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Meu coração Não sei
porquê Bate feliz
Quando te vê
E os meus olhos
ficam sorrindo E pelas ruas vão
Ideia para uma peça.
Deus resolve salvar a humanidade e acabar com o amor, que não foi uma ideia
dele. Deus inventou o sexo, inventou até a paixão, mas o amor, que é um delírio
para compensar a morte, quem inventou foram os homens.
Se um homem não vive tão bem, ele pode morrer em paz.
Deus, então, acaba com o amor, mas seu plano dá errado, porque num mundo sem
amor, os homens deixam de acreditar uns nos outros. Os homens deixam de
acreditar em Deus e passam a acreditar em Papai Noel.
Nossa, completamente fora. O que eu tô precisando é beber mais.
Papai Noel, traga o amor da minha vida, ainda este ano. Opa, também quero, hein?
Bom, como o ano ainda tem uma semana, pela sua média, você pode pedir, sei lá,
tipo, sete amores. Não, esse ano eu quero um amor só e eterno.
O que uns olhos têm e que outros não têm?
O que um sorriso tem e que outros não têm?
Leopoldo!
Epa! Que bom que você veio.
Maria Alice, prazer.
Paulo, encantado.
Paulo, esse é o Leopoldo, aquele meu vizinho contador maravilhoso que eu te
falei. Oi, Leopoldo, tudo bom? Tudo bem, Paulo? E você deve ser a famosa noiva.
Não, Maria Alice o nome dela. Ah, Maria Alice, que nome lindo, eu sou a Laura.
Feliz Natal. Feliz Natal.
Vocês querem beber, comer? A gente fez até peru, tem um monte de coisa. Bora.
Cabral, Cabral, acabei de encontrar o amor da minha vida, Cabral. Um amor
eterno, de verdade.
Isso não existe. Claro que existe. Foi Papai Noel que trouxe pra mim. Bom, não
vou ficar discutindo com uma pessoa que acredita em Papai Noel. De manhã...
Leva pra passear. Não dá, ela é noiva. Não, tô falando de Oliveira. Você cuida
dele pra mim hoje, né? Eu detesto Natal, detesto.
Odeio. Me deprime muito, muito. Não quero nem falar com ninguém. Ah, nem com
Oliveira? Nem com Oliveira. Mas pra mim Natal é presente, é champanhe, é o
nascimento do amor.
Pra mim é o tempo passando e o fim se aproximando. E todo fim é o recomeço,
Cabral. Você tem que sair dessa. O ano novo tá aí. Vamos aí, bola pra frente.
O que adianta?
A vida é como um rio caudaloso passando por dentro da gente e a gente é a
margem. Olhando o rio passar.
E qual é a saída?
Nenhuma.
Bom, o importante é não dar comida de sal pro Oliveira. Oliveira, se tiver
medo dos fogos, cama do Paulo.
Fui. Não, não, não, não. Cabral, você não pode ir embora sem conhecer a Maria
Alice. Ela vai transformar o seu Natal em carnaval.
Apresenta ela pro Oliveira. Se ele gostar dela, ela tá aprovada. Feliz
Natal. Não chora.
Oi,
gente, deixa eu roubar o Leopoldo. Um minutinho aqui, só pra apresentar aqui
pro pessoal.
Gente, gente, gente, esse aqui é o Leopoldo, exímio contador.
Leopoldo, esse aqui é o pessoal todo de humanos.
Todo mundo péssimo em matemática.
Maria Alice, Maria Alice, deixa eu te apresentar a Oliveira. Eu acho que você
vai adorar ele. Vem cá.
Vem, vem, vem. Aqui, ó.
Esse é o Oliveira.
Oliveira, Maria Alice, Maria Alice, Oliveira. Oi. Ai, tadinha.
É o cachorro de um amigo que veio passar a festa de Natal aqui em casa. O
cachorro, não o amigo, acredita?
O que houve com o seu amigo?
Não gosta de Natal. Ele acha que não tem motivo pra celebrar, que a gente tinha
só que viver.
Ah, viver já não é celebrar? É o que eu digo pra ele, mas ele é artista, ele...
Eu gosto de artistas, eu sou um pouco artista também.
É, eu trabalho como arquiteto, mas eu desenho outras coisas.
Eu tô escrevendo romance meio autobiográfico nas horas vagas.
Sei.
Você faz o quê?
Sou professora de balé.
E eu danço, sou bailarina.
Olha aí, não tô dizendo?
A arte salva, assim. A arte não tem salvação.
A arte é uma alegria, né? Uma coisa que a gente não consegue explicar, mas a
gente reconhece como o cheiro do café, como o gosto do vinho, né? Tem toda
razão.
Você acha que pega muito mal se eu der todos os presentes pra Maria Alice?
Você viu onde eu acertei o dardo? Foi um sinal. Eu já tô querendo que ela leia
todos os livros que eu gosto. Meu Deus do céu, Laura, é um sintoma. Eu acertei
o dardo bem em cima da palavra filho.
Bem em cima. É isso. É isso.
Peraí, o que você tá falando de filho? Você tá grávida? Não, ainda não, mas vou
ficar. E se possível, essa noite, porque eu tô com 39 anos e dois meses. E se eu
engravidar hoje o meu filho ou filha, ou o que essa pessoa decidir ser quando ela
crescer, vai nascer antes dos meus 40 e eu sempre vou poder dizer que eu fui mãe
com 30 e poucos anos, entendeu?
Entendi. Porque eu vou ser avó antes dos 65!
Eu tô torcendo por você!
Oi? Oi?
Tudo?
Eu preciso engravidar hoje.
Oi? Eu preciso engravidar hoje!
Vamos abrir os presentes, gente. Vem pra árvore aqui, ó. Vamos lá. Só pegar e
entregar, ó.
Esse aqui... Ah, esse aqui é pra Fernanda. Cadê?
Feliz Natal.
E esse aqui... É, esse é seu.
Pronto. Feliz Natal. Tudo de bom.
Maria Alice, vem cá que eu tenho um presente pra você. Vem cá.
Feliz Natal.
Oliveira? Ah, meu Deus. É, não é bem um presente, mas é porque você gostou tanto
dele que eu pensei que ele podia passar uns dias com você.
Vai ser ótimo, ele vai adorar você.
E você vai adorar ele também.
Ó, come de tudo, só não pode dar comida com sal e tem que andar todo dia.
Mas ele é do seu amigo.
Ah, por uns dias eu acho que ele não vai ligar, não. Você não vai ficar com
saudade dele?
É mais um bom motivo pra eu te visitar.
Saudade do Oliveira.
Olha só, seu amigo confiou em você, não em mim. Então vamos fazer o seguinte, o
Oliveira fica com você e se eu sentir saudade eu venho visitar, tá?
Bora, meu amor.
Vamos? Ô, Leopoldo, não. Vai embora de mão vazia, rapaz? Não, peraí.
Tá aqui, ó.
Feliz Natal.
Obrigado, falou.
Mas eu não fumo. Ótimo, ótimo. É um péssimo hábito. Mas é bom ter pra
visita. Tá certo. Tchau, feliz Natal. Tchau, feliz Natal.
O homem tem o direito ao ir e vá pra lua em três circunstâncias, como diziam no
Velho Oeste.
Primeiro, quando nasce um filho.
Segundo, quando dá certo alguma coisa que ele inventou e que ninguém
acreditava. E terceiro, quando ele encontra a mulher amada.
Isso, Oliveira, vem grossar o couro, vamos.
Eu quero uivar pra lua mesmo, ano que vem, quando nascer meu filho. Ah, pra
isso tem que transar, você sabe, né? Minha técnica hoje foi péssima. Eu
conheci o amor da minha vida, Maria Alice.
Se eu não te conhecesse tão... Bem, Paulo, eu até diria onde você pode
encontrar a Maria Alice. Ah, mas você vai falar. Não vou. Vai falar. Não, não
vou. Sabe por quê? Um, você vai estragar o novado deles.
Dois, você vai esquecer ela. Três, eu vou ficar sem meu contador. Não vou,
porque a Maria Alice é diferente.
Você sempre diz isso. Não, ela é diferente, Laura. Ela é bailarina, ela é
professora, ela é arte, prazer e conhecimento, tudo junto. Ela é um
achado e eu estou completamente perdido.
Ela está ensaiando lá no Instituto. Te amo.
Ai, preciso ir embora.
Não, dorme aí que tá tarde.
Boa ideia.
Você não pode falar pra Maria Alice que fui eu que falei onde ela trabalha, tá?
Porque o Leopoldo é de fato um ótimo contador. Eu não vou falar nada, pode
deixar.
Oliveira!
por Deus esculturada e formada com ardor da alma da mais linda flor de
mais ativo olor que na vida é preferida pelo beija-flor
se Deus me fora tão clemente aqui neste ambiente
de luz formada numa tela deslumbrante e bela depois
de remir
Maria Alice?
Que surpresa boa. Bom te ver aqui. Eu tava pensando em você.
Oi, Paulo.
Tudo bem? Tudo ótimo. É a Laura que falou onde eu tava, né?
Foi. Mas eu insisti muito.
Aliás, ela disse que o Leopoldo é um excelente contador.
Esse aqui é o Vitor.
Opa, como vai?
Beleza? Tudo bem?
Então, é...
Na verdade, eu queria perguntar pra você se a gente não poderia sair pra tomar um
café, bater um papo?
Podemos. Vou pegar minha bolsa.
Tchau, Vitor.
Tchau. Tchau, Vitor. Valeu.
E que a gente não se conhece de algum lugar antes da festa?
Acho que não.
Não? Você me lembra, sabe o quê?
Carnaval. Você me lembra Carnaval.
Ai, é capaz. No último Carnaval, eu saí no Salgueiro. Ó, e estudar? Você estudou
aonde? No Santo Antônio.
Ah, então você conhece a Martinha Maconha, que ela estudou lá também. Não,
acho que não era da minha turma, não.
Agora, você não acha chato, Maria Lia, se namorar um cara chamado Leopoldo?
Não. Não, não é possível.
Como é que ele é?
Assim, por exemplo, o que ele tem que eu não tenho?
Leopoldo é um cara legal, um cara que se leva a sério.
Ah, entendi. Então você não me acha um cara legal, porque eu não me levo nem um
pouco a sério. É, você parece ser legal também.
Por quê?
Porque você não se leva a sério.
Maria Alice, eu acho que você é uma mulher muito inteligente.
Pra quem se pode dizer as coisas, sabe? De modo que... Olha...
Eu tô levando a maior chance de ficar apaixonado por você e eu queria saber se
você tem alguma coisa contra isso.
Porque... Por exemplo, eu e você, na sua opinião, sincera.
Tem chance de dar certo.
Isso é difícil de dizer. Eu sei que é difícil dizer, mas... Sabe o que eu acho
do amor, Paulo?
Acho que o amor é uma coisa como um objeto.
Só que ele depende que a gente cuide dele pra que não quebre.
Porque ele quebra.
Então tem que cuidar todo dia.
Eu acho o meu povo um cara cuidadoso, gentil.
Acho que a gente vai dar certo.
Eu vou torcer pra que não.
Faz assim, você torce a favor, eu torço contra. Pronto.
Maria Alice, eu tô apaixonado por você.
Apaixonadíssimo. De verdade, olha isso aqui.
Apaixonado. Participa o passado do verbo apaixonar.
Tomado de grande paixão.
Entusiasmado. Possuído de um grande amor.
Sou eu.
Paulo, se eu pedir pra você parar de me procurar, você para?
Claro, mas você não vai fazer isso.
Vou. Se você ficar chato.
Chato.
Chato, chato, chato... Chato.
Adjetivo do latim platos.
Vulgar, rasteiro, inoportuno... Não dá pra falar sério com você, né? Você é um
palhaço. E as piadas, meu amor? E as piadas que eu ia fazer pra você?
Olha, eu juro que se você namorasse comigo, eu ia fazer você rir o dia todo,
todo dia.
Então vamos fazer uma aposta?
Aceita? Qualquer uma.
Você tem que me fazer rir.
Você tem que me fazer rir nesse momento, aí eu aceito sair com você.
Fácil. Ah não, assim não.
Maria Alice.
Isso é roubar.
Tá certo.
Perdi a aposta.
Não tá sorrindo.
Tá bem sério, aliás.
Só não esquece de mim.
Porque eu gostei de verdade de você. Eu vou deixar meu número aqui e aí você me
liga se você quiser. Se você não quiser, eu juro que eu nunca mais atrapalho a
sua vida.
Nunca mais.
O amor não dá pé.
Já vi todo tipo de experiência.
Noivado, relações perigosas, namoro, concubinato, amizades fortes, várias
sexualidades, triângulos, retângulos, octógonos. E tudo acaba em ringue.
Desastre. Principalmente o casamento. Desiste dessa ideia.
Opa, você nunca desistiu da Glorinha. Nem precisei. Ela desistiu de mim. Nem
lembra que eu existo. Quem garante?
Não é você que vive dizendo que ela é o grande amor da sua vida, que um dia ela
vai se dar conta disso, que vai vir correndo pros seus braços?
Inventei isso. E eu não posso inventar que quando eu menos esperar o telefone
vai tocar e vai ser a Maria Alice?
A vida não é como a gente inventa.
Ponto.
Tentação. Substantivo feminino.
Disposição de ânimo para a prática de coisas censuráveis.
Escuta, você tem alguma coisa para fazer hoje à noite?
Deixa eu te falar.
Calma.
Eu nunca penso na vida.
Nunca, nunca, nunca, nunca.
A não ser que eu esteja doente, gripado, essas coisas. Mas se eu fosse rica, eu
ia passar o dia todo ouvindo música, comendo um almoço.
Maravilhoso.
Esportista, né? Eu gosto de você porque você é assim, esportista. E eu gosto de
você.
Ah, você devia mesmo, porque eu sou um cara formidável.
Desculpa, desculpa.
Tem que devagar, né?
Não, vamos pra sua casa.
Dando uma saudade de Zuliveira.
Você não existe!
Eu pago pra ver qual meu lugar Que a vida é um dia,
um dia sem culpa Um dia que passa aonde a gente
está Ah, se eu tenho tanto a
perder Eu perdoe o medo do
que a sorte
Sabe quem quer, sabe quem tem, o que se quer.
Ufa verde roxa. Sem caroço.
Cheiro de chuva. No cinema no meio da semana.
Achar dinheiro.
Casar o velhinho.
Lambe, lambe.
Libélulas. Filme de pirata. Bolinho de chuva. Vó cantando na cozinha.
Balão que sai voando.
Eu lembrei do padre.
Quer dizer, eu não sei se felizmente ou infelizmente, mas é isso. Eu acho que eu
tô gostando do Paulo.
Olha só, Maria Alice, tá tudo certo. Você não precisa me dizer mais nada. Eu
realmente amo você.
E se é assim, eu tenho que respeitar suas coisas.
Eu até pensei em devolver os presentes que você me deu, mas depois pensei, não,
isso é uma grande besteira. Claro que é uma grande besteira, imagina.
Olha só, eu...
Eu nunca gostei de ninguém do jeito que eu gosto de você e eu vou estar torcendo
por ti.
Sempre.
Posso te ligar para saber como é que você está? Claro que pode. De vez em
quando. Pode sim.
Eu vou.
Deixa eu dizer que te amo.
Deixa eu pensar em você.
Isso me acalma e acolhe a alma.
Isso me ajuda a viver.
Hoje contei pras paredes Coisas do meu coração
Passei no tempo, caminhei nas horas Mais do
que passo a paixão É um espelho sem razão
Quer amor, fique aqui
Deixa eu dizer que te amo Deixa eu gostar de você
Isso me acalma, me acolhe a alma Isso me
ajuda a viver Hoje contei pras paredes
Coisas do meu coração
Passei no tempo, caminhei nas horas Mais do que passo a passo
É um espelho sem razão Quer amor,
fique aqui Meu peito agora dispara
Vivo em constante alegria É o amor que
está aqui
Amor, eu te amo.
Amor, eu te amo.
Amor, eu te amo.
Fiz a cama na varanda e esqueci o começo.
Você é muito afinada.
Ah, tá. Muito afinada. Eu preciso cantar. Eu entendo. Eu também preciso
dos meus poemas.
Olha uma estrela caindo. Eu vi. Ah, meu Deus. Faz um pedido.
Peraí, tá muito devagar. Acho que pode ser um satélite, né? Não, mas satélite
também funciona. Já fiz o pedido pra garantir.
Qual?
Não vou falar não, que eu fico com vergonha. Ah, tem que ter vergonha de
nada. Mas eu tenho vergonha.
Conta.
Eu quero casar com você um dia.
Minha mãe vai adorar você. E você vai ser a noiva mais linda desse mundo.
Você promete que você nunca mais vai ter outro homem na vida que não seja eu?
Não.
Por quê?
Porque eu não gosto de juramentos eternos.
E você?
Promete você que nunca mais vai ter outra mulher na vida que não seja eu.
Não.
Por quê?
Porque eu não gosto de juramentos eternos.
Eu gosto de dançar.
Vamos dançar?
Agora? Não. A gente já ia dormir.
Vamos, vamos. A gente ia dormir. Falou bem. A gente não vai. Mas o Oliveira
fica quietinho. A gente vai porque a vida é curta.
E se você quiser dormir, você dorme lá. Onde?
Onde? Lá. Lá onde eu vou te levar. Meu Deus!
Abriu.
Alô! Resolveu sair da toca?
Finalmente. Vamos dançar? Vamos!
Que vamos é esse? Quem é que estava com sono?
Passou. Ah, entendi. Já sei namorar.
Já sei beijar de limbo agora.
Só me resta sonhar.
Já sei onde ir, já sei onde ficar agora, só me falta sair.
Não tenho paciência pra televisão, eu não sou audiência para solidão.
Eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo me quer bem.
Eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também.
Maria Alice, já cansei já, vamos?
Ué, eu não queria vir, você disse pra eu vir aí, agora eu quero ficar mais um
pouco. Eu sei, mas é que eu já cansei. Deixa de ser cansado, Paulo.
Não é isso,
não, gente.
Tá bom, vou ficar só um pouquinho então, ó.
Fiquei, pronto.
É sério, eu tô cansado. Tá bom, você quer ficar, então você fica. Não, peraí,
Paulo, vou ficar só mais 15 minutos. Não, mas é que eu já esperei duas horas,
Maria Alice.
Então tá bom, então você vai e eu vou ficar.
Não, não, não, você vai também. Vamos, eu tô falando sério. Não, eu não vou.
Você vai. Eu não vou. Vai, você vai. Eu não vou, Paulo. Você vai também, chega,
Maria Alice. Eu não vou, Paulo. Maria Alice.
Pá.
Ímpar. Um dolazinha e já.
Ganhei.
Tá bom, jogo é jogo.
Agora vamos provar pra todo mundo que o casamento pode dar certo sim.
Desde que duas pessoas se amem como nunca ninguém amou nessa vida.
Ah, todo mundo que ama, ama como nunca ninguém amou antes. Amor é sempre
original. É, e mesmo assim acaba, né?
Ah, mas o amor não precisa acabar, nem devia.
A paixão sim, a paixão como todo sofrimento, ela não dura, amor. É, eu
não sei viver sem paixão.
Nem eu.
Eu só quero te encontrar
É o primeiro aniversário do meu sobrinho.
Criança nenhuma lembra de aniversário de um ano.
Mas a avó e a mãe lembram. Você tem certeza que você quer passar o carnaval
em Curitiba?
Eu quero.
Mas você não precisa ir.
Nem posso também.
Tenho que levar o Oliveira no veterinário, tenho que dar remédio.
Prometi pro Cabral. Quem é que vai fazer isso?
Você vai ficar chateado comigo?
Eu?
Até parece que você não me conhece.
Você vai voltar antes, se sentir saudade, né?
Volto. Tá pensando em quê?
Que eu vou sentir saudade. Eu também.
Quando chegar lá, eu te ligo, tá bom? Tá, não esquece, hein? Não esquece você.
Nunca.
Amigo, leva com cuidado, hein?
Ah, dá tchau, cara. Tchau, Oliveira.
Tchau.
Tchau. Tchau.
E aí é isso, ele tá assim, sem comer e com essa carinha de desespero, desde que
a dona dele foi embora.
E isso faz quanto tempo?
Uns 30 minutos, mais ou menos.
Eu imagino que seja você que não sabe o que fazer, desde que a dona dele, que
deve ser sua namorada, ou ex-namorada, deixou vocês dois no meio do carnaval.
Acertei? Você é boa nisso, hein, doutora? De cachorro eu entendo.
O que tu fez pra ele não ver?
É fácil dizer não pra um carnaval em Curitiba, né?
Ah, entendi.
Vamos nessa?
Fica tranquilo, Oliveira tá ótimo. Tá, se ele piorar eu posso voltar amanhã,
né? Eu só vim cobrir um amigo.
Amanhã eu tô longe.
Ah, então vai ter que ser hoje.
Você tá livre?
Eu sou livre.
E aí, ele já ligou pra você?
Não. A gente não é assim, grudado, sabe?
Olha, se eu fosse ele, eu não deixava você ir longe, não.
Deixava? Deixava, não.
É, vai ver. Por isso que a gente nunca namorou. O Paulo não tem ciúme?
Não.
Estranho, hein?
Estranho? Sabe aquela música do Caetano? Por que você me deixa tão solto?
Essa música nem é do Caetano.
O Paulo não sente ciúme de mim porque ele é um cara seguro. Ele tem segurança
do que eu sinto por ele, do que ele sente por mim.
Ele é um homem lúcido.
Ah, é? Então, por que você veio?
Não sei.
Bom carnaval.
Que lindo aqui.
É uma boa área aberta, né? Apesar dos vizinhos o tempo todo olhando pra gente.
Então, acho que é melhor a gente entrar.
Só por causa disso mesmo, que é muito vizinho.
Oliveira, você fica do lado de fora, tá?
Peraí, deixa que eu te ajudo.
Não,
não, não, não mexe.
Isso é um sinal.
Como assim?
É um sinal.
É um sinal.
Desculpa, desculpa.
Você é uma mulher incrível. Eu estou tremendo desde a hora que eu conheci
você. Você desperta em mim uma vontade que eu achava que eu não pudesse
controlar, mas eu posso.
Eu não posso ficar com você. Me desculpe, eu sou apaixonado pela minha
mulher. Ela saiu daqui a algumas horas e eu realmente não posso fazer isso com o
nosso casamento. Isso tudo foi um sinal do sutiã. É, o universo opera de
maneiras muito estranhas. Nossa, estranho é você.
Desculpa, isso nunca aconteceu comigo. Nem comigo.
Bom, não esquece de caminhar uma vez por dia e pelo menos um banho por semana.
Eu? O Oliveira, você não tem cura.
Olha, desculpa, de verdade, sem ressentimento nenhum, né?
O que é isso?
Por que você faz esse tipo de coisa logo agora que a gente... Nossa, essa sua
cara de eu não fiz nada é muito boa. Eu preciso aprender.
Se bem que eu realmente não fiz nada. Você viu. Você é testemunha.
Tá bom, eu quase fiz, mas a luz da razão que normalmente gira em meia fase pra
mim se acendeu completamente e eu consegui evitar o pior.
Ou o melhor.
Tá, vai.
Entra. Direto pro chuveiro, hein? Anda.
Eu não fui.
Eu não fiz nada. Ela é veterinária. Ela veio ver onde é que a Oliveira dormia
pra ver se tinha espaço suficiente. A gente tomou um vinho, acabou se beijando
e foi só isso.
Você tava com uma mulher?
Ela já foi embora. Tem tempo.
Paulo, não tem nem quatro horas que eu saio daqui.
Quatro horas é bastante tempo, Maria Alice.
Eu peguei minhas coisas.
Maria Alice, não aconteceu nada.
Até ia... Não, não vai embora.
Não tem por que ir embora.
É a natureza humana, Maria Alice.
Se você não tivesse me deixado sozinha aqui, você já leu O Médico e o Monstro?
Não, mas eu vi o filme.
Sim, mas o filme é uma péssima adaptação, Maria Alice.
A gente estava aqui, mas não aconteceu nada. Eu consegui... Maria Alice, para.
Para. Para, não precisa ir embora. Pelo amor de Deus, foi uma visita. A gente
deu um beijo e foi só isso. Não aconteceu nada.
Se tivesse acontecido... Maria Alice, eu não vou ficar por trás de você, não.
Bate feliz Quando te ver
E os meus olhos ficam
sorrindo E pelas ruas vão Te seguindo
Mas mesmo assim Foges
de mim Ah, se tu soubesses Como eu sou tão carinhoso E muito,
muito que te quero E como é sincero, meu
amor Eu sei que tu não fugirias mais de mim Vem,
vem
Vem, vem Vem sentir o
calor Dos lábios meus A
procura dos teus Vem matar essa
paixão
Serei feliz, bem feliz.
Eu sei que a minha chave era pra usar só em caso de emergência, mas eu achei que
quatro dias sem atender configurava emergência. Ou sexo sem parar.
Ou morte. Como é que você descobriu que era morte?
Falei com a Maria Alice.
E aí, como é que ela tá? Ela tava chorando? Ela disse quando é que vai
voltar? Ela me contou o que aconteceu, de onde você pode concluir que não, ela
não vai voltar. Você é ridículo, mas isso eu já sabia. Meu Deus do céu,
Laura, não aconteceu nada.
Nada. Olha, não foi à toa que a natureza concedeu aos homens a impotência, porque
é a prova inequívoca da nossa fragilidade.
Exato. Hoje você está bêbado, solitário, rejeitado, detestando mais do que nunca
a ideia de ficar sozinho.
Hoje eu sou a sua companhia ideal.
Acho que você tem que tomar um banho.
Um homem tem que terminar tudo que começa.
Não. Aquele seu poema, por exemplo, não precisa terminar porque tá horrível.
Começa outro. Não dá, já deixei na portaria da Maria Alice.
Então talvez ela volte pra você só pra parar de receber os poemas.
Vai rindo da minha desgraça mesmo.
É pra eu parar de pensar na minha.
Filho, antes dos 40, já não deu.
Tudo bem também, eu desisti da ideia.
Pelo menos eu não vou ficar botando mais gente nesse mundo de malucos.
Vê se tá bom de sal.
Nossa, tá perfeito esse risoto.
Às vezes eu fico pensando se a gente não é perfeito um pro outro.
Acho que eu já sei o que eu vou fazer.
Um homem tem que terminar tudo que começa.
Não vá pensando que determinou Sobre o que só o amor pode saber
Só porque disse que não me quer Não quer dizer que não vai querer
Pois tudo que se sabe do amor é que ele gosta muito de mudar E
pode aparecer onde ninguém ousaria supor Só
porque disse que de mim não pode gostar Não
quer dizer que não tenha do que duvidar
Também pode mesmo chegar a se arrepender.
E pode ser então que seja tarde demais.
Olá!
Que isso, tá me seguindo agora?
E aí, Paulo, senta com a gente. E a mamãe, vai bem? Já voltou pra esse
idiota, Maria Alice?
O que você tem na cabeça, Maria Alice? Eu amo você. Eu amo você. Muito, tanto
que traiu na primeira oportunidade. Cala a boca, babaca.
Trouxa. Que isso?
Não, Maria Alice. Ai, machucou muito. Não mais do que eu preciso, nem menos do
que eu mereço. Mas pode me deixar no chão. Deixa no chão, deixa no chão.
O chão é ótimo. Do chão ninguém passa. Tô ótimo. Tá, mas é ambulância ou é
gelo?
Você.
Então eu vou ligar pra Laura passar aqui amanhã de manhã pra ver se você ficou
bem, tá? Não, não, não, não vai. Não vai. Fica aqui só mais cinco minutos. O
Cabral falou que o Oliveira tá morrendo de saudade de você.
Eu tô morrendo de saudade de você. Aliás, ninguém fica bem longe de você,
meu amor.
Eu tô tentando ficar bem longe de você. Não diga isso, Maria Alice. Eu amo você.
E se eu amo você, eu tô automaticamente perdoado.
Eu faço você rir.
Você tem dúvida de que é pra gente ficar junto?
Me dá um beijo.
Não.
Eu penso no teu beijo o dia inteiro.
Pensa nada.
Deixa o que seja ser, então beba e receba meu
corpo no seu corpo, eu no meu corpo.
Deixa, eu me deixo, anoitece e amanheça,
seja eu, seja eu, deixa que eu seja eu e
aceita.
o que seja seu então deita e aceita eu molha eu, seca
eu deixa que eu seja o céu e receba o que seja seu
anoitece amanheça eu
Nossa, que bom que você tá aqui. Que bom que você tá aqui.
Sabe o que eu pensei? Que a gente tinha que dar uma festa pra comemorar a sua
volta pra casa.
Não tem volta nenhuma, Paulo.
O que é? Tá grávida do Leopoldo agora?
Não tem problema nenhum. Eu assumo que eu posso ser pai tranquilamente. Eu vou
viajar pra Europa.
Com o Leopoldo? Não, sozinha. Vou fazer um teste pra uma companhia de balé de
Berlim. Como assim? Você vai dançar? Não, não. É uma péssima ideia, porque
você vai passar.
É o quê? Você vai ficar quanto tempo lá? Um mês? Quanto tempo que é isso? Um ano,
mais ou menos. Um ano?
Não. Não, Maria Alice. Minha cabeça já começa a tontear aqui só de pensar que
você vai estar um ano do outro lado do oceano.
Mamãe queria o bem do outro. Foi você que me disse isso.
Isso foi uma bobagem que eu falei quando eu era feliz, Maria Alice.
O amor é uma selvageria. Maria Alice, não! Maria Alice, não! Você não tá indo
embora agora, Maria Alice!
Peraí, Maria Alice!
Maria Alice!
O amor é uma selvageria.
Como tantos casais
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