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Meu coração Não sei
porquê Bate feliz
Quando te vê
E os meus olhos
ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguir Mas mesmo
assim Foges de mim
A Maria Alice dormia sem nenhum.
Nenhum?
Exagero. Aliás, você podia era poupar o dinheiro desse travesseiro e dormir
abraçadinha assim comigo, né?
Ah, podia.
Mas você, você não é indeformável, antialérgico, com um viscoelástico e
fabricado pela NASA.
Caramba, gente, eu vou ficar com esse aqui e você fica com o velho. Mas eu sou
quentinho. A Maria Alice sempre disse que eu era quentinho. Sei.
Pasta de dente. Ai, pasta de dente tem um monte lá em casa. Não, não, acho que
tem lá, são artesanal de camomila, de sei lá o que. Eu gosto da comunzinha
mesmo de menta, que eu já estou acostumado. Quem?
Aliás, lá em casa sempre foram duas, era menta e hortelã, porque a Maria Alice só
escovava com a de hortelã. Mas você sabe que menta e hortelã é a mesma coisa, né?
É, mas ela só escovava com a de hortelã.
É, mas é a mesma coisa.
Você podia aproveitar, aliás, que você está lá em casa e se alimentar um pouco
melhor.
Como assim se alimentar um pouco melhor? Você está comendo pasta de dente agora?
hábitos de higiene, hábitos de alimentação. Ah, não vem com esse papo
não, Laura, porque a Maria Alice sempre falou que eu sou... Meu Deus!
Ei, Maria Alice, Maria Alice, Maria Alice, Maria Alice, tá insuportável!
Eu tô insuportável?
Não, foi isso que eu já estava... Foi isso que você falou, que eu tô
insuportável? Faz o seguinte, Laura, deixa, eu vou procurar um hotel, tá bom?
Pode ficar tranquila. Não, Paulo!
Ah, vai, Paulo!
Paulo!
Desculpa!
Paulo, eu tô amando que você tá morando comigo. Você tá ouvindo alguma coisa? É
sério. Você sabia que assim eu evito desperdício de comida? Inclusive, quando
a gente mora sozinha, a gente joga um monte de comida fora. Laura, eu achei
que você tava gostando da minha companhia, tá? Eu tô. Olha só.
Peraí, eu tô comprando... Desculpa, moça. Já volta.
Eu tô adorando a sua companhia. Eu só não tô te alojando muito, porque eu tô
com muito medo de você nunca mais ir embora.
Laura, eu tô carente.
Desculpa. Faz brigadeiro pra mim.
Não, você é carente e fica mais insuportável ainda.
Pega duas latas.
Ai, meu Deus, eu vou acabar engordando.
Caração.
Oi?
Explica isso aqui.
Vai explicar o quê? Você sabe que eu só durmo de meia?
Mas você guarda elas aqui enfiadas no meio do meu sofá? Se você deixasse eu
dormir na sua cama, eu não teria esse problema.
Se você soubesse usar o espaço reservado no armário para hóspedes temporários, a
gente não teria esse problema.
Deixa eu dormir na sua cama, vai? Eu faço massagem. Você dormiu as últimas
duas noites lá. Mais do que isso configura namoro. E não é nosso caso.
Não. Eu, inclusive, hoje tenho um encontro. Acho que você deveria fazer o
mesmo. Encontro com quem, sapecona?
Espera aí, não vai me dizer que é com aquele cara que você não transa nunca?
Luiz Arthur transa com a esposa dele. Comigo ele vai em restaurantes finos e
paga a conta. É uma boa divisão. Eu acho que eu saio ganhando. Eu já acho que ele
não transa com a esposa e só paga a conta porque quer transar com você.
De qualquer forma, só faltam dois restaurantes pra gente terminar a nossa
volta ao mundo e depois disso eu dispenso ele.
Hoje nós vamos comer comida dinamarquesa. Que tal, Dennis?
Ótimo. Então eu vou tentar achar uma dinamarquesa que me deixe dormir na cama
dela. Boa sorte com o Luiz Arthur.
A Dinamarca é tudo tão apertadinho lá, os banheiros, apartamento, carro. Dizem
que é o país mais feliz do mundo. É sério. O menos corrupto, o mais justo,
que tem a melhor distribuição de renda.
Tirando que todo mundo é bonito, né? Todo mundo tem olhos azuis, tem olhos
verdes.
Mesmo que desamanheça e o mundo possa... Nem nada mais me pareça,
invento outro lugar.
Faço subir a cabeça o meu poder de sonhar.
Faço que a mão obedeça o que o coração mandar.
Mesmo que ainda que tarde, não tarde por esperar.
Dão nós segue seu remelexo e o deixo sem ar.
Você será sempre a beira e eu toda água do mar.
Mesmo que você não queira, eu quero que é sincera. No fim dessa brincadeira,
quando a poeira sentar, solta o nó do remelexo e deixe você dançar.
Eles usam os cemitérios como se fossem parques. Eles fazem piquenique.
Eles colocam judeus em cima da privada. É sério, tô falando.
E caviar no café da manhã, no almoço, no jantar. Coisa de louco.
Dizem que a Dinamarca é o país.
E as amigas, todo mundo é louro nessa série?
Desculpa, eu tenho que ir.
Obrigado. Mais um ótimo restaurante maravilhoso.
Solta o nó do remelexo e deixa você dançar.
Existem três tipos de angústia. A que resiste ao primeiro uísque, a que
resiste ao segundo uísque, a que resiste ao terceiro uísque, que é a minha.
Sua angústia é o colo.
Um pouco, você sabia?
E eu falei pro Luiz Arthur que eu não vou mais sair com ele, porque eu preciso
achar um cara solteiro.
Achou.
Casa comigo.
A gente já mora junto e não transa. Casamento, não é isso?
Vamos dançar.
Agora? Só um idiota não sabe que a festa é o fim da festa.
Mas você aprende tanta coisa comigo, um muro de orgulho de você.
Não.
Pronto, bolsas e bota.
É
bom
ter um amigo como eu pra te livrar dos caras chatos, né? Ah, não.
Seria muito mais legal encontrar um cara bem bacana e não precisar...
Você é salva pelo amigo. Entendi, Laura.
Quer dizer que você é dessas pessoas que trocam o melhor amigo para um
namoradinho qualquer?
Talvez. Assim eu vou ficar carente e faminto.
E você, faminto, fica... Uma delícia.
É isso aí.
A cama é lá na sala.
É, mas a máquina do desejo é frágil, minha cara.
Se a gente contrariar muito, ela quebra.
Você tá falando isso porque você quer transar? É.
O que você acha?
Faz tempo que a gente não transa.
Mas depois que a gente transa, você vai lá pra sala dormir?
Não, não. E dormir de conchinha?
Dormir de conchinha configura namoro.
Eu já disse que eu amo você.
Ah, que esse cara tem Me consumido A
minha tudo que eu quis Com seus olhinhos
infantis Como os olhos de um bandido
Ah,
esse cara tem
Me consumidor A mim é tudo o que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Como os olhos de um bandido
Ficou brava?
Eu que deixei.
Imagina você dormir com o chupé sujo de areia no meu sofá maravilhoso.
Vem cá, estranho, né?
Acordar no domingo e não ter que te ligar pra combinar o almoço. Pois é, eu
já tô aqui no seu quarto.
Estranho? Estranho e prático, né? A gente até poderia... Nem pensar.
Nem pensar.
Vocês dois namorando, nem pensar.
Exato, foi o que eu falei. É, eu também falei, mas agora eu tô repensando. Pra
que namorar? Vão estragar uma amizade pra ficar andando de mão dada na praia.
Pois é, inclusive a gente já até anda de mão dada na praia. Então qual é o
problema? A gente anda de mão dada na praia. A gente já transa, a gente já é
amigo. Vai mudar o quê?
Você só quer o direito de dormir na minha cama. É isso.
Nossa, tá deixando o rapaz dormir naquele teu sofá duro. Faz bem pra
coluna, Cabral. Eu só quero o direito de provar pra você que eu posso ser o
melhor namorado do mundo.
Quê?
Pá.
Tético.
Eu vou fazer pra você a feijoada raiz, raiz, a que eu aprendi lá em Madureira.
Você vai ver que delícia.
E ó, Luiz Arthur tá aqui me convidando pra um banquete indiano.
Será que eu troco pela feijoada de Madureira? Você sabe que a feijoadinha
de Madureira vem acompanhada de sexo selvagem, né?
É, né? Nosso banquete com Luiz Arthur.
Fechado. Eu lavo a louça.
De repente fico rindo à toa sem saber porquê.
E vem a vontade de sonhar de novo ou te encontrar.
Foi tudo tão de repente, eu não consigo esquecer.
E confesso, tive medo, quase disse não.
De repente fico rindo à toa, sem saber
porquê.
E vem a vontade de sonhar de novo te encontrar.
Essa é a nossa hora de transformar sofrimento em obra-prima. Sabe, dois
corações amigos, doloridos, dolorosos, reunidos, entende?
Oi, Maria Alice, tudo bom?
Então, eu precisava falar uma coisa com você.
Você lembra que eu falei uma vez que o amor era uma consequência do sexo?
Eu acho que eu tava certo.
Bom, você sabe que eu acho que eu tô certo o tempo todo, o que geralmente é
um erro, mas... Você lembra da Laura?
Então... Eu e a Laura, a gente...
Maria Alice. Que alegria.
Maria Alice, o que deu em você? Você nunca me liga. Eu tentei falar com você
várias vezes. Você tá louca? Você tá linda.
Ai, Paulo. Tava gravando um vídeo pra você agora mesmo.
Eu acabei de chegar em casa.
Aqui são três da manhã.
Eu acho que é a primeira vez que eu tô mais bêbada do que você. Peraí que eu
vou pegar um whisky. Isso, vamos fazer um brinde.
Ao verão.
Ao amor.
Peraí, o Leopoldo tá aí?
Maria Alice me fala, você não me engana. Essa alegria toda é porque o Leopoldo tá
aí, não é? Você tá querendo falar do Leopoldo? Não sei.
Eu tava feliz, mas agora eu não sei.
O Leopoldo ficou 15 dias aqui, mas já voltou pro Brasil.
A vida é feita de muitas paixões, Paulo.
Paixões menores.
Todas as paixões são maiores.
A nossa é maior que todas.
Saúde.
Então, digamos que eu aceite ser sua namorada. Ih, lá vem.
Pensei em umas condições.
Laura, eu passo mal do estômago de verdade quando eu tô lavando louça. Não
é brincadeira, sabe? É uma coisa de saúde. Não sei se é aquela água suja,
sabe? Eu posso secar se eu secar. Então, cada um vai cuidar da sua própria louça.
Não é maravilhoso isso?
Eu moro na minha casa e você, assim que for possível, vai voltar pra sua casa.
Porque isso é um namoro, não um casamento. Tá bom. Entendeu? Tá bom. Vou
falar com o pessoal da imobiliária. Mais alguma coisa, madame?
Sim, senhor.
Quando a gente dormir junto, vai ser necessário sexo. Com massagem nos pés,
tá? Ou só massagem nos pés.
Ou tudo bem, pode ser só sexo, mas desde que não passe três vezes sem a massagem
nos pés. Você entendeu?
Acho justiça.
Justiça. Você entendeu? É sério, anota essa... Por
último.
Relacionamento aberto.
Não trabalhamos.
Nem mentiras.
Alguma solicitação?
Acho que só uma, então. Fala.
Que é quando a Maria Alice voltar, se a Maria Alice voltar, a gente conversar de
novo. Sem mentiras.
Você acha que o Paulo nunca vai esquecer a Maria Alice? Eu nunca esqueci a
Glorinha. Essa camisa não é boa.
E agora ela vem me ver semana que vem. Ela vem só pra me ver. Só pra me ver.
Essa. Essa é ótima. Cabral, a Glorinha não vem só pra te ver. Ela vem pra um
congresso. Talvez você nem consiga encontrar. Mas esse é um risco
maravilhoso de se correr, Laura.
Imagina. Talvez eu veja a Glorinha.
Talvez eu veja o meu amor.
Talvez eu veja a Glorinha.
Talvez. Talvez eu veja o meu amor.
Talvez eu veja o meu amor.
Talvez eu veja o amor da minha vida. Só isso já me deixa muito, muito feliz.
Talvez a Maralice volte.
Talvez o Paulo fique com ela.
Talvez, sei lá, seja daqui a um ano. Talvez seja daqui a um mês. Talvez... Eu
não sei, Cabral. Eu não gosto disso.
Talvez eu morra amanhã.
Talvez todo mundo morra amanhã.
Talvez... Vamos beber.
Vamos fazer um brinde aos amigos que se amam. Esse namoro de vocês eu sou muito,
muito, muito contra.
Vocês são muito meus amigos, depois vão brigar e eu não vou escolher ninguém,
hein? Cabral, não é você que sempre diz que a gente tem que correr riscos?
Tem razão.
Tem razão. Eu quase sempre tenho razão. Engraçado isso. Você já reparou? Você
tinha reparado nisso?
Saúde.
Café?
Obrigado.
Olha pra mim.
Você casou, né?
Por que eu tô com cara de quem casou?
Desde que a gente se conhece, você nunca chegou aqui antes das 11.
Essa semana tá chegando cedo, todo concentrado.
O que houve?
Tô morando na casa da minha namorada.
Sabia. E ela já cortou cerveja? Não.
Ela bebe mais do que eu, inclusive.
E ela deixa você sair com os amigos pro bar? Não, ela é minha amiga de bar.
E o casamento?
Ela tá pressionando pra marcar a data, não? Não, na verdade ela falou que era
pra eu sair da casa dela e morar sozinho. É, você encontrou a mulher
ideal.
Você acha que eu sou o homem ideal?
Não, de jeito nenhum.
Você acha que você é a mulher ideal?
Certamente não.
Por isso que a gente se dá bem.
Entendi.
Tô gostando de namorar você.
É, a vida é pra gente se divertir, sempre que pode.
Você tá namorando a Laura?
Finalmente!
Adorei. Adorou?
Não ficou com nem um pouquinho de ciúme?
Quero que você seja feliz, Paulo.
Eu não quero ver você com ninguém, Maria Alice.
Mas eu tô.
Namorando? Qual o nome dele?
É o Tulipe.
Vou te mandar uma foto dele.
Meu Deus, mas que cabelo estranho.
Ele é gato, tá?
Isso não se usa mais aqui no Brasil, não, hein? Ou ainda não se usa.
E quando é que você volta, hein, Maria Alice?
Ah, peraí. Maria Alice, tá vindo pro Brasil? Que notícia boa.
Oi, Cabral.
Meu amor, que saudade. Você tá lindo.
Eu vou encontrar com a Glorinha.
Flores pra Glorinha, tudo pra Glorinha, tudo.
Oi, Laura.
Oi.
Adorei a novidade.
Pois é, legal.
Eu vou ter que correr lá, veja.
Gente, eu vou deixar vocês sozinhos, porque o Tulipa acabou de chegar.
Tá, beijo.
Tulipe, Cabral. A Maria Alice tá namorando um merda chamado Tulipe. Maria
Alice Tulipe.
Olha, se Deus quiser, vou dormir numa cama de hotel bem quentinha com a
Glorinha.
Whisky?
Não, não, não, vou... Vou de água.
Água.
Nosso Cabral tava tão nervoso que não conseguia nem beber.
Nossa, então é grave.
E aí, tá pronta? Vamos lá levar ele?
Com muita dor de cabeça.
Então você não devia ficar com a cara enfiada nesse celular.
Eu sei que me dá dor de cabeça e não é o celular.
Então você devia se livrar do que tá te dando dor de cabeça.
Exato.
Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder.
Eu levo o Cabral, então. O que não dá mais pra ocultar E eu não posso mais
calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor
Entregou o que você tentou conter O
que você não quis desabafar E me cortou
Chega de temer, chorar,
sofrer, sorrir Ai, ai, ai, ai Que isso rapaz, é nervoso?
Relaxa, relaxa, você tem que aproveitar o teu momento agora.
Tô bem, tô bem. Vai lá.
Entendeu?
Arrebenta. Não, não, não, vem cá, vem cá.
Fica você com essa flor.
Fica com as flores, você precisa muito mais que eu. Não, não, não, imagina, a
Laura nem gosta de flor. A Laura, sua amiga, talvez não goste, mas a Laura,
sua namorada, gosta, gosta muito, adora, precisa.
Você acha que foi uma má ideia a gente namorar, né?
Evidente que foi e eu avisei.
Pior que agora eu não posso nem falar pra minha melhor amiga que a minha
namorada tá brava. Eu nem sei o motivo porque, enfim, as duas são a mesma
pessoa. Talvez ela esteja querendo te contar que o namorado dela continua
apaixonado pela eterna Maria Alice.
E eu vi de você como amigo.
Algo do tipo, pô, esse cara não te merece.
Esse babaca e eu somos a mesma pessoa.
Você acha que ela tá assim por causa da Maria Alice?
O normal é a vida separar as pessoas.
Pra não separar, você tá fazendo muita força.
Muita força.
Me abraça.
Vai. Vai ser feliz. Vai viver tua fantasia que você tá lindo.
Tá bonito, tá elegante, tá gato, tá gato.
Uma flor.
Vou levar uma flor. Isso, leva a rosa que é a única do buquê, igual a sua
Glória.
Olé.
Arrebenta, meu companheiro.
Me liga pra eu vir te buscar. Não vai precisar, talvez eu nem dormi em casa.
Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já
chorei demais.
Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe eu só levo a certeza
de que muito pouco eu sei.
O nada sei Conhecer as manhas e as
manhãs O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar É preciso
paz pra poder sorrir É preciso chuva para florir
Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir
tocando em frente.
Todo mundo ama um dia, todo mundo chora, um dia a gente chega e
no outro vai embora.
Cada um de nós compõe a sua história e cada ser em si carrega o dom
de ser capaz e ser feliz.
Conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das
maçãs.
Você tá especialmente linda hoje. Eu tô um pouco triste.
Acho que isso pode te dar um toque especial.
Eu não entendo uma mulher como você não ter namorado.
Podemos falar da comida?
Gostosa, cheirosa, provocante.
Eu tô falando de você. E da comida, claro.
Hoje eu quero experimentar coisas novas.
Tá falando da comida?
Tô falando de sexo.
Oi, oi, oi, oi, oi.
Meu amor.
Oi, Cabral.
Tudo bem?
Andei pensando... em você.
Aí... ficou... ficou acontecendo um monte de poema dentro de mim.
Acabei escrevendo... um poeminho, um poeminho pra você.
Lê.
Agora? Agora.
Em voz alta.
Agora sei que te amo de fato mais que minhas liberdades, ou rimas, ou primas,
ou outras que vieram depois.
Pois do que sou, porque sois. Além da lua, dos sóis e das estrelas que vimos
juntos, ou qualquer outro assunto, sei que vos amo mais do que temo a morte.
Você é lindo, Cabral.
Saudade de te ouvir lendo um poema meu.
Vamos embora juntos, de mãos dadas, corações entrelaçados. O mundo é nosso.
O mundo é nosso. O nosso tempo passou, Cabral.
Foi. Você pode voltar essa noite.
Eu moro em Amsterdã, com meu marido, com a minha filha, que tá cada dia mais
linda. Ela parece muito comigo?
Ela não é sua filha, você sabe.
Ela nasceu um ano e meio depois que a gente parou de se ver. Tem uma gestação
que é um pouco mais... Você não existe.
Existo?
Existo.
Sente. Minha mão.
Na tua.
Sente.
Sente.
Minha boca.
Na tua.
Sente.
Amei que você veio me ver.
Também amei.
Você está ótimo. Está ótimo.
Eu vou pensar em você sempre com muito carinho.
Agora preciso ir.
Uma flor, uma flor.
Uma flor.
Trouxe até uma flor.
O punhal subiu.
Na treva, procurou a direção, veio, cravou naquilo que era o meu coração.
Leito ao abismo, tinha eu agora no centro do peito.
O golpe fora certeiro.
Tão último quanto o primeiro.
Que destino... Triste.
Obrigada pela rosa.
Olé!
Somos dois gritos calados Dois fados desencontrados
Dois amantes desunidos É
lucidez de satino De ler no próprio destino
Sem poder mudar minha sorte
Onde é que você tava?
Não lembro da gente ter combinado que tinha que contar tudo.
Ih Laura, o que que é isso? Eu tava preocupado só.
Jantar com um amigo. Não tem cerveja?
Tem a minha aqui, ó.
Bebe aqui, pode pegar.
Não. Fica com essa aqui.
Não quero.
Você foi jantar com o Luiz Arthur?
Quando eu morava sozinha eu sabia exatamente o que tinha na minha
geladeira. Você não vai mais voltar pra Copacabana?
Você transou com o Luiz Arthur?
Alô?
Que que é? Não, pera aí. Fala devagar, Cabral, senão eu não entendo.
Tá bom.
Tá, olha só, não sai daí. Fica exatamente onde você tá, que a gente tá
indo aí te buscar.
Tá?
Beijo.
Oi. Tá sozinho, sem dinheiro, perdido, sem Glorinha.
Deu tudo errado.
Vamos lá resgatar ele.
Não que a gente vai achar o Cabral, se a gente não sabe nem onde ele está.
Ele vai estar na universidade, Laura. Deixei ele lá.
Não devia ter deixado ele sozinho.
É, realmente, a culpa é minha.
Não é isso. É minha também. Não, é minha, né? Foi eu que acabei com a
cerveja, aí eu perdi o Cabral. Eu transei a glusa toda.
Entra ali, ó.
Não vai dar pra gente continuar namorando.
Desculpa.
Foi bom?
Foi.
Não, não foi.
Ai, não sei.
Você também me traiu, né?
Porra.
Isso não sai do seu coração.
Não consigo.
Nem eu.
O Cabral ali.
Ali, ali, ali.
Desculpa. Desculpa.
Chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar, e se perder,
e se achar, e tudo aquilo que é viver.
Eu quero mais é me abrir e que essa vida entre assim,
como se fosse o sol desvirginando a madrugada.
Quero sentir a dor dessa manhã
Obrigado por vocês existirem. A vida é
péssima, mas é boa mesmo assim.
Um brinde à amizade.
Que é o amor que nunca morre.
Que é uma frase clichê, mas é verdadeira. Os amantes verdadeiros, uma
vez separados, deveriam se tornar eternos amigos.
Eternos amigos, senão a vida fica cruel por demais, demais.
Eu acho o seguinte, já que tá todo mundo solteiro e fudido de novo, vamos tomar
um porre? Vamos. Ótimo. Vocês não estão mais namorando? Não. Não.
Não rolou.
Graças a Deus!
Estava insuportável. Sim, eu quando estou insuportável eu fico faminto, que
é um problemaço pra Laura. Não, você faminto fica insuportável. Vamos os três
dormir juntinhos. Vamos no hotel.
Não, no hotel não. Bem bonito, um hotel bem bonito. Na cama da Laura.
Um fixação com a minha cama?
Não, não, não. Você ficou na cama, eu vou dormir no meu sofá. Vai pagar todos
os seus pecados, seu sofá é duríssimo. Não, mas vai bem pra coluna. Não, eu
tenho pecado. A mulher tem pecado.
Não, eu tenho pecado. Isso não é eu.
Isso não é pecado.
Obrigada, Cabral. Ninguém casado é feliz.
Ninguém solteiro é feliz.
Sim, a felicidade é uma coisa que os homens inventaram pra não enlouquecer.
Dostoievski. Dostoievski? É bom. É muito bom. Eu amo falar Dostoievski quando eu
tô ficando bêbado. Você não tá tão bêbado. Eu não tô bêbado, mas eu gosto
de falar Dostoievski. Fala Dostoievski.
Dostoievski. Dostoievski.
Faço de momento.
Caçom.
Dostoievski. Caçom.
Dostoievski. Três, três, três.
Dostoievski. Dostoievski. Fala você, Dostoievski. Dostoievski.
Dostoievski.
Toda água do mar, mesmo que você não queira, eu quero que assim zera. No fim
dessa brincadeira, quando a poeira acenda, solta o nó do remelexo e deixe
você dançar.
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