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REINO DE SINDHU, HÁ 50 ANOS
O seu filho, Rei Vridhakshtra.
O nome dele será Jayadratha.
Sem dúvida que a criança será bem-sucedida, Majestade.
- Mas… - Mas o quê?
O quê?
Está destinado a morrer pelas mãos de um grande guerreiro.
O quê?
A morte profetizada ao nascimento?
É meu dever informá-lo, Majestade.
Rejeito esse destino.
Vou escrever o destino do meu filho Jayadratha.
- Jayadratha! - Jayadratha!
Jayadratha teve um papel importante na morte do filho de Arjuna.
A sua morte adivinha-se. Poderá acontecer amanhã.
Mas antes de agir,
Arjuna deve pedir conselhos a Krishna.
Até a morte de Jayadratha é uma maldição.
Uma maldição terrível rogada pelo seu pai, Vridhakshtra.
Senhor do Tantra, mestre de poderes ilimitados,
concede-me o dom de a mera ideia da morte do meu filho
fazer tremer a alma do inimigo.
Significa que…
… se Arjuna matar Jayadratha, também morrerá.
Lembra-te, Arjuna é apoiado por Krishna.
Não é com Arjuna que nos devemos preocupar, mas com Jayadratha.
O destino trouxe Jayadratha até aqui.
A partir de agora, não deixamos o seu destino ao acaso.
Amanhã as flechas de Arjuna serão imparáveis, guru.
Temos de o deter a ele.
Lá em cima, no céu, o Sol sabia
que a batalha de hoje seria de vida ou morte.
Estava mais quente por isso.
Em baixo, em Kurukshetra,
os Pândavas tentavam decifrar a Chakravyuha anterior,
enquanto Dronacharya esperava com a próxima estratégia.
A única diferença era que a teia não fora tecida para enganar,
mas para proteger e salvar uma alma.
À frente, o exército Narayani em formação de carro de guerra.
No seu âmago a Padma Vyuha, formação em lótus.
No centro a Suchi Vyuha, formação em agulha.
Na frente estavam grandes guerreiros como Kritavarma, o Yadava,
Vrishasena,
Ashwatthama e Karna, o rei de Anga.
Nos portões da formação
estava o próprio guru Drona.
Conheço a tua tenacidade, Arjuna,
mas tu não conheces o meu enigma.
Para resolveres o labirinto que criei,
tens de me vencer primeiro.
Cuidado, exército Kaurava.
Oiçam com atenção.
Eu, Arjuna, filho de Kunti,
jurei com o Sol escaldante como testemunha que, antes do sol-pôr de hoje,
separarei a cabeça de Jayadratha do seu corpo.
Se falhar, imolar-me-ei vivo no fogo.
Hoje ao pôr do sol, viverá Jayadratha ou viverei eu.
Tentem deter-me.
Aqui é Kurukshetra
Aqui é Kurukshetra, o campo de batalha
A GUERRA DOS 18 DIAS
ARJUNA
A formação Chakrashakata, em roda de carruagem.
A arma escolhida pelo guru Drona para te deter.
Deixe o guru tecer mil formações de batalha.
Que os exércitos do mundo se ergam contra mim!
Que invistam todo o seu poder.
Mas hoje, Arjuna não vai parar.
Porque hoje o guru não enfrenta o seu discípulo, mas um pai!
Rodeiem-nos.
- Vira o carro. - Vira.
Bhima com Ghatotkacha,
Nakula ao lado de Sahadeva
e Drupada com Dhrishtadyumna
avançaram em pares com Arjuna, destruindo as fileiras dos Kauravas
para que Arjuna chegasse ao guru Drona.
A formação dos Kauravas é vasta, parece interminável.
Isto é só o começo, Partha. Continua a lutar.
Estes obstáculos poderão atrasar-te, mas não te podem impedir.
Continua a avançar com a certeza de que alcanças o objetivo.
Abençoe-me, guru,
para eu quebrar a sua formação com o conhecimento que me transmitiu.
Tens a minha bênção, Arjuna.
Mas as bênçãos não bastarão.
Para quebrar esta formação, terás de me derrotar.
E na arte da guerra, eu sou o teu guru!
Não te embrenhes num duelo fútil, Arjuna.
O guru só te está a fazer perder tempo
porque sabe que nenhum dos dois matará o outro.
Eu sei, Keshava. Mas como saio?
O guru cercou-me por todos os lados.
Ele vai cercar-te porque és o alvo dele.
Mas qual é o teu?
Podes não ter escolhido o campo de batalha, mas podes escolher a batalha.
Concentra-te em Jayadratha, Arjuna.
Arjuna, afastas-te com o teu inimigo ainda de pé?
Foi isso que te ensinei?
Estou a seguir a lição que me ensinou, guru.
Estou fixado no meu objetivo.
Nem todas as batalhas têm de ser travadas.
Tal como esta, em que o discípulo derrotou o guru sem desferir um só golpe.
O portão da Padma Vyuha fora partido e Arjuna avançou, liderando os Pândavas
para o âmago da Chakrashakata.
Dushasana, Vivitsu, Chitrasena! Atrevem-se a enfrentar-me outra vez?
Esquecem-se que jurei matar-vos, aos cem irmãos?
Muito bem, Ghatotkacha.
Rei Yudhishthira? Como podem chamar-te rei?
Para salvares a vida, escondes-te atrás dos teus irmãos e sobrinho.
Que vergonha!
Duryodhana!
São sete cobardes, unem forças para matar uma criança indefesa
e ainda se vangloriam da própria valentia.
Rei Yudhishthira!
Está ferido.
Venha comigo. Eu levo-o ao acampamento. Vamos.
Não, Satyaki.
Os Kauravas usarão todos os truques para proteger Jayadratha.
Temos de dar todo o apoio possível a Arjuna.
Por isso, vai, Satyaki. Ajuda Arjuna.
Vai!
- Cerquem-no, arqueiros! - Sim, Majestade.
- Vá lá! - Vamos!
Guru, emergiu do poço, mas foi cair no abismo.
Hoje cumprem-se dois juramentos, não apenas um.
O de Arjuna com a morte de Jayadratha e o meu com a sua morte.
Dhrishtadyumna, o meu destino poderá ser decidido pela tua mão…
… mas não será hoje!
O que é isto, Keshava?
Tenta lançar a tempestade na minha direção para me confundir, guru?
Tens de quebrar a teia de ilusão, Arjuna.
Até Abhimanyu foi apanhado na mesma armadilha do guru.
Filho e pai.
Ontem e hoje.
- Na parte mais calma da tempestade… - Tio Bhima?
Tio Bhima!
… mas no seu âmago mais mortal.
Abhimanyu…
Partha!
Por fora, Arjuna travava uma batalha contra os Kauravas.
Mas por dentro, lutava contra si mesmo.
A batalha dos remorsos da morte do filho.
Outro Pândava morrerá hoje.
Bem-vindo aos portões da Suchi Vyuha, Arjuna.
Estás pronto?
A escuridão aproxima-se depressa, mas Jayadratha não se avista.
Talvez a resposta esteja nestas trevas, Partha.
Afinal, o que está escondido nas trevas só se pode encontrar lá dentro.
Bhurishrava dirige-se para Satyaki, Keshava.
Satyaki terá de travar a sua própria batalha.
O Sol vai pôr-se.
Arjuna, tens de completar a tarefa que te dei.
Mal vejas Jayadratha, trespassa-lhe o peito.
Mas lembra-te, a cabeça dele não pode tocar no chão.
Bem-vindo, Bhurishrava.
Satyaki!
Em tempos, o teu pai Somadatta foi derrotado pelo meu pai.
Hoje serás derrotado por mim.
Parece que tu e o teu pai estão destinados a perder.
O destino que decida quem ganha ou perde.
Isto ficou em pedaços, Satyaki. Agora cairás na certa.
O meu clã será vingado hoje!
Satyaki corre perigo, Keshava.
- Arjuna, o Sol vai pôr-se. - O meu discípulo é como meu filho.
Não consegui salvar Abhimanyu, mas não perderei Satyaki.
Isto é uma infração!
Arjuna! Um ataque por trás?
Essa coragem é uma vergonha. É por esse dharma que dizes lutar?
Parece irónico os Kauravas falarem de dharma, Bhurishrava.
Satyaki, seu cobarde desprezível!
Matar os desarmados?
Se eu sou cobarde, o que serás tu, Dushasana?
Sete de vocês chacinaram um homem desarmado.
Não és um guerreiro, és um chacal.
Lutas em matilha e falas-nos de dharma.
Tem vergonha!
Vejam. O Sol já se pôs.
A batalha de hoje acabou.
A batalha de hoje acabou!
Vamos!
Não vamos perder hoje. Nem pensar!
Que vergonha.
Atacar por trás
e matar guerreiros desarmados.
Arjuna, o desespero levou um grande guerreiro como tu
ao ponto de ter de quebrar as regras?
O Sol já se pôs.
Um arqueiro tão poderoso vai morrer nas chamas?
Não. É a reviravolta cruel do destino.
Queria matar-te com as minhas próprias mãos, Arjuna.
Espera, Karna. Não sejas tão impaciente.
O Sol já se pôs!
Já se pôs.
Significa que Arjuna não cumpriu o juramento.
Porque ainda estou vivo.
E se eu estou vivo, como podes tu estar, Arjuna?
Ambos vimos o sol-pôr hoje.
Tal como tu, o teu juramento demonstrou ser vazio, Arjuna.
Arjuna, o maior arqueiro, não cumpriu um único juramento.
Que vergonha.
Jayadratha!
Uma serpente oculta na sombra do guru Drona.
Passaste o dia todo a fugir de mim.
Diz lá, cobarde, só te sabes esconder?
Muito bem. Posso ser cobarde, mas ainda respiro.
Mas como ainda estás vivo, Arjuna?
Onde está o fogo destinado a consumir-te,
Arjuna, filho de Indra?
Ontem o filho teve o seu fim.
Hoje o pai terá o seu.
Acaba a minha tarefa, Arjuna. Trespassa o peito de Jayadratha.
- Mas, Keshava, o Sol pôs-se… - Não faças perguntas, Arjuna. Atua.
Ímpio, ignóbil e pecaminoso Arjuna!
Perto da desgraça, a razão escasseia.
O Sol ainda não se pôs, imbecil!
O Sol ainda não se pôs.
Apenas se escondeu para te enganar.
Cumpriste o juramento, Arjuna.
Mas, infelizmente,
também não viverás para ver o sol-pôr.
Posso morrer, mas também não sobreviverás.
Prepara-te para ver o teu corpo dilacerado em cem pedaços.
Quando a minha cabeça tocar no chão,
será o último momento da tua vida também.
Recue, guru.
Como te salvarás da maldição do meu pai?
Não percas tempo, Arjuna. Cumpre a tua promessa.
Deixo a tua cabeça aos pés de quem te deu vida.
Krishna e Arjuna ambos sabiam da maldição de Vridhakshtra:
quem deixasse a cabeça decepada de Jayadratha tocar no chão
ficaria desfeito em cem pedaços.
A única forma de salvar Arjuna
seria garantir que a cabeça de Jayadratha fosse devolvida
ao colo onde nascera há décadas.
Jayadratha!
Salve Arjuna, poderoso filho de Kunti!
Salve Arjuna, poderoso filho de Kunti!
Salve Arjuna, poderoso filho de Kunti!
Salve o herói Arjuna, filho de Kunti!
Aqui na Terra, podemos definir inúmeras regras,
mas de que valem perante os poderes divinos?
Se este campo de batalha se tornou num recreio dos deuses,
as trevas serão o seu destino inevitável, não as regras.
O que aconteceu hoje foi um ponto de viragem nesta guerra.
A verdadeira batalha tinha apenas começado,
em que não só os guerreiros,
mas também as próprias leis do dharma e da justiça,
lutavam pela sobrevivência.
Ia ser uma noite muito longa,
talvez a mais longa de toda a história da humanidade.
Eu sou a luz
E sou a sombra
Cujo fim
É a libertação da ilusão
Aproxima-te e funde-te em mim
O fim é o teu destino final
Em baixo está a terra Em cima estão as estrelas
Aqui é Kurukshetra, o campo de batalha
Legendas: Rodrigo Vaz
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