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Desce agora!
Não ouço nada!
FRENTE DE LENINGRADO, PRIMAVERA DE 1942.
ÚNICA VIA DE ABASTECIMENTO DE LENINGRADO "ESTRADA DA VIDA"
Disse para te baixares!
Mamã, mamã...
Fica abaixado! Procura abrigo!
Mamã!
Crianças! Afastem-se, depressa!
Mamã!
AÉREO
FRENTE DE LENINGRADO, AERÓDROMO, PRIMAVERA DE 1942
Pobre Zharikov. Perdeu de vista o líder da formação.
Devias ter insistido com ele. Não é a primeira vez.
E insisti.
Mas sabes bem a prática que os alemães têm.
Passaram pela Polónia, França, Inglaterra.
Os nossos só tiveram treino básico. Sabem apenas descolar e aterrar.
Nem sequer treinaram muito o tiro.
Então treina-os melhor.
Ou vais a tribunal militar. Percebido?
Percebido.
Mas são quase todos recrutas. Que posso eu fazer?
Só restamos nós os dois do antigo regimento.
Nem se sabe quantos perdemos.
Raparigas... Que fazem aqui?
Mais valia mandá-las para a cozinha.
E não só pilotos, também técnicas? Para quê?
Deviam era estar a criar filhos, não aqui a fazer figura.
Esta parece-me uma inútil.
Vê-se logo. Não é, Timofey?
Nós também não ganhávamos concursos de beleza, Kirill.
- Segunda esquadra... - Olá.
Ora bem...
Vão cozinhar, consolar-nos, lavar e cantar para nós.
Para nos animarem. E nós tratamos da luta.
Isso querias tu!
- As raparigas não deviam voar. - E tu sabes lá o que devíamos fazer!
Acham-se melhores pilotos que nós? Não são.
Claro que somos. Conhecem esta canção?
"Falemos sem dor..."
- Sabes ao menos cantar afinado? - Tu é que não sabes cantar.
São grandes e pesados. Estragam os aviões.
- Eu voo tão bem como vocês. - Ou ainda melhor.
Então são lutadoras?
Vieram só para distrair e entreter os oficiais.
Quem te disse isso?
Não somos prostitutas. Somos soldados, percebeste?
Olha o respeito. Típico homem!
- É assim que falas com uma rapariga? - Que dramáticas!
Idiotas.
- Fecha a matraca. - Nenhum respeito.
Porque é que trouxeram raparigas?
Regimento, em forma!
- Olá. - Boa tarde, senhor.
Sentido!
Olhar à esquerda!
Tenente-coronel...
Todo o pessoal presente e pronto, senhor.
Capitão Bondar, senhor.
Bom dia, esquadra!
Bom dia, tenente-coronel!
As minhas felicitações por se juntarem ao nosso regimento.
Hurra!
- À vontade. - À vontade!
Nos próximos dias irão treinar e estudar o terreno.
Depois disso, serão destacadas para missões destinadas
a proteger a única rota de abastecimento de Leningrado,
através do lago Ladoga.
Não será fácil.
Haverá baixas.
Mas manteremos a posição.
Leningrado está cercada.
Crianças, mulheres e idosos estão a ser evacuados.
A cidade precisa de comida e outros mantimentos.
Como pilotos e técnicas, têm de mostrar competência,
coragem...
e espírito de sacrifício.
Não quero lágrimas. Não suporto lágrimas.
Não, senhor!
Qualquer infração será punida.
Cobardia será julgada em tribunal militar.
Alguma pergunta?
Não, senhor!
Sem perguntas. Muito bem. Passo-vos a palavra.
Esta cama é minha.
Talvez longe da janela?
Há mesas ali. Fico com a da esquerda.
- Olá, raparigas e companheiras de combate! - Bate antes de entrar!
Não tens ar de combatente, gorducho.
- Tão pequeno e tão valente! - Tirem-no daqui.
Desculpem o de há pouco. Deixem-me apresentar-me como deve ser.
Sou a favor das raparigas pilotarem aviões.
- Marika Dolidze. - Timofey.
És georgiana? O meu avô serviu lá.
Sou sim.
- Timofey. - Olá.
- Timofey. - Sveta Frolova.
Anya Savelyeva.
- Timofey. - Masha.
- Zhenya Belova. - Timofey.
- Valya Chumakova. - Timofey.
- Katya. - Timofey.
Perdoem-nos, raparigas.
A terceira esquadra deixou uns instrumentos musicais.
Onde estão eles agora?
Já foram.
Boa noite.
Posso ter o meu pente de volta?
Adeus.
É jeitoso, não é?
E o melhor é que não é má pessoa.
Não, gosto assim.
Com licença.
- O que fazes? - Quero ver o que ainda funciona.
- Há clarinete? - Não.
Queres que eu tente contigo?
Com a tua ajuda.
Está bem, toma.
Mas fico a ver.
Estás a abusar! Então...
- Também estás a ver? - Sim.
Santo Deus...
- Dói? - Não, está bem.
- Eu consegui, tu também consegues. - Está partido.
Nem comeces!
Para. Eu trato disso.
O trompete está dobrado...
- Dá para consertar? - Não sei.
- Temos de verificar. - Mãos à obra.
Vê o radiador.
O motor está em mau estado. Devias ter vergonha.
O tubo do óleo é o problema. Abre os olhos. Está a pingar.
Eu também não tenho nada contra ela.
- Depois o Sófocles aparece, bêbedo. - Ganharemos em 1943.
Depois elogia-me.
Quero casar, ir ao lago Baikal, ter filhos.
Não conseguia ficar em casa. Queria morrer.
Os homens gozavam connosco.
Sou otimista, sabes?
Isto só pode melhorar. Não tenho medo.
Masha, como era a vida em Moscovo? Tinhas casa própria?
Tinha.
Corredores longos, quartos minúsculos, uma cozinha com janela para a parede.
E uma mesa enorme.
Quando era pequena escondia-me debaixo dela com o sal que roubava.
- Eu roubava açúcar. - E eu sal.
Desculpa, há aí um livrinho?
- Éramos sete num quarto só. - Sete?!
À nossa volta, só estepe cinzenta,
sem ninguém nem nada no horizonte.
Aqui está! Obrigada.
Às vezes o carteiro aparecia. Era um bêbedo de olhos tresloucados.
Dizia que era general, e eu acreditava.
Queria fugir, mas não conseguia.
Então, Masha, porque vieste?
A tua família ainda vive e tem dinheiro, ao contrário de nós.
Como assim "porquê"? Há tanta gente a morrer.
Os meus pais choraram quando me alistei.
Deram-me um uniforme de homem e botas enormes.
Troquei os saltos altos por botas de soldado.
Apanhámos o comboio para o treino militar, a cantar:
Adeus, adeus, minha querida Moscovo
Vou lutar contra o inimigo
Adeus, adeus, meu querido amigo
Escreve-me, meu amor
- Larga isso! - Esse é o nosso avião! Sai daí!
- Calma! Calma! - O que é que estão a fazer?
Os aviões estão agora sob o nosso comando.
São nossos! De quem foi a ordem?
- Temos ordens! E vocês? - Sentido!
- Acalmem-se. - Perguntem ao comandante!
- Não grites! - Sentido!
À vontade. O que é isto?
Porque estão a mexer nos nossos aviões, senhor?
Foi decidido transferir temporariamente os vossos aviões
para pilotos mais experientes.
Faltam-nos aparelhos, vocês ainda não estão prontas,
e precisamos de mais patrulhas.
- Mas são nossos. Pode fazer isso? - Posso e chega.
Nada aqui é vosso. Tudo isto é propriedade do Estado.
O que se passa, Vasily?
Estamos com falta de aviões, precisamos de reforçar as patrulhas.
Decidiu-se entregá-los temporariamente a pilotos mais experientes.
Quem deu essa ordem? Diz-me. Não me faças perder a calma.
O comandante do regimento? Porque não me disse ele próprio?
Vasily.
Sentido!
O Bondar quer tirar-nos os aviões. Como é possível?
Como assim?
Foi ordem tua?
Não acreditas em nós, pois não? Ou tens pena de mim?
Fala!
Vou denunciar-te. Ouve bem, vou denunciar-te.
Vem cá, Vasily.
Meto-te na prisão por insubordinação.
Fala-lhes sobre o terreno e manda-as para combate.
E se forem abatidas?
Então manda-o ser preso. É o comandante.
Se falharem que descasquem batatas na cozinha.
Agora temos raparigas. Porquê, meu Deus?
À vontade!
Porque não acreditas nelas?
Não sei.
Não são como tu.
Tu és admirável, uma valquíria. Elas não.
- Maldição! - Não estejas tão certo disso.
Todos esses recrutas meia-boca vão para combate a baixa altitude.
Serão abatidos de cima. Não tenho tempo para os reensinar.
Ouviste como as pessoas estão a morrer à fome em Leningrado?
Tantos já morreram.
Fui visitar um amigo.
Encontrei a mulher e as duas filhas mortas, comidas por ratos.
E fora da cidade, os corpos retorcidos dos soldados.
Jovens e velhos.
Queimados e esmagados por tanques.
O 2.º Exército avança, mas ninguém sabe se conseguirá.
O progresso é lento e sangrento.
Talvez rompam o cerco.
Não sei.
Lembras-te da minha amiga Sveta, a médica?
O comboio dela foi bombardeado.
Ela e todos os feridos morreram.
Não sei do meu irmão.
Ou morreu ou foi capturado.
Não sei de nada.
Porque é assim?
Não eram os alemães que deviam ter fugido?
Mas fomos nós que fugimos.
O meu pai juntou-se à milícia.
No dia seguinte, foi apanhado pela lagarta de um tanque.
Quando eu era miúdo,
os óculos dele faziam-lhe os olhos enormes,
como nos livros infantis...
Altitude 400.
200...
150...
200...
400...
- Alinhar o alvo. - A atacar.
A evadir.
Manobrar.
250...
200...
150... 100...
Dispersar.
Alinhar o alvo.
Manobrar.
A atacar.
A regressar.
Às vezes sonho com ratos, mas não tenho medo.
Estamos a construir uma torre alta juntos, sem fim.
- Continua a subir e a subir. - É bom construir qualquer coisa.
Eu sonho com o vento a arrancar as folhas das árvores.
E em dançar ballet.
E um cemitério italiano que vi num livro.
Não há ninguém lá. Parece um lugar agradável.
Zhenya, precisas de amor? Sabes, amor.
Amor é um sentimento arbitrário.
Os teus pais amam-te.
Quanto aos outros... não sei. É só solidão.
Que disparate.
- Porquê? - Porque é.
São apenas conversas vazias.
Gostava de me apaixonar.
Olha para elas. São ridículas.
Tens razão.
Apertadas umas contra as outras, como pintassilgos tontinhos.
- Pássaros pequeninos no poleiro. - A chilrearem.
- Estou certo? - Sim.
Porque estão sequer aqui?
Esperem, rapazes!
Vão chorar, assustar-se, queixar-se de nós.
Alerta aéreo!
Galya! Vai para a vala de serviço!
Alerta aéreo!
Abriguem-se!
Entrem na vala de serviço!
Baixem-se!
Abaixem-se, idiota!
Mais uma maca!
Baixem-se, disse eu!
Dá-me gazes, depressa.
Pressiona a artéria.
Estamos a perdê-la.
Pressiona aqui. Com força.
Perdoem-me, raparigas.
As minhas estrelinhas.
Foi mesmo azar.
Minhas raparigas.
Tenho pena das nossas técnicas.
Número 4 outra vez.
O Ulrich é uma máquina.
Ele aponta deliberadamente às pessoas.
Agora nós vamos ser as vossas técnicas.
Quem é o Ulrich?
Um piloto alemão. Apenas um piloto.
22!
22, responde!
22, consegues ouvir?
Não entres em combate. Recebes?
Timofey, sai daí!
18, 20 e 24 abatidos.
Não entres em combate! Recebes?
Não entres em combate.
Tenho três Messerschmitt atrás de mim. A regressar.
Timofey! Recebes? Câmbio!
- Sai daí! - Recebido. Estou sem munições...
Estou a cair.
22, responde...
- O Timofey foi abatido. - Que dia é hoje?
- Porra. - Terça-feira, 21 de abril.
Filho da mãe...
Está tanto frio.
- Reforça! Estica! - Hoje adormeci debaixo do avião.
Posso, senhoras?
Levantem-se!
Levantem-se!
Capitão, é surdo?
Cale-se!
Pois. É nervoso ou surdo? Porque está sempre a gritar?
Belova, vou denunciá-la e pô-la em serviço de fadiga.
Perdoe-as, capitão, senhor.
Elas não percebem o papel fundamental do exército desde a Antiguidade.
- Repita. - Mais alto, por favor.
Nós gostamos é de alto. Vamos assustar os fascistas.
Decidiu-se permitir que voassem missões de combate,
contra as minhas fortes objecções.
Ouviram? Vão voar em missões de combate. Decolagem em duas horas.
Vês? Eu disse-vos.
Eu disse que iríamos voar.
Deixaram-nos.
É bom que vamos voar.
- Devemos preparar-nos? - Sim, vamos.
Está tudo como querias.
És uma mulher de ferro.
É porque fiz um desejo.
Anda.
Comboio de camiões avistado. Alinhar o alvo, atacar.
Ataque! Ataque!
Atenção! 900 metros do alvo, 800, 700...
Senhor, tende piedade...
Mamã!
A atacar da direita.
Trabalhem aos pares. Uma vigia por cima.
Durante o ataque a outra move-se à direita e à esquerda em tenaz.
Disparem à vontade a 200 m.
29, não te aproximes muito de mim.
Abatemos um Messer!
Mais alemães em cima de nós!
A descer agora.
Atenção! Inimigo no sector 218.
Seis aeronaves inimigas avistadas.
A envolver o inimigo.
Os alemães estão acima de nós!
29! Inimigo às tuas 7 horas.
29! Tens um Messer no teu rabo!
29! Ejetem!
Inimigo abatido.
Manter altitude! Willi, sobe 200 metros e cola-te a eles.
A perseguir o inimigo...
Tenho o inimigo na mira. Alvo atingido.
Fui atingida. Tento nivelar o avião.
A nivelar. A nivelar.
A nivelar. A nivelar.
A nivelar. A nivelar...
Vejo o bastardo.
Das 7 às 11, o ladrão está atrás de ti. Entra nas nuvens.
Por favor, pequenina, por favor.
Por favor, meu querido avião. Continua, por favor.
Pequenina, por favor.
- Aqui é o 11. Fui atingida. - Katya, vou a caminho.
Obrigada.
Maldição. Maldição.
Aqui é o 17! Tenho um Messer...! Um Messer atrás de mim.
Recebes? Um Messer atrás de mim.
Filho da puta. Maldição!
Vou para as nuvens.
Filho da puta.
A atacar!
Anda lá! Anda lá!
Anda, anda...
Há um Messer atrás de mim! Cubram-me!
Meu Deus...
A atacar!
Fui atingido! A regressar à base!
Todos em formação!
Regressar à base.
Os alemães estão a partir. Estamos bem. Câmbio.
Mamã...
Quero ir para casa.
Mamã... por favor...
Quero ir para casa...
Então?
Terminámos. Cubram-no. Desinfetem os instrumentos.
- Tens um cigarro? - Não.
Não chores.
Não aguento mais, tenente-coronel.
Quando as trazem aqui, vêm todas a sorrir, e depois...
Não aguento mais. Estou exausta.
As minhas botas apertam demasiado.
- As minhas mãos congelam. - Não chores.
O oficial de abastecimento não parava de gritar.
Vai descansar. Arranjamos-te umas botas.
Aguenta.
Ele não parava de gritar.
Ferveste as seringas, Valya?
- Ferveste as seringas? - Ainda não. Não houve água quente.
Porque as mandam lutar? Não estão prontas.
Que posso eu fazer? São tempos difíceis. Continuam a bombardear-nos.
E perguntas porquê? As nossas perdas são grandes.
Hoje foi alto. Filhos da mãe!
Quando acaba isto? Filhos da mãe...
- O Lobanov está cá? - Morreu ontem.
Não temos pilotos suficientes.
Eu dava-lhes tempo para se prepararem, não as mandava para a luta.
Que tal se tu tomasses conta? Anda, porque não?
A estrada é ali, com miúdos e velhos a cambalear para um lado
e mantimentos a irem para o outro. Experimenta.
Cala-te.
Porque haveria eu de poupar as tuas raparigas e não os meus rapazes?
Diz-me.
Aqui não há rapazes ou raparigas. Há apenas pilotos.
Do que estás descontente?
Não era isto que querias?
Estamos juntos, com muitos rapazes e raparigas para cuidar.
Era esse o teu sonho, certo?
Todas elas vão morrer.
Rita, tenho ordens.
Defender esta estrada a todo o custo.
Estou muito ferida?
A placa de blindagem foi atingida.
Sim, estás.
Parecemos pinguins de boxers de homem.
Porque não escreves a ninguém?
Porque te interessa? Eu simplesmente não escrevo.
Tens álcool? Não consigo dormir. A cabeça não para.
Não, não tenho.
Mostra as costas, Zhenya.
O lençol está húmido. Masha, porque estás sempre a resmungar?
- Dói? - Sim.
Um segundo...
Hoje não consegui matar aquele alemão.
Hesitei e não o matei. Por isso continuou a matar outros.
Sou uma cadela, não sou? Escória.
Para com isso. Da próxima não hesitas.
Um alemão incendiou o meu avião. Quase não aterrei.
As minhas botas arderam. O avião tinha buracos por todo o lado.
Tinha óleo nos olhos. Não via nada.
Adoro crianças. E tu?
A sério, Katya?
Podem parecer ternas no início. Mas depois só piora.
Alguma vez beijaste alguém?
Quero dizer um beijo a sério, com língua.
Não na face. Masha?
Não é da tua conta, Katya. És engraçada.
Tu é que és estranha.
E tu, Zhenya?
Katya, vai dormir.
Vamos dormir, raparigas.
- Tens uma manta extra, Valya? - Não.
Meia-manta...
Aproximando-se do alvo. Dois rajados.
Dizem que os alemães estão a queimar judeus em Kiev.
A minha Sima e os miúdos estão lá.
Talvez deixem mulheres e crianças em paz?
Embora não haja menção disso no Pravda ou no Krasnaya Zvezda.
Isso quer dizer que é mentira.
- Boa tarde, senhor. - Boa tarde.
Olá.
Fiquei tão feliz por ouvir música.
Sou o Volodya Vasilyev. Apresentemo-nos.
Sou o Pavel.
Stepanov.
- Katya. - Prazer.
- Zhenya. - Sou a Marika.
- Olá. - Masha.
Fui transferido da marinha e encontrei um cão.
- Como se chama? - Ainda não tem nome. É um bom cão.
Temos de arranjar um nome.
Talvez Pierre?
Talvez Curie?
- Gelatina? - Só pensas em comida!
Talvez Cuba?
Porquê Cuba?
Não sei.
Sim, Cuba é um bom nome.
O quê?
Lembrei-me da tua juventude,
como domavas o avião ao aterrares.
O verão vem aí.
Vai fazer calor outra vez. Cadáveres vão apodrecer.
Volta a ser como era, Rita. Não consigo viver sem ti.
Podíamos adoptar um órfão. Há muitos agora.
Já que não resultou connosco.
Anda lá.
Diz aos teus rapazes para deixarem de empurrar as minhas raparigas. Está bem?
O 2.º Exército está cercado.
A nossa ofensiva falhou.
O cerco não será rompido.
Sonho contigo todas as noites.
Como se eu voasse para te salvar.
Quando acordo choro.
Porque não te encontrei.
Olá, Lev. Por aqui. Senta-te.
- Obrigado. Olá, Rita. - Olá.
Há quanto tempo? Dois anos?
Não mudaste. Come alguma coisa.
Galya! Dá-lhe algo para comer.
Há umas batatas.
- Algo quente para aquecer? - Não.
Então, o que dizes, Engenheiro?
Temos de aumentar os eforços.
O Fritz é mais rápido.
Os nossos motores sobreaquecem.
Os pilotos continuam a morrer. Todos os dias.
Teremos um novo motor.
- Quando? - Em breve.
Vai sobreaquecer, mas será mais potente. Sabemos a tua posição.
E agora o que fazemos?
Casa-te. Não sejas todo shakespeariano.
Isso cabe-nos a nós decidir.
O motor é fraco. O avião precisa de trabalho.
- Vem um motor novo. - Quando?
Obrigada, Galya.
Quando?
Há demasiadas mortes. Diz-me só.
Haverá um motor novo. Será mais potente.
E daqui a dois meses, os alemães terão aviões novos.
Ainda mais potentes.
Teremos de os alcançar outra vez.
O que queres que eu faça?
Cair de joelhos em cada campa?
Quando é que igualaremos os alemães? Sê sincero.
Até os nossos rádios são piores.
Por favor sê sincero, Lev. Quando?
Vai demorar anos.
- Rita, sai daí! - Entra. Entra.
357, sai daí. Rita, responde.
Rita, entra. Rita!
25 e 27 abatidos. Em combate. Impossível recolher.
357, sai daí!
Em combate.
A atacar. 19, protege-me.
19, ejeta!
357, responde. 357!
Abateram o último vermelho.
Sector assegurado.
- 357. - Estou aqui! A atacar! A atacar!
Impossível recolher!
Filho da mãe!
Fui atingida. O avião está a arder.
Quase... quase... A atacar... a atacar...
Força. Calma. A atacar...
A atacar... a atacar... a atacar.
357, 357, responde.
357, responde.
357, responde...
Acabou-se.
Vasily, perdeste a cabeça?
O que queres dizer com "acabou-se"?
Ela é de aço.
357...
Rita, sai daí!
357, 357, responde!
Responde...
Foi abatida durante a Guerra de Inverno. Pensámos que tinha "acabado" aí.
Não acabou.
Era inverno.
Ela voltou sozinha para a base,
e apareceu com um gatinho cheio de pulgas.
Que fez xixi nas minhas calças.
Responde, 357...
Continua a tentar.
Responde, 357...
Esta primavera está mesmo má. Pior que o Inverno.
- Que dia é hoje? - Terça-feira, 28 de abril.
Pois...
Carrega...
Aponta... Fogo!
Carrega...
Aponta...
Fogo!
Carrega...
Aponta...
Fogo!
Armas ao bolso.
Lembro-me de todos.
Bolitov. Tinha uma família grande, com quatro filhos como os meus.
O sarampo tornou a sua filha mais nova surda.
Vedernikov. Trabalhava num tractor. O irmão dele era cantor.
Mishin. A mãe dele trabalha numa quinta perto de Maloyaroslavets.
Agora vivemos por eles.
Amar a pátria implica morrer por ela?
O que é mais importante, o país ou o indivíduo?
O país.
Não achas?
A Marika não tinha medo de ratos.
Todas as raparigas tinham, excepto ela.
O pai dela gaguejava e a mãe cantava mal...
Belova, vem aqui.
Sargento Belova, senhor.
Porque não disparaste?
Porque não mataste aquele alemão?
Não consigo.
Isso não é resposta.
Eu...
Faço tudo o que me ensinaram.
Mas não consigo fazê-lo a pessoas reais.
Não tenho medo da morte. Quando...
quando a minha família morreu, aceitei-o.
Não me mintas, Zhenya. Senta-te.
Conheci o teu pai.
Era um grande piloto, um galã.
Herói da revolução que foi fuzilado.
E a tua mãe também.
Renegaste-os.
Traíste-os.
Mudaste de apelido e tornaste-te piloto
prometendo expiar os erros dos teus pais.
Eles não são eu.
Talvez eu não devesse estar aqui...
porque sou só uma rapariga.
Mas eu...
Não sei como devo voar.
Se não queres ser "só uma rapariga", posso tratar-te por Vasily.
Ou Onufry... Ivan... Boris...
Boris, o que sentirias se eu disparar contra um cavalo?
O quê? Não!
Aponta com a tua arma e mira.
Ou serás julgada sem inquérito.
Dispara. É uma ordem.
Vamos.
Então? Anda lá.
Dispara.
Dispara.
Não consigo.
Consegues olhar para crianças mortas?
Consegues ver a cidade a ser destruída?
Os teus amigos sem olhos e sem braços?
Aponta ao olho e dispara.
Fogo.
Muito bem.
Muito bem. Vais ficar bem.
És um ser estranho mas talentoso.
Quebrada, mas talentosa.
Não ouças ninguém. Esquece isso.
Sente o ar.
Sente o espaço à tua volta.
De cima, de baixo, à esquerda, à direita. Como um todo.
Vais ficar bem. Liberta-te.
Amanhã vais voar para os partidários.
Encontraram um avião danificado e um piloto morto.
Leva-o para Leningrado.
A Rita devia fazê-lo...
...mas ela não o fará.
Estás livre para ir.
Como aterrou? O chão está tão lamacento.
- Vitya, vou-me embora. - Está bem.
Cobre bem o avião.
Costumavam ser muitos. Uns foram para a floresta.
Há muitos ex-prisioneiros. As perdas deles são grandes.
Que prisioneiros?
Zhenya, há centenas de milhares de prisioneiros. O nosso povo.
E milhões de baixas. Já devias saber isto.
Ninguém nos disse nada sobre prisioneiros.
- Olá. - Olá.
- Olá. - Olá.
Espera, Vanya!
Aquela porca...
- Bang! - Exacto.
Bang-bang!
Aqui. Experimenta.
Como tiro um carregador?
Assim...
Vieste para pilotar o avião?
Sim.
Quase partimos as costas para o puxar até aqui.
Vamos pô-lo a andar, e tu segues caminho.
De onde és?
De Leningrado? Nasceste lá?
Não, sou de Moscovo.
- Levávamos comida para a cidade. - Sim, eu ouvi.
Por isso, mesmo se morrermos todos, não foi em vão.
Porque vais morrer?
Se nos encontrarem.
Encontraram os nossos vizinhos.
E abriram as barrigas às grávidas com baionetas.
Porque não vos evacuam de avião?
Abandonar todos os que estão cá a lutar?
Não é hipótese.
Ficaremos firmes aqui.
Os alemães trouxeram os tanques até aqui.
Como se nos importasse.
Não tens frio?
Não.
Porque não vais dar uma volta?
Vai lá.
O meu rapaz é calmo. Não te chateará.
Leva-o à avó se ela ainda estiver viva.
O 2.º Exército está cercado. Está mesmo mau.
E se eu for abatida?
Que seja.
Anda. Anda!
Partiste o braço da Valya, estúpido. Agora vais pagar.
Filho da mãe!
O meu pai dizia-me
que certos tipos de solo podem preservar corpos quase 1000 anos.
Pergunto-me porquê.
Adeus.
A composição, talvez.
O piloto estava morto. Mas havia combustível.
Espera! Espera!
Leva-o contigo.
Por favor. Imploro-te. Vê, é um bom rapaz.
Posso pôr-me de joelhos, se for preciso.
- Por favor... - E se eu for abatida?
Não o serás. A avó dele trabalha no Hermitage. Encontra-a.
- E se eu for abatida?! - Imploro-te. Salva-o!
Se ela estiver morta, leva-o para um orfanato.
Ele vai morrer aqui! Não vês?
Ele vai morrer aqui! Salva-o, por favor! Salva-o...
Acalma-te. Acalma-te.
Não tenhas medo, pequenino.
Não tenhas medo, querido. Serás amado.
A tua mãe não me disse o teu nome.
De que nome gostarias?
Quando a minha mãe estava grávida de mim,
achou que eu era rapaz e chamou-me Stepan.
Pequeno Stepan.
O teu nome será Stepan.
Talvez vás ser piloto.
Poderíamos voar juntos.
Stepan! O que se passa? Abre os olhos!
Anda lá! Stepan!
Stepan, querido, abre os olhos!
LENINGRADO
Tirei-os.
Continuam a bombardear.
Os meus ossos doem...
É estranho. Nunca fui ao Hermitage.
Mas sempre quis ir.
Alguém ainda lá trabalha?
Sim, os que ainda estão vivos.
Estão a remendar o telhado.
E eu apanho pássaros para a Lidia.
Escondo-me atrás daquela coluna e lanço uma manta sobre eles.
Lidia, talvez seja hora de acabar o teu trabalho?
Achei que todas as pinturas tinham sido evacuadas.
Estou a fazer estas cópias para mim.
Procuro a Anna.
É sobre um bebé.
Está no teatro. Vai lá.
Segunda fila.
Posso dar-te um bilhete para o lugar ao lado dela.
Que teatro?
Bem, ainda não estamos todos mortos.
Há o Teatro de Comédia Musical. E há também o nosso museu.
- Lidia... - Seryozha.
A Anya morreu. Podes levá-la ao porão?
Eu levo-a.
E o bebé?
Morreu.
Ela precisa de se despedir dele e de o enterrar.
Talvez seja pelo melhor.
- E o bilhete? - Vou buscá-lo.
Anna, vim por causa do teu neto.
- Já nos vimos antes? - Não, não nos vimos.
Fica calada então. Falamos depois.
Depois.
Basta. Podes fazê-lo.
Vamos lá.
O meu pai, o meu querido pai.
Disse-lhe: "A primavera vem aí.
Haverá erva e folhas. Poderemos comê-las."
E ele ficou ali a pedir comida.
Mas eu já lhe tinha dado tudo o que tinha.
Ele ficou ali, sem se levantar...
Tem misericórdia das almas dos que morreram, perdoa os seus pecados
e no Dia da Retribuição, concede-lhes a Coroa Incorruptível.
Pois só em Ti se encontra proteção, vitória e salvação.
Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo,
agora e sempre e por todos os séculos. Amém.
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FRENTE DE STALINGRADO, AERÓDROMO DE EXPEDIÇÃO, OUTONO DE 1942
Porque têm essa cara triste, rapazes? Vamos lutar.
É tão estranho ver raparigas a voar...
Sazonov! Para de olhar para a piloto.
Trata da munição.
És tão séria, tão severa. Mas tens olhos bondosos.
Os olhos não mentem.
- Assim sou eu. - Senta-te.
Brilha, brilha, minha estrela
Minha estrela do amor, sempre tão amiga...
- Aqui. - Obrigada.
Obrigado, Luba.
Porque não paras de olhar para mim?
Os meus olhos doem-me tanto.
- Por causa do stress. - Os teus também?
- E o meu pescoço. Estou a suar. - Eu também.
Mas não te preocupes. Vai passar.
- A tua papa. - Obrigada.
Não consegui dormir ontem à noite. A cabeça não parava de dar voltas.
Porque é que nunca vais connosco ao rio Volga?
Nunca tenho tempo.
27, mantém rumo para aterragem.
Nivelar. Não adormeças.
27, a tua descida é demasiado íngreme. Nivelar, nivelar.
27, não durmas! Estás a ir rápido demais! Vais embater!
Passa para modo descolagem! Ergue! Faz um círculo e volta!
- Anya! - A Anya está a arder!
A Anya está a arder! Anya!
O pior é que comecei a habituar-me a todas estas mortes.
Já não sinto nada.
Uns vêm, outros vão. Até esqueço os nomes. Não está certo, não é?
Senhor, o regimento está afetado pela fadiga.
Não dormem. Fazem tudo o que podem.
Há muitas perdas não-combatentes.
Estão todos muito cansados. Mal se aguentam de pé.
O que posso eu fazer?
Nada.
A vida deles é curta.
São como borboletas.
Põe a larga por cima.
Já chega.
Dizem que há muitas baixas em Stalingrado.
Continuo a sonhar com o meu voo final.
Com o modo como ardo.
Vamos todos arder.
Todos nós...
Vamos embora...
Quando isto acabar...
Filho da mãe!
Vem cá! Vem cá!
- Dramática. - Vai-te embora!
- Filho da mãe! - Para! Já chega.
Para que é isso?
Procurei-te por duas horas!
Porque me persegues?
Faço o que me apetece.
Disse tanta coisa ao Volodya. Disse que não o amo.
E não amo.
Porque te comportas assim?
Porque estás sempre a importunar-me com conselhos e pedidos?
És uma prostituta no comportamento.
Se o Volodya morrer, o que farás?
Achas-te melhor que os outros? Traíste o teu pai e a tua mãe.
Como sobrevives ao dia? Consegues dormir?
Não tens vergonha?
O que te dá esse direito?
Cabra! O que te dá esse direito?
O meu pai era um piloto brilhante. O melhor piloto!
Levava-me consigo.
Sabes como morreu?
Disse que era cedo demais para usar aquele motor novo.
Estranho, não?
Então foram fuzilados.
Ele e a minha mãe.
Mudei de apelido para este nojento.
Sim, sou traidora. E não, não sou melhor que os outros.
Depois veio um orfanato.
E um professor lá...
Eu era uma bailarina. Pura. Boa.
Ia sempre quando ele me chamava.
Violou-me.
Sou pior...
...pior do que todas vocês.
Mas sei que se eu sobreviver, vou encontrá-lo e matá-lo.
Matá-lo-ei.
E depois suicidar-me-ei.
E...
- Mas para quê esperar? - Zhenya! Para!
Não...
Desculpa. Desculpa. Vem cá.
Está bem, querida. Desculpa.
Está tudo bem. Acalma-te. Acalma-te. Está tudo bem.
Não te deixarei.
Depois da guerra levo-te comigo. Ouviste?
Levo-te comigo. Desculpa.
Perdoa-me.
Perdoa-me.
Pinta outra vez a estrela. Não luto por esse trabalho mal feito.
Pintei as estrelas de todos. Ficas sempre descontente.
És estranha.
Não consegues pensar em algo agradável?
Penso é que o avião está a pingar óleo.
Faz isso parar e depois falamos.
- O que posso eu fazer? - O motor está quente. Queima-me os pés.
Os novos motores não vão pingar óleo.
Sou um homem só, não uma fábrica.
Este motor é uma treta.
- Vou denunciá-lo. - Está bem.
Diz que ele rouba mantimentos. Vergonha, Stepanov.
Porque roubas galinhas às aldeias de noite?
- Chamam-te o "Flagelo da Noite". - É mentira.
Vou denunciar isso.
- Há novidades? - Nada.
Não sei o que fazer ou a quem escrever.
O que aconteceu às minhas raparigas?
Há um sábio rabino em Kiev.
Talvez as salve. Ele fala com os alemães.
O que lhes importa a minha família?
É terrível. Esta incerteza...
Amargo, porque não recebes cartas?
Não tenho ninguém.
Zhenya, eu caso-me contigo depois da guerra.
Terás filhos gordos e preguiçosos que terão tratores.
Não o ouças.
Adoto-te e os teus filhos vão ser rabinos.
Para com isso!
- Pinta isso outra vez. - Já vou.
- Amargo, pintaste mal a estrela! - Vou aquecer as mãos e pintar melhor.
Boa tarde, tenente-coronel!
Porque vens tão tarde? Apaixonaste-te por mim?
Não, senhor.
És tu que disseste que eu era Onufry.
Vais sempre sozinho. Leva-me contigo.
- Prepara-te, depressa. - Sim, senhor!
- Mityushkina! Leva o meu chapéu. - Sim, senhor!
- Pronto! - Sim, senhor!
17, com o que sonhas?
É sempre o mesmo sonho.
Danço. Entro em palco, sozinha.
Faço fouettés.
No começo corre bem...
Mas depois os meus pés sangram e caio.
Levanto-me e torno a rodar e volto a cair.
- Sonhas com os teus pais? - Quase nunca. Passa para o canal 9.
Feito.
O meu pai tinha razão.
Só agora percebo que ele tinha razão.
Todos me mentiram. Depois eu menti a mim mesma.
Queria expiar. Mas o quê?
O teu pai tinha razão.
O motor era defeituoso. Ele escreveu para Moscovo. Não acreditaram.
Foi fuzilado. Foi um erro tolo.
Porque o mataram?
É uma pergunta difícil.
A vida humana não vale nada. Os relatórios valem tudo.
Não quero morrer por esses corruptos que buscam proveitos.
Nem todos eram assim, 17.
Vi muito sangue.
Vi uma casa de nobre a arder com miúdos dentro. Também uma igreja.
Calei-me. Não contei nada.
Mas luto pelo melhor em nós, não pelo pior.
Alemão às 10 horas por cima.
- Preparar para atacar! - Sim, senhor.
A atacar.
17, acaba com o alemão.
Puxa para aqui... depois para ali... Puxa para ali... depois para aqui...
Vedei o radiador. Não adiantou. Riram-se de mim.
Vou dar uma vista de olhos.
- Faz favor. - Aguenta.
É por seres todo dedos.
- Qual é o problema? - O 12 está a gastar muito óleo.
Passa-me os alicates.
- Aqui. - E essa chave.
Masha, estás bem?
Estou.
- Foi a nossa quarta missão hoje? - Sim.
Continuei a perseguir aquele alemão
mesmo quando ele mergulhou, depois subiu e foi à direita.
E eu derrubei-o.
Derrubámos os alemães, raparigas. Derrubámo-los a todos.
Mas os jornais não escrevem sobre isso, embora pudessem.
Não querem dizer que as mulheres estão a combater.
Duvido. Somos tão poucas comparadas com os homens.
Toma.
Estamos em retirada. Os alemães estão em Stalingrado.
Um dia escreverão sobre nós.
Pergunto-me se alguém se lembrará de nós no futuro.
De como lutámos...
Nas minhas memórias, serei a heroína.
E tu serás a tirana do regimento.
O quê?!
Daqui é o 17. Quarenta até ao alvo.
- Ataque imediato ao 15. - Recebido.
Recebido...
O sino toca...
Masha, para que estás a cantar?
Vinte até ao alvo. Ataque a 150.
Daqui é o 17. Vamos a isso.
Três aviões russos às 11 horas!
Todos em formação! Às 11!
Armas livres. Atacar.
A aproximar, a aproximar...
Masha, mais à esquerda.
Circula e volta.
Repete o ataque.
Porra! Perdi-os! Acho que eram IL-2...
Vamos lá.
A envolver.
Alinhar o alvo, alinhar o alvo...
Fui atingida. Estou a arder.
Regressar à base! Masha, cobre a Katya. Já vou aí ter.
Recebido!
Idiota...
Onde está o avião?
Katya, ouves-me?
Katya, por favor usa os compensadores.
Katya, ouves-me? Estou atrás de ti.
Katya! Katya, respira. Estou atrás de ti.
Não vou conseguir. Não consigo aterrar. E estou muito baixo para saltar.
Katya, estou atrás de ti.
- Vai correr bem. - Os comandos não respondem.
Katya!
Katya, por favor usa os compensadores. Não desistas. Força. Vais ficar bem.
Vais aterrar. Anda lá.
Vais ficar bem. Aproxima-te para a aterragem.
Mantém a rota. Abre o freio. Nivelar, Katya.
Mantém a calma. Vais ficar bem.
Katya, por favor!
Não consigo aterrar.
Não consigo, Zhenya.
- A segurá-la, a segurá-la... - Estás muito baixo.
Estás muito baixo!
Não consigo aterrar, Zhenya.
Não consigo...
Andem, depressa!
Parece que está viva!
Anda!
Tirem-na de lá!
Vão embora?
Pedi transferência para outro regimento.
Foi aprovado.
Pronto, acabou.
És um idiota. Gostamos de ti.
Obrigado.
Acreditas em Deus?
Deus existe.
Tenho sempre vontade de dizer algo, mas não consigo.
Disse-te que toda a minha família morreu.
A nossa casa foi bombardeada.
Preferia que dissesses algo.
Acho que o nosso povo incarna a dor deste mundo.
E é assim que salvamos o mundo.
Assumimos os seus horrores, erros e sofrimento.
Há algo horrível e sublime nisso.
Continuo a sonhar com a Katya.
Adeus.
- O que estás a...? - Trata do cão.
- Cuidado! - Está tudo bem!
Acreditas em Deus?
Não, não acredito.
Existem equipamentos. Existem pessoas.
O resto é só uma tentativa de crer que há um mundo bom algures.
Tudo estremece por dentro.
As pessoas esquivam-se às suas responsabilidades.
Inventam uma ideia qualquer de justiça.
Ele abandonou-te, não foi?
- Vamos dar-lhe de comer. - Vamos.
- Não tremas, querido. - Ficámos só nós as duas...
Está quase no inverno.
- Cuidado. - Dá-me o meu chapéu.
- Permissão para falar, coronel? - Concedida.
- Venha à enfermaria. - Cala-te.
- Não o examinam há 3 meses. - Cala-te. Estou saudável.
- Por favor, senhor. - Estou encantado. Basta.
Sem incidentes enquanto esteve ausente, coronel.
Capitão, quer dizer, tenente-coronel Bondar.
- Pinta a estrela. - Será feito, senhor.
Por favor, tem de o convencer, senhor.
Eu tratarei disso.
Não consigo voar. Não consigo voar.
O que se passa contigo?
Tenho medo. Não consigo voar.
Vamos reportar que o avião está com defeito.
Não voas.
Que tal?
Não podemos.
A cidade está a arder. As crianças estão a arder. Não podemos.
Sentido!
Fui atingida.
Estou a arder.
Força, força.
Continua.
Por favor, por favor...
Estou a descer.
Vou ejetar.
STALINGRADO
Recuem!
Mãe! Mãe!
Tens tabaco?
Não.
És tu a piloto que caiu?
Como é estar na terra?
Não é como lá em cima.
Estou a morrer...
Conta...
Conta-me sobre Leningrado.
Tenho...
Uma filha lá, em Leningrado.
Estou preocupado.
Estão a morrer de fome lá?
Dizem...
...que morreram todos lá.
Não, não estão mortos.
Não estão a morrer de fome.
Quase não foi bombardeada.
A cidade está iluminada. As ruas estão iluminadas.
As pessoas são felizes.
As mulheres vestem vestidos.
A tua filha provavelmente está feliz.
Na verdade, com certeza está.
Os meus pais vão trabalhar todas as manhãs. Às vezes discutem.
Depois fazem as pazes. E vão passear juntos.
Têm um cão. Ele rói o roupeiro...
A mãe lavou as janelas. Vêem o rio Neva.
Faz rissóis de carne. Mas não agradam ao meu pai...
Ouves-me?
Calma...
Anda.
Agarra-a!
Soldados!
Atacar!
Atacar!
Avançar!
Avançar!
Quando a morte vier, morreremos.
Queres um cigarro?
Fumas?
Não.
- Agora fumas. - Sim.
Zhenya?
O que foi?
Vem cá.
Como te explicas?
Quase todos os rapazes estão mortos.
E tu estás viva.
Deram-te um trabalho mais fácil?
Parece que estás cá só para ser um rostinho bonito.
Não há trabalhos fáceis.
És apenas um piloto miserável.
Abre a boca.
Lembro-me de como sangrei.
Lembro-me do meu professor.
Seu filho da mãe.
Vai para a cama.
Vou confessar em breve.
Vão fuzilar-te.
Vai ficar tudo bem.
Que escolha tiveste?
Podias ter-lhe dado um tiro na perna. Porquê na cabeça? Deus...
Vou dizer que fui eu.
Para quê? Não...
Achas que os meus miúdos ainda estão vivos?
- Sim. - Pois, eu não.
Ando apenas por aí...
tento lembrar-me das suas caras mas não consigo.
És uma boa pilota. Terás família, filhos.
E eu estou sozinho.
Tal como o Stepanov.
Estamos os dois sozinhos.
Vamos sobreviver.
Acendamos um fósforo.
Se apagar em número par, fazes tu isso.
Se for ímpar, faço eu.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
Seis.
Sete.
Oito.
Nove.
Dez.
Onze.
Doze.
Treze.
Catorze.
Quinze.
Dezasseis.
Dezassete.
Dezoito.
Força.
Anda lá.
Coronel, posso ter uma palavra, senhor?
Podes.
Podia ter recusado aceitar-me.
Quem precisava de alguém como eu?
Eu não recusei, como vês.
Porquê?
Sou uma ninguém.
Porque não quis.
Então é corajoso?
O meu pai também foi corajoso.
É possível amar os mortos? Todos os mortos?
É possível. Seria bom.
Está tudo ao contrário.
Tudo estragado...
Você não é velho, sabe?
Um pouco gasto, talvez, mas não velho.
Poderia apaixonar-se por mim?
Mas tu és o Vasily ou...
Era o Innokenty? Mikhail? Somos camaradas de armas.
Eu amo-o.
Não direi a ninguém.
Enquanto esta guerra durar, estamos vivos e livres.
Não tenha medo.
Não tenha medo.
Não tenha medo.
Sem baixas hoje.
Abatemos quatro e perdemos zero. Zero baixas há três dias.
Quer dizer que aprenderam alguma coisa.
Coronel, o pessoal pergunta-se se a música estrangeira é apropriada!
Konyakhin, proíbo-te de gritares.
Vivaldi é como voar.
Devias estudar música clássica.
Vou certamente aprender mais sobre música clássica, senhor!
Estou tão bêbada, tudo me parece púrpura.
Não te preocupes.
Dizem que a bailarina Kschessinska nunca estava sóbria.
Beber faz parte da nossa cultura. Desde que a cantora esteja sóbria.
- Amargo, o que fumas? - Cigarros com sabor a Camel. Troquei.
Porque é que os americanos gostam tanto disso?
Trocaste por quê? Rações do exército? Devíamos fuzilar-te.
Não podem, a Zhenya ficaria chateada.
Ela é uma mulher formidável.
Zhenya, devíamos fuzilar esse aldrabão?
Por favor, facam-no.
A usar uma rapariga como cobertura?
Temos muitos camelos. Vai cheirá-los.
Estes são especiais.
Olha o maço. Diz “Ca-mel”.
Deve ser o nome do animal.
Não digas asneiras. Camelos de tabaco...
Porcos de veludo, cabras de perfume...
Cheguei quase a horas.
- O céu está tão limpo hoje. - Sim. A noite vai ser fria.
Ela é tão gira!
- Deixarás de me amar? - Não, Zhenya, nunca.
Talvez.
Que vergonha, um comandante que é um desastre.
O meu coração está a ceder.
Como estás agora? Tudo bem?
Sim. Estou bem.
Preciso que me ames.
Vamos envelhecer juntos. Principalmente tu.
Vou comprar-te uma bengala.
- Para mim? - Sim.
Portar-te-ás mal, e eu por vezes dou-te um estaladão.
Finalmente, passarás a ter medo de mim, e só falarás por minha ordem.
Uma mulher brilhante e um homem estúpido.
Que casal perfeito, não é?
Eu alinho, Zhenya, só não me batas com essa bengala.
Bem, isso depende de ti.
Vê como voam em harmonia.
Bom trabalho. Já perceberam.
Não foi tudo em vão...
Não foi em vão.
Lembras-te quando vim ter convosco, e nada sabia sobre vós...
ou sobre o que fazer...
E aquele cavalo também...
Lembras-te?
Alexey! Alexey...
Alexey, Alexey, olha para mim!
Alexey, olha para mim.
Socorro!
Socorro!
Socorro! Socorro!
Adeus, Alexey. Adeus.
Tão estúpido. O coração simplesmente parou.
A minha alma dói...
Toda a gente morre.
- A vitória será nossa. - Vai. Não precisamos de discurso.
Stepanov, prepara os aviões.
Ele sempre recusou fazer um exame médico.
Zombava disso. Não pudemos fazer nada.
Não mostrou sintomas. Como poderíamos saber?
Não sabíamos. A sério...
Não te faças de inocente connosco.
Com ele, senti-me livre como na minha infância.
Era tão fácil. Ele entendia-me.
E agora é isto.
Amanhã temos um dia difícil.
Devíamos ir dormir.
Estás grávida?
Não sei. Provavelmente.
FRENTE DE STALINGRADO,
AERÓDROMO DE EXPEDIÇÃO, FEVEREIRO DE 1943
Não te tortures. Numa próxima vez.
Terás filhos eventualmente.
Que inverno tão frio.
Sim, vou ter. Numa próxima vez.
Devo ter-me enganado.
Não quero que o mundo fique vazio.
O Konyakhin perdeu a voz ontem.
Os seus gritos eram tão cómicos, tão zangados e agudos!
Tirou uma bota...
E eu escondi-a.
Zhenya! Zhenya!
Zhenya! Os alemães renderam-se!
- O quê? - Renderam-se em Stalingrado!
- Como assim? - As baixas foram demasiado grandes!
- Agora vai ficar tudo bem! - Vamos vencer!
Hurra!
Os alemães renderam-se!
- Onde? Como? - Em Stalingrado!
Hurra! Renderam-se!
- Parabéns! - Não acredito!
Sabes, quando vieste,
achei ridículo as mulheres lutarem.
- Sim. - Ninguém acreditava em vocês.
- Mas o Alexey e a Rita acreditaram. - Acreditaram.
Zhenya! Zhenya, querida, vencemos!
Tenente-coronel, levante-se!
FRENTE DA BIELORRÚSSIA,
AERÓDROMO DE EXPEDIÇÃO, OUTONO DE 1943
Como estás, Belova?
Os bombardeiros responderam. Irás escoltá-los amanhã, não hoje.
Más condições meteorológicas.
Os alemães deixaram as provisões e tudo o resto para trás.
Amanhã, então.
Estamos a preparar tudo.
Estamos a avançar.
Avançar...
Mas os nossos aviões novos ainda não chegaram.
Quanto tempo teremos de esperar? O 43.º já os tem.
Terás os teus aviões novos.
Tão engraçado. Aquele Kraut nem conseguiu levantar voo.
Não tenho notícias da Masha.
Não pode estar morta. Talvez tenha encontrado os nossos.
Ainda não.
Também não encontramos o avião dela.
Vasily...
Por favor, diz-lhes para não desistirem de a procurar.
Têm de encontrar a Masha.
Ela está viva.
- Prometo que sim. - Não consigo continuar sem ela.
Temos novo pessoal. Apresento-as.
Depois de si, primeira-tenente.
Oficiais, conheçam a nossa melhor piloto, a primeiro-tenente Belova.
- Zhenya. - Farida.
- Vera. - Masha.
- Nastya. - Anya.
Marina. Li sobre si.
Podes sentar-te.
- Olya. - Valya.
Ksenia.
Quantas missões já fez?
Os alemães têm medo de si.
Muitas missões. Não sei quantas.
Eles não têm medo de nada. Não creias nos boatos.
Major, senhor.
Primeiro-tenente, tem visitas. Jornalistas de Moscovo.
O que querem eles de mim agora?
Slava, agora não posso.
Consegues inventar qualquer coisa?
Primeiro-tenente, vou ser a sua escolta.
Está bem. Como te chamas?
Marina. Yatsenko.
Quero lutar. Estou pronta a morrer, se for preciso.
Não precisas de morrer.
Dorme bem esta noite. Isso é importante.
Não estamos aqui para morrer.
Vi muita morte.
Lembro-me da Katya. Rapazes sem olhos, sem pernas...
sem braços.
Perguntava-me muitas vezes: o que é mais importante,
o país ou o indivíduo?
- Queres um cigarro? - Não fumo.
A Masha também não fumava no início.
Percebi que eram igualmente importantes.
Somos o que somos.
E não há país sem nós.
Perdi os fósforos.
Luto para que outras pessoas não morram.
Temos de manter a humanidade, não somos máquinas.
Percebido.
Primeiro-tenente, porque faltou ao exame médico?
Não escapas mesmo, pois não? Eu vou. Vou mesmo.
Não sei...
O corte está bom. Penteia para o lado.
- Faço isso. - E corta as pontas.
Quem te fez isto ao cabelo? Deixa-me arranjar.
- Shevelko, dá isto à Polina. - Está bem.
Encontrei um livro velho.
- Mostra! - Do que trata?
Vamos voar para longe. Vamos desaparecer.
Que só haja o céu à nossa volta.
E a sua pureza.
Só eu e tu.
Podemos ir a qualquer lado e fazer o que quisermos.
Sem raiva, sem medo.
Sem raiva, sem medo...
Katya, Marika, Rita, Alexey, Masha.
Onde estais?
Como estais aí em cima?
Inimigo avistado! Acho que vem sozinho. Distância 900 m.
Recebido! Ataque!
Karl! Vai pela direita! Mantém distância!
Meu Deus!
Deus...
Mamã... Papá... Vou a caminho.
Alexey, estou quase.
Alexey.
Katya!
Mamã! Papá!
Mãe! Pai! Estou a caminho.
Estou a caminho...
FRENTE DE LENINGRADO, AERÓDROMO, PRIMAVERA DE 1944
Foste tu que entraste na cozinha, Amargo?
Vou dizer ao Bondar que és tu quem anda a roubar a comida.
Não fui eu.
É mentira. Gente patética.
Chamas toda a gente de patética.
Para.
- És um rabugento. - Eu não sou um...
Masha!
Masha! Masha...
Como estás?
O avião caiu.
As mulheres da aldeia esconderam-me.
Atravessei a frente.
Fui detida e interrogada.
A história de sempre.
Minhas queridas. Minhas pilotos.
Vamos, não chores.
Eu sei. Sei de tudo.
É guerra. É assim.
Vamos.
Já chega. Não chores.
Lembras-te delas todas. Eu também.
Já chega.
- Agora vai correr tudo bem. - Pois.
Tenho tantas saudades vossas.
Vamos sobreviver.
Está tudo bem.
Vamos ganhar em breve.
- Sorri! - Agora ganharemos, com certeza.
Sorri, anda lá.
- Como vão as coisas? - Temos novas pilotos.
E aviões novos decentes.
E rádios novos e bons.
O óleo já não pinga.
Queres voar hoje?
O filme é dedicado a todas as mulheres
que lutaram na frente e nas unidades partidárias,
que salvaram vidas nos hospitais, e trabalharam na retaguarda.
Tragicamente, muitas delas não viveram para ver a vitória.
Este filme é dedicado à minha família,
aos que suportaram as provações da guerra.
Ao meu avô Igor Karmalita,
que morreu heroicamente na frente e que eu nunca conheci,
à minha avó Valentina Borshchagovskaya
que sobreviveu ao inferno da ocupação e salvou a minha mãe,
que então era uma menina,
a Yuri German, Tatyana Rittenberg-German,
Alexander Borshchagovsky, e aos meus pais
que foram assombrados pela guerra nos seus sonhos pelo resto da vida.
TODAS AS PERSONAGENS DESTE FILME SÃO FICTÍCIAS.
QUALQUER SEMELHANÇA COM PESSOAS REAIS É COINCIDÊNCIA.
NENHUM ANIMAL FOI MALTRATADO NA REALIZAÇÃO DESTE FILME.
Legendas: Nisbgui
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