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É esta a paisagem de um planeta distante?
Ou da superfície da Lua?
Não. Estas são imagens do fundo do maior banco de água doce do mundo,
os Grandes Lagos da América do Norte.
Os cientistas têm mapeado estes lagos majestosos.
Agora, pela primeira vez, combinaremos dados
e imagens computorizadas especializadas
para drenar os Grandes Lagos.
Iremos descobrir um extraordinário mundo escondido,
de penhascos enormes,
onde talvez tenham habitado os primeiros homens.
Vales perdidos e cascatas submersas.
De um possível impacto catastrófico.
Talvez até, um vislumbre da nossa própria história,
nunca vista, até agora, ao drenarmos os Grandes Lagos.
DRENAR OS GRANDES LAGOS
Os grandes lagos têm sido apelidados de oceanos interiores,
mares de água doce.
O seu nome descreve o seu tamanho grandioso.
Ao longo das suas margens podemos observar maravilhas da natureza
e arranha-céus feitos pelo homem.
É o lar de 34 milhões de pessoas que vivem perto das suas águas.
Mas nunca ninguém olhou para as suas profundezas
como nós iremos fazer.
Só agora podemos revelar os seus segredos.
Começamos a nossa exploração no Lago Superior,
o maior dos grandes lagos, o mais vasto,
mais profundo, e o mais misterioso.
Ao longo da costa sul do Lago Superior
está a costa de Pictured Rocks National,
nome que se deve aos penhascos coloridos
que se erguem do fundo do lago.
É uma das localizações mais espetaculares dos Grandes Lagos.
Mas não é o cenário que torna esta localização importante,
é o que jaz na costa, no fundo da água,
nunca antes visto.
Drenando a água do Lago Superior, a meros 40 km das Pictured Rocks,
o que encontraremos?
Podemos revelar, pela primeira vez, a paisagem escondida
da parte mais profunda das bacias dos Grandes Lagos.
A 400 m de profundidade, a altura do Empire State Building.
Nunca ninguém aqui esteve.
Nenhuma luz chega a esta profundidade.
É uma paisagem verdadeiramente alienígena.
A maioria das pessoas têm a ideia de que um lago é só uma banheira.
Eu gosto de pensar que é um registo.
Regista não só o que se passa agora, como o que aconteceu no passado.
É uma impressão digital.
Um registo do passado lido por Nigel Wattrus,
que tem estudado esta área extensivamente.
Estes vales são muito grandes.
É um contraste tão grande com outras partes do lago
que nos faz pensar nos processos
que desenvolveram esta topografia.
Os processos que originaram estes vales, na parte mais profunda do Superior,
ocorreram quando o gelo dominava a paisagem.
Há vinte mil anos atrás, se olhássemos do espaço,
veríamos uma enorme folha de gelo a cobrir esta parte do planeta
onde existem agora os Grandes Lagos.
O gelo terá tido mais de 1,5 km de espessura, em certas partes.
Ter-se-ia erguido sobre cidades como Chicago ou Toronto.
Durante milhares de anos, esta enorme folha de gelo faz pressão,
moldando a paisagem e esculpindo buracos.
Quando o gelo começa a derreter, desaparecendo,
estas depressões profundas enchem-se com água glaciar gélida.
O resultado? A formação dos Grandes Lagos de hoje.
Avançamos para o presente.
Podemos desvendar as provas do efeito dos glaciares no leito do Superior,
apenas porque foi estudado em grande detalhe.
A tecnologia moderna permite-nos ver através da coluna de água.
Nigel Wattrus e a sua equipa do Observatório dos Grandes Lagos, em Duluth,
usam sonares de varrimento lateral e multifeixes,
para mapear partes do Lago Superior.
Como o som se propaga facilmente na água,
é capaz de perfurar até as partes mais profundas do Lago Superior,
revelando a sua forma e tamanho com detalhe surpreendente.
Os dados recolhidos pelo multifeixe permitem-nos recriar
a parte mais profunda do Superior, de forma realista.
A 400 m de profundidade,
podemos ver como se formou.
O gelo tem um papel, mas age principalmente como capa
e é a água que corre por baixo que vai escavar os canais.
A água criou estes enormes vales escondidos
que se estendem por quilómetros, na parte mais profunda do Lago Superior.
O peso do glaciar pressuriza a água derretida.
Areia e pedaços de rocha nos jatos de alta pressão
esculpem a rocha, moldando estes longos e profundos vales.
Ao remover a água do Lago Superior,
aparece mais uma anomalia.
Ficámos muito entusiasmados por ver os anéis.
Foi o primeiro conjunto de dados
que documentou a presença de anéis na parte leste do lago.
Estes anéis são caraterísticas pouco usuais.
O Superior é o único dos Grandes Lagos em que foram encontradas.
A forma mais fácil de pensar neles
é imaginar que o Paul Bunyan pegou num donut e o pressionou
nos sedimentos macios do lago.
Esse donut teria uns 200 a 300 metros de largura.
A impressão ficaria com 5 metros de profundidade
e o diâmetro do anel seria entre 10 a 30 metros.
Portanto, é uma característica considerável.
Pensamos que estes anéis são o resultado da água,
que em tempos esteve presa nesses sedimentos de grão muito fino,
e que terá sido libertada como resultado
talvez de uma descida catastrófica no nível das águas do lago.
Estes anéis, forjados pela variação do nível da água,
foram preservados no leito do Superior durante milhares de anos.
Drenar os Lagos, revela não só mistérios escondidos
mas é uma janela para o passado.
Mais a sul, deparamo-nos com uma das mais impressionantes caraterísticas
criadas pelo homem nos lagos.
Uma enorme ponte suspensa atravessa o Estreito de Mackinac,
entre o Lago Huron e o Lago Michigan.
Com mais de oito quilómetros,
é a ponte mais longa do Hemisfério Ocidental.
Uma vez por ano, no Dia do Trabalhador,
o público pode atravessá-la a pé,
e admirar esta proeza da engenharia.
Os vãos da ponte são suficientemente altos e amplos
para permitirem passagem segura a navios cargueiros.
Milhares de pessoas aproveitam a oportunidade para atravessá-la a pé.
Mas poucos, se é que algum, sabe o que jaz abaixo da superfície.
Se drenarmos o estreito de Mackinac, o que descobriremos?
O que as pessoas não conseguem ver
e o desafio para os construtores da ponte, há muitos anos atrás,
é um canal profundo que serpenteia pelos estreitos de Mackinac.
É uma garganta com 40 km de comprimento, 1000 m de largura,
que passa, em segredo, por baixo do centro da ponte.
À medida que percorremos o longo canal escondido,
como veio aqui parar?
Será prova de que os Grandes Lagos não tiveram sempre o aspeto de hoje?
O que terá acontecido para originar esta caraterística extraordinária?
A resposta pode estar em expedições, mais para sul,
no Lago Huron.
Expedições que irão encontrar provas incríveis,
de cataratas submersas, tão grandes como as atuais Cataratas do Niágara.
Com elas, mais revelações sobre o passado dos Grandes Lagos.
Ao drenar a água
do Estreito de Mackinac,
entre o Lago Huron e o Lago Michigan,
descobrimos um enorme desfiladeiro escondido por baixo da ponte.
Como e quando se formou é um mistério
que poderemos resolver ao nos aventurarmos para sul,
para o centro da bacia dos Grandes Lagos, na extremidade da Península Bruce.
Aqui está localizada a cidade de Tobermory, Ontário.
Esta área contém muitas pistas
para a história geológico dos Grandes Lagos.
Bem no alto dos penhascos envolventes,
há provas com mais de 10 mil anos, de níveis de água incrivelmente altos.
Estas marcas da antiga linha da costa são fáceis de ver.
O que não está visível podemos encontrar na costa,
escondido abaixo da superfície do lago.
A região de Tobermory é única,
pois existe aqui um grande número de características no leito
que nos contam a história do lago,
a história das mudanças dos níveis da água.
É possível encontrar grande parte da história
de como os Grandes Lagos foram drenados,
através de estudos dos leitos aqui na região de Tobermory.
A ideia de que o nível das águas variou fortemente,
entusiasmou alguns dos principais investigadores.
Abre uma janela para o passado e pode dar pistas sobre o futuro.
Temos mapas preliminares do leito do lago
e estamos à procura de provas
de que os lagos se drenaram 50 metros abaixo da elevação presente.
Nunca ninguém pensou que o nível da água dos Grandes Lagos
tivesse descido tanto, mas já descobrimos que é verdade.
Começou há cerca de 10 mil anos. O clima era mais árido
e o nível da água desceu devido à evaporação
e acabaram por ficar muito baixos,
tanto que a Baía Georgiana era uma bacia isolada.
Tem sido quase impossível encontrar provas de níveis de água mais baixos,
uma vez que, todos os vestígios tem estado escondidos,
sob centenas de metros de água, durante mais de seis milénios.
Agora, a tecnologia moderna proporciona uma espécie de espelho.
O Barco de Serviço Hidrográfico Canadiano
está equipado com tecnologia multifeixe.
O mais emocionante para um geólogo é poder ver algo a três dimensões.
Podemos andar por lá, ver todos os lados do canal,
ver por onde a água passou no topo das escarpas.
E depois posso ver a piscina, no fundo.
Usando estes novos dados,
o que veremos ao drenar a água da Península de Bruce.
Se estivéssemos aqui há 7500 anos, a água estaria toda drenada,
as escarpas estariam expostas
e teríamos o rio a correr do norte para o sul.
Na verdade, virou para o leste neste local e correu para leste,
por cima das escarpas para formar a Cascata de Dunks Point.
Mais mapeamentos revelam que mais canais
e cascatas, algumas delas maiores do que as do Niágara,
existiram ao largo da Península de Bruce, há 8 mil anos atrás.
É a prova-chave. Agora sabemos que as mudanças climatéricas
afetam o nível da água dos lagos.
Por exemplo, uma mudança de um metro tem impacto na economia.
Podemos olhar para o passado
e usá-lo como chave para o futuro para nos ajudar a compreender
o que a Natureza e a humanidade vão fazer ao nível dos lagos
e podemos determinar o que temos de fazer no futuro para nos adaptar.
O nível dos lagos era baixo em todo o sistema dos Grandes Lagos.
Os lagos estão interligados, o que afeta um, afeta a todos.
Há cerca de sete a oito mil anos atrás, veríamos cada lago como uma bacia separada
com poucos ou nenhuns rios entre eles.
O desfiladeiro por baixo da ponte do Estreito de Mackinac
formou-se quando os níveis do lago eram muito inferiores.
Nessa altura, era um rio estreito que unia os Lagos Huron e Michigan.
Os níveis baixos permaneceram tempo suficiente
para cortar e talhar o leito do lago,
deixando para trás provas de um antigo canal fluvial.
A geologia dos Grandes Lagos é tão recente
que estes acontecimentos podem ter ocorrido
quando os humanos já viviam na América do Norte.
Haverá alguma prova da sua existência aquando do baixo nível das águas?
A resposta poderá estar 80 km a sudoeste de Tobermory,
no meio do Lago Huron.
Outra caraterística impressionante emerge do leito do lago,
ao drenarmos o segundo maior dos Grandes Lagos.
A Dorsal de Alpina-Amberley, estende-se ao longo de todo o lago.
Há sete a oito mil anos atrás era terra seca.
É um afloramento maciço de calcário
que resistiu aos lençóis de gelo e que existe no fundo
como uma escarpa espantosa de rocha
que no lado nordeste cai a centenas de metros.
Com a exposição desta ponte natural
durante os tempos em que os primeiros paleo-americanos vaguearam o continente,
terão eles vivido e caçado aqui?
Depois de todo este tempo, poderá algo submerso,
ainda mostrar sinais da sua presença?
De um ponto de vista histórico, é importante não só pelos locais,
mas também porque representam uma oportunidade que nunca tivemos,
já que esses locais ficaram da mesma maneira que os caçadores deixaram,
como Pompeia submersa.
Usando um ROV, um veículo operado remotamente,
John O'Shea e a sua equipa da Universidade de Michigan
têm procurado o leito do lago à procura de algo que possa indicar
a presença humana na dorsal.
Até agora, o que encontrámos, foi uma série de construções em pedra
muito semelhantes a umas feitas pelos caçadores modernos de caribus
do Ártico Canadiano.
Tendo em conta a pesquisa de John
podemos construir uma imagem do topo da dorsal.
Apenas ao drenar o lago conseguimos ver a linha na sua totalidade.
Tratar-se-ião de linhas caribu,
a técnica de caça que depende do hábito dos animais
seguirem padrões lineares na paisagem?
Serão estas construções de pedra tais dispositivos
para ajudar a guiar caribu para zonas de caça?
Até agora, John e a sua equipa estão limitados à pesquisa com o ROV.
Para ter sucesso e provar que temos sítios arqueológicos,
provar que temos artefactos, não há nada a fazer
além de pôr mergulhadores com formação arqueológica no leito
para fazerem esta investigação metodicamente.
John consegue o seu desejo.
Mergulhadores descem as águas do Lago Huron para explorar o seu leito.
Poderão ser os primeiros na dorsal de Alpina-Amberley
em mais de sete mil anos?
Ao drenar o Lago Huron,
a extraordinária dorsal de Alpina-Amberley
ergue-se no meio do lago.
Sete a oito mil anos atrás este penhasco imponente era terra seca.
Uma equipa de arqueólogo acredita ter descoberto
provas de humanos primitivos vivendo e caçando nesta cordilheira.
Drenando a água, vemos formações rochosas
que podem ter sido colocadas pelo homem para caçar caribus.
Uma nova expedição espera esclarecer a situação.
Este é o primeiro dia em que vamos fazer mergulho de investigação
nestas rotas de mergulho de caribus.
É entusiasmante para nós, porque tudo o que virmos hoje,
mesmo no primeiro mergulho, vai ser novo.
Para ser sincero, o Santo Graal é a lasca mais simples,
o pedaço mais simples de rocha partida,
que confirme com certeza que este sítio foi ocupado por humanos.
Oitenta quilómetros no meio do Lago Huron,
os mergulhadores descem pela primeira vez nesta parte da dorsal.
Poderão ser os primeiros humanos aqui em mais de sete mil anos.
Os mergulhadores começam a documentar e a estudar
esta paisagem subaquática única.
Qualquer mão-cheia que se retire pode ter material essencial.
Tudo isto está cheio de potencial.
Nós vemo-lo aqui a partir do vídeo e dizemos: "Quero ver aquilo!"
Os mergulhadores dispõe de 45 minutos no fundo
para reunirem o máximo de provas possível.
Lá vem o cesto.
A expedição revela-se proveitosa.
Há inúmeras amostras para a equipa analisar.
Uma pequena pedra deslapidada, oferece de imediato esperança.
Parece definitivamente um bolbo.
Isto podia ser uma lasca.
Deste tamanho podia ser uma lasca de um biface,
uma lasca terciária em que se modificam as bordas,
em que se alisa e que pode ser feita
quando se está a modificar uma ferramenta.
E é por isso que é tão pequena.
Lembram-se que vos falei no pedaço mais pequeno e mais simples?
Este pode ser o pedaço mais pequeno e mais simples, mas vamos levá-lo.
Talvez sejam necessárias muitas mais expedições
e explorações detalhadas da superfície da dorsal
antes que a verdade sobre a presença humana possa ser confirmada.
Mas o leito do lago está a renunciar alguns segredos.
Provas do baixo nível das águas há milhares de anos atrás
estão a ser reveladas, à medida que drenamos os lagos.
Mais a sul, a água flui do Huron para o mais superficial dos grandes lagos,
o Lago Erie.
Na margem norte, vemos uma maravilha geológica.
Uma formação terrestre que se estende mais de 40 km para o interior do lago.
É feita exclusivamente de areia.
Um produto secundário da erosão do gelo glaciar na rocha.
Trata-se de Long Point.
No contexto dos Grandes Lagos, Long Point é quase único.
Não é único nos processos que o formaram,
é único no tamanho e na dimensão do que está a acontecer.
Que está a acontecer?
De forma simples, esta estrutura colossal de areia
está a ser criada no Lago Erie a uma velocidade geológica elevada.
Há 5 mil anos, provavelmente estávamos em cima da água,
porque Long Point não existia na altura.
Long Point formou-se na bacia mais funda do Lago Erie
a uma profundidade de 65 metros.
Portanto, foi precisa uma quantidade enorme de areia para o formar
até à superfície.
Troy Holcombe liderou a equipa
que criou o primeiro mapa batimétrico detalhado,
representando a profundidade das águas do Lago Erie,
quando trabalhou com o JOAN,
a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional.
Estes são os dados usados para drenar o Lago Erie.
À medida que o nível da água desce, vemos duas cordilheiras de areia enormes
o Escarpado de Long Point e a Cordilheira de Clear Creek,
escondidas da vista, até agora.
Ambas as cordilheiras de areia atravessam, quase por completo, o lago.
Apenas 20 km a oeste de Long Point, estão estes desfiladeiros de areia,
depositados por águas em recessão após o degelo dos glaciares.
Estes penhascos alimentam Long Point
e, provavelmente, ajudaram a construir os cordilheiras.
Um processo de redistribuição de areia
que se tem desenrolado desde que os glaciares desapareceram,
e continua até aos dias de hoje.
Hoje vimos processos geológicos em funcionamento a mover as areias,
tal como se estivéssemos lá.
Esta área está a erodir muito depressa.
Podemos ver a lama, a areia na água.
O vento vem de sudoeste, por isso, a costa é levada pelo vento,
a areia vai ficar para este.
Por fim, vai chegar à ponta de Long Point.
Vemos aqui a dinâmica de toda a sedimentação que ocorre.
E está a acontecer agora e depressa.
A jusante do Lago Erie, está um lugar
onde se teria dado a alteração mais dramática de todas,
provavelmente, o maior marco terrestre, no sistema dos Grandes Lagos.
As Cataratas do Niágara.
Num único minuto,
mais de 135 milhões de litros de água
escoam sobre o desfiladeiro do Niágara.
Toda a água na bacia dos Grandes Lagos
atravessa este estreito corredor.
A força da água reduz continuamente o desfiladeiro.
Desde a retirada dos glaciares, as cataratas têm avançado para montante,
do Lago Ontário, para mais próximo do Lago Erie, cerca de 11,5 km,
à medida que o fluxo constante de água, desgasta,
talha e molda o desfiladeiro.
Mas durante os tempos em que os homens poderão ter andado na cordilheira Alpina,
e as cataratas existiam na zona de Tobermory,
o rugido do Niágara silenciou-se.
Drenando as Cataratas do Niágara tal como eram há cerca de 10 a 5 mil anos atrás,
isto é o que veríamos.
O furioso rio Niágara torna-se um fio de água,
e durante vários milhares de anos,
as quedas de água secam.
Com os lagos a montante transformados em bacias separadas
pouca água flui entre o Ontário e o Erie.
O Niágara não era tão poderoso.
A jusante das cataratas está o Lago Ontário.
Drenar este lago, revela pistas impressionantes
de um passado turbulento e um futuro incerto.
Há cinco mil anos atrás, á água começa a subir nos Grandes Lagos.
Uma massa de ar tropical instala-se sobre a bacia dos Grandes Lagos
e a precipitação enche os lagos até aos níveis atuais.
O Niágara começa a fluir. Long Point começa a formar-se.
E no Lago Ontário, algo fora do comum está a acontecer no leito do lago.
Toronto é a maior cidade canadiana nos Grandes Lagos.
Dois milhões e meio de pessoas vivem e trabalham
perto das margens do Lago Ontário.
É uma cidade conhecida pela sua estabilidade geológica.
Mas não muito longe da silhueta imponente da cidade,
algo dramático está a acontecer.
Longos desfiladeiros repletos de fraturas entrecruzam o fundo do lago.
O que aconteceu é que a América do Norte está sob pressão.
Acreditam que a área do nordeste, como a Gronelândia,
está a deslocar-se para sudoeste,
e a área da Califórnia para nordeste?
Portanto, isso põe a região dos Grandes Lagos sob pressão.
E o que acontece com essa pressão é que a terra se levanta.
Estas elevações têm um nome simples, pop-ups.
As elevações são a demonstração do facto de que os terramotos
ocorrem nesta região e vão continuar a ocorrer.
Normalmente, não associamos a região dos Grandes Lagos a terremotos.
Mas o leito do lago exibe sinais de que a atividade sísmica
talvez seja mais frequente do que pensamos.
Foi apenas com o aparecimento do multifeixe
que conseguimos compreender esta rede de fissuras e fraturas
que têm aparecido nos tergos do leito de rocha.
Estes tergos grandes que parecem características
são elevações tectónicas.
São fraturas de compressão na rocha.
Como esta folha. A pedra calcária comprimiu.
Começamos a empurrá-la nas duas direções
e dobra-se no meio.
É assim que se forma uma elevação.
Mostra-nos que o leito não é estável geologicamente como pensávamos.
Com os dados detalhados do multifeixe,
vamos drenar o Lago Ontário perto do porto de Toronto
e ver, nós próprios, o que jaz no leito do lago.
O número de pop-ups interligados é surpreendente.
Têm um a três metros de altura, uma largura de cinco a dez metros,
e estendem-se por vários quilómetros.
Ninguém sabe ao certo a sua idade.
Mas com estas provas de atividade sísmica,
o que reserva o futuro, para esta parte dos Grandes Lagos.
Na história do sul de Ontário temos terramotos de baixa intensidade.
Temos muitos terramotos pequenos.
Se irá ocorrer um grande no futuro que teremos de ter em conta?
Achamos que não, mas essa pesquisa é precisa
para garantir que construímos estruturas fortes para aguentar
o maior terramoto
ou a maior força que estas estruturas irão sentir.
Drenar o Lago Ontário, não revela apenas um futuro possível,
também nos dá um vislumbre de um passado turbulento.
Na parte mais a leste do lago, perto da saída para o rio St. Lawrence,
uma estranha e misteriosa formação jaz abaixo da superfície.
Esta é Charity Shoal, a cerca de 20 km da costa,
mesmo na fronteira entre os EUA e o Canadá.
É uma elevação pouco profunda, com um farol para afastar os navios
dos seus baixios perigosos.
Levantamentos de profundidade recentes revelam uma anomalia circular.
A sua origem é um mistério.
Hoje, Charity Shoal será analisada com um multifeixe, pela primeira vez.
À medida que o barco se desloca
a formação começa a revelar-se.
Algo semelhante a uma cratera é revelado.
Mas o que está uma cratera a fazer nos Grandes Lagos?
Troy Holcombe, da Universidade do Texas,
tem-se interessado por esta formação durante anos.
Agora, quer resolver o mistério de Charity Shoal.
Daquilo que vimos, Charity Shoal é uma característica muito antiga
que foi escavada novamente pela erosão glaciar.
Ainda é possível que seja uma cratera de impacto,
um impacto extraterrestre, mas ainda aguarda confirmação.
É absolutamente incrível.
Conseguimos ter uma perceção do seu tamanho.
A Cratera de Barringer parece estar congelada no tempo,
com o mesmo aspeto de há 50 mil anos atrás,
quando um meteorito, que viajava a mais de 40 mil km por hora,
embateu na Terra.
Terá Charity Shoal alguma vez tido este aspeto?
Acho que é importante compararmos com a cratera de Charity Shoal,
porque as crateras se formaram em rochas sedimentares estratificadas
e ambas as crateras são do mesmo tamanho.
Em Charity Shoal, vemos tergos que parecem os cumes expostos das rochas
à superfície, tal como aqui, mas erodidos, no caso de Charity Shoal.
Ambas as crateras são quase redondas e têm um rebordo contínuo.
Têm ambas 1,2 km de diâmetro.
É uma característica importante, porque significa que as duas,
se é que Charity Shoal é uma cratera de impacto,
significa que as duas terão vivenciado o mesmo projétil
e uma explosão do mesmo tamanho.
Tal como na Cratera de Barringer,
um meteorito com 50 m de diâmetro,
pode ter caído no primordial Ontário.
Uma explosão de 10 a 20 megatonelas
pode ter originado Charity Shoal.
Ao drenar Charity Shoal, vemos as semelhança.
Mas passou, no mínimo, por 4 glaciações,
e esteve submersa durante milhares de anos.
É uma mera sombra daquilo que foi.
Mas talvez, milhões de atrás,
posicionados na borda de Charity Shoal,
parecesse assim.
O impacto de um meteorito não é o único evento dramático
a afetar a região do lago.
Tempestades violentas acoitam estes mares interiores,
enviando navios para as profundezas.
Revelamos algumas das provas mais dramáticas da fúria da Natureza
ao drenar os Grandes Lagos.
Ao drenar os Grandes Lagos,
parte da nossa própria história será revelada,
espalhada no fundo dos lagos.
Destroços de navios,
cerca de 6 mil, espalhados pelos cinco Grandes Lagos.
Relíquias de metal e madeira, escondidas abaixo da superfície da água,
que podemos ver agora, em toda a sua glória.
Alguns ainda são majestosos e eretos.
Outros, rasgados e torcidos.
Os destroços dos navios são das visões mais impressionantes de contemplar,
quando drenamos os Grandes Lagos.
Um grande número de naufrágios nos Grandes Lagos
mostra a quantidade de navegações que se fazia.
Por isso, durante umas centenas de anos, houve uma navegação intensa
nos Grandes Lagos, no final do séc. XVIII, XIX e no início do século XX,
quando esta era a via marítima mais movimentada da Terra.
Russ Green trabalha no Santuário Marinho Nacional de Thunder Bay,
nas margens do Lago Huron.
Aqui, como em muitas outras áreas dos Grandes Lagos,
inúmeros destroços povoam o fundo dos lagos.
Lagos é um nome errado.
É o maior reservatório de água doce na Terra.
São enormes.
São sítios traiçoeiros e duros para estar numa escuna de 40 metros
nos anos de 1870 em novembro, com a chuva constante,
o gelo a cobrir os apetrechos.
São sítios perigosos para navegar.
Incêndios, tempestades, nevoeiro, baixios, erros humanos,
sem radares, nem GPS, muitas colisões aqui em Thunder Bay.
Todas estas coisas contribuíram, a quantidade e os perigos
contribuíram para os inúmeros naufrágios.
O setor nordeste do Lago Michigan, a Passagem de Manitou,
é uma área deslumbrante acima da água,
com os desfiladeiros de areia das dunas de Sleeping Bear National,
a elevarem-se sobre a passagem que outrora foi uma importante rota mercantil.
Mas debaixo de água, as coisas estão a mudar rapidamente
com o massacre dos moluscos bivalves.
Os mergulhadores preparam-se para mergulhar os destroços
ao largo da costa da ilha de South Manitou.
Os destroços são chamados Os Três Irmãos
famosos por estarem enterrados em areia, durante a maior parte do século passado,
até há uma década atrás, quando as areias em movimento o revelaram novamente.
Infelizmente, o navio é, agora, um exemplo chocante
do verdadeiro impacto dos moluscos.
Uma espécie de alga, conhecida por Cladophora,
está a crescer a uma taxa fenomenal.
À medida que os moluscos clarificam a água,
a luz do sol penetra, cada vez mais fundo, no lago,
resultando num crescimento explosivo das algas.
Esta Cladophora está a morrer
e a amontoar-se numa espessa massa, em decomposição, perto dos destroços.
As algas mortas libertam toxinas mortais para os peixes e pássaros.
Aqui, na Passagem de Manitou, um desastre ambiental está a caminho.
Parece que há uma camada espessa de conchas de mexilhões
à volta do casco.
E aqui está a cladophora morta e apodrecida.
E...
Caramba! Que grande quantidade!
Acho que a cladophora está mesmo morta ali no fundo.
A quantidade existente é enorme
e ver como se envolveu no navio.
Foi preciso a ajuda das ondas, mas como há peixe morto recentemente,
significa que tem de estar ativa na decomposição
e na produção da toxina de botulismo.
A primeira coisa em que penso é onde é que estará a ocorrer mais disto.
Que eu saiba, não conheço outros sítios nos lagos,
mas suponho que se acontece aqui, tem de acontecer noutros sítios.
Uma campanha de mapeamento, iniciada pelo Serviço Nacional de Parques,
nas Dunas Sleeping Bear, e o programa de Estudo das Águas dos Grandes Lagos,
da Universidade de Northwest Michigan, está a utilizar o multifeixe,
para ajudar a compreender melhor este problema ecológico
que está a afetar esta parte do Lago Michigan.
Esperamos encontrar estas zonas de grandes falésias e sítios
onde a batimetria muda muito rapidamente
e esperamos encontrar estas zonas de depressão perto da costa
onde suspeitamos que as algas se estão a acumular.
Estamos a avançar o sistema
para o cemitério da Cladophora, como lhe chamamos.
O cemitério da Cladophora,
o nome dado a zona à volta dos Três Irmãos.
Esperam que o multifeixe possa dar pistas que expliquem por que está a acontecer.
Lá está!
Após várias passagens, o multifeixe mostra claramente
e grande depressão que está na origem deste problema ecológico.
Os destroços do navio estão assentes em cima desta depressão de areia.
Devido a esta caraterística geológica,
as algas são capturadas e decompõe-se nesta zona.
Drenando a Passagem de Manitou,
quantas mais zonas são como esta no Lago Michigan
e nos restantes Grandes Lagos?
Será esta a primeira etapa do fim dos Grandes Lagos, tal como os conhecemos?
Acho que os nossos lagos não vão desaparecer nunca.
Já existimos há milhares de anos e hão de vir muitos mais milhares.
O nosso ecossistema está a passar por um grande desafio.
As mudanças que ocorreram nos últimos 20, 30 anos são dramáticas.
Os lagos são suficientemente fortes.
Mas como é que é o novo ecossistema,
como é que vai evoluir e como é que nos vamos interagir com ele?
Há muitas histórias lendárias sobre os Grandes Lagos,
mas nenhuma tão cativante como a mais icónica de todas elas,
o naufrágio do Edmund Fitzgerald.
Ao drenarmos os Grandes Lagos,
descobrimos provas dramáticas de um rico e diversificado passado.
Tanto de origem natural como humana.
Mistérios geológicos escondidos do olhar.
Estes mares interiores eram a autoestrada para o continente.
O rasto de destroços, prova de que os lagos sempre detiveram o controlo.
No maior deles todos, o Lago Superior, mais do que em qualquer outro lado.
Com as águas mais profundas e as tempestades mais poderosas,
é um teste ao mais moderno dos navios.
Na margem sul, Whitefish Point
é conhecido como o cemitério de navios.
Um em particular, a 27 km da costa, transformou-se numa lenda.
Sem dúvida que o naufrágio mais icónico
dos 6 mil que houve nos lagos
é a perda do Edmund Fitzgerald, em 1975.
O Edmund Fitzgerald, o maior navio afundado nos Grandes Lagos.
Drenando a água do Lago Superior,
podemos ver este poderoso navio como nunca antes foi visto.
Foi a pior tempestade em três décadas
que afundou o Edmund Fitzgerald.
Afundou-se em 160 metros de água, sem um único pedido de ajuda
e levou 29 homens ao fundo que continuam até hoje no navio.
Tom Farnquist conhece bem os destroços do Edmund Fitzgerald.
Liderou três expedições à sepultura aquática.
É uma das poucas pessoas que o viu.
A exploração ao Edmund Fitzgerald revelou um navio muito estragado,
partido ao maio, a secção da frente, que tem uns 60 m de comprimento,
está quase em desequilíbrio.
A popa ficou arrancada e caiu ao contrário.
Baseadas em dados de sonar de varrimento lateral,
estas imagens mostram como o Edmund Fitzgerald jaz,
a 163 metros de profundidade.
As imagens revelam a intensidade da tempestade
e quão rapidamente afundou.
Se drenarmos o Lago Superior, vemos os estragos no fundo
causados pelo impacto do navio.
O resto do fundo do lago parece a paisagem lunar,
muito lisa, com alguns buracos aqui e ali.
Mas perto do Edmund Fitzgerald,
quase parece que passou um limpa-neves ali
e empurrou o lodo para o lado do Fitzgerald e aparou o fundo.
Peritos marítimos, arquitetos navais
sugerem que o Fitzgerald caiu no fundo a 56 km/h.
A oito metros abaixo do lodo, bateu no leito e começou a desfazer-se.
Esta montanha de aço está em boas condições
e nalguns casos até tem tinta, é visível e dá para ler o nome.
Por isso, este momento do passado, ainda está bem preservado
pela água fria do Lago Superior.
Há algumas décadas que vejo vários naufrágios,
mas não há nada tão arrebatador e comovente
como o Edmund Fitzgerald, por saber que 29 marinheiros se afundaram.
Continua a ser o maior mistério dos naufrágios dos lagos.
Imperturbado e silencioso,
o Edmund Fitzgerald assombrará o Lago Superior nas décadas vindouras.
Uma lembrança do poder e grandiosidade
do maior sistema de água doce da Terra.
Um sistema, cujo mundo subaquático secreto,
é revelado pela primeira vez, ao drenarmos os Grandes Lagos.
Tradução e Legendagem Rita Rocha
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