o, Sr. Administrador, � culpa da vida que tivemos.
Sabe que vida de artista n�o � como as outras.
Mesmo para os sem talento,
s�o as luzes, as chamadas em cena, os aplausos...
quando achamos que o mundo todo est� de olho em n�s.
Acabamos virando crian�as mimadas. Ficamos com a cabe�a nas nuvens...
de tanto interpretar dramas e com�dias.
Mesmo assim fizemos as pessoas rirem, chorar...
fizemos esquecerem seus problemas, isso tamb�m conta.
V� dormir, Cabrissade.
Os atores s�o uma fam�lia de reclam�es, de contestadores...
mas � uma grande fam�lia, com um grande of�cio.
N�o merecemos ser separados.
- Boa noite, meus amigos. - Boa noite.
Desculpe, eu n�o sabia. Pe�o que me perdoe.
Adjudica��o amig�vel.
Aceita-se melhor oferta.
Toda minha vida foi sempre a mesma coisa.
Dei um duro danado
e quando enfim achava que ia descansar sobrevinha uma cat�strofe.
Precisava sair de onde estava, me mudar...
Sabe onde fica isso, Jou�-l�s-Tours?
Aqui est�, Saint-Andr� de Cubzac, fica perto de Bordeaux.
Meu filho n�o me visitar� mais. A dist�ncia ser� um bom pretexto.
Eu n�o tenho ningu�m. Vou ficar na Provence.
Manosque n�o fica longe.
�, acabaram-se nossos jogos de cartas, meu velho.
Estelle, voc� j� n�o esteve numa casa de sa�de municipal?
- Sim, M. Deaubonne. - L� tinha piano?
- Imagina, piano! - Institui��es p�blicas n�o s�o como aqui.
Abra essa porta, Mme. Varenne!
N�o! N�o me levar�o. Vou fechar tudo.
Trancarei tudo. N�o irei para um asilo!
Quero morrer aqui. Aqui!
Vejamos, � t�o constrangedor o que t�m a pedir?
� o seguinte.
Minha velha e eu fomos mandados para um asilo.
- Infelizmente, meus amigos. - N�o o estamos recriminando, n�o.
- S� n�o nos mandaram para o mesmo. - Deve haver algum engano.
N�o h� por que separ�-los.
S� os casais casados podem ficar juntos.
Acontece que minha velha e eu, com nossos 8 filhos, 26 netos e 5 bisnetos...
...n�o nos casamos.
N�o s�o casados?
N�o.
Vivemos juntos h� 35 anos.
E n�o tiveram tempo de regularizar isso?
V�amos tantos artistas se casando, se separando, depois voltando...
Pensamos bem e decidimos. Se n�o nos entend�ssemos...
seria melhor que pud�ssemos nos separar sem grande alarde.
- E n�o nos separamos. - N�o.
At� me comove tanta nobreza.
Ent�o, antes de partirmos...
gostar�amos de nos casar nesta velha casa de que tanto gostamos,
escolhendo como testemunhas alguns dos nossos companheiros.
Voc�s s�o um casal de valor. Prometo-lhes essa festa.
A �ltima antes da debandada.
Ei, n�o sabe que n�o pode jogar pedras no lago?
Me deixe em paz.
Custa muito ser educado?
Hoje meu cora��o n�o permite que seja educado.
Como sempre, n�o?
Vamos andando e deixe meus peixinhos-dourados em paz.
Seus peixinhos-dourados est�o em paz. Eu os ignoro!
- S� estou olhando. - Olhando? Olhando o qu�?
A paisagem.
No outono fica tudo vermelho ali em cima do muro.
E na primavera, tudo branco.
Por causa das glic�nias.
M. Lucien, sabe que sou estourado mas...
no fundo n�o � por mal...
- N�o sou uma pessoa m�. - Tudo bem, M. Cabrissade.
- Ah, me desculpe. - Agora n�o tem mais import�ncia.
- Os n�meros que sa�ram esta manh�, - J� deu uma olhada?
- O 4 e o 31 parecem promissores. - Ficaremos em cima deles.
Em que posso servi-lo, M. Saint Clair?
Mande flores para a jovem que conheci ontem.
Victor lhe dir� o nome. Algo bonito, em torno de 2.000 fr.
- Naturalmente receber� sua comiss�o, 10%. - Mas. M. Saint Clair...
N�o se aflija, a vida � bela. Esta noite ganharei um milh�o.
Bem, devo 3,992 fr. ao ma�tre do hotel,
- ...e Victor voltou para o Marqu�s. - Ele tem boas rela��es.
Ontem eu viajava a cem por hora,
hoje o sol est� brilhando e Giselle galopa pelas ruas, que beleza.
Chegar� para o casamento de M. Phil�mon
- Phil�mon largou a mulher? - Imagine!
� que esqueceram de oficializar no cart�rio,
uma supersti��o como qualquer outra.
Devia ver s�, toda a fam�lia chegando de �nibus.
Eram tr�s, todos lotados.
Gente de toda idade, de 6 meses a 40 anos.
Dava para perguntar como uma s� galinha conseguiu botar tantos ovos!
Ante do altar, � Senhor,
Vosso filho e Vossa filha,
Seus cora��es abertos
E reverentes diante de V�s.
E dentro do Vosso santu�rio
Duas fam�lias
Testemunham perante os c�us
Os juramentos de sua f�.
Cresceram os dois sob Vossos ensinamentos
Vosso amor criou seus cora��es
Para que um dia se unissem.
Por Vossa vontade,
Pai Todo-Poderoso,
Uni Vossos dois filhos
E dai Vossa b�n��o.
Por que vov� est� chorando?
O que foi? Algum problema?
Parece aflito.
Exatamente, como Mounet-Sully em �dipo Rei.
Pensei que n�o o ver�amos mais aqui.
Que teria um pouco de paz.
E ei-lo de volta.
Meu caro, nunca foi bom em charadas.
Saint-Clair, esta pode ser a �ltima vez que nos encontramos.
- Quero saber. - Saber o qu�, meu amigo?
Como Simone morreu.
Ora, mas saiu em todos os jornais.
Sim.
Naquele dia eu estava em casa. Eu me lembro.
Olhava os vestidos, as coisas que ela havia deixado.
De repente ouvi um grito... como um pedido de socorro.
- Ora, se est� escutando vozes... - E h� anos...
a ideia de Simone ter-se suicidado me persegue.
Quero me livrar disso. Preciso ter certeza.
Pois livre-se, pode se livrar...
N�o tenho ci�mes, rancor,
nem mesmo despeito pelo homem que roubou sua mulher...
e assim perdeu tudo.
Amava Simone acima de mim mesmo.
A felicidade que n�o pude lhe dar...
desejei que ele encontrasse alhures.
Mesmo com voc�.
Diga que n�o a fez sofrer.
Ora, meu caro, � do meu feitio fazer mulheres sofrerem.
Escute...
Amava-a tanto que, se voc� foi bom com ela,
n�o lhe quereria mais mal, seria seu amigo.
- Jure-me que foi um acidente. - Mas eu juro!
Jura pelo qu�? N�o respeita nada, n�o cr� em nada.
- Juro por meu filho. - Nunca o reconheceu. Nem o conhece!
- De todo modo � meu filho! - N�o est� no teatro, Saint-Claire!
Tudo para voc� � motivo de cinismo.
Tem que existir em sua vida algu�m que tenha amado.
- Jure-me por essa pessoa... sen�o... - Sen�o?
Sen�o ser� sua �ltima mentira!
Juro pela alma de minha m�e.
Jura o qu�?
Que Simone foi feliz.
E... morreu num acidente?
Num acidente.
Obrigado. Acredito em voc�.
Toda a tristeza que me causou...
desapareceu.
Estamos aqui reunidos nesta capela,
que, de tantas vezes que abriu suas portas aos artistas,
tornou-se a Capela do Teatro.
A Igreja n�o mais exclui os membros de sua grande fam�lia
um pouco desordenada.
Hoje ela se sente feliz em acolher de volta seus filhos pr�digos.
Filhos que hoje s�o av� e av�.
�queles que aqui v�m para santificar a uni�o
sempre passo um conselho das Escrituras...
''Crescei e multiplicai-vos.''
Mas hoje me vejo um tanto constrangido,
pois voc�s se adiantaram a mim.
A felicidade de envelhecerem juntos
cercados de extensa prole voc�s j� conhecem.
No entanto,
seus cora��es n�o estavam em paz,
e, m�o em m�o,
percorreram seu caminho na terra e longe de se cansarem um do outro
quiseram assegurar � sua uni�o
a eternidade.
Que Deus os guarde e os proteja.
Ent�o, pombinhos, onde ser� a lua de mel? - Vamos para a Sav�ia.
Sim, para a Casa de Sa�de de St. Jean Morri�re.
Eis M. Laroche.
Trago-lhes boas not�cias.
Meus amigos, me perdoem, n�o pude assistir � cerim�nia.
Fui a Paris comprar seu presente de casamento
E consegui!
Meus caros amigos, a Abadia est� salva!
O pesadelo terminou. Ficar�o todos juntos!
A opini�o p�blica se comoveu.
O Sindicato da Imprensa Francesa abriu abaixo-assinado para ajud�-los.
Todos os principais jornais ofereceram 5.000 fr. cada.
J� levantamos mais de 1.000.000 fr.
Eu sabia! Sabia que tudo se resolveria!
Imaginavam que eu fosse ficar ao relento?
E n�o � s� isso!
Teremos em breve uma apresenta��o excepcional no nosso sal�o de festas.
Como prova de solidariedade para com seus velhos colegas...
os artistas mais c�lebres da Fran�a v�o participar!
Elenco igual jamais se viu reunido numa grande pe�a!
AOS NOSSOS GENEROSOS DOADORES
- Funcionou, hein? - E muito bem.
Receava que estivesse enferrujado.
- Me ouviram bem a� atr�s? - Muito bem.
Uma cadeira para a caixa de ponto!
Esse barulho me lembra os bons tempos.
Juntem mais a� no meio. D� lugar para mais filas.
Voc� cuida das cadeiras.
- Aqui est�o os programas. - Deixe que a gente vende.
Mas isso s�o as mulheres que fazem.
Escuta, aqui � lugar dos artistas. empregados l� fora.
Assim v� checar se os banheiros est�o limpos.
-Ora, seu... - Custa muito ser educado?
Separem em pilhas de 50.
Onde est� Pierrot? N�o estou vendo ele aqui.
Est� esperando uma carta no correio. Vir� logo em seguida.
Apresenta��o �nica.
'L'Aiglon', obra em 6 atos, texto de Edmond Rostand.
Ah, L'Aiglon. Que pe�a. E que papel o de Flambeau!
'N�s, e n�s, os humildes, os obscuros, os desclassificados...'
- O senhor interpretou? - Centenas de vezes.
Quer dizer, quase interpretei.
Eu era substituto de Lucien Guitry.
Ele n�o era dos piores, mas percebeu o que eu teria feito com seu papel.
Ficou no papel tr�s anos. Eu o tinha todo decorado.
Se pelo menos tivesse adoecido. Mas vendia sa�de.
Vamos, chega de perder tempo.
Desculpem interromper. Pediram que levassem as flores para os camarins.
Duas cartas para M. Saint-Clair. Entreguem para ele, por favor.
Sempre o mesmo perfume.
Ele nos toma por idiotas!
Em todas as minhas estreias o rei enchia meu camarim de flores.
Hoje somos n�s que mandamos.
O correio n�o chegou?
Todo mundo ajudando de alguma forma e Saint-Clair na surdina.
Perguntei se tem cartas.
S� para os remetentes.
- Como? - � hora de p�r fim � com�dia.
Carta de mulher, carta perfumada.
Um garoto mandando cartas para si mesmo j� seria rid�culo,
mas na sua idade se prestar a isso?
Insinuam que n�o s�o cartas de amor?
Imbecil! Envelopes vazios ou com pape�s em branco!
N�o foi uma mulher que escreveu isto? "Meu amado..."
N�o me fa�a rir!
"...acabas de me deixar e j� me deixas saudades...
'Nosso quarto ainda intacto em sua deliciosa desordem...
Choro de tristeza, Morro de felicidade." - Saint-Claire!
"...sob minha janela escuto cantar um gondoleiro...
Um gondoleiro...
A carta vem de Veneza.
Com selo franc�s e carimbo de Avignon!
A carta vem de Veneza!
Qual � a data?
Veneza, janeiro de 1912. Muito engra�ado!
Ele se diverte enviando-se suas velhas cartas de amor
para nos fazer crer que ainda � amado.
Velhas talvez, mas foram escritas para mim!
Para entrar em forma, toda manh� ele l� uma...
assim como n�s tomamos nossos sais.
Preciso disso para viver...
como a serpente que voc� � precisa cuspir seu veneno.
Veneno? � mentira dizer que ele � um velho?
Hoje ela estaria rindo ao ver o que escreveu.
- Outras ainda escreveriam o mesmo! - Inspiradas por voc�, talvez!
- Talvez. - Pois mire-se no espelho!
No m�nimo v�o morrer de rir.
Tusini! O que est� fazendo � odioso!
Isso! Defenda-o! Ele � jovem, n�o �?
� bonito, sedutor. Pois me desculpe.
Loucos n�o me diverte, me d� medo!
Morrer de rir...
O tempo todo que esteve fora...
eu vim aqui quase todos os dias.
Mocinha estranha. Gosta da solid�o.
N�o havia ningu�m aqui para me fazer perguntas.
� um �timo lugar para quando se est� triste...
Um dia, de tanto olhar a �gua, senti-me impelida a entrar...
e ir afundando aos poucos...
O que a impediu?
Saber que voc� ia voltar...
Fez bem de n�o levar adiante. Ningu�m teria entendido seu gesto.
Mas agora que est� aqui n�o penso mais nisso.
A verdade � que n�o voltei para ficar muito tempo.
A Abadia n�o vai mais fechar.
N�o fui feito para me fixar num lugar.
Ademais, enfastia-me ficar num lugar onde ningu�m tem afei��o por mim.
- Ousa dizer isso para mim? - Voc� n�o conta. � uma menina especial.
Mas ainda n�o sabe o que � o amor.
S� conheci uma mulher que realmente sabia.
Eu o amo tanto quanto ela.
Voc� se confunde com essas hist�rias de lagos e mergulhos sentimentais.
Quando se fala em deix�-las...
mulheres costumam mais ligar uma torneira de g�s,
sempre com o cuidado de deixarem a janela aberta.
O dia que voc� partir sei o que farei.
Jeannette, eu vou partir hoje � noite.
- N�o voltar� mais? - Nunca mais.
Assim tem que me prometer que ser� sensata.
Prometo que voltarei aqui amanh� mesmo.
Os outros pensar�o que foi um acidente.
- Faria isso? Teria coragem? - Sim.
Essa maior prova de amor, voc� me daria?
- N�o tenho medo. - Ent�o precisa prov�-lo todos.
� preciso que todos saibam que, jovem como �,
- ...� capaz de sentir uma grande paix�o. - Sim.
Esta noite, antes de partir, irei ao caf� �s dez.
N�o haver� ningu�m.
- Pegar� o rev�lver na gaveta do seu patr�o... - Sim.
Eu ficarei vendo. Voc� subir� ao seu quarto...
- ... e deixar� a carta bem � vista. - Que carta?
- A carta de despedida que escrever�. - Sim.
Pousar� o rev�lver aqui. N�o vai doer, voc� ver�.
� maravilhoso. Tome... tome, escreva.
- Eu escrevo t�o mal. - Pensar�o que estava tremendo. � natural.
"Meu amado...
Ponha a data em cima bem vis�vel.
Ter�a-feira, 24 de setembro de 1938.
Fechei os olhos o mais que pude...
mas s�o tantas as mulheres que te cercam...
Tu partes, e isso serei incapaz de suportar...
N�o mais ouvir tua voz, n�o mais ver teus olhos,
n�o mais sentir o calor de tuas m�os est� al�m das minhas for�as.
Os outros pensar�o que foi um acidente de ca�a..."
Risque 'de ca�a.'
S� tu saber�s. N�o sintas remorsos, sinto-me feliz."
- Ent�o, ele chegou? - N�o.
Cortina.
- Ele chegou? - N�o.
- N�o poderemos continuar. - Subiremos a cortina de novo.
Vai dar tudo certo. O administrador foi falar com Marny.
Abra, Marny! � importante!
Enquanto esses atores de Paris estiverem a�...
...pe�o que me deixem em paz. Fui claro?
Meu querido, n�o � hora de suscetibilidades!
Representei L'Aiglon em todas as cidades da Fran�a.
Esta representa��o n�s mesmos poder�amos t�-la feito.
Mas foi justamente sua participa��o que vim pedir.
Era para Bruno fazer Flambeau
mas seu carro encrencou a 150 Km daqui.
S� voc� pode salvar a apresenta��o!
- Eu? - Toda Paris est� presente.
Adoraram o primeiro ato. J� temos mais de 400,00 fr. de receita.
Pela honra da nossa casa, por seus velhos companheiros.
Ah, disse sim. Obrigado em nome de todos.
Aqui est� o texto. E o figurino, a maquiagem... vamos!
- Pode deixar. Fa�o isso sozinho. - Deixe comigo.
Anunciarei para o p�blico.
Na sua idade fazendo um simples soldado.
Pergunto-me quando chegar� a cabo.
D� para v�-lo de seu bon� de pele. Parecer� um cavalo de cortejo f�nebre.
Deixe-me ler o segundo ato em paz.
O chefe dos Cavaleiros da Triste Figura no papel de Flambeau.
N�o me fa�a rir.
Ainda que fosse um papel coadjuvante,
um velhinho ciumento, moribundo, seria mais a prop�sito.
N�o percebe que � uma pe�a que est�o pregando?
Dispenso seus coment�rios.
O personagem se chama Flambeau.
Flambeau, ou seja, uma chama, est� me ouvindo? N�o 'Uma Chama que se Extingue'.
Requer algu�m radiante, efusivo! N�o uma vela que se apaga.
Como voc�, por exemplo.
Entendo o que quer dizer.
Pelo menos n�o pare�o um granadeiro egresso da guerra na R�ssia com lumbago.
Jean-Pierre S�raphin Flambeau,
conhecido como 'A Chama', ex-sargento granadeiro de elite da guarda,
nascido de pai bret�o e de m�e picarda!
Esta s�o minhas refer�ncias.
Est� se confundindo, L'Aiglon n�o � uma farsa militar.
Escute, Marny...
Minha vida toda sempre sonhei com esse papel.
Sempre estive a ponto de interpret�-lo e nunca consegui.
- Deixe-me interpret�-lo hoje. - Est� louco.
N�o imagina o que posso fazer com esse papel.
Voc� j� teve sucesso. Eu, nunca.
Deixe-me interpret�-lo uma vez s�.
Os meninos est�o na sala.
Guardar�o uma boa recorda��o de Papa Cabrissade.
Recorda��o de um velho rid�culo sendo vaiado em cena.
Nunca mais pregarei pe�as com voc�.
Pe�o perd�o pelo outro dia.
N�o devia ter-lhe mostrado o jornal.
Deixe que me apresente para meus meninos.
Toda Paris n�o acorreu � Abadia s� para assistir � sua estreia.
Vieram por causa de voc�? Sentiram saudades suas em Paris?
N�o tem cara de granadeiro mas sim de um espectro.
- Saia da�, est� me incomodando! - V�o achar que est� morto, v�o entrar em p�nico.
- Cansei de ficar nos bastidores! - Saia daqui.
Cansado de deixar meus pap�is para os outros.
- Pela �ltima vez, deixe-me em paz! - Sou ator tanto quanto voc�.
Um canastr�o sem talento.
Qual a diferen�a entre um canastr�o sem talento e outro sem sucesso?
Cale-se, Cabrissade!
N�o estamos em cena. O texto � meu e falarei quanto quiser!
Canastr�o sem talento? Com base em qu�?
Voc� nunca atuou.
E nunca passei a vida atazanando os outros com meus problemas conjugais!
- Cale-se, chega! - Envenenou todo mundo!
At� sua mulher, sua maior f�, deu no p�!
N�o admito!
M. Marny, vai come�ar o segundo ato. Chamada em cinco minutos.
M. Marny j� vai. Estou ajudando a se vestir.
Pronto. Podemos continuar.
Aten��o, subindo a cortina.
- O que fazem a�? - Procuramos M. Cabrissade.
Se estivesse aqui daria para ouvir.
- Est� ajudando M. Marny - Obrigado, senhor.
- Quem �? - Sou eu, Pierrot.
J� vou.
- Que tal? - Vai se apresentar?
Sim, uma pequena surpresa que reservei para voc�.
- Flambeau n�o far� mais Bruno, e sim eu. - Quer�amos falar com o senhor.
Mais tarde. Vamos, depressa para a sala,.
Se perderem minha entrada ser� pena.
N�o podemos. Estamos a caminho da esta��o para pegar o trem para Paris.
- Paris? - Tamb�m quer�amos fazer surpresa.
Danielle e eu ficamos noivos.
Noivos?
- N�o vai nos congratular? - Sim.
Meu pai est� de passagem em Paris e quer nos ver antes partir.
- V�o se casar? - O mais cedo poss�vel.
Enfim, na primavera.
N�o quer�amos partir sem me despedir, para que compartilhasse da nossa alegria.
- � muito gentil de sua parte. - Flambeau! Flambeau! Em cena!
J� estou indo.
Voc�s n�o voltam no pr�ximo ver�o?
Para n�s n�o tem mais acampamento de escoteiros.
- N�o voltar�o mais. - Para c�, n�o.
Mas daremos um jeito de nos encontrar. Acha que vamos esquec�-lo?
Eu escreverei. Contarei nossos planos.
- Escrever�? - Flambeau, vai perder sua entrada!
J� vou.
Precisamos ir, sen�o perderemos a condu��o.
Escreverei, prometo.
Depressa!
- � voc�? - Vamos, n�o se inquiete.
Vamos, entre...
"E n�s!"
E n�s...
E n�s...
E n�s... E n�s...
N�s, os humildes...
N�s, os humildes!
E n�s, os humildes, os obscuros...
N�s, os humildes, os obscuros.
N�s, os humildes, os obscuros.
N�s, os humildes, os obscuros.
N�o sei... N�o me lembro mais.
- Cortina. - Vamos, des�a a cortina!
Vamos, a cortina! A cortina!
Isto � piada?
N�o sabe suas falas. Nos fez de palha�os!
O que significa isto? Onde est� Marny?
N�o sei... estou velho.
- Escolheram o mais desatinado do retiro. - N�o era para ser ele.
Ent�o onde est� o outro?
Diga, Cabrissade, onde est� seu colega?
- Onde conseguiu esse figurino? - N�o sei, estou velho.
Trataremos disso mais tarde. Suba para seu quarto.
Afastem-se, deixem-me passar.
N�o � minha culpa, estou velho...
Estou velho.
- Que hora s�o, Jeannette? - Dez horas, M. Martin.
Hora de fecharmos e irmos dormir.
- Senhores, vamos fechar. - Sim, s� vou terminar meu ch�.
Todos disseram que voc� estava magn�fico.
Sim, o canto do cisne.
Gostaria de estar l� para aplaudi-lo, mas tenho horror a textos em verso.
Para me emocionar uma pe�a precisa estar inserida num contexto moderno.
Com linguagem atual, sil�ncios, como na vida.
- O mon�logo de Ter�menes, n�o d� para acreditar. - O teatro burgu�s.
Isso porque voc� desempenhava o papel. Eu vivia o personagem.
Minhas maiores emo��es como artista n�o as conheci em cena mas na vida.
Quando entrevia minha parceira...
o que ia dizer, o que ia fazer...
quando era para valer, quando estava ali por inteiro.
O sangue de �dipo Rei n�o tem hemoglobina e cheira a farm�cia.
- Ent�o, n�o querem que eu feche a casa? - Caro amigo, estou com sede.
O companheiro Marny salvou a Abadia e garantiu sua clientela.
O que diria de uma garrafa de espumante?
Teria que descer na adega. At� amanh�.
Jeannette far� isso com prazer, n�o �, Jeannette?
- N�o tenho a chave. - Bem, seja r�pida. Tome, Jeannette.
Em 5 minutos, cama.
Em todas as suas trag�dias, as mulheres que morrem s�o sempre rid�culas.
Se arrastam, reviram os olhos, choram.
N�o � verdade. Pelo contr�rio, s�o de uma calma prodigiosa.
Veja s� essa jovem...
Acha que vai choramingar, lamentar-se?
N�o � mais simples que Julieta? Mais pura que Efig�nia?
No entanto, ela sobe ao altar onde se imolam os grandes amores.
Os mesmos olhos, o mesmo olhar de Simone quando quis morrer.
Morrer? Ela quis morrer?
V� como ela n�o sofreu?
Simone, Jeannette, elas se confundem.
Escreveram a mesma carta, fizeram o mesmo gesto.
Ela sobe as escadas, sobe aos c�us!
O qu�? Jeannette?
Jeannette! Jeannette!
Jeannette!
Jeannette!
- Ficou louca? - N�o!
- Largue isso! - N�o!
- Largue, j� disse! - N�o!
O que foi isso? Quem atirou?
N�o foi nada. O Comendador est� chegando.
O qu�? Onde est� M. Marny?
O Comendador est� chegando. Ou�o seus passos na escadaria de pedra.
Sou o imortal Don Juan. O Comendador est� a caminho...
Prepara a mesa, acende as tochas, abra a porta!
- Foi ele! Foi ele que a levou a isso! - N�o, fui eu que quis!
N�o minta! N�o v� que est� jogando com voc� e sua vida
para se ater � sua juventude!
- N�o importa! - Isto n�o fica assim. Ele me paga!
- N�o lhe fa�a mal! - M. Saint-Clair est� doido!
Deixe-me passar!
- N�o seja louco! - Deixe-me passar!
Mandei que acendesses as tochas! Victor!
Por que me deixas �s escuras?
Tomas-me por Sganarelle?
N�o, n�o entres em meu quarto!
Estou sozinho. Ela n�o est� aqui.
Mandei que acendesses as tochas!
N�o, n�o � seu vestido que v�s ali.
� a capa da Lua, a capa da minha amada.
Entrai, Alteza, entrai... Don Juan, vos sa�da.
Lamentamos a perda de dois dos nossos companheiros.
Saint-Clair, transferido para uma casa de sa�de especial.
Cabrissade, que amanh� conduziremos � sua �ltima morada.
Nosso pobre companheiro, sempre t�o jovem de cora��o,
faleceu de forma s�bita.
N�o era talhado para desempenhar o papel de idoso.
H� alguns meses ele redigiu seu testamento.
Passarei � leitura do mesmo, conforme era do seu desejo.
"Embora n�o seja velho bastante para interpretar um morto...
e n�o tenha a menor inten��o de ir para o cemit�rio a n�o ser como turista,
h� que se prever o imponder�vel.
Agrade�o a Administra��o e os membros do Comit�
pelos anos de tranquilidade que me permitiram viver.
Digo adeus aos meus companheiros...
e aperto a m�o do senhor assistente.
Cabrissade era um 'enfant terrible', mas no fundo nem tanto.
O gatinho de porcelana sobre minha lareira
eu deixo para Pierre Andrieu, cujo endere�o se encontra em meu caderno.
Ele foi, e continua sendo, o filho do meu cora��o.
Nada mais tenho a legar, nem ningu�m para quem legar.
Adeus a todos. 18 de fevereiro de 1938
Um dia triste.
Faz algumas semanas, Cabrissade acrescentou um p�s-escrito.
O seguinte.
Sobre meu t�mulo, algumas palavras.
Confio nos meus companheiros...
mas, como melhor se serve quem se serve a si mesmo,
escreverei meu pr�prio discurso.
Assim, poupo-os de quebrarem a cabe�a.
Ademais, se n�o escrevesse pessoalmente, n�o saberia o que dir�o.
Desta forma sei, e poderei dormir tranquilo.
M. Marny, como � de costume,
� sua vez de proferir o discurso no enterro do companheiro que nos deixou.
O que ele diz em sua ora��o f�nebre?
O teatro est� de luto. Ernest Nicholas Cabrissade morreu.
O teatro est� de luto.
Ernest Nicholas Cabrissade morreu.
Pertencia � grande gera��o de atores
que, de Talma a Cochlan,
de Fr�d�rick Lema�tre a Lucien Guitry,
glorificaram o teatro franc�s.
Cabrissade foi grande como eles. No drama como na com�dia...
no moderno como no cl�ssico...
seu talento... excepcional...
seu talento... excepcional...
N�o! N�o posso dizer isso!
N�o � verdade! N�o posso ler isto.
Talento, Cabrissade, voc� nunca teve!
Mas...
...nem por isso sentiremos menos saudades.
Voc� amou o teatro.
Este teatro que sempre lhe negou sucesso.
Apesar disso, voc� sempre foi fiel.
Fiel ao seu amor de inf�ncia,
ao seu sonho obscuro e formid�vel.
� isso que nos emociona neste momento.
Meu pobre amigo. Durma em paz, Cabrissade!
Os atores servem a uma nobre causa.
E, diante de algo t�o nobre,
nobres tamb�m se tornam.
Durma em paz, Cabrissade!
Durma em paz, velho amigo!
Durma em paz, grande homem!
Legendas: Lu�s Filipe Bernardes
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