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O CICLO
Queres mais alguma coisa?
O Lonnie quer desligar o forno.
Bolas, Frank, já é tarde. Desculpa.
Posso ir-me embora. A sério.
Não, nada disso. Fica o tempo que quiseres.
Gosto de te ter cá.
Obrigada.
Isso é... uma .38 Special, não é?
E isso é uma farda de serviço do...
início dos anos 70? - Sim.
1973.
É um caso por resolver do arquivo da universidade.
Estou só a dar uma ajuda.
Estás a chegar ao limite?
Ainda não.
Claro que não.
Ainda não sei como consegues comer e olhar para isso.
Pois é. É um bocado estranho, não é?
- Vou buscar-te mais. - Obrigada, Frank.
Pronto.
Fala a Dra. Megan Garland, antropóloga forense,
do Instituto de Ciência Crichton.
É o caso L02-10th,
12 de fevereiro de 2025.
Os restos mortais são de um homem.
Idade aproximada, entre 17 e 21 anos.
Há uma assimetria esquelética que revela uma estrutura óssea robusta
e superfícies articulares ligeiramente maiores no braço esquerdo,
sobretudo no úmero e no pulso.
São marcadores compatíveis com o predomínio da mão esquerda.
Quanto aos objetos pessoais... Encontraram um diário
na mochila dele.
Está encharcado em fluidos corporais,
mas ainda se consegue ler uma parte.
Procuro características de escrita de um indivíduo canhoto.
Vamos ver...
"As coisas ficaram mais claras aqui. Só eu e as árvores."
Qualquer coisa, qualquer coisa, "Sei quem sou."
"Acho que ias perceber. Talvez não.
Seja como for, espero que tenhas orgulho em mim."
Queres que te embrulhe isso?
Não, já perdi a fome.
Ian.
O pai?
Outra coisa.
O nosso objetivo aqui na Body Farm
é estudar a decomposição, recriando
todas as formas de encontrar um corpo.
Se o que aprendemos vos ajudar a resolver crimes mais depressa,
então fizemos o nosso trabalho.
Temos alguns à superfície, como estes, nas jaulas,
outros em águas pouco profundas.
Alguns enterrados... Venham por aqui...
embrulhados em plástico ou guardados na bagageira de um carro.
Na minha carreira, já tive de identificar corpos
com base em pedaços que vocês nem diriam que eram osso.
Mas agora, graças à tecnologia avançada
e à nossa impressora 3D,
conseguimos prever e extrapolar um crânio inteiro
a partir de um fragmento de uma órbita ocular
pouco maior do que a vossa unha.
Sei que parece magia,
mas garanto-vos que não é.
Aqui, seguimos padrões muito rigorosos.
Na verdade, é mesmo fixe.
No fundo, o meu trabalho consiste em compreender
a vida de alguém ao contrário.
Cada cadáver tem os seus segredos,
mas não falam como nós falamos.
Deem-me só um minuto. O que se passa?
Está aqui um chefe da polícia,
o Ian Marks, que te quer ver. - Está bem.
- Diz que é pessoal. - Está bem.
- Podes ficar por mim? - Claro.
- Como vai isso? - O alto está um pouco enjoado.
Já está pronto para as larvas?
As larvas. Vou ter saudades delas.
Divirtam-se, malta.
Olá.
Dra. Megan Garland. Desculpe tê-lo feito esperar.
Credo, tire isso daí, por favor.
- Muito bem. - Esteja à vontade.
Como vê, o nosso financiamento não chega bem aos nossos gabinetes.
Em que posso ajudar?
- Dra. Garland, eu... - Trate-me por Meg.
Sim. A sério. Não precisa de ser tão formal.
Há cerca de um mês,
encontrámos três corpos numa casa na costa de Lester Bay.
Dois eram de uma mãe e da filha de seis anos.
Estavam despedaçados.
- Faz ideia do que foi? - Não.
O terceiro corpo...
não encaixava bem.
Por isso, analisámos o ADN.
E, para ser claro, é por isso que estou aqui hoje,
o terceiro corpo...
é o seu pai.
Posso?
Faça favor.
- É ele? - Sim.
- Lamento. - Não precisa.
Deixou-nos quando eu tinha quatro anos.
Lamento ouvir isso.
Mas alguma coisa o trouxe de volta, e...
Esperava que viesse ver com os seus olhos.
Acho que não ia ser de grande ajuda.
A verdade é que estamos um pouco perdidos,
e a sua experiência seria muito útil.
Agradeço ter vindo até cá, mas...
Eu percebo. Mas tem conhecimentos
de que precisamos mesmo. - Não posso ajudá-lo com isto.
Este homem não significa nada para mim.
Olá.
O Ian pediu-me para te dar isto
caso mudes de ideias. - Está bem.
Podes deixar em cima da secretária.
O que lhe disseste?
Disse-lhe para queimar o corpo.
Isto só pode ser uma piada, porra.
Merda.
112. Qual é a sua emergência?
Agora mesmo. A Igreja Batista de Holcomb...
Atrás da igreja...
Ao fundo do caminho, acima do parque de estacionamento.
Ele está... Ele pode... Está a sangrar muito.
Não! Não me transfira. Não perc...
Não percebe. Têm de ir lá.
Ele está... Está muito mal...
Não!
Meg.
Vai para a cama, Meg.
Glendon?
- Não desligue. - Vem atrás de mim.
Está aí alguém consigo?
Não o oiço.
Não sabes como o partiste?
Não sei. Talvez em casa dos Ashford.
- Consegues arranjá-lo? - Ian, o ouro vale
mais do que as peças.
Não vamos desfazer-nos do relógio do avô.
Fala o Ian.
Meg.
Claro. Não, não é nada tarde.
- Sim. Vemo-nos amanhã. - Ótimo. Até breve.
Dra. Garland, presumo.
Sou o tenente Marks.
Os meus pêsames pela sua perda.
A família não tem nada a ver com isto.
Vim só ver um corpo.
O chefe está à sua espera lá dentro.
Diz-me que é a melhor naquilo que faz.
Obrigada. É... É o pai do Ian?
Sou, sim. Por aqui.
Olá.
- Meg, bem-vinda. - Olá.
- O legista, Joe Ratterman. - Olá, muito prazer. Meg.
- É aqui. - Certo.
Stacy Ashford, 37 anos.
A filha, Rebecca Ashford, seis anos.
O que resta da miúda está no contentor.
Causa de morte de ambas, hemorragia grave.
Marcas de dentes e garras
compatíveis com um ataque de animal.
Sinceramente, estas duas foram comidas.
Mas este...
não foi tocado pelo que atacou aquelas duas.
Peter Stump, 64 anos,
encontrado no mesmo local,
a cerca de 90 metros, no campo das traseiras.
Nenhuma prova de ligação entre as duas partes,
e a decomposição mostra
que o Stump estava morto há bastante tempo
antes de os Ashford serem atacados.
Então, qual é a teoria?
Um predador sai da floresta e cheira o cadáver.
Se calhar, tem crias.
Os Ashford estavam no sítio errado à hora errada.
E ele, como encaixa nessa história?
Isso não sabemos.
A sua mãe participou o desaparecimento em 91.
O ADN levou-nos ao seu perfil estadual.
É tudo o que temos.
Faz ideia para onde ele fugiu?
O que o faz pensar que alguma vez o procurei?
- Há quanto tempo o têm cá? - Cerca de quatro semanas.
Não cheira a formol.
Como os estão a conservar?
Diz lá.
Nem foi preciso.
Estão assim desde então.
O que acha disto?
É invulgar.
Mas os corpos decompõem-se de forma diferente
consoante as condições.
Posso?
Muito bem. Causa de morte, asfixia.
O pescoço alongado e o inchaço nos pés
indicam que esteve muito tempo pendurado.
É provável que seja suicídio, mas não se pode excluir
que tenha sido outra pessoa. - Nada disto é novo.
Ratterman, por favor.
A pele mumificada aqui...
e aqui mostra marcas do padrão de uma alcatifa,
ou seja, já estava muito decomposto quando caiu.
Caiu?
Se o nó se partiu.
Ou se o pescoço esticou o suficiente para se soltar da corda.
Nessa altura, os tecidos deviam estar a escorrer.
Se deixarmos cair uma toalha molhada no chão
e a deixarmos secar, ela mantém a forma.
Tudo isto para dizer que morreu num espaço interior.
Decompôs-se durante cerca de 30 dias,
mas falta calcular o intervalo post mortem.
E só depois é que alguém levou o corpo para aquele campo.
Continuo?
Meg, o laboratório estadual tem meses de atraso.
A Proteção da Natureza anda a caçar sabe Deus o quê na floresta,
e não faço a menor ideia de como o corpo deste homem encaixa nisto.
Tinha de o abrir outra vez.
Nem pensar.
É a porra do pai dela, Ian.
Então?
Diz que ele não é da família?
Pode avançar.
Ora, francamente.
Eu trato do Ratterman.
Ele é um bocado rude,
mas não se esqueça de que está em casa dele.
Sim.
Veja o que mais consegue encontrar.
20h45, 13 de março de 2025.
Esta é a segunda autópsia de Peter Stump,
encontrado na manhã de 15 de fevereiro.
Em nome da total transparência,
fala a Dra. Megan Garland, filha biológica do falecido.
O indivíduo tem uma tatuagem identificativa na palma esquerda,
com cerca de dez centímetros de diâmetro.
Há uma cicatriz sarada na parte superior do ombro direito,
na base da clavícula,
compatível com um ferimento de bala.
As costelas parecem ter sido partidas e consolidadas dezenas de vezes,
se não mais.
Os primeiros indícios sugerem
que estas lesões não foram autoinfligidas.
Acha que ele foi torturado?
Isto foi um exame preliminar,
mas ele tem queimaduras elétricas e térmicas
nas mãos todas.
Lesões graves nas articulações.
Estas lesões não são post mortem.
Isto foi-lhe feito quando estava vivo.
Se calhar, matou-se antes que outra pessoa o fizesse.
E a tatuagem?
A maior parte da tinta está à superfície.
O traço é tosco. Ele era destro.
Provavelmente, fê-la a si próprio.
Um dos meus homens percebe destas coisas.
Acha que pode ter a ver com uma espécie de símbolo religioso antigo.
Seriam precisas provas que o corroborassem.
Onde e como se encontra um corpo diz tanto como os restos mortais.
Havia alguma coisa no local que sugerisse um ritual?
Não.
Não.
Posso mostrar-lhe onde o encontrámos
amanhã de manhã? - Seria ótimo.
Sim.
Os carris parecem antigos.
Há alguma hipótese de ainda haver corrente elétrica?
A linha férrea está desativada desde que a fábrica de conservas fechou.
Em que está a pensar?
Larvas.
O corpo do Peter Stump devia estar coberto delas.
Já tivemos casos de eletricistas mortos que apareceram limpos.
Os insetos não se aproximam de um campo eletrostático.
Tinha estado a chover três dias seguidos.
Para o Ratterman, a chuva levou os insetos.
Sim, li o relatório dele.
Gostava de ser incluída oficialmente no caso.
Com a sua autorização.
Sim. Gostava muito.
- Vou fazer umas chamadas. - Ótimo.
Queres ir comer qualquer coisa e falar sobre isto?
A sucessão de insetos não foi só interrompida.
Foi inexistente.
Não há corrente elétrica junto aos carris,
e só há duas explicações para não haver insetos naquele corpo.
Uma, morreu e decompôs-se congelado
ou submerso em água, o que os restos excluem.
Ou duas, morreu num ambiente selado,
num sítio onde as moscas não chegavam,
sem ovos, não havia larvas.
Mas, se for isso, aquele corpo só pode ter sido lá deixado,
no máximo...
Estamos a falar só de decomposição bacteriana e ácida.
A maioria dos COV já se libertou.
As emissões de gases por volta do dia 25 seriam...
Dois ou três.
Porra. Desculpa.
O quê? Estou a ouvir.
Estás a chegar lá.
Não, não é isso.
É que...
Se ele tivesse ido a minha casa ou me tivesse telefonado,
podia tê-lo mandado embora, mas...
Meu Deus, tinha de voltar assim, não tinha?
Morto.
É a única maneira de lhe dares atenção.
Cortar com ele quando estava vivo
teria sido uma escolha minha, mas agora estou...
A ver coisas, a vê-lo a ele,
e não tenho voto na matéria.
Segundo os nossos registos, a tua mãe vive perto.
Como está ela a lidar com isto?
Não está.
Ainda não lhe contei.
Eu sei. Eu sei.
Olha quando ele se foi, não desapareceu só.
Levou tudo, percebes?
O carro, as poupanças de uma vida inteira.
Ela perdeu a casa. Teve de declarar falência.
A minha mãe não trabalhava por gosto.
Ela aceitava o que pagasse e lutou com unhas e dentes.
Ela apagou-o das nossas vidas,
e não a censuro.
Tudo o que sei fui juntando aos bocadinhos ao longo dos anos.
E agora descobrir que ele esteve vivo este tempo todo?
Eu só...
Não sei como é que ela vai receber isso.
Merda, desculpa.
Não devia contar-te isto.
É muito pouco profissional.
Não, não.
A tua franqueza não põe em causa as tuas credenciais.
Pelo contrário, é... é uma prova de força.
O meu pai e o meu avô sempre se deram mal.
O meu pai mal o deixava entrar em casa.
Mas, uma noite...
devia ter, acho eu, uns oito anos...
o meu avô esgueira-se pelas traseiras,
anda em bicos de pés pela casa, sobe as escadas
e tira-me da cama ainda de pijama,
senta-me no carro-patrulha dele.
- Meu Deus. Outro polícia? - Sim, sim.
Mas, na altura, mal sabia o que isso significava.
Mal conhecia o homem.
Leva-me com ele numa patrulha,
e passamos a noite toda fora.
Não acontece nada de especial, certo?
Mas eu fico... Fico... Fico fascinado.
As luzes à noite, as ruas vazias,
a estática no rádio.
Só eu e o meu avô.
Voltamos pouco antes de o sol nascer.
Mas, antes de eu sair, ele dá-me o relógio dele.
E diz-me, "Espero que nunca penses em mim
como o teu velho pensa."
Nunca falei ao meu pai dessa noite nem de como fiquei com o relógio.
Acho que há coisas que só ficam mais pesadas
quanto mais tempo as carregamos.
Vou falar com o Ratterman hoje à noite.
Se calhar, escapou-lhe alguma coisa sobre as larvas.
Olá, querida.
Ouve, mãe, tenho de falar contigo sobre uma coisa.
É sobre o meu pai.
Encontraram-no.
- Vivo? - Não, mãe.
Bem, não sabemos ao certo,
mas aconteceu há uns meses.
Pode ter sido...
Bem, provavelmente, suicídio.
Mãe?
Olha, tenho andado a ver os registos pessoais dele.
Pelo menos nos últimos 30 anos, não encontro nada.
Não há declarações de impostos.
Não há contas bancárias. Nem registo criminal.
Onde estás, Meg?
Em Lester Bay. Estou a ajudar a polícia.
Eu não me queria envolver, mas eles pareciam estar num...
Não devias.
Dar a esse homem um segundo do teu tempo
é um erro. - Eu sei, mãe.
Não estava. Só pensei...
Não consigo falar disto agora.
Mãe...
Ratterman!
Porra.
Joe!
Ratterman!
Pela última vez, não podes deixar o forno sem ninguém.
A Meg encontrou uma coisa, Joe. Tenho de falar contigo.
Vou entrar.
Ratterman?
Joe?
Joe?
Central, fala o Ian, lado sul de...
Tragam essa mangueira para baixo!
Soltem a água!
Posso fazer alguma coisa?
O corpo do Peter Stump é só cinzas. Pode ir para casa.
Consigo trabalhar com cinzas.
Passamos a rescaldo e investigação.
Avisem o chefe dos bombeiros de que vamos arrancar.
Fica cá um carro.
Circule!
A impressão do crânio do M-08 está quase pronta, se quiseres ver.
Podes pô-la na minha secretária. Vejo-a amanhã de manhã.
- Olá. - Desculpa.
- Não te queria assustar. - Entra.
- Não faz mal. - Olá.
Pensei que te fizesse bem um pouco de companhia.
Está bem.
Olá.
Estás bem.
Está tudo bem.
Então, o tipo esteve desaparecido 34 anos?
Enforca-se num sítio qualquer e, umas semanas depois,
o corpo aparece na lama ao lado de um duplo homicídio.
Sim.
- Que coisa estranha, foda-se. - Eu sei.
Isto são fraturas?
Como se a cabeça tivesse rebentado de dentro para fora.
É por isso que andas desorientada no trabalho.
Não consegues fugir disto, pois não?
A primeira coisa que me disseste quando comecei a trabalhar para ti foi
que não interessa como morreram.
Interessa como viveram.
Estou tão feliz por ti.
Vais ser uma ótima mãe. Sabes disso?
Obrigada.
- Estou? - Sim.
Ouça, ainda me estou a instalar aqui.
Puseram-me na esquadra, na cave. Mas o Ian não inalou fumo.
A garganta e os pulmões estavam limpos.
Não foi o fogo que o matou.
Encontrou mais alguma coisa?
Sim.
Marcas de dentadas.
Como as dos outros.
Está bem. Obrigada, Ratterman.
Sim. Vou ver um destes.
E aproximar.
Merda, estou louca?
Não.
Devias ir.
Sim, eu trato de tudo aqui.
Podes ir.
- Imprime isso, por favor. - Claro.
Obrigada.
Perguntei onde estava. Eu não sabia.
Não queria fazer isto aqui.
O que tem para mim?
Esta é uma fotografia que tirei à Rebecca Ashford
com imagiologia por fluorescência.
Permite-nos ver hematomas
que podem não ser visíveis a olho nu.
Estas são incisões.
Estas são contusões.
Verifiquei o meu trabalho três vezes,
mas estas nódoas negras... não deviam estar aqui.
As incisões são dentadas de algo não humano.
Mas isto...
é uma sequência de dentes humanos.
Está a dizer-me que acha que foi uma pessoa?
Olhe, eu...
Em 1949, 30 homens de uma tribo morreram numa aldeia no Uganda.
Os corpos estavam terrivelmente mutilados.
Os aldeões julgavam que andavam a caçar um crocodilo, certo?
Mas, seis meses depois, descobrem...
Merda.
Seis meses depois, descobrem
que é uma tribo rival a usar armas
feitas com mandíbulas de crocodilos.
O instinto deles não estava errado.
Só não estavam a olhar da maneira certa.
Tivemos quatro vítimas, e nenhuma delas pôde ter caixão aberto, e vem dizer-me
"Não foi um animal. Foi um homem."
- Não, não, só... só três delas. - Como?
Só sabemos onde e como em três.
Não sabemos onde o Stump morreu nem...
nem por onde andou desde então.
Não fui totalmente sincera com o Ratterman
quando disse que nunca o procurei.
Procurei uma vez, mas a minha mãe...
Acho que ela sabe alguma coisa.
Mas não fala comigo sobre isso, sobre ele.
Talvez fale consigo.
Eu já disse à minha filha que não quero nada com isto.
Olá, mãe.
Meg.
- Quer um chazinho? - Um chá seria perfeito.
É ótimo. Obrigado, querida.
Sim.
- Quer a chávena com a flor ou prefere... - Fico com esta.
Obrigado.
Ele vai sentar-se?
Não tens de te preocupar com ele.
Estás com aquele olhar.
Se tens alguma coisa para dizer, diz.
Só estou a tentar perceber o que aconteceu, mãe.
O teu pai abandonou-nos. Foi isso que aconteceu.
Eu sei. Eu sei.
Sei que é mau tipo, que se calhar merece,
mas isso não quer dizer que não queira saber.
Olha à tua volta.
Esta é a vida que construímos juntas.
Não a que ele te tirou.
Eu...
Nem te sei dizer o quanto desejei que ele voltasse.
Mas não voltou, porque não significávamos nada para ele.
Raios, Meg, pensei que já tínhamos passado por isto.
Tu... Tu vens cá...
Não te vejo há semanas...
com um tipo a perguntar pelo teu pai.
Raios.
Mesmo morto, está a foder-nos a vida.
Não é justo.
Eu percebo.
Perder um familiar... não é justo.
Mas ajudar-nos a lembrá-lo só por um minuto
não vai trair o que fez pela sua filha.
Mãe, por favor.
Por favor.
Eu e o Pete
conhecemo-nos no mar.
Ele era engenheiro.
Eu era geofísica.
Trabalhávamos juntos numa plataforma petrolífera.
Não era invulgar as pessoas irem-se embora durante...
semanas a fio.
Por isso, não estranhei.
E depois de ele...
desaparecer, apareceram dois polícias
que queriam saber se um tal Lou Bishop
trabalhava com ele.
Se ele o conhecia.
Nunca tinha ouvido falar dele.
E disseram que não sabiam
se isso tinha alguma coisa a ver com ele nos ter abandonado.
E nunca investigou?
Não. Não.
Se ele estava metido em algo criminoso,
eu não queria ter nada a ver com isso.
Eu tinha uma menina pequena.
Eu...
Mudei os nossos nomes.
E nunca mais disse...
o nome dele, e não há mais nada a dizer, está bem?
Este tempo todo, tu...
Não guardei muita coisa dele,
mas, se houver alguma coisa, está aqui.
Toma.
Ela gosta de si, sabe?
É como aquelas nódoas negras fluorescentes.
Não se veem, mas estão lá.
Dramático q.b. para alguém de 13 anos?
Sem dúvida.
Imagino que o Ian tivesse alguns destes escondidos debaixo da cama.
Nem sempre foram próximos?
O meu filho queria ser polícia como o meu pai.
Opus-me. Ele ressentiu-se.
E, quando a Lily morreu,
o que ele precisava era...
Sei lá eu.
Não sei do que ele precisava.
Mas sabia do que não precisava, que era de um pai que dissesse não.
Por isso...
...disse que sim.
E depois juntei-me a ele.
Sabe, há algum tempo que lhe queria perguntar.
Sim?
Não acha que é uma coincidência enorme,
logo a senhora, com o trabalho que tem?
Não.
Não existem coincidências.
Sabe, a nossa...
a nossa cadela fugiu na noite em que ele se foi embora.
E, umas semanas depois, encontrei-a morta,
a decompor-se na berma da estrada.
E eu não percebia porque é que ele nos tinha deixado,
mas aquilo estava ali mesmo.
Não sei. Acho que eu...
Tive de escolher entre...
seguir o que desaparece com o vento
ou o que se decompõe mesmo à nossa frente.
Portanto, eu fazer o que faço,
estudar o que é tangível,
não é coincidência.
É uma consequência direta do que ele começou.
Este é o Lou Bishop.
A fotografia é de quando tinha 20 e tal, antes dos ferimentos.
Era jardineiro de uma igreja.
Estava a passear o cão do pastor a meio da noite
quando foi atacado por alguma coisa.
Quando os paramédicos chegaram,
o coração tinha parado, faltava-lhe meia cara.
Esteve uns minutos sem atividade cerebral.
Reanimaram-no nas urgências,
mas entrou em coma durante cerca de seis semanas.
- Onde? - Duas horas a sul,
no condado de Holcomb.
Depois acorda paralisado da cintura para baixo
e com o braço direito amputado.
Fez 127 cirurgias reconstrutivas,
transplantes de cara e membros rejeitados pelo corpo.
Raios, o tipo acorda para descobrir que está igual ao Frankenstein.
Ao monstro de Frankenstein.
- Descobriram o que foi? - Nunca se resolveu.
A única testemunha foi o cão.
Mas ouça isto... A data em que foi atacado?
26 de agosto de 1991.
O dia em que o Peter Stump desapareceu?
Exatamente. Então, se a coisa
que atacou o Lou Bishop em 91
for a mesma que ataca agora,
ele é o único que sabemos que sobreviveu.
Mudou-se para Lester Bay uns anos depois do ataque.
O tipo ainda está vivo.
Polícia.
Abra.
- Posso ajudar? - Espero que sim.
Procuro o Sr. Lou Bishop.
- Ele vive aqui? - Lou Bishop?
Não. Devia... Devia conhecê-lo?
É a morada que temos registada dele.
Como se chama?
Eu... Chamo-me Daniel Webb.
Daniel, importa-se que entremos para conversar?
Como disse, eu...
Não tenho mais nada para lhe dizer.
Muito bem, tenho o seu número.
Agora tem o meu.
Ligue se se lembrar do nome.
Obrigado.
Está a mentir.
Vou ligar para o condado de Holcomb a ver se têm alguma coisa do Bishop.
O que queres que eu faça?
O condado de Holcomb deu-me tudo o que tinha sobre o Lou Bishop.
Esta é a chamada para o 112 da noite em que o encontraram.
112. Qual é a sua emergência?
Tem de mandar uma ambulância já
para a Igreja Batista de Holcomb.
Está um homem caído lá atrás, e está a morrer,
mesmo atrás da igreja, no trilho do lado sul, junto ao parque.
Senhor, fique em linha enquanto passo a chamada à central do condado.
Não! Não me transfira!
Não... Não percebe.
Têm de ir lá. Ele está... Ele está mesmo mal...
- Como se chama? - Eu?
Sim. Com quem estou a falar?
Glendon Mathers.
Glendon, sabe como é que o homem se feriu?
Pai?
Meg.
- Volta para a cama, Meg. - Glendon?
- Não o oiço. - Vem atrás de mim.
Fique em linha comigo.
Não desligue.
Glendon, está aí alguém consigo?
É ele na gravação. É o Peter Stump.
Como sabe?
Porque foi a noite em que ele se foi embora.
A menina no fim sou eu.
Lenny, passa os nomes Glendon Mathers e Peter Stump pelo sistema,
a ver se há resultados.
Acabou de chegar uma chamada. Há outro corpo.
Fizemos vários pedidos sobre um Glendon Mathers.
E os registos dos hospitais locais?
Dez nos condados vizinhos.
Nasceu um bebé com esse nome
há seis anos, mais nada.
Olhe, não leve isto a mal,
mas acho que o seu pai era mais esperto
do que pensa.
Conseguiu passar despercebido até agora.
Ele sabe as formas como as pessoas o vão procurar.
Quando viemos para oeste, o meu... o meu pai ficou todo esquisito.
Meteu-se naquela treta das milícias de cidadãos soberanos.
Levou-nos para um complexo no meio do nada.
Por isso, sei o que é tentar viver fora do sistema.
Sabe qual é a única coisa sem a qual não se passa?
Os malditos correios.
Atualização do 10-54.
Possível suspeito ainda no local.
Enviem todas as unidades disponíveis.
Volte para o seu veículo e saia daqui.
Meg, fique no carro. Temos um corpo no edifício.
O condutor diz que ouviu alguma coisa lá dentro.
Recebido, Unidade 51.
Precisam de uma segunda unidade?
Olhe, isto não é o que parece.
É a única explicação.
Podem registá-lo como prova.
O sangue no corpo do Stump
vai corresponder ao da mulher ali.
Sugerindo o quê? Ele está morto.
Outra pessoa teve de o pôr lá.
Ela tem razão. Tinha de haver um terceiro.
Alguém o pôs lá de propósito.
Meg, podemos estar a lidar com outra coisa?
Como o quê?
Não sei, tipo a história da tribo, outra coisa qualquer?
Estou a dizer-vos, esta merda é bruxaria.
Bruxaria?
É essa a sua teoria? Como profissional de medicina?
Então, o que faz isso de mim? Eu nasci da merda que está ali dentro.
Como vai isso?
Preciso de uma progressão de idade no crânio do Peter Stump.
O raio X já deve estar no sistema.
Vê o que sai na impressão.
Meg, o que se passa?
Vê só se há alguma anomalia, está bem?
Sim, está bem.
- Obrigada, Katie. - De nada.
Falamos depois. Adeus.
Desculpe.
Posso ajudar?
O que está a fazer aqui?
Nada. Na verdade, estava de saída.
Espere. Olhe...
Marks. Aquele tipo que vimos em casa do Lou Bishop está parado...
na estrada das traseiras.
Entre já no carro.
Não, não. Espere, espere.
Onde vai? Não. Saia do carro.
Saia do carro.
Pare!
Vai atropelar-me? Saia do carro!
Todas as unidades no local, sigam para o acesso das traseiras.
Possível suspeito numa carrinha vermelha.
Veja lá atrás.
Meg? Está bem?
- Sim. - Condutor, mostre as mãos.
Mostre as mãos.
Está alguém na parte de trás do carro.
- Quem está lá atrás? - O meu pai está lá atrás.
Polícia!
- Diga-lhe para sair. - Não posso.
- Abra. Vamos. - Está bem.
- Vamos. - Está bem.
Não para de olhar para o relógio.
Muito bem, há um centro de correio privado
junto à costa. Alugaram um apartado
a um Glendon Mathers.
A gerente diz que ele é cliente há anos.
Há umas semanas, ao fechar,
cheirava muito mal, foram ao apartado,
abriram a encomenda, e era um saco de sangue podre.
Sacos médicos?
Para soro, com tubos, foi o que ela disse.
Não sei. Diga-me a senhora. Mas cada apartado
exige um contrato, por isso mandei-os procurá-lo.
Há uma morada.
Então, se o Glendon Mathers é mesmo o Peter Stump,
tem vivido a 20 minutos daqui.
Vamos ver o que este tipo sabe.
Ele nunca falou no nome Peter Stump?
Não, nunca ouvi falar dele.
Foi o que disse sobre o seu pai,
e veja onde estamos agora. - Sim. E então?
E o nome Glendon Mathers?
Sim, é o tipo que ligou para o 112 quando encontraram o meu pai.
Procuramo-lo há anos.
Sabem... Sabem quem é?
O seu pai teve algum contacto com ele
ou lembra-se dele?
Talvez um membro da igreja?
Podem tentar falar com ele,
mas ele não fala muito, já que
tem um tubo de ventilador na garganta.
Passamos bilhetes ou comunicamos com o olhar.
Vamo-nos safando.
Sabia desta chamada para o 112, feita por um homem
que comunicou os ferimentos do seu pai?
- Meg? - É rápido.
Qual é o número da plataforma petrolífera onde tu e o Peter Stump trabalharam?
É a K-2-1-8.
É isso.
Temos uma morada.
Pode não ser dele, mas fica em terra,
mesmo em frente à mesma plataforma petrolífera.
E o nome do...
...polícia que...
Obrigada, mãe.
Ele chegou a descobrir o que o atacou?
Eu era miúdo quando aconteceu. Disseram...
Disseram que foi um animal.
Sabia que o declararam morto
no local quando o encontraram?
Coma. Transfusão total de sangue.
Anos e anos de cirurgias.
Sabe, eu...
Às vezes, apetece-me perguntar-lhe se acha que valeu a pena.
Se valeu a pena o quê?
Sabe.
Sobreviver.
- Olá. - Sim?
Ouça, eu... eu... queria pedir desculpa
pela forma como as coisas ficaram.
O Stump deve estar a chegar.
Vou pô-lo na cave,
se quiser vir dar uma vista de olhos.
Está bem.
Olhe, seja como for...
ele... ele continuou à procura daquilo, percebe?
Disse que tinha pesadelos recorrentes
desde que foi atacado.
Tipo... sei lá,
estava preso numa jaula numa cave qualquer.
Não sei. E, há dois meses,
disse que os sonhos estavam diferentes, que...
ele tinha saído da jaula, percebe?
Por isso, enquanto o levo aos sítios
que ele, sabe, vê...
...só tínhamos de ouvir o rádio da polícia.
Pronto, pronto. Eu sei. Parece uma loucura.
Não estou a dizer que concordo com isto.
Só estou...
Ele é o meu pai, percebe?
Estou... Estou a tentar dar-lhe paz.
Ouça, já lhe contei tudo.
E desculpe ter-lhe mentido à porta.
Peço desculpa. Mas vamos ser presos?
Se não, tenho de levar o meu pai e temos de ir já.
- Pai! - Daniel...
Não. Vou buscar o pai.
- Pai! - Daniel...
Vai deixá-los ir? Estão metidos nesta merda, Marks.
- Não posso. - Espere.
Meg, pare. Tenho de os deixar ir.
O que lhe fez isto?
O que acha que o atacou?
Pai, pai, calma. Não... Aqui não.
Pai. Pai.
Largue-a. Diga-lhe para a largar!
Largue-a!
Precisa de mim. Não chamem uma ambulância!
Está tudo bem, sim? Isto acontece em todas as luas cheias.
Ele está a ter um pesadelo, percebem?
Acha que o atacou um lobisomem.
Estão ligados. Vê o que aquilo vê.
É só... Eu tenho isto...
Pai, larga. Por favor.
Estou aqui. Está tudo bem. Pai, pai, sou eu, o Daniel.
Mas que porra?
Socorro!
Socorro!
Ratterman?
Três para a central três.
Vem atrás de mim.
Vem atrás de mim.
Se alguma coisa passar esta porta, disparem.
Está bem?
São os meus olhos.
Meg. Meg?
Lenny.
Temos vários agentes feridos.
- Sim, um animal, uma... - Pronto, aqui.
- Um tipo de lobo. - Abra os olhos.
Aperte com muita força, está bem?
Estamos na estrada do Gabe. Todas.
Preciso de todas.
Mandem tudo o que tiverem!
Está ferido?
Ele tinha razão. Tinha razão, tipo...
Teve razão desde o início, e duvidei dele.
Desculpa... Desculpa, pai.
Disse que ele... que ele vê o que aquilo vê,
que estão... estão ligados de alguma forma.
Sim, "uma transferência incompleta", percebe?
São palavras dele, que não se transformou naquilo,
mas que aquilo ainda está nele.
Lou?
Lou, consegue ouvir-me?
Preciso da sua ajuda.
Lou, lamento imenso.
Lamento imenso pelo meu pai, por...
por tê-lo trazido, por não ter acreditado...
Desculpe. Por favor. Preciso da sua ajuda.
Para onde vai aquilo?
Meg!
Meg?
Para casa.
Não, fiquem a postos com a brigada canina e montem um perímetro
ao longo das estradas 18 e 20.
Vamos ver uma casa
para onde achamos que aquilo pode ir.
Só para termos a certeza de que estamos de acordo,
não havia larvas no corpo
porque perceberam que não estava morto,
o que quer dizer que estamos a falar de uma criatura
que consegue sobreviver adormecida dentro do hospedeiro.
Transformação mesmo depois da morte.
Desde que estejamos de acordo.
E o que significa isso para mim?
Olhe.
Sabe usar isso?
A minha mãe ensinou-me. Acho que queria
que soubesse o que fazer se o voltasse a ver.
Sabemos que esta coisa vai voltar à forma humana, certo?
Porque não esperamos? Queimamos o cadáver de manhã?
Quantas pessoas mais morrem até lá?
O Peter Stump manteve aquilo controlado durante 30 anos.
A resposta para como o fez está naquela casa.
Pronto. Que se foda.
Vamos.
Há um gerador lá atrás.
Vou ver o que consigo fazer.
Leitor de retina ligado.
Hoje é 16 de outubro de 1996.
Hoje estou a sentir-me bem, porque descobri...
- Ouviu isto? - ...o nitrato de prata.
Foi usado há muito tempo, no Velho Oeste,
no final do século XIX, nas vilas mineiras.
Consegui refinar isto...
moê-lo até ficar um pó muito fino,
parecido com farinha.
Assim fino.
E pensei que podia usá-lo...
...e aplicá-lo nas gengivas,
porque as gengivas absorvem isto rapidamente.
Mapas náuticos.
O que procurava no oceano?
Portanto, estou esperançado.
Ouça.
Veja.
Veja essas.
Revistamos de novo a casa.
- Vamos. - Há centenas.
Como é que eu...
Dei um tiro na perna com uma bala de prata.
Dei dois tiros no ombro
com balas de prata.
A segunda, deixei-a lá ficar,
a pensar que, se ficasse lá mais tempo...
Só causou uma infeção.
E acho que, nesta altura...
...a cura para esta maldição...
não é a prata.
Portanto...
Sinto-me um idiota.
Tenho tentado obter mais informações sobre o Lou Bishop.
Consegui encontrar alguns registos médicos.
Como sempre, beco sem saída.
Quero saber porque é que a transformação dele não foi completa,
e o meu único palpite é que foi a transfusão imediata de sangue
que a impediu de se instalar.
São os insetos. É o cheiro.
É a porra da putrescina malcheirosa.
Vou cortá-lo,
fazer um montinho e pô-lo no jardim.
Sabiam que o cabelo humano afasta as pragas do jardim?
Esta merda não nos deixa dormir.
Às voltas na cama, malcheiroso e pegajoso,
e a ser mordido.
Vais sempre aos extremos, Pete.
Cabelo.
Nos últimos três meses, depois de voltar à forma humana,
o cabelo cresce esta porra toda
no dia seguinte.
Portanto, acho que vou ter de fazer isto todos os meses,
até...
Fora com a prata. Fora com o cabelo.
Não vai faltar muito para ter o cabelo prateado.
Meu Deus, podia tatuar isso.
Vou eletrificar a porra da jaula,
porque conheço o filho da puta.
Mas há problemas quando ligo o interruptor.
Rebenta os disjuntores e os fusíveis.
Mas vou conseguir.
Não temos nada.
E por aí?
Tentei tudo. Nada resultou.
Isto foi um erro.
Não devíamos ter vindo.
Temos de ir já. Marks, vamos.
Meg. Veja isto.
Depois vejo.
- Vamos! - A data.
É um mês antes de o encontrarmos.
Lenny, vamos sair. Traz o carro.
Dois minutos.
Lenny, estás a ouvir?
Raios.
É provavelmente a última vez que me vês sentado nesta cadeira.
São os ossos. Sabes, são os ossos.
Doem horrivelmente.
Sinto-o no fundo dos dentes.
Às vezes...
...a minha mente vai-se embora durante muito tempo.
Parece que não faço parte deste corpo partido e pisado.
E está mesmo.
Estou tão cansado, porra.
Acho que já acabei com quase tudo.
Só me resta uma última opção.
Joni.
Amo-te, querida.
Preciso que saibas.
Espero que saibas.
Não sou um monstro.
Fiz tudo o que pude para voltar.
Fiz tudo o que pude para voltar para casa.
Amo-te.
Meg!
És mesmo especial.
Preciso que saibas...
...que tenho tanto orgulho em ti.
Tenho tanto, tanto orgulho em ti, querida.
Amo-te tanto.
A coisa mais difícil que já fiz
foi sair por aquela porta nessa noite.
Meu Deus, não consigo.
Adeus, Joni.
Adeus, Meg.
Agora estão em segurança.
Vem atrás de mim.
Porta a desbloquear. Afaste-se, por favor.
Acho que aquela porta não vai aguentar até ao amanhecer.
Temos de encontrar outra saída.
Temos de nos mexer.
Três para a central três, fala o Marks.
Três para a central três, fala o Marks.
Alguém está a ouvir?
Falha na leitura da retina.
Identidade não verificada.
Falha na leitura da retina.
Identidade não verificada.
Aproxime-se, por favor.
Leitura da retina...
confirmada.
Bem-vindo, Peter.
Foda-se.
Meg.
Tem de largar a barra.
Tem de largar as barras.
Aos três.
Dois. Um.
Tinha a certeza de que, se me matasse,
o lobisomem também morreria.
Nada disso, Pete. Enganaste-te outra vez.
Um lobisomem não precisa de um corpo vivo para continuar a viver.
Vai fugir, Meg.
Vai fugir e vai esconder-se.
E vai esconder-se até à próxima lua cheia.
E vai voltar a matar.
Vais ter de o atrair até ti, Meg.
E, aconteça o que acontecer,
tens de aguentar mais do que ele até o sol nascer.
Se o perderes, isto nunca vai acabar.
Ouves isto?
Ouves?
Pai.
Aí estás tu.
Anda.
Fica. Fica. Fica. Fica comigo.
Aqui mesmo. Aqui mesmo.
Pronto.
Pronto. Pronto.
Isso. Isso.
Pronto.
Isso.
Só mais um bocadinho.
Lou Bishop. Aí está o senhor.
Conheço-o melhor do que me conhece a mim.
Estas circunstâncias infelizes.
Só queria mesmo que soubesse tudo.
- Meu Deus, mais cabelo. - Eu sei.
Está a acenar com a cabeça. É o melhor de tudo.
Mas, com a nossa sorte, ele...
- Alguma coisa? - Não me dês azar agora.
Olha!
Pronto. Sexta-feira, 1 de maio de 2026.
Fala a Dra. Megan Garland.
Aumentei a concentração de acónito em 50%.
Se falhar, ele vai ficar preso nesse estado
durante mais um mês.
Até tentarmos outra vez.
Pronto.
Nem sei bem porque estou a gravar isto.
Acho que só preciso de contar a alguém.
Chamo-me Peter Stump.
É dia 26 de agosto de 1991...
...e sou engenheiro sénior
numa plataforma petrolífera ao largo de Lester Bay.
Kilo 218.
Há pouco mais de um mês,
acabámos um turno de três semanas no mar.
Eu e a equipa bebemos uns copos sempre no último dia.
Bebi bastante.
Disseram-me que um barco de pesca sem identificação
tinha atracado na plataforma, por isso, descemos.
Afinal, não tinha atracado.
Tinha batido.
Desci para ver se havia feridos lá dentro,
e o barco estava a afundar-se,
e estava a meter água muito depressa.
E toda a gente a bordo estava à deriva...
morta.
Havia uma espécie de jaula.
E, como disse,
eu estava um pouco embriagado, sabes,
e vi uma coisa mexer-se dentro da jaula,
e aquilo arranhou-me o braço...
Puseram-me a dormir logo.
E o barco afundou-se depressa, e...
Trataram-me, e pronto.
E toda a gente
continuou com o que estava a fazer,
e eu não podia contar a ninguém quando voltei a terra,
porque seria despedido.
E eles também.
E...
E ontem à noite, do nada,
vem a pior dor de cabeça que já tive na porra da minha vida.
E esta... esta dor pelos braços,
e pelas... pelas pernas.
E eu encostei o carro,
porque não sabia que porra me estava a acontecer.
Era... Não sei como dizer.
Era como se estivesse a partilhar...
a minha mente com outra coisa.
Eu tornei-me mesmo numa coisa...
uma coisa primitiva,
como aquela coisa no barco.
E não sei o que aconteceu a seguir,
mas acordei nu na floresta, atrás de uma igreja.
E estava a vomitar o sangue de outra pessoa.
E, não muito longe de mim...
...estava outro homem.
E estava desfeito e a lutar pela vida.
E eu...
Fui eu, eu sabia.
Fui eu.
Por isso, fugi.
Quando cheguei a casa...
...o olhar da minha filha,
a minha menina...
Meu Deus, e se eu fizesse isto a alguém da minha família?
Nem sequer olhei.
Não conseguiria viver comigo.
Disse, meu Deus.
Em que me tornei?
Tradução: Nisbgui
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