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Os bons são aqueles que se contentam em sonhar aquilo que os maus realmente fazem.
A NOIVA ENSANGUENTADA
Por que paramos aqui?
Pra você mudar de roupa.
Preferia continuar correndo a 150 km/h.
Tudo a seu tempo.
- Boa tarde. Essa é toda a bagagem? - Sim. Quarto 208.
- Bem-vindo. - Obrigado.
- Você já esteve aqui antes? - Sim, mas sozinho.
Entre! Eu vou estacionar o carro.
Madame.
Tenha uma boa estadia.
Obrigada.
O que houve?
Eu não quero ficar aqui.
Por quê?
Eu não gosto desse hotel.
Essa é Susan... bem, nem preciso dizer.
Meu marido falou sobre vocês durante toda a viagem.
Ele disse coisas tão agradáveis...
que sinto como se os conhecesse por toda a vida.
- Estou feliz em conhece-los. - Bem-vinda, senhora.
Venha aqui, Carol. Venha dizer alô.
É para mim?
Muito obrigada.
Foi idéia dela, senhorita.
Seu nome é Carol?
É um nome bonito.
- Quantos anos você tem? - Quatorze.
Só tem 12, senhora.
Ela gosta de fingir que é mais velha.
Gosta de ir a escola?
Faz sua lição de casa?
A professora não parece muito satisfeita.
- Ela morreu. - O que?
A professora. Morreu num acidente de carro.
E Carol ainda está muito chateada.
Uma nova professora começa amanhã.
Lamento ouvir isso.
A última vez que te vi era desse tamanho.
Você se lembra de mim?
Preparei o seu quarto favorito.
Vamos. Obrigado.
O véu!
Ele rasgou?
Não.
Os mesmos móveis antigos. As mesmas sensações de criança.
- A casa é antiga, senhor. - E muito grande. É maravilhosa.
- Devo desfazer sua bagagem? - Não, obrigada. Eu vou fazer isso sozinha.
Devo ajuda-la a se despir?
Obrigada, mas não creio que terei nenhuma dificuldade.
- Dá azar se rasgar. - Eu vou ter cuidado.
A viagem foi longa e cheia de incidentes estressantes.
- A que horas você deseja jantar? - Nós não queremos jantar.
Deseja alguma coisa?
- Um refresco? Café ou chá? - Não, nada. Obrigado.
Você está nervosa?
Que está pensando?
Nada.
Curiosidade.
E um pouco de medo.
Talvez nem curiosidade nem medo.
Algo que não sei explicar.
Eu sinto o mesmo.
Como um estudante, em dia de prova.
Deveríamos ter feito amor antes. Antes de hoje.
- Nunca me pediu. - Nunca me deixou pedir.
Meu pobre amante, meu tímido marido.
O que posso fazer por você?
Devo me virar enquanto se despe? Devo te despir eu mesmo?
O que preferir.
Muito bem.
Os criados.
- Tchau, papai. - Até, minha filha.
- Boa dia. - Bom dia.
Café da manhã. Deseja mais alguma coisa?
Não, nada por enquanto.
Está bem, senhor.
Um doce despertar para sua primeira noite de casada.
Como está o clima?
Esplêndido.
Não foi a primeira vez.
- A primeira vez que faz tempo bonito aqui? - Não.
A primeira vez que esteve com uma mulher.
Oh, bem...
Não importa.
Você foi bom. Muito bom. E eu?
Ótima...
Fabulosa.
Pare.
- A refeição, senhor. - Deixe no chão.
Que está fazendo?
- Estou com fome. - Espere um minuto.
Está pronto?
Eu posso ver?
Não seja tão impaciente.
Sátiro.
Você vai ver!
- Me põe no chão. - Não.
- No ombro? - Me arranhou.
Por aqui.
Pegamos.
É muito bonito.
Bonita, é uma fêmea.
1621-1665.
Morreu jovem.
Do que ele morreu?
Quem é esse?
E esse?
Esse?
- Você sabe? - Não, senhora.
Essa é uma família muito séria.
Por que não há retratos de mulheres?
- Eles estão no porão. - No porão?
- Onde estão as mulheres de sua família? - Como é?
Os retratos, por que estão no porão?
Eu não sei. Não fui eu que coloquei.
Mesmo estando mortas, eu exijo seu resgate.
- Estou com fome. - Falta uma hora para o jantar.
Perfeito, foi o que pensei.
Temos tempo suficiente para tudo.
Rosas!
Nesta primavera, as únicas rosas serão as do patíbulo.
- Você sabe quem disse isso? - Sim. Você.
Sou eu! Onde você está? Pode me ouvir?
- O que você está fazendo? - Venha aqui.
Você a viu?
- Quem? - A noiva.
Que noiva? É você que eu vi. Suba!
Me solta!
Venha. Não seja boba.
Eu não quero.
Não, por favor.
Susan!
Susan?
Onde você está? Por que está se escondendo?
Eu vou encontrar você.
Abra a porta.
Por que você está fazendo isso?
A menina.
- Ele colocou todas no porão. - Quem te disse?
Eu descobri pela mamãe.
O avô do patrão, descobriu que sua esposa queria matá-lo.
Ela tentava envenena-lo e fugir para Paris.
- Sua mãe também te contou isso? - Não, soube na escola.
Todo mundo sabe.
Só histórias.
Mas é verdade. Foi por isso
que os retratos de todas as mulheres foram enviados para o porão.
Não se mexa.
Eu acho que você gosta quando ele te machuca.
O que te faz dizer isso?
Ninguém me machucou.
Aqui está.
Terminado.
É assim que eu sou?
- Eu sou assim? - Você é ainda mais bonita.
É seu.
De verdade? Posso ficar com ele?
Carol.
- Você já viu os retratos no porão? - Sim, estão lá.
Sou eu.
Do que está rindo?
Você sabe quem ela é?
Se você soubesse, não iria rir.
Susan, venha comigo.
Vou te contar sobre Mircalla Karnstein.
É assombroso.
É oco.
Sim, como um túmulo.
"Mircalla Karnstein."
É a mulher do retrato?
Suponho que sim.
Era da sua família?
De certo modo.
Seu nome não é Karnstein.
Era seu nome de solteira, não teve tempo de mudar.
Matou o marido na noite de núpcias.
O quê?
Segundo a lenda, foi
porque ele teria tentado lhe obrigar a fazer coisas indizíveis.
Indizíveis? Que tipo de coisas?
Ninguém sabe.
Os detalhes nunca foram divulgados.
- Uma pena, seria a melhor parte da história. - Como ela morreu?
Não morreu. Foi encontrada coberta de sangue,
vestida de noiva, ao lado do corpo do marido.
Olhos abertos. Rígida. Ainda com alguma cor no corpo.
Esperaram dois anos antes de decidirem enterra-la.
Mas nunca conseguiram tirar o punhal de sua mão.
Ela era linda, claro, como costuma ser nesse tipo de lenda.
E ela... ainda está aí?
Eu duvido. Já se passaram dois séculos.
O túmulo foi violado dezenas de vezes.
Mas vamos ver.
Talvez seja o delicado antebraço de Mircalla.
O que você tem? Deve ter sido minha culpa, lamento.
Cemitérios, decadência... É angustiante.
Isso é o que te assusta? Você está viva.
Viva.
Não?
Agora não.
- Você tem certeza? - Por favor.
Parece um filhote esperando receber sua comida.
Devia começar a aprender como as mulheres são.
- Ou tudo ou nada. - E agora é nada?
Isso mesmo.
É para você.
É seu agora.
Selaremos nosso pacto com um beijo.
Tem alguém debaixo da cama.
- Susan! - Não me toque!
Não há ninguém aqui, senhora. Foi um pesadelo.
Eu vi com meus próprios olhos.
Olhe você mesma! O que pode haver aí?
Prepare algo quente. Com um pouco de conhaque.
Quer que fique para cuidar dela? Ou Carol?
Não é necessário.
Traga também um frasco com cápsulas vermelhas do buffet.
Sim, senhor.
Se sentindo melhor?
Por favor, Susan.
Todo mundo tem seus pequenos medos, mas não lhes dão tanta importância.
Perdoe-me.
Eu quero ir embora daqui.
Ir embora?
Por que isso?
Esta manhã, você estava feliz.
- Eu tive um sonho horrível. - Exatamente.
Você mesma disse, foi um sonho. Nada mais do que um pesadelo.
- Não era um sonho. - O que era, então?
Uma mulher entrou no quarto.
Eu a vi. Ela falou comigo.
Ela deixou isso.
Ouça.
Nos sonhos, o subconsciente escolhe temas
normalmente proibidos pela educação moral ou estética do sujeito.
É comum nos sonhos
ter pensamentos de ódio ou desejo de provocar a morte
de pessoas que, na vida real, provocam grande afeição.
Os séculos confirmaram a sabedoria de Platão quando disse:
Os bons são aqueles que se conformam em sonhar
o que os maus realmente fazem.
De acordo com Jung,
há sonhos que não pertencem ao sonhador.
Sonhos herdados. Primitivas inibições da coletividade
que se esforçam para se manifestar mesmo em pessoas moralmente saudáveis.
Não sei o que isso tem a ver com o punhal na minha cama.
Nada.
Os pesadelos são sempre a expressão de um poderoso desejo.
Que ao invés de ser aceito é rechaçado e reprimido.
Há nas mulheres uma inegável tendência agressiva
quando confrontada com a perda de sua virgindade.
Um acontecimento de suprema importância,
que é, para ela, desejoso e repugnante ao mesmo tempo.
Alguns especialistas chamam de complexo de Judith.
Bobagens!
Por que você guarda esses livros horríveis?
- Quando que você leu esse livro? - Eu não li.
É a primeira vez que o pego. Por puro acaso.
Entre.
Permita-me, senhor, senhorita.
Entre.
Carol quer lhes contar uma coisa. Foi ela que colocou o punhal na cama.
Vem cá, Carol.
Isso é verdade. Foi você?
- Onde você o conseguiu? - Uma senhora no bosque me deu.
Você nunca disse nada sobre uma senhora antes.
- Que senhora? - Uma que usava vestida de noiva.
Ela te pediu para colocar o punhal na cama?
Pediu para que o desse a Susan.
- Você entrou no quarto? - Sim.
- Você colocou o punhal na cama? - Não.
Ela está mentindo! Desculpe, senhor.
- Onde o colocou? - Em cima da mesa.
Foi ela, senhor.
Ela o encontrou no bosque e colocou na cama.
Disse metade da verdade porque teme ser castigada.
Ninguém vai te castigar, Carol. É um pouco imaginativa, mas disse a verdade, não é?
Bem, tudo está bem.
Isso é tudo.
Bem, acho que isso esclarece tudo.
Esclarece?
Não é muito reconfortante.
Nem a agressividade das virgens, nem a história de Carol.
Você ainda quer ir embora?
Diga-me que você não quer deixar essa casa.
Que você vai esquecer seus medos e seus pesadelos.
O que você fez com o punhal? Onde está?
- O levei embora. - Esconda em algum lugar.
Eu não quero saber onde ele está.
O que esses livros dizem é mentira.
Eu amo você.
Eu não odeio você.
Frio. Ainda está frio.
Gelado.
Quero ter certeza que não consigo acha-lo.
Não se preocupe, não irá. Até porque não está nesse quarto.
- Tem certeza? - Absoluta.
Tem certeza que a menina não vai acha-lo? Ou a mãe, ou o pai?
Sem chance. Está bem escondido.
Isso é tolice. Existem outras facas nessa casa.
Sim. Mas, aparentemente, Mircalla Karnstein não está interessada nelas.
Susan.
Susan.
O que foi? Que há de errado?
Isso é só para acalmar os nervos.
Mera precaução. Ela já parece mais calma.
Vire-se, por favor.
Pronto. Já acabou.
Lhe aplicarei outra injeção amanhã.
Nesse meio tempo, siga a vida normalmente.
Coma, beba, saia pra caminhar e logo estará bem como nunca.
Faz isso por mim?
O que é isso?
Como isso aconteceu?
O meu anel. Tive de bater nela.
Só posso te dar minha opinião, não um diagnóstico.
Não é minha área. Eu só entendo de doenças normais: hepatite, pneumonia...
Não posso te dizer exatamente o que está errado com sua esposa.
Terrores infantis,
tendência a exagerar o valor de mitos infantis.
Talvez problemas emocionais, devido ao casamento.
- Devo consultar um psiquiatra? - Sabia que ia perguntar.
Suponho que o que quer que eu diga é que um psiquiatra não é necessário, não é?
- Não quero assusta-la. - Não exageremos por causa de uns pesadelos.
Não vejo nenhuma razão para consultar um psiquiatra, ao menos por agora.
Mas uma coisa me preocupa. Sua esposa tem traços infantis no seu caráter.
Ela é muito jovem, só uma criança.
Eu sei. Gostaria de resolver seu problema com uma simples receita.
Você já fez o suficiente. Você confirmou minha opinião. Obrigado.
Por nada.
Quem é essa?
A mulher dos meus pesadelos.
- É um fantasma muito bonito. - Sim.
Seu amigo, o que disse?
O doutor?
A mesma coisa que te disse, que não há nada errado com você.
Eu sei que não há nada errado comigo.
Mas imaginei que você tinha lhe contado meus sonhos.
Qual é a sua opinião?
A mesma que a minha.
Aqui os sonhos.
E aqui a realidade.
Quando a pessoa dorme, a linha divisória é imprecisa.
Mas ao acordar, é como uma muralha.
Aqui os sonhos, aqui a realidade, eles não se misturam.
Você acha?
Você tem certeza?
- Eu realmente vi essa mulher. - Pare com essas besteiras!
Você nunca vai acreditar em mim.
Como espera que eu acredite?
Como posso acreditar num fantasma e admitir que é tão real quanto eu ou você?
E se eu lhe disser que sei onde escondeu o punhal?
Onde?
Dentro do relógio, na sala de jantar.
Você tem certeza?
Venha comigo.
Então, onde está?
Sob o mostrador.
Eu não escondi aqui.
É um lugar estúpido.
Estou cansada de suas mentiras. Quero que me diga a verdade.
Você o escondeu no relógio?
Responda! O escondeu no relógio?
Teve tempo suficiente pra pensar.
Agora, diga: você seguiu o patrão quando ele o enterrou no bosque?
- Carol! - Deixe-a.
Não importa.
Carol. Talvez uma mulher tenha te dado o punhal.
Mas esqueçamos isso.
Eu e você vamos fazer um pacto, certo?
Beba seu café.
Se Susan perguntar, você lhe dirá que me viu enterrar o punhal no bosque.
Você pensou que eu queria deixar o punhal longe dela.
Então o escondeu no relógio. Fará isso?
Só estará dizendo a verdade.
Em parte, talvez...
Ela irá nos dizer a verdade agora.
Carol.
Vou lhe fazer uma pergunta, e você me responderá sim ou não.
Uma simples pergunta. Você promete dizer a verdade?
- Assim não. Fale. - Sim.
Bem. Ouça-me agora.
Você disse a Susan que havia escondido o punhal no relógio? Sim ou não?
- Não. - Carol!
Muito bem. Agora lembre-se: temos um pacto. Vamos lá, você pode ir embora.
- O que você acha? - Brincadeiras de meninas.
- Mas Susan não é mais uma menina. - Não quis dizer isso, senhor.
Quem é você? O que está fazendo aqui?
Onde estão suas roupas?
Só um minuto. Trarei algo pra te cobrir.
Aonde quer que a deixe?
Eu não sei.
- Algo errado? - Traga um cobertor. Está congelando.
Ela está nua?
Assim parece. Faça-a entrar e lhe dê uma bebida quente.
Sim, senhor.
É você?
Eu pensei que você estava dormindo.
Trouxe algumas roupas.
Espero que sirva.
Obrigada. Pode acender a luz, se quiser.
Meu marido me contou o que aconteceu. Acho melhor você jantar conosco.
Estará pronto em meia hora.
Eu posso tomar um banho?
Claro.
Esse é o banheiro. Você vai encontrar tudo que precisa.
Qual é o seu nome?
Susan.
Eu sou Carmilla.
Esperaremos você.
Está maravilhosa.
Achei no armário. Espero que não se importe, não pude resistir a experimentar.
Me sinto bonita. Obrigada.
Susan também é muito bonita.
E os dois muito amáveis.
Vamos sentar? O jantar está servido.
Sente ali, por favor.
É você o centro das nossas atenções.
Como você chegou na praia?
- Conhece a ilha onde ficam as gaivotas? - Onde é.
- Eu estava mergulhando... - Só?
As vezes sinto a necessidade de ficar sozinha nas profundezas, cercada pelo silêncio.
Devo ter perdido a noção do tempo.
Eu não sei realmente o que houve comigo.
Ou como voltei à superfície. O que lembro em seguida é você.
Você teve sorte.
Esta parte da praia está quase sempre deserta.
Um brinde à estranha circunstância que me levou até lá.
Seus entes queridos não estão lhe procurando?
Não estarão preocupados?
Eu vivo sozinha.
- Depois do jantar, podemos levá-la para casa. - Eu não sei onde é minha casa.
Você quer dizer que não lembra, ou que não tem uma casa?
Não me lembro.
Você ao menos lembra de seu nome?
Carmilla.
Carmilla, do que?
Eu não sei.
Bem, suponho que você tem o direito de não nos dizer quem é.
Talvez amanhã se lembre do tudo.
Talvez possamos reconhecer sua fotografia em um jornal.
Eu acho que não.
Meu tempo é muito ocupado.
Ainda que eu nem saiba bem do que. Tenho idéias claras.
Como bem, dirijo bem,
Você gosta?
É assim que você me vê?
Por que os usa assim?
Quando fecho minhas mãos, gosto de encontrar algo dentro.
Hora de deitar.
Está progredindo.
- Boa noite. - Boa noite.
O que há?
É ela.
Como assim ela?
Carmilla.
Carmilla é Mircalla.
Outra vez isso, Susan?
Elas são idênticas.
São a mesma pessoa.
Ela veio para matá-lo.
Eu não te amo.
Eu te odeio.
Eu te odeio, apesar de mim mesma, desde a primeira vez que tocou meu corpo.
Por isso tenho medo.
Susan!
Susan, por favor, do que tem medo?
Nada vai acontecer, a não ser que pense que vai.
Amanhã, quando o Sol nascer, vai rir de tudo isso.
Agora vamos dormir, eu cuido de você.
Susan?
O que aconteceu?
Aonde esteve?
E nossa convidada?
Ela partiu hoje muito cedo. O dia mal tinha nascido.
Sem dizer nada?
Eu a vi passar. Ela sequer me olhou.
Não me parece uma pessoa muito agradecida.
O fantasma deve ter lembrado sua própria história. Se foi
e não voltará. Desapareceu.
Ou não é mais um fantasma?
Como você disse, tudo é diferente na luz do Sol.
Susan? O que aconteceu noite passada?
Por que não me diz nada?
O que aquela mulher quer?
Eu tenho um pressentimento. Ela entende o que te aflige.
Muito bem. O que acontece entre vocês?
Não aconteceu nada. Estou melhorando, só isso.
Quem te fez isso?
Susan!
Aí está. Isso machuca?
Não.
Bem.
Agora acho que deveria consultar um psiquiatra.
Por que não?
Porque tem coisas que não estão claras para mim e não acho que um psiquiatra ajudaria.
Veja.
Veja este punhal.
É idêntico ao que misteriosamente chegou as mãos de Susan.
Essa é Mircalla Karnstein. Suponho que conhece a lenda?
Susan achou o retrato no porão, tal como o vê agora.
Com esse buraco cortado na tela.
Veja. Apenas a data de nascimento.
Nossa insólita hóspede disse que seu nome é Carmilla.
Mircalla, Carmilla, as mesmas letras, trocadas.
Olhe para esses anéis. Quando encontrei Carmilla
ela estava nua, exceto pelos anéis. E olha que coincidência...
Os usava dessa mesma forma.
Susan desenhou isso de memória.
É o rosto da mulher que, segundo ela, a visita em seus sonhos.
E esse é o retrato que ela fez de Carmilla.
- É fácil imaginar uma semelhança entre dois desenhos. - Sim, é fácil..
Essa manhã vasculhei o porão em busca dessa caixa, que me lembrava de ter visto quando menino.
Você sabe que o povo conta que minha avó tentou envenenar o marido?
É um veneno potente. Testei numa lebre.
Mircalla ou Carmilla? Quem sabe?
Bem, isso é tudo?
Por enquanto.
Foi difícil pra mim me convencer a te contar essa história.
De qualquer modo espero que a considere como mais do que uma história.
- Você acha isso engraçado? - Não, nem um pouco.
Me escute, com algumas coincidências e um pouco de imaginação
o resultado será exatamente o que se espera que seja.
Coincidências? O que chama de coincidência?
Quantas vezes algo deve se repetir até deixar de ser coincidência?
Em alguns casos, basta duas vezes.
Em outros é cientificamente impossível.
Mesmo que se repita milhares de vezes.
E suponho que você acha que minhas deduções são da segunda categoria?
Exatamente. É exatamente o que eu penso.
E espero que você concorde comigo.
Há uma grande dúvida na minha mente.
Não sei em que acreditar.
Por isso te liguei, para que me escute, me aconselhe, me ajude.
A verdade é, embora eu tenha medo de dizer,
embora tenha vergonha de aceitar...
eu diria...
que Carmilla ou Mircalla é um ser sobrenatural.
Espera aí, isso é uma conclusão exagerada.
- Como pode pensar nesse século... - Espere!
Entre.
Sente-se.
Pode, por favor, dizer ao médico o que você viu esta manhã.
Sim, senhor.
Estava colocando armadilhas no bosque, quando ouvi ruídos estranhos.
Pensei que podia ser alguma presa.
Mas não, era a senhora Susan e a outra mulher.
Estavam escondidas entre os arbustos e...
- Eu não sei se devo... - Vamos, diga.
Ela a mordia. A mordia no pescoço.
O que está dizendo? Quem mordeu quem?
A outra mulher mordia a senhora Susan.
Eu vi com meus olhos.
Susan tem marcas no pescoço.
E o que mais viu com seus olhos.
Nada, estava com medo de ser visto.
Então sai de fininho.
- Mas ouvi uivos. - Uivos?
Você quer dizer que as duas mulheres uivavam?
Como duas gatas no cio. Era assim que soavam.
Como vampiros.
O seu santuário foi saqueado.
Seu descanso perturbado.
Sua mortalha manchada e maculada.
Rudemente invadida de forma vil.
Neste fortaleza profanada, eu busco consolo para minha alma perturbada.
Não me julgue tão depressa.
Pois eu obedeço uma lei irresistível que é minha força e minha fraqueza.
Se seu coração está ferido, o meu também sangra.
No êxtase da minha vasta humilhação.
Eu só vivo apenas no calor da sua vida.
E você morrerá gentilmente,
e viverá através de mim. Não posso evitar.
Assim como eu te procurei, tão intensamente, você procurará por outra
para compartilhar o êxtase dessa crueldade.
A única forma de amor para você e eu.
Diga.
Eu o odeio.
- Diga de novo. - Eu o odeio.
Diga com todo o coração.
Eu o odeio.
Ele contaminou o seu corpo para te humilhar.
Ele contaminou o meu corpo para me humilhar.
Ele invadiu o seu corpo para te escravizar.
Ele invadiu o meu corpo para me escravizar.
Quão bem você conhece Susan?
Sim, eu sei que você conhece ela e sua família, desde que era criança.
Mas o quanto realmente a conhece?
Por exemplo, vamos supor que Carmilla e ela eram amigas de escola?
Próximas como duas irmãs, ou ainda mais.
Você está louco? O que quer dizer? Que Susan é uma lésbica?
Não, mas que está dominada por uma lésbica.
Chega! Como pode imaginar tal insensatez?
Você parece um pai cujo filho foi acusado de um crime.
E você, ao invés de apresentar uma solução razoável, destrói e ofende Susan?
Me calarei se prefere.
Eu não quero que se cale! Estou esperando que me diga o que viu.
Ok, melhor ouvir por si mesmo e tirar suas próprias conclusões.
Noite passada, testemunhei um grotesco e insano ritual entre esta mulher e sua esposa.
Não lhe direi todos os detalhes.
Mas não são vampiras nem fantasmas.
Carmilla é de carne e osso, uma paranóica pervertida.
Eu quero acreditar que sua esposa é uma vítima inocente.
E outra coisa.
As duas são muito perigosas. Não para mim, para você.
Você sabe por quê? Três é um triângulo.
E você é o intruso.
É por isso que continuarei te ajudando.
Extraído fresco
aparece como um líquido fluido e vermelho.
Seu sabor é ligeiramente doce.
O corpo humano
contém um galão e meio.
É um pouco mais pesado que água.
Mas sua viscosidade é cinco ou seis vezes maior.
Nossa vida
depende da distribuição constante
das substâncias que carrega.
Outra função importante de sangue
é transmitir calor pelo corpo.
É tudo por hoje.
Deixem seus cadernos sobre a mesa antes de sair.
Você não quer ir para a cama?
Eu dormi o dia todo.
Boa noite.
Mate-o! Mate-o agora!
Chegue perto e rasgue seu rosto.
Encontre seu coração e o silencie.
Puna a sua insolência. Mate-o! Penetre-o com isso.
Acabe com sua arrogância. Mate-o! Destrua sua masculinidade. Mate-o!
Corra!
O médico queria pega-la, mas nunca pensou que seria assim.
O que vou fazer com você.
Você quer que eu abra a armadilha, não?
Muito bem.
Mas antes deve me deixar amarrar suas mãos.
Não, eu não confio em você. Faça você mesma. No pulso...
Assim. Muito bem.
Agora a outra mão.
Elas vão voltar. Não podem morrer.
NOTÍCIAS: HOMEM ARRANCA O CORAÇÃO DE TRÊS MULHERES.
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