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Todos nós temos algumas dívidas.
E não falo de dinheiro,
mas de gratidão.
Para ganhar tempo.
Atenção.
Sacrifício.
E isso não tem preço.
É por isso que, quando chega a nossa vez,
fazemos de tudo para retribuir.
Mesmo que isso signifique...
... termos de aceitar coisas que não queremos de todo.
THE HERITAGE
Não se trata do que eu ou qualquer outra pessoa quer,
mas do que o teu avô queria.
- É por isso que estamos aqui, querido. - Foi por isso que queimaste o avô?
Diz-se "cremar", idiota.
Era isso que o avô queria.
E não fui eu que o fiz, graças a Deus.
Está tudo em ordem. Vamos.
O mar e os cigarros eram as coisas de que o avô mais gostava.
Logo, lançar as cinzas ao mar é, para ele, uma espécie de sonho tornado realidade.
E adorava turistas mamalhudas.
E vocês, claro.
Desculpa, não me toques. Senão, desmancho-me.
Trouxeste os blazers deles?
Certifica-te de que se arranjam.
Que foi?
Girassóis.
Girassóis normais, amarelos. Rosas não.
Não. Já te disse há quatro dias.
O que é que interessa? Corta-as do jardim da tua sogra.
Tens meia hora para as levar para a capela. Tchau.
É só idiotas.
O que é que ele há de fazer? Estou-me nas tintas, pá.
Que tal a pescaria?
- Ainda estamos a pesar, mas foi boa. - E isto?
O mecânico vai ver o motor ao fim da tarde.
- Mas duvido muito. - Meu Deus...
- Se tivéssemos mais dois barcos... - Não. Por favor, Turbot.
Agora não.
Junta os rapazes e vemo-nos na missa.
E...
- Os mastros. - Bandeiras negras, já sei.
Vá, vamos lá.
Calma, são da nossa lareira.
O Johnny...
Está aqui.
CAPITÃO JAN MRÓZ "JOHNNY" NAVEGOU PARA A ETERNIDADE AOS 79 ANOS
- Podes desligá-lo? - Não. Nem um momento de paz.
Exatamente.
Hania, é um grande momento.
Não és agente funerária.
Percebes?
Claro.
Trouxeste a farda do meu pai?
Esqueci-me.
Obrigado.
Sinto muito.
Leva a farda e os miúdos para a igreja.
Nem perguntes.
Claro que o troquei.
- Onde é que está? - No carro.
Alguém da família deseja falar?
O meu pai...
... não gostava de falar.
Não suportava conversa fiada.
Vou tentar ser breve, para não o incomodar.
O Johnny foi o primeiro a nascer aqui, em Hel, após a guerra.
De certeza que vos disse muitas vezes.
E amava esta cidade acima de tudo.
Talvez mesmo acima de...
Odiava os fracassos. Não conseguia admiti-los.
Seguia sempre, muitas vezes contra o vento.
Com firmeza e rigor.
Sem reclamar.
Pai...
Prometo que farei de tudo para...
... encher-te de orgulho.
Preparar.
Apontar.
Fogo!
O que se passa ali?
- Para onde estão a ir? - Não sei.
O que se passa?
Ali.
Com licença.
Baleia-comum.
Não é vista por aqui há mais de 50 anos.
- O quê? - Uma baleia.
Tenho de a levar para a Estação Marítima.
Por favor, afastem-se!
Afastem-se.
Não acredito.
Logo hoje.
Dr. Paweł Mróz. É um assunto muito urgente. Sim.
Compreendo.
Claro, eu espero.
De todas as malditas praias de Hel, tinha de vir encalhar logo na nossa?
O velho Jóźwiak viu-a do farol.
Ele diz que o mar chora pelo Johnny.
Quem chora sou eu.
Tenho pratos a sair em 15 minutos e uma banda reservada até às quatro.
Por favor, venham comer.
- É hora do almoço. Ajuda-me. - Vou já.
Vão ter ao Kormoran.
- Xerife! - Vou já.
- Obrigado. - Anda cá.
- Ajuda-me a reuni-los. - Estou a fazer o que posso.
Peço a vossa atenção!
Estão todos convidados para ir comer ao Kormoran.
Por favor, sintam-se à vontade.
Todos são bem-vindos a juntarem-se a nós.
Por favor, juntem-se a nós.
Estão a ouvir-me?
Serei breve.
O Johnny tinha bom coração.
Faria de tudo pelas pessoas que amava e...
... ficaria chateado se, em vez de bebermos em sua honra,
ficássemos a olhar para uma baleia.
Vamos ao Kormoran.
Venham connosco.
Obrigado.
Ao Johnny!
Arenque, Senhor Presidente. A garrafa já vem.
Tudo bem, Hania.
Dá-me duas garrafas.
- Sim, patroa. - Não me chames isso.
- O Kormoran é do Paweł. - Vai remodelá-lo ou vendê-lo?
O quê?
Perguntei ao Paweł e ele disse que o bar será seu, não dele.
O Johnny estava-se a cagar para a aparência do restaurante,
mas acho que podia ser muito fixe.
Se o quiser vender, avise-me.
Não sei se devia procurar emprego.
- O que vai ser? - Três cervejas.
Mas que raio foi aquilo?
Entristeceu-me os convidados preferirem uma baleia morta ao nosso pai.
A sério? Onde raio estavas quando ele estava vivo?
Nada mudou, certo? Continuas a ser um egoísta de primeira.
E tu?
- Ainda não estás na seleção? - Vai-te lixar.
Ninguém sentiu a tua falta.
- E depois? - Nada de nada.
- Pai? - O que se passa?
Só estou a dizer "olá" ao tio Paweł.
Talvez não reconheças a minha filha.
Mas deves lembrar-te da Ola.
Senão, já te vais lembrar.
- Entra. - Vamos a um velório diferente.
Maciek, para com isso.
Não respondeste aos emails. Não estávamos à tua espera.
Surpresa.
Saúde. Vemo-nos daqui a uns anos.
Vamos, meninas.
Nada de correr!
- Está tudo preparado? - Sim.
Obrigado.
Não consegues evitar?
Aqui está.
Ele devia ter dito aquelas baboseiras quando o pai estava vivo.
Ele tem o direito de vir.
Se o tivesse levado à casa de banho, limpado o rabo,
dado medicamentos e cuidado dele, teria todo o direito.
- Para com isso. - Onde esteve nos últimos meses?
Onde esteve nos últimos anos?
Ele não quer saber do pai, nem de nós.
Só veio cá em negócios.
Há um acordo a fazer. Ambos sabemos qual.
Caguei. Ele que vá dar uma volta ao bilhar grande.
Pronto.
O sítio com a melhor vista.
E agora?
O próximo país é a Suécia.
Maciek, qual é o teu plano?
Temos de ficar uns dias.
Onde vamos dormir?
Vou ver a baleia.
Ola!
Queres que te tire uma fotografia?
Os teus seguidores vão adorar.
Estás aqui. Ainda bem que conseguiste vir.
Desculpa, querida, mas ela...
Quero dizer a baleia.
É o animal mais bonito que já vi. Mesmo estando morto.
O tempo...
... urge.
Quanto mais depressa recolhermos amostras, mais saberemos sobre ela.
Sei que precisavas de mim.
Escuta...
Eu não precisava de ti.
Ele vai ser presidente da câmara,
herdar o parque de campismo e fazer lá a Casa do Pescador.
Sim.
Certo.
Até logo.
- Desculpa. - Porra!
É essa a reação que estou a ter hoje. Tens lume?
Sim.
Como conheces o Johnny? Não pareces fã de cantigas de marinheiros.
Sou um velho amigo. Obrigado.
Maciek!
Maciek Mróz.
Weronika.
- Não! - Sim.
Wera?
Oito anos e medo de alforrecas?
Dezanove e ainda me metem nojo.
Há lixo para deitar fora.
Vamos.
- Vemo-nos por aí. - Tchau.
Como conseguiste aturar o pai?
Eu era uma chata para ele.
Pior do que uma ovelha negra.
Não sei bem.
Mãe, vamos para o campo.
Não demorem.
Estão com que idades?
O Janek tem quase 14 anos
e o Antek tem dez.
Pois.
Só tinhas visto o Antek uma vez, certo?
Exato.
- Quanto tempo vais ficar? - Dois dias.
Será tempo suficiente para irritar o grandalhão?
Para com isso.
O nosso pai queria que estivesses aqui hoje.
Sempre sonhou com isso.
"Primeiro ponto: todos devem vir."
Foi por isso que te enchi de emails.
Nem tenho o teu número atual, sabes?
Ele deixou o melhor para o fim.
Sabes que é ilegal espalhar cinzas na Polónia.
Muito oportuno dizeres isso.
Ele devia descansar ao lado da mãe. Pelo menos após a morte.
Ele queria o mar, é o que tem. Fala com ele se não te agrada.
Mas...
Uma lata de café? Estás a gozar comigo?
Ola!
Talvez devesses ficar, não?
- O quê? - Vai ser difícil.
Quando me mudei para cá,
passei um ano a vomitar sempre que entrava no barco.
- Tenho um estômago forte. - Calma.
Toma, toma.
Como estás, miúda?
Para mim, é incrível.
Porra.
O que é isso?
A aguardente do pai?
- Onde é que a arranjaste? - Fui eu que fiz.
Vamos embora daqui a uns dias.
Afasta-te ou ficarás coberta de cinzas.
A casa do meu pai ficava junto ao mar
Todas as senhoras gostavam de lá ir
Voltou a navegar e regressou a terra
Encontrou uma casa fria e vazia
Uma casa vazia junto ao mar
E ninguém vem visitá-la
Escuta...
Vou para o quarto escrever um relatório.
Precisamos do financiamento do ministério para aquela baleia.
Dorme bem.
Que foi, Turbot?
Mas que raio...
Não, não! Mas eu... Preciso de mais uma semana.
Duas, no máximo.
Claro que lhes vou pagar.
Não. Em breve, teremos...
... novos barcos, arcas, licenças, tudo para voltarmos em força.
Duas semanas.
Vocês três podem sair esta noite?
Obrigada, Turbot.
Porra!
Ligada.
Desligada.
Ligada.
Desligada.
Ligada.
Fui buscar ao cacifo das encomendas. Pode ser que te anime.
Como é que a minha caneca idiota me pode animar?
Paweł, vais construir a Casa do Pescador e vais ser presidente da câmara. Calma.
- Estás uma brasa. - Estou?
O cãozinho sentiu saudades da sua gatinha?
Desculpa, mas hoje enterrei o meu pai.
Não é uma boa altura. Não estou com disposição.
Está bem.
Podes dormir aqui, já que continuas a não gostar de mim.
E a herança...
Sim?
Está bem.
Podem entrar para a leitura do testamento de Jan Mróz.
"Eu, Jan Mróz,
nascido a 13 de julho de 1945,
exprimo a minha última vontade
num estado de espírito que me permite tomar uma decisão consciente e livre
e declaro o seguinte:
Deixo todo o meu património,
ou seja, o terreno de 16 ha situado na costa,
o parque de campismo de 4 ha e a casa,
à minha adorada e única...
... neta, Maja Mróz."
- Esta agora! - Mas que raio...
"A administração do referido património,
devido à idade da legatária, até que esta atinja a maioridade,
será atribuída ao pai, e meu filho, Maciej Mróz.
Nota final:
Nenhum homem é uma ilha.
Jan Mróz."
Vai uma pausa para fumar?
Sim. Precisamos de conversar, certo?
- Juro que não sabia. - Vai-te lixar.
Paweł!
SETE MESES DEPOIS
Podia jurar que já tínhamos tirado as redes daqui.
E tirámos.
Tirámos três focas mortas este mês.
Tirem tudo.
Não deixem restos de redes.
Limpem o fundo, está bem?
Estou?
Tens a certeza?
- Os rapazes dizem... - O quê?
- Desembucha. - O corpo está decapitado.
Legendas: Ana Filipa Vieira plint.com
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