All language subtitles for Causa Própria S01 E06 - Episode 6

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Original subtitles

Há de tudo no quarto do David.

Não tem inscrição.

Laboratório.

A vítima não foi encontrada sem ténis?

E ainda não os temos.

Tem um poema escrito à mão.

Explica-me lá quem é que escreve um poema à mão, num catálogo de ténis?

"Em todas as ruas te encontro"

"Em todas as ruas te encontro, em todas as ruas te perco."

"Conheço tão bem o teu corpo, sonhei tanto a tua figura."

Que triste...

É Cesariny.

Eu sei.

Espera lá.

Onde é que está...

Laboratório.

A letra.

A letra do poema

não é a do David.

Não é do David.

O que é habitual num caso como este

é os rapazes virem abaixo no interrogatório.

Começavam as contradições, rapidamente chegávamos à verdade de quem deu o golpe.

Mas isso não aconteceu.

É absolutamente impossível

termos dois grupos de pessoas

a quererem fazer mal ao mesmo miúdo

na mesma noite

e no mesmo sítio.

Temos motivo,

temos historial de violência

e temos os réus no lugar do crime.

Muito bem, não se foram abaixo durante o julgamento.

Mas temos um advogado hábil que tentou lançar uma cortina de fumo sobre o caso.

Estamos perante um caso sem dúvidas?

Não!

Justamente porque

o testemunho dos rapazes

é coerente e porque não temos arma.

Temos um provável motivo

sabemos das relações dos miúdos,

sabemos que estiveram no bar Mourita depois da morte,

por outro lado não temos nem a arma,

nem testemunha ocular.

Sabemos também que os miúdos já tinham andado metidos em rixas.

Que tinham agredido o André, provavelmente num ataque de contornos homofóbicos.

E toda a informação recolhida

assim como as expressões de ódio pela vítima

são um indicador suficiente, Dra. Ana.

Estamos empatados.

Estou?

Então?

Então...

Qual é que é a decisão?

Os miúdos?

Foram condenados, certo?

Pensei que me estavas a ligar para falarmos sobre o nosso filho.

Diz lá vá, não sejas sonsa. Isto também me diz respeito.

Desculpa?

Fui eu que fiz a instrução do processo.

Fui eu que pus os miúdos em tribunal.

Sou eu que tenho uma reputação a manter.

As carreiras políticas não se fazem de gente frágil.

Tu tens uma carreira política?

- Não me digas que não sabias. - Não.

Bom, vamos ao que é importante.

Falaste ou não com o nosso filho?

Já falamos sobre isso, mas sim, consegui.

Mas diz-me lá, vá,

qual é que foi a decisão?

Tu sabes que eu não posso falar desse assunto contigo.

Aliás, um procurador ligar a uma juíza para sacar informação confidencial

sobre um processo que está em curso

é ilegal!

Eu creio que tu sabes...

...disso.

Que chatice!

Porque é que tens que ser sempre tão previsível, Ana!

Conseguiste falar com o David?

Eu não sei se se pode classificar aquilo de falar.

Aconteceu alguma coisa?

O miúdo está um bicho do mato.

Ai Vítor! De uma vez por todas!

Descobriste alguma coisa?

Ele falou-te da namorada? Dos colegas da escola?

O miúdo acabou o jantar aos gritos.

E isto não aprendeu de mim de certeza.

Por isso é que é importante tu partilhares comigo esta informação.

Porque isto vai ter consequências, e não é só para mim...

- É para o nosso filho. - Eu pedi-te uma coisa!

Uma!

Criares algum tipo de empatia com o teu filho

e tentares perceber o que se passa com ele.

Em vez disso tens o descaramento de me vir aqui falar da tua carreira política.

O David está muito estranho.

Não me disse nada.

Apontou-me uma faca. Levantou-se da mesa e saiu.

Como assim, ele agora anda armado? Tem uma faca?

Não, uma faca... Um talher.

- Ele descontrolou-se um bocado. - Tu estás a ver que ele não está bem?

Estás a ver!

- O que é que tu lhe disseste? - O que é que eu lhe disse?

Disse-lhe que ele já era um homenzinho.

E que tinha aqui um pai à séria se precisasse de alguma coisa.

Os miúdos guardam um segredo, eu tenho a certeza disso.

Tens que estar atenta. Tens que estar em cima deles, Ana.

Entretanto, já sabes da novidade?

- O quê? - O guarda do jardim.

O primeiro suspeito.

Teve um acidente de mota. Morreu!

Idiota.

Bom...

Vais-me dizer ou não?

Entre.

Desculpa, não sabia que estavas acompanhada.

Não. Fica, fica.

Nós já acabámos. Estavas de saída.

Eu já ia sair.

Sim.

Vítor...

Entra.

Como é que estás?

Melhor...

Podes-te sentar.

E tu? Como é que estás?

Não sei.

Sei.

Sei que tenho saudades tuas.

Oh Ana...

Esta coisa...

Isto não é uma guerra ganha.

É para a vida toda, tu sabes isso, não sabes?

É como se diz. É um dia de cada vez.

Sei.

E podes ter a certeza, que é das lutas mais difíceis.

Um dia estive quatro dias em blackout .

Comecei a beber depois de almoço e só acordei no hospital.

Mostraram-me uma ecografia.

Tinha este tamanhinho.

Morto.

E eu nunca me hei de perdoar.

Eu estava grávida e nem sequer dei por isso.

E agora esta miúda que matou o bebé na passadeira...

Porque é que não me contaste?

Alice...

Tu tens amigos.

Tu tens um bom trabalho, tu és uma mulher determinada.

Não deixes que este vício te vença!

Eu estou aqui.

Eu sei. E tu és uma grande amiga.

Sou?

Não sei se sou uma boa ajuda.

O que é que se passa?

Oh Ana, conta-me.

Eu tomei hoje uma decisão que talvez seja o maior erro da minha vida.

Boa noite!

A lasanha já está fria.

Desculpem, estive com a Inês.

Encontrei uma casa em Tavira.

Para passarmos uns dias no Verão.

Um sítio calmo.

Levamos as bicicletas, jogos de praia.

Para estarmos os três juntos.

Faço lasanha dia sim, dia não.

Eu já tenho planos.

Planos?

Desde que não coincidam com os nossos.

Vai um grupo grande para a Zambujeira.

Acampar.

Vamos ter que falar sobre isso, Clara.

Querida, eu percebo que queiras estar com os teus amigos,

mas temos de ter aqui alguma organização.

E vamos lá ver se eu tenho amigos.

Grandes amigos...

Desculpa, o que é que tu queres dizer com isso?

Se o tribunal não os puser a todos na cadeia por crimes que não cometeram, mãe!

É amanhã a sentença?

Desculpem, vocês já me viram trazer casos aqui para casa?

Mas isto é diferente! São três rapazes inocentes!

Inocentes?

Tu não sabes...

Lá porque gostas do Tozé,

não significa que ele seja inocente.

Aliás...

O teu amiguinho...

Confessou que afinal tinham batido no André.

Mataram-no, à pancada.

Ele não é meu amiguinho.

Nós não temos nada.

E se vamos falar de pessoas que mentem em tribunal

podemos falar de ti!

Tu sabes tão bem quanto eu que eles são inocentes.

Está mesmo boa.

Mãe, eles são inocentes! Vocês não os podem condenar!

Já chega!

Eu vou tentar explicar uma coisa

que achei que vocês já tinham percebido há muito tempo.

Um juiz não traz casos para dentro de casa,

não os discute nem com a família nem com os amigos!

E não há filho que me faça pôr isso em causa.

É que eu não...

Não quero acreditar que vocês não saibam quem é a vossa mãe.

Quais é que são os valores que regem a minha vida,

que eu espero que sejam os vossos também.

- Porquê que a polícia esteve cá? - Já chega.

Oh mãe, o que é que lhes vai acontecer?

- Eles vão ser presos? - A conversa chegou ao fim, Clara.

E não me agrada essa ideia de ires para a Zambujeira com uns amigos acampar.

Que injusta!

O que é que foi isto?

Não te preocupes, amanhã estamos bem.

Vou para o quarto.

Tu não vais a lado nenhum.

Temos muito que conversar. Senta-te!

Mas falar sobre o quê?

Eu não tenho nada para te dizer.

Não tenho culpa desta confusão toda.

A Judiciária esteve cá em casa.

Revistou as tuas coisas.

E levou parte delas.

Há alguma coisa que eu deva saber?

Porque é que a polícia havia de querer vir cá a casa?

David!

Eles suspeitam de alguma coisa! O que é que se passa?

Já te disse que não sei. Deve ser por causa dos miúdos.

Olha bem para mim.

Olha bem para mim!

Se tu tens algum problema.

Tu tens que me dizer.

Filho!

Quem é que te anda a ameaçar? Olha para mim.

- Qual é o segredo? - Eu já disse.

Sou só uma pessoa normal. Vou à escola, tenho amigos,

gosto de jogos e de séries, eu sei lá!

Epá porra, eu sei lá. Ok. Eu disse uma mentira.

Eu já expliquei porquê.

Podem parar de me chatear se faz favor?

- Porra! - David!

Perdi a fome.

Srs. Hugo Marcolino,

António José Francisco,

João Carmelino.

Ponderámos longamente a evidência apresentada.

A presença dos rapazes no jardim.

Os seus antecedentes relacionais.

Os testemunhos e as mudanças produzidas nesses testemunhos.

A evidência material

que aponta para a presença ou não

dos rapazes à hora da morte.

E claro...

A ausência da arma do crime.

O que interessade facto é saber

se se pode atribuir o crime aos rapazes.

Com toda a certeza.

Os factos apresentados não constituem prova inequívoca.

O colectivo de juizes decidiu ilibar os arguidos,

Hugo Marcolino, João Carmelino, e António José Francisco,

do crime de homicídio qualificado.

Silêncio por favor!

No entanto...

Silêncio!

No entanto ficou inequivocamente provado

que os réus praticaram o crime de ofensa à integridade física agravada.

Um crime particularmente odioso.

Ainda para mais dada a sua natureza homofóbica.

Por este crime...

São todos os arguidos condenados em pena de prisão por três anos.

Silêncio por favor!

Tendo em conta, a jovem idade dos arguidos

e o facto de não terem antecedentes criminais,

a execução desta pena fica suspensa por um período de cinco anos.

Ou seja...

Silêncio por favor!

Ou seja, se nos próximos cinco anos praticarem outro crime,

vão mesmo presos, e vão pagar pelo crime novo e por este.

Uma nova passagem pelo tribunal não será certamente suave.

Está encerrada a sessão.

Fizemos o que está certo.

Também acho.

O tribunal começa, neste momento a esvaziar-se

num dia que não será esquecido facilmente.

Numa decisão surpresa, os três acusados de homicídio foram absolvidos.

As dúvidas que foram surgindo ao longo do julgamento acentuaram-se

originando este dramático desfecho.

A pequena cidade está em choque.

Quem terá, afinal, assassinado o jovem André?

Descobriu-se, no decorrer do julgamento, que o filho da juíza Ana Martins,

colega de turma da vítima, mentiu em tribunal.

Negou ter estado próximo do local do crime,

algo que as imagens de videovigilância desmentem.

Resta agora saber porque mentiu.

Podemos ainda divulgar em exclusivo para o nosso canal,

que sabemos de fonte próxima da família,

que o filho da juíza Ana Martins não dormiu em casa na noite do crime

e esteve incontactável boa parte do dia seguinte.

Terá este facto alguma justificação?

Ou esconderá algo de importante?

A confirmar-se o potencial envolvimento do filho da juíza neste terrível incidente,

novas questões surgem sobre a independência do sistema judicial.

Poderá o filho de uma juíza local ter o julgamento isento

no tribunal onde a mãe opera?

- É a questão que colocamos. - É uma vergonha, é o país que temos!

A população está visivelmente consternada, visivelmente indignada.

Aliás vamos saber a opinião de algumas pessoas...

Falaste com o canal 13?

Eu? Mas porquê?

Eu fiz-te uma pergunta concreta!

Falaste ou não falaste com uma jornalista do canal 13?

Ela apareceu um dia lá na escola, mas eu não lhe disse nada.

Mãe, juro, juro que não lhe disse nada.

É filho da juíza. Está tudo dito!

O mal está feito.

E como tu não consegues perceber as coisas a bem,

quando acabares as aulas vais para casa.

Mãe, o que é que eu fiz?

Meteste o teu irmão em problemas! Em problemas graves!

Mãe, mas eu só lhe disse que ele tinha...

Não, não. Não quero ouvir o que é que tu disseste!

Onde é que tu estás?

Estou na escola. Tenho aula até às 7h, não te lembras?

Então quando acabares as aulas, vais imediatamente para casa,

estamos entendidas?

Oh mãe, logo hoje que eu tenho um trabalho de grupo com a Mizé? A sério?

Vais para casa! Estamos entendidas?

Ana! Ana!

Estás louca?

Vamos pelas traseiras, ok?

Porque é que vocês batiam no André?

Caça aos Patos?

Onde é que tu vais, Clara?

Clara, onde é que tu vais?

Podemos falar?

Ele é só um miúdo.

Que cometeu um erro estúpido de mentir em tribunal.

Enfim...

A justiça às vezes falha, e eu quero estar preparada para o pior.

Eu pedi à Dra. Alice que começasse a estudar o caso

na eventualidade de o David ser acusado de alguma coisa.

Fez muito bem.

Eu sei que ela é uma boa advogada, experiente, competente.

Mas como todos os bons advogados tem uma agenda...

Complicada e eu queria pedir-lhe, a si, Joana, que a ajudasse.

Como assim?

Que organizasse o processo, que sistematizasse a informação,

e que na eventualidade da Alice não estar presente que a Dra. Joana pudesse...

Eu peço desculpa, mas eu não tenho experiência para um caso desta dimensão.

Eu não estou a pedir que assuma o processo.

Eu só lhe estou a pedir que ajude uma colega.

É uma maneira de ganhar experiência.

Eu sei. E agradeço.

Mas é um caso de homicídio.

Eu não tenho maturidade para trabalhar num processo desta responsabilidade.

Há muito em jogo e....

E?

Eu sou uma miúda que acabou de sair da faculdade.

A Dra. Joana é mais do que isso.

Eu espero que entenda.

Claro.

Agradeço-lhe a sua...

Frontalidade.

Dra. Joana,

ele é um bom menino.

- Há uma coisa que nós precisávamos... - Não, não, não!

- Não! - Por favor!

- Não sabe o quanto nos poderia ajudar. - Não, acabaram de os libertar!

Eu vi-os sorrir à saída.

Monstros!

Acalma-te, acalma-te.

E vêm agora com pistas!

Coisas que não foram a julgamento?

O meu filho...

Vá se embora.

Vá-se embora! Não nos podem fazer isto!

Mário.

Sou eu.

Desculpa.

Eu preciso de ti!

Ana?

Ana?

Na parte da trás da casa não há sinais de arrombamento.

Acho que fizeram isto só para assustar.

Agora o porquê é que eu não sei.

O porquê?

O porquê é fácil.

A cidade quer sangue, não interessa de quem.

A justiça não está cá para acalmar pessoas.

Eu vou ser inflexível, aconteça o que acontecer.

Admiro a tua força.

Fazer o quê?

Não é ter força. É não ter alternativa.

Está a tocar-me?

Sabe que é errado, Sr. Inspector?

E isto?

Também é errado?

Muito...

Muito errado.

Até breve, Sr. Inspector.

Até breve, Dra. Juíza.

Só mais um!

Não me quero ir embora.

Voltas?

Estou.

Tu não consegues mesmo viver sem mim, pois não?

Porra, Mário! Estou farta de te ligar.

Onde é que tu estás? Onde é que tu tens estado?

Onde é que eu tenho estado...

Eu reservo para mim o direito de não me autoincriminar.

O que é que se passa?

A internet caiu, o servidor não pega?

É que se é isso, não te posso ajudar.

Sabes que eu é mais canas de pesca...

Não, cala-te, ouve! É muita coisa.

Primeiro, eu falei com a mãe da vítima.

O catálogo que nós trouxemos de casa do David...

...é da marca dos ténis que a vítima usava.

E o modelo assinalado no final,

é o modelo que ele usava naquela noite.

Depois...

Tu lembras-te do poema escrito à mão?

- "Em todos os dias, todas as noites..." - Sim, o Cesariny.

Sim.

Essa é a letra do André. É a letra do morto.

Tens a certeza?

Tenho a certeza.

Agora, estás preparado? Ouve só esta:

Eu andei às voltas com o iPad do miúdo, com o iPad do David.

Adivinha lá quem é que foi o anónimo que nos mandou as fotografias do bullying?

Mário?

Sim, sim... estou aqui.

Se calhar foi só para nos ajudar,

Mas vamos ter de falar com o Procurador sobre isso.

Sim, claro.

Está bem, vá, eu já vou ter contigo.

Até já.

Quem é que pode ter feito uma coisa destas?

Quem é que é o maluco que arranca flores?

Não sei...

Sei que os ânimos estão exaltados.

E que temos de ter muito cuidado.

Eu juro...

Eu pensava que aquela jornalista era uma bacana.

Eu nunca pensei que ela fosse fazer uma coisa daquelas.

Principalmente ao meu maninho.

Desculpa.

Está tudo bem.

Tu já chamaste a polícia?

Sim.

Por onde é que andou?

No jardim.

Verificou se as portas foram arrombadas.

Andou por aí.

Descobriu alguma coisa?

A polícia?

Não.

Eu já terminei.

Andas à procura de alguma coisa?

Eu?

Não...

Eu.

Já viste as tuas mãos?

Deixei cair o isqueiro.

Senta.

Mãe, eu estou cansado...

Vais ter muito tempo para descansar.

Senta.

O meu filho...

Foste tu?

Eu?

Não te atrevas...

...a perguntar o quê.

Não te atrevas.

Andavas à procura do quê?

- Mãe... - Do saco com as coisas?

Do saco que escondeste nas minhas flores?

Conta-me do jardim.

Conta.

Deste não...

Do meu jardim não.

Conta-me do jardim da cidade.

Fala-me daquela noite.

Foste tu?

Não, não... Não fui eu.

Tu não percebes.

Não te atrevas a mentir-me.

Não te atrevas! Ou eu juro...

Olha para mim!

Eu juro!

Repara, que eu estou sob juramento.

Eu juro que ligo para a polícia e te denuncio!

Mãe, foi um acidente...

Foi um acidente, mãe!

- Mãe, mãe. Mãe, foi um acidente! - O que é que foste fazer...

Mas que cagaçal é este, o que é que se passa?

Porque é que vocês estão às escuras?

O que é que aconteceu?

Tu tens a mãos todas porcas! O que é que se passou?

Caiu...

O jardim lá fora está uma confusão, qualquer um tropeça.

Vai te deitar que já é tarde.

Vinha só buscar um copo de água.

Não me sujes a casa de banho toda, não sou tua criada.

Boa noite, mãe.

Boa noite.

Boa noite, chato.

Então?

Eu estava a tentar ajudá-lo, e de repente atacou-me.

Porquê?

Epá, não sei, parecia louco.

Estava um bocado bêbedo e do nada agarra-me o pescoço...

E do nada agarra-me o pescoço e...

Deve-me ter confundido com os outros.

Tu viste os outros a baterem-lhe?

Não... mas eles bateram-lhe.

Eu só o queria ajudar...

Eu só o queria ajudar, eu...

Mas do nada, ele agarra-se à minha garganta e eu...

E eu tinha que me defender!

Com a minha pá de jardim?

Caiu-me da mochila...

Foi o que tinha à mão.

O que é que andavas a fazer com a minha pá?

A pá foi para um...

Foi para um projeto de biologia na horta da escola.

Eu esqueci-me de avisar, fui estúpido...

Foi um acidente, mãe.

Foi um acidente...

Sim!

E os sapatos?

Trouxeste os sapatos do rapazinho.

Mãe... Eu saí de lá e...

Mãe, foi um erro enorme...

Eu nunca mais dormi.

Eu nem sei o que fiz. Aliás, eu sei. Eu sei!

Mas eu não percebo!

Eu nunca mais dormi.

Eu nunca mais dormi.

Tu não és mau.

Não, eu não sou mau.

Eu sei...

Eu sou tua mãe.

Eu conheço-te.

Ajuda-me.

David, olha para mim. Chega.

Chega. Olha para mim!

Olha para mim.

Vais tomar um banho.

Vais por a roupa para lavar, vais-te deitar e amanhã falamos.

Vai para a cama.

Olha para mim.

Foi um acidente.

Os acidentes acontecem.

Levanta-te!

Diz-me só uma coisa...

Tu ias deixar que aqueles miúdos apodrecessem na cadeia?

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