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Original subtitles

INSPIRADO EM UMA HISTÓRIA REAL.

Calma.

Estamos chegando.

Vamos.

Desça.

Enfermeira!

Senhora.

Doutora, por favor.

- O que houve? - Pode atender minha filha?

- É claro… - Ela está com dor na barriga.

Desde quando ela está com dor?

Não sei ao certo.

- Minutos, horas, dias? - Horas!

- Cheguei do trabalho… - Calma.

Mãe, fique aqui, preencha a ficha dela,

o histórico médico, e vou levá-la até o doutor.

Vamos. Respire. Não é para tanto. Vamos.

Sente-se aqui.

Doutor.

Tenho uma paciente com uma dor abdominal muito forte.

- Está ferida? - Não.

- Você a examinou? - Não.

Deite-se de barriga pra cima.

- Ajude. Ela veio sozinha? - Com a mãe.

Levante a blusa e abra a calça.

Desde quando está assim?

Desde essa tarde.

Está grávida?

Não.

Comeu algo? Jantou?

Uma salada de frutas.

E antes?

Bife à milanesa com purê.

Mais nada.

Já teve apendicite.

Ponha um acesso com antiemético e analgésico.

Dê muita água.

Quando estiver melhor, pode levá-la à mãe dela.

Certo, me passe uma torneira de três vias.

Aqui.

Aonde você vai?

Preciso ir ao banheiro.

Espere, eu ajudo você.

- Consigo ir sozinha. - Tem certeza?

Sim, eu consigo.

É naquela porta, à esquerda.

O que faz aqui?

O que está fazendo?

Venha.

Doutor, é outra coisa. Ela está com hemorragia.

Ela está grávida?

Ela não falou. O que vamos fazer?

Chame a Ginecologia. Farão uma curetagem de emergência.

Uma o quê?

Doutor!

O que houve? Temos um procedimento.

Procedimento de um aborto ilegal.

- Parece que ela causou um aborto. - Quem disse?

- Eles encontraram um feto. - Eles quem?

- Não sei. - Não.

Policial, o que está havendo?

Ela ficará sob custódia até ser realocada.

- De jeito nenhum. Ela está fraca… - Doutor.

- É impossível. - Doutor, por favor.

O que estão fazendo? Isso é um absurdo.

- Julieta Gómez. - O que estão fazendo?

Você está presa, e vamos transferi-la para a penitenciária.

Eu não fiz nada. Chamem a minha mãe.

O que você fez é muito grave.

Não fiz nada. Doutor, chame a minha mãe.

- Podem trazer. - Ela vai explicar o que houve.

Está vendo isto?

- O que é isso? - Era o seu filho.

Que filho? Não tenho filhos.

Eu não tenho filhos.

O que é isso?

Sai daqui!

Chamem a minha mãe.

Vão chamá-la.

Chamem a minha mãe!

Chamem a minha mãe!

Chamem a minha mãe!

DOIS ANOS DEPOIS.

Descer o morro, por exemplo, não é para todas as crianças.

Não, o Martín não sabe andar muito bem de bicicleta.

Ele sabe andar, mas não em descidas.

- Numa excursão. - Claro.

Eles não vão há dois anos.

- Essa excursão foi encerrada. - Por que não avisou?

- Se você sabia? - Desculpe a demora.

Nós já pagamos.

Está chegando o último trimestre,

e, como pais dos formandos, devem ajudá-los a se concentrar.

Não é uma tarefa fácil.

Já sabem quem vai fazer o vídeo?

Podemos fazer o comitê do vídeo.

- Claro. - Preciso ir, estou atrasada.

Todos nós temos o que fazer.

- Meu marido faz o vídeo. - Perfeito.

- O marido dela. - Perfeito. O vídeo está resolvido.

Anda, cara!

Já pode entrar, eu vou me atrasar.

Se minha filha estivesse mesmo grávida de oito meses,

ela caberia nesta calça justa?

Você pode olhar? Ela está mostrando uma coisa.

Já falei mil vezes, senhora. Tem que ir à Rua Sarmiento.

Aqui é um fórum civil.

Olá. Estou atrasada. Minha sócia está aí dentro.

- Wisner-Marot, pensão alimentícia. - Vou ver.

…falamos com a advogada.

Ela não faz nada. O julgamento é em três dias.

- Entre, estão esperando. - Obrigada.

Uma resposta, um telefone, algo para entrar em contato.

ADAPTAÇÃO REVISÃO SINCRONIA: E-MAIL loschulosteam@gmail.com

- Olá. - Tudo bem?

- Oi. - Bom dia.

- Está pronto? - Desculpe o atraso.

Foram só cinco minutos. Diga ao juiz.

- Vou chamá-lo. - Viu as mulheres?

- Juiz. - Que mulheres?

- Você não viu? - Não.

Desculpe o atraso.

Doutor, estamos prontas.

Só estou em dúvida quanto à 3ª resolução. Quer ler?

Só um minuto, por favor. Estou com infecção urinária.

- Um instante. - Aonde você vai?

- Um minuto. - Ela está com infecção.

Deza!

Senhora? Com licença.

Não pude deixar de ouvir. O que houve com sua filha?

Minha irmã. Ela está presa há dois anos.

Não fez nada, e querem prisão perpétua.

- Qual é a acusação? - Infanticídio.

Foi um aborto espontâneo.

Eu estava lá, e nunca me chamaram pra depor.

Não temos a quem recorrer. A advogada não gosta de nós.

- Quem é a advogada? - Beatriz.

- Ela se chama Beatriz Camaño. - Deza… Com licença.

- Estão esperando. - Perdão. Tem razão.

Estou com minha sócia. Vocês me esperam?

- Sim. - Já volto.

- Desculpe, tem toda razão. - Quem é ela?

- Não sei, mãe. - O que vamos fazer?

Vamos esperar. Senta aí, mãe.

Não entendo como não soubemos antes.

Sim, é muito estranho.

Aposto que ela não vem.

Não vamos nos precipitar.

Olá, o que vão querer?

Juan Carlos, um refrigerante e três tortilhas fininhas.

- Perfeito. - E um sanduíche de vitelo e queijo.

- Certo. - Café da manhã e almoço juntos.

Tudo bem.

Ela ter aceitado esse caso não me cheira bem.

Se tem alguém que cheira bem é a Beatriz Camaño.

Não me faça falar.

Éramos jovens, não conta. Eu fui uma curiosidade pra ela.

Depois se assustou e se agarrou num pênis.

Olha, é ela.

- Beatriz. - Como vai?

Como vocês estão?

- Há quanto tempo! - É verdade.

Que maravilha.

Vocês continuam iguais.

Sempre juntas, grudadas, como na faculdade.

- Sim. - Não é?

Nos divertimos nessa época.

Com toda certeza.

Sabe, às vezes…

Eu me peguei pensando várias vezes em você.

O caso daquela garota…

foi o que afastou você de mim, não?

- Eu? Não, de jeito nenhum. - Não.

Tem certeza?

- Absoluta. - Às vezes,

uma defensora pública só faz o que pode.

- É claro. - Eu imagino.

Fiquei aliviada quando soube que ia assumi-lo.

Bom, não vamos nos prender ao passado.

Obrigada por ter vindo.

Sabemos que é ocupada, então vamos direto ao ponto.

Sim, deixa eu te contar o que a gente tá pensando.

O que temos feito no escritório pode ajudar.

Sabem muito bem que não posso falar do caso.

- Não queremos que se comprometa. - Sim.

Falem logo, então.

- Sim. - Falamos com a mãe,

e ela nos deu detalhes de como foi a chegada ao hospital

na noite em que ela foi internada.

Tem sido difícil falar com a mãe. Ela fica agressiva.

Ela está preocupada com uma possível prisão perpétua.

- Esperamos que não. - Com licença.

Aqui está.

- Pode me dar um desses também? - Claro.

Do mesmo. Obrigada.

E então?

Acho que poderia pelo menos considerar

tratar da violação do sigilo profissional.

A polícia invade o consultório,

e o médico entrega o prontuário da paciente?

Sim, tinha acontecido algo grave.

Que merecia a abertura de um caso.

O caso existe. É um homicídio, é onde estamos.

Acho que procuravam a culpada no hospital muito antes.

- Por isso que… - Desculpe.

Vocês me chamaram aqui pra me explicar o caso?

- Não… - Pode parar.

Uma jovem chega com uma gravidez avançada

e aparece um feto morto no banheiro.

A mãe disse que não havia barriga, e o hospital não suspeitou de gravidez.

- Acharam que fosse peritonite. - Há mil contradições.

Prometo que estou fazendo de tudo para ajudá-la,

mas o caso é difícil, e eu não faço milagres.

Vou trabalhar.

Pode mandar o sanduíche ao meu escritório?

É claro.

"Questione a beleza da Terra.

Questione a beleza do mar.

Questione a beleza do céu.

Questione todas essas realidades.

Todas elas respondem:

'Olhe-nos, somos belas'.

Sua beleza é sua proclamação."

O que é proclamação?

Algo que queremos comunicar.

Como se Deus se comunicasse dessa forma?

Algo assim.

E o que ele quer dizer?

- "Ajude seu irmão com a tarefa." - Quero iogurte.

Não, vamos jantar, não ouviu? Sente e termine a tarefa.

- É, vamos comer. - Posso ajudar?

Leve esse.

Juro que não entendo por que acredita em Deus.

Acha mesmo que ele está numa nuvem?

Não, não acho que Deus esteja numa nuvem, Flora.

E onde ele está?

Chega, Sara!

Nesta conversa, por exemplo.

Então, Deus fala através de mim? Ou dos latidos da Sara?

Desde quando você é tão literal?

- Me deem um exemplo. - Um exemplo?

Na bondade, na compaixão pelas pessoas.

É uma manifestação de Deus.

E ele não se manifesta na maldade?

Vocês o colocam só onde convém.

Talvez você tenha razão.

Para mim, Deus se manifesta dando propósito à nossa vida, por exemplo.

Ou uma vocação, um chamado para fazer algo.

- Deus está aí. - Não me convenceu.

- Não é a intenção. - Não mesmo.

Se Deus existisse, você não teria a quem defender.

Você é advogada porque ele não existe. Não é, pai?

- Diga alguma coisa. - Chega, vamos comer.

Onde Deus está quando uma criança morre?

O que é isso, Flora? Por que está tão mórbida?

- Está muito mórbida. - Calado.

Bom…

- E a Camaño? - Não sei.

Não acredito nisso.

Desculpem. Podem começar.

Vamos dar início

à audiência do caso contra Julieta Estefanía Gómez,

documento de identidade 34211318,

pelo crime de homicídio com agravante de parentesco,

número do processo: 12941-2014.

Não é a primeira nem a última vez que isso acontece.

Responda à pergunta, por favor.

Sim, a moça foi ao banheiro.

Perguntei se queria ajuda, e ela disse que não.

Mas ela estava com dor, e achei estranho.

Quanto tempo a acusada ficou lá?

Deve ter demorado uns 15 minutos, tempo de sobra.

Pode dizer o quadro que a paciente apresentava?

A paciente apresentou uma dor aguda no baixo ventre.

Minutos depois do atendimento, apresentou uma hemorragia vaginal

e foi levada imediatamente à Ginecologia.

Pode dizer qual é sua especialidade?

Sou clínico-geral.

Quando a polícia entrou na sala, o senhor havia terminado o procedimento?

Estava terminando.

Sabia o que estava acontecendo.

Não, a polícia me informou

que a paciente havia feito um procedimento ilegal.

Ela tinha todos os indícios de ter provocado um aborto.

- Pôde ver o corpo? - Afirmativo.

Era masculino? Conseguiu ver?

Afirmativo. Segurei nas minhas mãos.

- Você o encontrou? - Não.

Sem pressa.

E era…

assim ou um pouco menor. Assim, mais ou menos.

São muitos os crimes desta mãe.

Primeiro, escondeu a gravidez.

Foi ao hospital e mentiu para a equipe médica.

Recusando ajuda,

trancou-se no banheiro na intenção de se livrar do feto

e voltou para a maca como se nada tivesse acontecido.

Desde esse episódio dramático,

ela sempre negou sua participação no ato.

Como confirmado por peritos psiquiátricos,

sabemos que Julieta Gómez estava em estado de choque

e, como defensora pública, não me deixaram comprovar com uma junta médica.

Uma pena como a pedida pelo promotor

não leva em consideração o estado puerperal da minha cliente

e as emoções naturais advindas do parto.

O tribunal entrará em recesso até terça-feira, às 10h.

Após o depoimento da ré,

que fará uso de seu direito, como consta no Código de Processo Penal…

daremos o veredito.

Vamos.

Oi, Julieta.

- Soledad Deza. - Minha mãe me disse.

Eu disse que sou sua advogada para me deixarem entrar.

- Quer um? - Não.

Bom, sim. Um cigarro.

Trouxe o livro que escrevi.

Um livro?

Sim, é sobre um caso em que trabalhamos,

de uma moça que passou pela mesma coisa.

Abriram um processo após o aborto, mas ela não foi presa.

Posso pegar perpétua, sabia?

Isso não pode acontecer. Não pense nisso.

A sentença sai terça-feira.

Precisa preparar o que vai dizer.

Sim.

Posso vir segunda-feira para ajudar.

O que é isso?

É uma pulseira que uso por proteção. Pode jogar fora.

Você sabe o que deve fazer.

- Justamente. - Justamente o quê?

Você sabe o que deve fazer.

Eu trabalhei naquele hospital.

Alguns médicos se acham deuses, e a polícia manda mais que eles.

Mais alguma sugestão? Quer dizer algo mais?

Mande todos à merda, filha. Ponha a casa abaixo.

Escute, metade das pessoas prefere nem saber

e a outra metade pensa que a moça é uma assassina.

Só por isso vamos entrar na fila dos carrascos?

Temos que pensar nela e em todas as pessoas

cuja única opção é aquele lixo de hospital.

NÃO FIQUEM TRISTES POIS O SENHOR É NOSSA FORTALEZA

Vim ver a Julieta Gómez.

Não, a senhora não é a advogada. Não está autorizada.

Amanhã sai a sentença. Nós marcamos, e ela está esperando.

É impossível, doutora. Sabe que só a advogada dela pode entrar.

- Pode chamar seu superior? - Não.

- Por quê? - Não é possível.

- Estou pedindo. - Já disse que não é possível.

Certo.

Oi, Barba, pode chamar o secretário?

Será que avisaram que eu fui?

Eu não tive nenhum bebê.

Cheguei ao hospital com este mesmo casaco.

Como eu estaria grávida de oito meses e usando este casaco?

Não matei ninguém no banheiro.

Cheguei ao hospital pedindo ajuda e acabei sendo presa

pouco depois de saber que eu tinha perdido uma gravidez.

Nem me deixaram viver o luto.

Não sei por que isso aconteceu comigo.

Eu não…

Parece muito determinada, Deza.

Não posso dizer o mesmo de você.

Está obcecada em tomar meus casos.

Será que tem algo contra mim?

Ao contrário, Beatriz.

Eu adoraria não precisar cuidar das mulheres que você abandona.

É claro.

É impossível se comparar com você e com seus princípios.

Me diga, Deza.

Já pensou no título do seu próximo livro?

Acho melhor entrar.

Chegar atrasado pro veredito seria a gota d'água.

Fomos obrigados a levar em conta o valor da vida do feto sem identificação,

que, desde sua breve existência, clama por justiça.

Este tribunal, por unanimidade,

condena Julieta Estefanía Gómez,

cujos dados estão nos autos,

como autora do crime de homicídio com agravante de parentesco,

à pena de oito anos de prisão.

- Não… - Que esteja nos autos.

Não!

- Não… - Por quê? Ela é inocente.

Calma, vamos recorrer.

Mas ela não fez nada. Ela é inocente!

Tenha calma.

Renuncie, Camaño!

Ela é inocente. Não fez nada!

Não grite.

Ela não fez nada.

Gritar é pior. Não faça isso aqui, por favor.

Ela não fez nada.

Me entregue tudo, Camaño. Está livre de novo.

- Ela devia estar feliz. - O caso. Calada.

- Me dê. - Você quer? Toma.

Fez a defesa com isso?

Você não engana ninguém bancando a heroína.

Não dê atenção.

Julieta… Seu lixo.

Mabel.

Calma, vamos recorrer.

Venha aqui.

Tem tomate.

- Legal, né? - Delícia!

Tem certeza de que pôs a vermelha?

Coloquei uma do outro tubo.

Então vai ficar horrível.

O que foi, querida?

Que pergunta idiota.

Quero saber se é outra coisa.

O que mais seria? Ela vê sua cara todos os dias.

Como você está?

Vamos pedir a anulação do julgamento e que possa esperar em liberdade.

O que foi?

Não sei se consigo.

O quê?

Passar pelas mesmas perguntas, dizer coisas que não lembro.

Estou cansada.

Não tem que dizer nada. Eles fizeram tudo errado.

Violaram o sigilo profissional, acusaram sem provas,

mudaram os papéis lá mesmo, sem investigação.

Você é só uma vítima. Talvez nunca tenha ouvido isso.

- É. - Comece a acreditar nisso.

O problema desses lugares

é que logo fazem você acreditar que é culpada.

Se vão começar a vir,

é importante que ninguém saiba disso lá fora.

Minha mãe pode perder o emprego e meu pai também.

Ninguém aqui sabe do que fui acusada.

Preciso que fique entre nós duas.

Vai ficar entre nós duas.

Prometa.

Eu prometo.

Olá.

Vim retirar um processo.

Julieta Gómez, caso 12941-2014.

- É do Ministério Público? - Não, sou advogada dela. Soledad Deza.

Vou ver.

- Gómez? - Sim. Julieta.

Vou ver…

- Julieta Estefanía. - Esse mesmo.

Mas não está pronto ainda.

O que falta?

Não sei dizer, doutora.

Quando posso buscar?

Tente na semana que vem.

Bom…

Quer comer alguma coisa?

- Venham, é aqui atrás. - Vamos.

Olá. Entrem, bem-vindas.

- Olá. - Como vai?

Vamos esperar sua mãe e começamos.

Ela não vem. Teve um problema no trabalho.

Oi, bebê.

Aquela de cabelo azul é hippie. Não tenha medo.

Na Argentina, a lei permite a prisão preventiva de até dois anos.

Passado esse tempo, é obrigatório dar uma sentença

em julgamento, como fizeram com sua irmã.

A prisão preventiva ocorre por risco de fuga

- ou obstrução da investigação. - Sua irmã não cumpre nenhum requisito.

Achamos que apressaram a condenação para esconder os erros deles.

Ela é Bárbara Guindal, jornalista e advogada

- encarregada da divulgação. - Precisamos dos meios de comunicação.

São dois temas sensíveis em Tucumán.

Desde a suposição de um aborto a um suposto filicídio.

"Filicídio" é quando alguém mata um filho ou filha.

Paulina é advogada.

Trabalhou comigo no caso María Magdalena,

contra quem também foi aberto um processo

por suspeita de aborto.

Vemos uma ligação entre os casos,

porque María Magdalena e Julieta tiveram a mesma defensora pública.

- Beatriz Camaño. - Exato.

Nem diga esse nome.

Também investigamos se existe ligação entre os médicos que a atenderam,

mas ainda não achamos nada.

Essa é Perla, militante contra a violência obstétrica.

Vi muitos casos no Alberdi, de meninas abusadas

que eram obrigadas a ouvir o coração do feto no ultrassom.

- Não entendi. Para quê? - Para dissuadi-las do aborto.

E esta é a Coca. Ela está na terceira graduação

e conhece o tribunal de trás pra frente.

Estamos pressionando para que entreguem o processo.

Camaño nos deu uma radiografia muito fraca do caso.

É a pasta com provas que a defensora pública escolhe

para defender a ré.

Nesse caso, ela escolheu o mesmo que nada.

Não tem histórico médico, data de entrada e saída do hospital. Um desastre.

O que isso significa?

Que não podemos defendê-la com o que a Camaño apresentou.

Precisamos desse processo.

PRONTO-SOCORRO

Aqui vêm muitas mulheres.

- Agora consegue lembrar? - Sim.

Foi a que jogou o bebê no vaso.

Então se lembra do caso.

Sim, mas a Alejandra lembra melhor.

Podem esperar um pouco?

Sim.

Já me chamaram para depor, e eu disse tudo o que sabia.

Mais uma coisa. Você se lembra se a paciente tinha barriga?

Só vi que ela foi ao banheiro e voltou com as pernas ensanguentadas.

Não se lembra de mais nada?

Ela voltou normalmente.

Como assim?

Como se não tivesse feito a crueldade que fez. Algo mais?

Não podemos ficar interrogando as pessoas sem autorização.

Com licença. Quando é a mudança de turno?

Às 20h, senhora.

Por que quer voltar?

Para refazer os passos da Julieta.

- O quê? - Me deixe pensar.

Foi mal, Sherlock.

- Por que não se trocou ainda? - Estou trocado.

- Não, vá se trocar. - Manuel, você não mora sozinho.

Podem parar de gritar?

Vista outra coisa, algo mais arrumado.

- Mas é minha favorita. - Vamos.

Preciso de um favor.

- Senhora? - Meu pai está internado.

Olá. Onde fica o banheiro?

Vá até o fim do corredor, na placa verde…

Com licença. Posso entrar?

Desculpe, o banheiro está alagado. Não pode entrar.

- Sabe onde fica o outro? - Não.

- Veio por aqui? - Vim.

Faça o mesmo caminho, vire à direita até a entrada

e pegue o corredor para a outra ala,

passe a Pediatria e siga reto.

- Na outra ala? - Sim.

- Obrigada. - De nada.

"12 de março de 2014. Que Deus o guarde em sua glória", Barba.

Entendeu? São dois banheiros diferentes.

Um onde encontraram o corpo e outro onde a Julieta foi.

Os depoimentos dizem que ela demorou 15 minutos.

Não sabe como demorei para chegar ao outro. Ela não iria lá,

teria o bebê e o mataria nesse tempo. É impossível.

Estou dizendo

que encontraram um feto em outra ala

e disseram que era da Julieta. Foi isso.

Ligo depois, Barba.

Desculpe. Estou atrasada.

CONCERTO DE EX-ALUNOS BEM-VINDOS

Ei.

É sua mãe.

Por favor, eu já expliquei, Flora.

Pedi desculpas. Isso é importante para o caso.

- Queria ser um caso algum dia. - Como assim?

Flora, não fale isso nem brincando!

Não vai me dar um beijo?

- Tchau. - Tchau, filho.

- Um bom dia. Pegou tudo? - Peguei.

- Pode me dar as rifas? - Sim, desculpe.

Tchau, tenha um bom dia. Até logo!

Espere seu irmão.

Você madrugou.

Você já leu?

O quê?

O jornal. Comprei agora. Pelo visto, não leu.

Não, o que houve?

Posso ler pra você?

Sim, leia.

"A assassina do Alberdi…" É como começa, imagine. Escute.

- Não… - Escute, você está aí?

"Segundo o juiz Fariña, casos como o de Julieta Gómez,

a mulher condenada recentemente

por afogar o bebê recém-nascido na privada

e defendida pela advogada Soledad Deza,

são tragédias evitáveis."

"São tragédias evitáveis." Você está aí? Está ouvindo?

Ei!

Ferraram com a gente.

Sim, o Fariña. Publicaram o nome dela.

O que mais?

ASSASSINA DO ALBERDI

Então você é famosa, Gómez?

E veja como fui descobrir.

Ficou quietinha nesses dois anos.

Você é uma mãe ruim. É uma dessas.

Eu adoro como você é querida aqui.

Então vamos continuar assim, está bem?

Olhe pra mim!

Vamos fingir que não aconteceu.

Vamos fingir que não aconteceu.

Adoro segredos.

É um segredo entre nós duas. Sabe o que também adoro?

Seus molhos.

Um dia desses, quero um para levar para casa.

Fui clara?

Já pedimos para removerem da internet

e não usarem mais o seu nome.

- O que fizeram é ilegal. - É mesmo?

Querem ganhar tempo conquistando a opinião pública.

Já disse que, se descobrirem quem sou,

meus pais vão perder o emprego.

E estão me fazendo pagar isto.

Tem que ser mensal, senão vão contar tudo sobre mim.

Quem fez isso?

Deixe comigo, mas não podem fazer isso.

Pode parar? Tem dois anos que fazem o que querem comigo.

- O que foi? - Me fez duas promessas.

Que eu esperaria em liberdade e não saberiam meu nome.

Não cumpriu nenhuma.

Não me diga o que podem ou não fazer, Soledad.

Sim, mas para soltá-la, todos devem saber o que houve.

- Temos que falar. - Pra me enforcarem em praça pública?

Para que muitas possam te defender.

Não quero divulgar meu nome.

Foi assim até agora, e você só conseguiu ficar oculta aqui.

Se ninguém sabe que está aqui, você não existe.

- Pare. - Eu estou certa.

Não é só meu nome.

- É da minha mãe, do meu pai… - Não importa mais.

- Vão ser demitidos. - Que demitam!

Vamos inventar outro nome.

Outra identidade para divulgar o caso.

- Escute. - Mas precisamos que você autorize.

Eu não sei.

Não sei.

Olá.

- Parabéns. - É seu aniversário?

Oi, filha.

- Oi, filha. - Oi, mãe.

Oi, meu amor.

Doutora, passamos do número permitido de visitas.

- É aniversário dela. - Eu não faço as regras.

- Mabel, estou resolvendo tudo. - Hoje não, doutora.

O papai mandou um beijo.

- Ele não vem? - Esqueça isso, Mecha.

Não acredito.

Preciso que me deixe continuar. Você deixa?

Quer ver?

Sim.

Feliz aniversário.

Oi, Romina?

Diga.

Não tem problema. Eu espero.

Pauli, revise o comunicado que terminei.

- Isso é a anistia? - Sim.

"Belén…" Belén?

Sim.

- "Tem 27 anos, foi presa…" - Espere.

Escolheu Belén?

- Sim. - Belén?

Sim, o que tem?

Por que não Maria Conceição? Luján? Santíssima Trindade?

- Santa Brígida, meninas? Que tal? - Belén está bom. É curto.

E também é onde nasceu Jesus, algo que te importa muito.

Como ela é pura… Não suporto.

Como você está chata! Veja se está tudo certo e envie.

Romina? Sim.

Sim.

É por isso que está na hora de abordar o tema nesses programas.

Essa é a proposta.

Certo.

Tudo bem. Obrigada por tentar.

Até logo. Boa tarde.

Tarde Piaste está fora.

- E os favores que fizemos a ela… - Um inventário de graça.

- Quero ver ela nos pedir algo. - Que babaca.

O Martín Salvador disse o mesmo.

- Não têm coragem. - Um programa da tarde?

Dizem que não têm espaço por um mês. Claro que é mentira.

- Mentira. - Infelizmente, Soledad,

teremos que recorrer a você sabe quem.

- Quem? - Ao único que vai dizer sim.

Sério…

Vou falar. A primeira vez da Soledad Deza foi com o Beto Bolaño.

- O quê? Não! - No beliche do Beto.

- Não brinca. - Olha só a Sole.

Ainda rola um clima.

Olhem pra ela.

Clinton reforça o discurso para convencer os eleitores.

É isso mesmo. E quem levantou a temperatura da campanha

foi ninguém menos que Madonna.

Olha, Beto, ela prometeu sexo oral como recompensa…

Espere aqui, vão colocar o microfone.

TARDE QUENTE

Chega, Beto. Com licença.

- Sole. - Beto.

- Como vai? Há quanto tempo. - Vou bem.

- Obrigado por vir. - Eu que agradeço.

Não, eu que agradeço.

- Nos vemos no palco? - Certo.

Vou resolver uma coisa.

Venha.

- Sente-se aqui. - Aqui?

Porque estou muito sério…

- Tem que me fazer rir… - Nós sabemos.

- Não tomei meu café da manhã. - Beto…

Você não me faz rir. Não acredito.

Disseram que não tomei meu café. Por isso estou sério.

- Você está sério? - Amo vocês.

Mas escrevam um pouco maior. Está parecendo braile.

Sim, mais água, meninas. Por favor, é grátis.

É, por enquanto.

Bom, agora vamos mudar de assunto.

É um assunto delicado.

E para isso temos uma convidada especial. Soledad Deza,

uma pessoa que conheço há muitos anos.

- Obrigado por vir. Como vai? - Bem, obrigada.

Saibam que Soledad é a advogada de defesa de Belén,

uma jovem acusada e condenada pelo assassinato de seu bebê

no Hospital Alberdi.

Bom, Soledad, diga qual é a sua versão do ocorrido.

Porque conheço você muito bem, sei que é uma pessoa boa

e sei que aceitou um caso tão terrível

porque tem algo a ser revelado.

- Primeiro, obrigada pelo espaço. - É um prazer.

Gostaria de fazer um exercício.

Imaginem passar mal um dia, procurar o pronto-socorro

e acabar sendo presos.

Ou que aconteça isso com suas filhas, com suas irmãs.

Foi o que aconteceu com Belén.

Ela está presa há dois anos por ter ido ao hospital

com uma dor que acabou sendo um aborto espontâneo.

- Dizendo assim, chama a atenção. - Terrível.

"Chamar a atenção" não é o melhor termo, Beto…

mas diria que o caso da Belén é uma grande injustiça.

Devo dizer que a Soledad sempre gostou de me contrariar em tudo.

Como todas as mulheres. Ela não é a única.

Não, a ideia não é discutir.

Não, a ideia é que as pessoas conheçam a história como aconteceu,

e pedir ao juiz Fariña que nos entregue o processo,

porque sem ele, não podemos recorrer.

Sem o processo, Belén continuará sem defesa.

Sem o processo, ela continuará sendo injustiçada.

Que assim seja, Soledad.

Pode contar conosco para o que precisar.

Estamos sempre do lado da justiça.

- É o juiz Fariña? - Sim.

- Você teve filhos? - Tive.

- Parabéns. - Que bom.

E mais uma coisa.

Quero convocar todo mundo nesta terça-feira,

para nossa 1ª marcha pela liberdade de Belén.

Participem, por favor. Obrigada.

Pode ficar um pouco mais?

Vamos continuar debatendo esse assunto tão interessante.

- E chamamos um convidado. - Isso mesmo.

- Alguém especial. - De primeira.

Entre, Daniel. Como vai?

- Obrigada. - Obrigado, Cris.

- Sente-se. - Olá, Dani.

Convidamos o Dr. Daniel Huterini,

um advogado da associação Vidas Conectadas

e um amigo do programa.

- Obrigado, Cris. - Obrigada.

Como sabem, gosto de começar

dizendo que da 6ª à 14ª semana de gestação,

o coraçãozinho do bebê bate

- 13 milhões de vezes. - 13 milhões de vezes.

Não acredito. Toda vez que você diz 13 milhões,

não me entra na cabeça. É algo tão pequeno.

Treze milhões de vezes.

Portanto, me parece bastante acertado

destacar que a legalização do aborto

é uma moda que se espalhou de forma global.

É Huterini?

- Sim, com "H". - Desculpe, senhor,

mas não chame de moda uma luta de décadas,

até séculos, pelo direito de autonomia sobre nossos corpos.

Deixe-me terminar.

Todo ano, no mundo inteiro,

são realizados 50 milhões de abortos.

É um holocausto silencioso e cruel.

Primeiro, uma moda, agora um holocausto?

- Não entendo o alvoroço. - Não pode dizer isso.

Desde 1943, nenhuma mulher foi presa por esse motivo.

Belén está presa há mais de dois anos por um aborto espontâneo.

Não, diga a verdade, doutora. Ela foi presa por homicídio,

não por aborto espontâneo.

Para falar do caso, precisa conhecê-lo.

- Posso explicar agora. - Desculpe.

Se me permitem dar minha humilde opinião…

Vamos ver o que a sonsa diz.

Aposto que muitos de vocês têm bichos de estimação.

- Sim, a Coquita. - Uma linda.

Assim como as pessoas de casa.

Eu estava me perguntando: O que fazemos quando uma cadela engravida?

Não levamos ao veterinário para fazer um aborto, certo?

Lamentamos o que houve

e procuramos alguma pessoa que possa ficar com os filhotinhos.

- Levamos a uma praça… - Por exemplo.

Alguém sempre ajuda.

- É alguma piada? - É alguma piada?

- Não acredito. - Não acredito.

- Não é piada. - Estou tentando dizer

que não há nenhuma mulher presa condenada por aborto.

Mais de 200 mulheres foram acusadas

- nos últimos anos em Tucumán. - Ótimo.

Você perde um bebê e ganha uma ficha criminal.

- Isso, vamos. - Mas nenhuma foi presa.

Exato. Não é a mesma coisa ser acusado e preso.

Repito que, agora mesmo, nesta cidade,

tem uma mulher de 27 anos presa por uma dor na barriga

que era um aborto espontâneo.

Você teve seu minuto com o Beto, então…

será que eu posso expor meu ponto de vista?

Tive três minutos. Três minutos de merda.

Tive que aguentar seus delírios e a cadela dessa senhora.

É tudo farinha do mesmo saco.

Não, inútil é discutir com o senhor sobre o que é estar grávida.

Mas adora se apropriar de tudo.

E como você foi burro, Beto.

E a Cristina também, nessa idade.

Não mais que você. Quanto ódio, doutora.

Estão me dizendo que chegaram muitas mensagens.

"Uma guerra no Beto Bolaño."

"Eu tenho o que essa advogada está precisando."

- O processo? - Talvez.

É isso.

- "Essa advogada me fez sair armado." - Não!

"Eu engravidaria essa abortista."

"Pela cara do Beto Bolaño, ele ficou abalado."

"Ela bateu de frente, parabéns."

"Coitada. Com essa advogada, só vai sair em 100 anos."

Desculpem.

LIBERDADE PARA BELÉN PENA ANULADA

Oi, com licença. Informações do caso Belén.

Cedo ou tarde, o aborto será legal na Argentina.

O que nunca será legal…

Oi, com licença. Aceita informações sobre o caso da Belén?

Ela teve um aborto espontâneo. Está tudo aí.

Ela chegou com um aborto espontâneo e acabou presa.

Isso só acontece por um motivo.

Eles continuam tomando decisões sobre nossos corpos.

Vamos estar aqui todas as terças, na Praça da Independência,

para exigir a liberdade dela.

Liberdade pra Beléne anulação da sentença.

Belén foi a um hospital público…

Tem alguns sobrando?

Sim, passei por algo parecido no Hospital Alberdi.

Não sei se posso dizer meu nome.

Eu também. Trabalho na prefeitura.

Oi, meu amor!

Tudo bem? E aí?

Vou levá-lo e já volto.

Vai me ajudar a distribuí-los?

- É claro. - Tem certeza?

- Sim, pra elas. - Pode ir.

Aconteceu isso comigo. Trabalho na prefeitura.

Não posso dar meu nome.

- Manuel! - E as amigas da Belén?

Têm medo que descubram no trabalho.

Muitas querem falar, mas não querem ser reconhecidas.

E se as filmarmos de costas?

Reduziria o impacto da mensagem.

E precisamos que elas venham. Quer que eu fale com elas?

- Eu falo. - Tem os folhetos?

- Eu falo. - E a lista de e-mails?

Chega de correr, Manuel! Vai se machucar!

- Não sou o Manuel, sou o Lauti. - Desculpe, Lauti.

O que foi?

Três juízes a condenaram a oito anos de prisão

por homicídio com agravante de parentesco

sem nenhuma prova.

Foi presa por ser mulher e por ser pobre.

Por isso, somos todas Belén.

MARCHA PELA LIBERDADE DE BELÉN

Para que ninguém tenha medo de ir ao hospital.

Liberdade para Belén já.

Isso é o amor.

Não que nós amamos a Deus, mas que Ele nos amou.

E enviou Seu filho para nos redimir de nossos pecados.

"O Espírito do Senhor está sobre mim,

porque Ele me ungiu para dar boas novas aos pobres.

Enviou-me para curar os quebrantados de coração.

Para proclamar liberdade aos presos,

para recuperar a visão dos cegos,

para libertar os oprimidos."

Tomás?

Se ajudamos alguém de boa vontade,

e essa pessoa mente e engana, o que acontece com a gente?

Esse será o calvário da pessoa.

Não devemos nos arrepender de ajudar.

Mas eu faço o bem, ajudo a pessoa, e ela faz o mal.

Não preciso me redimir?

Para Deus, sempre existe redenção, Tomás.

Esse é nosso dever como cristãos.

Mas me dê um exemplo para que eu entenda melhor.

Por exemplo, se alguém defende uma assassina.

Minha mãe não defende nenhuma assassina, idiota.

O que disse, Flora?

Ele está falando da minha mãe.

O que você tem, maluca?

Não falem assim.

Ele fala sem saber de nada.

- Idiota. - Ela defende uma assassina.

Vocês dois, fora da aula.

- Por quê? - Saiam.

A viagem de formatura, a comissão…

- Oi, filho. - Mãe.

- Vamos? - Posso ir na casa do Benja?

Acho que a mãe dele não quer. Não tem problema.

Esperem. Soledad!

Tente responder no chat, por favor.

Estamos definindo uma data para o vídeo. Falta você.

- Obrigada. - De nada. Tchau.

- Quer tomar lanche? - Quero.

Essa moça não está nem aí.

Ela nunca responde.

- O processo. - Não está aqui.

Como se sentiu na TV, doutora?

Nome?

Caso Julieta Gómez.

Bom dia, viemos buscar o processo.

O processo.

- Nome. - Gómez, Julieta.

- Assunto? - Você já sabe!

Gómez, Julieta. Processo 12941, de 2014.

Assunto, por favor.

Homicídio com agravante de parentesco. Satisfeito?

Não está aqui. Falta assinar.

Volto amanhã.

Sério, o erro do Ciro!

- Inacreditável. - Inacreditável.

- Na frente do gol. - E sozinho.

Ele é ruim demais. Seu cachorro joga melhor.

- Só tem que ensinar. - Temos mesmo.

- Só isso. - Beleza.

- Valeu. Tchau. - Tchau.

Até mais.

Você é o filho de Soledad Deza?

Sou.

Pegue.

- Entregue à sua mãe. - Está bem.

- Oi, meu amor. - Oi, mãe.

- Tudo bem? - Tudo.

E seu pai?

Está lá em cima.

Certo.

Desde quando está jogando?

Comecei agora.

Tem uma carta aqui.

Uma carta pra mim?

- Sim, pra você. - Pode ler.

Está bem.

"Olho por olho, filho por filho."

Quem te deu isso?

- Um homem. - Que homem?

Um homem na rua.

Estava andando sozinho?

- Não, eu estava com o Lauti. - Não pode andar sozinho.

- Não, mas… - Olhe pra mim.

Não ande sozinho.

Não é o momento pra isso.

- Não estava sozinho, estava com o Lauti. - Eu te amo.

Nem com o Lauti.

Isso…

"Olho por olho, filho por filho."

Não repita isso!

Foi mal.

- Posso? - Vai.

- Truco. - Eu quero.

Tem certeza?

Pronto, muito bem. Viu? Você ganhou.

Você tinha um envido e não disse.

Vamos jogar outra vez. Embaralhe.

- Manuel! - O que aconteceu?

Você está aí! Flora, venha ficar com seu irmão.

Cuidado com o vidro. Fiquem aí.

Sim.

Dr. Deza.

Tudo bem, Fariña?

Faz tempo que não vejo você aqui.

É, eu larguei um pouco o tênis.

O saibro da quadra não se dá com meus joelhos.

Tem que ter cuidado.

Quem deveria ter mais cuidado é a sua filha.

Falou meu nome na TV.

Não sei o que há com ela.

Ela quer toda a cidade contra ela?

Acho que não.

Pelo que entendi, não querem entregar o processo que ela precisa

para fazer o trabalho dela.

O processo precisa de assinaturas, outros documentos…

Sabe como funciona.

Não sei, na verdade.

Nem todo doutor atua na mesma área.

Não, isso está muito claro.

Você é do tipo que salva vidas.

Também pode salvar alguém, Fariña.

Mande lembranças à sua filha.

Cuide dela.

É melhor ficarem na casa de campo por uns dias.

O quê?

- Vai ser melhor. - Não.

- Sim. - Não.

Não tem medo do que aconteceu?

- Bom, sim. - E então?

Tenho mais medo de deixar você sozinha.

Não, vou chamar a Bárbara para ficar comigo.

Não, escute. Se esses caras agiram assim,

é porque está fazendo a coisa certa.

Não ouviu seu pai?

Por isso mesmo.

Não vou embora.

Vou ficar aqui, te fazendo companhia.

Vou ficar. Não vou deixar você sozinha.

Não vou deixar você.

Pode ficar tranquila. Não vamos a lugar algum.

…Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco…

…Bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.

Santa Maria, mãe de Deus,

rogai por nós, pecadores.

Agora e na hora da nossa morte, amém. Ave Maria cheia de graça…

Oi, amor. Tudo bem? Espero que esteja bem.

Olha, eu estava pensando no vídeo de "Gangnam Style",

e os pais poderiam usar perucas.

Estamos bem. Precisamos de mais gente.

É disso que mais precisamos. Estamos muito ocupadas.

Assim que liberarem o processo,

vamos pedir uma audiência, mas não se preocupe.

Disse que viriam as mulheres de Buenos Aires.

Sim, do "Nenhum a menos". Vamos ver até quando vão ficar.

Mas isso vai nos ajudar.

A Paola leu uma matéria do jornal de Salta.

Sim, uma ótima matéria.

Me espantei com as assinaturas.

- Até da África. - É uma boa matéria.

Da África, Espanha, França,

Rússia e Paquistão.

- Isso é bom, não? - É bom.

Qual é o problema?

Nada.

- Obrigada, padre. - Por nada.

Até logo.

- Hoje é dia de confissão. - Sim.

Vi você na TV.

Foi bem.

Obrigada, mas eu não acho.

Não podemos perder o controle. É isso que querem.

- A mulherada riu aqui. - De mim.

- Não. - Tudo bem rirem de mim.

Não! Você vai rir de mim.

Quando vi você na TV, soube na hora que ia me tirar daqui.

Amor, você está bem?

Calma, está tudo bem.

Meu amor, venha aqui.

- Está sozinha? - Sim, entre.

Não.

Amanhã é o batismo da filha do Bartolini. Você vai?

O Diego me convidou. Por que eu iria? Pra ser linchada?

Deveria ir.

- Para ser linchada. - Não.

O Fariña é o padrinho. Esteja lá.

- Tchau. - Tchau.

Espere até o fim da cerimônia, tá?

Eu disse que vou esperar.

Seu pai está louco, pondo ideias na sua cabeça.

Não o envolva nisso.

Tudo bem. Olha, o que você decidir, eu vou apoiar.

Então vamos.

- Bom, vamos. - Vamos.

E Jesus, depois de ser batizado,

saiu da água,

e os céus se abriram.

Ele viu o espírito de Deus…

Obrigado, padre.

- Foi uma bela missa. - Obrigado, senhor. Até logo.

Raúl, temos que ver isso. Podemos conversar…

Olá, Dr. Fariña. Como vai?

Me espere lá fora. Vamos almoçar.

Em nome do Pai, do Filho…

Tem uma coisa que eu preciso.

Amém.

Tenho que ir ao tribunal amanhã.

Posso ir buscar o processo que vai autorizar,

ou posso denunciá-lo por ter revelado

o nome da minha cliente. O que prefere?

Pode retirá-lo.

Só terá que esperar

até que eu volte das minhas férias. E depois, o recesso judicial.

Já esperaram tanto, que dois meses não mudam muita coisa.

O quê?

- Mais dois meses? - Espere.

Como não muda muita coisa?

- Não grite aqui. - Ele está dizendo absurdos.

Calma.

Vamos! Viva os formandos do San Bartolomé!

Vocês de trás, guiem-se pelos da frente.

Não sei por que estamos aqui. É uma completa loucura.

Todas as minhas ideias parecem uma loucura pra você.

- Ou estupidez. - Me parece mesmo.

Você faz isso toda hora. Me desautoriza na frente da equipe.

Já fez isso com a Coca.

- Quando? - Não sou a única que pensa assim.

- Como assim? - Você nunca repara em nada.

Está de brincadeira?

Viu que nunca me leva a sério?

É sempre você. Pare um pouco. Estou cansada.

Devo estar cansada.

Espere até ele ir embora.

Vamos!

- Oi. - Olá.

Oi!

Olá?

- Oi, tudo bem? - Oi, como vai?

- Como estão? - Bem.

Avisaram que eu viria?

Não, podem ter avisado ao outro cara, mas o Raúl foi almoçar.

Sim, encontramos o Raúl e ele disse pra pedirmos o processo.

Não deixaram nada pra mim.

Mas, se esperarem, eu posso perguntar pra ele.

Não precisa ligar pra ele. Ele está almoçando.

Vou ligar.

Vamos.

- Ele deixou o celular aqui. - Que pena.

- Terão que esperar. - Não.

O Raúl me disse que você entregaria o processo.

Se não fizer seu trabalho, vou chamar o secretário-adjunto.

Eu não queria, mas ninguém quer trabalhar aqui.

O secretário-adjunto…

No seu lugar, eu evitaria.

Ela fica má quando está cansada.

O processo está na estante do meio.

Se quiser, traga tudo,

e eu ajudo a encontrá-lo. No meio, à direita.

Traga os de cima. É Gómez.

Tudo bem, se falaram com ele, não tem problema.

Tem vários. Temos que procurar.

Alonzo.

- Guerrero… - De onde você é?

- De Córdoba, senhora. - E veio pra cá?

Sim, é que meu tio é juiz

e me transferiu pra cá. Quero terminar a faculdade aqui.

Que bom. Uma mudança total.

Sim, muito bom. Barletta,

- Gómez… - É esse!

- Pronto. - Perfeito. Olha só.

- É esse? - Sim, é esse.

- Como seu tio se chama? - Jorge Fariña.

- Mande um beijo pra ele. - Pode deixar. De quem?

- De Beatriz Camaño. - Obrigada.

Não. Desculpem.

Autópsia de um feto sem identificação, do sexo masculino.

E o exame externo diz:

"Feto do sexo feminino, com cerca de 32 meses de gestação."

Como assim "meses"?

E neste documento está escrito:

"Feto de 20 semanas."

Viu? Neste outro, está como: "Feto de 26 semanas."

E neste está como: "Feto de 40 semanas."

- Vai acabar virando engenheiro. - Pois é.

- Claro. - Olha.

O histórico médico está todo rasurado. Vai direto para homicídio.

O registro do procedimento diz que o corpo foi extraviado.

Claro, por isso não há DNA. Não havia corpo.

Sim, outro motivo para não entregarem o processo.

Vamos pedir uma audiência.

Acabou a via-crúcis do processo e começou a da audiência.

- Mas temos o processo. - Temos.

Entre.

Em 18 de agosto…

Obrigada por ter vindo.

Meninas, ela é a Flor. É nova.

- Olá! Bem-vinda. - Ela está fazendo resumos.

Mecha, como estão indo as bandeiras?

Bem. Ela vai nos ajudar.

Oi, que bom. Obrigada!

Dê um folheto a ela.

- Oi! - Tudo bem?

Sim, comunicação, imprensa.

Pode entrar.

Estão fazendo adesivos.

Sente-se. Pode ficar aqui.

Sole.

Explique tudo. Como vai?

Sole, quer ajuda com alguma coisa?

Não.

Posso distribuir as pizzas.

Tudo bem.

Alguém quer?

Obrigada.

- Que delícia! Sim. - Obrigada.

Faça isso, Paulina.

Pode ir.

Meu amor, estamos gravando.

Obrigada.

Dois segundos e pode começar, Perla.

Para que nenhuma mulher tenha medo de ir a um hospital.

Liberdade para Belén já.

Tome, coloque o lenço.

- Você é a próxima? - Sou.

Certo.

Pronta? Vamos.

Vamos protestar terça-feira, às 16h,

em todas as praças do país.

Oi. Estamos aqui.

Já somos mais que o dobro.

Obrigada.

LIBERDADE PARA BELÉN PRESA POR SER MULHER E POBRE

Ela fez um escândalo quando coloquei o sapato dela.

Foram duas horas. Ela odeia. E são novos.

Gosta de andar descalça.

Ela está diferente, parece outra criança.

Está crescendo.

Sim.

Olha!

Viu a carta que te mandaram?

Com força.

Fogo!

Fogo!

- Fogo! - Fogo!

- Socorro! - Fogo!

Fogo!

- Paola! - Está pegando fogo!

Paola, vai logo!

Paola, me ajude!

Andem!

Andem logo!

Socorro!

O que aconteceu?

Chamem uma ambulância!

- Julieta! - Não pode ajudar? Ela está lá!

- Dados da detenta, por favor. - Pavilhão 25, unidade 4.

Ela inalou fumaça e desmaiou.

Ficou inconsciente por quanto tempo?

Quinze minutos, mais ou menos.

- Ela está calma? - Estou aqui.

Aqui sou paciente, não detenta.

- Saia. - Eu faço isso.

Venha.

Continua tonta?

- Sim. - Sabe quem foi?

Olha a Juli.

Filha!

Juli.

Oi!

Julieta, venha.

- O que foi? - Me acompanhe.

A lixeira preta, Julieta.

É todo seu. Vou lá para a frente.

Pronto.

O que está fazendo?

Tirei o lixo e deixei o portão aberto.

E se eu não estiver aqui da próxima vez?

Não vou fugir.

Vou sair pela porta da frente.

Pronto.

Eu tinha uma irmã com quem dividia tudo.

O grupo de amigas,

as roupas, a música,

as saídas…

Temos que libertá-la o quanto antes.

A situação é crítica. Colocaram fogo na cela.

Não sabemos se foi uma fanática religiosa ou por pressão interna.

Nesses quatro meses em que assumimos o caso,

recebemos todo tipo de ameaças…

Era calada, mas, quando a fazia rir, tinha um sorriso contagiante.

LIBERDADE PARA BELÉN

Precisamos do apoio de todos.

A próxima concentração tem que ser contundente e nacional.

Nós concordamos.

Ela era alegre, cheia de vida e sempre disposta a ajudar.

Além disso, era a melhor pessoa que eu conhecia.

…de parar as intimidações é com uma praça cheia de mulheres.

Em 12 de março de 2014, ela passou mal,

foi ao pronto-socorro, e a levaram presa.

Como essa luta deve acontecer nas ruas,

temos que convocar uma grande marcha nacional.

Em todas as praças, em todas as províncias.

Agora, minha irmã é Belén.

Desde a prisão, minhas amigas dizem

que devemos ir aos lugares onde íamos com ela

para não esquecermos de sua ausência.

Nesta reunião sobre a libertação de Belén, vamos definir

um plano de luta e de ação.

Tem uma pessoa faltando.

E se falta uma, é como se faltassem todas.

Por Belén e por todas.

Liberdade para Belén já!

Liberdade para Belén já!

Nos vemos nas ruas.

Libertem a Belén, a justiça é a responsável!

Agora, agora, se faz indispensável!

Libertem a Belén, a justiça é a responsável!

Agora, agora, se faz indispensável!

Libertem a Belén, a justiça é a responsável!

Agora, agora, se faz indispensável!

Libertem a Belén, a justiça é a responsável!

Agora, agora, se faz indispensável!

Libertem a Belén, a justiça é a responsável!

Agora, agora, se faz indispensável!

A MATERNIDADE SERÁ DESEJADA OU NÃO SERÁ

Agora, agora, se faz indispensável!

Libertem a Belén, a justiça é a responsável!

CASO BELÉN PROTESTOS EM TUCUMÁN

Sem dúvida alguma, foi uma manifestação grandiosa.

Isso provocou…

Olha a confusão que está fazendo.

…até revolta, por assim dizer.

Em dado momento, pediram para retirar as faixas

que não haviam sido retiradas do Palácio da Justiça,

e pudemos ver um ou outro…

…uma injustiça.

Essa moça sofreu um aborto inesperado,

que ela não desejava, ou seja, é uma completa injustiça.

Por isso estamos aqui e queremos que o juiz entenda…

- Desligue isso. - …Que ela deve ser libertada.

Agora, agora, se faz indispensável!

Libertem a Belén, a justiça é a responsável!

- Alô? - Soledad Deza?

Sou eu.

Aqui é Vilma Blanco, da Defensoria Pública Nacional.

- Está em San Miguel? - Estou.

- Está longe do tribunal? - Não.

Vá falar com Gustavo Brunetti para saber a data da audiência.

Mas não perca tempo, ele vai estar esperando.

Olá, sou advogada. Preciso passar.

Vou conferir.

- Pode passar. - Obrigada.

Obrigada.

Justiça por Belén!

Oi.

Quinta-feira às 10h.

O quê?

- A audiência. - Nesta quinta?

Muito em cima?

Precisa esperar até o ano que vem, em 25 de março.

Não, minha cliente não pode esperar.

Assumi o caso há quatro meses. Me negaram o processo…

Escolha: Nesta quinta-feira ou no ano que vem.

A história de Belén é a história de uma complicação obstétrica

que se tornou um caso policial…

…acusada de ter matado seu bebê por testemunhas

que encontraram um feto de 22 semanas…

…a oito anos de prisão. Agora, a advogada tenta…

…depois de sofrer um aborto no Hospital Alberdi, aqui na cidade.

Organizações feministas convocaram

uma concentração na praça em frente ao tribunal…

Dez organizações pedem a libertação…

O mundo inteiro vai estar vendo, mãe.

…de ter matado seu bebê no Hospital Alberdi,

em San Miguel de Tucumán.

Não podemos ir nisso.

"Chupa minha…"

PUTA CHUPA MINHA ROLA

Força, Soledad!

Força, Soledad!

Você chegou!

Preparada?

Eu, preparada?

Bom, vamos lá.

Mulher, escuta, entra nessa luta!

Mulher, escuta, entra nessa luta!

Na noite de 12 de março de 2014,

Mabel Gómez levou a filha ao hospital com uma dor na barriga.

No Hospital Alberdi, ela é atendida no que parecem ser

sequelas de uma peritonite recente.

Ninguém, nem as enfermeiras, nem o primeiro médico que a atendeu,

nem a mãe ou a própria Belén,

suspeitaram que ela estava sofrendo um aborto espontâneo.

É quando a polícia invade a sala de cirurgia,

pega o prontuário, risca "aborto espontâneo"

e coloca, sem provas, "homicídio com agravante de parentesco".

Belén nunca teve direito à presunção de inocência.

Sempre foi a culpada.

Para quem a atendeu e para quem deveria defendê-la.

Uma defensoria pública ruim

é o mesmo que impossibilitar o acesso à justiça.

Todos sabemos disso.

O tribunal deveria exonerar a defensora pública

e dar a Belén, pelo menos, um julgamento justo.

Belén tinha 24 anos quando isso aconteceu.

Agora, tem 27.

Está presa desde então.

Esperou dois anos para ouvir sua sentença.

Mais de dois anos presa sem provas,

sem risco de fuga, sem nenhum tipo de explicação.

Dois anos é muito tempo.

Mas não parece tempo suficiente para ler um processo.

Porque, se algum dos envolvidos no caso

tivesse se dado ao trabalho de ler pelo menos as provas,

teria visto que é impossível culpar alguém

por homicídio com agravante de parentesco

quando não se pode provar o parentesco.

O feto, senhores juízes, foi extraviado misteriosamente.

Não foi feito teste de DNA.

Aliás, o feto muda de ata para ata.

Dezoito semanas, feminino, em um deles.

Trinta e quatro semanas, masculino, em outro.

Aliás, como prova contundente, ele apareceu do outro lado do hospital,

o que impossibilita a realização do crime

no tempo informado.

Em plena democracia, em um hospital público,

Belén foi intimidada,

torturada e condenada na mesma noite.

Os médicos agiram como policiais.

Os policiais, como médicos.

E os juízes prenderam uma pessoa inocente sem provas.

É importante pensar por que estamos aqui hoje.

A quem a justiça defende senão pessoas como a Belén?

A justiça está nas mãos de pessoas, como dos senhores neste caso,

com suas crenças e questões

que não podem nunca estar acima do dever que desempenham.

Os senhores estão aqui, no ar-condicionado,

escutando uma defesa por escrito.

Não escutaram a verdade de Belén

nem os protestos das mulheres nas ruas.

Não escutam o choro de meninas obrigadas a parir aos 11 anos.

Nem os protestos de mulheres que pedem proteção

e são mortas por seus agressores.

Nada adianta se não derem ouvidos ao processo social

que estamos vivendo neste país.

Agora mesmo, por exemplo.

Estão escutando?

Estão escutando as mulheres na praça?

Escutem, porque os gritos não vão parar.

E se continuarem ignorando,

nenhuma lei será suficiente

quando os responsáveis por cumpri-las

são os mesmos que as corrompem.

Nenhuma justiça será o bastante.

Não haverá piedade para os mais desfavorecidos de Tucumán

se ficarmos em silêncio diante da cumplicidade.

Não contem mais com nosso silêncio.

Foi esse silêncio que manteve Belén presa até hoje.

Liberdade para Belén já!

Olhe lá fora.

Todos estão aqui por sua causa.

Justiça! Justiça!

E agora que estamos juntas!

E agora que estamos juntas!

E agora que estão nos vendo!

E agora que estão nos vendo!

Me vê outro refrigerante.

Oi.

Sim!

Sim!

Sim…

Obrigada!

Vou sair!

Vou sair!

Parabéns!

Vai, Julieta!

- Vamos? - Sim.

- Pronta? - Sim.

- Vamos? - Vamos.

Quem é Belén? Eu sou Belén!

Vamos!

Quem é Belén? Eu sou Belén!

O caso Belén mudou

a luta pela legalização do aborto na Argentina.

Quatro anos depois, mulheres e dissidentes

festejavam pelas ruas

a aprovação da Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez.

NEM UMA MULHER MORTA POR ABORTOS CLANDESTINOS

Hoje, Soledad Deza dirige a fundação Mujeres x Mujeres

na província de Tucumán.

Trabalha em defesa

de mulheres e dissidentes.

…qualquer pessoa que está presa, privada da liberdade…

Sua filha, Flora, trabalha com ela na fundação.

…sem provas, gostaria de preservar sua identidade.

SOLEDAD DEZA ADVOGADA

A liberdade e a identidade

são os direitos humanos mais básicos.

A privacidade. Até o liberalismo mais clássico defende a privacidade.

LIBERDADE PARA BELÉN

Belén saiu de Tucumán e permanece no anonimato.

Seis meses depois da libertação, foi absolvida das acusações.

Ela decidiu tornar sua história pública para evitar que o passado se repita.

Este filme é dedicado a ela.

BELÉN: UMA HISTÓRIA DE INJUSTIÇA

NÃO À CRIMINALIZAÇÃO DAS MULHERES

Legendas: Aline Leoncio

Supervisão Criativa Joao Oliveira

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