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14, 15, 16, 17, 18...
Um filme de
Eu sou...
52 anos...
Eu sou 52 anos?
Não é assim?
Eu sou uma mulher...
- E é "com" ou "de"? - Não sei.
Sou uma mulher de 52 anos
e venho daquilo a que os holandeses chamam a Europa de Leste.
Como posso dizer: "Sou uma boa cidadã"?
Isso é estranho.
Faço tudo como os holandeses,
mas, mesmo assim,
sinto que existe um muro invisível que os separa de mim.
- Que. - Existe um...
Que "vos" separa de mim, talvez.
Como se estivesses a sentir isso bem fundo no coração e nos ossos.
FRAGMENTOS DE PERTENÇA
Já amanheceu.
Loulou, não. Espera!
Dá um beijinho à mãe.
Ela já foi.
- Adoro-te. Vai, ganha! - Sim.
Vai lá.
Sou uma cidadã do mundo.
Pronto, talvez não do mundo, mas uma cidadã da Europa.
Tenho de descer primeiro.
Espera.
Nunca vivi em nenhum país mais do que dez anos.
Quando tinha 15 anos, a minha família mudou-se da Croácia,
que na altura integrava a Jugoslávia, para a União Soviética.
A frase...
Na União Soviética não há sexo!
Dez anos depois, mudei-me para Londres.
Em seguida, após alguns anos em Zagreb, vim para Amsterdão
e tive um filho com um holandês.
Acho que temos de fazer terapia. Tens alguma coisa...
Terapia não, por favor!
Agora, estou presa nos famigerados subúrbios de Amsterdão,
com a minha aboborinha, o Waldemar.
... um, agora.
Mesmo se sentisse vontade de me mudar, não o faria.
Go Pro, para de gravar.
Ele tem o pai holandês na cidade, a escola, os amigos, as atividades,
por isso contento-me com o meu papel mais satisfatório
e menos valorizado.
Descontraia. Sinta o bem que sabe...
Mas sinto falta do convívio com adultos.
Parabéns a você...
Parabéns a você...
Esta é de quando a mãe estava a fazer um filme em Ístria.
- Esta és tu. - Sim.
- Esta foi em Londres, a minha mãe. - A tua mãe?
Esta foi outra vez em Riga.
Esta foi outra vez em Londres. Moscovo.
Esta é a Saša e o meu grupo de amigos.
- Este é o meu amigo Igor. - Era o teu namorado?
Não, ele é gay. Agora, vive na Suíça.
Todos os teus amigos estão longe.
Onde estão os teus amigos de Amsterdão ou dos Países Baixos?
Claro que tentei travar amizade com os meus vizinhos.
Vizinho, faço anos hoje. Trouxe-lhe uma fatia de bolo.
- Parabéns! - Obrigada. Adeus!
Mas nunca fui convidada para nada.
Por isso, pensei em convidar algumas pessoas para irem a nossa casa.
E tive a fantástica ideia
de abrir um pequeno hotel no quarto do meu filho.
Sim, foi uma ideia genial.
Olá.
Bem-vindo.
Até que ponto precisamos...
... de revelação.
É sobre a filosofia chinesa.
Agora, estou a fazer um filme sobre a minha solidão.
Sou realizadora.
Agora, estou a fazer um filme sobre a minha história.
- Realizadora? - Sim, sou realizadora de cinema.
É realizadora?
- Sim. - Ena, realizadora...
Realizadora.
Sinto-me muito bem, muito bem.
- Muito bem? - Muito bem.
É muito simpática.
Não, mas também foi muito simpático.
Tocou-me na cara. Cumprimentou-me de forma simpática.
É uma rapariga encantadora.
Achas que arranjamos um hóspede que consiga arranjar a torneira?
Ou vamos ter de esperar até seres crescido?
Segunda opção.
Procurei durante muito tempo.
Eu posso ajudar.
- Loulou, sai daí. - Tem de fechar ali.
- Como é que fecho? - Não sei. Há aqui uma torneira. Vê?
Mas não tem a cabeça.
A minha carreira como documentarista freelancer
precisava, claro, de uma estratégia financeira sólida.
Ensinar, orientar e, agora, os hóspedes,
que, sem saber, passaram a fazer parte do meu grande plano de sobrevivência.
Mas ganhei muito mais.
Amigos que me ajudavam com várias coisas.
Temos alperces e avelãs.
Com os meus hóspedes, era como se tivesse voltado à minha infância.
Quando era miúda e tinha fome,
podia tocar a qualquer uma das campainhas do nosso prédio
que uma das mães me dava sempre pão fresco:
a tia Boçza, a Ljubica
ou a minha mãe, Zdenka.
Os melhores amigos dos meus pais eram os vizinhos deles.
E mesmo se os vizinhos não gostassem de nós,
sabíamos que cuidariam de nós.
Vamos ver se está seca.
As calças ainda estão molhadas.
Talvez tenha de aumentar a casa.
E comprar a casa ao lado.
Seria ótimo.
Tem de arranjar tempo para as coisas de que gosta.
Ela gosta de mim, por isso...
Os meus hóspedes compreendiam-me.
Talvez não tenha conseguido deslindar a sociedade ou mentalidade holandesa.
Não quero uma relação, não me quero apaixonar
e não me quero sentir sozinha.
Não sei se sinto saudades de algumas pessoas
ou se quero ser alguém de quem as pessoas sintam saudades.
Isso é muito interessante.
Por vezes, sinto que os hóspedes pensam:
"Quando é que ela se cala?"
Espere, espere...
Como se sentem, rapazes? Estão bem?
É uma pergunta maternal.
Disse hoje de manhã que sou muito maternal.
- Hoje de manhã e ontem. - Eu também disse isso.
Boa noite.
A mãe acha que os hóspedes são amigos dela.
- Somos amigos? - Não, não somos.
Então, somos o quê?
Não vendia aos meus hóspedes apenas o quarto.
Vamos à próxima.
Mas também o meu coração, a minha família.
Mãe, é estranho dizeres que estás a vender a tua família.
É o meu quarto.
Aquele onde durmo?
Obrigado por me teres disponibilizado o teu quarto.
Mas o melhor de tudo é que o Waldemar também os adorava.
- Foi bom falar contigo, rapaz. - Sim.
Há sempre hóspedes parvos cá em casa.
Eles vêm cá para casa, dormem no meu quarto.
O meu quarto tresanda sempre a gente estranha.
Tem sempre um cheiro diferente.
Não gosto nada.
Qual é a tua pergunta, Tatjana?
Sinto que não pertenço a lado nenhum.
O que procuras?
- União. - União. Sim.
Encontra alguém que te represente na constelação.
Encontra alguém que represente a tua mãe.
Essa é a mãe da tua mãe?
Tatjana...
- É a mãe da tua mãe? - Sim.
Posiciona o teu pai na constelação.
Como te sentes?
Este ambiente
torna mais difícil sentir que pertenço aos Países Baixos.
Que existe...
- A quem queres pertencer? - Não sei.
Exatamente. É uma pergunta difícil.
És feliz?
- És feliz? - Sim.
Organizaste muito bem as tuas BD do Dylan Dog.
Podes levar isto?
Assim, já posso abrir...
Foi o fim do meu pequeno hotel.
Recompus-me e decidi misturar-me com os locais.
Juntei-me a eles quando uma grande loja de mobiliário
organizou um pequeno-almoço para a vizinhança.
Isto é o pequeno-almoço?
- Isto não? - Isto é à parte.
Certo.
Não podemos levar isto. O pequeno-almoço está ali, já pronto.
Já temos qualquer coisa.
Pensei que seria a minha oportunidade de conhecer algumas pessoas.
Mas ninguém se aproximou de mim.
Quando soube que havia uma associação a poucos minutos da minha casa,
imaginei-nos a dar as mãos, a olhar nos olhos uns dos outros, em união.
Esta é a nossa capela.
A configuração é muito individual.
Ajoelha-se virada para ali.
Não precisam de olhar uns para os outros.
Assim, pode concentrar-se em si.
Não desisti.
E, para ganhar pontos extra, juntei-me a um grupo de ciclistas.
Sonho em voltar para a casa da minha avó.
Uma casa cheia de gente que estava sempre a fazer coisas em conjunto.
O meu avô tocava tamburica.
E a minha avó estava sempre em cuidados comigo.
Aqui, tudo é diferente.
Aqui, sou livre.
Liguei ao meu pai, que me disse:
"Olha para a nossa família. Vivemos em sete países diferentes.
Ninguém ficou na aldeia onde nascemos.
Todos encontrámos o nosso lugar. O que se passa contigo?"
Quando a minha prima Andja foi para a Alemanha, em 1968,
a primeira coisa que fez foi mudar o nome para Angela, um nome alemão.
Assim que se casou com o Heinz, de Welzheim,
a Angela raramente nos visitava na Jugoslávia.
Uma vez, fizeram-nos uma visita rápida,
e a minha irmã deixou cair um copo de água
porque a Angela a fulminou com o olhar.
Achámo-la muito ocidental.
A irmã dela, Marica, também casou com um alemão,
e ele até sabia dizer algumas palavras em croata:
olá, bom dia, obrigado.
Quando falavam connosco, a Angela e a Marica
acrescentavam palavras aleatórias em alemão
ao seu croata cada vez mais macarrónico:
Grüß Gott, also...
Era evidente para toda a família: as irmãs tinham-se tornado Schwaben,
uma palavra que nós, nos Balcãs, usamos para designar todos os alemães.
Ela costurou umdirndlaqui.
- Olha o meu pai! - Foi o que te disse.
Ele está a fazer um filme! Karlovac, devíamos ter sido todos nós.
Todas as dádivas, tudo o que temos,
devemos a Ti, Senhor. Agradecemos-Te por elas. Ámen.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ámen.
- Bom proveito. - Esta é uma salada alemã.
Tem pepino, queijo e salsicha.
- Como se diz "essig"? - Vinagre.
O Heinz disse-me que devia aprender alemão.
Em vez de ensinar croata às crianças.
Eles acham que as suas mulheres se integraram bem?
Diria que sim.
- Normal. - Normal?
Vão piorando à medida que ficam mais velhas.
- Isso acontece a todos. - Ele está a criticar-te.
Quando estávamos com bósnios,
se eu estava por perto, ela nunca falava croata.
Gosto de ir lá.
Mas seria incapaz de viver lá.
Quando fomos lá no Dia de São Nicolau, eu, a minha tia e a minha mãe,
não havia nada a não ser escuridão e morte.
Nada, nada. Não estava lá ninguém.
Mas gosto de ir quando há mais gente.
Nessas alturas, há vida, alegria...
Disso já gosto.
Nasci na Alemanha.
Os meus filhos nasceram na Alemanha. Casei-me com uma alemã.
Consideramo-nos alemães,
mas também sei quais são as minhas origens.
É uma língua materna, acabarias por aprender.
O meu filho aprendeu croata porque fui persistente.
Se ele dissesse "confusão", dizia-lhe: "A mãe não percebe."
Ele tinha de comunicar comigo. Acabou por ceder.
Nós falávamos alemão.
- Tem tudo que ver com o contexto. - Sim.
- Estavas sozinha. - Quando a mãe veio para cá...
Havia o pai, a avó, a sogra...
Todos alemães.
Quando vim para Amesterdão por amor ao pai holandês do Waldemar,
pensei que seria a minha mudança mais fácil de todas.
Só tinha de aprender a ser direta e usar os meus patins.
Já estou suficientemente integrada?
Isto é ótimo, querida. Estás a sair-te muito bem.
Mas quando me tornei mãe solteira,
o facto de me sair bem foi-se esvaindo.
Passei a ser uma imigrante
em vez de uma estrangeira encantadora.
Apenas uma mãe solteira imigrante.
Dizes que não és uma criança, mas sim um adolescente.
Um jovem. Mas um jovem não deixa de ser uma criança.
- É verdade. - Tenho 11 anos.
Deixarei de ser criança quando tiver 18 anos, certo?
É normal que sejam as mães a preparar o pequeno-almoço!
Cerca de um milhão de crianças estrangeiras vivem na Alemanha.
Muitas nasceram, tal como eu, na Turquia, na Grécia,
na Jugoslávia, Itália ou Espanha.
Em Hanover, um em cada quatro bebés nascidos no ano passado
era um pequeno estrangeiro.
Mas onde pertencemos? Qual é o meu lar?
Não sei responder a estas perguntas.
Quando eu era criança, nos anos 70 e 80,
contava com orgulho quantos dos meus familiares viviam no estrangeiro.
Tinha tantos.
O primeiro a emigrar foi o meu tio Boçzo.
Lembro-me que ele conduzia um carro cor de laranja.
Afinal, o carro era bege.
Na altura, achava que tudo o que era ocidental era colorido.
Havia seis autocarros que iam só para Odçzak. Nas férias.
Seis autocarros.
Cada um levava 50 passageiros. Já estás a ver a multidão que era.
E esses eram os que vinham de Viena. Imagina o resto.
Todos tinham alguém na família que era um "gastarbeiter".
A minha avó suspirava: "A vida de emigrante é solitária."
Cerca de um milhão de pessoas da Jugoslávia fizeram as malas,
deixaram as suas famílias
e foram para a Suíça, Áustria e Alemanha, para ganhar dinheiro.
Eles consideram-nos cidadãos de segunda.
Aceitámos ser cidadãos de segunda, de certa forma.
Não aceitei porque quis,
mas porque este país nunca me pertenceu totalmente.
Enquanto o meu tio Boçzo trabalhava em Viena
o seu filho Josip, o meu primo preferido,
vivia na Bósnia com a mãe e os irmãos,
rodeado pelos bens que o pai enviava para casa com o seu salário austríaco.
Eu ia visitá-lo durante as férias escolares.
Como recompensa, se estudássemos e nos esforçássemos,
ele deixava-nos vir de férias durante 15 ou 20 dias.
Para a Áustria. Como recompensa.
Eles nunca tiveram a intenção de trazer as famílias para cá.
Era temporário, para ganharem dinheiro para construir uma casa.
Ele veio por um mês para comprar uma mota.
Mas ficou 36 anos.
Feche os punhos. Agache-se.
Levante-se.
O Josip levou-me ao seu café patriótico preferido em Viena.
Estes homens sabiam muito sobre o que é pertencer.
Tens de saber quem és, o que és e de onde vens.
Como é que não te sentes em casa, aqui?
- Também vais descobrir. - És ortodoxa ou católica?
Assim que receber a minha pensão, não fico aqui nem mais um dia.
- Vou voltar logo para a minha terra. - Então, não gosta da Áustria?
Gosto da Áustria! É um país muito agradável.
Como foi, então, viver durante 30 anos com essa ideia...?
- Estava errado! - Errado.
Arrepende-se de ter passado a sua vida aqui?
Sim.
O meu sentimento de pertença não é tão claro para mim como o seu.
É isso que nos torna especiais.
Esse sentimento de pertença também nos controla.
Não nos deixa fazer o que queremos.
A nossa identidade é, por vezes, tacanha.
Talvez seja demasiado agressiva.
Mas, para nós, tem muito significado.
Porque as pessoas da nossa terra não sabem viver como indivíduos.
Algures que não aqui Bebia vinho cor de rubi
Algures que não aqui Estava feliz com outra mulher
E tu, e tu
Tu estavas à minha espera
Algures que não aqui Bebia vinho cor de rubi
Algures que não aqui...
É como uma droga para mim.
Cantar nos cafés dos subúrbios de Viena
as mesmas canções que detestava quando era criança.
- Vou voltar! - Claro. Tens de voltar!
É o maior!
Estão arrependidos? Estão arrependidos?
Oh, amigos, estão arrependidos?
Começo a alucinar.
Penso para mim mesma: "Qual era afinal o problema?"
Chegou o momento da despedida!
Crescemos numa sociedade
e com uma mentalidade
em que o indivíduo era irrelevante.
Totalmente irrelevante.
Atualmente, no mundo ocidental, só o indivíduo importa.
Mas, ao destacar o indivíduo, destruímos as comunidades
e, assim, o indivíduo deixa de ter significado.
É um ser errante.
Já não tem nada a que se agarrar. A quê?
Não tem um grupo nem uma comunidade. Ninguém.
Está sempre sozinho. Tem todos os direitos, mas está só.
Ligávamos daquelas cabinas telefónicas.
Mas a mãe não tinha telefone. Como é que podíamos falar?
Enviávamos telegramas ou escrevíamos cartas.
E a carta demorava três semanas a chegar.
Tínhamos uma tradição, quando partíamos para a Alemanha.
Todos os vizinhos vinham despedir-se.
Vinham todos, para se despedirem.
Era uma tradição. Estávamos sempre juntos.
Os vizinhos ajudavam-se sempre uns aos outros.
Agora já não há ninguém.
Tínhamos 19, 20 anos.
Tínhamos saudades da nossa mãe, da casa, de tudo...
Precisávamos de uma semana para nos acalmarmos.
Depois, acabávamos por esquecer.
As minhas lágrimas correram durante toda a viagem até à Eslovénia.
Aqueles tempos eram mesmo...
Foi difícil deixar a minha mãe. Ela chorou muito.
Ela chorava e dizia:
"Minha filha, faz boa viagem. Não sei se nos voltaremos a ver."
Ela dizia sempre isso.
Acenava-nos e abençoava-nos enquanto se despedia.
Dizia: "Minhas filhas, fiquem juntas. Gostaria muito que fosse assim.
Um dia, vou morrer, e vocês poderão apoiar-se uma à outra."
Era assim. Moramos a cinco minutos de distância uma da outra.
Somos irmãs, amigas. Conversamos uma com a outra...
Seria bom para a Tanja também ter uma irmã por perto.
Eu e a minha irmã Sandra começámos a viver juntas
quando ela tinha seis anos e eu quatro.
Antes disso, ela ficava com os nossos pais na Croácia,
enquanto eu vivia com os nossos avós na Bósnia.
Já não sei o que mais dizer.
Só que gostaria que viesses visitar-me...
E depois isto parece... Sim.
Parece que estou a pressionar-te.
Há 15 anos que te convido para me visitares.
Não paro de te pedir para vires, e tu nunca vens.
Só eu é que te vou visitar, uma vez por ano,
e tu nem sequer vais estar em casa.
E agora estás zangada comigo por te pedir isto? Está bem!
Gostaria muito que a minha irmã viesse visitar-me.
Podia mostrar-lhe a minha casa, o meu jardim,
a minha rua, a minha cidade.
Como se, assim, tudo isto se tornasse mais parecido com um lar para mim.
A Blanca disse um dia: "Tatjana, gostava de ser tua amiga."
Tatjana, não estás a fazê-lo.
Estás apenas a tocar-me suavemente na mão.
Soube imediatamente que ela poderia ser a minha irmã aqui.
Isto vai demorar uma eternidade, Tatjana.
Tal como muitos outros expatriados,
a Blanca não conseguia decidir onde viver
uma vez que tudo era possível.
Para a ajudar, tive rapidamente uma ideia fantástica:
convidá-la a viver connosco.
Não, acho que isto não é justo...
Oito, sete...
Três, dois, um... aqui vou eu.
- Quadro, sim? - Desenho, desenho.
Oh, por favor!
Desta vez, consultei o Waldemar.
Três, dois, um... aqui vou eu.
E ele aprovou a Blanca.
Quero que vocês limpem a casa amanhã.
- Não, podemos recusar. - Podemos dizer que não, uma vez.
Tenho exames.
- Tens exames, não podes, e tu? - Não.
- Vou sair com amigos. - Está bem, que pena.
- Lamento. - Não lamentas nada.
Só precisávamos de construir mais um quarto
e depois seríamos uma pequena família feliz.
Olha. Agora já posso trabalhar.
- Sexy. - Sexy?
Muito holandês.
- Estás a falar a sério? - Isto é muito holandês.
Não?
Sabes o que eu acho? Acho que tem um toque eslavo.
És de Espanha?
- De Madrid? - Não, de Saragoça.
Saragoça.
E o que estás a fazer neste país de merda?
Não tenho a certeza.
- Como assim? - Não sei se volto ou não.
Está bem.
Mas porquê? Gostas daqui ou quê?
Gosto... das bicicletas, gosto de andar de bicicleta.
E não é tão barulhento como em Espanha.
A Blanca é um pássaro livre, uma estrangeira de primeira classe.
Graças ao seu trabalho internacional,
mesmo depois de 10 anos nos Países Baixos,
pode dispensar a aprendizagem da língua
e a dificuldade com o "G" holandês.
Blanca, estou só a pensar, será boa ideia fazer isto?
Sim.
- Porquê? - Para colocar as janelas ali.
Pode estacionar aqui.
Podem ajudar? Depois podíamos tomar uma cerveja juntos.
- Claro! - São muito gentis!
Nos Países Baixos, ajudamo-nos sempre uns aos outros.
Sim?
Talvez ainda seja difícil estabelecer uma ligação.
Tenho o preconceito de que as pessoas têm preconceitos em relação a mim,
porque sou da Europa de Leste. É assim que as pessoas me veem.
É porque tem um caráter franco.
Os holandeses têm a mente fechada nesse aspeto.
- Talvez um copo de água. - Água.
- Tenho sede. - Sim, sim.
A Blanca trouxe muitas pessoas novas para nossa casa.
- É caseiro. - Pode ter 50% de álcool.
- Saúde! - Saúde!
Saúde!
Se eu fosse uma expatriada, tudo seria muito mais fácil.
Como o meu amigo Igor.
Em Zagreb, costumávamos viver juntos,
mas ambos nos sentíamos como forasteiros lá.
Desde então, ele encontrou o seu lar aqui, em Zurique.
Foi fascinante.
Comecei a sair com pessoas. Percebi...
Não passaste pelo socialismo. Não passaste pela guerra.
Quando percebi que as pessoas tinham infâncias normais,
quando vi como as pessoas são calmas e estáveis por dentro...
Esse foi o maior choque.
"Onde é que eu vivia? Como passei os meus 20 anos?"
Aqui, as pessoas têm sede de vida. Elas pensam: "O que vem a seguir?
Qual é a próxima aventura?"
Foi tão estranho para mim.
É que não acordas a perguntar: "Quem é que me vai lixar hoje?"
Tenho de me esforçar muito mais para atingir o mesmo nível.
É interessante que tenhas cinco mestrados,
que sejas altamente qualificado...
Eu também.
E, no entanto, carregamos este complexo de inferioridade.
Só porque temos... origens bósnias.
Sim.
Na verdade, nunca me senti
completamente em casa em lado nenhum.
Podia ser ainda pior.
Podias ser da Índia. E pareceres uma indiana.
Vinhas para cá e seria muito mais difícil
encontrar o teu caminho nos Países Baixos.
Atreves-te a dizer "vai-te lixar" às pessoas.
E sinto...
Sinto que não me é permitido fazê-lo. Porque sou...
... estrangeira.
- Estrangeira? - Sim.
Mas és um ser humano, não és? Estrangeira...
Vou olhar para a câmara com os olhos semicerrados.
- Três, dois, um, zero. - Só precisamos de ficar quietos?
- Quietos, por favor. Pestanejar. - Não pestanejes.
Podem pestanejar. Três, dois, um e zero.
Não há nenhum balão a dizer: "Croata".
- "Europa de Leste"! - "Idiota de Amesterdão".
Só se veem duas pessoas.
Como está a mãe?
Já que a avó está na constelação.
Sim?
Como está a avó?
Tu entregaste esta criança.
Acho que foi assim...
É primavera.
A minha mãe tem 21 anos.
Ela veste-me bem.
Beija-me no olho.
Depois no outro.
Ela entrega-me, como um pequeno embrulho à mãe dela,
a minha avó Lela.
E a minha avó fica feliz.
Não... Queres que eu tenha vergonha de ti?
Odeias-me? Odeias-me?
Porque terias vergonha da tua mãe assim?
- Blanca, olha para isto. - Blanca, é vergonhoso?
Mas não estás a tapar as orelhas, isso é o mais importante.
Isso tapa alguma coisa?
- Sim, aqui. - Não, mas parece apenas...
Mas vale a pena, cobre isto...
Não fiques do lado dele.
- Acho que vale a pena. - Obrigado.
Posso fazer assim e ninguém me vê. Está bem assim?
Sim.
- Também posso andar assim e... - Isso é o melhor.
E não digo nada para não teres vergonha de mim.
Isso seria ótimo, obrigado.
Não conseguimos comprar uma casa num sítio melhor
porque as casas são muito caras.
São caras por causa de todos estes expatriados.
O que é um expatriado?
Estrangeiros ricos. Os imigrantes são estrangeiros pobres.
Não dirias que és meio-meio.
Holandês e croata.
Dirias que és originário dos Países Baixos ou da Croácia?
A minha terra natal...
Então, qual é a tua terra natal?
Não sei.
O mesmo. Na Croácia, sou muito mais diferente.
És diferente lá? Diferente como?
Não me integro tão bem.
Mas como?
- Entra no círculo. - Como?
Podes dançar como quiseres.
- Deixa-o dançar. - Não quero.
Não quero dançar.
Sempre quis que o Waldemar se tornasse um ocidental,
um holandês alto, mas com um coração eslavo do sul.
Deixá-lo sentir esse espírito coletivo.
Um casamento de família em Viena foi uma introdução às raízes da minha mãe.
Haverá algum austríaco no casamento?
Não.
Vês? As coisas são mesmo assim.
- Achas que isso é um problema? - Para mim, não.
Os austríacos cumprem sempre rigorosamente a lei.
Nenhum de nós faz isso à risca.
Encontramos sempre uma maneira de contornar a situação.
Acho que esses genes permanecem em nós.
Não sei como é com esta geração mais jovem,
por exemplo, as crianças que nasceram aqui...
- Sim. - Como é que elas encaram isso?
O teu filho praticamente nasceu aqui, veio para cá muito pequeno.
Sim, o meu Bojan aceitou tudo, tudo o que é austríaco.
Mas viste que ainda há algo... Um gene dos Balcãs nele.
- Já tiveste algum namorado austríaco? - Não.
Porquê?
Não os acho atraentes. Não gosto da mentalidade deles.
Eles são frios no amor?
Tens de saber quem é o homem e quem é a mulher.
Se traísses um austríaco, ele superava e continuaria a amar-te.
Para mim, isso não é um homem a sério.
Com o Bojan, sei bem como são as coisas.
A tua filha vai crescer aqui. A que geração pertence?
O pai do Bojan está aqui e o avó dele também.
Tu nasceste aqui.
Como queres que a tua filha não seja uma pequena austríaca?
Ela vai ser, na maior parte, austríaca.
Mas não vamos criá-la da mesma forma que os nossos pais nos criaram.
Ela precisa de se integrar aqui. Não queremos que acabe como nós.
Eu sou sérvia, ele é croata, e pronto.
Queremos que ela se integre,
que seja um pouco nativa também, já que nasceu aqui,
com cidadania e tudo o mais.
A família está aqui para se ajudar mutuamente.
Quando precisamos de alguma coisa.
Para estar connosco quando cantamos e quando choramos, como se diz.
Sim.
- Tu não tens isso. - Não.
Essa família que sabe quando cantas e quando choras,
no teu caso é o teu filho.
- Estou com medo. - Não há motivo para ter medo.
Eu trato disso. Olá!
Estou presa.
- Tens de subir mais um degrau. - Olá!
- Está um calor do caralho. - Vá lá!
Não digas palavrões, mãe!
- Estamos felizes? - Tão bom. Estou tão feliz.
- Esta noite, vamos jantar aqui. - Nem pensar. Não no meu quarto.
- Posso tirar? - Tira.
- Queres metade? Ou... - António, divide tu.
- Blanca. - Blanquita. Anda cá,chica.
- Como é que se conheceram? - Eu não disse nada.
Agora... Não é segredo.
Ela foi a minha terapeuta para o distúrbio alimentar.
- Para quê? - Distúrbios alimentares.
- Há alguns anos. - Certo.
Mantivemos o contacto.
- Que bom. - Muito bom. Estou muito feliz.
Mas isso já foi há cinco anos, não foi?
Eu dizia à minha avó Lela:
"Avó, és o meu Bogo e o meu Tito."
Bogo era a nossa alcunha para Deus, e Tito... era simplesmente Tito.
A minha avó tinha 23 anos quando enterrou o seu bebé.
Alguns dias depois, o seu filho de cinco anos também morreu.
Em 1945, no caos do pós-guerra na Bósnia, o marido dela foi morto.
Depois, ela foi expulsa de casa.
Quando o marido morre e não há filhos,
a esposa perde todos os direitos. Essa é a regra antiga.
A herança passa pela linhagem familiar.
Como ela não tem laços através do marido,
marido morto, filhos mortos, ela torna-se uma estranha.
Sim.
Alguns anos após a morte dos filhos e do seu primeiro marido,
a minha avó casou-se com o meu avô
e, em 1950, tiveram a minha mãe.
Quando a minha mãe tinha seis anos, tiveram um filho, o Perica.
O Perica também morreu. Tinha dois meses de idade.
Tal como eu, quando a minha mãe me deixou com a minha avó.
Pai, a mãe falava-te do Perica? O que sabes sobre ele?
Ela disse-me que tinha um irmão. Ele morreu jovem.
- Ela encontrou-o morto. - Ela encontrou-o morto?
Sim, encontrou-o morto. Ela viu-o morto.
Foi traumático para ela.
A minha avó era infinitamente bondosa comigo.
Recebi muito amor.
Mas ela não era bondosa com a minha mãe.
- Ela não era bondosa com a tua mãe? - Não.
A minha mãe tinha de ser "boa" por causa dos três filhos mortos.
Uma mãe desaparece quando o seu filho morre.
Como é isso para a avó?
- É demasiado pesado. - Pesado, sim.
Quando ela me entregou as crianças, fiquei confusa.
Porque ela é a minha filha, e não a Tatjana.
Ela está confusa. Ela pensa que tu és filha dela.
Quando tinha cerca de quatro anos, os meus pais foram buscar-me
para viver com eles na Croácia.
No jardim de infância, eu era a criança estranha
que comia o bacon gorduroso que as outras crianças nem sequer tocavam.
E eu chorava e chorava...
Às vezes, enquanto mastigava aquele bacon,
ou porque tinha feito chichi nas cuecas
enquanto tentava acompanhar a irmã mais velha que pouco conhecia
e o seu espírito despreocupado.
Mas, na maioria das vezes, chorava com saudades da minha avó Lela.
Estava à procura do túmulo do Perica. Porque sinto como se...
Porque sinto como se...
Como se a mãe... Acho que nem ela própria sabia.
Perguntei-lhe um milhão de vezes:
"Porque me deixaste com a avó e o avô?"
A mãe nunca quis falar sobre isso.
Eu perguntava-lhe, estava sempre a importuná-la...
Não sei qual foi o motivo.
Talvez ela sentisse algum tipo de culpa ou outra coisa qualquer.
Não percebia por que razão a Sandra podia ficar convosco e eu não.
Claro.
Comparavas-te e não conseguias perceber as razões.
Mas diziam sempre: "Naquela altura, isso era normal."
- Ou não? - Quando a mãe começou a trabalhar...
O problema era o que fazer com duas crianças.
A avó disse: "Eu trato dela."
Aceitámos de bom grado, problema resolvido.
Mas também pensámos que a avó Lela precisava de alguém,
de algo que a mantivesse ocupada.
A Sandra ficou convosco, por isso, era a "boa".
Sempre senti que não era suficientemente boa,
que tinha de ser melhor, a melhor.
Estás a dizer: "Eu não pertencia nem aos avós nem a vocês."
Quando somos jovens, não problematizamos essas coisas.
Somos guiados pela sobrevivência e pelo desenrascanço.
E enquanto funcionar, ótimo.
O que está por trás disso, quem sofre, isso nem sequer nos ocorre.
O meu tio Boçzo vive agora sozinho numa aldeia fantasma na Bósnia.
- Quando te mudaste para a Áustria? - Quando o Josip nasceu.
Ele tinha um mês de idade.
Estamos a falar de como foi para mim enquanto estavas na Áustria.
- Como foi? - Tu sabes como foi.
- Ele andava na escola. - Ele é um pouco mouco.
A sua tarefa era ir à escola.
Se a mãe lhe dissesse para fazer alguma coisa, ele fazia.
Não havia nada de especial nisso.
A questão é: o Josip sentia a tua falta?
O que esperava ele quando voltavas para casa?
Não ansiávamos pelos doces e pelas bananas que trazias.
Precisávamos de outra coisa. Um pai.
- Tínhamos a nossa mãe todos os dias. - Eu sei disso.
Quando eram crianças, tinham aquele pai mítico
que vivia longe, que trazia coisas...
Exatamente, não era por causa da bicicleta...
A única coisa importante para eles era arranjar um carro.
Eu só queria que tivessem cuidado.
Aos fins de semana, desapareciam, nunca paravam em casa.
Não dizia nada.
Isso era diferente. Eu já era um rapaz.
Tinha outros interesses. Estava à procura de uma namorada.
Mas enquanto crescia,
ele vinha aos fins de semana, trazia-nos chocolates,
bolachas, bananas...
Tínhamos tudo: bicicletas, BMX...
Bicicletas Pony. Fomos os primeiros a tê-las. Esquis...
Todos os outros tinham esquis feitos com tábuas de barris.
Nós tínhamos botas de esqui a sério e esquis a sério.
Tínhamos tudo. Mas o meu pai não estava lá.
Onde está o meu pai? Eu precisava do meu pai.
Ele pensava que, se nos comprasse coisas,
não teríamos de ir para o estrangeiro. Ele queria preparar tudo para nós.
Aqueles edifícios enormes, grandes planos para a agricultura.
Mas depois veio a guerra.
Acenderam-se fósforos e tudo ardeu.
A vida transformou-se em cinzas. Tudo aquilo por que tinha trabalhado.
Quer dizer, no sentido material.
Mas ficou uma cicatriz na alma, de um tipo diferente.
Foi difícil. A minha mulher chorou, a minha mãe chorou.
O meu filho estava a brincar na rua. Passei por ele.
Disse: "Papá, não te dei um beijo." E correu atrás de mim.
Dei-lhe um beijo.
Se soubesse que ia ser tão difícil,
nunca teria ido para o estrangeiro.
Por isso, esperamos que a tempestade continue a rugir.
Esperamos que a tempestade continue a rugir,
para a Blanca ficar.
- Quero que ela vá embora. - Queres que ela vá embora?
Sim.
- Para ir para Espanha. - Não. Ela não vai ficar.
- Ela já não quer ficar. - Já não gosta de nós.
- Isso não é verdade. - É verdade.
- Isso não é verdade. Acreditas nisso? - Não.
Não.
- Ótimo, vai-te embora. - Não, não acho que seja bom.
Concordo plenamente que foi errada a forma como agi,
e a forma como comuniquei,
a forma como evitei ter esta conversa.
Gostava de ter dito claramente que quero passar mais tempo em Espanha.
E foi assim que aprendi contigo.
Talvez não tenha dito que sinto a tua falta,
mas sim, este sentimento...
Agora, tens namorado, por isso, dizes adeus.
Sou demasiado otimista. Pensei mesmo que isto fosse funcionar.
Também estava a aproveitar-me desta situação.
Pensei: "Uau, que maravilha! Já não estou sozinha."
Acho que...
Sinto que não tínhamos uma boa base para uma amizade.
Não.
Ter de substituir alguém custa muito.
Isso é muito difícil.
Tu eras uma estranha. Não eras como a tua irmã.
A tua irmã estava com a tua mãe. Tu eras uma estranha.
Isso não significa que não houvesse amor.
Mas, quando se é criança, não se tem essa perspetiva.
Diz à tua mãe: "Isto pertence-me.
Estas duas coisas pertencem-me.
A minha saudade e este sentimento de não pertença."
- Está feito. - Tatjana...
Até à vista.
Obrigada por tudo. Muito obrigada, Guillaume.
- Cuida bem dela. - E vamos voltar a ver-nos.
- Sim. - Adeus.
Adeus!
- A minha mãe ainda não chegou a casa. - Onde é que ela está?
- Morta. - Isso ainda pode ser um lar.
Mas ela morreu na mesma data e da mesma doença que a mãe dela.
Ambas tinham 56 anos. Eu tenho agora 52.
Quero um destino diferente.
Olha para a tua mãe.
Vai, devagar, com sentimento, até aos teus pais.
Vês como eles estão a olhar para ti, Tatjana?
Um pouco de lado, assim.
Agora, está tudo a desfazer-se.
Isto nunca vai endireitar-se.
Pronto, assim.
- É este? - Sim.
- Anda, senta-te aqui. - Isto é uma bobina vazia, pai.
Espera, espera. Onde é isto?
Estava a pensar exatamente na mesma coisa.
- Como? Assim? - Deve haver outro...
- Este pequeno suporte? - Isso não!
- Posso? - Força.
Talvez possamos ligá-lo agora.
Olha como o pai está de pé.
Naquela altura, o pai estava à nossa procura e nós desaparecemos.
Onde é que estávamos? Lá em cima, nas colinas?
Olha para o teu pai.
- Quero sentir-me em casa. - Quero sentir-me em casa.
- Esse é o meu desejo. - Esse é o meu desejo.
- Quero sentir-me em casa nesta vida. - Quero sentir-me em casa nesta vida.
Sempre que alguém me pergunta: "De onde és?",
sinto que estou a ser afastada. - É a pior pergunta.
Estou a flutuar algures e não sei o que dizer,
e começo a pensar: "O que respondo agora?"
Em primeiro lugar, parti por causa da guerra.
Tivemos de voltar e continuámos a migrar para o próximo país.
Ao fim de oito anos na Suíça, pensei para mim mesma:
"Está na hora de me mudar."
- Porque senti... - Uma inquietação.
Só dizia: "Vamos para outro sítio."
Mas o nosso filho estava na idade de começar a ir à escola,
e tudo mudou. Na verdade, toda a nossa vida mudou com ele.
Vivi aqui 12 ou 13 anos até conseguir um passaporte,
e sempre tive esse fardo de ser jugoslavo,
um complexo de ser cidadão de segunda.
Assim que consegui o passaporte...
Os suíços têm o conceito de Heimatort.
E, de repente, dizem simplesmente:"Z rich".
O meu Heimatort é"Z rich".
Quanto ao resto, não há local de nascimento, eles...
Quando tivemos a entrevista com a Câmara Municipal,
a parte mais difícil para mim,
e não consegui dormir durante meses, foi a pergunta:
"Porque quer ser suíça?"
E eu pensei: "O que vou dizer?"
Não quero mentir, quero ser honesta, mas o que vou dizer?
Eu só queria ser suíça
porque queria que o meu filho, o meu marido e eu
tivéssemos um passaporte em comum.
Então, pensei: "Vou dar ao Max o lar que eu não tive."
Ele devia ter um lar, devia ter um sentimento de pertença,
e ser capaz de responder à pergunta se alguém lhe perguntar, com orgulho:
"Sou suíço."
Gostaria que isso ficasse comigo, que não lho passasse a ele.
- Não queres passar ao teu filho. - Sim.
- Tem de ser com S. - Não sei o alfabeto.
Buzzcocks!
Adoro os Buzzcocks.
Acho que a vida dele já é melhor.
Mas ele sente que eu não me sinto em casa.
- Diz-lhe: "Vou deixar-te ir." - Vou deixar-te ir.
- "Para o teu pai." - Para o teu pai.
- "Para o teu meio-irmão." - Para o teu meio-irmão.
- "Para os teus amigos." - Para os teus amigos.
- "Para a sociedade holandesa." - Para a sociedade holandesa.
- "Vou deixar-te ir." - Vou deixar-te ir.
"Não tens de carregar o meu fardo."
Não tens de carregar o meu fardo.
- "Eu carrego o meu próprio fardo." - Eu carrego o meu próprio fardo.
Waldemar, olha o "Hunky Dory". Isto aqui é o disco...
Já tenho esse.
- Não é fantástico? - Já temos dez discos do Bowie.
- Mas este é um álbum fantástico. - Se adoras o Bowie, compra-o para ti.
Quando nos conhecemos, não se pôs a questão de ires para a Croácia.
Tinhas outro filho, era natural que eu me mudasse para cá.
Vim para cá por ti e pelo Waldemar.
Não, isso não é verdade. Vieste por mim e pelo Waldemar,
mas também porque gostavas deste país.
Naquele momento.
Com a mão aberta.
Quer dizer, havia vários fatores na situação em que te encontravas.
A localização, o dinheiro, o teu filho.
E eu, quando éramos copais,
ou nem tanto, na tua opinião, ou pelo menos parte do tempo.
Estás muito envolvida com o Waldemar,
e estás sempre presente para ele.
E então podes dizer: "Sim, claro."
Se estás assim tão envolvida, isso tem consequências.
Mudaste-te para tão longe em parte por causa da tua bela casa.
Mas a consequência é: vives longe.
Queres estar presente para o teu filho, tens uma bela casa,
mas vives isolada.
A minha primeira reação naquele momento
foi dizer que havia algo de errado com a sociedade.
Sim, e comigo.
Mas havia mesmo algo de errado contigo.
Culpas-me por não ter cuidado suficientemente do Waldemar,
por isso não tinhas tempo para mais nada.
Essa ideia de que eu, como mulher,
que cuidava mais de uma criança,
tive de abandonar a minha profissão criativa...
Mas percebes o que estou a dizer?
Sim, mas agora escavamos mais uma camada.
- Sim, não está certo! - Podíamos ter, sabes...
Mesmo do ponto de vista prático, devíamos ter ficado juntos.
Tarde demais!
A sério!
Quero dizer, isto é... É uma verdade tão geral,
e não sei se te apercebes disso,
mas as pessoas que se divorciam caem numa armadilha de pobreza.
Mas eu estou numa situação melhor. Cuidei menos do Waldemar,
e sou holandês, por isso, estou menos isolado.
Moro aqui no centro da cidade, ou perto do centro da cidade,
por isso, estou numa situação melhor.
É o Waldemar. O nosso filho. Por isso, vou atender.
- Olá, Waldemar! - Olá, Waldemar!
- Olá, mãe. - Olá!
Também estou aqui.
Como correu a aula de matemática?
O quê? Aumenta o volume!
- Bem. - Bem?
Estou aqui com ele e tenho um encontro mais tarde.
Um encontro?
Que tipo de pais é que este miúdo tem?
Como pode ele crescer assim?
Pergunto o mesmo. Agora que falas nisso...
Sim. Não regulam.
As mães também precisam de ter uma vida, sabes?
Espero que não tenhamos de pagar por tudo isto daqui a 20 anos.
- Provavelmente, sim. - Não pela nossa vida amorosa,
mas por outro tipo de comportamento, sem dúvida.
Uma escolha tem sempre um preço.
Se queres uma relação, se queres integrar-te,
ambos os lados têm de abdicar de algo para tornar o novo possível.
Tens de abdicar de algo.
Os holandeses também têm de abdicar de algo
se quiserem mesmo uma sociedade inclusiva.
O que, na verdade, é o ideal,
e que constitui o próximo passo evolutivo da humanidade.
Que vejamos o outro como nosso irmão ou irmã,
filha, neta, pai e mãe.
Não precisas de me dar a mão.
Tens 52 anos?
Como assim?
"Mas com sotaque." Um sotaque!
"O meu filho é meio holandês, por isso, voltar não é uma opção.
Quero sentir-me parte desta sociedade. Como posso sentir-me em casa aqui?"
"Depende de ti."
"Cara compatriota...
"É uma pena que ainda não te sintas em casa.
Vivo na Holanda há 30 anos.
Embora tenha vindo para cá como refugiada,
nunca me senti inferior. E muito menos rejeitada.
Falo holandês fluentemente, também com sotaque.
Estou bem integrada.
A Holanda tem uma cultura individualista."
Já reparei nisso.
"A maioria das amizades aqui forma-se na juventude."
Então, basicamente, as pessoas estão a dizer que a culpa é minha.
Sim.
Não me parece que estejas a tentar ser como os holandeses.
- Não? - Não.
É como se gostasses de não pertencer.
Talvez seja isso. Talvez na verdade não queiras pertencer,
talvez gostes de ser forasteira.
Porque se não consegues sentir-te em casa em lado nenhum,
talvez o problema esteja em ti.
Acho que nenhum de nós
se sente verdadeiramente em casa em lado nenhum.
Talvez isso seja impossível.
Talvez as pessoas
tenham simplesmente aprendido a viver com esse sentimento,
de que, por vezes, simplesmente não se sentem em casa.
Toda a gente passa por isso.
Talvez seja mais difícil para ti do que para os outros. Pode ser isso.
Imagino a minha mãe e a minha avó,
sentadas algures lá em cima, juntas, a observar-me.
E dizem-me:
"Taja, não és uma errante desenraizada.
O lar é onde está o coração."
"E se o coração estiver em muitos lugares?", pergunto.
E depois... não sei. Não consigo ouvi-las.
E as duas continuam simplesmente a sorrir.
Quando é que vens? Vá lá, Loulou!
- Quando voltas, querido? - Quando acabar de andar de skate.
- Por volta das nove, dez. - Está bem.
- Compra algo para comer. - Está bem.
Loulou!
Loulou! Ela foi-se embora. Dá um beijo à mãe.
Adoro-te.
Adeus! Diverte-te. Onde está aquele cão?
Loulou!
Loulou, vem cá.
Olha quem veio visitar-nos!
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