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RIO NEGRO
Aben�oe-me Padre, pois pequei.
Como pode um homem passar a vida a amar Deus,
e depois trai-lo?
Continue a sua confiss�o...
Come�a no rio Negro � dez anos atr�s.
Uma viagem com o meu guia e tradutor Raimundo,
da cidade para Sta. Isabel.
Uma par�quia de �ndios Aku�wa,
que se espalhava por centenas milhas e s� com um Sacerdote;
o Padre Mahoney.
Visitava o Mahoney enviado pela Igreja,
para repreender um amigo com o qual estava preocupado.
Mas lembro-me bem como me senti no rio naquele dia,
ao entrarmos na selva. T�o unusual, como
um sonho de um barco a entrar noutro mundo.
Um lugar m�stico por uma raz�o
que ainda me teria de ser revelada.
'Corpo do Cristo'...
'Corpo do Cristo'...
'N�o Corpo de Cristo?'
Corpo de Cristo..
Am�m.
Ouviu falar?
Sim.
Recebeu a minha carta?
Sim!
Que acha das minhas ideias?
Sim, � bom v�-lo Jim.
Trouxe os meus livros?
Livros de engenharia, manuais de constru��o, ci�ncias,
nem um livro religioso....
Tem-los lido?
N�o, n�o tenho.
Acho...que Deus a p�e ali todos os dias para me testar...
A mesma mulher?
N�o.
Nem sempre a mesmo mulher...
No entanto, nunca me habituo a isto.
Agora...
E isto!
Isto...� o hospital
e isto � o edif�cio da escola, aqui.
� um belo conceito.
A sua jogada.
Se...
come�armos a construir agora,
completo a constru��o antes das chuvas.
Visito-o todos os seis meses e perde sempre!
� poss�vel que perda de prop�sito, Padre?
Faz quase um ano e meio que esteve aqui.
Jim...
Veio aqui dar-me a sua b�n��o, n�o foi?
Sim!
E n�o...
H� ideias brilhantes na sua carta!
E isto...� muito interessante...
Jim, qualquer um tem sonhos desses neste lugar,
mas n�o � para isso que esta aqui!
Salva��o!
Nos cuidamos das almas....
Ele, provem at� aos mais insignificantes aqui...
tudo o que dou aqui � ser o anfitri�o!
N�o h� essa necessidade aqui em Sta. Isabel.
Se tivesse de construir algo, seria na cidade.
N�o digo que um dia a Igreja n�o funde algo assim,
mas � demasiado cedo!
Acredite em mim...
A sua jogada...
As minha preces est�o consigo, Jim!
Senti ter falhado com o Mahoney...
Havia tristeza no meu cora��o.
Estava apreensivo ao partir,
por n�o saber quando veria o meu amigo de novo.
Tukash�!
Tukash�!
Tukash�?
Ele subiu o rio numa canoa,
at� ao lugar onde a �gua se torna negra,
apareceu um golfinho,
que se transformou numa mulher linda
e atraiu o Padre para a sua cama.
A mulher teve um filho e vive juntos das �guas negras.
O Padre vive l�?
N�o, s� a crian�a e o golfinho,
que se transformou numa mulher linda!
Mas o que aconteceu ao Mahoney?
Eles escutaram o riso dos mortos, Padre,
procuraram o seu esp�rito, mas n�o o conseguiram encontrar.
E agora est� cheio de solid�o,
que acontece a todos os homens seduzidos pelo golfinho.
Ele est� morto.
Tu acreditas nisso?
� claro.
Tive um terr�vel sentimento de perda do Mahoney,
assim como os �ndios.
Ap�s o Mahoney desaparecer,
foi descoberto ouro na serra Pelada.
Os homens come�ariam a invadir a selva,
homens impelidos pela gan�ncia e cobi�a,
homens que se aproveitariam dos �ndios e os deixariam totalmente
na mis�ria e em sofrimento.
N�o acredito nisto!...
Que � que se passa? Estamos parados.
Que � que se passa?
N�o acredito nisto!
Raios!
Nem sabes disparar bem, sabes?
Uma mulher!
Onde?
Ali!
N�o vejo mulher nenhuma!
Bem, mas eu vi!
V� l�, faz o que te digo.
Apanha-o... Apanha-o!
Filha da m�e!
Livrem-se dele!
Est�o a construir uma estrada no amazonas.
Eu ouvi.
As minas levam muitas pessoas a Sta. Isabel.
A vilazinha do Mahoney mudou!
�...
Sabe onde ele vive?
Quem?
O rapaz golfinho.
Aquele de quem os pescadores falaram.
"Cucha�a"?
�! Tenho andado a beber um pouco, Padre.
Mas agora � verdade!
Ouvi que eles viram-no a montar um golfinho!
Dizem que foi lindo!
O golfinho anda � volta dele!
Eles n�o se queriam aproximar porque o golfinho protege-o!
Onde � que o viram?
L� em cima, no rio.
Onde a �gua se torna negra.
O que � que pode ter acontecido ao rapaz?
Em nome do Pai do Filho e do Esp�rito Santo...
D�minus Vob�scum et cum spiritu tuo...
Raios!
Padre, Padre, r�pido!
R�pido, r�pido!
Eles t�m-no!
O rapaz golfinho, Padre!
Ele est� no mercado, r�pido!
Muita aten��o a todos,
quero que toda a gente me oi�a!
Ali jaz o rapaz,
do pai que o concebeu � luz da lua cheia...
Que seduziu o verdadeiro pai que podia estar aqui nesta doca,
agora, entre n�s...
S� os seus olhos garantem ao seu dono
os enormes poderes das mulheres...
Fa�am um corte no seu �nus...
Sua Santidade!
N�o est� bem tratar um golfinho assim!
Arrisca a sua alma!
Eu salvei a vida ao rapaz!
Ele tamb�m estava prestes a ser estra�alhado por um deles!
Traga o rapaz do golfinho!
Mas padre...
Ponha o golfinho na �gua, antes que morra!
M�e de Deus!
Eu sou um homem pobre!
N�o, n�o! N�o!...
Oh meu Pai Celestial!...
Tu �s o filho do Mahoney!
Como est� ele?
Obrigado.
Raimundo!...
Ele � o tal...
Deixa-nos sozinho....
Vou-te chamar L�zaro!
Porque renasceste dos mortos....
O que vou fazer contigo?
Vou-te baptizar L�zaro.
Em nome do Pai...
....do Filho...
....e do Esp�rito Santo...
N�o, n�o, Raimundo, est� tudo bem! Est� tudo bem!
L�zaro!
N�o!
L�zaro, est� tudo bem!
Est� tudo bem.
Est� tudo bem.
L�zaro esta � a Irm� Ana.
Ol�, L�zaro.
Anda.
A Irm� Ana vai tomar conta de ti.
N�o tenhas medo.
Vem!
Isso mesmo rapaz....
Eu venho ver-te em breve.
Tu �s um rapazinho valente.
Vem da selva, Reverend�ssima Madre.
Que infort�nio...
Fala um pouco de Aku�...
Isso n�o nos serve de muito, pois n�o Irm� Ana?
Parece ser um rapaz muito corajoso.
� um selvagem...
Weigan, vista-o e corte-lhe o cabelo.
Quando estiver a dormir?
Na cela de isolamento.
Ele tirou as roupas.
Temos de lhas vestir de novo.
Eu seguro-o, fa�a o resto Padre.
Quietos!
Tragam-me os dois!
N�o como isso apareceu na minha cama!
Segundo, �s um ladr�ozinho sem emenda.
Tramaram-me.
Subvertes-te a ordem desde Orfanato.
Com Deus como Testemunha, ambos s�o uma amea�a para n�s.
H� uma solu��o.
Voc�s os dois ficar�o juntos e separados do resto de n�s.
O Segundo ser� respons�vel pela inicia��o do L�zaro
no mundo das regras, decoro e ordem.
Eu?
N�o!
Sim!
E se ele n�o aprender?
Ent�o ser�s castigado.
N�o � justo!
Por cada infrac��o de qualquer um,
o Segundo ser� castigado.
Isso n�o � justo!
Ponham ambos a trabalhar!
Posso confiar em ti?
N�o se preocupe.
Uma hora!
Temos tudo controlado, Luis.
Vamos fazer um �ptimo trabalho, L�zaro.
Queres experimentar?
Isto � divertido!
Estou-te a dizer! Queres tentar, h�?
Merda! Boa!
Boa! O ch�o todo, entendes?
O ch�o todo...
Tenho muita confian�a em ti, L�zaro.
Eu confiei em ti!
E ent�o?
Por uma vez achei que n�o ias estragar tudo.
O que me vais fazer, levar a tribunal?
Onde est� o L�zaro?
N�o sei.
Entendes que tenho de dizer � Madre?
Sim.
Ela ia descobrir de qualquer forma.
Eu sei.
S� est�s a fazer o teu trabalho, Lu�s.
Est�s arrependido, h�?
A s�rio?
Mesmo?
Eu perdoo-te.
Diz, obrigado!
V� l� L�zaro deixa-te de palavras da selva,
tu tens de falar como eu,
por isso diz; obrigado!
Obrigado!
Por uma vez diz obrigado!
Obrigado!
Obrigado.
Ok, de nada, agora vou dormir!
Como est� ele?
Tem feito alguns pequenos progressos.
Mas...
Mas...o qu�?
N�o posso esperar muito dele, Padre.
� dif�cil esperar muito!
Gostava de lhe fazer uma visita.
E o resto dos rapazes, Padre?
S� quero v�-lo, estar com ele.
Mas, porqu�?
Eu vou ter com ele sozinho.
Obrigado.
Como queira!
...e a terra n�o tinha forma e era vazia
e havia trevas na face do abismo
e o esp�rito de Deus movia-se na face das �guas.
E Deus disse; haja luz. E houve luz.
Obrigado, Senhor.
�s sempre bem vindo!
J� pensaste no teu passado, L�zaro?
O que quer dizer?
A tua vida com os golfinhos?
N�o...
e os teus pais?
A tua m�e, ou pai?
Eu conhecia bem o teu pai.
Ele era bom,
am�vel, um cavalheiro,
com uma mente perspicaz com a tua.
Ele est� morto?
Est�.
Quem o matou?
Ele desapareceu.
Provavelmente algu�m o matou.
Foi assim que a tua m�e morreu,
algu�m a matou?
Um homem.
Sabes quem �?
N�o, mas quem quer que tenha sido merece morrer.
Deus, ensina o perd�o, L�zaro.
Todos devem procurar nos seus cora��es para perdoar.
O que que � que significa; 'perdoar'?
Isso significa; 'esquecer'!
Sim, de certa forma.
Eu amei o L�zaro.
Sentia essa crian�a como se fosse minha.
imaginava-me como seria ele quando o visse de novo!
Bem vindos!
Bem vindo ao Orfanato Ant�nio Levas!
Sinto-me honrado Reverend�ssima Madre.
Quem � este homem?
Ele trabalha num jornal, Madre.
Como pode um candidato pol�tico evit�-los.
Um presente para o seu Orfanato!
� um patrono muito generoso, Sr. Santos.
� um prazer!
Fiz ch� para n�s, Sr. Santos.
Estou t�o ansioso para ver os seus rapazes,
Reverend�ssima Madre.
Vamos, cavalheiros!
Madre?
Eu adoro crian�as.
Remata � baliza, L�zaro, faz golo!
Ei, L�zaro?
Aquilo foi lindo!
L�zaro!
L�zaro?
Que se passa contigo?
Aonde vais?
Vais-te embora sem mim?
Aquele homem hoje...
Sim, que � que ele tem?
Ele matou a minha m�e!
Eu vou ter com ele!
E depois o qu�?
Vou mat�-lo!
Ah sim, certo, apareces l� e mata-lo!
J� n�o tens demasiados problemas?
Ei!
Espera por mim, vou contigo!
N�o!
Se queres saber este � o teu amigo Segundo
e se queres saber os amigos ficam juntos!
N�o!
Sim!
Ele fugiu!
Ele o qu�?
Ele desapareceu!
Sabe onde posso encontrar o homem chamado Santos!
N�o, j� terminaste?
Sim, Senhor!
Ok...
Quanto � que temos?
N�o muito!
Padre!
V� l�, vamos!
Se nos apanha, manda-nos para o Orfanato!
Vem!
� ele!
Est�s a v�-lo?
N�o...
Senhoras e Senhores!
Posso ter, por favor, a vossa aten��o por um momento!
Pe�o-vos apenas uma coisa:
Votem por Orlando Santos para Governador!
Ok, agora temo-lo, o que fazemos?
N�o vou falar muito e interromper a nossa festa,
a vossa festa.
Acima de tudo quero que se divirtam, desfrutem.
Vou mat�-lo!
L�zaro!
Que est�s a fazer?
L�zaro!
N�o!
...como corrup��o!
Eles!
Apanhem-no!
- Foge! - Apanhem-no!
Apanhem-no!
Estou-vos a dizer eram dois, onde est� o outro?
Como te chamas, amigo?
O teu nome?
Est� bem, est� bem, vamos l� ser amigos!
Eu posso ser teu amigo,
eu posso ajudar-te,
se tu me ajudares a mim!
Ajuda-me a encontrar o teu amigo!
� tudo um mal entendido!
Sabes,
pensas estar a ser um bom amigo!
Mas est�s enganado! Est�s enganado!
Voc� matou a m�e do L�zaro!
Levem-no para a Serra Pelada!
Queremos evitar mais infort�nios,
especialmente antes da minha elei��o!
E encontrem-me o outro rapaz, agora!
Tem a certeza?
S�o os mesmos que fugiram do Orfanato?
Bem, eu fui levado para casa imediatamente,
mas informaram-me que estes dois rapazes
foram vistos na vizinhan�a antes.
E n�o penso que sejam os seus, Padre.
H� que estar agradecido por isso.
J� n�o sei onde procurar mais!
Bem, n�o se preocupe!
Eles v�o aparecer, mais cedo ou mais tarde,
quando tiverem fome.
Dizem por a� Padre,
acho que s� um homem com a sua posi��o
faria tanto, por dois pobres rapazes,
sem pais, num pa�s como o nosso, cheio de outros como eles.
Obrigado pela sua ajuda, Senhor.
Sabe que estava a pensar,
diz que que um deles � um rapaz da floresta.
Bem, talvez tenha voltado para a selva.
Lembre-se de mim no altar, Padre!
Eu n�o queria acreditar no Santos,
mas sentia que ele tinha raz�o,
que o L�zaro tinha desaparecido na floresta.
Seria algo f�cil de fazer,
todos os dias cami�es deixam a cidade,
cheios de homens e rapazes desesperados,
em direc��o � Serra Pelada � procura de ouro.
Mas a mina � t�o perto do rio Negro,
pensei que o L�zaro queria ir de novo para a selva.
Ali � o rio Negro.
A que dist�ncia?
N�o � longe...
Acorda, acorda!
Por favor...
Acorda!
Por favor, deixa-me dormir...
Acorda!
N�o � nada.
Levanta-te, s�o horas das lavagens!
L�zaro!
Vamos!
- L�zaro! - Segundo, vamos!
Temos de fugir!
Que se passa!
Ei!
Vamos!
O que � isto?
O qu�?
O ru�do!
� um p�ssaro!
N�o, era um ru�do muito grande.
Como de uma coisa cortante.
H� muitos aqui.
O que fazemos se ouvirmos um?
Subimos a uma �rvore.
Rapag�o, foi aqui que viveste quando eras pequeno?
Sim.
� apenas um macaco.
O que � que o macaco velho diz?
Diz que o rio est� pr�ximo.
V� l�, achas que acredito nisso?
Os macacos n�o falam!
Pois n�o?
Tentei viver de acordo com os preceitos da f�,
a vontade de Deus,
mas algo dentro de mim, algo mais forte que f�,
levou-me de novo rio acima,
ao lugar onde tudo come�ou.
Esta � tua casa?
Que tal fazeres algo com os teus amigos!
Saiam-me da frente!
Ningu�m me p�ra!
O que est� a fazer?
Que est� a fazer!
Pare com isso!
Santos!
Santos! Santos!
L�zaro!
Voc�s est�o bem?
Socorro...
Ele n�o veio � tona!
Eu podia t�-lo salvo...
Eu hesitei...
...e ele afogou-se!
Deus, perdoai-me...
O rapaz...voc� salvou o rapaz?
O Segundo voltou para a cidade.
O L�zaro ficou na floresta, como devia ser.
Mas a viagem que fizeram juntos f�-los amigos para sempre.
In nomine d�mini, Jesu Christi, ego te absolvo.
V� em paz...
Os �ndios contam uma lenda,
de um rapaz que vive no lugar onde as �guas se tornam negras.
Afirmam que ele � o filho de um Padre e de uma mulher linda,
que se transformou num golfinho.
Eles dizem ver o rapaz nadar com o golfinho
e brincar com ele.
Eles dizem que o golfinho o protege.
Dizem que o seu esp�rito � sagrado
e poderoso e que protege os �ndios.
Um esp�rito alegre cheio de jovialidade,
radiante e resplandecente como o ouro,
por baixo da superf�cie da �gua,
gentil e sensato como o pr�prio rio.
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