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UM DOCUMENTÁRIO NETFLIX
Por favor...
Cuidado.
- Cuidado, certo? - Cuidado.
Angèle!
Angèle...
Aconteceu tão depressa. E foi tão intenso.
Angèle, queres casar comigo?
Sabe bem pô-lo em palavras.
DIÁRIO
ESTOU A SUFOCAR
FALSO
SUCESSO?
Poder contar a história da forma como a vivi.
Raios. Fico sempre horrível quando uso esta câmara.
E ninguém será capaz de a contar melhor do que eu.
Ninguém está pronto para isto.
Quando, de repente, me vi em todos os programas,
fiquei muito feliz...
A VIDA É FIXE!
... mas pensei: "Porque estou aqui? Porquê eu?"
Eu criei esta rapariga.
Uma versão melhorada de mim. Uma mistura das minhas fantasias.
A Pequena Sereia.
Uma princesa.
Hélène Ségara.
Priscilla. Ariana Grande.
Todas aquelas com quem queria ser parecida.
Eis o problema,
perdi a verdadeira Angèle.
PERDIDA
Já não sei quem sou.
QUEM SOU
QUEM É A ANGÈLE?
BRUXELAS, BÉLGICA
Os cidadãos devem ficar em casa
para evitar qualquer tipo de contacto físico
fora do seu círculo familiar próximo.
Todos os ajuntamentos são proibidos.
Confinamento, dia um.
Estamos a 14 de março de 2020.
Não sei como serão as próximas semanas.
Estamos confinados
Como não tenho nada para fazer, estou a experimentar.
Confinamento, dia cinco.
Sinto que já passaram dois anos desde que compus algo.
Hoje é dia 19 de março. Isto vai parecer uma eternidade.
Estou farta de estar con... fi... nada.
No início, não queria fazer música.
Dizia: "Não devia estar a trabalhar. Estou de férias."
Construí uma espécie de abrigo para mim.
Com um sistema Hi-Fi e tudo. Uma versão caseira.
E foi aí que compus muita coisa.
Porque é que soa assim?
Porque está tão saturado?
BRUXELAS, EU AMO-TE
Comecei a pensar noutro álbum durante o confinamento.
Não pensei antes. Estava em digressão, a promover-me.
Não tive outra escolha senão dizer a mim mesma:
"O que fazemos agora?"
Tive sorte por o meu primeiro álbum ter sido um sucesso.
Mas eu tinha 20 anos quando o compus. Agora tenho 25 anos.
A minha vida mudou muito em cinco anos.
Já vivi muito.
Não posso continuar a cantar sobre o mesmo.
Não gosto. É irritante.
Esperam que eu tenha o mesmo sucesso. É natural sentir-me pressionada,
mas acho que vou explorar outro lado e tentar algo mais pessoal.
Não sei onde isto me levará.
QUEM É A ANGÈLE?
Esqueci-me de como era estar sozinha com o meu piano.
Perguntar coisas como:
"Sobre o que quero falar, cantar?"
CONFINAMENTO - DIA 36
Uma vez
Nunca desistas
Duas vezes
Por todo o amor que tenho
Três para ti
Onde estás?
Se a pandemia não tivesse acontecido,
eu provavelmente estaria a viajar, em festas...
Não teria confrontado estes medos
de uma forma tão direta se os pudesse ter evitado.
Pepette.
A câmara dos segredos.
Tenho tanto brol.
BROL - NOME MASCULINO (BÉLGICA) CONFUSÃO, DESORDEM
Quer dizer, brol a sério.
Deve estar aqui o caderno dos segredos.
Não tenho o meu caderno?
A Pepette está presa.
Porque é que escreveste
Tudo em cadernos
De segredos
Um caderno de segredos.
UMA VIDA
QUEM É A ANGÈLE?
Escrevo muito porque preciso de... escrever.
É por isso que componho.
Sempre escrevi diários. Tenho tantos.
Isto é mesmo o começo.
Ainda não tinha canções.
É uma loucura a porcaria que escrevi.
Compunha letras horríveis.
"Online e ligado, mas não a mim. Espero por um sinal, mas nada."
A primeira letra de "Je veux tes yeux".
A melodia era diferente.
Online e ligado, mas não a mim Espero por um sinal, mas nada
Online e ligado, mas não a mim
Espero por um sinal, mas nada
Ainda bem que mudei a melodia.
ESCRITO AOS 23 ANOS
"É tarde. Estou no meu apartamento em Paris. Apetece-me ler notas antigas.
Já não sei quem sou.
QUEM SOU
Trabalho mais do que respiro.
Estou a sufocar.
Não sei o que me faz feliz. O sucesso?
Os 350 mil seguidores?
As 10 milhões de visualizações de 'La loi de Murphy'?
O que me faz feliz é falso.
Eu, a minha imagem. A arrasar.
Eu e a cantora Angèle.
Tudo o resto parece inútil. Tenho vergonha disso.
Sinto um vazio quando chego a casa
porque percebo que isto é tudo inútil,
falso, intangível.
Eu era cheia de vida. De dúvidas, perguntas, desejos.
Agora, o sucesso é o meu único desejo.
Eu fujo de tudo o resto. Antes, eu era livre."
Pronto. De loucos.
ANTES, EU ERA LIVRE
Não trocaria a minha vida pela que tinha.
Mesmo que pudesse.
O que me está a acontecer é lindo.
Trabalhei muito para isso. É o que sempre quis.
A VIDA REAL
Serei uma daquelas outras mulheres
Aquelas que te dão prazer
Os teus joguinhos serão nossos
Se é isso que queres
Vou brilhar mais
Para reavivar a chama
Vou transformar-me em ouro
Para que me ames...
- Está lá? - Sim, olá.
Olá, mãe.
Podemos encontrar-nos no domingo à noite.
Sim, estarei lá.
Comemos batatas fritas, para variar.
- Cuida-te. Vemo-nos no domingo. - Amo-te, mãe.
- Amo-te. Adeus. - Sim. Adeus.
Vejam. Quando era miúda, isto era uma torre.
Era como o World Trade Center para mim.
Nunca soube para que servia.
Esta era a minha escola primária.
Vamos ver a minha escola.
É incrível
estar aqui.
Estar de volta.
Crocodilos!
Devo ter passado cinco anos da minha vida à espera do autocarro aqui.
Os meus pais atrasavam-se um pouco.
Bem, estamos a chegar a Linkebeek.
Vesti uma camisola à Pepette para estarmos a combinar. Sou louca.
Ela é tão fofa.
Isto aqui é tão bonito.
Mas ficamos aborrecidos depressa.
Estamos literalmente no meio do nada. É a minha casa.
Vamos ver a avó.
Pepette! Minha querida.
Olá.
Estou a filmar.
Olá, fofa.
Olá.
Viste as coisas ali?
Ela é a Laurence Bibot e tu és a Angèle Van Laeken. Sim!
Como estás?
Sim, muito bem.
- É Spritz? - Não, é granadina.
Angèle?
- O quê? - Tudo bem?
Sim, estou bem.
ESCRITO AOS 13 ANOS
"Sou nova. Tenho amigos incríveis.
Adoro a minha escola. Os meus pais e o meu irmão são ótimos.
Adoro música, adoro festas.
Adoro o piano.
Adoro doces.
Brincar, gritar, dançar. Dançar como se ninguém estivesse a ver.
Adoro cantar. Filmes americanos antigos. Adoro a Audrey Hepburn.
Se continuar a explicar porque estou feliz agora, sem motivo,
vou começar a chorar.
É a vida real.
- Todos os espetáculos. - Tem piada.
Os bons velhos tempos.
"Bravo, Martine."
Vinte e seis de outubro de 1996. Eu tinha um ano.
Menos do que isso.
Ela estava no palco quando eu tinha dez meses.
Foi quando...
- Quando desmaiei? - Tiveste um espasmo de choro.
Certo.
Foi aí que começaste a afirmar o teu mau feitio.
Exatamente.
Mas olha para mim hoje.
Olha, querida.
Bebé.
És a recém-nascida, não és?
Quem é, Roméo? A tua irmãzinha, como se chama?
- Angelo. - Não, Angèle.
- Sim, Angèle. - Não é um rapaz.
Os nomes têm uma história.
Com o Roméo, já fomos um pouco longe.
Escolhemos Roméo... Johnny. É sempre bom.
Elvis. E Kiki.
Quando engravidei,
não sabia o género.
Embora acreditasse que seria uma rapariga. Era o que queria.
Por isso, sim, queria voltar a usar nomes lendários.
Pensei nas mulheres que marcaram a história.
"Cleópatra" era um exagero.
Joséphine seria o nome do meio por causa da Joséphine Baker.
Decidimos... Aliás, eu decidi.
É o mais honesto. Escolhi "Angèle".
Ela foi uma bebé fantástica. Uma menina linda.
Ela nunca teve uma fase má.
Trabalhei como modelo.
Vi umas miúdas muito bonitas.
E vi como estavam tristes.
Pensei: "Isto é estranho. A beleza é um presente envenenado."
Disse à Angèle, quando ela tinha quatro ou cinco anos:
"Ouve. És muito bonita."
Estávamos no carro. "És muito bonita.
Mas isso não chega.
És bonita. Nós sabemos. Mas desenvolve outra coisa."
A MÃE
Viste a tua mãe?
Sai pelo outro lado.
Sabes o que ele disse? "Vai lavar o rabo, cabra."
Laurence Bibot.
Também conhecida como Marinette.
Cresci com pais famosos. A minha mãe é atriz.
O meu pai é cantor.
Para mim, a fama
sempre foi algo conhecido.
Não era novidade.
Os meus pais eram artistas. Eram muito criativos.
Estavam no palco, sob os holofotes.
Eram inspiradores, divertidos.
Eles tinham presença.
Às vezes, talvez demais.
Eu e o meu irmão tivemos a sorte de viver isso.
Apesar de só serem populares na Bélgica
e de tudo ser bastante modesto,
sentimos que crescemos na sombra deles.
DIÁRIO
ATENÇÃO, SOU NARCISISTA
NÃO LEVEM ESTE GRANDE DEFEITO EM CONSIDERAÇÃO
Vejam só.
É interessante. Um pouco triste.
"Sempre que falo dos meus pais, as pessoas falam do trabalho deles.
'Ouve-lo na rádio? A tua mãe ainda tem piada?
Os teus pais gravam-se quando estão na TV? Vi a tua mãe na TV. Ela é um máximo.'
Não quero saber.
Estou... a dizer... que são insuportáveis.
As pessoas não me veem. Sou só a filha deles."
Loucura. Um de maio de 2011.
SOU SÓ A FILHA DELES
Vão brincar lá fora.
Os miúdos sofreram com a nossa fama. Não nos demos conta.
Eram "os filhos de".
Quando fazíamos compras no supermercado,
as pessoas vinham ter connosco.
Para os miúdos, eu...
Disseram-nos que nem sempre era fácil. Não nos demos conta.
Agora, sim.
Agora que é ao contrário.
Nós não somos...
Às vezes, eu...
Sou só "o pai de".
O PAI DE
Bruxelas está a chegar!
Deve ter sido especial para o meu pai.
Uma sensação de "ena".
Tal como eu quando vi a minha irmã a arrasar,
enquanto eu também estava no ramo, a construir um nome.
Imaginem como é para o meu pai. Tem quase 60 anos.
E os filhos dele...
Vamos começar por mim. Estava a fazer a minha cena.
Ele estava... Ficou espantado.
"Quantas visualizações esta semana?" E eu: "Dez mil."
"Isso é de loucos." Ele ficou chocado.
O IRMÃO RAPPER
IRMÃ DE
FILHA DE
Tornaram-se "os pais de". Isso é de loucos.
Tornaram-se "pais de".
Ainda passo tempo a pedir desculpa por estar aqui.
Mas...
Só queria reconhecimento.
Como pessoa.
Como indivíduo,
independentemente dos meus pais.
Boa. Espera, não tenho a certeza.
Quando tocava, sentia que valia alguma coisa.
Tinha algo a dizer.
Felizmente, a Ania, a minha professora de piano, viu isso.
Então, incentivou-me.
Perguntavam quem estava a tocar piano. "É a Angèle."
Senti-me merecedora de novo. Isso fez-me sentir valorizada.
Mas não podia tocar no meu quarto sozinha.
Se as pessoas estivessem ocupadas, não podia tocar muito alto.
Não podia cantar muito alto.
Não queria chamar a atenção.
Então, também aprendi a tocar baixinho.
E a cantar baixinho.
Isso é bom.
O meu pai era exigente, visto que era o trabalho dele.
Se eu tocava piano, ele costumava dizer:
"Tens de te esforçar mais."
Ele não me achava suficientemente diligente.
Lá...
Ré...
Vamos fazer juntos.
Não podíamos tocar assim... Não era só um passatempo.
"Porque é que o meu pai...
Um, é irritante;
dois, quer que eu seja música profissional?"
É o trabalho dele. Não significa que deva ser o meu."
Força.
"A música requer muito mais esforço."
"Desculpa, Marka.
Não gosto tanto de música como tu.
Adoro o piano. Sim.
Mas nunca será a minha profissão."
"Adoro piano. Sim.
Mas nunca será a minha profissão."
Li bem. "Nunca será a minha profissão."
Incrível.
O MEU LUGAR
BRUXELAS 2 PRIMEIRO VERSO: OK
Devo-te o meu nome
Bruxelas, eu amo-te Bruxelas, eu amo-te
Tive saudades tuas
Raios partam.
É isso.
Não é assim tão difícil.
BRUXELAS, EU AMO-TE
O confinamento não foi fácil.
Para ninguém.
Vivi em sítios diferentes.
Estive presa em Paris durante algum tempo.
Foda-se.
Dois.
É interessante?
Espera.
Adoro Paris. É sublime. Tem tudo o que preciso.
Mas não é o meu lar.
Queria escrever uma carta de amor à cidade onde cresci.
Bruxelas, eu amo-te
És a minha favorita
Bruxelas, eu amo-te Bruxelas, eu amo-te
São aquelas pequenas coisas, coisas simples e pessoais,
que orientaram o segundo álbum.
Pode não ser tão universal como o primeiro.
Não vai mudar o mundo, mas é tão sincero e próximo de quem sou.
Acho eu.
Acho que fazer música para mim,
sendo a profissão do meu pai,
não podia ser só um passatempo.
Ao mesmo tempo, não queria tornar-me profissional.
Fiquei num meio-termo.
Percebi que era talentosa e que gostava,
mas não queria insistir.
Não queria ter a profissão do meu pai.
Parecia-me um trabalho difícil.
E até mesmo perigoso para a saúde mental dele.
Era assim que resumiria.
UM, DOIS, TRÊS
Eu era contra os smartphones.
Eu tinha um Nokia.
Não tinha Snapchat, Instagram.
Só o Facebook.
Uma boa amiga disse-me:
"Vais adorar o Instagram." E eu: "Eu, adorar?
Não, obrigada. Não tenho interesse. Não quero chamar a atenção."
REGISTA-TE
NOME COMPLETO: ANGÈLE VAN LAEKEN
NOME DE UTILIZADOR: ANGÈLE_VL
SEGUINTE
Registei-me no Instagram.
Como estava a estudar música,
achei que podia usá-lo para fazer música.
Só há uma coisa Que está a atrapalhar
Sabes que odeio dormir sozinha
A matar-me suavemente com a canção dele
A matar-me suavemente
Depois, comecei a cantar
e a gravar vídeos.
Para evitar críticas,
fazia piadas.
Era mais fácil rir e disfarçar-me.
Fazer caretas.
Isso mostrava que eu não me levava a sério.
Obrigada, adeus.
Por fim
A minha comida chegou
Não tenho confiança, mas não tenho seguidores.
Não há nada em jogo.
Só a minha amiga que me registou. Alguns amigos.
Alguns descobrem que canto. Ficam surpreendidos.
Os meus amigos de infância descobrem que canto.
Mas era só isso.
Lembro-me muito bem
de algumas das primeiras reações.
Lembro-me da reação da Sylvie.
6 GOSTOS
QUERO SER TUA MANAGER!
Conheço bem a Angèle, sim.
Conheço-a há 21 anos. Sim.
Andávamos na mesma escola. Vivíamos perto uma da outra.
Eu tomava conta da turma da Angèle no infantário.
Aos meus 16 anos, cuidei dela.
Quando os pais dela iam em digressão, deixavam-na na minha casa.
A primeira vez que vi a Angèle no Instagram foi no primeiro vídeo dela.
Fiz um comentário a brincar.
Eu disse: "Quero ser tua manager." É isso.
Na altura, sabia que ela estava só a divertir-se.
Mas ela sabia cantar. Ela tinha personalidade. Havia algo.
Não era o meu trabalho, mas porque não tentar?
Na altura, tinha sede de projetos. Queria fazer muitas coisas.
Senti que a Angèle tinha um potencial enorme.
Fiz com que ela saísse do quarto
para atuar em bares.
Ela estava muito hesitante. "O que vamos fazer?"
Eu disse: "Fecha os olhos. Confia em mim."
Começámos assim.
Dá-me a fita-cola.
Vou enviar o vídeo para mim.
Como é conviver com uma rapariga oito anos mais nova?
Sinto-me tão madura.
Estou sempre de joelhos.
A Angèle apelidou-me "Sylvie Atrevida".
Combina comigo.
A Angèle é a medricas. Ela não se atreve a fazer nada.
Eu quero abrir portas.
Então, sou a "Sylvie Atrevida". Prazer em conhecer-vos.
SYLVIE ATREVIDA
A MANAGER
7 DE MARÇO DE 2016
Estava onde devia estar. Sentia-me bem.
Pensei: "A música é o meu lugar."
Tinha tanto medo do fracasso.
Com um pai cantor e uma mãe atriz,
sentia a necessidade de provar que não era só a filha.
Não falava disso...
Não queria a ajuda deles ou chamar a atenção deles
porque teria vergonha se falhasse.
A Sylvie acreditava.
Ela dizia: "Vai ser incrível." Eu não acreditava nisso.
A Sylvie já pensava em concertos no Archiduc,
um bar famoso de jazz em Bruxelas.
Eu estava a estudar jazz. Estava a ter dificuldade em adaptar-me.
Perguntava-me se o merecia. Ainda estava a aprender.
Dei esse concerto e estava cheio.
Conheci o Nicolas, o meu segundo manager, lá.
Foi graças à Sylvie.
Ela tirou-me do quarto.
Ela tirou-me da casa dos meus pais.
EU ADORO A MINHA VIDA, PORRA
EXCITAÇÃO DO MOMENTO
RECUSAR - ACEITAR
O Nicolas recebeu uma chamada.
A equipa do Damso estava à procura de alguém para tocar teclado.
E...
Não sei como, mas milagrosamente, o meu nome foi mencionado.
E também não sei como,
mas falaram da primeira parte do concerto.
Recebi uma chamada
do produtor da digressão do Damso
a perguntar se a Angèle teria interesse em tocar teclado na digressão do Damso.
Foi um pedido surpreendente.
"Seria fixe, mas ela não poderia atuar na primeira parte do concerto também?"
Não me apercebi do que estava a dizer no momento.
Eu não imaginava
como seria tê-la a atuar antes do Damso.
Com o público dele.
O Damso não queria que um rapper fizesse a primeira parte.
Ele não conhecia as minhas canções. Não tinham sido lançadas.
Ele não tinha ouvido nenhuma delas.
Ele só ouvira a minha versão em piano de "Bruxelles".
Bruxelas, minha linda
Encontramo-nos em breve
Assim que Paris...
Ele achou essa versão fantástica.
Ele pensou: "Está bem. Vai resultar."
Na altura, o Damso...
Ele tinha uma grande influência.
E tudo em que ele tocava podia transformar-se em ouro.
Quando ela me perguntou, por mais que eu adorasse o Damso,
eu disse: "Não, és louca.
O público dele não está pronto. Não te vão dar hipótese."
CAMARIM
Oferecem-me algo improvável,
apesar de eu não me interessar por rap na altura.
Eu gostava de jazz.
Estava a começar a fazer música, mas não gostava disso.
"Porquê eu? O que tem isso que ver comigo?
O que tenho a perder?"
Foi um verdadeiro debate.
A minha mãe disse: "Força. Não tens nada a perder."
Era verdade. Na altura, não tinha.
ESTRASBURGO 5 DE OUTUBRO DE 2017
PRIMEIRO CONCERTO
Vamos!
Estou nos bastidores. Ouvi dizer que o público já está empolgado.
As luzes apagam-se.
Voltam a ligar-se e entro no palco. Sou logo vaiada.
Duas mil pessoas a vaiar.
Estão a vaiar-me como se eu não fosse bem-vinda.
Lembro-me de tirar o telemóvel
para filmar.
Consigo ouvir as pessoas a gritar.
Percebemos que as pessoas não se estão a divertir.
Estão a vaiar. Tipo...
Estão a chamar-lhe nomes. E dizemos: "Foda-se."
Eu e o Nico olhamos um para o outro e dissemos: "No que estávamos a pensar?
Porque fizemos isto?
Isto vai destruí-la. A confiança dela vai ser arrasada."
O Damso entra.
Ele não viu nada.
As pessoas começam a aplaudi-lo. Eu toco tipo...
A pensar: "Que raio foi aquilo?"
Acho que... foi duro.
Não me apercebi.
Estava na minha.
Mais tarde, soube que tinha sido complicado.
Um aplauso para a Angèle.
Pensaram que era louco por fazer isto... Se gosto de alguém, vou em frente.
Foi algo natural.
Não pensei que fosse quebrar a tradição... Não quebro.
Só escolho alguém de cuja alma e energia gosto.
Vamos a isso. Sabem?
Publiquei no Instagram, a pedir que a apoiassem.
Porque é mesmo difícil.
NÃO SE VÊ BEM, MAS ELA VAI ARRASAR
Voltámos para casa.
O ambiente está em baixo.
A Sylvie adormece logo.
Estou na cama, a olhar para o teto. Ainda ouço as pessoas a gritar.
"Vai ser assim durante três meses?"
Começo a pensar:
"Como vou lidar com isso?"
Não quero ver isso como um fracasso.
Isso seria o pior.
Ao mesmo tempo, não sei como evitar
ter de enfrentar tamanha intensidade.
Enfrentar um público que não me quer lá.
SEGUNDO CONCERTO
Como te sentes?
O costume. Estou nervosa. Mas tem de ser feito.
- O que fizeste antes? - Fiz cocó.
Ela está algo cansada.
Onde está a Angèle?
Ela está aqui.
Subo ao palco.
Não sei o que se passava na minha cabeça,
mas comecei a sentir-me determinada.
Pelo menos, assim parecia.
No fundo, não estava nada confiante.
Pensei: "Vamos fazê-lo de outra forma."
Não quero dar às pessoas a oportunidade de me mostrarem que estão descontentes.
Vamos.
Boa noite! Como estão?
Estão prontos?
Sim!
Chamo-me Angèle. Estou feliz por estar cá esta noite.
Obrigada pelo convite, Damso.
Estão contentes.
Angèle!
Uma vez
Duas vezes
Três para ti
Contra todas as probabilidades, começaram a dizer o meu nome.
A gritar o meu nome.
Também era uma brincadeira.
As pessoas não esperavam ver-me em palco, logo, tinha de se tornar uma piada.
Éramos completamente opostos, por isso, era engraçado fazer isso.
Acho que consegui aproveitar ao máximo este absurdo.
Ele não tinha nada a ganhar ao apoiar-me, ao dar-me visibilidade.
Fê-lo por amor à música.
Porque ele adorava o que eu fazia.
A coisa mais louca é que a história continuou.
Estamos a trabalhar em novos projetos.
É ótimo termos feito isto durar.
Aprendi muito com ele. Ajudou-me para o futuro.
Fiquei mais motivada.
Também senti que tinha sempre de provar algo quando estava em palco.
De repente, não podia fazer mais nada a não ser admiti-lo. Sem enganar.
E sem querer agradar.
Uma vez, nunca desistas
Duas vezes, por todo o amor que tenho
Três para ti
Comecei a compor sozinha.
A partir daí,
comecei a sentir-me mais realizada com a minha música, porque me revia nela.
Eu pensava em algo e sabia como fazê-lo.
Esta jovem está a tornar-se viral
na comunidade francófona e neerlandesa.
Chama-se Angèle. A canção dela chama-se "La loi de Murphy".
Angèle, "La loi de Murphy".
Boa!
Uma atuação de loucos ao vivo.
Meu Deus.
Uma vez, nunca desistas
O que nos aconteceu foi ótimo.
Não imaginava
que fosse tão rápido.
Não sabíamos como promover um álbum.
Não planeámos nada.
Não estávamos prontos.
Publicámos o vídeo.
Não tinha editora.
Não tinha muitos recursos. Éramos independentes.
E milhões de pessoas reagiram.
Vi isto acontecer
no meu pequeno apartamento em Bruxelas.
Não sei o que se passa. Estou a ver os comentários.
Sinto que está a crescer.
Penso: "Posso ter cometido um grande erro.
Pode estar a descontrolar-se."
FELIZ?
Tenho muito medo, porque os e-mails... A que horas enviei isto?
Certo, 17h20.
"Olá aos dois. Sylvie, gostaria de pedir desculpa pela minha crise.
Sei que estás a trabalhar muito. Não te quero culpar pelos meus medos."
Podia enviar isto a qualquer hora...
"É importante que saibam quem eu sou mesmo.
No palco, tento vestir uma capa.
Faço-o porque é uma grande oportunidade.
Abre portas.
Tudo isto é fantástico.
Mas isto é para o projeto ANGÈLE.
É verdade, não me posso queixar.
Não faria sentido fazê-lo quando não podíamos esperar melhor.
Mas porque é que não consigo dormir há um mês,
tenho tido ataques de pânico e choro cinco vezes por dia?
Sou sensível e ansiosa.
Não consigo separar o pessoal do profissional.
O projeto chama-se Angèle. Tenho de enfrentar as consequências.
O que me está a acontecer assusta-me.
Acho que ninguém sabe, porque é demasiado bom para ser assustador.
Mas desde segunda-feira
que a minha cara está no YouTube.
Sou mesmo eu. Eu também queria isso.
Começo a olhar para trás, para o que tem acontecido.
Começo a receber mensagens e ofertas.
Tenho de enfrentar isso sozinha.
Se não resultar, será o meu fracasso.
Não quero ser uma diva
e dizer que ninguém me entende,
mas estou a falar a sério.
Estou a passar-me. Estou a ter ataques de pânico de novo.
Sei que não vai mudar e pode ficar ainda pior,
mas se pudessem perceber a origem disto, seria ótimo.
Quero agradecer-vos pelo que estão a fazer.
Não o digo o suficiente. É a sério."
É de loucos.
Bem...
É de loucos porque eu podia ter escrito isto há uma semana.
Isso é reconfortante. Sou fiel a mim mesma.
Ao mesmo tempo, recorda-me um período estranho.
É verdade, quando "La loi de Murphy" saiu,
eu não me estava a divertir. No entanto, foi o início de tudo.
Houve um momento em que estava muito despreocupada.
Eu fazia música, mas podia sair.
Podia festejar com os meus amigos enquanto fazia música.
Estava a divertir-me.
Mas, de repente, a canção é lançada.
As pessoas reagem. Recebo as primeiras mensagens e críticas.
De repente, tenho de enfrentar algo violento.
Recebo feedback direto de milhões de pessoas.
Em casa, sozinha de pijama. Cabelo oleoso.
Dentes por lavar.
Estamos de frente para o ecrã e vemos milhares de visualizações
e milhares de pessoas à nossa volta.
Ficamos paranoicos.
No dia em que "La loi de Murphy" saiu, senti-me paranoica.
Senti que todos me observavam.
Apesar de ninguém se importar.
Depois disso, só chorava. Chorava o dia todo, nessa altura.
Eu tinha medo.
Pensava: "Em que é que me estou a meter?"
Talvez tivesse tanto medo
porque, no fundo,
sabia que não ia deixar isto passar.
Que era o que eu desejara. Eu queria que isto acontecesse.
Mas havia uma parte de mim que dizia:
"O que vai acontecer?"
ANGÈLE, A ANTIMUSA CAÍDA DO CÉU
A Playboy entra em contacto. Querem melhorar a imagem deles.
Eu conheço a revista.
Querem fazer um retrato meu.
NÚMERO QUATRO, SETEMBRO DE 2017
Dizem-me que a próxima edição
se vai focar no feminismo,
nas vozes das mulheres.
E não será sexual.
Hesito, mas aceito.
Pode ser interessante falar da minha música.
Contradiz o que fazem na revista.
E as coisas podem mudar.
A entrevista correu bem.
No dia em que vi a revista,
fiquei surpreendida.
Achei que o que disseram foi infiel.
Além disso, a foto que escolheram...
Tirámos essa foto uns meses antes de forma muito inocente.
Decidimos não a publicar
porque eu era jovem, loira, tinha os lábios vermelhos
e estava a fazer beicinho.
Achámos que era muito sedutora.
Na altura, tinha medo de ser sexualizada contra a minha vontade.
Não me sentia à vontade com essa foto.
Estavam interessados nesta fotografia.
Eu proibira-os de a usar. Sabia que seria mal interpretada.
Quando abro a revista, descubro
que a usaram, apesar de eu ter recusado.
O verdadeiro trauma foi no dia seguinte.
Os tabloides belgas publicam esta foto
com o título...
"Filha de Laurence e de Marka nua para a Playboy."
Todos os meus medos juntos.
Ou seja, ser "filha de, irmã de"
e num contexto sexual.
O meu pior pesadelo.
Senti-me humilhada.
Naquela altura, estava a começar a ficar confiante.
Tinha montado a minha editora discográfica e o estúdio.
Eu era independente. Já não vivia com a minha família.
Estava a fazer tudo sozinha. Compor e tocar canções...
Estava a começar a dizer a mim mesma que conseguia fazer tudo sozinha.
Nesse primeiro artigo,
eu era apenas uma rapariga.
Uma loira bonita que tira a roupa para os homens
para se destacar.
MENSAGEM DE VOZ 30 DE SETEMBRO DE 2017
Desculpa, ontem,
numa daquelas revistas, escreveram as piores coisas sobre mim.
"A filha de Laurence Bibot e de Marka nua para a revista Playboy."
Chorei o dia todo. Não consigo esquecer. Parece que não posso fazer nada.
O mundo é um lugar horrível onde as pessoas me querem vender
e usam a minha imagem...
Tenho 21 anos.
Passo a vida
a tentar passar boas mensagens às pessoas, a compor belas canções de amor...
Tenho muito cuidado com o que faço, com o que mostro
e quero ser natural.
Odeio este mundo superficial
onde as raparigas são objetos sexuais.
Agora está a descontrolar-se e vejo-me no meio disto.
As piores manchetes
com os meus pais envolvidos.
É uma humilhação pública.
Não me sinto bem. Não quero tocar. Não quero fazer mais nada.
Depois disso, passei meses
a controlar tudo o que as pessoas viam.
Fui muito afetada por este acontecimento.
Mas também me senti determinada depois.
Disse a mim mesma que nunca mais seria "a irmã de", "a filha de".
Não sou assim. Sou alguém.
Trabalho demasiado para ser associada a isto.
O que me afetou
foi perceber que, mesmo hoje,
mesmo que não fosse a imagem desejada, mesmo que fosse esse o caso,
uma rapariga a posar assim era vista como negativa.
Que ela devia ter vergonha. Que merecia estar nos jornais.
As pessoas só querem dinheiro
É a única coisa que as deixa com tesão
As pessoas só querem fama
É a única coisa que as move
De que serve, então?
Estás tão só atrás do ecrã
A pensar no que as pessoas vão pensar
Mas elas não se parecem importar
É tão estranho pensar que todos estes carros
são para mim.
Estes aqui... Vêm ao meu concerto. Tão estranho.
Eles também.
Aquele homem a fazer chichi ali. Ele vai ver-me atuar.
Eles sabem quem eu sou
e a noite de sábado deles
é dedicada ao meu concerto.
Dez, nove, oito, sete...
Cinco, quatro, três, dois, um...
Feliz Brol novo!
É isso. O Brol saiu, amigos.
É tudo para mim
Estou muito feliz
Estamos à espera deste álbum há um ano.
Finalmente saiu. Já é um sucesso.
Os bilhetes para o Olympia esgotaram em duas horas.
Estás feliz?
Estou, mas não tenho noção. Ao contrário de todos.
ESTOU FELIZ?
- Chegámos? - Sim.
Foda-se.
Foda-se. Nem pensar.
Vamos fazer assim...
Está cheio?
Isto não é possível.
Nem pensar.
Não...
Nunca acaba.
Ela está aqui!
É difícil de entender.
Preciso das pessoas que me ouvem.
Ao mesmo tempo, acho injusto
que as pessoas me adorem tanto, mas eu não possa retribuir.
Sobretudo eu que gosto de interagir.
Percebo que não posso retribuir
o amor que o público me dá.
Posso retribuir ao dar um concerto,
compor canções, mas é só isso.
Não consigo vê-los a todos
como eles me veem.
É desigual e frustrante.
Casa comigo!
Lamento muito.
Temos um comboio para apanhar.
Não pudemos deixar-vos entrar.
Por isso, lamento muito. Mas...
Angèle, queres casar comigo?
És linda!
Angèle!
Lamento muito. Obrigada.
Angèle!
Quando voltas?
Ninguém se comporta normalmente comigo.
Já nenhuma relação é normal.
Lembro-me de um festival.
Saímos do palco.
Muita gente queria tirar uma foto comigo.
Não era a altura certa. Infelizmente, não consigo mentir.
Sou espontânea.
Se estou triste, zangada ou mal,
não consigo fingir e colocar um sorriso falso.
Eu disse às raparigas:
"Não posso ir vê-los."
As pessoas começaram a chamar-me nomes.
Passaram-se por completo.
Lembro-me de uma mulher com os filhos,
que gritou:
"Vá lá, puxem o cabelo dela!"
Os miúdos começaram a puxar-me o cabelo.
Olhei para baixo
e alguém disse:
"És uma estrela de merda."
Lembro-me
de não perceber como chegámos a isso.
De pensar: "O que sou para eles?
Sou só uma estrela?"
Sim, sou. Eles não me conhecem.
Não sabem que sou um ser humano.
Depois desse concerto, vou fazer cocó como toda a gente.
Para eles, sou apenas uma estrela.
Se não tiro uma foto com eles, é desrespeitoso.
E, de certa forma,
quando fazemos música
e nos tornamos famosos, há algo implícito nisso.
Agora, pertencemos às pessoas.
PERDIDA
VAZIA
LIVRE
QUEM SOU EU
ESTOU NUMA SITUAÇÃO DE MERDA.
... a festa
Bruxelas, eu amo-te
BRUXELAS, EU AMO-TE
Vamos fazer o refrão todo.
Soa ótimo, certo?
Um pequeno pormenor em "Bruxelas, eu amo-te..."
Bruxelas, eu...
Certo.
Bruxelas, eu amo-te
É como preferires, mas tens de escolher.
Bruxelas, eu amo-te
Isso soa melhor?
Bruxelas, eu amo-te
Bruxelas, eu amo-te
E agora faz assim...
Bruxelas, eu amo-te
- Essa parte... - Sim.
Tenta...
Bruxelas, eu amo-te
Sim. Esse é mais natural.
Está bom.
Vou à cerimónia de abertura de Cannes para a semana.
Tenho pelos nas axilas.
Quero mantê-los. Tal e qual.
Estão compridos.
Na verdade,
quero fazê-lo, mas o difícil
é que as pessoas não o apoiam.
Dizem-me que não posso fazer isso.
Mas eu penso... Eu posso.
Na vida real, não os depilaria.
Porque o faria para o Festival de Cannes?
Estou toda aperaltada, mas não quero ter de fazer isso.
Não sinto necessidade de me depilar.
Porque o faria?
Sei que vou ser criticada.
Também não quero isso.
Não quero que esse seja o tema.
Quero que falem da minha prestação.
Não da minha roupa ou dos pelos nas axilas.
Angèle! Aqui em baixo!
Angèle!
"Sonho com a liberdade,
com libertar-me antes de o fazer no palco.
Com ser confiante, ignorar os comentários das pessoas.
Com o sol, vestidos que mostram as minhas curvas,
sem comentários intolerantes na Internet.
Sonho com o olhar de um homem sem julgamento nem inquietação.
Sem querer possuir-me.
Sonho com sentir-me bonita sem o Instagram para o provar.
Sonho com sonhar."
Todos falam como animais
Falam mal de todas as ratas
Estamos em 2018, não sei o que pensas Mas sou mais do que um animal
Vejo que o rap está na moda Quanto mais sujo, mais sucesso
Está na hora de quebrar a tradição
Uma rapariga devia dizer o que pensa
Então, deixa-me cantar para ti
Vai-te fo...
Não vou passar na rádio
A canção "Balance ton quoi", uma referência ao #MeToo,
tornou-se um hino feminista em poucos meses.
Deixa-me cantar para ti
Vai-te fo...
Escrevi "Balance ton quoi" espontaneamente após um tipo me incomodar em Bruxelas.
As vozes das mulheres começavam a ser ouvidas
e os artistas estavam empenhados em mudar as coisas.
Achava que não tinha a legitimidade
para dizer algo sobre isso,
mas percebi que tinha uma voz.
As pessoas identificaram-se.
DE BEYONCÉ A ANGÈLE: O FEMINISMO TORNA-SE POP
ÍCONE POP E FEMINISTA NO NY TIMES
HINO FEMINISTA PÓS-#METOO
COMO SE TORNOU UM HINO FEMINISTA?
Está claro?
Quando uma rapariga diz que não...
Sinto que, na maioria das vezes, significa...
Não.
Não. Está bem.
É ótimo se a canção fez com que vissem que havia problemas a resolver.
Mas descontrolou-se.
Apesar de concordar com as reivindicações
e de ainda me dedicar à causa, não sei se foi o que queria.
Estar assim tão exposta.
Algumas pessoas podiam ver-me como uma sabe-tudo.
E assim, inventariam coisas para me recriminar.
Olhos postos em Roméo Elvis.
Está envolvido num caso de agressão sexual.
O cantor foi acusado no Instagram
e pediu desculpa.
Ele disse que usou as mãos
de forma inadequada.
Pensou que estava a responder a um convite.
Quanto à cantora Angèle, a irmã dele,
foi-lhe pedido que denunciasse o irmão nas redes sociais.
DENUNCIA O TEU IRMÃO
#DENUNCIAOTEUIRMÃONOJENTO
ANGÈLE, CÚMPLICE O SILÊNCIO É CONSENTIMENTO
AQUI SE FAZEM, AQUI SE PAGAM EDUCA O TEU IRMÃO, POR FAVOR
MALDITA FEMINISTA VAI SAIR COM O TEU IRMÃO
Mal saí de casa durante três meses.
Foi uma explosão no meu coração, na minha família.
Porque, como toda a gente,
condeno o que o meu irmão fez, claro.
Foi tão violento e triste
perceber o quanto algumas pessoas se regozijaram com isso.
Eu, a feminista que abriu a boca.
Como se eu fosse responsável.
RESPEITO
Como se eu também tivesse de pagar.
E como se já não fosse difícil ouvir isto,
ter de ver o meu irmão nesta situação.
Não.
No Twitter, as pessoas pediram-me para reagir logo.
Ou a batalha que eu estava a travar não teria significado.
EU CONDENO
É AINDA MAIS IMPORTANTE, VISTO QUE É UM FAMILIAR
É PRECISO HAVER UMA MUDANÇA DE MENTALIDADE
A violência sexista e sexual é tão omnipresente
que, às vezes, sinto que nunca vamos avançar.
Depois olho em volta
e percebo que as pessoas podem evoluir lentamente.
Tomar consciência de tudo isto.
A minha canção não vai mudar as coisas,
mas tomar consciência e falar, sim.
Seja o meu irmão, o meu melhor amigo, o meu colega...
Vou sempre condenar o que for contra os meus princípios.
A forma como as mulheres são tratadas
e a forma como ensinamos os homens a comportar-se com elas tem de mudar.
ELA
Meu Deus...
Ela também está ótima aqui.
Além disso, nunca imaginei...
... que ela trabalhasse...
- Como modelo? - Sim.
Minha querida...
Se o teu avô ainda estivesse aqui,
ele teria orgulho.
Fantástica...
Que miúda linda.
É mesmo modelo.
É a primeira pessoa a ver isto.
- A sério? - Sim.
- A avó Pilou não é qualquer pessoa. - Lá isso é verdade.
AVÓ PILOU
A AVÓ
A avó Pilou é a minha avó. Sou muito chegada a ela.
Ela vive num mundo diferente do meu.
Ela traz-me de volta à Terra
porque acha o meu trabalho fantástico, mas não o percebe.
Apesar de tudo o que eu fiz, vou ser sempre a neta dela.
Assim, ela continua simples. E, sobretudo, honesta comigo.
Novidades?
Diz-me, avó, qual preferes?
Limão ou açúcar?
Tarte de limão ou açúcar?
- Açúcar. - Muito bem.
Não. Assim não, querida.
- Sim. - Guarda as latas.
O que achas do meu estilo?
É um pouco especial.
Não gosto muito.
Pelo menos, és honesta.
- Sim. És honesta. - Pediste a minha opinião.
É difícil.
Remonta à guerra...
ESCRITO AOS 24 ANOS
"Quero muito compor.
Estou a habituar-me a não entender a minha vida,
mas, desta vez, foi inesperado.
Apesar de já ter pensado nisso. Muitas vezes."
ELA
ELA
APAIXONADA
A Angèle é a nova grande estrela.
A nova relação dela será revelada.
Verão no vídeo.
Vejam com atenção. Não podemos mostrar só a foto.
Sim? Vejam com atenção. A capa de amanhã.
ELA VOLTOU A ENCONTRAR O AMOR
PARIS, 18 DE NOVEMBRO DE 2019 DE BRAÇO DADO - A VIDA É BELA, NÃO É?
Ela...
Ela disse: "Não digas à avó.
Eu digo-lhe."
Uma noite, ela ligou-me.
Eu já sabia.
E, bem, eu fui um pouco... bruta
na forma como falei, provavelmente.
Ela disse: "Avó, como estás?" "Estou bem."
Bem, eu comecei a...
Ela disse: "O que se passa?"
"Nada", disse eu.
"Tenho de te dizer uma coisa." Eu disse: "Não. Não tens.
Eu sei."
E pronto.
O tipo expôs-me.
Foi a primeira pessoa a dizer em direto que eu estava com uma mulher,
apesar de ser complicado para mim
perceber, encarar isso.
Era íntimo.
Mas ele fê-lo,
apesar de... Bem, podia ter...
... causado problemas à minha família.
Ela teria gostado
de me dar mais...
Como se diz?
Explicações quanto a isso.
Sempre perguntei: "Porquê uma mulher?"
"Porquê um homem?", respondeu ela.
Talvez seja por causa da minha idade.
Há tão poucos exemplos LGBT
que percebi muito tarde que era bi.
Eu tinha 23 anos. Não podia continuar a mentir a mim mesma.
No meu caso,
não tive só de enfrentar a minha família, as suas perguntas,
o medo de ser rejeitada,
mas também enfrentar a opinião pública.
MERDA, ELA É LÉSBICA
ACHO QUE É UMA DOENÇA
COME A MERDA DO TEU ARCO-ÍRIS
NOJO, VOU DEIXAR DE SEGUIR
O problema é que me roubaram a minha saída do armário.
Acho ótimo que os jovens se possam identificar com figuras públicas gays,
mas eu teria gostado de decidir quando e como fazê-lo.
Há uma razão para as pessoas terem medo de se assumirem.
As consequências podem ser cruéis.
O que me interessa agora
é que se normalize isto de nos apaixonarmos.
Não importa o género.
A orientação sexual de uma celebridade não devia ser notícia.
Devia ser um facto. Algo normal.
Quando eu tinha 15 ou 16 anos, gostava de ter tido mais exemplos LGBT.
Assim, não teria mentido a mim mesma.
Pensar nisso acalma-me.
A TUA RAINHA
Se ela soubesse como olhas para ela
Ela teria medo
Se ela soubesse como pensas nela
Ela podia magoar-te
Mas dá-lhe algum tempo
Isso podia permitir
Que se encontrassem de novo
Ela vai precisar de tempo, de certeza
Para esquecer os seus preconceitos
Gostarias que ela fosse A tua rainha esta noite
Mas duas rainhas juntas Não é algo aceite
Gostarias que ela fosse A tua rainha esta noite
Não queres saber de reis Não é para ti
Gostarias que ela fosse A tua rainha esta noite
Mas duas rainhas juntas Não é algo aceite
Gostarias que ela fosse A tua rainha esta noite
Não queres saber de reis Não é para ti
"Estou a escrever-te hoje porque me ajudaste.
O Brol acabara de sair.
Falámos sobre ele com amigos. Eles adoraram a 'Ta reine'.
Não tinha ouvido. Fiquei calada. O dia passou.
Ouvi-a quando cheguei a casa. Foi como se tivesses falado comigo.
A 'Ta reine' tinha sido escrita para mim. É narcisista, mas é incrível.
Pela primeira vez na vida, sentia-me atraída por alguém.
Uma miúda da minha turma.
Se ela soubesse como eu olhava para ela,
teria tido medo.
Uma montanha-russa física e emocional.
A primeira vez que senti algo por alguém.
Eu sabia que estava a acontecer, mas não percebia.
Sinceramente, não sei quem sou,
mas sinto-me compreendida antes de me compreender.
Por isso, obrigada."
A NOVA ERA
Fico sempre horrível quando uso esta câmara.
Talvez seja o cabelo.
No outro dia,
fiz...
Estou a fazer chá. Faz barulho.
Obriguei a Laetitia a ouvir as canções.
Uma amiga minha. A minha agente de relações-públicas na Bélgica.
Obriguei-a a ouvir as canções. Tudo bem e ela...
"Não sei o que acho da letra.
Comparada com o Brol, sinto-me excluída.
Sinto que isto não é tão bom."
Não foi isso que ela disse, mas sentiu-se frustrada
porque no Brol,
todos os temas que abordei
eram muito mais universais.
Chegava a qualquer um. Este é mais introspetivo.
Isso é verdade.
Vivi outras coisas desde que o Brol saiu.
Não necessariamente relacionadas com música.
Bem, eu cresci. Sou mais adulta.
Estou mais...
Estou mais preparada para falar de assuntos sérios.
Não sei. Estou a ficar nervosa.
Além disso, acho que ando em círculos em termos de música.
E isso irrita-me
porque sinto que não consigo fazer nada.
Este vídeo é inútil. Desculpem.
É o que acontece quando faço música. Nunca acabo as frases.
Estou a falar sozinha como uma velha maluca. E...
Faço chá a torto e a direito.
Duvido de tudo o que componho ou crio.
Sinto-me uma falhada. É o que acontece.
- AINDA CONFINADA? - SIM.
ESTE CONFINAMENTO É MUITO LONGO.
SIM, SEM DÚVIDA.
ESPERO QUE POSSAMOS ATUAR NUM PALCO A SÉRIO EM BREVE.
SOU O MANAGER DA DUA
ADORAMOS A ANGÈLE
ELA QUER PARTICIPAR NUMA NOVA CANÇÃO?
LONDRES 28 DE NOVEMBRO DE 2020
Pestinha!
- Sim! - Como estás?
É bom ver-te. Como estás?
- Bem. - Olá, querida.
Como estás? Estou bem.
Ótima.
Acabei por fazer parte do projeto de uma estrela pop.
Pude observar, como uma mosca,
como funcionava por dentro.
Por um lado, fiquei impressionada
por ver esta mulher absolutamente incrível.
Ela era talentosa e acessível. Muito mais do que eu pensava.
Foi reconfortante porque percebi que podíamos ser uma grande estrela pop
e ser acessíveis.
Não!
Talvez com o tempo
Isso passe
E, porém, de alguma forma
Não o vejo a acontecer
Tal como um medicamento
Não sou nada sem ti
Eu sei que tento
E perco tempo nos teus braços
Estou com febre
Podes medir-ma?
Mão na minha testa
Beija-me o pescoço
E quando me tocas, amor
Fico vermelha
Estou com febre
Podes medir-ma?
Senti pressão
porque tinham passado meses desde a última vez que tinha atuado.
Porque este é outro nível.
Pensei: "O que é que estou a fazer aqui?"
Perguntei-me isso.
Sinceramente.
A sério. A rapariga canta, dança...
Enfim, ela é uma máquina.
Só pensei: "Não sou boa o suficiente.
Vou para casa."
Onde é Linkebeek?
Tão empolgada.
Não sei se é isto que quero para mim.
Algo assim tão grande.
Mas a energia, a ambição,
até a loucura...
Não ter medo...
Inspirou-me.
Para o que se segue.
BRUXELAS, EU AMO-TE FINAL
Um, dois, três! Sim!
Bruxelas, eu amo-te Bruxelas, eu amo-te
Tive saudades tuas Bruxelas, eu amo-te
Bruxelas, amo-te És a minha favorita
Bruxelas, eu amo-te Bruxelas, eu amo-te
Tive saudades tuas
És a mais bela
Sim, és
Paris está a chamar-me
Então, Angèle?
- Trabalho árduo. - O que achas do segundo álbum?
Sou muito supersticiosa.
Não tinha expetativas com o primeiro.
Estou a tentar não as ter.
É difícil.
Eles continuam
Apesar de ela ter dito Que já não é assim
Eles continuam
Em termos de música,
estou muito feliz com o que fizemos.
Estou mais satisfeita com as letras, mas sei que não será tão popular.
É mais pessoal.
Talvez menos unificador.
Apesar de não termos planeado que o primeiro fosse unificador.
Foi muito ingénuo.
O objetivo é continuar a fazer o que faço. Sim, continuar a viver e...
Ocupar o meu lugar, mais do que nunca.
Foi o que fiz com este álbum. Ocupei o meu lugar.
O primeiro álbum foi assim,
mas a sorte está em todo o lado.
Teria de ter a mesma sorte com o segundo álbum.
Mas eu também devia ocupar esse lugar e assumi-lo.
Agora estou aqui. Tenho de dar o meu melhor.
A NOVA ERA
NÃO HÁ PROBLEMA EM DESCANSAR
FAZER AMOR
APRENDER A DIZER NÃO
OUVIR-ME!
As pessoas perguntam-me se tenho sonhos.
E, na verdade,
tanto como qualquer outra pessoa.
Acho que o meu sonho agora
é mais uma busca pessoal.
Não é tanto profissional.
Nunca foi.
Sonho com estar relaxada.
Ter as pessoas certas por perto.
Crescer, aprender com os meus erros.
Ser uma boa pessoa para os outros.
Ao mesmo tempo, que recebe a bondade de volta.
Se os meus pais tivessem tido trabalhos mais normais,
acho que eu teria um trabalho mais normal.
Talvez eu fosse muito feliz.
Mas, na verdade,
estou a divertir-me muito.
Adoro a minha vida.
Só tive de me adaptar a ela porque foi tudo tão rápido.
E,
no fundo, queria tanto que tudo corresse bem.
Só não queria falhar.
Eu nunca diria "quero arrasar" a alguém em voz alta.
Eu escreveria.
Não podia dizê-lo porque...
Tenho a certeza de que me deu sorte não o dizer. Sou supersticiosa.
Acho que não o disse para evitar surpresas desagradáveis.
Se não resultasse, ninguém saberia o que eu queria.
Embora não fosse verdade.
ESGOTADO 10 DE DEZEMBRO
Bem, desejo-lhe
o melhor.
O melhor para ela.
Que tudo corra bem.
Agora, sinto-a a tornar-se uma mulher.
Está a começar a defender as suas ideias, os seus desejos.
Ela fala disso.
Ela costumava ser
muito mais calada.
Acho eu.
Pensei para mim:
"Seria possível
a minha neta tornar-se uma estrela?"
Não me atrevia a dizer isso às pessoas.
Dizia: "Ela faz música."
"Sim, mas..."
Eles diziam: "Vi a Angèle na televisão!
Ela é conhecida."
- Sabia que ela agora também é atriz? - Não.
- Não sabia? - Não.
Ela nunca me diz nada.
Ela é inacreditável.
Desde que ela arranjou a cadela...
Pronto, a gravar.
Pepette, fizeste chichi?
Fizeste chichi! Onde fizeste chichi?
É só para dizer que o álbum está terminado.
Acho eu.
Isso deixa-me apavorada.
Como sempre.
Não sei como será recebido.
Como é que o público o vai ouvir.
Mas isso
já não depende de mim.
Este álbum sou eu aos 25 anos.
O meu quarto de século.
Percebi que queria ser verdadeira.
Não tentar ser o que não sou.
Espero nunca esquecer isso.
Serei sempre a miúda de Linkebeek que compõe canções simples.
Mesmo que a vida mude,
isso vai ficar comigo.
Porque tudo isto
sou eu.
Vamos parar por aqui.
Boa viagem.
FIM
Estás a brincar?
É assim que me agradeces.
Mesmo à frente
do meu sucesso.
Legendas: Lara Brito
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