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Quando era miúda pensávamos que o mar era grande de mais para falhar.
Agora sabemos que não.
Os parques nacionais protegem
os tesouros naturais da América em terra.
O mesmo deve ser feito com o mar.
É uma fronteira em perigo.
No 100.º aniversário do nosso serviço de parques nacionais,
uma expedição pioneira viaja de costa a costa
para ajudar a inspirar um homem...
É uma honra conhecê-la.
A criar parques azuis numa imensidão desconhecida.
Se não tivermos cuidado, escapa-nos entre os dedos.
Precisamos dele para sobrevivermos. Temos uma oportunidade irrepetível.
A pesca em grande escala de peixes selvagens
é um exemplo do que está em causa.
Com cardumes de biliões de peixes,
os sáveis filtram o Atlântico e o Golfo.
São tão importantes para a dieta de peixes maiores,
que são conhecidos como o peixe mais importante do mar.
Mas são alvo da indústria de captura do sável,
não para serem comidos por pessoas,
mas para serem transformados em fertilizante e ração para aves.
É como diz na Bíblia,
que em tempos de cobiça, destruiremos a própria Terra,
e é o que está a acontecer.
Está à frente dos nossos olhos, só temos de os abrir para ver.
É desolador.
É desolador.
Isto está-nos no sangue. Peixe, camarões, ostras, tudo.
E está a chegar ao fim.
Os pequenos pescadores locais têm uma aliada poderosa.
Ela passou milhares de horas debaixo de água.
A cientista, exploradora e ambientalista Dra. Sylvia Earle.
A transformação está a acontecer rapidamente.
Estamos a perder recifes de coral, peixes no mar,
e ecossistemas inteiros estão a ficar destruídos.
A química do planeta está a ser afetada
pelo que estamos a colocar ou a retirar do mar.
É outro mundo.
Os barcos de pesca de sável vão lá e apanham cardumes inteiros.
- É verdade. - Nem sempre apanham sável.
- Mas devia haver limites para isso. - Pois devia.
E acho que há sítios que não deviam ser explorados.
Como nos parques nacionais.
Não se cortam árvores, não se caçam os esquilos.
Isso não existe agora?
Não, não existe.
O território marinho americano é maior que os 50 estados,
mas quase todo está aberto à pesca de animais selvagens.
Agora sabemos o que não podíamos saber quando eu era miúda.
Que o oceano dita o clima, absorve grande parte do calor,
regula a temperatura.
97% da água da Terra está nos oceanos.
E temos uma oportunidade única.
É um luxo para os tubarões...
Porque é que os tubarões atacam tantas pessoas?
Não atacam!
Chamo-me Max Kennedy.
O meu amor pelo mar foi-me passado pela minha família.
Estou ansioso por me juntar à Sylvia numa viagem
para construir uma versão subaquática
da melhor ideia da América, os parques nacionais.
Há mais de um século,
matámos todos os araus-gigantes, todos os pombos-passageiros,
todos os uapitis e quase o último búfalo.
O ponto de viragem foi a fotografia e imagens que galvanizaram o país.
Depois, em 1871, William Henry Jackson,
um veterano da Guerra Civil com 28 anos,
tornou-se o fotógrafo oficial da expedição a Hayden, no Wyoming,
e fez história.
As imagens impressionantes de Jackson
inspiraram o Presidente Ulysses S. Grant
a criar o primeiro parque nacional do mundo, Yellowstone.
Proteger os nossos sistemas naturais
é uma prioridade presidencial cada vez maior.
A preservação do nosso ambiente
não é um desafio liberal ou conservador,
é senso comum.
Em 1983, o Presidente Ronald Reagan reivindicou uma América azul,
a 322 km das nossas costas,
tão inexplorada como o Oeste na época de Jackson
e cheia de maravilhas naturais.
Um desses recursos vitais é Cashes Ledge,
uma cadeia montanhosa subaquática repleta de vida.
Um chamariz para atuns, tubarões, baleias-anãs,
baleias-francas em extinção e baleias-de-bossa como estas.
Se for protegido, Cashes Ledges tornar-se-á
o primeiro monumento nacional de Nova Inglaterra
e um refúgio para animais que estão a desaparecer noutros sítios.
Contra a reserva está a pesca industrial
que esvaziou o Golfo do Maine.
Há cerca de dois anos, houve uma avaliação de unidades populacionais
que mostrou que as populações do Golfo do Maine
eram cerca de 3 a 4% da biomassa ideal.
Desculpe?
Sim, as populações caíram a pique.
96% abaixo do que devia ser?
Há um ponto sustentável em que se pode pescar uma certa quantidade.
Se esse limite for ultrapassado, a população vai diminuir,
porque não conseguem produzir indivíduos suficientes
para substituir os retirados.
O nosso objetivo é apoiar a causa científica a favor da proteção
através da fotografia.
E ninguém faz isso melhor que Brian Skerry,
um dos melhores fotógrafos subaquáticos do mundo.
Cresci numa cidade pequena de operários.
A ideia de ser fotógrafo da National Geographic
ou um explorador do oceano estava muito longe do que podia imaginar.
- Prazer em conhecê-lo, finalmente. - Igualmente.
Vi os seus trabalhos. Estou entusiasmado.
Quando comecei a mergulhar em Nova Inglaterra,
lembro-me de sair das praias e ver grandes cardumes de peixes.
E já não vejo isso.
Cashes Ledge abriga um tesouro inesperado.
Uma floresta subaquática, a 130 km da costa do Maine.
Não há nada como isto.
Descemos e vemos um fundo ondulante de algas.
E ao longe vemos cardumes de palocos e bacalhaus, alguns vermelhos,
porque se misturam com as algas vermelhas.
Temos a sensação de que não pode ser Nova Inglaterra,
que deve ser um paraíso tropical
para onde tenho de apanhar um voo de dias.
Mas não, está mesmo aqui.
Quando estou num sítio assim,
tento tirar fotos para mostrar às pessoas que é especial.
Quero que as pessoas sintam uma ligação com o bacalhau.
Foi a experiência de uma vida, mergulhar e ver por mim mesma
aquilo que tanto entusiasma alguns cientistas, há anos.
Estava um peixe a olhar para mim.
Senti-me uma bailarina, com lenços dourados à volta.
Este sítio é o máximo. É especial.
É uma fonte de renovação, uma fonte de recuperação.
Foi um dos mergulhos mais bonitos que fiz na vida.
Sim, é hipnótico. Entramos numa espécie de transe.
É como caminhar por um templo.
Acho que Cashes Ledge é uma Arca de Noé para o Golfo do Maine.
Tem praticamente um indivíduo de cada espécie
e de cada tipo de habitat de mar alto,
tudo numa área muito concentrada. - Esperemos que haja dois de cada.
Temos aqui uma oportunidade de olhar para Cashes Ledge
como o Yellowstone do Atlântico Norte.
Isto é um oásis.
É o que resta daquilo que existia em todo o lado.
Se não tivermos cuidado,
escapa-nos entre os dedos e desaparece para sempre.
E pode acontecer sem ninguém se aperceber.
Por isso temos de mostrar isto,
porque quando as pessoas virem, vão querer saber.
Avançamos 322 km para sudeste de Cashes Ledge,
até outro frágil oásis.
Os desfiladeiros e montes submarinos ao longo da plataforma continental.
A maioria da vida na Terra está no oceano profundo.
A demasiada profundidade para mergulhadores,
mas não para um ROV NOAA não-tripulado.
Poder-se-ia pensar que a profundeza protegeria os montes submarinos,
mas há uma nova ameaça, a extração mineira no alto mar,
com máquinas que destroem os habitats oceânicos
antes de sabermos sequer o que perdemos.
Vida que merece ser protegida.
Em casa da minha mãe, juntamo-nos a Brian
e ao seu novo aprendiz, o meu sobrinho Finn.
- Adoramos... - É um Jackson dos tempos modernos.
Não sei.
Temos uma tarefa quase mais difícil do que Jackson,
porque estamos a começar do zero.
Temos de mostrar que estes sítios existem
e que são fundamentais para a saúde do planeta.
- Temos muito trabalho pela frente. - Temos de planear bem.
Temos de planear muito bem.
A última coisa de que precisamos é que algo corra mal neste projeto.
- Sim. - A sério?
- É um prazer. - É um prazer para mim. Obrigada.
Ainda estou um pouco salgada. Fomos mergulhar.
É uma extensão do Parque Nacional de Acadia.
Está suficientemente perto da superfície
para a luz do sol chegar a uma elevação no mar.
E há uma floresta de algas.
Quem se atreveria a chegar perto da água consigo?
Todos eles. Toda a sua família.
Temos de mostrar às pessoas que ainda podem ter esperança.
Somos os agentes da mudança
e podemos ser os agentes de uma mudança positiva.
Isso é fundamental. Divulgar isso e fazer algo.
Sylvia recruta uma tripulação indispensável,
os herdeiros da Terra.
Recrutar adolescentes para serem embaixadores do oceano,
para explorarem o oceano, serem testemunhas
e contarem aos pais, aos professores,
aos presidentes de câmara, aos senadores, aos presidentes.
Levá-los lá. Nenhuma criança deve ficar seca.
A completar a equipa estão dois ativistas
do bairro social de Benning Terrace, em Washington,
Rob Edwards e Ashley Dawkins.
Estou tão entusiasmado. Nunca estive no oceano.
A nossa expedição para criar um colar azul de tesouros protegidos
chega às águas agitadas das Caraíbas.
No meio de um mar sobre-explorado e quente há uma reserva solitária.
O primeiro monumento azul do mundo,
criado pelo meu tio, o Presidente John F. Kennedy.
É um facto biológico interessante que todos nós temos nas veias
exatamente a mesma percentagem de sal no sangue que há no oceano.
Estamos ligados ao oceano, e quando voltamos ao mar
estamos a voltar ao sítio de onde viemos.
Eu tinha 11 anos. Havia uma dedicação ao parque novo.
E o meu pai trouxe-me cá, com funcionários do governo.
Kennedy era um deles. Estava um dia lindo.
Sendo natural de St. Croix,
orgulho-me muito de ser o responsável deste parque,
que foi criado e protegido há 64 anos pelo presidente dos EUA.
Este monumento foi alargado em 2001, pelo Presidente Clinton.
Tornou-se a primeira área marinha protegida,
o que significa que não se pode pescar no monumento.
Mas alguns dos peixes saem da área protegida
e, quando o fazem, podem ser apanhados.
Estes peixes são bons para fritar. São peixes-papagaio.
Foi muito emocionante estar nas Ilhas Virgens com eles.
O Rob e a Ashley nunca tinham visto o mar.
Eu poder testemunhar a primeira vez que eles viram o mar
foi uma forma de eu ver o mar como se fosse a primeira vez.
O que está a fazer?
É isto que os mergulhadores a sério fazem.
Esfregamos um pouco de saliva, ou cuspo,
na máscara, para não embaciar.
Não vou cuspir nisto.
Estava com muito medo de entrar no mar pela primeira vez,
mas tinha de pôr o meu medo à prova.
Saltei, porque pensei que ia tocar no fundo, mas não.
Pensei: "Estou a afogar-me?"
Nunca vi ninguém aprender a usar um snorkel tão depressa.
Ele não está habituado a nadar.
A Sylvia é uma sereia da vida real. Acho que, se pudesse, ela vivia lá.
Como é que ela diz? Nenhuma criança devia ficar...
seca? É isso que ela diz, sim.
Qual foi a parte mais memorável?
Ver com os meus olhos, e não através da televisão.
Nunca pensei... Não, já chega.
Porquê?
Por causa de onde sou.
Foi uma boa sensação, estar em mar aberto.
Senti-me livre.
Mas faltava uma coisa: garoupas.
Nos anos 1980, tínhamos comido quase todas as garoupas de St. Croix.
Nós não apanhamos garoupa.
A garoupa é mais... Como é que se diz?
- Uma espécie ameaçada? - Sim.
Quase não se veem.
O meu pai costumava apanhar duas ou três e levava-as para casa.
Eram grandes. Mas agora quase não se veem.
Por isso os pescadores voltaram-se para os peixes-papagaio,
os lindíssimos guardas do recife.
São bons peixes para fritar. Chamamos-lhe peixes-papagaio locais.
Certo.
Todos os restaurantes em St. Croix os compram.
O aviário também os compra.
Compra 45 kg por semana.
Não sei grande coisa, só os apanho e ganho dinheiro para sobreviver.
Estamos a começar a perceber que a perda da garoupa
e do peixe-papagaio tem um efeito dominó
e mata o recife.
Está a acontecer tão depressa
que não é preciso falar com um idoso para relembrar os velhos tempos.
Na minha curta vida de 19 anos
vi uma mudança profunda
no habitat em que pude mergulhar desde os quatro anos, com o meu pai.
Lembro-me de ser um sítio mágico, com recifes imaculados.
As cores eram tão vivas, onde quer que fôssemos.
Havia imensos peixes, um ecossistema incrível.
Mas agora, nos últimos três anos, parece um monte de destroços
depois da demolição de um edifício em Nova Iorque.
Está tudo cinzento, branco e esfarelado.
Os peixes desapareceram.
E isso foi apenas em 12 anos.
As águas à volta da Ilha de Buck são um oásis
num deserto em rápida expansão,
alimentado pelas alterações climáticas e pela sobrepesca.
Adorava ter visto o que viu aqui quando era pequeno.
A população de peixes era muito diversa.
Muito grande, muito colorida.
Mas a minha referência não era nada, comparando com a do meu pai.
Ele dizia: "Devias ter visto isto quando eu era pequeno."
Estes peixes são pequenos, comparados com os da altura dele.
Os corais precisam dos peixes e os peixes precisam dos corais.
Se retiramos os peixes, os corais ficam sob tensão.
Alargar a reserva para abarcar os recifes devastados
fora do monumento
dará aos sistemas naturais oportunidade de recuperarem.
As pessoas dizem que vim de outro planeta e vim.
O planeta era tão diferente quando cheguei.
90% dos grandes peixes já desapareceram.
Mas a boa notícia é que podemos inverter a tendência,
podemos recuperar.
A fotografia de Brian é uma ferramenta tão poderosa
e agora ele vai libertar os miúdos.
Tentar contar uma história com imagens é a vossa mensagem,
o que estão a tentar comunicar, a vossa visão.
Propus uma história sobre uma coisa chamada Crise de Peixe Global.
É um tubarão-raposo que estava morto numa rede de pesca.
E enquanto o enquadrava, pareceu-me uma crucificação,
e achei que podia transmitir alguma empatia.
Há uma diferença entre tirar apenas uma fotografia bonita
e ser fotojornalista. Como fotógrafos subaquáticos,
não temos o luxo de usar teleobjetivas
e ficarmos uma semana à espera que passe um animal.
É um tributo aos animais que nos permitem entrar no mundo deles.
Acabam por deixar, se formos pacientes,
se não os perseguirmos, eles vêm ter connosco.
Hoje vivemos num mundo onde a comunicação
e a partilha de imagens é muito mais fácil do que alguma vez foi.
Divulguem essas imagens e contem a história que querem.
Ao fazermos isso, conseguimos chegar a um público muito maior
do que se eu fizesse apenas uma reportagem para a revista.
Vão lá e façam-no.
Comecei a fotografar as tartarugas há três noites.
Estou a usar tempos de exposição muito longos, ao luar.
E acaba por parecer quase de dia.
Tem um aspeto assustador e primitivo,
com um animal que parece um dinossauro.
Podem pesar 400 kg, quando são adultas.
400 kg?
Tu consegues.
Nem todas sobrevivem.
Isso fez-me pensar no sítio de onde venho.
Porque o meu bairro é assim.
Acabamos por aceitar
que nem todos vão conseguir safar-se.
Identifiquei-me com isso.
A Sylvia ajudou-me a ver o panorama geral.
A não ser que impeçamos que o oceano morra,
nenhum de nós sobreviverá.
O Golfo do México enfrenta a mesma ameaça que as Caraíbas,
a sobrepesca e as alterações climáticas.
O Golfo do México é resistente,
mas é como a II Guerra Mundial, na Europa.
Se não soubéssemos que houve uma guerra,
podíamos nem saber, a não ser que tivéssemos lá estado antes,
a não ser que tivéssemos passado por isso.
E Dave Palmer passou por isso.
Quais são os locais que escolhemos para proteger?
E eles sabem, eles conhecem pescadores a sério,
cujas vidas dependem do respeito pelo oceano.
Eles sabem o que é preciso para haver peixe.
Áreas de reprodução, áreas de alimentação,
não pescar demasiado.
Nada.
- Dave. - Olá.
- Tudo bem? - Como está?
- É bom vê-lo. - Sim, há quanto tempo.
Como vocês, eu passei os meus primeiros anos no Golfo.
É tão importante para todo o país. Tomamos isto como garantido.
Tratamo-lo como uma fonte inesgotável.
Toda a gente pesca o que quer.
Não têm nenhum santuário onde não se possa pescar.
Não vai durar. Vão acabar, mais cedo ou mais tarde.
A minha esperança é que estabeleçam zonas por toda a costa
onde não se possa pescar.
Que ponham um triângulo aqui, um círculo aqui,
um retângulo ali.
Temos de salvar as áreas de reprodução...
Certo.
As áreas de alimentação, as áreas de desova.
Se queremos ter atuns,
a última coisa que queremos fazer
é matá-los na desova. - Sim.
Só isso é que pode ajudar.
É senso comum.
BANCO DE EWING GOLFO DO MÉXICO
Era aqui que o atum-rabilho desovava,
que se reproduzia neste sistema incrivelmente intacto.
O atum-rabilho e outras espécies de atum desovam no Golfo do México,
em locais especiais, como o Banco de Ewing.
Sylvia sonha em ver áreas protegidas com dimensão suficiente
para recuperar o Golfo.
"Zonas de esperança", como lhes chama.
Olhem para isto.
É um oceano cheio de tubarões-baleia.
Nem consigo contar o número de barbatanas.
Quando acho que já contei todos, aparecem mais.
O padrão de manchas de um tubarão-baleia é único,
como as nossas impressões digitais.
As fotografias serão colocadas numa base de dados internacional.
Estes peixes são 20 vezes maiores que eu.
Mas quando vi que eles não me ligavam, perdi o medo.
Puxámos a rede, para ver o que os tubarões-baleia estão a comer.
E, como desconfiávamos, está cheia de ovos.
A merma, uma espécie de atum, desova nas profundezas.
Os ovos flutuam até à superfície.
É uma área de alimentação crucial para o maior peixe do mar.
O Banco de Ewing é tão especial
porque há uma combinação de reprodução e de alimentação.
Há a reprodução do atum, mas a alimentação do tubarão-baleia.
Há seis anos, chegámos a este mesmo sítio
e encontrámos o maior número de tubarões-baleia documentado
em águas norte-americanas, com mais de 100 animais.
Colocámos transmissores por satélite e analisámos a ligação entre aqui
e outros locais nas Caraíbas e pelo mundo.
Das 14 áreas de concentração conhecidas no mundo,
o Banco de Ewing é a única em águas norte-americanas
e uma candidata óbvia para proteção.
É difícil explicar por palavras,
quando entramos na água e estamos ao lado deles.
Parece quase que sentimos o coração deles a bater.
É um sítio sagrado.
Estes peixes estão a dizer-nos que precisam de ajuda.
Tal como a vida noutro reino sagrado,
as águas ao largo de Ni'ihau,
a ilha habitada mais ocidental do Havai.
As primeiras pessoas a virem para o Havai,
os seus descendentes preocupam-se profundamente
não apenas com a terra, mas também com o mar.
No fundo, eles são pessoas do mar.
A minha família é originária de ilha de Ni'ihau.
As pessoas de Ni'ihau acreditam que quando alguém de cá morre,
a sua alma assume a forma de um tubarão
e serve de guardião para o nosso povo.
Há muitos tubarões à volta de Ni'ihau,
e protegem a ilha de forasteiros e do mal.
Primeiro enquadramos, olhamos e vamos ajustando.
- Fantástico. - Muito bem.
Aqui, em águas havaianas,
foram descobertos os animais mais antigos do mundo.
Corais com mais de cinco mil anos.
Dois, um, vamos.
Quando mergulhamos aqui, estamos a mergulhar na história.
Estamos num local chamado Hale O'Hono,
que significa "casa da tartaruga".
Há vários lugares no oceano onde os animais vão para serem limpos.
Têm parasitas, algas e coisas no corpo,
e outros animais comem isso. É uma relação simbiótica.
- Vi uma moreia enorme lá em baixo. - Sim.
Sim, fomos até uma pequena reentrância,
olhámos e saiu de lá uma moreia enorme, a mostrar os dentes.
Está ali uma foca!
As focas-monge no Havai estão em perigo.
Eu vi uma, na sua caverna, com os seus bigodes.
Estava ali a descansar.
Proteger as focas-monge, as tartarugas, os recifes de coral.
Todas as pequenas coisas.
Salvando-as, salvamos imensas partes do oceano
e salvamos também a Humanidade.
Ni'ihau é a entrada no Paraíso,
uma área protegida chamada Papahanaumokuakea.
Criada como monumento nacional pelo Presidente George W. Bush,
era na altura o maior habitat protegido do mundo.
Quero agradecer a Sylvia Earle.
Ela sentou-me e deu-me uma bela lição sobre a vida.
Em 2006, quando Papahanaumokuakea foi criada,
era a maior e, agora, é a décima.
Isso inspirou outros países a fazer o mesmo.
Talvez possamos voltar a fazê-lo.
O objetivo é esse,
alargar o monumento até ao limite de 322 km das águas americanas.
O maior santuário terrestre ou marinho.
Apoio fortemente o aumento do tamanho do monumento.
Não há mais nada assim no mundo. Temos de o proteger.
Dar passos que sirvam de modelo a outros locais que não controlamos.
É uma decisão ousada que contamos que o Presidente Obama tome.
Forneço o melhor peixe para todos e garanto-vos...
Contra está a indústria da pesca palangreira.
Eles continuam a...
as nossas...
Oponho-me veementemente à proposta de alargamento do monumento.
Não há provas científicas que sustentem benefícios adicionais
ao alargar a zona de proibição de pesca.
A razão para a proteção é protegê-la de ameaças futuras.
Porque a população humana está a aumentar,
a exploração humana do ambiente está a aumentar
e haverá cada vez mais pressão nos próximos anos,
décadas ou mesmo séculos,
para explorar áreas que ainda não foram exploradas.
E o problema é que grande parte do fundo do mar não está visível.
As pessoas não têm noção da biodiversidade
e de quão importante ela é não apenas para nós,
mas para o futuro da Humanidade.
E muitos desses organismos no fundo do mar ainda nem foram descobertos.
O oceano é tão pouco conhecido que os cientistas descobrem
milhares de espécies novas todos os anos.
Richard e os outros exploradores usam uma mistura de gás com hélio
para se aventurarem no mundo frio e misterioso
entre os 60 e os 150 m de profundidade,
encontrando uma média de 12 a 15 novas espécies
por hora de exploração.
Isto é território submarino.
É água gelada. Aqui, a água é gelada!
NAVIO DE INVESTIGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO HAVAI
Tive o privilégio de estar com miúdos,
de ver o mundo pelos olhos deles.
Vou mergulhar até ao fundo.
Estou nervoso. Não me interpretem mal.
Vou com a Sylvia, por isso vai correr tudo bem.
Vou ao fundo do mar. Até logo.
Pisces 5, estão a ouvir?
Recebido. A escotilha está fechada. Prontos para mergulhar. Terminado.
Recebido. A escotilha está fechada. Prontos para mergulhar.
A Sylvia mergulhou pela última vez aqui há quase 40 anos,
utilizando um fato de mergulho especial chamado JIM.
Há uma nova ferramenta no mar.
Mexe-se com o ritmo lento de um monstro mecânico.
A questão é se os cientistas podem usar o fato JIM
para mergulhos superiores a 305 m.
Se for bem-sucedida,
ela será a primeira mulher a caminhar no fundo do mar
a uma profundidade superior a 305 m.
Estou a ver. É o fundo.
A Sylvia está à procura de sinais de mudança.
Quando estamos perto da superfície, é azul,
mas à medida que descemos vemos vários tons de azul
e vai ficando cada vez mais escuro. E depois fica tudo preto.
É mesmo preto. Não há luz ambiente.
Parece um mundo diferente.
Na verdade, o nosso mundo é que é diferente. Este é normal.
Revela-se uma nova vida: um coral desconhecido.
O Chris nem sabe de que espécie isto é.
Isto só cresce aqui. Já vi isto nas ilhas do noroeste.
Está por todo o lado.
Parece um tapete mágico. Meu Deus. É lindo.
Mas é melhor que um tapete antigo. Está vivo.
É um tapete voador vivo.
A Sylvia nunca tirou os olhos da janela.
Ela estava entusiasmada por ver coisas que não via há tanto tempo.
A nadar mesmo por cima da raia.
A raia comeu qualquer coisa.
Prendeu um daqueles peixes debaixo dela.
É inacreditável. Apanhou um daqueles Polymixia.
Pieces 5, Pieces 4, estão a ouvir?
Acabámos de ver duas raias a comer Polymixia.
Lá vem a raia.
Nunca soube de ninguém que tivesse observado isso.
Foi preciso um miúdo com um olhar novo
para reparar em algo que sempre aconteceu,
porque depois de o Finn dizer, estava a acontecer por todo o lado.
Uma enguia pequena nadou para... Viram?
Sim, filmei.
Para a Sylvia, há uma pergunta fundamental:
qual é o estado deste local especial?
Vi uma floresta de corais Isididae,
em 1979.
A boa notícia é que continuam lá.
Desde que comecei a explorar os oceanos, nos anos 1950,
cerca de metade dos recifes de coral desapareceram.
Mas os recifes de coral profundos ainda nos dão esperança.
No seu primeiro mergulho aqui,
A Sylvia viu corais a 366 m de profundidade,
a desenvolverem-se na escuridão absoluta.
Este coral emite luz quando é tocado.
Bioluminescência, uma maravilha da natureza
que nunca foi filmada sem luzes.
Para a vermos no seu estado natural é preciso uma câmara revolucionária,
que fotografa com uma sensibilidade ISO de quatro milhões.
Vejam bem.
O primeiro vídeo a cores de bioluminescência de um coral.
Vejam bem.
É uma beleza.
Fomos bem-sucedidos com a câmara de luz reduzida.
Parece o Avatar.
Nem toda a gente viu o Grand Canyon,
mas o Grand Canyon e outros locais lindos
são valorizados como tesouros pelos cidadãos do país.
Quando as pessoas conhecerem as escarpas, os desfiladeiros,
a vida animal que existe nas profundezas do mar,
isso também será valorizado.
- Este coral é tão viscoso. - É mesmo assim.
O espécime misterioso da Sylvia.
Não sabemos quantos anos têm, não sabemos que espécie é.
Quem és tu? De onde vieste? Quem são os teus pais?
Peço desculpa por te tirar do oceano.
Sim.
Todos somos animais marinhos.
Tal como os animais que vivem no mar,
toda a vida, incluindo os seres humanos,
precisa do oceano. O oceano agora precisa de nós.
Há um país azul ali
e em nenhum sítio isso é mais evidente do que nas ilhas do Havai.
A esperança é que o Presidente Obama alargue o monumento
e isso será um contributo gigantesco para o mundo.
Imploro a todos que compreendam a ciência,
que compreendam o que realmente se passa.
E garanto-vos que, se analisarem a questão racional e objetivamente,
verão que a ciência apoia o alargamento.
Durante toda a vida, a Sylvia sonhou e lutou
para que a proteção dos oceanos se tornasse uma realidade.
E, agora, uma declaração épica.
Criámos monumentos nacionais do Maine ao Ohio e à Califórnia.
Na semana passada, criei a maior reserva marinha do mundo.
Quadruplicando o tamanho do nosso monumento,
uma área com o dobro do tamanho do Texas será protegida,
o que nos permitirá salvar e estudar o frágil ecossistema
ameaçado pelas alterações climáticas.
Amanhã irei até ao Atol de Midway para o ver pessoalmente.
Antes de ser uma reserva natural,
o Atol de Midway foi uma base naval dos EUA
e o local de uma das batalhas mais importantes da história dos EUA.
O Atol de Midway, onde estamos,
foi considerado um ponto de viragem na II Guerra Mundial.
Eram miúdos que pilotavam os aviões.
Miúdos a combater, a arriscar a vida.
Hoje temos uma guerra diferente.
Não é um país contra outro,
é a Humanidade contra o resto da biodiversidade.
Os maiores problemas que enfrentamos neste momento
têm que ver com as alterações climáticas.
Temos uma oportunidade única para estabilizar as coisas,
proteger os sistemas naturais que ainda estão em bom estado
e recuperar o que pudermos. - Nós somos o mundo natural.
Pois somos.
Habituámo-nos a pensar que nem somos animais, mas somos.
Foram quatro mil milhões de anos de desenvolvimento
que nos permitiram sobreviver
e se achamos que podemos mudar isso em 100 anos,
estamos muito enganados.
Eu cito-a no final das apresentações que faço.
O que fizermos nos próximos dez anos
terá impacto no que acontecerá nos próximos dez mil anos.
Estamos num momento crucial da história.
Temos de agir agora.
Doutora, como está? Tenho um profundo respeito
por alguém que fez tanto pela conservação do oceano.
- É um bom começo. - Fez um trabalho fantástico.
Vejo que um dos seus eleitores veio até cá.
Já vi. Não parece muito entusiasmado por conhecer o presidente.
É mesmo assim.
Porque é que é tão importante preservarmos isto para o futuro?
Temos uma foca-monge ali atrás,
uma das espécies marinhas mais ameaçadas do mundo.
Temos aqui sete mil espécies marinhas,
muitas das quais só existem neste ecossistema,
e tudo isto pode ser afetado pelas alterações climáticas.
Não é apenas uma questão de "amantes de árvores".
- Amantes de peixes. - Ou de amantes de peixes ou corais.
Todos nós dependemos destes ecossistemas.
- Sim! - São muitíssimo resistentes
se fizermos o que devemos,
mas também são muito frágeis, quando fazemos o que não devemos.
As pessoas têm de saber.
Não basta falar de políticas em abstrato, as pessoas têm de ver, de sentir,
de conseguir perceber aquilo por que estamos a lutar
e porque é que isto é tão importante.
Mergulhamos para festejar,
enquanto Brian tira a primeira foto subaquática
de um presidente americano.
Apenas duas semanas depois,
o Presidente Obama dá mais um passo importantíssimo,
criando o Monumento Marinho Nacional
dos Desfiladeiros e Montanhas Submarinas do Nordeste,
o primeiro no Oceano Atlântico.
A missão para salvaguardar o futuro está a conquistar recrutas.
Para os óculos não se embaciarem debaixo de água, têm de pôr cuspo.
Desembacia-os.
Se limparmos este rio, acha que conseguimos limpar o mundo?
Não é "se", podemos e temos de o fazer.
Não há tarefa mais urgente.
Os nossos problemas são provocados pelo Homem,
pelo que podem ser resolvidos pelo Homem.
Todos habitamos este pequeno planeta.
Todos respiramos o mesmo ar.
Todos prezamos o futuro dos nossos filhos
e todos somos mortais.
Estas vitórias ambientais históricas são um ótimo começo,
mas ainda há muito a fazer.
Por Cashes Ledge, por St. Croix, pelo Banco de Ewing
e pela maior parte dos oceanos.
Não provocaram os problemas, herdaram-nos.
Mas agora cabe-vos a vocês tentarem recuperar
uma parte do que foi perdido.
Salvem o mundo e a nossa relação com ele.
PROTEJAM O OCEANO COMO SE A VOSSA VIDA DEPENDESSE DISSO.
PORQUE DEPENDE.
Legendas: Joana Barata
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