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PALMA DE OURO FESTIVAL DE CANNES 2013
"Se me afastaria? Penso que sim.
"Não conseguiria evitar.
"As ideias apoderam-se de mim. Sou mulher e conto a minha história.
"Ponderem no que vos digo
e verão o pouco uso que dou aos privilégios que isto me dá."
Recomece em "sou mulher".
Mas diga-o para si mesma.
"Sou mulher". É uma verdade.
- Está bem, Saïda? - Sim.
Partimos daí. Está a contar a sua história.
É uma verdade.
"Sou mulher e conto a minha história.
"Entre os jovens cujos olhares atraía,
"houve um que me chamou a atenção
"e sobre quem o meu olhar recaiu em particular.
"Gostava de o observar, inconsciente do prazer que isso me dava.
"Era sedutora com os outros, mas não com ele.
Não tentava cativá-lo, só pensava em observá-lo."
Obrigado, Saïda. Maelys?
"Aparentemente, o amor, a primeira vez que o sentimos,
"começa com esta sinceridade.
"Talvez a doçura do amor anule o desejo de agradar.
"Este jovem, pelo seu lado,
"observava-me de uma forma inteiramente diferente dos outros.
"Era mais reservado, ainda que mais atencioso.
"Qualquer coisa mais séria se passava entre ele e eu.
"Os outros acolhiam abertamente os meus encantos.
"Este parecia não lhes ser indiferente,
"pelo menos, assim me parecia por vezes,
"mas de forma tão confusa que não sabia o que pensar dele,
"nem tão-pouco o que pensar de mim.
"Saímos finalmente da igreja. Recordo que saí devagar,
"que atrasava o passo,
" que me custava abandonar aquele local.
"E que parti com o coração a sentir que perdera qualquer coisa,
"sem saber o quê.
"Digo que o meu coração não sabia, mas talvez não fosse assim,
"pois, ao sair, virei-me várias vezes para ver o rapaz que deixava para trás,
inconsciente de que era por causa dele que me virava."
Obrigado, Samir.
Como interpretam o facto de o coração sentir que perdeu algo?
Quando se cruzam com uma pessoa,
e os olhares se encontram de forma espontânea,
como no amor à primeira vista, por exemplo,
sentem que o coração perde ou ganha alguma coisa?
- Sentimos pena? - Eli?
Pena?
Por não nos termos virado para falar com a pessoa.
- Sentirias pena? - Sim.
Sentir pena é privar o coração de qualquer coisa.
Ela sente pena de não ter preenchido o vazio do seu coração.
Obrigado, Eli.
Gostava de retomar essa passagem
e compará-la com a leitura de "A Princesa de Clèves",
em particular com o encontro da Princesa com o Duque de Nemours.
Para além disso, gostaria que reflectissem
sobre a ideia da predestinação dos encontros, pode ser?
Como acontece por vezes no amor à primeira vista.
Para ser sincera, se for para dar uma queca, eu dou,
mas não estou para esperar 3 meses.
Quatro dias é o máximo.
Quem espera 3 meses para dar uma queca?
Ele tem um ar um bocado murcho.
Um bocado?
Esteve aqui sentado hora e meia!
Espera...
O Thomas não para de olhar para ti.
Está atrás de mim?
Olha, ele não vê.
Não para de olhar para ti.
E não é a primeira vez.
Está perdido por ti.
- Nunca reparaste? - Não!
Não brinques. Não é a primeira vez que reparo.
Como sabes? Estamos sempre as cinco juntas.
Ele está a olhar neste momento. Podes ver.
Não acredito.
- Acho que tinhas hipótese. - De quê?
De que havia de ser? De jogar às cartas?
É óbvio que vocês se gramam.
Ele é muito fixe. Tinhas boas hipóteses.
Já tínhamos visto que ele está sempre a olhar para ti.
Ele está doido por ti.
Ele agrada-te?
É impossível não lhe agradar.
- Fisicamente? - Claro, fisicamente.
- Ele é giro. - É giro, mas não é o Brad Pitt.
- Mas não anda longe. - Pois não.
Já viste as alternativas que temos na escola?
E então, disseste-lhe o quê?
Ele ligou-me, e eu mandei-o passear.
- Já foi embora. - A sério, isto está no papo.
Não olhes tão descaradamente, Amélie.
Ela não é nada discreta.
Estava a observar o amigo dela.
Não é nada mau.
- O Hugo? - Sim, é mesmo giro.
Ela já se esqueceu do Vincent, agora só vê o Hugo.
- O Vincent está com a irmã. - Ele é tão giro...
Passas-me mais, por favor?
Está delicioso.
Queres mais?
Obrigada.
Obrigada.
Obrigado.
- Posso sentar-me ao teu lado? - Se quiseres.
- Que tempo de merda... - Está horrível.
Estás a ler o quê?
"A Vida de Marianne", de Marivaux.
Temos de o ler e escrever um comentário.
- É interessante? - É fantástico.
- Andas no 10º ano? - Sim, e tu?
No 12º. ano de Ciências.
- E gostas? - Não gosto propriamente, mas...
Sou bom a matemática.
Que vais fazer depois?
Gostava de trabalhar na área da música,
montar uma editora,
descobrir artistas, ter uma produtora...
E tocas também ou só fazes produção?
- Também toco. - O quê?
Percussão, guitarra, piano...
Não sou profissional, mas tudo bem.
Onde aprendeste?
Aprendi sozinho, com vídeos. De ouvido...
- Tu não tocas nada? - Não.
Gostava, mas tenho de passar pelo solfejo.
- Já experimentei e não consegui. - O solfejo é horrível.
A minha mãe também me inscreveu e eu detestei.
Não toquei num instrumento durante 10 anos.
- Que género de música ouves? - Um pouco de tudo.
Desde que seja bom, reggae, música cigana, clássica, dubstep...
Tudo.
A única coisa que me custa ouvir é o heavy metal.
Pessoal que grita, com os cabelos compridos...
Não há palavras, nem melodia, não gosto.
Acho uma seca. Fora isso, gosto de tudo.
- Merda. - Porquê?
Porque... eu sou especialista em hard rock.
É verdade.
Gosto de cenas pesadas, hard rock, hard metal...
Disseste que era só gritos...
És capaz de não gostar.
Associo isso a tipos com cabelo comprido, aos gritos.
Então, eu safo-me.
Acho que é diferente. Desculpa...
- Estava a brincar. - A sério? Não é isso que tocas?
Estava a começar a meter os pés pelas mãos.
Achas mesmo que esses tipos têm todos o cabelo comprido?
Quase todos.
Não é o género que eu toco, mas isso não é verdade.
Não é o género que tocas?
- Um dia, mostro-te o que toco. - Boa, gostava de ouvir.
Era uma desculpa para nos voltarmos a ver.
Desculpe.
- Tudo bem? - Tudo, e tu?
- Estou atrasada, desculpa. - Não faz mal.
O comboio atrasou-se. Esperaste muito?
Que vamos fazer?
Queres comer qualquer coisa? Um waffle, um crepe...
Podemos sentar-nos numa esplanada.
Se calhar, prefiro uma pita.
Fartei-me de trabalhar por causa de ti este fim de semana.
Porquê?
- "A Vida de Marianne". - Leste?
- Tentei. Comecei a ler. - E então?
É um bocado parado. Estou a avançar devagar.
Não gostaste?
Confesso que livros desse género...
... desencorajam-me.
Há livros pequenos que me chateiam e não leio mais que 2 páginas.
Mas esse, não percebo como é possível não gostar.
Não disse que não tinha gostado.
Mas custou-me...
Com aquele vocabulário, as frases compridas e antiquadas...
Tem muitas descrições.
Ele explora os sentimentos... Mas põe-se na pele de uma mulher.
Quem sabe? Talvez me ensines a apreciar.
Vou tentar lê-lo todo.
Já leste algum livro que gostasses?
Já leste algum livro que gostasses?
Nunca li um livro inteiro!
Nunca leste um livro que tenhas gostado de ler?
Nunca?
Houve um livro que me interessou.
Mas não o li sozinho.
Qual foi?
"As Ligações Perigosas".
Choderlos de Laclos.
Decoraste isso.
Se o tivesse lido sozinho, metade tinha-me passado ao lado.
Talvez não. Talvez o tivesses interpretado à tua maneira...
Ele explicou cada capítulo, cada carta, analisámos tudo...
É escrito em cartas.
Não te chateia que seja o professor a explicar tudo?
Não, ajudou-me a compreender.
Gostei daquele jogo duplo.
A dado momento, ele escreve à Marquesa de Merqueuil.
Diz que a ama, mas está a escrever apoiado nas costas de uma puta.
Quando lês nas entrelinhas, é outra carta, mas ela não sabe.
Nunca teria percebido aquilo.
Não capto as cenas todas dos livros.
Mas no fim, gostei imenso.
Comigo é ao contrário.
- Lês muito? - Adoro ler.
Quando um professor me obriga a analisar demasiado um livro,
ou a obra...
e relaciona tudo com a vida do autor,
isso bloqueia-me a imaginação. Não gosto.
Não sei porque é que este livro me tocou tanto.
Ia perguntar isso. Porquê esse?
- A sério, acaba e vais perceber. - Vou lê-lo.
Juro que vou ler "A Vida de Marianne".
Cuidado com o que prometes, olha que são 600 páginas.
Vou lê-lo. Estou-me nas tintas.
Viva.
Estás com péssimo aspecto.
Não dormiste?
Deste uma queca, sinto o cheiro.
Como correu com o Thomas?
Dormiste com ele?
Isso não é resposta.
Estou grávida.
Estou grávida, vamos casar.
Dormiste em casa dele?
- Conta lá pormenores. - Não há.
- Que fizeram? - Passámos a tarde juntos.
Não dás quecas à tarde?
Negas?
És a polícia do sexo?
Não, mas quero saber pormenores.
Vê-se logo que deste uma queca, porque não contas?
Porque não dei queca nenhuma.
Não dormiste, o que fizeste ontem à noite?
Vá, conta lá.
Vá lá!
Foi horrível, é por isso?
Se tivesse acontecido, contava-te. A sério.
Não acredito.
- Com essa cara e esse cheiro... - Vou andando. Vêm?
Também vamos.
Sinto o cheiro daqui.
Tu és nojenta!
Desde quando é que foder é crime?
- Ele vai segui-la. - Para a casa de banho.
Adèle?
Tens um minuto?
Sinto que me estás a evitar.
Não sei, talvez...
Compreendeste mal ou eu avancei depressa demais.
Queria dizer-te que gosto de ti.
Não dizes nada?
Não gostaste?
Gostei.
Gostei imenso.
Vá lá, fala.
É como se estivesse a representar.
A representar tudo.
Se ele te põe nesse estado...
Não, sou eu.
O problema não é ele, sou eu. Falta-me qualquer coisa.
Estou baralhada, estou...
Tem de haver uma razão. Não podes estar triste por nada.
Tem de haver uma razão.
Para de pensar, não te tortures mais.
Estou um destroço.
Disparate, estás linda.
- Cala-te. - A sério.
- Achas que não me vejo? - Como podes ver-te?
Tenho o nariz a pingar, o cabelo todo oleoso...
E a cara horrível.
Dá-te um certo charme.
Felizmente, tenho-te a ti.
Se continuas assim, é ele que te dá com os pés.
Palerma. Pelo menos, não teria de lhe dizer.
Se ele me vir assim manda-me dar uma volta.
E eu respondo: "Está bem. Tens a certeza?"
Então, pronto. Estamos esclarecidos.
Tenho imensa pena, acredita.
Estudantes na rua!
Não à privatização!
Não aos cortes nos empregos!
Não aos cortes orçamentais!
Mais dinheiro para a educação!
Dos bairros sociais da cidade Às zonas rurais do país
A realidade é a mesma A revolta aumenta
Não temos lugar neste mundo Não temos um rosto aceitável
Não nascemos num palácio Nem numa redoma dourada
Desempregado, operário, camponês Imigrante, sem papeis
Quiseram dividir-nos E conseguiram fazê-lo
Enquanto foi cada um por si O sistema prosperou
Mas um dia acordámos E as cabeças começaram a rolar
Não desistiremos!
Não desistiremos!
Não desistiremos!
Parecem uns tetraplégicos!
"Pequena" é uma palavra que surge de forma recorrente na obra.
É uma palavra que estigmatiza a infância,
mas também a impotência.
A infância é a idade em que... Espero que a vossa esteja a terminar.
É a idade em que nos sentimos impotentes,
em que ainda não somos maduros, não somos fortes.
Antígona ainda está nessa idade, ainda é pequena,
"pequena demais", diz ela.
Mas naquele dia, não quer nem pode mais ser pequena.
Aquele é o dia em que ela diz não
e é o dia em que vai morrer.
Qualquer coisa nos remete para as características da tragédia.
A tragédia é o inevitável,
aquilo a que não podemos escapar por mais que queiramos.
Remete para a eternidade do ser, para o intemporal,
remete para a essência do ser humano.
- Tudo bem? - Sim, e tu?
Estava a apanhar uma seca em Francês.
Tens lume?
- Tudo bem, não têm frio? - Não, estamos bem.
A Alice é gira.
E tem um belo cu.
Agora aprecias o cu da Alice?
Reparei quando ela passou.
Gosto do género dela. Tem um ar fixe.
Não fiques com ciúmes, tu também és gira.
Não estou com ciúmes.
De certeza?
De qualquer maneira, tu sabes.
- O quê? - Que és gira.
És das miúdas mais giras da nossa turma.
É verdade. Estás surpreendida?
Gosto desse teu ar misterioso.
Aposto que os rapazes ficam doidos.
Nem por isso.
Bem, eu acho que és super gira.
Obrigada.
Até mais gira do que a Alice.
- Estás a corar? - Não, de maneira nenhuma.
Sim, coraste!
- Deixa ver. - Corei?
Está um gelo.
- Apetece-me baldar a Inglês. - A mim também.
Vemo-nos mais tarde?
Até logo.
- Queres a outra perna? - Tanto faz.
Dá cá o prato.
Pronto.
Já te dou as batatas.
- Este frango está esquisito. - Mas parece bem cozido.
Parece que não se desfaz.
- Queres? - Sim, por favor.
Passa-me o teu prato.
- Estás na lua, Adèle. - Bom apetite.
- Queres? - Sim, por favor.
Estás com cara de quem teve um dia bom.
- Acho que sim. - Nota-se.
Não tens fome?
Não, quero salada.
Tudo bem?
E tu?
Desculpa, não pensei que...
... desses alguma importância àquilo.
O que aconteceu ontem foi...
Agi por impulso.
Não me ocorreu que pudesses pensar outra coisa.
Compreendes?
Não te preocupes, nada muda entre nós e não contarei a ninguém.
Desculpa lá...
Até já.
Adèle? Chega aqui.
Adèle?
Não ouviu?
Porque é que me ignoraste? Que se passa?
Nada.
- Diz-me lá. - Não se passa nada.
- Fala comigo. - Vamos sair.
Então, tudo bem?
Adèle. Os meus amigos.
Tudo bem?
- Gosto de te ver. - Estás bom?
Vamos dançar. Queres dançar?
- Vou acabar a bebida primeiro. - Vamos todos dançar.
Fico a ver-vos, já lá vou ter.
Prometes?
O amor não tem sexo. Procura alguém que te ame.
Vive a tua felicidade, Estamo-nos nas tintas.
Podemos morrermos amanhã, mais vale não nos ralarmos.
Olá. Andas à procura de alguém?
- Vou ter com uma amiga. - É pena.
Diverte-te.
É a primeira vez que cá vens?
Tens um ar perdido.
Oferecia-te um copo, mas já tens um.
- Tudo bem? - Sim.
- Estás a falar com a minha prima? - É tua prima?
- Dás-me licença? - Faz o favor.
Sophie, dás-me um leite com morango, por favor?
Que fazes aqui sozinha?
Não sei.
Vim cá dar por acaso.
Por acaso.
Estás a beber uma... Goudale.
A cerveja dos maricas.
- Não fazia ideia. - É verdade.
Toma. Experimenta isto.
Então? Gostas?
Posso ser franca?
- Não ficas ofendida? - Não, diz lá.
É um bocado nojento.
Eu adoro.
É raro ver aqui miúdas do teu género.
Qual é o meu género?
O teu género... Não sei, menor,
que anda à noite pelos bares.
Como sabes que sou menor?
Vê-se. Ou então...
Um miúda heterossexual com uma certa... curiosidade.
Como te disse, vim cá parar por acaso.
Isso do acaso não existe.
Achas?
- Como te chamas? - Adèle.
É um nome bonito.
Tem um significado qualquer em árabe.
Acho que quer dizer... Sol.
Esperança.
Amor.
- Quer dizer justiça. - Não andava longe.
Sol...
E tu, como te chamas?
Chamo-me Emma.
- Que fazes na vida? - Dá um palpite.
És cabeleireira?
Não, estou no 4º. ano de belas-artes.
Belas-artes?
E gostas?
Sim, gosto.
Porque é que se chamam "belas-artes"?
Há artes que são feias?
Não, não há arte feia...
Algumas coisas podem ser feias. Mas é subjectivo.
Diz-se assim porque existem também as artes decorativas, as aplicadas...
Não existe escola de "feias-artes".
Porque não?
Bem, boa pergunta.
Na época dos Impressionistas, as pessoas que eram rejeitadas...
Havia salões onde eram expostas as pinturas bonitas,
e os que eram rejeitados, que eram considerados "feios",
iam para o salão dos... - Feios.
Uma espécie de salão dos feios. Mas eram os melhores artistas.
Gostas de pintura?
Não conheço muito, mas gosto.
Quem é que conheces?
O Picasso.
E... o Picasso.
- Nada mau, já conheces... - O Picasso.
E tu, o que fazes, Adèle?
Estudo.
Estudas o quê?
Literatura. Ainda não acabei o secundário.
Estou no liceu a estudar literatura.
Qual é a tua disciplina favorita?
Depende do professor.
Se o professor me inspira, tudo me interessa.
É complicado, porque as minhas notas podem variar muito,
podem baixar de 15 para 4 num ano.
De 15 para 4?
De 15 para 4? Contigo é tudo ou nada.
Mas...
Sou mais constante a Francês porque adoro ler.
E em línguas. Porque...
- Adoro Inglês. - Eu sou péssima a inglês.
A sério?
É uma cena que adorava...
Devia ter aulas de inglês.
Tenho uma pronúncia horrível.
- Eu sou muito boa. - A sério?
Tens sorte.
E como adoro cinema americano...
Agora ando a ver os filmes sem legendas. Ajuda imenso.
Repete lá.
- Não me lembro. - Diz lá.
- Adoro o cinema americano. - Que género?
Tudo. Scorsese, Kubrick...
Viva, querida.
- Que fazes aqui? - Cumprimenta a minha prima.
- Prima! - Deixa-te disso.
Que idade tem a tua prima?
Deixam-te entrar aqui?
Um pouco de respeito, meninas.
Vamos a uns bares na Bélgica, queres vir?
- Fico contente por ti. - Vens?
Anda lá, querida.
Podes trazer a tua prima.
Prima...
Ela é gira!
Ficamos à tua espera.
- Em que liceu andas? - No Pasteur.
- Então, Emma? - Não posso conversar 5 minutos?
- Quanto é que devo? - Já está pago.
Como te correu?
Pessimamente. E passei as férias a estudar.
Ele copiou.
Foste apanhado em flagrante, como um parvalhão.
- Tudo bem? - Sim, e tu?
Estava aqui perto. Pensei que podíamos ir beber um copo.
Adèle, conheces essa miúda?
- Posso mexer-me? - Claro.
- A sério? - Não, fica assim.
- Agora a sério. - Podes mexer-te.
Obrigada.
Porque agradeces?
Não sei. Porque sim.
- Sentes-te constrangida? - Um bocado.
- Não gostas? - Sim, gosto.
Não parece.
Bem, não é todos os dias que me desenham.
Desenhas muitas vezes pessoas que acabas de conhecer?
Não, poucas vezes.
Mas apeteceu-me.
- O meu cabelo não está horrível? - Não, está bom. Não mexas.
Raramente faço retratos. Mas escolho sempre um pormenor.
E utilizo-o depois.
De uma forma diferente. Pode ser...
... uma ruga dos lábios, uma emoção do olhar.
"A misteriosa fraqueza do rosto humano."
- Conheces esta frase? - Não.
Sartre.
- Conheces? - A ele, sim, mas a frase não.
Tentei ler ensaios dele, mas não percebo nada.
Prefiro as peças. Leste "As Mãos Sujas"?
- Gostaste? - Adoro.
Eu também.
Devias ler "O Existencialismo é um Humanismo".
É uma boa introdução à filosofia dele. E é acessível.
O princípio que Sartre apresenta
é que a existência precede a essência.
Nascemos, existimos,
mas só depois nos definimos pelas nossas acções.
Isso impõe-nos uma grande responsabilidade.
Acho que li isso. Aliás, tenho a certeza.
Mas não percebi nada.
Devo ser uma nódoa a filosofia,
mas essa história da existência e da essência
faz-me lembrar a história da galinha e do ovo.
Não se sabe o que apareceu primeiro, nunca saberemos.
Tu tens piada.
Mas nada disso é importante.
Ele iniciou uma revolução intelectual
que teve o mérito de libertar toda uma geração.
Disse que somos livres de decidir a nossa vida,
sem qualquer princípio superior.
Eu venerava Sartre quando andava no liceu.
- A sério? - Sim, fazia-me bem.
Sobretudo na afirmação da minha liberdade e dos meus valores.
E a exigência dele para com o compromisso...
Apoio completamente.
É mais ou menos como o Bob Marley.
Quase.
Não sei bem...
Tenho quase a certeza. São ideias parecidas.
Estás a ver a música "Get up, stand up"?
Sim, conheço.
- É um tipo envolvido. - É verdade.
É como Sartre, é um filósofo, um profeta.
Podes ajudar-me com a filosofia porque pareces...
Quando quiseres.
Tenho de ir andando.
Devia ter ido ter com a Sabine há 15 minutos.
Queres ver?
Não é obrigatório gostar.
Gosto muito.
É estranho, pareço eu e não pareço.
É um esboço. Tenho de dar uns retoques.
Depois ofereço-to.
Estás há muito tempo com a Sabine?
Há... uns dois anos, talvez.
Porquê?
Bem, tenho de ir. Que fazes esta semana?
Estou a estudar para os exames.
Mas se quiseres, dispenso-te uns momentos.
Estou a brincar, eu tenho tempo.
Vou dar-te o meu telefone.
- Prometes que me ligas? - Sim.
- Até breve. - Combinado.
Por falar do diabo, chegou agora mesmo.
É uma amiga tua, uma Emma.
De nada. Adeus.
Estava só a ver se me tinhas dado o número certo.
- Achas que queria fugir de ti? - Não sei.
Como sou do género estranha e intimidante...
Pertences a um género?
Talvez. O género maior de idade que frequenta bares homossexuais.
Somos muito diferentes.
Não estejas tão certa.
Não devem fazer-se julgamentos no primeiro encontro.
Tudo bem?
Sim, e tu?
Têm lume?
Quem era a rapariga que te veio buscar?
- A de cabelos azuis. - Tipo fufa.
Por favor...
Lá por ter cabelos azuis não significa que seja fufa.
Topa-se logo que ela lambe conas. Onde é que a conheceste?
- Num café. - Num café?
Não terá sido num bar gay, com o Valentin?
Ele disse que tinhas ido com ele.
Porque é que frequentas esses sítios?
Não frequento.
Estás a dizer que não foste com ele?
Ele disse-nos que tinhas ido.
-Não sei porque é que ele disse isso... - Valentin?
Não foste no outro dia a um bar gay com a Adèle?
- Sim, porquê? - Só queria saber.
Mentiste, não pode ser.
Não foi uma mentira. É que...
Fui com ele, entrámos e bebemos um copo, mais nada.
- Bebemos um copo. - Num bar gay, só isso.
- Tudo bem. - Fim da história.
Só estávamos a perguntar.
Porque é que ela te veio buscar à escola?
Porque somos amigas...
Porque é que nós não a conhecemos? Se são amigas?
Porque a conheci há pouco tempo.
E já lhe lambeste a cona?
- Só dizes disparates. - Não perdes tempo.
- Estavam todas encostadas! - Estávamos a falar!
Falas com as tuas amigas a esta distância?
Falas assim comigo?
Chamei-te e nem respondeste. Foste atrás dela.
É a nova mulher da tua vida?
O que fazes é contigo, mas assume.
Não há nada para assumir. É minha amiga,
estávamos próximas porque estávamos a falar.
Isso soa-me a falso.
Soa a falso porque... Estão a fazer-me um interrogatório.
Assume que lambes conas.
Não me interessa se és lésbica, a vida é tua.
Mas dormiste várias vezes nua na minha cama.
Isso custa mais a engolir.
- Eu sou tua amiga. - Eu sei...
Gosto de pessoas francas.
Só tens de assumir.
Não vou assumir uma coisa que não sou.
Para com isso, Adèle.
Uma fufa vem buscar-te à escola...
Ela não é fufa.
- Não negues, vê-se à distância. - És lésbica?
Assume.
Eu não quero saber, mas não me metas nisso.
Sou tua amiga, mas nunca me lamberás a cona!
Nunca te tocaria, para com isso! Não sou lésbica...
- Não fiques agressiva. - Tu, cala-te.
Ela está a atacar-me, só estou a defender-me!
Agora estás enervada.
Estou enervada porque estás a disparatar à frente de toda a gente!
Não sou lésbica!
Baixa o tom.
- Baixa tu. - Estamos só a falar.
Ela ataca-me e eu tenho de me calar?
Não fales assim, que idade tens?
Já disse que não sou lésbica! És parva ou quê?
Estão a ver isto? Ela é uma puta!
Dormiu na minha cama, mete-me a mão no cu...
Só dizes tretas!
As putas como tu gostam de apalpar cus.
A outra cabra também tem a rata azul?
Grande puta!
Maldita lésbica!
- Vai lamber conas! - Que foi isto?
Porque foste contar que fomos a um bar gay?
Ainda por cima, como se te estivesses a gabar!
E então? Não é o fim do mundo!
Sim, é o fim do mundo! Acham que sou lésbica
e aquela diz que lhe apalpei o cu.
Disseste que íamos perguntar-lhe com calma.
Não olhes para ela. Ouve-me.
Aquilo não foi falar, o que fizeram foi agredi-la.
Ela é que nos agrediu.
Ela agrediu-vos fisicamente, mas vocês agrediram-na verbalmente.
- Só perguntámos. - Não perguntaram nada.
Se fosse um gay não assumido, reagia da mesma maneira.
Anda, vamos andar à porrada!
Nunca tocarás na minha cona!
- Fufa nojenta! - Cala o bico!
Ele fala de "escrúpulo patológico". O que é isso?
Será a gravidade? Louis?
Na segunda estrofe, ele diz...
"O único vício da água é a gravidade."
Ele associa a lei universal da gravidade a um vício, como se...
... tudo o que fosse natural fosse perverso e vice-versa.
É um pouco o contrário...
... da rectidão católica,
que afirma que o vício não é natural e que temos de...
... de o reprimir, de o rejeitar.
Ele diz que a gravidade é um vício que não pode ser evitado.
Uma coisa intrínseca à água. Adèle, queres comentar?
O que o Louis disse.
Concordo.
Estás a seguir a conversa?
Não.
Falamos de um vício intrínseco à água. A gravidade.
Começa a ler a partir de "Este vício".
Página 62.
- Deitas fora a pele? - Sim, porquê?
- Não a comes? - Não gosto.
Eu adoro, como as peles todas.
E as côdeas também.
Quando era pequena, até comia as crostas.
Tu és engraçada. Então, és voraz.
- Nem imaginas como. - Estou a ver.
Como de tudo.
Era capaz de passar o dia a comer.
É horrível. Até como quando já não tenho fome.
Só não gosto de marisco.
- A sério? - Sim, é a única coisa.
- É o que eu mais gosto. - Nem percebo como.
- Adoro ostras. - Adoras?
A consistência repugna-me.
É a melhor parte.
Parecem bolas de ranho. Grandes bolas de ranho.
A mim, fazem-me lembrar outra coisa.
Não quero saber.
- Querias dizer alguma coisa? - Não sei...
O quê?
Queria saber com que idade é que...
experimentaste...
Salsichas?
Não. Uma rapariga?
Uma rapariga?
Queres dizer beijar? Ou provar?
Beijar. Para começar. Depois logo se vê.
Tinha 14 anos.
Qualquer coisa do género.
Foi numa festa. Todas as miúdas foram com rapazes.
E eu...
Fui com a Louise. Era o nome dela.
Não nos beijámos durante a festa...
... mas convidei-a para ir a minha casa e foi aí que nos beijámos.
Sempre preferiste as raparigas?
Não, experimentei os dois. Saí com rapazes e raparigas,
até que percebi que preferia raparigas.
Sem dúvida.
Está-se bem aqui.
Bem demais.
Talvez.
É aqui.
Mãe?
- Estás boa? - Estou, e tu?
A Adèle...
- A minha mãe, Catherine. - Muito prazer.
Muito prazer. Já ouvimos falar muito de si.
O prazer é todo meu.
- São para si. - Posso ajudá-la?
É muito simpática, obrigada.
Viva, querida.
- Estás boa? - Estou, e tu?
Estou óptimo.
- Estávamos à vossa espera. - O que é o jantar?
O teu prato favorito.
- Vincent, o meu marido. - É a Adèle.
- Vincent, o meu padrasto. - Muito prazer.
O cozinheiro da família.
Estamos a beber vinho branco. Preferem outra coisa?
Por mim, pode ser branco.
O mesmo?
Digam o que acham. Eu gosto.
É a última escolha do Vincent.
Já bebemos imenso enquanto esperávamos por vocês.
- Não foi assim tanto. - É verdade.
Somos moderados.
É sempre agradável cozinhar com um copo de branco.
O meu pai faz a mesma coisa.
Faz?
Fazemos um brinde?
Ao amor?
- Seja bem-vinda, Adèle. - Muito obrigada.
Grandes palavras... Ao amor.
- Sim, ao amor, meu amor.. - Ao amor, então.
Que tal o acham?
- Delicioso. - Muito bom.
- É bom, não é? Eu gosto muito. - Eu também.
Não percebo muito de vinho, mas é muito bom.
Aposto que não comeste nada o dia todo.
Adèle, fui comprar...
... o melhor que havia no Trière.
Conheces?
Não. Só de nome.
- Sirva-se. - Estou bem.
Merda, esqueci-me de dizer que a Adèle...
... não gosta de marisco.
Lamento imenso.
Não tem importância.
Não é a minha comida preferida,
mas tenho boa boca.
É uma catástrofe, não temos mais nada.
Que maçada. Fui de propósito comprar as ostras
e agora é que me dizes isso?
Eu vingo-me depois no... É o prato principal? Tudo bem.
- Nem camarão gigante? - Esse, muito menos.
Tudo bem. É a ocasião perfeita para a iniciar.
Fazes como na cantina da escola.
Espremes o limão sobre a ostra.
Normalmente, se estiver boa e fresca,
ela mexe-se.
Isso quer dizer que está boa. Estás a ver?
- Olha, mexeu-se. - Porque me dizes isso?
- Está viva. - Por isso mesmo.
Tem de estar viva. Se não estiver, não se deve comer.
É bom que esteja viva. Também podes comer o músculo.
Espera...
Vá lá. Com o sumo de limão...
Então?
Então?
- Estás bem? - É bom.
- Parece ter gostado. - É bom.
- Vou experimentar outra. - Óptimo.
Deliciosas, estas ostras...
Têm quadros muito bonitos.
Obrigada. O meu ex-marido era grande amante de arte.
Nisso, a Emma sai ao pai.
O teu ex-marido era um amante de arte,
mas o teu novo marido... - Também é um amante.
Mas a maioria das pinturas que estão aqui...
- Amante de quê? - Vêm do pai dela.
Amante de comida e de vinho. Também é importante.
Concordo.
E também... de cultura.
Fala-nos de ti.
Queremos saber como é a tua vida.
O que queres fazer?
Quero ser educadora.
Da pré-primária. Adoro crianças.
Adoras crianças. Sempre desejaste ser educadora?
Não é que me agrade o sistema de ensino,
mas a escola sempre foi muito importante para mim.
Permitiu-me ter acesso a coisas
que os meus pais e amigos não me mostraram.
Quero transmitir isso.
Que tens de fazer para lá chegar?
Tirar Ciências da Educação e depois fazer um estágio.
Assim, posso logo trabalhar como assistente de educação.
E para ser franca, não me vejo...
... a estudar mais 10 ou 15 anos,
para depois não arranjar trabalho.
Prefiro agarrar-me a uma coisa mais concreta.
O mercado de trabalho assusta-te?
Pelas tuas palavras, sinto que sim.
Se continuares a estudar,
talvez descubras outra coisa que te interessa.
Por agora, é isso que me interessa.
Pelo menos, sabes qual será o teu percurso.
Quanto a mim, isso é importante.
Mãe?
Mãe?
Mãe?
Feliz aniversário São os meus votos sinceros
Oxalá estas flores Te tragam felicidade
Que o ano inteiro Seja doce e ligeiro
E que no próximo ano Nos possamos reencontrar
Parabéns!
Feliz 18º aniversário, Adèle!
Obrigada.
Mãe? À nossa.
- O rei da bolonhesa. - Espero que gostes.
Serve-te.
- Quer vinho? - Por favor.
Até que enfim que a conheço, Emma.
Há meses que a Adèle nos fala de si.
Conheço-a finalmente.
É bom poder associar um rosto às palavras.
Eu é que... agradeço o convite.
O prazer é todo nosso.
Bom apetite.
Comam, vai arrefecer.
É simpático estar a dar-lhe uma ajuda a Filosofia.
É uma disciplina difícil.
Ela estava com dificuldades, mas agora parece estar a correr bem.
As tuas notas subiram. Graças a si.
É um prazer para mim.
Eu tinha pouco método e ela ensinou-me a fazer planos de estudo.
O método é importante.
Não percebo como é que se pode dar essa matéria toda num só ano.
Não vejo qual é o interesse.
Não se conseguem aprofundar as coisas.
Sim, um ano é pouco.
- Então? - Está delicioso.
Eu sabia.
A Adèle disse que estuda belas-artes.
- Nota-se. - Acha?
É artístico.
Nem toda a gente gosta.
- Fica-lhe bem. - Obrigada...
É a Emma que faz isso...
... ao cabelo?
As coisas dela são lindas. Até vai fazer uma exposição.
Já?
No final do ano, expomos o trabalho.
Tem de nos avisar para irmos ver.
Hoje em dia, viver da pintura é complicado.
É verdade, é difícil.
Os que conseguiram viver dela já morreram todos.
Também sou artista gráfica.
É mais fácil viver das artes gráficas do que da pintura.
Isso tem saída...
É importante ter um lado artístico.
Mas é preciso ter um trabalho que garanta o sustento.
Se as coisas derem para o torto, tem-se como ganhar a vida.
Não quero ser indiscreto, mas o seu namorado...
... faz o quê?
Trabalha na área do comércio.
Isso é bom. É uma segurança.
Pode dedicar-se à sua pintura e ele...
Quando queremos ser artistas
é bom ter um marido que pague as contas.
- Nós não somos casados. - Tem tempo.
Não se apressem.
- Nunca se sabe. - É verdade!
Esta massa está deliciosa.
Está simples, mas...
... muito boa. - Obrigado.
Meu amor...
Assustaste-me, pensei que ias gritar.
Ia era uivar.
Ainda bem que te contiveste.
És linda.
És doce...
A minha mãe pensa que estás a dormir ali.
Na cama de campanha.
Estás a gostar das lições de filosofia?
Adoro. São muito enriquecedoras.
Muito profundas. Muito intensas.
O orgasmo precede a essência.
Tens de ter boa nota.
Quanto é que me dás?
- Catorze. - Catorze?
Só catorze?
Tens de praticar um pouco mais.
Vou esforçar-me ao máximo.
Desta vez, deve ser o lobo.
"É a Sra. Cabra com os seus sete cabritinhos.
Deixa-nos esconder aí. Já sabes das más notícias?"
O lobo voltou!
"Entra com os teus filhinhos", disse o Sr. Coelho.
A família instala-se e de repente...
Truz, truz, truz!
É o lobo!
- Deve ser certamente o lobo. - Certamente.
"Sou eu, o Cordeirinho, estava ali perto do ribeiro,
mas não posso voltar para casa porque..."
O lobo voltou!
"Entra depressa, Cordeirinho", diz o Sr. Coelho, "Vem aquecer-te."
O Cordeirinho chega-se ao fogo, mas de repente...
Truz, truz, truz!
Bate.
Assim.
Continuem a avançar.
Continuem a usar as mãos! Toquem o tambor, não parem!
Para a frente!
Não queres ir brincar?
Preferes ficar aqui?
- Ora viva. - Sozinha, como de costume.
- É a mais bem-comportada. - Sempre foi.
Que fazes ao fim do dia?
Não sei.
Nós vamos beber um copo com a Sylvie, o Quentin, a Anabelle...
Apetece-te vir?
Sim. Mas...
Hoje tenho um jantar de família.
Tens imensos jantares de família.
Neste momento, tenho.
Talvez depois. Por volta de que horas?
- Andas a evitar-nos? - Não, porque dizes isso?
Sempre que te desafio para qualquer coisa, tens que fazer.
Não, é por acaso.
Os teus pais vivem longe?
Não, vivem perto de mim.
A uns 10 quilómetros.
Bem, escuta...
... espero que possas...
... escapulir-te.
Vou tentar.
A sério, prometo.
Boa.
Adèle?
Está lindo!
Já te vi em tela. Prazer em conhecer-te em carne e osso.
Tudo bem?
Parabéns!
Há ali champanhe.
Foste tu que fizeste isto?
- Gostas? - Estão deliciosos.
São com galinha?
Com galinha, com atum e com camarão.
- Que bom estares cá. - Pois é. É óptimo.
Está para breve.
Cresceu imenso em dois meses.
Anda cá.
Esta é a Lise.
Prazer em ver-te.
Queres tocar?
Vá lá.
- Não te importas? - Não.
- Sentes? - Sim. É rapaz ou rapariga?
Não sei. Não quero saber.
Queres que seja surpresa?
Dói-te? Queres sentar-te?
- Não, estou bem. - De certeza?
Estão a brincar com o bebé?
- É o pai? - De maneira nenhuma.
Achaste que era ele?
Não, não é ele.
Desculpa...
- Ele é um tio. - Isso mesmo.
O que tu fazes é muito bonito.
O que é que eu faço?
Nos quadros. A tua presença, a pose... É espantoso.
- Obrigado, é muito simpático. - Não é para agradecer.
- O mérito é da Emma. - Tem muita força...
- Ela escreve muito bem, Joachim. - Não me digas?
Podemos ler o que escreves?
Neste momento, só ando a escrever um diário.
É tímida.
Estou sempre a convencê-la a escrever mais.
Vejo em ti um desejo de ser retratada...
A tua escrita deve ser magnífica. Gostava de ler.
Queres beber alguma coisa?
- Pode ser um copo. - De champanhe?
- Sabes a pintura de que te falei? - A última é espantosa.
Antes de mais, obrigada por estarem aqui.
Obrigada por terem vindo.
Gostaria sobretudo de agradecer à minha musa e fonte de inspiração,
que faz de mim uma pessoa feliz. Adèle.
Bem-vinda, Adèle!
Quero também dizer que foi ela que cozinhou tudo.
Discurso!
Agora é a tua vez.
É um prazer conhecer-vos
e espero que se divirtam.
Não chores.
Um brinde.
À Adèle!
À Emma e à Adèle!
Ao amor!
Ela está possuída!
E nem começou a beber!
Querem mais alguma coisa?
- Não, vem sentar-te um bocado. - Faz-nos companhia.
O que é que fazes?
Sou educadora.
E tu?
Estou a escrever uma tese...
Estudo História da Arte e Filosofia.
Estou a fazer uma tese sobre... Conheces Egon Schiele?
- Já te falei dele. - Talvez.
Pinta figuras nuas. Magras, em posições improváveis.
Estou a estudar a morbidez da obra de Schiele.
Mostraste-lhe algumas coisas?
Sim, mas eu prefiro o Klimt.
O Klimt é tão...
Tem qualquer coisa de... floreado e decorativo.
Floreado e decorativo? Não posso falar contigo.
Chateias-te sempre quando as pessoas discordam de ti.
Também gosto muito de Schiele. É mais tortuoso.
É mais obscuro, mais sombrio. É por isso que prefiro o Klimt.
É que...
Para mim, as cenas floreadas...
Não é floreado. Não podes usar essa palavra.
Tenho fome!
Estou esfomeada.
Também quero molho.
Podes pôr-me mais?
Há parmesão?
Ponham-se na fila.
Está óptimo. Obrigada.
De nada.
Adèle, isto está fantástico!
- Obrigada. - De nada.
- Está bom? - Está óptimo.
... um verme sai de um prato de esparguete e diz:
"Que deboche!"
Que lindo!
"Lindo" pode não ser a palavra certa.
É um prazer partilhado, como nós gostamos.
O prazer pode ser partilhado?
Toda a gente o sente de forma diferente.
O meu prazer não é igual ao teu.
Não sinto o mesmo prazer que tu.
Encontraste o parmesão?
... entre os sexos, a qualidade de prazer é de tal forma diferente,
que não se atinge a mesma realidade.
Para lá do orgasmo.
Estou curiosa, porque achas isso?
- Porque... - Nós fazemos caretas?
- Fazemos mais barulho? - Não é só isso!
Queres beber alguma coisa?
As vezes que fui para a cama com uma mulher,
pude observar uma coisa que não era...
- Ela passa para outro mundo. - É isso.
O orgasmo é uma experiência que transcende o corpo.
O nosso orgasmo é limitado.
Para vocês, o orgasmo feminino é místico, é isso?
Estou absolutamente convencido disso.
Precisam de alguma coisa?
Senta-te, para de servir toda a gente.
Vou servir-te.
Descontrai um bocado. Cozinhaste para toda a gente.
... como homem, tudo o que vejo é frustrado
pelos limites da sexualidade masculina.
E já experimentei com homens e mulheres.
Se pensarmos na história de Tirésias,
que teve a sorte de ser homem, depois mulher e novamente homem...
Quando lhe perguntam
se homem e mulher sentem diferentes intensidades de prazer,
ele responde categoricamente
que a mulher tem 9 vezes mais prazer do que o homem.
Desde que a mulher é representada na pintura,
representa-se o seu êxtase.
O do homem é sempre representado através de um intermediário feminino.
Vemos mulheres a banharem-se, vemos...
A origem do mundo.
Os homens tentam desesperadamente representar isso.
Quer dizer que já o viram.
- Ou imaginaram. - Ou desejaram-no.
Pode ser uma fantasia deles.
Não, acho que...
- Achas que se baseia... - Vê-se nos olhos.
Aquele olhar perdido num outro mundo.
A arte feminina nunca aborda o prazer das mulheres...
- A massa está excelente. - Queres mais?
- Pode ser mais um bocadinho. - Não está muito picante?
Está um bocadinho. Mas está boa. Está no ponto.
Emma, as pinturas que fizeste da Adèle parecem ilustrar isso.
Eu nunca terei essa experiência porque sou homem.
Adoro o molho. Fizeste-o com tomates frescos?
- Sim, do mercado. - Percebe-se logo.
Nunca trabalhaste como modelo?
- Nunca. - Foi a primeira vez?
Não faço de modelo. Só para a Emma.
Tens um ar muito descontraído nas pinturas.
Foi em momentos em que me sentia... Não sei.
Não me imagino a fazer isto com outra pessoa.
Sei que é uma pergunta idiota...
Há muito tempo que gostas de raparigas?
A Emma é a primeira, ou andaste com outras antes?
É a primeira.
É diferente?
- De quê? - Dos rapazes.
Sim.
Um bocado.
É mais doce?
Não sei, depende.
Não faço ideia.
Desculpa fazer estas perguntas. Não tens de responder.
Não sei se conseguia explicar.
- O que é que fazes? - Sou educadora.
Gostas de crianças.
Gostavas de ter filhos?
Tu fazes o quê?
Sou actor. Faço filmes de acção.
Fiz o meu primeiro filme de acção nos Estados Unidos,
porque falo um pouco de árabe. Eles gramam isso.
A cena das barbas.
Éramos terroristas que sequestravam um avião.
Eles gostam de nos ouvir dizer "Allah al akbar".
Essas coisas.
A sério.
Foi giro ver como é que os americanos trabalham.
Em que sítio dos Estados Unidos estiveste?
Filmámos num estúdio em L. A.,
mas o filme passava-se em Nova Iorque.
Reconstituíram a cidade. É incrível.
Parecia que estavas a passear pelas ruas de Nova Iorque.
Depois fui a Nova Iorque de férias e delirei.
É uma cidade que ias adorar.
- Adorava lá ir. - A sério?
Então vai. Por que esperas?
É uma loucura.
É incrível.
É como andar no cenário de um filme.
Há imensa energia, tudo parece possível,
podes fazer o que te apetece.
Não existem barreiras.
Não te mexas, tens aí um bicho.
- O que era? - Não sei...
Que estás a ler?
Uma coisa sobre Schiele, aquilo que falámos com a Lucie.
Os teus amigos são simpáticos. São divertidos.
Falam de tantas coisas... Parecem saber muita coisa.
São tão cultos, que me senti constrangida.
Foste perfeita.
Eles gostaram todos de ti.
Sobretudo o Joachim.
A sério?
O que é que ele faz?
Tive medo de perguntar.
- É o galerista mais famoso de Lille. - De Lille?
É extremamente culto. É um génio. Sabe tudo.
Só expõe os melhores. Acredita...
... se um dia me expõe, é sucesso garantido.
Claro que te vai expor.
- Achas? - Claro.
Fala de ti como se fosses o Picasso.
Para eles, acima de tudo, aquilo é um negócio.
- É teu amigo, porque havia de... - Meu amigo...
A nossa relação é sobretudo profissional.
Mais que afectiva.
Mas ele pode mudar as coisas.
Tens de acreditar.
Vou bater na madeira.
Tu também devias fazer qualquer coisa que gostasses.
- Eu trabalho. - Eu sei, não me referia a isso.
Por exemplo, escreves mesmo bem.
Porque é que não escreves umas coisas?
Umas histórias curtas...
Sempre escrevi para mim própria.
É uma pena desperdiçares esse talento.
Escrevo o que sinto, não vou expor a minha vida ao mundo.
Não tens de contar a tua vida, podes inventar.
Adoras inventar histórias e contá-las aos miúdos.
Gostas de fazer isso.
Isso é para as crianças. Não sei estruturar uma história.
Seja, tu é que sabes.
Mas não sei... Gostava que fosses...
- O quê? - Não sei.
- Que te sentisses realizada. - Sinto-me realizada contigo.
Gosto que estejas aqui, que cozinhes e isso...
Mas gostava de te ver feliz.
Eu sou feliz.
Sinto-me feliz contigo, assim como estou.
É a minha maneira de ser feliz.
Se o dizes...
Magoa-me que insistas nisso.
- Não estou a insistir. - Estás, um bocadinho.
Beija-me.
Um beijo a sério.
Apetece-me fazer amor.
- Não posso. - Porquê?
Estou com o período.
Desde quando é que tens o período agora?
- Não sei. Acontece. - Veio mais cedo?
Que queres que diga? Não sei.
Andaste com a Lise?
- Com a Lise? - Sim.
Não. Ela também pinta.
A segunda-feira é cinzenta,
a terça-feira é amarela,
a quarta-feira é rosa e é dia de descanso,
a quinta-feira é azul e vem atrás dela,
a quinta-feira verde vem logo depois...
A sexta-feira é que é verde!
Quem quer dizer o que fazemos durante o dia?
Sana, levanta-te.
Diz lá, Sana.
De manhã?
Chegamos à escola.
Quero ouvi-la a dizer como passamos o dia.
Deixem ouvir os amigos.
Para de beliscar, Maxence. Vem para aqui.
Diz lá, Sana.
Brincamos.
Depois de chegarmos, brincamos.
Fazemos actividades e depois?
Vamos lá para fora para...
O recreio.
E depois?
- Temos ginástica. - E depois?
Dormimos uma sesta
e depois trabalhamos com a Therese e com a professora.
Agora nada de conversas.
Têm tudo?
Eu tinha três bonecos.
Eu fico com eles agora.
- Ficas? - Sim.
Até já.
Tem uma mensagem nova.
Olá, querida, sou eu.
Ainda estou com a Lise, a acabar a maqueta.
É um trabalho complicado e tem de ficar perfeito.
Não esperes por mim. Vou chegar tarde.
Liga-me se quiseres.
Beijinhos.
Adèle!
Vem cá!
Não sei porquê, ele tem um problema com lésbicas!
Não me importo de explicar as pinturas, o que me inspirou,
mas não vou entrar em pormenores íntimos.
Não tenho de justificar aquilo que sou.
Há coisas que não lhe quero contar!
Não quero vender-me.
E quando vejo alguém que não me larga...
Ele queria deitar-me abaixo! A cena é essa.
Ele tem de respeitar o meu trabalho.
É a minha liberdade de expressão, a minha liberdade artística.
Tenho o direito de pintar o que me apetece!
- Não queres café? - Se ele não gosta, azar.
Ele não pode dizer: "Compro o teu quadro,
"mas tens de acentuar o traço,
tornar a imagem mais esbatida ou usar esta cor."
Não disse isso. Aceito críticas.
Já sabia que ele ia levantar estes problemas.
Que queres que responda?
Está bem. Adeus.
Imbecil.
Queres uma torrada?
É alucinante, esta gente não percebe nada.
Hoje, quem pinta tem de seguir uma moda.
E eu estou-me nas tintas para a moda.
- Queres uma? - Obrigada.
Estou-me nas tintas.
As pessoas só pensam em termos de negócios.
Já não têm... Não sei como explicar.
Não têm gosto. Não têm gosto nenhum.
É normal haver tensões às vezes.
Também me acontece com os meus colegas.
Guardaste o teu boneco na caixa, Eloise?
Despede-te da mamã.
- Obrigada. É muito gentil. - Até logo.
Vai pendurar o teu casaco.
Luna, procura o teu nome.
Amiga?
Vesti as minhas calças.
E tu vestiste as tuas calças?
Pus isto no sítio.
Obrigada.
Passa-se alguma coisa?
Não sabia que tinhas voltado, fui sair com uns colegas.
Depois do trabalho. Porque não ligaste?
Trouxeram-te a casa?
Quem?
- Uma colega. - Uma colega?
Porque saíste do outro lado da rua?
Não quis que ela soubesse que ando com uma rapariga.
Não me digas.
Porque estou a sussurrar?
Tens vergonha de andar com uma rapariga?
Não, mas eles não têm todos de saber.
Depois começam a falar...
Achas que tenho vergonha?
- Quem é aquele tipo? - Quem?
O tipo que te trouxe.
É um colega.
Achas que sou estúpida?
- Achas que não vi? - É um colega, juro.
Eu vi-o.
Trabalhamos juntos.
Podes ir ver. É um colega da sala do lado.
Há quanto tempo é que sais com ele?
- Desde que lá trabalho. - Não me digas.
- Porque estás a mentir? - Não estou a mentir.
Porque estás a chorar?
Não estou a chorar.
Porque tens lágrimas na cara?
Estou cansada.
Não sou parva. Há quanto tempo dormes com ele?
Não durmo com ele.
Há quanto tempo andas a mentir-me?
Não ando a dormir com ele.
Demos uns beijos numa noite de bebedeira.
Então porque estás a chorar?
- Porque estou arrependida. - Eu não sou parva!
- Juro. - Não mintas!
Juro.
Há quanto tempo andas a dormir com ele?
Quantas vezes dormiste com ele? Diz-me!
Desde quando é que me mentes?
- Desde quando é que me enganas? - Nunca fiz isso...
Vai-te embora! Põe-te a andar!
Não quero cá mentirosas! Faz as malas e pira-te.
Vai!
Põe-te a andar!
Dormi com ele 2 ou 3 vezes, não me lembro.
- Duas ou três vezes? - Não te contei porque...
Não conseguia explicar. Sabia que era estúpido.
Sentia-me sozinha.
Estás apaixonada por ele?
Claro que não! Mas sentia-me sozinha.
Nunca quis magoar-te.
Porra... Lamento imenso.
É que...
Porra...
Não é nada, ele é apenas um colega. Foi um disparate.
Juro que nunca quis magoar-te.
- Juro! - Adèle, para...
Espera!
Magoaste-me, está feito.
Não, juro, foi sem querer, foi um erro.
És uma galdéria.
És uma puta. Deixas que te fodam?
Gostas disso.
Fazes-lhe uma mamada no carro e depois beijas-me?
Atreves-te a beijar-me?
Atreves-te a tocar-me, a olhar para mim?
Fazes essas coisas?
E ainda por cima, mentes-me, só dizes tretas!
- Desculpa... - És uma puta!
- Não sei como pedir-te desculpa... - Não tens desculpa!
Nunca mais quero voltar a ver-te!
Pega nas tuas coisas e põe-te a andar!
Sai da minha vida!
Não quero magoar-te...
Adèle, vai-te embora. Para.
Larga-me. Vai-te embora. Sai de minha casa.
Pega nas tuas coisas e vai-te embora.
Não quero cá uma puta! Leva as tuas coisas e vai!
Deixa-me falar! Ele não significa nada!
Não quero falar! Põe-te a andar!
Desculpa, não sei porque fiz isto...
- Deixa-me explicar. - Não quero ouvir.
Põe-te a andar!
Não quero voltar a ver-te!
Nunca mais te quero ver! Sai da minha vida!
Achas que só tu é que sofres?
Não é nada. Deixa-me...
Tarde demais!
Pega nas tuas coisas e sai.
Não quero putas cá em casa! Vai-te embora!
Eu não fiz nada!
Para, não sou estúpida!
Não faças isto! Para aonde vou sem ti?
Vai ter com o gajo!
Eu não o amo!
Amo-te a ti! Não posso ir! Que vou fazer?
Sai!
Abre a porta!
Desculpa, deixa-me falar contigo!
- Desculpa. - És uma puta!
Vai-te embora, Adèle!
Foste tu que as escolheste?
São lindas.
São tantas, posso fazer um jardim!
Muito obrigada.
Não consigo segurar todas.
Adeus, Lili Rose.
Dançaste muito bem.
Adeus, Maxence.
- Boas férias. - Igualmente.
Adeus.
Devagarinho.
Cuidado com os olhos e a cara.
Quem atirar areia para os olhos não vai à água.
- Está tudo bem? - Sim.
Ficas um instante de olho nos meus?
Fica descansada.
Concentrem-se para fazer o ditado.
A ardósia não é para fazer desenhos!
"Na cozinha..."
Comecem. "Na cozinha..."
"Na cozinha...
a mamã..."
Começa com maiúscula.
"... descasca...
... uma cebola."
Olha para baixo.
Não falem durante o ditado.
"Na cozinha, a mamã descasca uma cebola." Ponto.
"A Laura toca violino."
Tem um "O"?
Sim. "Longo". Como é que se escreve?
Concentrem-se.
Digam lá a frase outra vez.
Shemzeddine, fica quieta. Achas que eu gosto disto?
Estão prontos?
Se estamos atrasados, a culpa é vossa.
Santinho.
Não estão concentrados, estão distraídos.
O ditado e a correcção vão levar uma hora,
quando podíamos fazer isto em 15 minutos e ir brincar.
Quem vê erros na frase dela? Há algum erro?
"Cozinha, a mamã descasca uma cebola."
Esqueceste-te do "na", Léa
Não é grave, é um descuido. Para a próxima estás mais atenta.
"Na cozinha, a mamã descasca uma cebola."
Escreveram todos "cebola" assim?
- Não... - Como é que escreveram?
Escreve-se assim: C-E-B-O-L-A.
Alguém escreveu assim?
- Eu. - Foi?
Quem quer vir escrever a segunda frase?
Vem lá, Renda.
Tudo bem?
Passou muito tempo.
Senta-te.
- Queres beber alguma coisa? - Pode ser.
- Eu pedi um copo de vinho. - Já vi.
Prova. Acho que vais gostar.
Não, obrigada.
- Tens a certeza? - Sim, estou bem.
Liguei ao teu padrasto, ele disse que ias gostar.
Que queres?
Vou tomar um café.
Desculpe, é um café, por favor.
Estás boa?
Estou. E tu?
Tens um penteado novo.
Sim. Mas faz-me mais velha.
Nem por isso. Continuas a parecer muito nova.
É difícil perder as bochechas.
Queria ter um ar mais de senhora.
Mudei o cabelo para me levarem mais a sério, mas parece que...
... não funcionou. - Não.
Fica bem.
De qualquer maneira, acontece mais rápido do que pensamos.
Obrigada.
Nunca conheci ninguém que quisesse parecer mais velho.
E tu, as exposições e isso tudo... Está tudo a correr bem?
Está tudo a correr bem.
- Conta lá. - É um bocado...
É um bocado complicado de organizar.
Imprensa, jornalistas...
É o preço da fama.
Já vi que os fãs se fartam de te escrever para o site.
Sobretudo as lésbicas mais radicais.
Estavas a pedi-las.
- Vi os teus últimos quadros. - Viste?
Estão incríveis. São coisas novas, mas têm sempre algo de autêntico.
Não consigo explicar.
Quando tiver dinheiro, compro-te um.
Eu ofereço-te um.
- Eu quero pagar. - Não...
Sim. Faço questão.
Posso pagar-te serviços, se quiseres.
Era uma piada. Mal escolhida, mas era uma piada.
Teve piada.
- E contigo, corre tudo bem? - Sim, continuo com os miúdos.
Agora estou com o primeiro ano, são mais velhos.
Estou a começar, mas...
... é bestial. Eles estão a aprender a ler e a escrever.
Durante as férias, tenho um grupo de apoio
para os que têm dificuldades.
São os meus favoritos.
São casos especiais, mas... são mágicos.
É tão gratificante quando consegues ajudar...
Eu adoro.
Há uns que nos põem à prova, nos provocam, nos levam ao limite.
- Mas é apaixonante. - Era o que querias, não era?
Sim, acho que sim.
- Isso é bom. - Sim, é o máximo.
Mas fico com pouco tempo para mim.
Não sais?
Saio, com outros professores.
Vamos a bares em Vieux-Lille, a restaurantes...
Mas...
Volto quase sempre sozinha para casa.
Quero dizer, estou sozinha.
Não tens namorado?
Namorada?
Tive uns engates idiotas, mas... nada de sério.
Tenho uma certa dificuldade em... envolver-me.
Eu compreendo. A vida a dois é complicada.
Ainda estás com a rapariga que estava em nossa casa?
A Lise?
Estás feliz?
Sim.
Isso é bom.
- Ela é simpática? - Sim, muito.
Imagino-a a cozinhar para ti quando chegas a casa
e a oferecer-te flores de manhã. - Sim, é o género dela.
É sobretudo a miúda, a Aude... Gosto muito dela.
É verdade, ela teve uma miúda.
Estava muito grávida.
- Que idade tem ela? - Três anos.
Gosto imenso dela, é muito engraçada. Damo-nos muito bem.
Fazemos imensos disparates as duas.
E eu ensino-lhe uma data de coisas.
- E a Lise ralha connosco. - A sério?
Duas crianças em casa dá trabalho.
É a minha família.
E sexualmente?
Agrada-te?
É...
Mau?
Não é mau, mas...
É aborrecido.
Não sei, Adèle...
Não é como contigo.
Sinto a tua falta.
Tenho saudades de te tocar.
De te ver, de sentir o teu cheiro.
Apetece-me estar contigo. Sempre.
E de mais ninguém.
Sinto a falta de tudo.
Disto, acima de tudo.
Deixa-me tocar-te.
Para.
Não digas que não te apetece, não acredito.
É impossível não sentires a falta disto.
Toca.
Para.
Não posso.
Desculpa, não sei...
Não sei.
É mais forte do que eu.
Estás desculpada.
Não queres ver-me mais?
Não.
Não me perdoaste.
Perdoei.
Não me amas mais.
Tens a certeza?
Tenho.
Estou com outra pessoa agora.
Sabes disso.
Mas sinto uma enorme ternura por ti.
Sentirei sempre. Toda a vida.
Desculpa.
Sabes como eu sou.
Choro por tudo e por nada.
Eu sei, ainda me lembro.
- Está sempre a acontecer-me. - Eu sei.
Estás sempre a choramingar.
- Podes ir embora quando quiseres. - Está bem...
A sério.
Não te incomodo mais.
Não me estás a incomodar.
Vou-me embora.
Vai lá.
Vai, pira-te.
Alexandre, não adormeças, acabaste de chegar.
"Pas Besoin", de Alain Bosquet. "A tromba..."
Tem calma. Qual é a pressa?
Articula bem para compreendermos todos.
"Pas Besoin", de Alain Bosquet.
"A tromba do elefante
"serve para apanhar pistachos.
- Escusa de se inclinar." - Para.
Adam? Queres continuar?
Sabes onde estamos?
"O pescoço da girafa..."
Lê mais alto, por favor. Recomeça.
"O pescoço da girafa serve para pastar as estrelas.
- Escusa de voar." - Muito bem.
Prune?
"A pele de camaleão, verde, azul, malva e branca,
"serve para se esconder dos animais.
Escusa de fugir."
Obrigada.
Wassila?
"O poema do poeta serve para dizer isto tudo
"e milhares e milhares de outras coisas.
É escusado compreender."
Incrível ela ter vindo. Não a via há séculos.
Tudo bem?
- Tudo bem, Adèle? - Myriam?
Exactamente. Não te via há séculos.
Que vestido bonito. Adoro esse azul.
Obrigada.
Posso perguntar-te uma coisa?
O meu sobrinho, Nicolas Rouillard, conheces?
Ele disse que a professora dele se chamava Adèle. És tu?
- A sério? Ele porta-se bem? - É um amor.
É o filho da minha irmã.
Queria saber o que achavas dele.
- Que engraçado... - Ele trabalha bem?
É um amor.
Vou dar uma volta. Falamos depois.
Até já.
Estás bem?
E tu?
Como é que vieste?
Vim a pé, vivo aqui perto.
É um bairro giro.
- Sê bem-vinda. - Obrigada.
- Obrigada por me teres convidado. - Escusas de agradecer.
Então, aqui estão os meus quadros.
Atrás de ti está uma pintora chamada Adé Bernard.
Este está o máximo.
Está fantástico. A sério.
Tudo.
Adèle, tudo bem?
Lembras-te de mim?
Adoramos, mas temos umas dúvidas.
É para isso que aqui estou.
- Dá-me licença. - O contraste entre dois universos...
Vejo a velha Emma, a nova Emma, azul e vermelho.
A portadora da vida.
Tem um ar absolutamente tranquilo,
mas há qualquer inquietante no seu olhar.
Gosto imenso, mas pergunto-me o que estará a pensar.
Parece haver uma felicidade em formação,
mas também muita angústia...
O olhar dela está ausente, mas parece dirigir-se a nós.
No meio de todas as cores...
- Volto já. - Falamos depois.
Apresento-te a Sarah, que também estudou pintura.
Adoro o seu trabalho.
Sinto uma paixão, um movimento nas linhas.
Ele fala demais.
Cuidado, ele é um bajulador.
- Estás boa? - Estou, e tu?
Gosto de te ver. O que achas?
Não tenho palavras, é fantástico.
E é o Joachim que a está a expor...
Quando recebi o convite, pensei em vocês.
Ela sonhava com isto.
Foi o momento perfeito. É muito bom.
E tu continuas ali.
Isso deixa-me contente.
- Bem, até já. - Pois.
- Viva, Adèle. - Estás bom?
Tudo bem?
- Sim, e tu? - Estou óptimo.
- É bom ver-te. - Igualmente.
Continuas a fazer cinema?
Agora sou agente imobiliário.
Continuo a fazer cinema, mas pouco.
Estava um bocado farto dos caprichos dos realizadores.
Era uma chatice.
Prefiro ser um vendedor hipócrita.
Gostas da exposição?
Gosto, mas não é bem o meu género.
Continuas bonita ali nos quadros.
- Achas? - Em carne e osso também.
Dá-te vontade de rir?
Pelo menos, sorris novamente.
Não é difícil voltar a ver a Emma?
Não, as coisas estão claras entre nós. Desde que seja assim...
- Chegaste a ir a Nova Iorque? - Não.
Ainda não.
Viajar faz bem, areja a cabeça.
Sim, eu sei.
Deixa-me roubar-to um instante. Anda.
Volto já.
Adeus, gostei imenso. Muito obrigada.
Vi-te num filme.
- Representavas bem. - Achas?
Ripadas por: n0Te
A VIDA DE ADÊLE CAPÍTULOS 1 E 2
Um filme de
Tradução e Legendagem Cláudia Brito
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