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Ol�.
BASEADO NUMA HIST�RIA REAL
Ol�.
Hogweed diz: Ol�.
Ouvi dizer que �s muito bonita.
Abzurdah diz: Est�s errado.
Hogweed diz: N�o me parece.
Hogweed diz: Como est�s?
Abzurdah diz: Triste.
Hogweed diz: Porqu�?
Abzurdah diz: Cora��o partido.
Hogweed diz: Bonita e de cora��o partido?
Abzurdah diz: Sim
Hogweed diz: Confirmado. Ent�o �s bonita.
Chamo-me Cielo.
Sim, Cielo.
Os meus pais passaram a minha inf�ncia a dizer que eu era especial.
Tenho dois irm�os mais novos, mas fui criada como filha �nica.
Cometem-se sempre grandes erros com o primeiro filho.
Fui o rato de laborat�rio dos meus pais.
Classe m�dia-alta. Vivi em La Plata durante a inf�ncia e adolesc�ncia.
Sempre fui bastante auto-suficiente, egoc�ntrica e arrogante.
Talvez alguns de v�s sejam perfeitos.
Eu n�o sou.
Aos 18 anos mudei-me para Caballito, em Buenos Aires.
Vivi num belo apartamento onde manchei as paredes de sangue.
Falarei disso mais tarde. N�o vos vou estragar o final.
Que mais? N�o sei.
Em vez de dizer o que sou, prefiro dizer o que n�o sou.
N�o sou normal.
Lopatin? �ptimo.
Bracken? Muito bom.
Trincadelli? Bom.
Mendelberg? Muito inteligente.
Puebla? Fraco.
Foster? Est� bem.
Saavedra? Bom.
Juncker? Interessante.
Cortez? Bom.
Latini?
Sil�ncio! Est� bem.
Falamos depois, Latini.
Eu gosto.
-� bonito. -O problema n�o � esse, Cielo.
-Quero ir a um psic�logo. -Para qu�?
N�o tenho amigos.
Na tua idade eu tamb�m n�o tinha.
Est�s a dizer que � heredit�rio?
N�o, ela quer dizer que vai passar.
Al�m disso, tu tens amigos.
Aquela rapariga com quem tens nata��o?
-A Taty, � t�o querida. -N�o � tua amiga?
N�o. Quero mudar de escola.
N�o podes, estamos no final do ano.
N�o quero saber.
Cielo, vais ter de aguentar.
Porque n�o aguentas tu?
N�o vamos transferir-te de escola outra vez.
Sim, eu tinha amigas,
at� que uma me roubou o Cocol, o amor da minha vida.
Eu sentia-me muito sozinha quando o Hogweed apareceu.
Ele disse-me que o seu nome verdadeiro era Alejo.
Fal�vamos muito.
Por vezes em grupo e outras em privado.
�ramos apenas amigos virtuais.
Hogweed diz: Continuas triste?
Abzurdah diz: N�o o consigo tirar da cabe�a.
Hogweed diz: Acontece-nos a todos.
Abzurdah diz: A s�rio? Quem tens na cabe�a?
Hogweed diz: N�o interessa.
Esquece o Cocol.
Hogweed diz: Nunca te trocaria por outra rapariga
Abzurdah diz: Obrigada. Quero mudar de escola.
Hogweed diz: Ent�o f�-lo.
Abzurdah diz: N�o � assim t�o f�cil...
Os nossos piores arrependimentos v�m do que n�o nos atrevemos a fazer
Abzurdah diz: Tens raz�o...
Parece que tens sempre raz�o.
Hogweed diz: Adeus.
Abzurdah diz: Adeus.
Hogweed diz: Beijo doce.
Abzurdah diz: Escola nova...
Farda nova...
Imposs�vel ter um aspecto giro.
Horr�vel.
A reprodu��o � um processo biol�gico com dois tipos b�sicos.
Escolas diferentes, a mesma fauna.
Outro ano na pris�o.
Vamos ver. Funes.
-Que tipo de poliniza��o conheces? -Poliniza��o do vento.
-Poliniza��o do vento. -Poliniza��o do vento.
Muito bem.
A Hary, a Agustina e a Tamy s�o as �nicas aceit�veis.
Chamam-lhes "o Bando."
Adoro-as e agora tamb�m sou membro.
Hogweed diz: Se o Bando se afundasse
e eu tamb�m,
quem salvarias?
� mais f�cil para mim salvar-te pois �s s� uma pessoa.
Hogweed diz: Engoli �gua. Vou precisar de respira��o boca-a-boca.
Hogweed diz: Salvas-me?
Est�s em grande hoje!
Queres que te mude da conversa privada para a de grupo?
Hogweed diz: Cobarde.
Atrevido!
Hogweed diz: Se quiseres,
tira-me da conversa privada,
para organizarmos o encontro de grupo.
Qual encontro?
Hogweed diz: Com os membros.
N�o te dissemos antes porque �s a mais nova.
Travis diz: piza e champanhe!
r2d2 diz: S�bado �s 8:00! Confirmem.
Mortadelo diz: Estou nessa!
Hogweed diz: Ent�o, vejo-te ou n�o?
Vemo-nos s�bado.
Hogweed diz: Vou estar � espera. Beijo doce.
-�s desajeitado com o p� esquerdo. -N�o digas isso!
Mas ele � um pouco desajeitado com o p� esquerdo.
Pede-lhe para te p�r a avan�ado para que possas marcar um golo.
-Mas hoje marquei um. -Marcaste? Muito bem.
Come isso.
Posso ir?
J� dissemos que n�o.
Porque n�o? Tenho-me portado bem.
Foste expulsa da escola h� um m�s, Cielo.
-Sim, mas tenho tido boas notas. -Mas foste expulsa.
N�o conhecemos aquelas pessoas.
-Ela tamb�m n�o as conhece. -N�o se conhecem, � de loucos.
Eu conhe�o-os. Porque te ris?
Podem ter outros interesses. Vais-te aborrecer.
Estou sempre aborrecida, � por isso que quero ir.
-Ela devia ir ao clube. -Sim, vai ao clube.
Vais a aulas de nata��o com a tua irm�.
A adolesc�ncia � um ponto de viragem. Toda a gente diz isso.
Eu sei, Cielo. Todos os livros de auto-ajuda o dizem. Obrigada.
O que � isso?
O que fizeste? O ch�o est� cheio de frango!
N�o se pode comer em paz nesta casa. Levanta-te.
Sara! Sara!
-Fede, �s um porco. -Porque n�o podemos almo�ar em paz?
� todos os dias a mesma coisa!
Vais para a cama quando queres, acordas...
N�o acredito que n�o me deixas ir.
-� um encontro estranho. -N�o � estranho.
Encontramo-nos cedo numa pizaria.
Desculpa, Sara.
-Lamento imenso. -Tudo bem, senhor. Sem problema.
Feito.
Podias falar com a m�e.
Falas?
N�o sei.
Se n�o gostar das pessoas ou do s�tio, n�o ficas.
Percebido?
Sim.
-O que est�s a fazer? -Nada de discursos.
N�o sou o teu pai. Ou entras ou vamos embora.
-Ol�. -Boa noite.
Sou o Abzurdah.
Abzurdah?
N�s usamos alcunhas no chat.
Sou a Barbarella.
Dra. Sep�lveda.
Tenho dois filhos lindos. Este � o meu n�mero de telem�vel.
-Obrigada. -N�o se preocupe. Somos boas pessoas.
-N�o se preocupe, est� bem? -Est� bem.
Venho buscar-te daqui a bocado.
-Adeus. -O que estavas a dizer?
N�o podias ter chegado em melhor altura. Acab�mos de nomear-te campe�.
-Co-campe�. -Co-campe� do qu�?
Dos melhores escritores do chat.
-E dos mais interessantes, claro. -Quem mais est� no p�dio?
Quem achas?
Hogweed?
-Ela nem sabe quem ele �. -Sim!
-Palmas para a co-campe�! -Ol�.
Tamb�m dev�amos coroar o pior escritor do chat.
No outro dia, o Mortadelo escreveu mal "roupa interior".
O que aconteceu? Separaste-te?
Sim, acab�mos mesmo. Apoiei aquelo tipo em tudo.
At� desisti da universidade porque ele queria ter filhos.
Depois tive de parar de beber. Dei o meu melhor.
Est�s feliz com isso?
Est�s a gozar? Pare�o feliz?
Fiz tudo. Abdiquei da minha vida. Tudo por um homem.
� assim que funciona. Apaixonas-te e... pumba!
-Ainda n�o falaste. Diz-nos algo. -Vamos mudar de assunto.
Est�s apaixonado?
Bom, para com as perguntas. Tem calma, pol�cia.
N�o sei.
-Como assim, n�o sabes? -N�o sei.
J� alguma vez te apaixonaste?
Sim, j�.
Que mais queres saber? Pede-nos os n�meros da seguran�a social...
Que mais precisas?
Bem, quero saber. Alguma vez te apaixonaste?
N�o falo da minha vida privada.
Ol�.
Vieste.
Sim.
-Boa noite. -Ol�.
Algu�m veio apanhar-me.
Adeus.
Adeus.
Um beijo doce.
Como foi?
-Bem! -Obrigado.
Conhecem-se h� muito tempo?
-Alguns de n�s. -Mais ou menos.
� mais uma quest�o de intensidade.
Como se beb�ssemos caf� todos os dias.
-Claro. -Falamos e partilhamos...
-Muito bem, boa noite. -Est� bem.
-Adeus. -Adeus.
Foi um prazer conhecer-te.
Igualmente.
Sim. Assim mesmo.
Eu estava em queda livre.
Ele era 10 anos mais velho do que eu.
Eu estava a violar as regras.
Muitas regras, todas de uma vez.
Mas n�o me lembrei de que ap�s uma queda, h� sempre um impacto.
Ol�, como est�s?
Bem. N�o podia estar de outra forma quando est�s aqui.
Queres que me derreta?
Queres uma resposta sincera?
N�o sei.
No outro dia disseste-me que precisavas de amor.
�s o homem que qualquer mulher precisa.
Porque n�o tens uma namorada? Tenho medo.
N�o tenhas medo, linda.
Estou louca por ti e n�o sei o que fazer.
Podes fazer o que quiseres.
Eu sei o que quero. Atreves-te?
� contigo, Cielo.
Cielo � o teu nome? O que sou eu ent�o, o sol?
As estrelas, o planeta Mongo.
Estou sempre a ouvir isso.
O que podias ser, mi�do?
N�o me chames mi�do. Sou um ano mais velho. Tenho 18 anos.
Continuas a ser um mi�do.
Porque n�o vamos l� para cima e mostro-te o mi�do que sou?
Se brincas com fogo, queimas-te.
A s�rio? Est� bem. Estou ansiosa.
Beijo doce.
Beijo doce.
Diz-me que tipo de beijos me darias
e eu digo-te se iria l� para cima ou n�o.
Beijos selvagens.
Onde foste ontem � noite?
Sa� com uns amigos.
E agora?
Vou sair com outro.
Aqui mesmo, pai.
Como se chama esta amiga?
A que vais ver agora.
A m�e pediu-te para me interrogares?
-Hary. -Hary.
Est� bem, adeus.
N�o te est�s a esquecer de nada?
N�o, espera.
Toma, tira o que precisares.
A que horas te venho buscar?
Vou ficar em casa da Hary. O pai dela vem-nos buscar.
-Est� bem. -Adeus.
-Tens as chaves? -Sim.
Adeus.
-Ol�. -Ol�.
O teu pai trouxe-te.
Sim.
O que lhe disseste?
Que ia sair com amigas.
N�o entraste.
N�o, n�o gosto deste s�tio.
Onde queres ir?
N�o sei.
Entra. Vamos.
Obrigada.
Querias dizer-me alguma coisa?
N�o. Porqu�?
Insististe tanto que pensei que querias dizer-me algo.
N�o.
S� queria ver-te.
E tu?
Querias ver-me?
Sim.
Qual � a piada?
Nada.
Est�s nervosa?
N�o.
Auto-estrada para Buenos Aires
Onde estamos?
Em Avellaneda. Na minha casa.
Passa-se alguma coisa?
Entra.
N�o � como imaginava.
N�o?
Como a imaginavas?
Diferente.
O que queres beber?
N�o sei.
Est� bem.
Tenho cerveja, vinho, caf�, ch�,
�gua da torneira, �gua com g�s, lisa, champanhe...
Champanhe.
N�o, n�o tenho champanhe, querida.
Est� bem, o que tiveres.
Para o que est�s a olhar?
Os teus livros, a tua m�sica, as tuas coisas.
Est�s a investigar-me?
-Esta casa � tua? -N�o.
Isso interessa mesmo?
N�o.
S� estou a fazer conversa.
Queres falar?
Vamos falar.
Queres ser minha namorada?
Sim.
Queres ser a minha mulher?
Qual � a diferen�a?
Espera.
Espera.
Relaxa, acalma-te.
Vamos ficar assim um bocado.
N�o vou fazer nada que tu n�o queiras, nunca.
N�o vamos fazer os sum�rios separados. Eles v�o descobrir.
N�o te preocupes. Eles corrigem os exames sem olhar.
Est� aqui algu�m para te ver.
Vemo-nos no s�bado.
�ptimo.
Ol�.
N�o. As tuas amigas est�o a olhar.
N�o faz mal. Elas sabem.
Entra no carro.
Tivemos v�rias tardes assim.
Eu estava nua, ele vestido.
A ir e vir entre Avellaneda e La Plata.
Incrivelmente, eu ainda era virgem.
-� tarde, n�o posso faltar �s aulas. -N�o interessa.
Anda c�.
Preciso de saber do que gostas.
Gostas de tudo?
Sim.
Onde estiveste?
Em casa da Hary.
� tarde.
Queres gelado?
N�o, n�o quero nada. O que est�s a fazer com isto?
Jantaste? Comeste alguma coisa?
Vasculhaste as minhas coisas, m�e.
Baixa a voz, se n�o queres que o teu pai saiba.
Mas � um desrespeito!
Fala-me do Jogweed.
-Hogweed. � desrespeito. -N�o confundas respeito com educa��o.
Ele � teu namorado?
Isso � assunto meu.
Pelo que leio, ele � teu namorado.
Tudo o que l�s aqui � inventado.
Este tipo n�o est� interessado em mim.
N�o me parece.
� fic��o, fantasia.
A s�rio? Est�s a escrever?
Ainda n�o tem forma, mas sim.
-Mas o tipo existe ou n�o? -O que te interessa?
De onde o conheces?
� assunto meu, m�e!
Est� bem. Pro�bo-te de v�-lo outra vez.
-N�o podes proibir-me de nada. -Posso sim.
Sen�o vou dizer ao teu pai.
E depois? O que vai fazer o pai?
Ele saber�.
Al�m disso, qual � o problema se o vir?
Est� bem.
Vamos fazer o seguinte.
Podes v�-lo, beij�-lo, mas n�o fa�as sexo com ele.
Os nossos piores arrependimentos v�m do que n�o nos atrevemos a fazer.
Pede-me.
Ele disse que n�o ia doer.
Se ele dissesse que me tornaria na Branca de Neve, tamb�m teria acreditado.
Ol�. Ol�.
Posso perguntar-te algo?
Sim.
Contaste a algu�m sobre n�s?
S� � minha m�e, pai e irm�os.
Podemos jantar todos, se quiseres.
A s�rio?
N�o, Cielo. Somos s� n�s os dois.
Quero que toda a gente saiba.
Querida, n�o concordamos pela primeira vez.
� melhor guardarmos segredo.
N�o quero as pessoas a falar ou a tentar separar-nos.
Cielo, podes desligar? N�o conseguimos usar o telefone.
J� est�.
Podes bater � porta?
O que est�s a fazer?
O que queres?
Falar.
N�o quero estar sempre a discutir contigo. Isso magoa-me.
� poss�vel?
Sabes como conheci o teu pai?
Sim.
O teu primo Beto apresentou-vos,
mas n�o gostaste dele porque tinha bigode. Gostaste do amigo.
Mas o pai insistiu e aqui estou eu.
V�s como �s?
Como?
Ainda est�s com aquele rapaz?
Era isso o que querias saber?
Estiveste com ele ou n�o?
N�o.
Como estive?
Bem.
De um a 10, que pontua��o tenho?
Nove.
-Sabes que mais? -O qu�?
Amo-te.
� a primeira vez que me sinto
apaixonada.
E tu?
Amas-me?
Tatuarias o meu nome, por exemplo?
O que queres dizer?
...quer dizer sim.
...significa n�o.
E?
"Amo-te e estou disposto a esperar o tempo que precisares, at� que..."
Ele escreveu mal "at�".
"...te sintas confiante e segura.
"Eu sei que fomos feitos um para o outro e esse dia chegar� em breve.
"Nunca te esque�as que eu..."
Te amo!
Porque se riem? Qual � o problema?
-Ele quer foder-te! -� t�o �bvio.
Est� a usar psicologia inversa, Hary.
N�o, ele diz que esperar� por mim.
Desenhou cora��es numa folha de papel. Que rapaz faz isso?
Um rapaz que quer sexo.
Cielo, a tua m�e ligou. Chega daqui a meia hora.
Tudo bem. Come�a a limpar, se quiseres.
-Tudo bem, Cie? -Sim.
Deixa tudo arrumado, se faz favor.
E n�o queimes os sof�s!
O que vais fazer?
Vais dormir com ele ou n�o?
N�o sei. Sinto-me estranha.
Nojo?
N�o, tonta. Estou assustada.
O namorado da minha irm� rompeu um preservativo. Ela ficou assustad�ssima.
Cuidado, pois a Alexia gosta dele.
O meu Fede?
Exacto.
Ela � uma cabra.
Porqu�?
A defensora de cabras ausentes.
-Cielo, j� o fizeste? -� �bvio que j�.
-V� l�, n�o mintas. -Consigo notar.
Queres detalhes?
-Foste para um motel, certo? -N�o, para qu�?
Passei a tarde a falar com eles sobre o Alejo.
Falei mais do que devia.
Acabei! Quem �?
� para mim!
"Cielo,
n�o esperes uma rela��o normal de namorados.
"J� passei por isso e � aborrecido.
"N�o te posso ver todos os dias. Trabalho.
"Vivemos em cidades diferentes, coisa que sempre soubeste.
"� o que �. Est� bem?"
Estou triste e sinto-me sozinha.
N�o consigo dormir. Preciso do teu beijo doce.
Abzurdah diz: Ol�. Finalmente est�s online!
Hogweed diz: Ol�. N�o posso falar agora.
Abzurdah diz: Por favor n�o me ignores.
Ningu�m fala comigo na escola.
Hogweed diz: Eu disse que agora n�o posso.
Estou?
Estou, o que foi? Se n�o te ligo � porque n�o posso. Chego tarde a casa.
-Cielo! -Eu sei, desculpa. � que...
N�o quero 20 milh�es de mensagens sempre que chego a casa, � demais.
-Cielo, est�s ao telefone. -Sim.
Estou a falar com a Hary. Ela acabou com o Fede.
E porque est�s a chorar?
Por ela.
Diz-lhe para n�o ligar a estas horas.
S�o s� cinco minutos.
Cinco minutos.
Ol�, Hary.
Est�s a ficar cada vez mais louca.
Encheste o meu correio de voz, deixaste tantas mensagens.
N�o consigo dormir se n�o falar contigo.
Falamos todas as noites. Eu tenho de trabalhar.
Consegues entender isso? Percebes?
Trabalhaste duas noites de seguida?
Est�s com outra pessoa?
Para, por favor, para. Aprende a estar sozinha.
Nascemos sozinhos e morremos sozinhos.
Vais fugir?
N�o, isso � est�pido. E se viajar?
-O que faremos? -Eu vou contigo.
E se n�o puderes? O que far�s?
E se eu morrer?
N�o chores mais. J� chega.
Cielo.
N�o v�s.
As tuas amigas autorizaram-te a falar comigo?
Tenho saudades tuas.
Eu n�o. E tamb�m n�o quero falar contigo, �s uma marionete.
Cielo, fazes tro�a de n�s todas.
-N�o fa�o tro�a de ningu�m. N�o. -Sim, �s muito arrogante.
Sim, Cielo. Achas que �s melhor que as outras.
N�o! � por isso que n�o falam comigo?
-N�o. -Ent�o?
Dizem que �s uma cabra.
-E tu? -N�o, eu defendi-te.
Disse-lhes que t�m inveja.
Obrigada.
-Como est� tudo com o Fede? -Muito bem. Olha.
Ele disse que me amava e cas�mo-nos.
-O qu�? -Sim, no meu terra�o.
Sob o luar. Foi lindo.
-Espera. -O qu�?
-Isso � t�o pind�rico. -N�o, Cielo, foi lindo.
Olha. Ele escreveu-me outra carta.
Fodeste-o?
Mais ou menos.
Como assim?
N�o sei. N�o conseguimos.
Fodes-te ou n�o?
-Tira o len�ol. V� l�. -N�o!
O que farias se eu estivesse gr�vida?
N�o est�s gr�vida.
Como sabes?
� imposs�vel, pois eu sou muito cuidadoso.
Mas o per�odo atrasou-se.
Um dia n�o � nada.
O que farias se eu estivesse gr�vida?
Nada.
Nada?
N�o fazias nada? N�o casavas comigo?
Para com isso. N�o gosto deste jogo.
O que somos n�s? N�o percebo.
Est�s a ser uma crian�a.
Sim, porque sou uma crian�a.
Quando te conv�m.
N�o.
Contigo, nunca me conv�m.
Cielo.
Preciso que me ames como eu te amo, Alejo.
�s tudo o que quero e tudo o que tenho. Por favor!
Alejo!
Ale!
Talvez penses que este email
� como as outras centenas que te enviei nos passados oito meses.
Mas � diferente.
� um adeus.
N�o consegui adaptar-me � tua filosofia de vida casual.
N�o mostras qualquer compromisso comigo.
Estou desapontada e j� n�o gosto de ti.
Nunca sou uma prioridade na tua vida.
E tu �s tudo na minha.
Porque n�o me disseste que seria assim?
Ter-te-ia amado menos.
A partir de agora, vou come�ar de novo.
N�o quero falar contigo, ver-te ou ouvir-te.
Quero estar bem.
-Adeus. -� o Alejo.
-Deixe mensagem ap�s o sinal. -Ale?
Ale, � a Cielo. Sei que est�s a�. Por favor atende. Vou ser r�pida.
Enviei-te um email, mas n�o o abras, est� bem?
Consegues ouvir-me?
� o Alejo. Deixe uma mensagem ap�s o sinal.
Ale, sou eu. Desculpa.
N�o abras o email que te enviei, est� bem?
Amo-te.
-Estou? -Ale?
-Sou eu. -Sim, eu sei. O que queres?
-Abre, por favor. -O que est�s aqui a fazer?
Nada. Queria pedir desculpa.
Est� bem. Perdoo-te. Pronto.
N�o me deixas entrar?
N�o. Vai para casa, Cielo. Vai.
Ale, estou gelada.
Vim para pedir desculpa. Deixa-me entrar.
J� te disse. Vai para casa.
N�o.
N�o te quero perder.
Nunca me vais perder.
Alejo! Abre a porta!
Durante todo esse ano, n�o o voltei a ver.
Meninas, como ag�ncia,
proporcionamos entrada livre para todos os clubes.
Todos estavam felizes.
A viagem de fim de ano estava perto.
O que acontece em Bariloche, fica em Bariloche, meninas.
Fica em Bariloche.
Isto � uma piada? S�o dois anormais.
Fiz 18 anos.
Organizei uma grande festa.
Os meus pais sa�ram e deixaram a casa para mim.
Diverti-me muito.
Convidei o Alejo.
Ele n�o veio.
Eu queria morrer.
E quando disse que queria morrer,
estava a falar literalmente.
"Abzurdah ou Cielo,
"feliz anivers�rio.
"N�o te esqueci. S� estou a fazer o que pediste.
"N�o nos vemos, n�o falamos.
"Espero que estejas bem.
"Sempre teu,
"Alejo."
Foi assim que percebi como podia sentir-me bem.
Porque n�o faz�-lo sempre que me sentia mal?
-Cielo? -Cielo, vais descer?
Estou a ir!
Um ano sem o Alejo.
N�o conseguia aguentar mais a abstin�ncia.
-Ol�. -O que est�s aqui a fazer?
Trouxe-te o �ltimo CD do Cerati.
J� o tenho.
O que queres?
Ver-te.
Enviaste-me um email a pedir o contr�rio.
Sim, mas isso foi h� um ano, Alejo.
N�o, n�o.
Se te aproximares, sabes o que vai acontecer.
Ol�.
Ol�. Tudo bem?
-Cielo, Marina. -Ol�.
Como est�s?
Bem.
Vamos?
Podes explicar esta situa��o da garagem?
-O que queres? -Est�s bem?
Sim.
Porque bates � porta se a vais abrir?
Est�s mesmo bem ou digo � m�e?
N�o, cala-te. N�o digas nada.
Adzurdah diz: N�o acredito. Trocaste-me por aquela?
Abzurdah diz: Se engordar e me vestir como ela, vais gostar de mim?
N�o vais sair?
N�o.
Porque est�s a fazer isto?
Porque a Sara est� a limpar o meu quarto.
A s�rio?
Tens de fazer alguma coisa.
N�o podes viver isolada.
Porque te ris? J� pensaste nisso?
N�o sei.
Encontra algo que gostes, uma carreira. Sempre foste boa aluna.
Para, m�e.
-O que vais fazer? -Nada.
-N�o queres fazer nada? -N�o.
S� estou interessada no Alejo. Tudo o resto � aborrecido.
Tudo e todos s�o aborrecidos para mim.
E eu sou muito exigente comigo pr�pria.
Seria melhor para ti falares disso em terapia.
S� estava a dizer-lhe porque me perguntou como me sentia.
Sim, tudo bem, mas um teste de orienta��o vocacional
� mais limitado, sabes?
Pelo que vejo aqui, tens uma forte orienta��o
para a comunica��o,
especialmente para jornalismo.
Tamb�m poderia ser lingu�stica.
Escola de cinema, teatro, certo?
Tens algum interesse numa destas carreiras que mencionei?
-Sim. -Muito bem. Aqui em La Plata
tens a universidade estatal,
onde podias seguir uma carreira em comunica��o social.
E em Buenos Aires?
Na cidade tens a Universidade de Buenos Aires,
onde podias estudar ci�ncias da comunica��o, ou...
Est�s a�?
Hogweed diz: Sim.
Vou mudar-me para Buenos Aires para estudar.
Estaremos mais pr�ximos.
Hogweed diz: Continuo com uma pessoa.
N�o quero saber. Podemos ver-nos?
Tudo o que comia sa�a do meu corpo em menos de uma hora.
Parei de comer. E isso n�o significa que comia pouco.
Simplesmente parei de comer.
Mais de 50% das mulheres entre os 18 e os 25 anos
preferiam ser atropeladas do que ser gordas.
SINTOMAS DE ANOREXIA A anorexia � caracterizada por...
...aumentar o risco de morte.
Tudo o que lia era negativo ou mau,
mas tinha parado de comer e sentia-me bem.
N�o se l� isso num livro.
Est�s diferente. Mais magra.
A s�rio?
A tua namorada concordaria com isto?
Desde que tu concordes, tudo bem.
A que horas tens aulas amanh�?
Est�s a pedir-me para dormir c�?
Acho que n�o vais conseguir dormir.
-Estou? Porque n�o atendias? -Ol�, m�e.
Vou-te matar. Liguei-te a noite toda.
Desculpa. Adormeci.
-Porque est�s a sussurrar? Est�s com quem? -Com as pessoas com quem estudei.
Onde est�s?
Na cidade.
Onde?
Em casa da Pilar. Tenho teste amanh�.
Quando voltas para casa?
Amanh�.
Quero-te aqui depois da aula.
-Adeus, m�e. -N�o podes sempre...
...precisamente para lidar com esta dificuldade.
O complexo de Electra pode ser considerado
como um interesse amoroso de uma rapariga para com o seu pai.
� um conceito psicol�gico
que nos ajuda a perceber a maturidade,
a experi�ncia da maturidade das mulheres.
-Esquece o Alejo. Vamos sair. -N�o.
-Podias conhecer o meu amigo Gus. -N�o.
-Ele � barman. -N�o, Pilar!
Havia outras como eu.
N�o t�nhamos de estar sozinhas.
T�nhamos de apoiar-nos mutuamente.
Foi por isso que comecei o meu blogue.
E o meu pseud�nimo.
"L�grima."
Um guru virtual que proclamava ao mundo
que a anorexia n�o era um dist�rbio alimentar, mas uma forma de vida.
Quem pode saber mais que n�s sobre anorexia?
S� diferente dos outros.
Comer � algo que todos conseguem fazer.
Desde um m�dico a um empreiteiro. Tu �s diferente dessas pessoas.
Perfei��o
Podes viver de ti. Da tua pr�pria pureza.
N�o deixes ningu�m corromper o estado divino em que est�s.
Porque te vais embora?
Para com isso.
Porqu�? Estou a perguntar porque te vais embora?
N�o sei. Sinto que � uma nova fase.
Como � a tua casa em Monte Grande?
Grande.
Promete-me que n�o te vais chatear.
Vais viver com a Marina?
N�o.
Vais mudar-te para uma casa maior para viveres sozinho?
N�o, vou com uma amiga e o filho dela.
Est�s a gozar comigo?
O que diz a Marina?
Separ�mo-nos.
Separaram-se?
O que aconteceu primeiro? A separa��o ou conhecer esta tipa?
Sempre fomos amigos. Ela n�o � uma tipa.
Porqu�?
N�o tenho de te dar explica��es.
N�o, mas nunca disseste que se tinham separado.
Sim, separ�mo-nos. O que me aconteceu � horr�vel.
A Marina est� desesperada. Est� sempre a telefonar-me.
�s incr�vel. Isto � uma piada, certo?
Est�s com ci�mes, �?
Ci�mes?
Porque haveria de ter ci�mes?
Porque vais viver com algu�m que n�o eu?
Sou anor�ctica.
-N�o comes? -N�o.
Mas bebes �lcool.
E vomito-o.
H� quanto tempo.
Um m�s.
Um m�s n�o � nada.
Deixa-te de merdas e come.
Precisava que ele se preocupasse comigo.
Ia ser a melhor anor�ctica do mundo.
47 kg
-Estou. -Estou?
Acho que � a Cielo.
-Sim? -Quem fala?
-A Romina. Com quem quer falar? -Com o Alejo.
Ele est� a conduzir, n�o pode.
-Quem fala? -Quem � voc�?
-A Cielo. Posso falar com ele? -A Cielo. Queres o telefone?
Desliga. Estou a conduzir, n�o posso falar.
Posso falar com ele, por favor?
Meu Deus! Diz-lhe que lhe telefono amanh� da cidade.
Ele diz que amanh� est� na cidade e te liga.
Sim, eu ouvi. Ele n�o pode falar?
-N�o. Vou desligar. -J� chega, desliga.
Ale, diz-me se nos vamos ou n�o encontrar. Estou em casa da Pilu a beber. Adeus.
-Ela est� a falar com quem? -Um tipo com quem tem andado.
-Tudo bem? -N�o.
-Aqui tem, menina. -Obrigada.
Cheira bem.
-Queres? -N�o, eu n�o fumo.
A s�rio?
N�o imaginas como te ajudaria a relaxar.
A Cielo nunca est� relaxada.
-Nunca fumaste? -Bom, chega do interrogat�rio.
N�o. A minha m�e n�o me deixa.
Isso � verdade?
V�s porque n�o fumo? Mata as c�lulas cerebrais.
A tua amiga � muito fixe, n�o �?
Ela simplesmente n�o fuma. N�o � esquisita.
Que outras coisas n�o fazes?
Muitas.
A marijuana afecta-me a mem�ria.
Isso � assim t�o mau?
Sim, pois preciso de lembrar-me de tudo.
-Alejo. -Ol�, Ale. Liguei-te v�rias vezes.
N�o me deixes pendurada. Podes ligar-me, por favor? Obrigada.
Acho que vamos ter de passar a noite na cozinha.
Espero que n�o.
Alejo.
N�o.
Bebi demais e s� bebo quando estou com o meu ex-namorado.
Bem, acho que ele agora � meu amante.
N�o me fales do teu ex.
E do meu amante?
Pior.
Acho que ela est� a fingir.
Usei o m�todo dele durante dois dias.
N�o respondi, n�o respondi.
Tive saudades tuas.
Amo-te.
Gostas do meu corpo assim?
Gostas?
-O que se passa? -Est�s magra demais.
N�o posso foder-te assim.
Nem sequer tens peitos.
Estou �ptima.
N�o pareces �ptima.
Acho que devias pedir ajuda.
Estou a pedir-te a ti.
Quero dizer um m�dico.
N�o, n�o est� assim t�o mau.
Eu acho que est�.
Ent�o pe�o-te ajuda a ti.
Alejo. Ale.
Estou a ir.
Ale, desculpa. Tens o repelente de mosquitos?
N�o, est� na cozinha.
-Ouve, estou com a Cielo. -Sim, eu sei.
-Fizemos muito barulho? -N�o quero saber, Alejo.
Cielo, Romina.
-Ol�. -Ol�.
Est�s bem?
Sim.
Queres algo para beber?
�gua.
-Podes preparar um mat�? -Claro.
Passas-me o mel?
-Onde est�? -No frigor�fico.
-N�o o encontro. -Esquece. N�o faz mal.
M�e!
Que pesadelo.
-Quem vai? -M�e!
Vais tu?
O qu�?
Nada. Estou a brincar.
Eu fa�o umas torradas.
N�o quero p�o. Quero ir-me embora.
N�o, fica. Est� tudo bem.
Vamos tomar o pequeno-almo�o. Est� tudo bem com a Romina.
N�o me sinto confort�vel. Quero ir embora.
J� aqui est�s. N�o vamos discutir.
-Alejo! Podes vir aqui? -Estou a ir.
-Volto j�. -Temos uma situa��o.
-O que aconteceu? -Digo-lhe eu, ou dizes tu?
Diz-me porque n�o queres ir ao treino de futebol.
-Porque n�o quero. -J� alguma vez faltaste?
-Nunca. E tu? -Bem.
N�o.
Hoje n�o vais faltar. N�o vai ser a primeira vez. Anda.
-Levanta-te! -V� l�.
J� o viste faltar ao trabalho? Alguma vez n�o cozinhei para ti?
Eventualmente, comecei a sentir os efeitos secund�rios.
N�o comer deixava-me sonolenta.
Estava de p�ssimo humor, sentia frio e n�o conseguia pensar.
Ainda assim, os efeitos negativos tinham menos peso.
N�s sab�amos quando havia mais algu�m como n�s.
Se algu�m lesse a nossa mente, pens�vamos todas o mesmo.
Nunca se � magra demais.
N�o comer � um direito que eu exer�o. Ningu�m � obrigado a morrer � fome.
A L�grima recebeu perguntas de todo o lado.
Ela percebia as d�vidas e ouvia as confiss�es.
Ela sabia como era estar sem comida mas cheia de orgulho.
Por vezes era atacada. �ramos atacadas.
Mas n�o interessava.
T�nhamos o nosso objectivo: a perfei��o.
Aqui, somos realeza. Chamam-nos princesas.
Somos princesas.
Para viver como eu queria viver, precisava de liberdade.
Para voltar com Alejo, arranjar um apartamento.
Bonito, n�o �?
Vamos ver. N�o.
-N�o d� para virar. N�o cabe. -N�o faz mal, pai.
-Est� bem, vamos deix�-lo aqui... -Aqui estamos.
A instalar um frigor�fico que n�o ia usar.
-Muito obrigado. -Obrigado.
Muito bem.
Diz-nos onde fica tudo.
Est� muito bonito. Ali fica um sof� branco.
Onde podemos p�r o roupeiro?
Ali. Ficar� perfeito.
Isso mesmo. Est� tudo perfeito.
Deixa-nos ajudar-te. N�o � inc�modo nenhum.
-Faz um ch� enquanto te ajudamos. -Sim.
N�o, tenho pessoas que me v�m ajudar. Os meus amigos chegam em breve.
Que pessoas?
Amigos.
Pensei que fic�vamos um pouco mais. Est�s a expulsar-nos.
-Parece que a envergonhamos. -N�o.
-Obrigada. -Muito bem.
-Ficas bem? -Sim. Adeus.
-Adeus, querida. -Vais fazer uma festa?
-Com os teus colegas? -Sim.
Muito bem.
Mais uma coisa. Na caixa de ferramentas, h� uma extens�o...
-Eu telefono. Obrigada. -Est� colada.
-Adeus, querida. -J� me deste um beijo.
A gentileza dela dura pouco! Por favor.
Adeus.
Comprei-te um presente.
Obrigado.
Quero que te sintas em casa.
Imaginas-te aqui?
� um pouco fino.
Gostavas de viver comigo?
A minha pergunta foi t�o estranha que nem respondes?
N�o posso deixar a Romina de repente.
N�o podes deixar a Romina, mas est�s sempre a deixar-me, certo?
Vais viver com ela para sempre?
N�o, s� at� decidir o que fazer.
Decide agora!
A l�gica � viveres comigo, n�o com ela.
-Tenho de ir. -N�o, n�o, n�o.
N�o, por favor, tenho saudades tuas. N�o vieste ontem. Fica.
-� sempre a mesma coisa! -Eu sei. Porque nunca estamos bem?
Porque tu n�o est�s bem. Abre a porta.
Eu sei que n�o estou bem. Por isso � que te pedi ajuda.
-Abre a porta. -Est�s a sair com a Romina, n�o est�s?
-Tenho de ir. -O que tem ela de errado?
Ela n�o se importa que estejas com outras mulheres?
-Abre a porta! Cielo, para! -Eu tamb�m n�o me importo.
A princesa est� trancada na torre. O pr�ncipe escapuliu-se.
Outra noite sozinha.
Alejo.
N�o sei, Maria.
O seu blogue foi temporariamente fechado devido a v�rias queixas.
Verifique as queixas para evitar futuros problemas.
Cielo! Acorda.
Cielo. Isso mesmo. Calma.
-Calma, calma. -N�o deixes que me vejam.
-Podes levantar-te? Tudo bem. Obrigada. -Levanta-te devagar. Isso.
Queres �gua?
Para o que est�o a olhar?
Acalma-te, v�. Senta-te.
Porque est�o a olhar para mim? O que h� para ver? Nunca desmaiaram?
N�o podes estar assim.
Como?
N�o se passa nada. Apenas desmaiaste.
-Para, Pili. -Estou a falar a s�rio.
Porque sou tua amiga? Nunca me ouves.
� a mesma coisa sempre que discutes com o Alejo.
N�o digas o nome dele.
N�o quero falar dele.
Ol�.
-Como est�s? -�ptima.
Porque est�o aqui?
-Telefonaste-lhes, Pilar? -N�o interessa, Cielo.
N�o te interessa a ti! A mim sim.
-Telefonaste-lhes? -N�o a metas nisto.
N�o podemos permitir que continues assim.
-Assim? -O que aconteceu?
-A Pilar n�o te disse? -N�o, Cielo.
Vou-me embora. Adeus.
-Adeus, obrigada. -De nada.
O que aconteceu?
Nada.
-Senti-me mal. -Isto n�o � normal.
Olha quem fala.
Tu n�o �s normal.
Est� bem, v�, levanta-te.
N�o, senti-me mal todo o dia.
-� por isso que vamos ao m�dico. -N�o.
Olha para ela. A pele dela, a cara!
Nunca a vi t�o magra. Nunca!
Falas como se n�o estivesse aqui, mas estou, m�e. Qual � o teu problema?
Tens comido?
Morreria, se n�o comesse. E estou viva.
O frigor�fico est� vazio.
Mando vir comida. Odeio cozinhar.
Quanto pesas?
N�o interessa.
N�o nos consegues enganar. Queremos que te peses.
N�o o vou fazer, m�e!
-Eduardo. -Eduardo o qu�?
Levanta-te.
Levanta-te, Cielo!
O que est�s a fazer? N�o, pai! N�o, qual � o teu problema?
-Por favor, Cielo. -Por favor, para!
-Por favor, Cielo! -Larga-me!
-Cielo, para! N�o a deixes entrar. -N�o!
-Tira a m�o! -Eduardo, n�o a deixes trancar-se!
Cielo, n�o podes trancar-te!
Posso sim!
-O que est�s a fazer? -O que aconteceu? Abre a porta!
-Abre a porta, j�! -Meu Deus!
Acalma-te.
Est�s calma agora?
-Para! -Quero ir-me embora!
Larga-me, pai, deixa-me ir! Sai daqui!
Larga-me!
Acabou. Acabou.
Larga-me, pai!
Fica calma. Acabou.
Cielo, podes ser hospitalizada ou receber tratamento em casa.
De qualquer modo, vais ter de ver um terapeuta, ir a sess�es de grupo
e fazer um check-up m�dico.
N�o quero.
Isto � para te ajudar, nada mais.
Para me ajudar?
Foi por isso que me tiraram de casa?
Tir�mos-te porque n�o podes viver sozinha. � �bvio.
-Somos respons�veis pela tua vida, Cielo. -A minha vida?
Desde quando?
Estamos sempre preocupados com a tua vida.
Est�s a mentir.
Desde os 15 anos que pe�o para fazer terapia.
-Na altura n�o era preciso. Agora �. -Sempre foi preciso, m�e!
Preocupas-te que esteja magra, mas fizeste-me ir ao nutricionista
durante a minha inf�ncia toda.
-Porque te faziam ir? -Porque nunca comeu bem.
Porque eu era gorda! Diz-lhe!
Queres culpar-nos por tudo?
-For�a. -Sim, claro que te culpo.
E a ti tamb�m. De tudo.
Se tiver de pedir desculpa por tudo o que fiz mal, f�-lo-ei.
Mas n�o podes continuar assim.
Fazes sempre que pare�a louca. Gostas disso?
V� como retractam uma fam�lia feliz?
Ela tem a sua vis�o do mundo e � intransigente.
N�o! N�o suportas nada que seja diferente e eu sou diferente.
Queres a fam�lia perfeita, a filha perfeita, mas n�o somos.
-Eu sei. �s autodestrutiva. -Para!
E tu �s uma falsa.
Ela sempre foi muito agressiva comigo.
-Deixa-me viver! -Queres viver?
Claro que quero viver.
Sen�o saltava do 10� andar. Porque pergunta?
Por favor, n�o fales assim.
Eu falo como quiser. Ou tamb�m n�o me deixas?
Claro que podes. Tens todo o direito.
Cielo, o que importa agora � come�ar o teu tratamento.
E se eu recusar?
Tens de faz�-lo.
Se queres viver sozinha, tens de vir c�
e os teus pais levam-te para o hospital todos os dias.
Ou fazes isso ou �s hospitalizada.
A escolha � tua.
Tinha acabado.
A minha liberdade. A L�grima.
O Alejo. Tudo.
O que se passa?
D�i.
O que d�i?
Comer.
Come devagar, est� bem?
Pouco a pouco.
Voc�s os dois acabaram?
N�o quero mais.
Agus, quase n�o comeste.
-N�o quero. -Tens de comer algo.
-N�o. -Deixa-os.
Ent�o vai ver televis�o.
A Sara leva-te a sobremesa.
Podes comer outra coisa.
Queres uma sopa?
-Queres um ch� quente? -N�o, obrigada.
N�o consigo v�-la assim.
Mas ela vai ficar bem. Estamos a fazer o que temos de fazer.
Ent�o, tomei uma decis�o.
-Adoro-te. -O qu�?
Nada. Adoro-te.
Disse adeus a tudo e a todos,
at� que me senti pronta.
-Cumpriste as refei��es? -Sim.
Cielo, estamos � tua procura.
Estou? Cielo, onde est�s?
Por favor, onde est�s? Vem para casa.
Se ela vier c� ou se souberes de algo, diz-me.
-Est� bem. -Ficou claro?
Ouve, fedelha. O teu pai acabou de sair. N�o quero problemas.
-Ouves-me? -Eu sei. Deixa-me entrar.
-Para. Acabou. -Deixa-me entrar, Alejo.
-N�o feches a porta. -�s louca. Para! Acabou!
-Para, eu n�o te quero ver mais. -Alejo, abre a porta!
Estou farto de ti! Afasta-te da minha casa ou chamo a pol�cia!
Eu sei que foi a �ltima vez que te vi.
Vou amar-te para sempre, sabes?
N�o me esque�as.
Alejo?
O que foi?
N�o consegues dormir?
N�o.
Vais morrer?
N�o sei.
Fala comigo, Cielo.
Cielo, consegues ouvir-me? Ouves-me?
Respirar n�o � estar vivo.
Estou morta h� muito tempo.
N�o chorem por ter ido embora hoje.
Chorem por ter ido h� muito tempo.
Deixei a minha alma h� meses e agora � hora de deixar o meu corpo.
Nunca soube porque n�o morri.
Levei meses e anos a recuperar.
Tive de aprender a n�o me magoar.
Tinha descoberto centenas de formas de faz�-lo.
Sofri e fiz muita gente sofrer.
Mas aprendi que tudo � relativo. Eu tenho mais para dar.
N�o sou apenas aquela parte dolorosa e problem�tica.
-M�e. -Ol�.
E que gosto de estar aqui.
E que posso ser eu pr�pria muitas vezes.
E mesmo que nunca ningu�m saiba pelo que passei,
sei que as pessoas podem identificar-se comigo.
Pois todos n�s, pelo menos uma vez, estivemos absurdamente apaixonados.
E outras vezes, absurdamente tristes.
Absurdamente mortos
ou absurdamente vivos.
De qualquer forma, absurdos.
"ABZURDAH", o romance autobiogr�fico de Cielo Latini, foi um best-seller.
Hoje est� a trabalhar no terceiro livro e tem duas filhas.
Um em cada 25 adolescentes sofre de um dist�rbio alimentar
e 10% sofre de bulimia ou anorexia.
A Argentina � o segundo pa�s no mundo, depois do Jap�o,
com as maiores taxas destes dist�rbios.
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