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Tradu��o: Damnus Vobiscum
Em meu trabalho de narrador negocio com a fic��o, n�o com a mentira,
mesmo reconhecendo que a distin��o entre ambas � bastante atrativa,
o que talvez n�o seja algo f�cil para algu�m alheio aos quadrinhos entender.
Na narrativa, na arte, na escrita,
� importante que, ainda que se esteja lidando com �reas de fantasia totalmente excessiva,
sempre haja uma resson�ncia emotiva.
� importante que uma hist�ria soe real a n�vel humano,
mesmo que jamais tenha ocorrido.
Northampton, Inglaterra
Presente
A PAISAGEM MENTAL DE ALAN MOORE Escritor , Xam�
Nascido em Northampton em 1953, iniciei minha vida em uma �rea chamada The Burrows.
� a �rea mais antiga de Northampton, e tamb�m a mais pobre.
Era onde acabavam as fam�lias rurais que haviam se mudado para a cidade,
visando trabalhar nos cintur�es de transporte da revolu��o industrial.
Originalmente era um sistema de fossos e fortalezas
que circundavam o castelo de Northampton antes de sua demoli��o.
Por isso todas as ruas tinham nomes como "Local do Fosso"
ou "Rua da Fortaleza", "Avenida do Calabou�o" ou coisas assim.
E esta � uma �rea bastante incolor, triste e monocrom�tica.
Havia uma grande quantidade de fam�lias que,
provavelmente, olhando em perspectiva, eram incestuosas.
Inclusive seus c�es podiam ter l�bio leporino.
Vi-me cercado por um mundo monocrom�tico e de oportunidades limitadas.
A �nica janela que me permitia olhar para fora desse mundo t�o restringido estava
nos contos de mitologia que eu lia,
ou nas brilhantes hist�rias em quatro cores dos super-her�is.
Aventuras de pessoas que n�o tinham restri��es,
que podiam voar sobre os telhados das casas,
que podiam se tornar invis�veis.
Esta foi uma chave muito importante para uma porta muito importante.
Abriu-me uma porta para a imagina��o,
com a qual pude finalmente transcender
e escapar �s limita��es que minhas origens me impunham.
As hist�rias em quadrinhos s�o algo que leio
desde que tenho lembran�as de poder ler.
Eram uma parte essencial da exist�ncia da classe trabalhadora, era
como o raquitismo, simplesmente algo que voc� tinha.
No come�o lia quase todos os quadrinhos brit�nicos,
que apresentavam geralmente meninos da classe trabalhadora
em ambientes de trabalho,
os quais geralmente surravam seus pais e seus professores,
o que parecia ser uma fixa��o dos quadrinhos brit�nicos de minha inf�ncia.
Na maioria sempre apresentavam um mundo
que era quase indistingu�vel do mundo no qual eu vivia,
de modo que n�o podia encontrar ali um universo ex�tico
para o qual eu pudesse fugir.
Quando tinha sete anos, consegui meu primeiro quadrinho norte-americano.
Eram coisas reluzentes em quatro cores,
que em vez de se situarem em algum desconhecido cen�rio brit�nico
aconteciam em cidades como Nova York,
que para mim era t�o ex�tica quanto Marte.
A ideia de edif�cios daquele tamanho,
a ideia daquela modernidade que parecia penetrar em tudo...
Era um mundo futurista de fic��o-cient�fica.
Al�m disso, nesses cen�rios
havia aqueles personagens incrivelmente coloridos,
que possu�am poderes assombrosos e podiam transcender suas limita��es humanas.
Eu j� havia sido atra�do pela mitologia,
pelos contos de fadas,
e qualquer coisa que tivesse gente que pudesse voar
ou ficar invis�vel ou que pudesse levantar enormes montanhas,
ou fazer qualquer desses atos her�icos
pelos quais os deuses e os her�is s�o t�o famosos.
E assim, ap�s haver descoberto os quadrinhos de super-her�is norte-americanos,
foi uma transi��o bastante natural.
Ali estava aquilo, onde eu n�o precisaria ler os mesmos mitos uma vez ap�s outra,
mas a cada mes poderia ler algo novo sobre o Superman ou sobre o Flash.
E isto se tornou uma preocupa��o.
No in�cio estava mais preocupado pelos personagens em si.
Queria saber o que o Batman fazia a cada m�s.
Mais ou menos quando cheguai � idade de... digamos,
12 anos, ou talvez um pouco antes,
me interessei mais pelo que os artistas e os escritores faziam naquele m�s.
Finalmente cheguei � conclus�o de que aquelas hist�rias n�o se desenhavam sozinhas.
Havia algu�m desenhando-as, e algu�m que as escrevia.
Aprendi muito sobre os estilos dos diferentes desenhistas,
tornei-me mais criticamente apto a distinguir entre uma boa em uma m� hist�ria.
As revistas em quadrinhos eram uma boa parte de minha vida,
a qual, de um ponto de vista f�sico, estava se transformando rapidamente,
como ocorre a qualquer um nessa idade.
Sa� de minha escola prim�ria na �rea trabalhadora na qual havia nascido
e fui para uma escola secund�ria.
Bem, chamem-me de inocente, mas entrar ali
me permitiu descobrir que existiam as pessoas da classe m�dia.
Antes disso, acreditava que a �nica coisa que havia era minha fam�lia, gente como n�s
e a Rainha.
Realmente n�o sabia que havia toda uma variedade de seres humanos
entre essas duas posi��es.
Quando entrei para o secund�rio percebi que eu era um dos poucos alunos da classe trabalhadora ali,
por causa do Sistema 11+ (exame preliminar aplicado antes de entrar para o secund�rio) e seus rigores,
e que muitos dos outros garotos
haviam tido a prov�vel vantagem de uma educa��o melhor que a minha.
Deste modo, ap�s ser um aluno-estrela em minha escola prim�ria,
de estar � frente da classe por todos os anos,
e de ser um "prefectus" (aluno com fun��es disciplinares) com uma placa verde,
de repente ca� para o n�mero 19 da classe,
o que foi um golpe muito forte para meu j� abalado ego.
N�o acredito que tenha conseguido superar isso.
O certo � que no trimestre seguinte passei a ser o n�mero 25 da classe.
E creio que nos nos dois anos seguintes tornei-me o pen�ltimo.
Finalmente cheguei � conclus�o
de que n�o possu�a o que me faltava
para fazer parte desse mundo acad�mico que se apresentava diante de mim.
Coisa que me � bastante t�pica, decidi
que, se n�o podia ganhar, ent�o n�o ia jogar.
Eu era um menino cheio de manias,
que n�o suportava perder no Monop�lio, no Clue ou em qualquer coisa.
Por isso decidi
que n�o queria mais nada dessa luta pela supremacia acad�mica
ou qualquer outra coisa dessa natureza.
Depois de ter sido expulso da escola aos 17 anos de idade,
percebi que meus horizontes se fechavam rapidamente.
O diretor que havia me expulsado
tinha tornado a quest�o, creio eu, em algo quase pessoal.
Tinha escrito para todos os col�gios e escolas
nos quais eu poderia ter-me inscrito,
dizendo que sob nenhuma circunst�ncia deviam me aceitar como aluno,
pois eu exerceria uma m� influ�ncia sobre a moral dos outros estudantes.
Creio que em certa parte da carta
se refiria a mim como um sociopata, coisa que me parece um pouco severa.
O mesmo acontecia com rela��o ao trabalho.
Qualquer emprego ao qual me candidatasse demandaria uma refer�ncia da escola.
E as refer�ncias que eu tinha da escola
eram mais ou menos como a antimat�ria das refer�ncias.
Deste modo os �nicos trabalhos que podia conseguir
eram aqueles nos quais pouco importava quem era o contratado.
E assim acabei trabalhando em lugares onde animais s�o esfolados e curtumes
ao fim da Bedford Road, em Northampton,
o qual � provavelmente um dos lugares mais deprimentes em que j� estive,
onde voc� entrava �s 7:30 da manh� e tirava pesadas e gotejantes peles de ovelha
de tanques cheios de sangue coagulado, urina, �gua e excrementos.
Ali, o �nico al�vio em tudo aquilo
era o humor do tipo campo de concentra��o que nascia de
jogarmos test�culos rec�m-cortados uns nos outros para quebrar a monotonia.
E era algo realmente mon�tono.
Ap�s duas semanas fui despedido por fumar maconha em meu local de trabalho,
coisa que n�o elevou em nada a curva de minha carreira.
Meu trabalho seguinte foi limpando banheiros em um hotel
e continuei mais ou menos assim at� que finalmente acabei como escritor de quadrinhos.
Deixar meu trabalho e come�ar uma vida como escritor foi um grande risco,
foi como saltar de uma colina ou disparar na escurid�o.
Mas qualquer coisa de valor em nossas vidas,
seja uma carreira, uma obra de arte, uma rela��o,
come�ar� sempre com um salto desses.
E para estar capacitado a d�-lo,
voc� precisa deixar de lado o medo de cair e o desejo de obter sucesso.
Precisa fazer de forma pura, sem medo, sem desejo.
Porque as coisas que fazemos sem lux�ria nem ambi��es
s�o as mais puras a��es que podemos praticar.
Originalmente, tendo a ilus�o de me adequar como artista,
passei a desenhar e escrever algumas tiras
para uma revista musical e para um jornal local.
Depois de uns dois anos percebi que n�o desenhava suficientemente bem
e r�pido para fazer disso uma verdadeira carreira,
e assim comecei
a estudar a possibilidade de escrever tiras de quadrinhos para que outros as desenhassem.
Foi o que me deu alguns de meus primeiros trabalhos em lugares como 2000 AD
e o Doutor Who brit�nico mensal e semanal, que eram publicados naquela �poca.
Aprendi minha profiss�o produzindo hist�rias curtas de tr�s ou quatro p�ginas,
o que � uma excelente forma de aprender a escrever qualquer coisa,
e melhorei fazendo algumas s�ries
onde pude me colocar, por assim dizer, na natureza do material,
e pude tomar maiores decis�es e ser um pouco mais experimental.
Passei a ganhar pr�mios na Gr�-Bretanha,
o que impressionou os norte-americanos.
Os americanos tendem a pensar que todo pr�mio � um Oscar,
e n�o percebem que os pr�mios da ind�stria de hist�rias em quadrinhos
s�o votados por 30 pessoas que vestem anoraks e possuem vidas sociais assustadoras.
Mas, at� onde eles sabiam,
se havia ganho pr�mios, ent�o eu era um g�nio ingl�s.
E assim eles sugaram meu c�rebro at� a Am�rica
e me puseram para trabalhar na DC com O Monstro do P�ntano,
o que causou uma certa revolu��o,
e fez com que pelo menos a DC confiasse o bastante em mim para dar-me outros projetos,
dando-me novamente a oportunidade de escrever qualquer coisa que eu quisesse.
Isto levou a Watchmen na metade dos anos 80,
e este foi um dos livros
respons�veis pela rid�cula febre publicit�ria
que fez com que os quadrinhos e as graphic novels,
como algu�m do departamento de marketing decidiu que deveriam ser chamadas,
se tornassem populares.
Entrei no ritmo de minha carreira de escritor no in�cio dos anos 80,
um per�odo muito carregado politicamente.
A maior parte do mundo liberal olhava com terror a ascens�o inexor�vel
da coaliz�o direitista e fodida de Reagan/Thatcher.
Ao mesmo tempo t�nhamos elementos de fascismo que come�avam a
fazer-se ouvir nas ruas da Gr�-Bretanha
com a ascens�o da Frente Nacional,
e as coisas se viam bastante tristes.
Decidi que se queria escrever sobre este presente depressivo,
a melhor maneira de faze-lo
era com uma hist�ria ambientada no futuro,
coisa que n�o �, de nenhum modo, um recurso novo.
A maior parte da fic��o-cient�fica dist�pica n�o trata, na realidade, do futuro,
mas sim do tempo no qual foi escrita.
E o roteiro que fiz para V de Vendetta n�o foi exce��o.
Era ambientado no que, naquela �poca,
parecia um inalcan��vel momento no futuro, ou seja, em 1997,
quando a Gr�-Bretanha se achava dominada por uma coaliz�o de grupos fascistas
e com um aventureiro anarquista muito rom�ntico que se op�e a tudo isso.
Para comunicar a ideia de fascismo,
eu precisava de um s�mbolo que convencesse os leitores
de que estavam diante de um estado policial fascista.
A coisa pela qual finalmente me decidi
foi p�r c�meras de seguran�a montadas em cada esquina,
as quais vigiavam cada movimento.
Imaginei que isso se pareceria bastante com o fascismo em a��o
e que os leitores ficariam igualmente impressionados,
e aparentemente tamb�m se sentiram assim as figuras do governo que devem ter lido a hist�ria naquele momento,
e que decidiram que c�meras de seguran�a em cada esquina
era justamente o que precis�vamos para o final dos anos 90.
"Boa noite, Londres. S�o nove em ponto e esta � a Voz do Destino,
transmitindo entre o 275 e o 285 AM".
"Estamos em 5 de novembro de 1997".
"Avisamos que os habitantes das �reas de Brixton e Streatham
est�o hoje sob quarentena".
"Sugerimos evitar estas �reas por raz�es de sa�de e seguran�a".
"A pol�cia isolou 17 locais na �rea de Birmingham hoje pela manh�,
desfazendo o que se acredita seja uma grande rede terrorista".
"20 pessoas, oito delas mulheres, est�o detidas aguardando julgamento".
"A Rainha Zara participou da abertura de uma nova f�brica beneficiadora de res�duos em Plaistow".
"Esta foi sua primeira apari��o p�blica desde seu anivers�rio, em 16 de junho".
"A Rainha trajava um vestido de seda
criado especialmente para a ocasi�o pelos costureiros reais".
Watchmen tamb�m surgiu da sombria paisagem pol�tica dos anos 80,
enquanto a Guerra Fria alcan�ava seu ponto mais quente em 20 ou 30 anos,
e quando a destrui��o nuclear parecia, repentinamente, uma possibilidade real.
Watchmen utilizou os clich�s
do formato de super-her�is
para provar e discutir as no��es de poder e responsabilidade
em um mundo cada vez mais complexo.
Tratamos estes personagens super-humanos verdadeiramente rid�culos
mais como "humanos" do que como "super".
Usamo-nos como s�mbolos
para diferentes tipos de seres humanos comuns, ao inv�s de diferentes super-seres.
Penso que havia algumas coisas em Watchmen
que sintonizavam bem com aqueles tempos,
ainda que para mim, talvez, o mais importante fosse a narrativa,
na qual o mundo que era apresentado n�o possu�a coer�ncia
em termos lineares de causa e efeito.
Pelo contr�rio, era visto como um evento simult�neo e altamente complexo,
com conex�es feitas a partir de coincid�ncias, sincronias.
E creio que foi esta vis�o mundial, de qualquer forma,
que alcan�ou eco no p�blico,
o qual percebeu que sua vis�o pr�via do mundo
n�o se adequava �s complexidades
deste sombrio e aterrorizante mundo novo no qual est�vamos entrando.
Acho que Watchmen, se tinha algo a oferecer,
trouxe novas possibilidades para a forma como percebemos o ambiente que nos rodeia
e as intera��es e rela��es entre as pessoas que nele se encontram.
"DI�RIO DE RORSCHACH"
"12 de outubro de 1985:"
"A carca�a de um c�o na rua esta manh�",
"marcas de pneu em seu ventre destro�ado. Esta cidade me teme.
"Eu vi seu verdadeiro rosto".
"As ruas s�o esgotos e os esgotos est�o cheios de sangue
e quando os ac�mulos criarem crostas todos os vermes se afogar�o".
"A sujeira acumulada de todo seu sexo e assassinato
far� espuma sobre seus restos
e todas as putas e pol�ticos olhar�o para cima e gritar�o 'salva-nos'"
"E eu olharei para baixo e sussurrarei: 'N�o'".
"Parado junto ao fogo,
sangue escorrendo pelo peito como o mapa de um violento novo continente".
"Senti-me purificado,
senti o planeta escuro ruir sob meus p�s
e soube o que faz gritarem os gatos como beb�s na noite".
"Olhei atrav�s da fuma�a suspensa no c�u, pesada como gordura humana,
e Deus n�o estava l�".
"A fria e sufocante escurid�o continua eternamente, e estamos sozinhos".
"Este mundo oscilante n�o � feito de vagas for�as metaf�sicas".
"N�o � Deus quem mata as crian�as, nem a F� que as massacra,
ou o Destino que as lan�a para os c�es".
"Somos n�s".
"Unicamente n�s."
Cada vez que algu�m fala sobre quadrinhos,
habitualmente transforma em um grande assunto as similaridades entre os quadrinhos e o cinema.
Concordo que um autor de quadrinhos que entenda as regras cinematogr�ficas
ser� provavelmente um melhor criador do que outro que n�o as conhe�a.
Sinto que se vermos os quadrinhos apenas em sua rela��o com os filmes,
ent�o o melhor que poderemos fazer ser�o filmes que n�o se movimentam.
Em meados dos 80, tentei me concentrar
naquilo que apenas os quadrinhos poderiam conseguir.
A maneira como uma grande quantidade de informa��o
pode ser inclu�da em cada quadrinho,
a justaposi��o entre aquilo que o personagem diz
e o que pode representar a imagem que o leitor est� vendo.
Assim, de certa forma, creio que se pode dizer que grande parte de meu trabalho,
dos anos 80 em diante, era mais ou menos desenhado para ser infilm�vel.
Foi o que tive que explicar a Terry Gilliam
quando ele foi originalmente escolhido como diretor
da t�o discutida pel�cula Watchmen.
Percebi que estava me tornando uma celebridade, coisa que jamais esperei,
levando em conta que ser escritor de quadrinhos
era a profiss�o mais obscura do mundo quando entrei para essa atividade.
O problema com a fama � que a fama
da forma como hoje a conhecemos n�o existia antes do s�culo XX.
Anteriormente, inclusive quando voc� era muito, mas muito conhecido,
isso implicava em s�-lo entre umas 100 pessoas quando muito,
no caso de voc� ser um Papa ou algo assim.
No s�culo XX,
com os meios de comunica��o em massa,
de repente tornou-se poss�vel outra forma de fama.
Tendo a pensar que o que a fama fez foi substituir o mar
como a escolha b�sica para a aventura
entre os jovens.
Se voc� fosse um jovem audacioso no s�culo XIX,
escolheria provavelmente atravessar o mar,
exatamente como no s�culo XX
poderia decidir escapar e formar uma banda pop.
A diferen�a � que, no s�culo XIX, antes de fugir para o mar,
voc� teria ao menos algum conhecimento sobre o que era esse elemento
com o qual ia lidar, e provavelmente, digamos, aprenderia a nadar.
A quest�o � que n�o h� manual sobre como lidar com a fama.
Voc� se torna um admir�vel jovem
que fez um bom quadrinho, um bom filme ou um bom livro,
ao qual se diz de repente que � um g�nio
e que acredita nisso
e que se consome rindo e se divertindo entre as ondas da celebridade
e cujo corpo empapado de hero�na � arrastado semanas depois
pelas manchetes dos jornais.
Nunca assinei nada para ser uma celebridade,
e logo percebi que n�o estava nem um pouco de acordo com isso.
Notei que as celebridades s�o uma esp�cie de ind�stria, um tipo de colheita.
Os magnatas dos meios de comunica��o, como Rupert Murdoch
ou as pessoas que dirigem as grandes redes
precisam de um constante fluxo de celebridades
para encher os espa�os e as colunas de suas revistas, para ocupar tempo em seus programas,
e, como as celebridades tendem a queimar-se rapidamente,
� preciso criar outras novas constantemente.
Eu realmente n�o queria fazer parte de todo esse processo,
e assim me retirei para a relativa obscuridade de Northampton.
Em meu anivers�rio de quarenta anos,
ao inv�s de aborrecer meus amigos com algo t�o banal quanto uma crise de meia-idade,
decidi que seria muito mais interessante
aterroriza-los tornando-me complemente louco,
autoproclamando-me um mago.
Isto j� vinha sendo preparado fazia algum tempo,
e me parecia um passo final l�gico em minha carreira como escritor.
O problema � que, com a magia,
que � em muitos aspectos uma ci�ncia da linguagem,
� preciso ser muito cuidadoso com aquilo que se diz.
Porque se repentinamente voc� se declara um mago
sem possuir conhecimento sobre as implica��es disso,
� prov�vel que algum dia voc� acorde
e descubra que � isso, exatamente, o que voc� �.
H� alguma confus�o a respeito do que a magia realmente �.
Penso que podemos esclarecer isto
analisando as descri��es mais antigas da magia.
A magia em sua forma inicial era habitualmente designada como "A arte".
Acredito que isto seja inteiramente literal.
Acredito que a magia � arte, e que essa arte, seja a escrita,
a m�sica, a escultura ou qualquer outro meio, � literalmente magia.
A arte �, como a magia, a ci�ncia de manipular s�mbolos,
palavras ou imagens, para obter altera��es de consci�ncia.
A verdadeira linguagem da magia
trata tanto da escrita como da arte, e tamb�m sobre fatos sobrenaturais.
Um grim�rio, por exemplo, um livro de feiti�os,
� um modo extravagante de falar de gram�tica.
De fato, "cast a spell", em ingl�s,
� apenas "spell", soletrar, manipular palavras para alterar a consci�ncia das pessoas.
Por isso creio que um artista ou um escritor
s�o o mais pr�ximo que existe de um xam� no mundo contempor�neo.
Creio que toda cultura deve ter surgido de um culto.
Originalmente, todas as facetas de nossa cultura,
seja nas ci�ncias ou nas artes, eram territ�rios dos xam�s.
O fato de que na atualidade
tal poder m�gico tenha se degenerado
ao n�vel de entretenimento barato e manipula��o
� uma trag�dia.
Atualmente, aqueles que usam o xamanismo e a magia
para dar forma � nossa cultura s�o os publicit�rios.
Ao contr�rio de despertar as pessoas,
seu xamanismo � usado para droga-las e tranquiliza-las,
para torna-las mais manuse�veis.
A caixa m�gica da televis�o,
com suas palavras m�gicas, seus jingles,
pode fazer com que todos no pa�s pensem nas mesmas palavras
e tenham os mesmos pensamentos banais exatamente ao mesmo tempo.
Em toda magia existe um incrivelmente grande componente lingu�stico.
A tradi��o m�gica dos bardos
situa estas pessoas
em um lugar mais alto
e mais tem�vel que um mago.
Um mago pode te maldizer,
o que pode fazer com que suas m�os se movam de forma estranha,
ou que voc� tenha um filho com um membro de madeira.
Um bardo n�o te maldiria, mas faria uma s�tira,
algo que poderia te destruir.
Se fosse uma s�tira brilhante,
n�o te destruiria somente aos olhos de seus associados;
te destruiria aos olhos de sua pr�pria fam�lia,
e te destruiria ao seus pr�prios olhos.
E se fosse uma s�tira finamente elaborada e muito astuta
que sobrevivesse para ser recordada durante d�cadas, e inclusive s�culos,
ent�o mesmo anos depois de sua morte
as pessoas ainda a leriam e ririam de voc�,
da sua ru�na e de seu absurdo.
Os escritores e outros que podiam comandar as palavras
eram respeitados e temidos
como pessoas que manipulavam a magia.
Nos �ltimos tempos, creio que os artistas e escritores se permitiram ser vendidos ao longo das vitrines.
Aceitaram a cren�a predominante
de que a arte e a escrita s�o simplesmente formas de entretenimento.
N�o s�o vistos como for�as transformadoras
que podem mudar uma pessoa e mesmo uma sociedade.
S�o vistos simplesmente como entretenimento,
algo com que podemos encher 20 minutos ou meia hora
enquanto esperamos morrer.
N�o � trabalho de um artista dar � audi�ncia o que a audi�ncia quer.
Se o p�blico soubesse o que quer,
n�o seria o p�blico, mas sim o artista.
O trabalho de um artista � dar ao p�blico o que ele necessita.
Minha carreira como mago prossegue evoluindo.
Desde o momento em que eu creio que, at� certo ponto,
a arte e a magia s�o intercambi�veis,
me parece natural
que a arte seja o meio pelo qual eu expresse minhas ideias m�gicas.
Isto se manifesta na prosa que escrevo,
em trabalhos como Voice of the Fire
e provavelmente com maior visibilidade
foi introduzido nas obras de performance
que tenho feito em v�rios lugares desde 1995.
Bonitos dispositivos psicod�licos por sua pr�pria natureza,
que capturam o tipo de viagem narrativa
no qual tentamos envolver os leitores como parte dessas performances
para arrasar com a sensibilidade da audi�ncia,
para mergulha-la
em certo estado psicod�lico,
com o qual, com alguma sorte, podemos alterar seu estado de consci�ncia
e dirigi-la para lugares e n�veis diferentes,
talvez para espa�os novos e m�gicos.
Quando fazemos a vontade de nosso verdadeiro Eu,
estamos inevitavelmente fazendo a vontade do universo.
Na magia, estas duas coisas s�o indistingu�veis.
Cada alma humana �, de fato, uma alma,
e � tamb�m a alma do universo inteiro.
E enquanto fizermos a vontade de todo o universo,
� imposs�vel que fa�amos algo errado.
O assassinato
� algo conectado intrinsecamente � sociedade, de v�rias maneiras.
E com From Hell
o que n�o quisemos foi criar um "quem fez isso?",
mas sim criar algo que questionasse "o que aconteceu?",
onde pud�ssemos seguir todos os rastros
at� o cora��o do assassino
e ali ver em que esp�cie de lugares nos seria permitido adentrar.
�reas como hist�ria, ocultismo, mitologia, arquitetura,
quest�es sociais.
Todas estas �reas tinham seu efeito
ao formar o mundo no qual os crimes ocorreram,
e me parecia importante
investigar todas estas possibilidades,
para tentar criar um mapa deste evento
que inclu�sse
todas estas diferentes �reas
que geralmente n�o s�o inclu�das quando se estuda um homic�dio.
N�o me preocupava o "quem fez isso?",
estava interessado no que havia acontecido
e tamb�m nas causas de tudo aquilo.
O local no qual os deuses e dem�nios existem indiscutivelmente
� a mente humana,
onde s�o reais em toda sua grandiosidade e monstruosidade.
Grande parte da magia, como a entendo, na tradi��o ocultista ocidental
� a busca pelo Eu em letra mai�scula.
� o que se entende como a Grande Obra,
como o ouro que os alquimistas buscavam,
como a Vontade, a Alma,
o que est� dentro de n�s e o que est� por tr�s do intelecto, do corpo e dos sonhos.
Nosso d�namo interior, se preferir.
Portanto, esta � a coisa mais importante
que podemos obter:
o conhecimento de nosso verdadeiro Eu.
No entanto, h� uma espantosa quantidade de pessoas
que n�o s� tem a urg�ncia de ignorar seu Eu,
mas que tamb�m tem a urg�ncia
de anular-se.
Isto � algo horr�vel,
mas pode-se quase entender
o desejo de simplesmente desaparecer,
essa consci�ncia,
porque � muita responsabilidade
possuir algo como uma Alma, algo t�o precioso.
O que acontece se voc� a quebrar? O que acontece se voc� a perder?
Deve ser bem melhor anestesia-la, acalma-la, destrui-la,
para n�o viver com a dor
de lutar por ela e tentar mante-la pura.
Creio que a forma como as pessoas se perdem no �lcool,
nas drogas, na televis�o,
em qualquer dos v�cios aos quais nos lan�a a nossa cultura,
pode ser vista como uma tentativa deliberada
para destruir qualquer conex�o
entre n�s
e a responsabilidade de aceitar e possuir um Eu superior,
para em seguida precisar mante-lo.
Na �poca em que eu escrevia O Monstro do P�ntano, que eram claramente quadrinhos de terror,
descubri que n�o adiantava muito
simplesmente submeter os leitores ao terror em cada n�mero.
Precisava fazer outras coisas
para aliviar as caracter�sticas repetitivas do terror,
o que poderia torna-lo uma revista med�ocre.
Decidi que poderia ser �til
tentar conectar os elementos de terror fant�stico de nossa imagina��o,
lobisomens, vampiros, zumbis e coisas assim,
com os horrores da vida real:
racismo, sexismo, contamina��o, o colapso ambiental.
E assim esses temas sociais introduziram
parte do peso que a fic��o fant�stica pode oferecer.
A maioria de n�s tem pouco a temer com rela��o aos vampiros.
Entretanto, vivemos em culturas
que s�o igualmente perigosas,
apesar da inexist�ncia dessas terr�veis for�as sobrenaturais.
Algo que fiz
foi uma hist�ria onde exploramos as possibilidades er�ticas do Monstro do P�ntano.
Achei que se podiam encher uma hist�ria ap�s outra, todos os meses, com lutas,
seguramente eu poderia encher pelo menos uma hist�ria
com um ato sexual. Com certeza isso � t�o interessante quanto uma luta.
A hist�ria foi muito bem recebida,
o que me levou a pensar seriamente sobre as possibilidades do erotismo,
ou, como prefiro dizer, a pornografia.
A diferen�a entre as duas palavras
estar� nos ingressos que o leitor tenha.
Nos anos 90
conheci Melinda Gebbie
e decidimos que ir�amos trabalhar juntos
em uma obra importante de narrativa er�tica,
o que deu como resultado Lost Girls.
O drama desta hist�ria corre contra o fundo da Europa,
e, em particular, da �ustria em 1913,
quando tudo est� sendo preparado para a exata ant�tese do sexo.
Tudo nesse momento se dirige para aquilo que os humanos fazem
quando n�o p�em suas energias no sexo:
matarem-se uns aos outros.
Porque o impulso sexual saud�vel
que governa muitos jovens
durante a adolesc�ncia
� pervertido por homens mais velhos,
que talvez tenham perdido parte de seu impulso sexual.
Toda essa energia sexual
� enviada diretamente de algum lugar como Flandres
e � pervertida para causar a morte de outros jovens.
Energia que deveria ir para algo honesto como o sexo
� desviada para algo atroz como o assassinato.
H� una rela��o do sangue que vai do p�nis ao c�rebro,
que tende a se manifestar quando se escreve pornografia.
Se for muito inteligente, todo seu sangue vai para o c�rebro
e sua ere��o se v� perdida.
Se for muito excitante sexualmente,
voc� j� n�o estar� em condi��es de apreciar seus valores est�ticos.
� um equil�brio dif�cil.
Meu pensamento sobre a pornografia
tende a girar sobre o fato de que enquanto alguns de n�s s�o zumbis,
detetives, cowboys ou astronautas,
h� uma quantidade infinita de livros
que contam hist�rias sobre esses modos de vida.
De qualquer forma, todos n�s temos sentimentos e opini�es sobre sexo.
A �nica forma de arte
apta para discutir o sexo, ou representar o sexo
� esta manuseada, desprezada
e subestimada forma de arte que n�o possui nenhuma bandeira.
Lost Girls foi criado para remediar isto.
Porque n�o h� raz�es pelas quais uma obra de literatura
que trata puramente de sexo
n�o possa ser t�o bela, t�o significativa
nem possuir personagens cativantes
como qualquer outra obra de fic��o.
Tenho estudado sobre a hist�ria do pensamento m�gico
e o ponto onde come�ou sua decad�ncia.
Em meu entender, o ponto onde come�a a decair � o monote�smo.
Quer dizer, se voc� olha para a hist�ria da magia,
ela tem suas origens nas cavernas.
Tem suas origens no xamanismo,
no animismo,
na cren�a de que tudo que te rodeia, cada �rvore, cada rocha, cada animal,
� habitado por algum tipo de ess�ncia,
um tipo de esp�rito com o qual voc� talvez possa se comunicar.
Havia um xam� ou um vision�rio
que seria o respons�vel por canalizar
as ideias �teis para a sobreviv�ncia.
No momento em que voc� analisa as civiliza��es cl�ssicas,
voc� v� que tudo isto foi formalizado at� um certo grau.
O xam� atuava puramente como intermedi�rio
entre os esp�ritos e as pessoas.
Sua posi��o na aldeia ou na comunidade, imagino, era a de um encanador espiritual.
Cada indiv�duo no grupo teria passado por seu pr�prio desenvolvimento.
A pessoa que se destacasse durante a ca�a seria um ca�ador,
a pessoa que melhor falasse com os esp�ritos,
talvez porque estivesse um pouco louca,
um pouco separada de nosso mundo material normal,
estas se tornariam xam�s.
N�o seriam mestres de uma arte secreta,
mas simplesmente dividiriam suas informa��es com a comunidade,
porque acreditava-se que isto era algo �til para todo o grupo.
Quando do surgimento das culturas cl�ssicas,
tudo isto se formalizou para que houvesse os pante�es de deuses.
E cada um desses deuses possu�a uma casta de sacerdotes
que at� certo ponto atuariam como intermedi�rios
que instruiriam voc� na adora��o desse deus.
Ent�o, a rela��o entre os homens e seus deuses,
que pode ser vista
como a rela��o entre os humanos e seus Eus superiores,
n�o era ainda feita diretamente.
Quando chega o cristianismo, quando chega o monote�smo,
de repente temos uma casta sacerdotal
movendo-se entre o adorador e o objeto de sua adora��o.
Temos uma casta sacerdotal transformando-se em
uma esp�cie de ger�ncia mediadora
entre a humanidade e a divinidade que esta est� buscando.
J� n�o temos mais uma rela��o direta com o deus.
E os sacerdotes tamb�m n�o possuem, necessariamente, uma rela��o com o deus.
Eles apenas t�m um livro que fala sobre pessoas que viveram h� muito tempo,
as quais tiveram uma rela��o direta com a divindade.
E assim est� �timo.
Voc� n�o precisa ter vis�es milagrosas,
n�o precisa de deuses falando com voc�.
De fato, se te acontecer algo assim, provavelmente voc� est� louco.
No mundo moderno, essas coisas n�o acontecem.
As �nicas pessoas �s quais � permitido falar com os deuses,
e de um modo unilateral, s�o os sacerdotes.
O monote�smo �, para mim, uma grande simplifica��o.
A Cabala tem uma grande variedade de deuses,
mas acima da escala, da �rvore da Vida,
existe uma esfera que � o Deus Absoluto.
A M�nada. Algo que � indivis�vel.
E todos os outros deuses,
e de fato tudo mais no universo, � como uma emana��o desse Deus.
At� a� tudo bem. Mas quando se sugere que
h� apenas esse Deus,
a uma altura inalcan��vel acima da humanidade,
e que n�o h� mais nada de interm�dio,
limita-se e simplifica-se o assunto.
Tendo a pensar no paganismo
como um tipo de alfabeto, de linguagem.
E � como se todos os deuses fossem letras dessa linguagem.
Expressam matizes,
sombras do significado,
uma certa sutileza das ideias.
Enquanto que o monote�smo � uma s� vocaliza��o, algo como: "Oooouh".
� uma sonoridade simiesca.
Quase se pode imaginar os deuses
frustrados, depressivos.
E toda essa riqueza de conceitos espirituais est� indispon�vel,
porque a reduzimos a uma aborrecida e simples nota
que nem sequer quem fala sobre o tema consegue entender.
Os alquimistas tinham dois componentes em sua filosofia.
Eram os princ�pios de 'Solve et Coagula'.
'Solve' era basicamente o equivalente da an�lise,
separar as coisas para ver como funcionavam.
'Coagula' era basicamente a s�ntese,
ou seja, colocar todas as pe�as separadas juntas outra vez,
para que funcionem de modo mais eficaz.
Estos s�o dois princ�pios muito importantes
que podem ser aplicados a quase qualquer coisa na cultura.
Ultimamente na literatura, por exemplo,
houve uma corrente do p�s-modernismo, o desconstrucionismo.
Isto � 'Solve'.
Talvez seja o momento, nas artes, para um pouco mais de 'Coagula'.
Tendo desconstru�do tudo,
talvez seja a hora de come�ar a pensar em como p�r todas as pe�as juntas em seu lugar.
O espiritualismo era o estado natural
do pensamento humano at� o Renascimento e
a subsequente Idade da Raz�o que se seguiu.
Nossa forma original de ver o mundo
era como um lugar totalmente habitado por esp�ritos,
onde tudo possu�a sua ess�ncia interior,
onde tudo era, de certo modo, sagrado, incluindo n�s mesmos.
A Idade da Raz�o mudou tudo isso.
Se por um lado � indiscut�vel que a raz�o trouxe grandes benef�cios,
e que foi uma etapa necess�ria para o nosso desenvolvimento,
infelizmente tamb�m nos levou ao materialismo,
onde o mundo material
foi visto como o come�o e o fim absolutos da exist�ncia,
onde inevitavelmente �ramos vistos como criaturas sem dimens�es espirituais,
que n�o possu�am almas, vivendo em um universo sem alma, de mat�ria morta.
Em meados dos anos 80 uma institui��o legal americana conhecida como Instituto Cr�stico
pediu-me que compilasse uma revista com os sombrios detalhes da hist�ria da CIA
desde o final da Segunda Guerra Mundial at� a atualidade.
Inclusive tratando de assuntos como o contrabando de hero�na durante a guerra do Vietn�,
o contrabando de coca�na durante a guerra na Am�rica Central,
o assassinato de Kennedy e outros pontos altos.
O que aprendi durante esta horr�vel pesquisa
foi que devia me mover com cautela para concluir a tarefa,
j� que sim, existe uma conspira��o.
E de fato h� uma grande quantidade de conspira��es que atropelam umas �s outras.
E todas estas conspira��es
s�o controladas por fascistas paran�icos e palha�os torpes.
Se voc� estiver em uma lista marcada pela CIA,
realmente n�o tem com o que se preocupar.
Mas se, ao contr�rio, tiver um nome parecido
ao de algu�m que esteja em uma lista marcada pela CIA, voc� est� morto.
A principal coisa que aprendi sobre as teorias de conspira��o
� que os te�ricos da conspira��o acreditam realmente em uma conspira��o
porque � algo c�modo.
A verdade sobre este mundo � que ele � ca�tico.
A verdade � que n�o h� uma conspira��o de banqueiros judaicos,
nem aliens cinzentos ou reptilianos com tr�s metros de altura de outra dimens�o que controlam tudo.
A verdade � muito mais espantosa:
ningu�m est� no controle. O mundo est� vagando.
A subst�ncia que possui maior efeito sobre nossa cultura
e sobre nossas vidas � completamente invis�vel.
S� podemos ver seus efeitos. Essa subst�ncia � a informa��o.
A ci�ncia come�ou como algo derivado da magia.
As duas se divorciaram por completo e se tornaram amargas inimigas.
No entanto, tendo a pensar que na atualidade
as duas est�o crescendo juntas outra vez.
Recentemente li que
as pessoas que est�o � frente das pesquisas qu�nticas
acreditam que a informa��o � uma "subst�ncia super-estranha",
para citar a express�o que utilizaram,
e que essa subst�ncia subjaz em todo universo,
sendo algo mais fundamental que a pr�pria gravidade
ou o eletromagnetismo, e mesmo ambas as for�as nucleares.
Isto poderia sugerir que
todo nosso universo f�sico n�o passa do produto secund�rio
de uma informa��o prim�ria.
Ou, utilizando termos mais aceit�veis para a magia:
"No princ�pio era o Verbo."
Tal como entendo a teoria da duplica��o peri�dica da informa��o,
esta indica que se pegarmos um per�odo da informa��o humana,
que poderia partir do momento em que se inventou o primeiro machado de s�lex,
digamos, entre 50.000 a.C. at� o ano 1 d.C.,
teremos assim um per�odo de informa��o humana e poder�amos medi-lo,
considerando a quantidade de inven��es humanas que surgiram durante esse tempo.
Ent�o calculamos quanto tempo leva para termos o dobro dessas inven��es.
Isto significa que nesse per�odo a informa��o humana foi duplicada.
Assim as coisas, depois do primeiro per�odo de 50 mil anos,
no segundo per�odo passam a ocorrer em 1500 anos,
digamos, pr�ximo do Renascimento.
At� a� j� ter�amos o dobro de informa��es.
Para duplicar-se outra vez, a informa��o humana levou apenas dois s�culos.
O per�odo se acelera.
Ent�o, entre 1960 e 1970, a informa��o humana � duplicada uma vez mais.
Como percebo nessa �ltima contagem, a informa��o humana
vem sendo duplicada mais ou menos a cada 18 meses.
Mais � frente, poder�amos marcar um ponto, talvez pr�ximo de 2015,
onde a informa��o humana estar� se duplicando a cada mil�simo de segundo.
O que significa que a cada mil�simo de segundo
teremos acumulado mais informa��o
do que toda aquela que juntamos desde o in�cio do mundo.
Ao chegarmos nesse ponto, acredito que todas as apostas estar�o encerradas.
Nem posso imaginar o tipo de cultura que poderia existir ap�s um tal ponto de igni��o do conhecimento.
Creio que nossa cultura se mover�, provavelmente, para um estado totalmente diferente,
se mover� al�m do ponto de ebuli��o,
de uma cultura flu�da para uma cultura de vapor.
Originalmente
havia apenas uma ci�ncia da exist�ncia.
Toda nossa vis�o do mundo era m�gica.
Cada coisa que faz�amos, cada coisa que ocorria no mundo
possu�a uma esp�cie de significado xam�nico, m�gico.
Se voc� olha para as culturas mais antigas,
algumas das quais ainda existem no planeta, as culturas abor�genes,
ver� que a maioria de suas linguagens t�m apenas um tempo.
Tudo est� resumido no presente.
Podem falar de coisas que j� aconteceram
e de coisas que ainda n�o ocorreram mas que acontecer�o no futuro,
mas sempre falar�o delas no tempo presente.
Parece que n�o s� dividimos nossa exist�ncia,
nosso estudo da exist�ncia, nessas diferentes �reas,
mas tamb�m subdividimos nossa no��o do tempo
em diferentes zonas.
Existe esse grande e eterno presente,
esse tipo de "Agora" permanente no qual vivem os animais, por exemplo.
Mas n�s, como indiv�duos conscientes,
nos adaptamos como esp�cie a essa no��o diferente de tempo,
que vemos como uma gota em um fio.
O "agora"
� esse pequeno momento, constantemente em movimento, no qual vivemos,
o qual est� deslizando como uma gota sobre um fio, do passado para o futuro.
Se voc� olhar para alguns dos modelos que pessoas como Stephen Hawking
sugeriram,
encontrar� algo que est� muito mais pr�ximo
daquela ideia primitiva sobre como � estruturado o tempo,
do que da nossa ideia um pouco simplista e fatalista
de passado, presente e futuro.
Creio que Hawking fala sobre o espa�o-tempo
como uma esp�cie de bola de futebol americano estelar, gigantesca,
ou uma bola de rugby, se preferir.
Em um extremo temos o Big Bang
e no outro extremo tudo volta a se unir no Big Crunch.
Mas a pelota de futebol americano existe em todo o tempo;
ou seja, � nesse hiper-momento gigante que tudo acontece.
O que significa que s�o apenas nossas mentes conscientes
que ordenam as coisas em passado, presente e futuro.
A ideia de discos voadores do sistema estelar de Alpha Centauri,
que nos visitam agora
ou que vieram no passado, n�o � racional.
No entanto, como isso implica maquinaria,
motores de teleporte muito avan�ados
e conceitos pseudo-cient�ficos do tipo,
ent�o n�s, do ocidente,
prestaremos muita aten��o a isso,
como fizemos com os livros de von D�nicken (teoria do paleocontato).
J� quanto �s ideias espirituais de outras culturas,
consideramo-as como... bem, para n�s elas n�o fazem sentido algum.
Esse � um exemplo dos limites do pensamento ocidental,
porque acreditamos que entendemos o cosmos inteiro,
mas na realidade s� entendemos o interior de nossas mentes.
O qual, ainda assim, � bastante pobre. Foi Niels Bohr, o f�sico,
que em sua interpreta��o, em Copenhague, da f�sica qu�ntica,
disse que quando falamos ou descrevemos eventos distantes,
ainda que estes ocorram nas estrelas mais long�nquas
ou nos mais �nfimos e remotos quanta,
tudo que realmente podemos fazer
� falar de n�s mesmos e de nossos processos.
Tudo que vemos s�o nossas percep��es,
e as confundimos com a realidade.
Como consequ�ncia tendemos a ser muito chauvinistas
quanto ao nosso filme da realidade, como ele se fosse o �nico.
Ent�o a �nica forma como podemos olhar para outras culturas
� imaginando que foram enganadas
ou que s�o primitivas, ou que ainda n�o entenderam tudo.
Essa � a forma como n�s, em termos de informa��o,
nos isolamos terrivelmente.
� nossa cultura, que insiste sobre nossos pr�prios valores,
que � ofuscada
frente ao que poderiam ser ideias e conceitos muito �teis,
que pertencem a outras culturas profundamente unidas �s suas ra�zes.
Elas talvez possam oferecer leituras mais ricas do mundo
que aquelas que a ci�ncia fria e emp�rica pode dar.
A ci�ncia n�o pode falar sobre a consci�ncia,
porque a ci�ncia � algo que trata somente da evid�ncia emp�rica e
com coisas que podem ser reproduzidas em um laborat�rio.
Os pensamentos n�o entram nessa categoria.
Deste modo, a ci�ncia geralmente tende a rejeitar
a exist�ncia da consci�ncia.
Dizem que a consci�ncia � um acidente biol�gico,
que por sua vez se baseia na qu�mica, que por sua vez se ap�ia na f�sica,
e que � totalmente explic�vel
dentro de um marco cient�fico racional e normal.
Rupert Sheldrake, o qual � uma esp�cie de cientista hereje,
prop�s a teoria de um campo morfogen�tico
para provar e entender
alguns dos assustadores efeitos da consci�ncia.
Talvez eu esteja simplificando bastante,
mas creio que o conceito b�sico era
que, uma vez que uma forma tenha se manifestado,
seja ela uma forma f�sica ou uma forma-ideia,
ent�o se faz mais prov�vel e cr�vel
que essa forma se manifeste novamente.
Sheldrake afirma que isto se deve a um campo morfogen�tico, como ele diz,
que conecta tudo.
E, uma vez que a ideia existiu,
de alguma maneira existe nesse campo morfogen�tico.
Fiquei surpreso, pois isto poderia explicar muitas coisas
sobre como funciona a mente humana.
Inclusive coisas como, por exemplo,
o fato de que o motor a vapor
parece ter sido inventado por cinco ou seis pessoas diferentes,
aproximadamente no mesmo per�odo.
Depois de centenas e milhares de anos, durante os quais o motor a vapor n�o existia,
de repente, em quest�o de semanas, em todo o mundo...
isso mesmo, chegou a era do motor a vapor.
Todos vieram com uma ideia de motor de propuls�o a vapor.
Quero dizer, isso � muito parecido
com a ideia que propus sobre o espa�o-ideia.
Digamos,
um espa�o no qual os eventos mentais podem ocorrer,
um espa�o-ideia que �, talvez, universal.
Nossas consci�ncias individuais t�m acesso a
esse vasto espa�o universal.
Assim como temos casas individuais,
mas a rua diante da porta pertence a todos.
� quase como se as ideias
fossem ideais pr�-existentes dentro desse espa�o.
Como seres humanos, habitamos dois mundos distintos e separados,
duas paisagens.
Vivemos no mundo f�sico,
e ao mesmo tempo
levando em conta que s� podemos experimentar nossa percep��o desse mundo,
parece que na realidade vivemos
em um mundo puro, de consci�ncia e ideias.
Me parece que
os territ�rios que devem existir nesse espa�o mental
s�o compostos somente de ideias e conceitos.
Em lugar de ilhas ou continentes,
pode haver grandes sistemas de cren�as e filosofias.
O Marxismo pode ser uma ilha.
As religi�es judaico-crist�s
podem constituir outras terras ou continentes.
As mentes humanas interagem fracamente, sob formas limitadas,
com o espa�o-ideia a cada momento do dia, mas
t�o s� para prosseguir com nossas vidas di�rias.
Por�m, se voc� quiser realmente ideias �nicas,
se voc� � um artista ou um inventor,
ou algu�m que trabalha com ideias �nicas e novas,
voc� deve submergir diretamente no que subjaz,
nas profundezas do espa�o-ideia,
para encontrar essas ideias que nunca antes foram vistas.
Se aceitamos que o espa�o-ideia ou algo assim existe,
ent�o podemos decidir que queremos explorar esse espa�o.
Seja por raz�es art�sticas, o talvez por raz�es cient�ficas,
ou talvez como magos, como ocultistas.
Mas, se estivermos para nos aventurar
nesse territ�rio hipot�tico e mais ou menos desconhecido,
parece sensato
testar e levar mapas de rotas
feitos por exploradores anteriores.
Quando se fala do territ�rio da mente e talvez do esp�rito,
os �nicos mapas dispon�veis s�o os sistemas m�gicos da antiguidade.
Falo de sistemas como a Cabala,
com seu mapa de qualquer estado humano conceb�vel.
Falo de sistemas como o Tar�,
um pante�o de imagens arquet�picas
que prov�m a cartografia
para um mapa da condi��o humana.
A maioria das pessoas considera a palavra Apocalipse assustadora.
Procurando no dicion�rio, seu significado � "revela��o",
o que, obviamente, tamb�m significa o fim do mundo.
Quanto ao que significa o fim do mundo,
diria que isso provavelmente dependa de nossa ideia de "mundo".
N�o creio que esta palavra se refira ao planeta,
e nem sequer �s formas de vida no planeta.
Penso que o mundo � puramente uma constru��o de ideias,
e n�o s� suas estruturas f�sicas,
mas tamb�m suas estruturas mentais, as ideologias que criamos.
� a isso que chamo "O mundo".
Nossas estruturas pol�ticas, nossas estruturas filos�ficas,
os marcos ideol�gicos, as economias.
Estas s�o, na realidade, coisas imagin�rias,
e, contudo, constituem o marco sobre o qual constru�mos o mundo inteiro.
Percebo que uma onda de informa��o suficientemente forte
poderia jogar por terra e destruir tudo isso.
Uma repentina revela��o que poderia mudar toda nossa perspectiva
sobre o que somos e como existimos.
A hist�ria � um fogo,
� o fogo da consci�ncia acumulada
e de uma complexidade acumulada.
� medida em que nossa cultura progride,
reunimos mais e mais informa��o
e lentamente come�amos a nos mover
de uma forma flu�da para um estado vaporoso,
� medida em que nos aproximamos da complexidade definitiva
do ponto de ebuli��o social.
Acredito que nossa cultura est� se tornando vapor.
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