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Durante 300 anos, Port Royal, a Cidade Pirata,
esteve escondida no fundo das Caraíbas.
É uma cidade que foi, literalmente, engolida pelo mar.
Mas agora, uma nova investigação está prestes a drenar o oceano,
e tirar a tampa do ralo das Caraíbas
e a revelar aquela que era conhecida
como a cidade mais perversa do planeta.
Era a maior capital de pirataria de todos os tempos.
Descobrimos novas provas surpreendentes
que revelam a catástrofe extraordinária que a destruiu.
Um sismo,
um tsunami e areias movediças mortíferas.
Era uma cena de devastação absoluta e total.
Uma cidade que se julgava ser tão pecadora, merecia a ira de Deus.
Port Royal era as bíblicas Sodoma e Gomorra conbinadas numa só.
Uma equipa de cientistas com ferramentas topo de gama,
enfrenta os mistérios de Port Royal.
Como se deu o desastre?
Porque afundou a cidade numa questão de minutos?
Drenando-a, revelamos a mais famosa cidade pirata de sempre
como nunca a viram.
DRENAR A CIDADE PIRATA SUBMERSA
Imaginem que podiam drenar o oceano.
Retirar a água para revelar o que está no fundo.
Agora, nova tecnologia potente pode fazê-lo.
Fotografias digitais e imagens de sonar
dão-nos imagens surpreendentes das ruínas afundadas.
Usando estes novos dados,
conseguimos descobrir o mundo perdido de Port Royal.
No século XVII, Port Royal, na costa sul da Jamaica,
era um reduto inglês no centro do Império Espanhol.
Dominando o que se tornaria o Porto de Kingston
na extremidade de uma longa língua de terra.
Se viram o filme "Piratas das Caraíbas",
a primeira cidade onde vão, onde conhecemos Jack Sparrow,
é Port Royal.
Tendo crescido graças ao lucro da pirataria,
Port Royal era uma cidade com cerca de oito mil pessoas,
a suprema explosão populacional de um novo mundo.
Mas também era conhecida como a cidade mais perversa do planeta.
Tinha mais bares e bordéis
do que qualquer outra cidade em todas as colónias inglesas.
O porto é muito permissivo.
É pior do que a nossa Sodoma,
cheia de todo o tipo de devassidão.
A 7 de junho de 1692,
uma catástrofe atingiu Port Royal.
Um sismo enorme arrasou com dois terços da cidade,
enviando-a para o fundo do mar.
Agora, o arqueólogo Jon Henderson, perito em cidades afundadas,
usará nova tecnologia para descobrir como se deu o desastre.
Port Royal afundou-se tão depressa que levou os segredos com ela.
É uma verdadeira cidade afundada,
mas também o local de uma catástrofe.
Afundou tão depressa que reteve um momento temporal.
É, por vezes, chamada a Pompeia do Novo Mundo.
Agora, está debaixo de água para a descobrirmos
e isso é muito raro em Arqueologia.
Usando tecnologia de ponta,
a missão do Jon é redescobrir a cidade afundada
e criar um modelo digital exato das ruínas dela.
Dados que mostrarão como a cidade foi arrasada
em dois minutos de terror.
As descobertas do Jon serão usadas numa candidatura
a Património Mundial da UNESCO,
reforçando a importância global de Port Royal
e ajudando a preservar as ruínas para o futuro.
É um desafio enorme, mas se funcionar,
os dados permitir-nos-ão drenar virtualmente o oceano.
Retirar milhões de litros de água,
trazendo finalmente a cidade afundada de Port Royal
de volta à luz do dia.
Li sobre Port Royal quando era criança
e ler sobre uma cidade pirata afundada torna-se logo atraente.
Para mim, é uma atração muito emocionante.
A cidade afundada está junto à costa
da aldeia piscatória de Port Royal da atualidade.
Mas onde, exatamente?
Para examinar as ruínas submersas, o Jon tem primeiro de localizá-las.
Acho que o aspecto mais misterioso de Port Royal
é que ninguém tem a certeza do que existe lá em baixo.
Mas ainda se encontram vestígios da cidade com 300 anos.
Esta é uma parede grande, a parede de um edifício.
Delineia uma casa.
É apenas um fragmento da cidade perdida.
A maioria está escondida debaixo de metros de sedimentos
e de corais mortos.
Imaginem o que pode estar lá em baixo.
Haverá centenas de edifícios selados debaixo do coral,
com todo o conteúdo intacto.
Para revelar a verdadeira dimensão de Port Royal,
o Jon precisará do equipamento de exploração mais recente.
O objetivo do levantamento dele é revelar os segredos
desses edifícios escondidos,
acabando por ir além do que os olhos veem.
É um local muito desafiador onde trabalhar,
porque a visibilidade é muito má.
Por isso é que nunca foi bem cartografado.
Às vezes, ao mergulhar, nem vemos as nossas mãos à frente da cara.
A péssima visibilidade dificultou levantamentos anteriores,
por isso o Jon trouxe a tecnologia digital mais potente disponível.
Este é um equipamento de tecnologia de ponta
que nunca foi usado numa escavação arqueológica.
É a primeira vez que o testamos.
Tem potencial para dar vida ao local, fazer um modelo 3D dele.
O Veículo Autónomo de Superfície, ou ASV, dispara sinais de sonar
para medir as variações na altura do fundo do mar.
É a nossa primeira missão no local
e as condições, hoje, estão perfeitas.
O ASV pode marcar as muralhas e os limites da cidade afundada,
para o Jon poder criar um modelo 3D.
Seria muito bom ver aqueles dados
e ver se estamos mesmo a registar os edifícios em 3D.
Mas como era a cidade perdida?
Uma técnica diferente pode dizer-nos.
Um Veículo Autónomo Subaquático, ou AUV, captará milhares de imagens
usando uma técnica chamada fotogrametria.
Em conjunto, os dois drones subaquáticos
permitir-nos-ão ver a cidade em ruínas,
em alta definição pela primeira vez.
Mostrará uma nova visão de Port Royal
e revelará pistas para a catástrofe que destruiu a cidade.
Esta missão não é fácil: a visibilidade costuma ser péssima
e as embarcações de investigação trabalham num porto movimentado.
Devíamos estar a chegar à zona principal do local.
Mas poucas horas após o início do levantamento,
os planos correm muito mal.
Um barco a motor entrou na área de levantamento.
Houve um incidente e tentamos recuperar o veículo.
Não sabemos onde está agora,
porque um barco cortou a linha que usávamos para localizá-lo.
Temos um dos nossos a tentar encontrá-lo visualmente.
Ou seja, um barco bateu no AUV e deitou abaixo a antena.
A equipa descobre que os danos são maiores do que pensavam.
É o pior cenário possível, sim. Perdemos o veículo.
O levantamento fotográfico está incompleto
e o acidente eliminou equipamento no valor de meio milhão de dólares.
Não podemos substituí-lo já. Temos de voltar.
Muito frustrante.
Pelo menos o primeiro levantamento, o do ASV, resultou.
A equipa recolhe dados sobre a profundidade do fundo do mar
que os ajudarão a cartografar a cidade perdida.
Temos a zona plana, onde temos a sobrevivência da cidade afundada.
É um início encorajador, mas só metade dos dados de que precisam.
O Jon terá de voltar para acabar o registo fotográfico
dos edifícios da cidade perdida.
Drenar o mar para além de Port Royal
pode explicar porque se tornou um centro para piratas.
É tudo uma questão de localização.
Mesmo à entrada do Porto de Kingston.
Retirando a tampa do ralo destas águas caribenhas,
revelamos um dos maiores portos naturais do mundo.
Com 16 km de comprimento e 3 km de largura,
tem tamanho suficiente para proteger centenas de navios
dos mares tropicais agitados por furacões.
Melhor ainda era a longa língua de terra
onde estava construída Port Royal.
Uma das coisas que vemos
é a profundidade deste porto muito profundo.
Os lados íngremes faziam dele o sítio perfeito
para aportar navios.
Havia água profunda dos dois lados,
navios grandes podiam aproximar-se muito da costa muito depressa.
Pode parecer o local perfeito para construir um porto,
mas feito de areia sempre movediça,
a profundidade seria o fim de Port Royal.
O principal problema é que não há geologia sólida
até grande profundidade,
por isso, num sismo, quando começa a abanar, estamos em sarilhos.
Duvido que alguém em Port Royal se tenha apercebido
de que era uma questão de tempo.
7 meses depois de o equipamento de fotogrametria ter sido destruído,
Jon Henderson está de volta.
Desta vez, o fotógrafo Simon Brown fará o trabalho do AUV
e tirará fotografias da cidade afundada.
Como a visibilidade é muito má,
o Simon tem de se aproximar muito das ruínas
e recolher milhares de imagens.
Três dias depois, as fotografias foram compiladas
numa representação 3D do que está lá em baixo.
Simon, mostra-me o que temos.
Não foi fácil, mas temos muitas imagens do edifício cinco.
O edifício cinco pode ter sido uma grande casa de família.
Tudo o que resta é uma divisão
e vemo-la com pormenores sem precedentes.
Está fantástico, dadas as condições em que trabalhavas.
Vemos a parede, vemos o pátio ao lado dela.
Vê-se a lareira. Vê-se as paredes inferiores.
É ótimo. Vemos os tijolos individuais.
Para mim, o que é emocionante, é podermos mostrá-lo a alguém
e poderem ver logo o que está lá em baixo.
Não pensei que obtivesses resultados tão bons como estes.
A missão do Jon é agora fornecer resultados espetaculares.
Incríveis dados fotográficos
podem revelar provas cruciais no fundo do mar.
As fundações de tijolo de casas perdidas.
Podemos juntar a isso os dados do registo de sonar do fundo do mar.
Em 3D, vemos o relevo da cidade afundada
que revela os limites de Port Royal pela primeira vez.
Estes são os cinco hectares sobreviventes da cidade perdida.
Podemos ver a área da cidade afundada,
a extensão dela pela primeira vez, o que é muito emocionante.
Com os dados, podemos reconstruir os edifícios de Port Royal.
Podemos retirar a tampa do ralo do Porto de Kingston,
drenando o oceano da cidade perdida,
ressuscitando Port Royal do seu túmulo aquático.
A luz do sol pode voltar a iluminar as ruas dela.
Começamos a reconstruir, pela primeira vez em 300 anos,
o que lá está exatamente.
Agora podemos perceber a catástrofe extraordinária
que destruiu Port Royal,
afundando centenas de casas e os fortes poderosos dela.
As pistas para a perversidade dela
ainda estão escondidas na escuridão.
Drenamos o oceano à volta de Port Royal,
a cidade pirata afundada.
Pela primeira vez, conseguimos vê-la na totalidade,
desde que um sismo a lançou para o fundo do mar, há 300 anos.
Agora, podemos descobrir se era a cidade mais perversa do mundo.
Desde os anos 1950, três expedições arqueológicas
examinaram as ruínas subaquáticas de Port Royal,
para desvendar o passado de pirataria dela.
E nos anos 1980,
uma equipa descobriu parte do tecido da cidade.
Durante esses dez anos,
escavámos cinco edifícios quase por completo.
Foi a escavação mais emocionante que já liderei.
Agora, podemos usar Ciência para cartografar estas descobertas.
A partir de três escavações arqueológicas
ao lado da cidade afundada.
Milhares de relíquias de um mundo perdido,
todas elas pistas para o último dia cataclísmico de Port Royal.
Como é o local de uma catástrofe,
selou uma série de objetos que eram usados num determinado momento.
Cada um deles é um vislumbre do mundo do século XVII
dos piratas das Caraíbas.
Podemos obter imagens e vislumbres da vida diária.
Desde pratos de peltre a porcelana chinesa
e sinais de riqueza pessoal.
O registo arqueológico de Port Royal mostra como era rica.
Normalmente, as cidades no Novo Mundo
são cópias empobrecidas das da Europa,
mas Port Royal está em pé de igualdade com as capitais da Europa.
Mas como ficou Port Royal tão rica?
A cidade foi construída
com a riqueza de tesouros espanhóis roubados.
Nos anos 1650, Inglaterra e Espanha estavam em guerra.
A Jamaica, um território inglês nas Caraíbas,
estava rodeada pelos principais territórios espanhóis.
Da Florida, passando pelo México e pela América do Sul.
Port Royal, na costa sul da Jamaica,
começou por ser um pequeno reduto do Império Inglês,
mas a dimensão do Forte Charles mostra como se tornou importante.
O forte foi construído para defender a entrada no Porto de Kingston,
um dos maiores portos das Caraíbas. Pode receber 500 navios.
Para ganharem vantagem em relação aos espanhóis,
os ingleses pediram ajuda a piratas.
Em 1657, o governador de Port Royal
convidou os piratas para virem até cá
e agirem como força de defesa não oficial.
Para o Governo Inglês, piratas que atacavam bens espanhóis
e os traziam para portos ingleses, podiam ser uma mais-valia.
Os piratas tinham autorização para saquearem os espanhóis,
no mar ou em terra.
Ficaram conhecidos como corsários.
Em Port Royal, o Estado autorizava a pirataria.
E em Port Royal, no centro das Caraíbas,
os corsários estavam no local perfeito.
Muito perto das principais rotas de comércio
entre o Novo Mundo e a Europa.
Se os espanhóis querem tentar levar algo para casa,
têm de passar por Port Royal. É como ter uma raposa
sentada no meio de um galinheiro cheio de galinhas.
Fez de Port Royal a capital dos corsários.
Há boatos de que tesouros de piratas roubados aos espanhóis
ainda sobrevivem em Port Royal.
Um serviço de comunhão de prata
que se crê ter sido roubado no Panamá em 1671.
É o tipo de coisa em que os piratas estariam interessados.
Prata, ouro, tudo o que fosse valioso,
era roubado em ataques e depois trazido para as docas de Port Royal.
Os mercadores ficavam ricos, os piratas ficavam ricos,
as tabernas locais ficavam ricas. Era assim que funcionava Port Royal.
Por acordo, a Coroa Inglesa ficava com um quarto do saque.
Tudo o resto era partilhado entre os piratas.
Entre as primeiras expedições de corsários, em 1659,
a frota trouxe o equivalente a 75 milhões de dólares americanos.
A riqueza espanhola que chegou a Port Royal em determinadas alturas
é impressionante.
Grandes injeções de dinheiro
transformaram este reduto fortificado
numa cidade em ascensão.
Arqueólogos criaram plantas da cidade perdida,
com base em descrições históricas e em mapas.
O Jon faz um levantamento das ruas da Port Royal moderna,
para ver qual a ligação às ruínas subaquáticas.
Pelas plantas, sabemos que a aldeia piscatória atual
segue a mesma orientação.
As ruas são as mesmas que seriam no século XVII.
Queen Street, que era uma das vias principais,
segue por ali e acaba quando chega ao mar.
Sabemos que continua para a cidade afundada.
Arqueólogos localizaram Queen Street
a 90 metros debaixo do mar.
Ao cartografar a cidade, revelamos a verdadeira dimensão dela.
Uma densa rede de ruas, a cobrirem mais de 20 hectares,
guardadas por três imponentes fortes virados para o mar.
Dentro das muralhas da cidade,
Port Royal tinha tanta gente como Londres do século XVII.
Se estivesse em Port Royal nos tempos áureos,
teria visto uma cidade
apinhada de gente numa área pequena.
Pistas no fundo do mar revelam que as semelhanças
de Port Royal com Londres se estendiam até à arquitetura.
Havia a mesma intensidade de estruturas de tijolo
com três e quatro andares, telhados inclinados,
fachadas muito estreitas, lotes muito fundos,
jardins atrás e à frente.
A cidade drenada revela duas mil casas de tijolo e madeira
amontoadas à volta das ruas de Port Royal,
albergando uma população em crescimento
que atingiria quase oito mil pessoas no auge.
Mas as ruas estreitas apinhadas seriam uma armadilha mortífera
quando se deu o sismo.
Estamos numa península muito isolada, com muita gente.
Temos aqui pessoas a viverem lado a lado,
em habitações com dois a quatro andares.
Quando se deu o sismo, não havia para onde fugir.
Nos anos 1670,
Port Royal tornara-se a Las Vegas do tempo dela.
É quase uma cidade de fronteira.
É como uma cidade da febre do ouro no século XVII, nas Américas
e as pessoas vinham de Inglaterra para ficarem ricas depressa.
Dada a possibilidade de fazer fortuna,
comerciantes, mercadores e artesãos
dirigiram-se todos para a cidade pirata.
Alguns tornar-se-iam o equivalente a milionários de um dia para outro.
Conta-se a história de que um corsário excitado
deu mil libras à prostituta mais bonita da cidade
para ela fazer um striptease antes de irem para a cama juntos.
Mas era Port Royal a cidade mais perversa do planeta?
Descobertas surpreendentes deste mundo perdido
revelam porque ganhou Port Royal esta reputação.
Um edifício em Lime Street continha pistas essenciais.
Mais de 60 artefactos.
Todos eles garrafas.
Quando escavámos o edifício um em Port Royal,
era óbvio que era uma taberna.
Havia mais de 60 garrafas na sala das traseiras ainda com rolha.
O que os arqueólogos descobriram
era só um dos muitos locais de Port Royal que servia bebidas.
Registos históricos falam de haver centenas de tabernas,
talvez uma por cada dez habitantes.
O Jon vai mergulhar sobre o que resta da taberna afundada.
É aqui que os piratas teriam gastado muito do dinheiro deles em álcool.
É difícil imaginar o tipo de devassidão e de embriaguez
que existiria neste sítio.
Os corsários gastavam a riqueza deles em rum, vinho e mulheres.
Se for um corsário típico, gasta-o em prazer
e havia muitos prazeres disponíveis em Port Royal,
na forma de álcool, boa comida e sexo.
O lado mais imoral de Port Royal tornou-se famoso.
Estas tabernas mais parecem bordéis.
Eram antros de tal grupo de rameiras depravadas
e prostitutas comuns que é quase impossível civilizar a cidade.
No mundo do século XVII,
parecia que Port Royal pedia a ira de Deus.
Até havia quem acreditasse
que merecia desaparecer da face da Terra.
Mas ninguém podia ter previsto a catástrofe tripla que ia assolá-la.
Vestígios desse desastre ainda existem aqui, no fundo do mar.
Drenamos o oceano à volta de Port Royal,
revelando a mais famosa cidade pirata que já existiu,
para esclarecer a catástrofe tripla
que afundou a cidade no fundo do mar,
num fim apocalíptico extraordinário.
Dos milhares de pistas recolhidos no fundo do mar,
há uma prova arrepiante sobre quando se deu o sismo.
Um relógio de bolso do século XVII,
com os ponteiros enferrujados pelo mar.
Mas uma análise mais atenta da descoberta
revela algo intrigante.
Numa radiografia, vimos que os ponteiros tinham parado às 11h43.
Sabemos, através de registos históricos,
que o sismo terá ocorrido pouco antes do meio-dia
e isto tem sido encarado por alguns como indicando que os ponteiros
pararam exatamente quando se deu o sismo.
Mas que forças naturais poderosas deram origem ao sismo?
Para encontrar a resposta,
drenamos o oceano não só de Port Royal, mas de toda a Jamaica,
para revelar a origem do sismo.
Está escondida na escuridão,
milhares de metros abaixo da superfície.
Ao drenarmos o oceano à volta da Jamaica,
vemos sulcos gigantescos no fundo do mar.
São linhas fractais que vão de leste a oeste
e são falhas, são falhas sísmicas.
As falhas fazem parte dos limites
de dois pedaços da crosta terrestre,
a Placa Norte-Americana e a Placa das Caraíbas a sul.
Estão ambas em constante movimento.
É um local onde os movimentos graduais da placa em cada lado
fá-las prender e a tensão aumenta. É uma zona sísmica.
E Port Royal está no meio dela.
E no caso de 1692,
essa tensão que se acumulara muito gradualmente ao longo do tempo,
é libertada sob a forma deste sismo enorme.
Quando a tensão na crosta terrestre é libertada,
lança uma forte onda sísmica nas imediações.
Dia 7 de junho de 1692.
O dia do Juízo Final em Port Royal começa como qualquer outro dia.
Há orações diárias nas igrejas, o negócio começa ao nascer do sol.
As pessoas faziam a vida delas.
A viajar a cerca de 8 km por segundo,
a onda sísmica dirigia-se para Port Royal.
Há registos de um tipo que ia beber um copo de xerez
com o Governador nessa manhã.
Não havia indicações do que estava prestes a acontecer.
Os becos e os edifícios de Port Royal estavam cheios de pessoas.
Os portos e as docas repletos de navios mercantes.
Penso que a primeira indicação teria sido um estrondo,
um ruído no norte, nas montanhas e um ribombar baixo.
Os registos que temos sugerem que houve três ondas do sismo.
O que se seguiu é que foi destruidor.
O abanão foi tão violento que fez as pessoas caírem de joelhos.
Abriram-se abismos no chão.
Sentimos a casa a abanar e vimos os tijolos a elevarem-se no chão.
O chão elevou-se, enrolou-se como uma onda.
As pessoas correram para salvar as vidas da alvenaria que caía.
Mas a cidade não oferecia refúgio.
Port Royal era quase o pior cenário:
edifícios muito altos feitos de tijolo, com ruas estreitas.
Se estiver nessas ruas, é quase impossível.
Escolher ficar num edifício ou ir para a rua, é uma lotaria.
O sismo era apenas o começo.
Ele sozinho não explica como Port Royal mergulhou no mar.
Afundar-se-ia por uma razão totalmente diferente.
Atrás do Forte Charles
há provas extraordinárias das forças aterradoras
a crescerem debaixo das ruas arenosas de Port Royal.
É um edifício naval, mas chama-se Casa Vertiginosa,
por causa da sensação que temos quando entramos nele agora.
Como está desalinhado e o chão ainda está ao nível do chão,
temos uma sensação estranha de desorientação quando entramos.
A Casa Vertiginosa é um dos poucos edifícios sobreviventes
de um sismo em 1907.
O que aconteceu aqui é semelhante ao que teria acontecido em 1692,
mas julgamos que, em 1692, o sismo terá sido mais forte
e terá havido casas a afundarem-se 5,50 metros na areia
com toda a gente lá dentro.
O clímax desse sismo de Port Royal é um evento extraordinário
que muito raramente vemos em sismos,
que é os edifícios que têm estado a abanar e a desmoronar-se
começam a afundar-se no solo e as pessoas com eles.
Os cientistas chamam-lhe liquefação.
Para as pessoas de Port Royal, foi o Inferno na Terra.
O solo arenoso onde construíram as suas casas
transformou-se num pântano mortífero.
Na liquefação, temos areia com muita água dentro
e quando a abanamos, transforma-se em lodo, liquefaz-se.
Raramente filmada,
estas imagens revelam o horror da liquefação em ação,
em Niigata, no Japão, a 16 de junho de 1964.
A energia de um sismo enorme
separou os grãos de sedimentos debaixo da cidade,
permitindo que a água viesse à superfície.
A terra transformou-se em areia movediça, afundando a cidade.
As infelizes pessoas de Port Royal
não saberiam como terra sólida se pode tornar morte líquida.
Minutos após o sismo, deu-se a segunda catástrofe.
Quando o solo se abriu,
água e areia jorraram lá de dentro.
Quanto mais o solo abanava, mais líquida se tornava a areia.
Casas grandiosas, igrejas, tabernas e até o forte de Port Royal
afundaram-se como pedras.
Aquelas casas que, ainda agora,
pareciam as mais belas e majestosas desta zona,
de repente, afundaram-se na terra e deixaram de se ver.
Algumas pessoas ficaram presas metade na areia e metade de fora.
A terra engoliu-as até ao pescoço e depois fechou-se à volta delas,
esmagando-as até à morte com as cabeças à superfície.
Muitas das quais os cães devoraram.
Muitos pereceram nesta areia movediça,
mas há uma história incrível de sobrevivência.
Um mercador francês, Lewis Galdy, foi sugado para debaixo da terra.
Toda a gente julgava que ele estava morto e no abalo seguinte,
foi cuspido para o mar e sobreviveu nadando para o barco mais próximo.
Depois disso, tornou-se um homem muito religioso.
No total, dois terços de Port Royal afundaram.
Levou com ela duas mil almas e centenas de edifícios.
As ruínas que restam
estão num estado de preservação impressionante.
Talvez a coisa mais fascinante que encontrei
foi como se consegue afundar um edifício
a 4,50 m da elevação original
sem ficar um único tijolo fora do sítio no chão.
E estes tijolos não têm cimento entre eles, só estão empilhados.
Mas ali estão eles, perfeitamente intactos,
mas agora a 4,50 metros debaixo de água.
Percebemos como se afundou inteiro.
As paredes estão intactas, os pátios interiores estão intactos.
É uma sensação muito arrepiante.
Diz-se que a cidade demorou poucos minutos a desaparecer no mar.
Mas o caos que o sismo gerara não tinha terminado.
A cidade drenada dará pistas
para a terceira e última catástrofe prestes a atingir Port Royal.
Port Royal foi engolida pelo mar, em minutos.
Os sobreviventes viram as famílias, as casas e a cidade
afundarem-se debaixo das ondas.
Com tecnologia de ponta, analisámos a zona do desastre.
Milhares de descobertas arqueológicas foram escavadas aqui.
Cada uma delas conta uma história
dos momentos antes de Port Royal cair.
Pessoas a cozinharem em casa, a prepararem o almoço.
Tabernas a encherem-se de clientes.
Na cidade perdida drenada, podemos revelar provas extraordinárias
de que o sismo fez Port Royal sofrer um último abalo.
Incrustado no fundo do mar está o esqueleto de um grande navio.
Está entre as ruínas de uma casa em Lime Street.
A questão óbvia é: porque está um navio
no chão de um edifício em Port Royal?
A estranha descoberta foi escavada nos anos 1980 por Donny Hamilton.
Agora, o Jon quer descobrir exatamente o que nos diz
sobre o dia da destruição de Port Royal.
O que vemos aqui é um plano dos edifícios cinco e quatro.
Encontrámos um pedaço de madeira que era a quilha de um navio.
Mas foi o edifício perto do navio que mais surpreendeu o Donny.
Porque não estava esta parede intacta,
como no resto dos edifícios em ruínas?
A primeira coisa em que reparámos foi que esta parede,
A, B, C, D , devia estar em linha reta,
mas foi tudo lançado para a frente.
A parede não só estava fora do sítio,
como fora arrancada e outra parede estava torta.
É o local de um impacto. E é invulgar na Arqueologia
conseguir que um momento exato fique conservado
e conseguirmos ver o mecanismo do que aconteceu.
Mas como podia um navio, no porto,
embater numa casa no meio da cidade?
A identidade do navio destruído ajudaria a resolver o mistério?
Quando a equipa do Donny procurou nos registos,
estes revelaram uma possibilidade:
um navio de guerra inglês com 22,50 metros de comprimento.
Era semelhante a este navio e chamava-se HMS Swan.
Pelos registos, sabíamos que o Swan estava no porto na altura do sismo
e encaixa nas dimensões básicas do navio
que encontrámos no edifício quatro.
Parece que a 7 de junho de 1692,
o HMS Swan estava a ser reparado nos portos de Port Royal.
Todas as pistas apontam para uma conclusão.
Temos um navio que estaria no porto
a cerca de 60 metros deste edifício
e que agora foi depositado, ou melhor, lançado em cima dele.
Mostra, claramente, que houve um tsunami.
O tsunami foi o terceiro cataclismo a atingir Port Royal.
Uma testemunha fala do mar recuar do Porto de Kingston,
antes de a onda o atingir.
Foi uma onda semelhante aos tsunamis
que atingiram o Japão em 2011
e a Tailândia em 2004.
O tsunami explicaria o que aconteceu ao HMS Swan.
Agora, pela primeira vez, podemos revelar a viagem final dele.
Sem lastro, o HMS Swan era como uma rolha
na onda forte que atingiu Port Royal.
Foi lançado através da cidade afogada,
empurrado Queen Street abaixo
acabando por embater numa casa em Lime Street,
perfurando as paredes dela com bastante força.
Os arqueólogos cartografaram o destino de Port Royal.
Mas há um último mistério por resolver
que poderia esclarecer mais como se deu o desastre.
Um dos maiores edifícios de Port Royal
parece não estar no fundo do mar.
O Forte James.
Sabemos, através de mapas, que o Forte James
tinha um lugar proeminente à entrada do porto,
por isso devia ter aparecido no levantamento subaquático.
O que é surpreendente no levantamento 3D
é não haver uma elevação
onde se esperaria que estivesse algo da dimensão de um forte.
Podemos aceitar que foi destruído pelo sismo,
mas quando olhamos para as plantas que temos,
parece que desapareceu por completo.
Aconteceu mais alguma coisa durante a catástrofe
que possa explicar o desaparecimento do Forte James?
Ainda é mais misterioso, dada a dimensão do edifício.
Tal como o Forte Charles, era uma defesa impressionante
para a maior colónia de Inglaterra no Novo Mundo.
Que outras forças poderosas
podem ter destruído as fortes muralhas e baluartes?
Para descobrir, o Jon quer procurar restos do forte
no fundo do mar.
Quero ir à área onde julgamos que está
e ver se conseguimos ver algo. Algo estrutural,
paredes, algo que sobressaia.
Se o Jon encontrar algo, o Simon Brown, o perito em fotogrametria,
fará um levantamento pormenorizado da área.
Procuramos pedras grandes com arestas direitas.
Formas uniformes, algo desse género.
O Jon segue boatos de escavações anteriores
acerca de grandes blocos caídos no fundo do mar.
Começa a busca em águas mais profundas,
para além dos limites conhecidos da cidade afundada.
Acho que sempre houve um mistério sobre a localização do Forte James
e esperamos que, com a tecnologia que temos,
possamos ter uma ideia de onde estão essas partes do forte
e do que aconteceu ao forte.
Quaisquer restos que encontre podem ter pistas
para a última parte da catástrofe que arrasou com Port Royal.
Não tardam a descobrir algo.
Uma das boias de marcação veio à superfície
e ouvi no intercomunicador que o Jon encontrou algo.
Poderá ser o Forte James, a peça que falta da cidade afundada?
O sismo que afundou Port Royal não explica
porque é que um dos maiores edifícios da cidade
não parece estar no fundo do mar.
Jon Henderson parece ter encontrado alguns restos do Forte James.
Está na hora de o Simon analisar o local.
Se enviaram aquelas duas boias de marcação para cima tão depressa,
estou confiante de que encontraram algo emocionante.
Aqui em baixo, temos estes enormes conjuntos de tijolos,
conglomerado e argamassa.
Vê-se que foram feitos pelo Homem.
Têm arestas muito óbvias e ângulos retos em alguns sítios.
As provas sugerem que este bloco
não é uma característica natural do fundo do mar.
Então, a equipa regista e cartografa a nova descoberta.
O levantamento explicará como foi destruído o forte?
Está espalhado pelo fundo do mar. Há grandes pedaços de estrutura,
argamassa e conglomerado.
Há, sem dúvida, pedaços do Forte James lá em baixo
e estão espalhados por todo o fundo do mar.
É como se a estrutura tivesse descido
e depois tivesse sido partida por algo.
O Jon localizou o Forte James pela primeira vez.
Não está onde devia estar no fundo do mar
e resta muito pouco dele.
O que revela acerca do desastre?
Esta é uma das secções que conseguimos localizar
do que julgamos ser o Forte James.
Esta é uma imagem de uma grande porção de muralha,
um resquício do forte imponente.
Ao contrário dos outros edifícios que se afundaram, não está intacto.
Como acabou partido aos pedaços?
Quando o sismo o atingiu, deslizou para dentro do porto
com o peso de toda a cidade atrás dele. Começou a desmoronar-se.
Enquanto outras partes liquidificaram, foram engolidas,
este foi mais empurrado e depois recebeu o impacto total do tsunami
e começou a partir-se aos bocados.
A obliteração do Forte James sugere que houve mais do que um tsunami.
Foi o golpe cruel e final infligido pelo sismo
e, mais uma vez, deveu-se à localização de Port Royal,
no Porto de Kingston.
A ironia é termos um porto, que é uma localização protegida,
que oferece proteção para barcos contra tempestades
e que acaba por ser mortífero no sismo.
O Porto de Kingston amplificou o tsunami.
Imaginem esta onda a aproximar-se desta pequena baía
e, claro, não tem para onde ir.
No porto, o tsunami fez ricochete em todas as costas,
enviando várias ondas contra a zona norte da cidade afundada,
destruindo o Forte James e espalhando-o pelo fundo do mar.
É como se pegássemos numa banheira e a abanássemos
e a água sai de um lado e do outro.
Mas só aumenta o terror e o frenesim do acontecimento.
Port Royal fora arrasado por um sismo,
areia movediça e vários tsunamis.
A catástrofe deixara a cidade isolada do continente.
Só restou uma ilha destruída
e milhares de cadáveres.
Vários cadáveres flutuavam ainda muitos dias depois
de um lado do porto para outro.
O fedor era tão intolerável
que parecia que os mortos queriam destruir os vivos.
Quando chegaram notícias da catástrofe à Europa,
parecia que Deus tinha finalmente castigado a perversa cidade pirata.
Quando as notícias chegam à metrópole,
há um sentimento generalizado
de que a cidade mais perversa do mundo de língua inglesa
teve o que merecia.
Foi visto como vingança divina,
como castigo pela pilhagem e pelo péssimo comportamento em Port Royal.
Com este castigo terrível, Deus fará com que mudem de vida,
pois não havia gente mais ímpia à face da Terra.
Port Royal nunca recuperou a glória passada.
A jóia do comércio das Caraíbas fora eliminada da face da Terra.
É interessante pensar que se o sismo não a tivesse atingido,
este sítio podia ter-se desenvolvido como Manhattan,
ou como Hong Kong.
Mas, no final, foi a localização letal de Port Royal,
numa zona de falhas ativas e em areias movediças mortíferas,
que selou o destino dela.
A verdade é que era uma cidade que os ingleses tinham construído
num sítio onde não deviam ter construído,
por isso foi um acontecimento, uma tragédia, uma catástrofe
que foi causada por seres humanos, não pela Natureza, nem por Deus.
O trabalho de Jon Henderson
é o primeiro levantamento subaquático completo
da cidade pirata afundada.
Pode ajudar a conseguir o estatuto de Património Mundial da UNESCO,
para proteger o local da destruição da Natureza.
O mar está a reclamar o local outra vez.
Engoliu-o uma vez e quere-o de volta.
Mas graças ao uso da Ciência e a incríveis imagens digitais,
a história incrível de Port Royal pode perdurar.
A mais famosa cidade pirata de todos os tempos,
destruída por um sismo enorme,
depois arrastada para o mar por areias movediças mortíferas,
com vários tsunamis como golpe final.
Uma catástrofe tripla que pôs fim à vida
da cidade mais perversa do planeta.
Tradução e Legendagem Filomena Antunes
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