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Original subtitles

MISS MARPLE: NEMESIS Primeira Parte

Já está tudo tratado, Sr. Rafiel. Não ficou nada por resolver.

Falta uma coisa...

Falta uma coisa.

Eu verifiquei tudo, tenho a certeza...

- Falta o Michael. - O Michael?

O meu filho.

A Miss Kurnowitz acredita no destino?

- Eu... - Claro...

A Nemesis.

- Está pronta? - Sim, Sr. Rafiel.

Temos um plano para engendrar.

Bem, Lionel,

não sei o que possa dizer, que te sirva de consolo.

Se calhar é melhor assim.

Hoje em dia são tantos os casamentos que terminam de forma tão triste.

Tenho a certeza de que fizeste todos os possíveis.

É claro que fiz, tia Jane!

Mas não sei se não seria melhor tu ficares em casa,

a tratar do assunto.

Eu tentei ficar em casa.

Desculpa?

A Celia mudou as fechaduras.

Pôs-me fora de casa.

Meu pobre Lionel, tens comido o pão que o Diabo amassou.

Espero que o contraste não seja excessivo.

Aqui em St. Mary Mead é tudo muito...

Sim. Deveras.

Até pensei que era o raio da enfermeira.

- Os Anjos? - Aceitaram.

- E a brochura sobre o templo? - O Professor também aceitou.

E já enviámos os bilhetes de avião para o Arcediago.

Óptimo.

Agora só depende dela.

Há milhares de anos,

ela empunhava uma régua,

uma espada e um chicote, também conhecido por "azorrague".

Andava num carro puxado por grifos.

A Nemesis...

Da última vez que a vi, trazia um xaile cor-de-rosa, de lã.

- Dê-me cá isso. - Sim, Sr. Rafiel.

FALECEU O MILIONÁRIO LONDRINO

Coitado do Sr. Rafiel...

Morreu uma pessoa que eu conhecia.

- Lamento muito. - Na minha idade, isso é comum,

mas o Sr. Rafiel era uma pessoa tão viva.

- Rafiel, o milionário? - Sim. Olha.

Eu uma vez ajudei-o a impedir um homicídio.

Ele chamava-me Nemesis.

"Jason Rafiel, um milionário que vivia na ilha de La Rocheverte...

Jason Rafiel morreu na terça-feira, após uma doença de curta duração."

NECROLOGIA MILIONÁRIO JASON RAFIEL

MORREU JASON RAFIEL FIDEICOMISSO DE 12 MILHÕES

- Era um cliente importante, Schuster. - Era um velhaco, Broadribb.

E continua a ser nosso cliente.

Sim, ele dá-nos que fazer. Mesmo depois de morto.

É verdade.

Pobre Lionel. Eu sei que não tens para onde ir,

mas isto deve ser extremamente aborrecido.

Não, de todo. Eu gosto de...

Quero dizer, eu não sou...

Sou uma pessoa muito convencional, gosto de paz e sossego,

e de coisas aborrecidas.

Não, está tudo bem, estou...

Estou...

Uma carta dos advogados do Sr. Rafiel. Mas que estranho.

É mesmo muito estranho.

Doce de laranja.

Tia Jane...

- Isto é muito curioso. - O quê? A carta?

O Sr. Rafiel quer que eu investigue um caso que só pode ser um...

Mas não me diz nada acerca dele.

Não me diz qual o tipo de crime, caso tenha sido um crime,

nem as circunstâncias em que foi cometido. Nada.

Estou perplexa.

É como fazer palavras cruzadas sem as definições das palavras.

Deve haver aí mais qualquer coisa. Tem de haver.

Sim, de facto há.

Tenho de ir falar com os advogados.

Como será ela?

É uma pessoa de idade, deve chegar a horas.

Estou um pouco atrapalhado, Schuster.

- O que temos de lhe revelar? - Só os factos principais,

caso ela nos pergunte sobre eles.

Sim, claro.

Isso dificulta as coisas. O Sr. Rafiel deu-nos sempre muito trabalho.

CASAS E JARDINS HISTÓRICOS

- Uma excursão? - Receio que sim.

Quero dizer... Sim, é isso.

Estou um pouco atrapalhado, Miss Marple,

pois tenho pouco para lhe dizer.

Deram-me instruções para lhe entregar dois bilhetes para a excursão.

O segundo é para um acompanhante, caso queira levar alguém.

Obrigada. Sim, estou a ver.

A recompensa ser-lhe-á entregue

quando estiver satisfeita com a investigação,

ou, incondicionalmente, no final do ano.

Sim, mas isto é um pouco estranho.

Como poderei saber se a concluí com sucesso?

Foi-nos dito que a senhora saberá se ela estiver concluída.

Quando ela estiver concluída.

Sim. Estou a perceber, sim.

Broadribb, talvez a senhora queira saber o valor da recompensa.

Claro. Obrigado, Schuster.

São 20 mil libras.

Isso é imenso dinheiro.

Já não vale tanto como dantes.

Bem, eu...

Perdizes.

Minha senhora?

Agora é difícil arranjar perdizes, e são muito caras.

Penso que me vou deliciar com uma perdiz,

e talvez umas castanhas cobertas de açúcar.

O Sr. Rafiel não tinha um filho? O Michael?

Sim... Isso é um assunto delicado.

Ele e o pai não se davam bem.

Ele envolveu-se...

...num escândalo.

- Um escândalo? - Sim, um assunto muito complicado.

Há suspeitas de que ele tenha cometido um homicídio.

- E quando foi isso? - Já há uns anos.

Há quantos?

Broadribb?

Foi há uns sete ou oito anos?

Estão em contacto com o Michael Rafiel?

Não. Após o escândalo, ele foi uns anos para o estrangeiro.

Depois de ele voltar para cá,

ouvimos dizer que andava a viver com vagabundos.

- Céus... - Com mendigos,

indigentes... Esse tipo de pessoas.

Mas, para todos os efeitos, ele desapareceu.

- E poderá ter morrido? - Sim, é possível.

Mas não foi dado como morto.

- Posso abusar da vossa boa vontade? - Minha senhora...

Gostaria de conhecer as circunstâncias exactas desse homicídio.

Podiam acompanhar o itinerário da excursão,

e enviar-me uma carta enquanto eu estiver a viajar?

- Com certeza, Miss Marple. - Nesse caso, participa na excursão?

Era esse o desejo do Sr. Rafiel.

E leva alguém consigo?

Sim. Sim, acho que vou levar uma pessoa.

Olá, Miss Marple. É a Miss Marple, não é?

Olá, Miss Marple, eu sou a Madge. Como está?

O senhor deve ser...

Como está?

É o Sr. Peel, sem dúvida.

Muito bem, Madge.

Deram-me ordens para tratar a Miss Marple como um tesouro.

Ordens muito rigorosas. Vou levá-los aos vossos lugares.

- Aqui tem. - Obrigado.

É o lugar mais confortável, fica entre as rodas.

Espero que fiquem bem acomodados.

E, claro, se quiserem alguma coisa...

Bem, já sabem que...

Exacto.

Têm aqui a lista de passageiros.

Isso ajuda a "quebrar o gelo".

- Obrigada. - Bem, eu vou andando.

Obrigada. Adeus.

- É muito atenciosa. - Pois é.

Aquela cara não me é estranha. O que me dizes, Lionel?

Ela destaca-se dos restantes. Tem um ar muito académico.

Talvez seja uma arqueóloga, em escavações no Próximo Oriente.

Claro, é a Miss Temple. A Elizabeth Temple.

Era directora do colégio St. Agnes.

Sim, eu li algures que ela se reformou no Verão passado.

- Pelos vistos tivemos sorte. - Os meus parabéns, tia Jane.

De facto, é a Elizabeth Temple.

E quem será aquele senhor?

Há um tal Professor Wanstead na lista de passageiros.

- A sério? - Não diz a disciplina.

A disciplina que ele ensina.

Isto está a transformar-se numa assembleia de ilustres.

CASAS E JARDINS HISTÓRICOS

Imagino que esteja a tricotar xailes, e coisas assim.

Se prefere ficar a fazer isso,

a escolha é sua.

Mas se preferir ajudar a Justiça,

espero que ache o caso interessante.

Lembra-se disto?

"Que a Justiça deslize como a água,

e o Bem como um rio interminável. "

JARDINS

Que maravilha.

Hemerocallis fulva.

- As minhas nunca ficam tão bonitas. - Vai ver que ficam.

Diga-lhes para se animarem, senão arranca-as.

Meu pobre Lionel, deves estar muito enfastiado.

Não, de todo. Isto é uma nova experiência.

Há vida em St. Faiths, não é como a Boulevard des Anglais.

- Não está cansada, pois não? - Estou, um pouco.

Acho que vi ali um banco, algures. Vou descansar um pouco.

Eu levo-lhe um gelado.

Está bem. Obrigada.

Não me espanta nada. Também estou um pouco esgotada.

Veio ver as casas ou os jardins? Identifique-se:

é horticultor ou historiador? - Bem, eu sou...

É de baunilha, tia Jane!

Peço imensa desculpa.

Não faz mal.

Com licença.

Aqui tem, tia Jane.

SERVIMOS CHÁ COM SCONES

Isto é curioso.

Parece que gostamos todos dos mesmos sítios.

- Posso juntar-me a vocês? - Faça favor.

Obrigada.

- Se calhar sou uma intrometida... - Por amor de Deus...

A Tia Jane... Eu também pensei o mesmo, curiosamente,

mas no fundo... é uma ideia da tia Jane.

Nós gostávamos de saber se isto para si é uma espécie de peregrinação.

Faz-me lembrar a Sra. Jamieson,

que foi de Cheshire até St. Mary Mead, só para ver a igreja.

A igreja? E veio de Cheshire?

Quero dizer, a igreja é bonita, mas daí a vir de Cheshire...

A Sra. Jamieson tinha sido muito feliz em St. Mary Mead, há muito tempo.

A senhora está aqui como peregrina?

- Sim, é verdade. - A sério? Mas em que sentido?

Vai mesmo visitar um santuário, ou...

Eu costumava ir muito a Abbey Ducis.

Ando há anos á procura de uma explicação para um enigma.

E por isso optou pela excursão.

Sim,

enviaram-me o panfleto há uma semana,

e o itinerário incluía Abbey Ducis.

Até parecia que o destino me estava a provocar.

E também não esperava encontrar aqui pessoas como eu.

PROIBIDO PISAR A RELVA

O testamento do seu pai é um documento algo complexo.

Nem que seja um romance de três volumes, Sr. Broadribb.

Quero ouvi-lo.

Muito bem.

Miss Wimpole...

Aquele não é o filho do Sr. Rafiel, pois não?

É, infelizmente.

Podia fazer um chá, Miss Wimpole? Isto é capaz de demorar.

- "Conforme as ordens anteriores..." - Essa parte.

Leia em Inglês. Inglês vernáculo.

O que quer isso dizer?

Que o senhor herdou dois milhões de libras, e várias...

Se...

- "Caso se cumpram as condições..." - Nada de termos técnicos, Broadribb.

Se...

Se for viver para a casa que o seu pai lhe construiu,

por altura do seu noivado.

A Mansão Rafiel, em Abbey Ducis. Tem de zelar pela casa, e...

Só assim é que recebo o dinheiro?

Sr. Rafiel, aquela é uma das melhores casas de Inglaterra.

É a única maneira?

Receio que sim.

De outra forma, não recebo nada?

- Suponho que ele tenha recusado. - Como pôde ver.

Tenho aqui as informações que a Miss Marple pediu.

Vou mandá-las pelo correio.

Para...

...Stourton.

Esta excursão foi uma oferta de um amigo,

que me pagou todas as despesas.

Já ouviu falar do Jason Rafiel?

- Era ele o seu amigo? - Sim.

E a excursão consta do testamento dele.

Que estranho...

Sim, já ouvi falar dele. Ele apoiou alguns projectos de educação.

- E tinha um filho. - Sim, eu sei.

Uma das minhas alunas, a Verity...

Era uma menina... notável.

Não era uma grande estudante, nem era muito bonita.

Não era exuberante.

Não era inteligente nem boa desportista,

era órfã, não tinha dinheiro nem lar,

mas havia alguma coisa nela...

Talvez fosse a bondade.

- Acredita nessas coisas? - Sim, sim.

Acredito no mal, na vida eterna e, sem dúvida, na bondade.

Talvez...

Talvez fosse a bondade.

E o que lhe aconteceu?

Ficou noiva do filho do Sr. Rafiel, o Michael Rafiel.

Mas não casou com ele?

- Não. - Porquê?

Não sei se teria casado, mas...

...ela morreu antes do casamento.

Morreu? Como?

Foi morta.

Mas porquê?

Por amor.

Não sei.

Acho que foi por amor.

Por amor...

Parece que a chuva está a passar.

- Sabe alguma coisa do Professor? - Não.

Mas surpreende-me que uma pessoa assim tenha vindo a esta excursão.

Concordo.

- Ele é professor de quê? Sabe? - Sei. É de psicologia criminal.

A sério?

Muito bem...

- Obrigado, Madge. - Olá, Sr. Peel.

A Miss Marple?

- Miss Marple? - Sim.

A Miss Temple disse que a Verity Hunt morreu por amor.

E então?

O Broadribb e o Schuster dizem que ela foi assassinada.

E como podem eles saber isso?

O homem que foi detido pelo homicídio dela

é o filho do Sr. Rafiel, o Michael.

- De onde vem? - Não faça isso, já disse.

- De onde vem você? - Deixe o desgraçado em paz, está bem?

Ele não pode estar aqui. Está a obstruir a via pública.

Onde só andam ratazanas. Deixe-o estar!

- De onde vem? - Venho de Tipperary!

Eu trato dele.

Mas tire-o daqui.

O corpo da Verity Hunt foi encontrado numa vala, a 15 Kms de Abbey Ducis.

Ela era namorada do Michael Rafiel.

Será que era a esse "amor" que a Miss Temple se referia?

Sim, vejo onde quer...

Sim, o amor depois da morte, e tudo isso...

- O Michael foi dado como culpado? - Não.

Foi detido, como te disse,

mas nunca foi a julgamento.

Dadas as circunstâncias, isso é um facto muito relevante.

Porquê? Ah, estou a ver,

uma pessoa não pode ser julgada quando é absolvida de um crime, não é?

Exacto.

Então o Michael Rafiel ainda podia ser julgado pela morte da rapariga.

Exacto.

Amanhã vamos a Abbey Ducis.

BEM-VINDO Á ALDEIA HISTÓRICA DE ABBEY DUCIS

- Eu faço as reservas. Fique aqui. - Obrigada.

Peço desculpa pela intromissão. Esta é a tal excursão... histórica?

Sim, a visita ás casas e jardins históricos.

Óptimo. Ando á procura da Miss Jane Marple.

Eu sou afilhado dela.

- Talvez a possa... - Sim, obrigado.

Eu gostava muito que ela ficasse em nossa casa.

Os hotéis são lugares desoladores, não são?

- Ela está no salão. - Obrigada.

Bem, quem está a seguir?

Já agora, eu sou a Lavinia Glynne.

Vivo na antiga casa senhorial, com as minhas irmãs.

Ouvimos dizer que vinha cá a Miss Marple.

- Ouviram dizer? - Sim,

temos um amigo em comum, ao que parece. O Sr. Rafiel.

Ele escreveu-nos, antes de morrer,

e pediu para a tratarmos como uma princesa.

Até nos disse o dia em que chegava.

É fantástico, não é?

Parece que ele planeou tudo até ao mais ínfimo...

O Sr. Rafiel era muito bom a planear coisas.

Era um magnata, não era?

Bem, queríamos saber se ela fica lá em casa uns dias.

Sim, ela vai adorar, com certeza.

Não é grande apreciadora de...

Na verdade, acha-os um pouco impessoais.

Eu, por acaso, gosto deles por causa disso mesmo,

e por termos quem nos trate de tudo.

- Mas ela não gosta. - Que bom, fico muito contente.

O Sr. Rafiel não nos disse que ela viajava acompanhada,

mas talvez... - Foi uma decisão de última hora.

A tia Jane achou que a viagem me ia fazer bem.

Tudo bem...

Ah, já percebi.

Peço imensa...

Ficariam muito aborrecidas comigo se eu ficasse no hotel?

Viaja connosco um professor idoso, que conta comigo...

Claro, claro, não levamos a mal.

Fique, fique.

Vamos dar as boas notícias á tia Jane.

O que foi?

Ela vai para casa de umas amigas do Rafiel.

Raios!

Tia Jane?

Tia Jane?

Olá, Lionel, meu querido.

- Quem me dera ser mais inteligente. - O que foi, tia Jane?

Passa-se aqui alguma coisa, mas eu não sei o que é.

Tenho a certeza disso,

mas não consigo descobrir. - Como assim?

Andam a contar-me segredos, e também me andam a vigiar.

Terei inimigos?

Ou será que me querem bem?

Lionel, meu querido... Quanto mais penso neste enigma do Sr. Rafiel,

mais me convenço de que tem a ver com o filho dele.

Quero que faças perguntas sobre o Michael Rafiel por todo o lado.

Onde quer que vás. Passa esta terra a pente fino.

Sim, claro. Vou tentar.

Fazias-me um grande...

Se calhar a tia devia ficar no hotel.

Não, não.

Se o Sr. Rafiel queria que eu ficasse em casa delas, é para lá que vou.

Entre. Venha conhecer as minhas irmãs.

Receio que só vá conhecer uma, por agora. Como está?

Sou a Clothilde Bradbury-Scott.

A Anthea anda às voltas no jardim. É uma sonhadora.

Quando quer sonhar, vai para o jardim. Como está?

Como está a senhora?

- Lá está ela. - Olá, Miss Marple.

Ainda bem que veio. Foi muita gentileza da sua parte.

Eu sou a Anthea.

Como está?

ALUGAM-SE VEÍCULOS

Assine aqui, por favor.

Aí mesmo.

Esse Rafiel era má peça, digam o que disserem.

Não conseguiram provar nada,

mas não quer dizer que esteja inocente.

Obrigado. E escreva aqui o número da carta de condução.

Sim.

Sim, eu ouvi dizer que ele era um...

Mas era jovem, e tinha muito dinheiro.

Deve ser uma tentação terrível.

Eu já não sou muito novo, mas se tivesse dinheiro...

Diz-se que ele matou uma pessoa, e se safou.

E antes disso já tinha má reputação.

E uns maus modos...

Não gostávamos dele. Não era bem-vindo.

Mas ele foi-se embora. Nós fizemos tudo por isso.

E pronto.

Já está.

Bons passeios.

- Obrigado. - Sim, senhor, livrámo-nos do Rafiel.

Como é que fizeram isso?

Há criaturas que fogem do fumo,

outras desaparecem se lhes pomos sal na cauda.

Quando são nossos semelhantes, basta mandá-los embora, não é?

Sr. Peel, pode dizer-me onde está a sua tia?

Convidaram-na para ficar na casa senhorial.

Ela não disse que conhecia as Bradbury-Scotts.

Não, ela não as conhecia. Foi outro plano post-mortem.

Foi o Sr. Rafiel que tratou de tudo.

É espantoso.

Estou a contar que ele me organize o horário do próximo trimestre.

O Sr. Rafiel é que conhecia as Bradbury-Scotts.

Estou a ver.

A tia Jane vem para o hotel no sábado, caso queira falar com ela.

Sim, obrigada.

Estou a ver...

Obrigada, Sra. Adams.

Não, eu só voltei para cá há uns anos, quando o Alistair faleceu.

Tinha de vir para junto das minhas irmãs.

- Somos uma autêntica instituição. - Penso que sim.

- E sempre fomos. - As manas Bradbury-Scott,

a todo o vapor.

Lembram-se? Andámos por toda a parte, antes de eu me casar.

- Éramos as vedetas da zona. - Éramos...

...como as irmãs Wyndham.

E agora somos umas velhas palermas, que vivem na miséria.

Fala por ti, minha querida Anthea. Eu vejo as coisas de outra forma.

- A minha biblioteca... - É uma miséria.

Está tudo a cair aos bocados.

A padaria, a estrebaria, a casa onde lavavam a roupa...

Está tudo a desfazer-se! É horrível.

Ratazanas, humidade, vermes...

- Há aranhas por todo o lado. - Anthea!

A minha biblioteca reúne o trabalho de uma vida inteira.

Recolhi um conjunto de textos sobre a história cultural,

e social, desta zona.

- Ela recebe cartas de todo o mundo. - Assim mantenho-me ocupada.

Com o que sonhas tu na biblioteca, Clothilde?

O que te vem á cabeça quando estás em frente á lareira?

Lembras-te de quem?

- Só do pai? - Meninas, meninas...

Vá lá. Temos uma vida muito rica.

Abençoada.

Quais são os seus planos, Miss Marple?

Gostávamos muito de lhe mostrar a nossa terra.

A Clothilde tem o seu trabalho, claro, mas eu e a Anthea podíamos ir.

A igreja é lindíssima,

e há uma série de recantos interessantes.

Fico muito agradecida, mas tenho um motorista: o meu afilhado.

Ele alugou um carro, em Abbey Ducis.

Bem, se lhe pudermos ser úteis...

Há por aqui umas casas fascinantes.

- A Mansão Rafiel era linda. - A Mansão Rafiel?

- Do nosso amigo Rafiel? - Exactamente.

- Ele viveu cá? Não fazia ideia... - Viveu, sim,

até que faleceu a sua esposa, uma senhora amorosa.

Depois voltou para Londres.

Aquela casa tem uma história bem interessante, não tem, Tilly?

Tem, sim.

Foi construída no século XVIII,

por uma família que enriqueceu com a venda de madeira.

Estava muito degradada quando o Sr. Rafiel a comprou,

mas ele deixou-a num brinco.

O filho dele viveu lá uns tempos, mas agora já não vive.

Portanto, o Sr. Rafiel viveu em Abbey Ducis.

Devia ter calculado.

- Conheciam o filho dele? - Não era boa peça.

Hoje em dia diz-se que os rapazes devem ser um pouco doidivanas,

que depois acabam por sair-se bem.

Bem, o Michael Rafiel começou mal e acabou pior.

Dão-me licença?

Tenho de devolver um livro á Biblioteca de Kingminster,

esta semana. Tenho de o acabar de ler. - Claro.

Fico muito contente por ter vindo, Miss Marple.

Se calhar eu não devia ter... Mas a Clothilde falou dele...

Eu devia ir ver se a Sra. Adams deu de comer ao Tenzing.

Acho que ela leva o peixe para casa, para dar ao seu gato.

É um prazer tê-la connosco, Miss Marple.

As minhas pobres irmãs...

A Miss Marple tem de perceber uma coisa:

as minhas irmãs e o Jason Rafiel

não eram apenas bons amigos e vizinhos.

Estavam unidos pela perda.

- Como assim? - Ambos perderam os filhos.

- Mas o Michael é filho único. - O Jason perdeu o Michael,

tal como as minhas irmãs perderam a Verity.

- Verity? - A Verity Hunt.

A rapariga com quem o Michael se envolveu.

E que foi assassinada.

As minhas irmãs eram as tutoras da Verity, Miss Marple.

A Jane tem um dom para descobrir o mal.

Tem um faro especial.

Será que tenho?

Quem me dera que ele se fizesse notar.

- Posso? - Sim, claro.

Creio que eu e a sua tia temos um interesse em comum, Sr. Peel.

Deveras?

A Clothilde e a Anthea Bradbury-Scott eram as tutoras da Verity Hunt.

Ah, sim? Eram?

É muito difícil decidir o que havemos de fazer.

O Sr. Peel tem um carro, não tem?

- Desculpe? - Eu vi-o a estacionar um carro.

Ah, sim, o carro. Tenho, sim.

Poderei aproveitar-me da sua boa vontade?

O que diria dela, Sr. Peel,

para além de "linda"?

Uma mansão sob o céu da Inglaterra.

Linda como um fragmento do Paraíso.

Parece que o Príncipe Encantado a devia acordar com um beijo, não acha?

Deveras.

Deveras.

Acredita no espírito do lugar?

O malandro do genius loci?

É um mistério difícil de resolver,

mas eu, pessoalmente, acredito. Sim.

- Já agora, onde é que estamos? - Na Mansão Rafiel.

A sério?

Eu ia agora mesmo dizer que isto podia ser um lugar muito feliz.

Concordo.

Sim. É pena, mas concordo.

Aqui ficava o campo de ténis.

Todas as tardes de domingo,

se estivesse bom tempo...

- Os nossos torneios eram famosos. - Sim.

A Tilly servia muito bem.

Onde está aquela roseira brava já houve rosas de Bourbon.

E ali...

Céus... "As ninfas deixaram este lugar."

Não sei o que me leva a fazer isto. Fico tão triste.

Aqui é a estufa.

Ah, sim.

Polygonum Baldschuanicum.

É um belo exemplar.

É?

Foi a Clothilde que a plantou.

Tem crescido muito.

Quer tomar um xerez, antes do almoço?

Não, muito obrigada.

Tenho de escrever uma carta.

Decidi escrevê-la.

Sim.

A Mansão Rafiel?

Dizem que está assombrada.

Não demoro nada. Deixei a sua para o fim, pois pensei que ia sair.

Dizem que o fantasma da miúda anda pelos corredores da Mansão.

Qual miúda?

A miúda que foi morta pelo filho do Rafiel...

É doido varrido. Só podia ser, para fazer aquilo.

- Mas não foi só ela. - Houve outras?

Sim!

A Norah Brent, por exemplo. Ela desapareceu.

A minha tia Reen diz que a viu em Blackpool,

mas ela é cegueta e burra que nem uma porta.

As miúdas dizem que ela foi para a América,

mas isso é porque ela estava sempre metida no cinema.

Não, eu acho que foi o Rafiel que a matou.

Devia ter sido enforcado pelo que fez á Verity Hunt,

mas os ricos fazem o que querem, não é?

Nós não gostávamos da presença dele.

Ele acabou por perceber isso. E que fique bem longe.

Já está, senhor.

Parte amanhã, não é?

Vai para o castelo de Kingminster, com a excursão.

Não, eu prometi á minha tia que íamos visitar as igrejas da zona.

Ela acha que o castelo é demais para ela.

Muito bem, senhor.

Sim, Sr. Walker. Adeus.

Pode entregar isto em mão?

Claro, minha senhora.

- Diga, senhor. - Um bilhete para Kingminster.

Ida e volta.

- E levo um cão. - Uma libra e 76, por favor.

- Bom dia. - Bom dia.

Olá, Miss Temple.

Como está das suas dores, Sr. Maclaren-Ross?

- Estou muito melhor, obrigado. - Tem ar disso. Ainda bem.

- Bom dia. - Professor, ainda bem que chegou.

O senhor é corajoso.

Fez bem em trazer esses sapatos.

Alguém viu a Miss Cooke e a amiga?

- Não. - Céus...

- E então? - Vamos começar pela St. Peter's.

Suponho que a rapariga esteja lá enterrada.

As janelas foram ampliadas em 1340,

e os vitrais ilustram a história da família, ao longo das gerações.

Se fizerem o favor de me acompanhar, vamos subir as escadas,

e seguimos para a biblioteca.

O que procura, tia Jane?

Eu bem gostava de saber, meu querido Lionel.

Anda.

Esta biblioteca foi desenhada por James Wyatt, em 1790,

e está ornamentada com bustos dos maiores poetas ingleses.

Os bustos são em tamanho real, á excepção do de Shakespeare,

que é maior, para ilustrar o seu estatuto de génio literário.

As vitrinas contêm manuscritos de poemas,

cartas, autógrafos e... incunábulos.

Se sairmos e descermos as escadas,

vamos entrar na sala de jantar.

Obrigada.

Venham, minha gente.

"Renasci do vazio, da escuridão e da morte.

Coisas que não existem. "

Céus!

Meu Deus...

Tradução e Legendagem Rui Cruz / CRISTBET, Lda.

MISS MARPLE: NEMESIS Segunda Parte

Peço desculpa pelo incómodo, mas como se chama a senhora?

O nome dela? É Temple. Elizabeth Temple.

Penso que tem um título honorífico.

Meu Deus, que desgraça!

Dê-me licença.

Sou o Professor Wanstead, do Ministério do Interior.

Sim, senhor.

Ele trazia uma boina de pano. Penso que era de tweed.

E uma camisola muito berrante.

- Só o vi de relance. - Entendido.

Se precisarem de mim, estou no Javali Dourado, em Abbey Ducis.

Muito bem, Professor. Espero que nos liguem da enfermaria, a dizer...

Exacto.

Lá vem ela.

Trouxeste o que querias?

Guardei um éclair para ti, querida.

Aquele não é...

É o tal Professor da excursão, não é?

Que confusão. Aquela também é turista.

Raios...

Mas o que se passa aqui?

É uma lápide muito simples,

para uma pessoa tão bem-amada como ela,

não achas?

Pois é...

Cá estamos, tia Jane.

Aqui deve haver sossego.

- Quer que lhe traga um café? - Não, obrigada.

Eu ouvi isto quando estávamos na igreja...

Vejam só...

- Professor Wanstead, como está? - Infelizmente, trago más notícias.

A Miss Temple está gravemente ferida.

A Miss Temple?

- "Gravemente" como? - Ainda não recuperou os sentidos.

Na verdade, não sabemos como está.

Não me parece que sobreviva.

O Professor disse que pode ter sido um acidente.

Está a sugerir que poderá ter sido outra coisa?

É possível que não tenha sido.

Uma estátua de pedra caiu do andar de cima. E eu vi um homem.

Ele trazia uma boina de pano e um pullover de cores vivas.

Não é o que se costuma usar quando...

Não...

A não ser que a pessoa queira ter um ar suspeito.

Fantasmas... Fantasmas...

O Sr. Rafiel é um bonecreiro, que nos controla como marionetas.

Apresenta-nos estes enigmas e fica a rir-se, no Além.

Desculpe, o Professor não deve estar a perceber nada do que estou a dizer.

Infelizmente até percebo, pois também sou uma das marionetas do Sr. Rafiel.

Antes de o Sr. Rafiel falecer, recebi um convite para esta excursão.

Como?

Não foi nada.

Desculpem.

Faça favor...

Bem, de qualquer modo,

o meu papel seria o de observador incógnito,

um jogador suplente, para o caso de...

Bem, mas a senhora está em boas mãos.

E qual era o seu interesse nisto, Professor?

Ao que parece, estão cá outras marionetas do Sr. Rafiel.

Sou psicólogo. Especializei-me em psicologia criminal.

Trabalho para o Ministério do Interior há já uns anos.

Fui eu que examinei o Michael, o filho do Sr. Rafiel, quando ele foi preso.

Tudo apontava para que ele fosse acusado de homicídio.

E foi dado como louco?

Não.

Não...

Miss Marple, posso perguntar-lhe o que descobriu, até ao momento?

Até agora parece que tudo gira em torno de uma rapariga assassinada,

a Verity Hunt.

A Miss Temple foi professora dela,

as Bradbury-Scotts eram as suas tutoras

e o filho do Sr. Rafiel, o Michael, estava noivo dela.

Mas o mais importante de tudo é que a Verity Hunt era amada.

A Miss Temple sugeriu que ela morreu de amor.

Quem me dera que a Miss Temple me tivesse dito mais coisas.

O senhor acha que ela falou com mais alguém?

Ela escreveu uma carta...

Bem, disse que ia escrever...

Pelo que me recordo,

fiquei com a ideia de que ela não queria escrevê-la,

de que a carta lhe traria chatices.

É verdade. O que será que ela sabia?

Quem será que ela conhecia?

Eu penso que a Miss Temple não era mulher de perder tempo.

Ela deve ter pensado que alguém lhe diria qualquer coisa,

aqui em Abbey Ducis.

Ou foi essa pessoa que a atacou,

ou então...

"Ou então" o quê, tia Jane?

Ou então há mais alguém metido nisto.

Uma pessoa que não conhecemos.

Acho que devíamos ler isto.

"Recado da Sra. H. Oldcastle:

"o Arcediago Brabazon já não vive nessa morada,

há quatro ou cinco anos."

A esse não o conheço, de certeza.

De facto...

Um arcediago?

Desculpe, a ligação está péssima, não estou a ouvir nada.

Bom dia, Butlers. Não é por aí.

Coronel Walker! Não é por aí.

Sra. Maclaren-Ross, não...

Não se importa, Miss Marple? Vamos para o salão.

Muito obrigada. Não se importa, Sr. Peel? Obrigada.

Céus... Venham lá, amigos.

Miss Rumley. Miss Rumley!

Professor Wanstead! Professor Wanstead, tenho uma chamada para si.

É da enfermaria.

Fala Wanstead.

Senhoras e senhores, importam-se de se sentar por um instante?

Obrigada.

Muito bem,

quero que saibam que a Miss Temple recuperou os sentidos,

por uns momentos,

por isso esperemos que... Quero dizer, eu não sei se...

Como sabem, nós íamos esta noite para Stratford,

mas receio que tal não seja possível, pelo menos até segunda ou terça.

A Polícia tem sido muito compreensiva,

mas todos vós terão de prestar depoimento,

e há que efectuar uma investigação.

- A Miss Temple chamou por mim? - Sim, pelos vistos.

- E como está ela? - Pensam que não vai recuperar.

Aquela não é a Anthea Bradbury-Scott?

Tenho pena daquelas senhoras.

O mundo mudou, e elas ficaram presas ao passado.

Elizabeth...

Elizabeth...

Jane Marple?

Sim, sou a Jane Marple.

A Verity.

Pergunte-lhes sobre a Verity.

A verdade...

A verdade foi enterrada com ela.

- Aconteceu alguma coisa. - Vou já.

Como ela faleceu, terá lugar uma investigação.

Sim.

Sim, penso que sim.

Diga-me...

O quê?

O que o levou a participar na excursão?

- Os motivos que lhe apresentei. - Desculpe, mas...

Digamos que o senhor não parece um grande altruísta.

Por que razão haveria de satisfazer os caprichos de um moribundo?

Ah, estou a perceber! Foi pelo dinheiro.

Eu não lhe tinha dito?

Ele deu instruções ao Broadribb e ao Schuster para me pagarem.

E é uma soma considerável.

Os académicos não andam a nadar em dinheiro, sabe?

- Professor... - Sim.

Estive a pensar. Para além do misterioso Arcediago Brabazon,

que a pobre Miss Temple pretendia contactar, quando foi morta,

penso que há três pistas a seguir.

Repara, Lionel... Há o Michael Rafiel.

- Sim. - Devíamos encontrá-lo, não achas?

Sim, claro. Eu vou...

Bem, o Schuster diz que ele vive como um mendigo, em Londres,

mas vou tentar.

Se eu for a Londres, a tia fica...

Claro, Lionel. Claro que sim. Professor...

- Estou ao seu dispor. - Essa jovem, a Norah Brent,

que desapareceu aquando do homicídio, vivia em Abbey Ducis, certo?

Eu pensei...

...que eu podia investigar?

- Bem... - Com todo o gosto.

Bom dia.

Viemos assim que nos chegou a notícia.

- Que acto tão bárbaro. - E como está ela?

A Miss Temple faleceu, ás cinco horas.

Meu Deus...

Lamento. Lamento imenso.

Nós viemos cá para dizer á Miss Marple

que pode ficar em nossa casa o tempo que desejar.

São muito amáveis. De certeza que não incomodo?

- De todo. - Obrigada.

Pronto, já tratámos disso.

Então contamos consigo para logo á noite.

Obrigada.

Tem a certeza?

Sim,

tenho a certeza. Esta é a terceira pista que tenho de seguir.

O Sr. Rafiel queria que eu fosse lá, para descobrir alguma coisa.

Bem, ainda não consegui descobrir.

Se calhar ainda não fiz a pergunta certa.

Que chatice.

Deve ser do tempo.

Verity...

Conhecia a Verity? Não fazia ideia...

Está a falar da Verity Hunt, não está?

Creio que nem sei do que estou a falar.

A coitada da Miss Temple disse esta palavra antes de morrer.

Disse só isso. "Verity".

Eu sei que significa "Verdade", mas...

Oh, Céus... Disse alguma coisa que não devia?

Peço imensa desculpa.

Não faz mal, Miss Marple.

É que as minhas irmãs gostavam muito dela, e...

Ela foi barbaramente assassinada.

- Por amor de Deus, Anthea. - Encontraram o corpo numa vala.

Era uma rapariga de quem gostávamos...

...muito.

Ela viveu aqui vários anos.

Eu gostava muito dela.

Eu não disse que tu...

Ela adorava-te.

Ela...

A vida dela devia ter sido...

Ela...

Foi tudo...

Desculpem.

Por amor de Deus, eu não quis dizer...

Céus...

Todas nós gostávamos da Verity.

Mas a Clothilde tratava-a como uma filha. Nós nunca falamos disto.

Só se não o pudermos evitar.

Creio que já lhe disse que o Michael Rafiel não era boa peça.

Bem, ele era mesmo mau.

Agressão, falsificação,

sarilhos com as raparigas da zona,

episódios de violência...

Houve uma rapariga cá da aldeia que desapareceu, a Norah Brent.

Nunca a encontraram.

Quando a Verity foi assassinada, a polícia interrogou o Michael, claro.

Ela estava no carro dele quando foi vista com vida pela última vez.

Não temos quaisquer provas,

mas, de qualquer modo,

o corpo foi encontrado seis meses depois,

e a Clothilde teve de o identificar.

A Verity tinha sido estrangulada e tinham-lhe partido a cabeça.

A minha irmã nunca mais se refez do choque.

Não. Lamento, mas o Sr. Peel deixou o hotel ontem de manhã.

- Obrigada pela ajuda. - Bom dia, senhoras.

Então,

não se vão juntar ao resto do grupo?

Não, não vamos.

Com esta tragédia, a excursão parece uma futilidade,

uma ideia de mau gosto. - Concordo.

- A missa por alma dela é na quarta. - Ah, sim?

- Óptimo. Estarei presente. - Sim, nós ficaremos cá até lá.

Depois logo se vê. Isto deixou-nos muito desanimadas.

Deveras.

- Bem... - Bem...

- É melhor eu ir andando. - Sim.

- Sra. Brent? - Sim.

Professor Wanstead, Ministério do Interior. Podemos falar da sua filha?

- De certeza que não toma nada? - Não, obrigado, Miss Brent.

Já bebi um café no hotel.

Bem, então vou fazer um sumo de laranja para mim.

Dizem que eu a estraguei com mimos.

Se calhar é verdade.

Devia tê-la visto em criança.

Tinha uma carinha pequenina, e uns caracóis...

A Norah dava a volta á cabeça das pessoas.

Nunca perdeu o jeito para isso.

Dizem que devia ter cuidado melhor dela, quando o Keith me deixou.

É claro que o podia ter feito.

Podia.

Mas não podemos mandar na vida dos outros, pois não?

E se não nos divertimos quando somos jovens...

Onde é que acha que ela está?

Como?

Pela maneira como falou, até parecia que tinha uma ideia.

- Eu sei muito bem onde ela está. - Sabe?

Está morta, essa é que é essa.

A minha bezerrinha...

Só pode estar.

Ela desaparecia muitas vezes,

e pregava-me com cada susto...

Mas quando não se sentia bem voltava logo.

O pior era quando se sentia feliz.

Ás vezes a cachopa passava dias sem me dizer nada.

Mas telefonava-me sempre, mais cedo ou mais tarde,

por isso eu não me preocupei logo.

Nós conhecíamo-nos, sabe como é...

Eu não queria acreditar,

não queria...

Cá dentro não acreditava.

Não acreditei durante semanas.

Depois, por fim, percebi que estava a ser parva.

Ela acabaria por me contactar, de alguma forma.

A minha bezerrinha sabia como eu era.

Não ia querer atormentar-me.

Não, ela morreu.

Alguém a matou.

Minha pobre...

Lamento imenso.

Mas qual é o seu interesse nisto?

Desapareceu outra rapariga, na mesma altura.

Sim, foi a menina Hunt, da casa senhorial.

Sim, é verdade.

- A minha Norah conhecia-a. - Não sabia.

Sim, a Miss Hunt afeiçoou-se á minha Norah.

Era muito inocente, e perguntava coisas á Norah.

- Ela não tinha mãe. - Mas tinha as tutoras.

As duas solteironas! Não eram as pessoas mais indicadas

para lhe ensinar o que havia de fazer com um homem.

Não, certamente, no caso de...

Claro! Ela estava apaixonada, não estava?

- Estava? - Sim,

pelo filho do Rafiel, que vivia lá no casarão.

Acha que ele teve alguma coisa a ver com a morte da Verity?

Não vou falar sobre isso.

De certeza que não quer um sumo de laranja?

- Adeus, Sra. Watson. - Adeus.

Oh, Céus...

Diga, minha querida.

- Valha-me Deus... - O que foi?

Ando sempre a fazer disparates.

Vamos tentar resolver o problema.

Se fosse possível...

Eu fui muito estúpida. Mandei um embrulho.

Eu costumo mandar-lhes roupa.

Pullovers, roupas de lã para criança, coisas assim...

- Manda-as para quem, querida? - Para uma obra de caridade.

Eu embrulhei-as, escrevi o endereço e pedi para as enviarem.

Quando estava a beber a segunda chávena...

Eu gosto de beber muito chá ao pequeno-almoço. Não gosta?

- Sim. - Então vi que me enganei na morada.

Queria mandá-las para a Associação de Caridade da Doca de Londres.

Eu estou ali na casa senhorial,

e acho que foi a Sra. Glynne que trouxe o embrulho.

Terá sido no sábado?

Sábado? Sábado?

- Sim, foi no sábado. - Não foi a Sra. Glynne, querida.

Foi a Miss Anthea.

Foi? Que amabilidade.

Deixe cá ver... Para onde é que foi?

Era no East Ham... Sim, de certeza.

"Roupas para Mulheres e Crianças..."

- Acho que era uma Fundação. - A Fundação!

Isso mesmo, era a Fundação!

No East Ham. Exacto. É a do Reverendo Matthews.

É uma família muito generosa, com uma missão tão difícil...

É isso. Céus, que memória a minha...

- Mas o embrulho já foi enviado. - Bem, muito obrigada,

a senhora aliviou-me o espírito. Obrigada.

Tudo bem, querida. Adeusinho.

ABRIGO PARA TRABALHADORES

HOMENS

O Raff? Pode estar em qualquer lado. O trabalho dele é assim...

Trabalho?

- Quem é você? - Sou amigo dele.

E não sabe o que ele faz?

Desapareça!

É um recado da Miss Marple, Broadribb.

Ela ligou para cá.

Tem uma pequena tarefa para nós.

Quer que encontremos um embrulho.

Não pode entrar!

Peço desculpa, Sr. Broadribb. Peço desculpa, mas...

Não há problema, Miss Wimpole. Não há problema.

- Pode fazer-nos um chá? - Um chá?

Exacto. Um chá.

O que se passa, Broadribb?

Desculpe?

Ouça,

anda um tipo atrás de mim, a fazer perguntas a meu respeito.

Eu não gosto disso.

Diga-lhe para me deixar em paz.

Está bem?

Já.

Bem, Schuster,

você faz ideia de quem seja?

Não faço a mínima ideia,

não vejo quem esteja interessado numa pessoa tão desagradável.

"Pois Ele carregou os nossos desgostos,

"e padeceu com as nossas mágoas.

"Mas ó Senhor, quando nos chamais,

"Todos partiremos para junto de Vós.

Ámen. "

MISSA POR ALMA DE ELIZABETH K. TEMPLE

Acompanhai-me

A noite cai depressa

A escuridão adensa-se

Acompanhai-me, Senhor

Quando falham as ajudas

E o consolo me abandona

Abrigo dos despojados

Acompanhai-me, Senhor

Espero que não leve a mal, mas...

...o senhor é o Arcediago Brabazon?

Sou, sim.

Creio que ambos conhecíamos uma pessoa:

o Sr. Rafiel.

Sim, é verdade.

Ele morreu há pouco tempo.

Foi por isso que veio cá?

Por assim dizer...

Eu também julgo estar aqui por vontade dele.

Não me ocorre outra explicação.

Já tinha pensado várias vezes em voltar da Austrália,

mas de repente aparece um bilhete de avião na minha secretária.

A companhia aérea garantiu-me que estava mesmo em meu nome.

Em Londres, no aeroporto, estava outro bilhete á minha espera,

desta feita para Abbey Ducis.

Quando cheguei cá, receberam-me com esta notícia trágica.

E mesmo isso parece ter sido planeado.

Arcediago, eu gostaria de o apresentar a uma pessoa.

Lá está ela.

A detective do Sr. Rafiel. O seu anjo vingador.

Parece mesmo inofensiva, não parece?

O seu disfarce é perfeito, porque ela é, em parte, o que aparenta ser:

uma velhinha coscuvilheira.

Mas a sua lógica é implacável

e tem uma capacidade de síntese assombrosa.

E, sobretudo, ela nunca desiste.

Estou ansioso para a conhecer.

Eu conhecia a Verity desde criança, e ela era...

Ela foi abençoada com uma bondade e simplicidade tais

que por vezes até me assustavam.

A Miss Temple disse que ela era uma rapariga "notável".

Sim, isso mesmo. Pois era. Era mesmo.

Foi ela que veio ter comigo.

Ela acreditava que o Michael podia mudar.

Eu tentei explicar-lhe que as pessoas raramente mudam,

pelo menos de carácter.

A sua resposta foi muito simples.

Perguntou-me se eu não acreditava na redenção.

Até parece que a estou a ver,

com a sua simplicidade,

a sua força, a sua fé...

Quando me disse aquilo senti-me envergonhado,

como se a vida terrena me tivesse conspurcado.

E, quando os vi juntos, percebi que ela tinha razão.

Eu já havia aconselhado muitas pessoas que se iam casar,

mas nunca vi duas pessoas tão adequadas uma á outra.

Havia entre eles uma confiança tal, uma compreensão um do outro...

Isso é raro, muito raro.

Era notável.

ASSOCIAÇÃO ST. BRIDE DE APOIO AOS NECESSITADOS

O Sr. Rafiel? O Raff?

Não o conhece?

Ele é uma espécie de...

Não sei...

É um defensor do povo.

Ele enfrenta as autoridades,

para defender uns desgraçados que nos caem nas mãos quando...

É um consul populus.

Ele tem estudos, sabe?

As pessoas consideram-no um santo.

Eu sou uma autoridade, por isso não o vejo como tal.

Recebe os "fariseus" com quatro pedras na mão.

Chama-nos "burros", "bestas", e mais não sei o quê!

Que bom, a Miss Marple ainda cá está.

Podia fazer-nos o obséquio de jantar connosco esta noite?

Bem, são muito amáveis,

mas acho que contam com a minha presença na casa senhorial.

Mas que grande injustiça.

Jantou com elas todas as noites. Podia abrir uma excepção.

Venha, por favor, tem sido uma viagem tão interessante...

Eu e a Miss Barrow podemos levá-la á casa senhorial, depois do jantar.

Janta cá hoje, Miss Marple?

A Miss Cooke teve a amabilidade de me convidar.

Bem, penso que as Bradbury-Scotts não se vão importar.

Na verdade, acho que a Sra. Adams ficará contente,

por ter menos uma pessoa a quem fazer o jantar.

Eu telefono para elas.

E agradeço imenso. Espero poder ir jantar convosco.

Eu levo-a de carro á casa senhorial.

Ficar-lhe-ia agradecida.

- Vai jantar com elas porquê? - Talvez descubra alguma coisa.

Obrigada, Sra. Adams.

Sra. Adams, vamos precisar de mais uma chávena.

A Miss Marple deve estar a chegar.

Sempre descobriu alguma coisa?

- Sim. - Boa noite, Miss Marple.

- Boa noite. - Boa noite.

- Bem, ficámos a saber muita coisa. - Pois foi.

Achei algo estranho a Jane Marple não ter vindo jantar connosco.

Deve ter sido por cortesia,

para não incomodar.

Ela já teve a oportunidade de constatar que só temos uma criada.

Acho que não foi só por causa disso.

Ela disse que queria descobrir qualquer coisa.

- Era bom que ela jogasse bridge. - Foi por uma questão de cortesia.

Estou farta de jogar besigue.

Pára de mexer nessa máquina infernal!

Meu Deus! Meu Deus!

Meu Deus!

- Obrigada, Professor. - Tem a certeza?

Já estou em segurança.

Pronto.

- Estás pronta? - Sim.

Parte amanhã, Miss Marple?

Sim. Já consegui o que queria.

Cumpri a minha incumbência.

- A sério? - Incumbência? Por parte de quem?

Do Sr. Rafiel. Agora já vos posso contar tudo.

- E qual era a sua incumbência? - Um homem tão generoso...

- Desculpe? - O que lhe pediu ele?

Bem, ele pediu-me... Ou melhor, contou comigo para o ajudar,

recorrendo aos meus pequenos dons. Falou-me de justiça.

"Que a Justiça deslize como a água,

e o Bem como um rio interminável."

Santo Deus...

Estava agora a pensar

que tive de adivinhar quais seriam as intenções dele.

Mas tenho a certeza de que acertei.

Não é estranho?

Começou tudo com aquela pobre e encantadora rapariga,

a Verity. A vossa protegida.

Quando o Sr. Rafiel sentiu a morte a chegar, quis que fosse feita justiça.

Quis, a todo o custo, que o assassino dela respondesse perante a Lei.

E tomou medidas nesse sentido.

- E sabe quem foi que a matou? - Sim, agora já sei.

Ficaremos todas muito satisfeitas quando a questão for esclarecida.

Mas quem foi?

É tudo uma questão de provas. São um empecilho.

Atrevo-me a dizer que as coligirei,

mas entretanto...

Claro...

Tenzing!

Como é que entraste? A Sra. Adams disse que te punha lá fora.

Estás todo encharcado!

A Sra. Adams deve ter deixado uma janela aberta. Vamos ver.

Sim, já é tarde.

Eu levo isto.

Quer um copo de leite, Miss Marple?

Boa noite, Miss Bradbury-Scott.

Vi a sua luz acesa,

e pensei...

...que eu tinha bebido o leite?

- Como? - Lamento, mas não o bebi.

Achei que não me ia fazer bem.

Penso que sabe o que eu quero dizer.

Se quiser mais leite, eu vou lá buscá-lo.

E eu continuarei a não beber.

A senhora é uma pessoa fora do vulgar.

Isto é alguma excentricidade sua?

Era uma vez uma menina que vivia nesta casa.

Era bem-amada, inocente e pura.

Demasiado bem-amada,

demasiado inocente, demasiado pura.

Quando surgiu um jovem pretendente,

como a senhora sabia que viria a acontecer,

a inocência dela foi a estrela que orientou o seu amor por ele.

Era um delinquente depravado e miserável...

- Não quero falar disto. - Fosse ele o que fosse,

a senhora era a tutora da rapariga que o tentou redimir.

Não o podia ter feito!

Só Deus sabe o que ele lhe terá dito.

A minha menina linda, maravilhosa... Ela não podia ter feito isso!

- Devia ter percebido... - Nunca lhe deu essa hipótese,

pois não?

Todo esse seu amor deve ter sido uma coisa terrível, Miss Bradbury-Scott.

Como é que a matou?

O quê?

A Verity foi encontrada numa vala,

com a cabeça esmagada.

Acha que eu...

Da forma como eu amava aquela rapariga,

acha que eu teria sido capaz de lhe fazer isso?

Não, é claro que não.

É claro que não era capaz.

Então de que raio está a falar?

Estou a falar da Verity,

e não da Norah Brent, que você espancou até á morte

e identificou como sendo a Verity,

quando o corpo foi encontrado.

Deve ter sido um sacrilégio horrível, para a sua princesinha.

Deve ter-lhe custado muito caro.

Pôs a Verity a dormir

no preciso momento em que ela acordava para a beleza da vida.

Ela estava a tentar libertar-se das amarras do seu amor.

Queria ter uma vida normal,

queria a realidade.

A senhora mandou-a de volta para o mundo da fantasia.

E agora...

E agora?

Ela está em segurança, fora do alcance de qualquer príncipe menos digno.

A Bela Adormecida dorme entre as ruínas,

e as flores crescem á sua volta.

Sim. Sim.

Não, Miss Bradbury-Scott. O cadáver dela apodreceu,

e ninguém a vai acordar com um beijo.

Velha do Demónio...

Bruxa!

Não vai sair daqui com vida.

Creio que vou.

Muito bem.

Terminou tudo, por fim.

Graças a Deus!

Agora vou para o meu quarto,

se não se importam.

Tenho a certeza de que não haverá problema.

- Tem a certeza? - Absoluta.

Tilly!

Clothilde!

- Tilly! - Clothilde!

Tilly!

Clothilde!

Tilly!

Deixem-na em paz.

Já não podem fazer nada por ela.

Ela nunca foi feliz. Nunca.

Nem mesmo quando tinha a Verity. Estava sempre com medo de a perder.

Ela plantou isto em memória dela.

Eu disse-lhe para a arrancar,

para ver se com o tempo ela se esquecia.

Ela nunca o faria.

Essa é a campa da Verity.

Aquela lápide tão singela, no cemitério, é da Norah Brent.

Não!

Obrigada, Lionel. Muito bem.

Vamos andando, Miss Marple.

Adeus, e muito obrigada por tudo.

É o nosso trabalho. Adeus.

- Adeus. - Adeus.

Professor, quero apresentar-lhe os meus anjos da guarda.

O Sr. Rafiel teve a gentileza de chamar a Miss Cooke e a Miss Barrow,

para serem minhas guarda-costas.

Foram muito eficientes.

- Prazer em conhecê-lo. - Miss Cooke...

- Adeus, Professor. - Miss Barrow...

Vamos andando, Barrow.

A polícia encontrou isto na secretária da Clothilde. É da Elizabeth Temple.

Confirma a sua teoria.

Acusa, de forma implícita, a Clothilde Bradbury-Scott,

pelo homicídio da Verity.

É espantoso...

Ela ofereceu-se para a ajudar a confessar, como se fosse...

Não sei,

como se isso fosse uma coisa normal.

Isso custou-lhe a vida.

O homem de boina e camisola

era a Clothilde.

A Miss Temple não se apercebeu do perigo em que esta carta a colocaria.

Portanto, a fé que o Jason Rafiel depositava no filho era justificada.

Não, Professor. Não foi assim.

O Sr. Rafiel queria que fosse feita justiça,

mesmo que tivesse de sacrificar o seu filho.

- Ele considerou essa hipótese? - Sim, sim.

Fico lisonjeada, pois foi por isso que ele me escolheu a mim.

Ele sabia que eu não hesitaria,

mesmo que tivesse de mandar o Michael para a forca.

Sabe, ele chamou-me "Nemesis",

e não estava apenas a brincar.

Bem,

já me encontrou.

O que quer de mim?

Já sabem quem matou a Verity.

Sim. É, não é?

Mas que paraíso...

Não devíamos ir andando, Professor?

Não, acho que não.

O que vai fazer?

Céus... Não sei...

Obrigado por ter vindo, Miss Marple. Sou o Michael Rafiel.

Como está?

- Professor... - Olá, tia Jane.

- Muito bem, Lionel. - Bem, eu...

Encontrei isto noutro envelope, dirigido a mim.

- É para si. - Para mim?

Sem sombra de dúvida.

É do seu pai.

Vejam só...

"Obrigado, Miss Marple, minha Nemesis.

"Voltaremos a ver-nos?

Do seu Jason Rafiel".

Tradução e Legendagem Rui Cruz / CRISTBET, Lda.

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