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Dezembro de 1945,
uma esquadra de aviões da Marinha Americana
desaparece ao largo da costa da Florida.
Março de 1918,
um navio de carga da Marinha Americana,
a caminho de Baltimore, desaparece sem deixar rasto.
Ao longo dos anos, muitos mais navios e aviões desapareceram
numa zona de oceano aberto com cerca de um milhão de quilómetros quadrados.
Há muito fonte de mistério, lenda e terror.
Este é o Triângulo das Bermudas.
Agora, usando novas tecnologias,
podemos remover a água.
Revelar uma paisagem escondida.
Drenaremos o Triângulo das Bermudas.
Abrindo caminho até cada vez mais fundo exploramos os seus recantos mais sombrios.
Enfrentando alguns dos maiores mistérios do Triângulo.
Quando drenarmos completamente as águas,
que encontraremos no fundo do Triângulo das Bermudas?
DRENAR O TRIÂNGULO DAS BERMUDAS
Bermudas, um oásis
a 1050 km da costa Este dos EUA.
Durante séculos foi um refúgio para a navegação no Atlântico
mas as águas da ilha escondem uma ameaça mortífera.
Embora sejam muito atraentes,
as Bermudas são também uma zona interdita
para marinheiros sem experiência nas Bermudas.
O nome Bermudas provoca medo no coração dos marinheiros.
Ficou conhecida como A Ilha dos Demónios.
O paraíso das Bermudas é um paradoxo.
Foi um cemitério de navios nos primeiros 200 a 300 anos.
Como responsável pelos navios,
o trabalho de Philippe Rouja é localizar e monitorizar
os destroços históricos das Bermudas.
E há bastantes para o manter ocupado.
Estas águas talvez tenham reclamado cerca de 300 embarcações.
Por que encontraram tantos navios, o seu fim, nestas águas cristalinas,
tão perto de terra?
Hoje, Philippe vai visitar vários navios
que podem esclarecer este mistério.
Primeiro, o Mary Celestia, um navio a vapor com casco de ferro
que transportava provisões durante a Guerra Civil Americana.
Saiu das Bermudas, para sul, e naufragou aqui.
É estranho, porque estamos a apenas 800 metros da costa.
Aconteceu num dia calmo. Criou muita intriga.
Tentamos perceber como naufragou.
Jaz apenas a 15 m de profundidade.
A sua roda de pás ainda reconhecível.
Ao virar da costa, há outros destroços, os do Constellation.
Mais à frente, mais outro.
O Montana.
Segundo os registos de Philippe,
os destroços circundam as Bermudas por completo.
Há claramente algo ali que representa uma ameaça mortífera para a navegação.
Para responder a estes e outros mistérios sobre o Triângulo das Bermudas
precisamos ver as condições do terreno debaixo de água.
Precisamos drenar o oceano
para revelar gradualmente
uma paisagem extraordinária,
nunca antes vista.
Apenas é possível olhar para as profundezas do Triângulo das Bermudas
graças uma tecnologia, em rápida evolução, chamada mapeamento de sonar.
O mapeamento de sonar usa ondas sonoras que são refletidas no fundo do oceano.
O sinal devolvido mostra a forma e profundidade do terreno.
É esta tecnologia que talvez possa ajudar a desvendar a causa
das centenas de destroços que rodeiam a ilha.
- Como estás, Nick? - Estou bem. E tu?
O geólogo Nick Hutchings, é um prospetor dos tempos modernos.
Hoje, vai usar mapeamento de sonar
para procurar vestígios de formações submarinas específicas
perto de alguns destroços do Triângulo das Bermudas.
Procuramos depósitos de minerais.
Podem ser
fontes hidrotermais extintas,
conhecidas como chaminés negras.
Nick acredita que as agora extintas chaminés
podem conter metais raros e minerais.
Procuramos ouro e cobre.
Nas crostas, procuramos platina, cobalto, níquel,
especialmente as terras raras.
As terras raras são importantes,
porque são cruciais para a tecnologia moderna.
Para procurar os metais valiosos
Nick usa um dispositivo multifeixe.
Os dados revelam uma extraordinária paisagem subaquática à volta das Bermudas,
incluindo o que parece ser a orla de uma montanha.
Temos um planalto grande.
Vamos ao que chamamos borda.
Chegamos lá e há uma descida com uma inclinação de 60 graus,
com cerca de 640 metros.
É uma informação interessante.
Mas, por que descobrimos a orla de uma montanha subaquática
mesmo na costa das Bermudas?
Para realmente compreender precisamos de uma visão geral.
Usando os mais recentes dados de sonar da região das Bermudas,
podemos agora drenar virtualmente toda esta área.
Sem água,
a pequena ilha parece empoleirar-se no topo de uma montanha espetacular,
um monte submarino com cerca de 5 km de altura,
sozinho, no meio do Oceano Atlântico.
Como veio aqui parar?
A ilha existe atualmente
por causa de uma erupção vulcânica que aconteceu num sítio isolado,
na placa oceânica da fase inicial do desenvolvimento do Atlântico.
O vulcão foi crescendo ao longo de milhões de anos
até finalmente se erguer acima da superfície do oceano.
Entrou em erupção e criou uma enorme ilha vulcânica,
que estaria 900 a 1200 metros acima do nível do mar.
Após a extinção do vulcão há 30 milhões de anos,
o vento e a chuva, desgastaram a montanha até se transformar num planalto liso.
À medida que o nível do mar subiu, depois da Idade do Gelo,
as Bermudas permaneceram, uma ilha no topo de uma montanha submarina.
Hoje, os recifes amontoam-se nas encostas deste antigo vulcão
e rodeiam agora a maior parte das Bermudas.
Os recifes são uma barreira natural e protegem-nos da fúria do mar,
mas foram um destino triste para muitos marinheiros.
Estes recifes são potencialmente mortíferos para a navegação
mas é o que vive neles que representa uma ameaça ainda mais traiçoeira.
Localmente são conhecidas como “caldeiras” ou "breakers".
São formadas por um tipo de alga rochosa
e pelas conchas de milhões de pequenos moluscos.
Em conjunto criam uma estrutura de calcário, incrivelmente dura
que pode crescer até 35 m do fundo do mar
com o topo a atingir, por vezes, a superfície na maré baixa.
Os breakers são mais duros do que o recife que os rodeia.
Por isso, sobreviveram e continuam a ser criados.
Qualquer navio que os encontre, de madeira, metal ou outro material,
sofreria um impacto forte.
Por vezes, os breakers têm pontas afiadas.
Estas são capazes de furar o casco de um navio como um abre-latas,
potencialmente afundando-o em minutos.
E podem ser ainda mais mortíferos em águas calmas.
Os breakers são irónicos, porque são mais visíveis no mar agitado.
Na verdade, são mais perigosos num dia de mar calmo.
Não os podemos ver.
São os breakers os responsáveis por grande parte dos destroços das Bermudas,
incluindo o Mary Celestia.
Esta ameaça escondida rodeia as Bermudas.
Um legado mortífero do seu passado vulcânico.
Drenar as Bermudas
ajudou a explicar as centenas de destroços encontrados aqui.
Mas este é apenas um pequeno canto do vasto triângulo
que se estende das Bermudas, no ponto norte,
até Porto Rico, a sul,
com a costa da Florida a formar a ponta ocidental.
É um voo da II Guerra Mundial, com partida da Florida,
que dá origem ao mais conhecido dos mitos do Triângulo das Bermudas.
O Flight 19, a “Patrulha Perdida”.
Uma equipa de mergulho está preparada para partir em busca da aeronave
envolvida nos eventos desconcertantes desse dia.
À medida que drenamos mais fundo,
poderemos encontrar provas que ajudem a resolver este mistério?
Dia 5 de dezembro de 1945,
cinco torpedeiros Avenger levantam voo
da Base Aérea Naval de Fort Lauderdale, Florida.
O Flight 19, nome de código,
é uma missão de treino de navegação rotineira, ao longo da costa do Atlântico.
Ao comando, o Tenente da Marinha Americana Charles Taylor,
um aviador experiente.
Comandou dezenas de missões de treino
mas não está familiarizado com este pedaço de costa em particular.
A meio da missão algo corre mal.
O Tenente Taylor comunica problemas com as suas bússolas.
Com o tempo a piorar rapidamente
depressa se perdem.
Um PBM-5 Martin Mariner parte numa missão de salvamento
para localizar o avião e guiar os pilotos de regresso.
O Mariner envia uma mensagem de rotina.
Mas depois disso, nunca mais se ouviu sinal dele.
Nenhuns destroços foram recuperados do Flight 19
ou do avião de resgate Mariner.
Todo o tipo de teorias estranhas e maravilhosas foram propostas
para explicar o desaparecimento destas aeronaves,
desde raptos alienígenas
até aos efeitos do nevoeiro eletromagnético.
O mais provável é que os pilotos se tenham simplesmente perdido,
que o combustível tenha acabado e tenham ejetado algures sobre o oceano.
O Mariner e o Flight 19 encontram problemas
algures na área que envolve as Bahamas.
Pela primeira vez, é possível drenar esta área
até cerca de 5 km de profundidade.
Drenar revela uma vasta zona subaquática, desprovida de formações,
conhecida como Planície Abissal.
É semelhante a um gigantesco deserto subaquático.
É fácil perceber por que as aeronaves nunca foram encontradas.
Mas agora, 70 anos depois,
podemos estar perto de encontrar o avião de resgate Martin Mariner.
O piloto de mergulho técnico, Mike Barnette,
especializa-se em encontrar aeronaves perdidas.
Passou anos a investigar o acidente do Flight 19.
Agora, pensa ter uma boa ideia de onde o Mariner se despenhou.
Tentei recriar o percurso do voo na minha mente,
onde pode ter ido e caído.
Comecei aqui, na base naval de Banana River,
de onde os aviões partiram.
Foram para norte, pelo Cabo Canaveral,
e depois afastaram-se da costa, para a zona de busca.
Meia hora depois da descolagem, foi vista uma explosão.
Um cargueiro disse ter visto uma explosão no ar.
Quando o navio lá chegou, não encontrou destroços.
Ou o avião afundou ou as peças foram levadas pela corrente do Golfo.
Hoje, Mike e a sua equipa partem à procura dos restos das aeronaves perdidas.
O local que vamos investigar hoje fica a 70 metros de profundidade,
a 80 quilómetros da costa.
Pensamos que é uma zona que merece ser investigada,
porque fica na região, um pouco a norte do que esperávamos,
mas a corrente do Golfo pode tê-lo levado para norte.
Pescadores locais falam de destroços nesta área,
e o Mike está à procura deles no sonar.
Passámos por cima do alvo.
É rasteiro e relativamente pequeno, o que esperamos de um avião.
Temos de nos vestir e investigar.
O alvo está a mais de 67 m de profundidade.
Mike pensa poder tratar-se de um avião
mas ainda não consegue saber se se trata do Mariner.
A visibilidade a esta profundidade é muito limitada
e uma forte corrente torna a pesquisa desafiante.
Estamos perto. Há muito peixe e os naufrágios atraem-nos.
Sabemos que estamos perto.
Subitamente, os mergulhadores avistam algo.
É a roda dianteira do avião.
E a curta distância
a fuselagem enferrujada de uma aeronave.
É um avião afundado. É interessante, tem muitas estruturas intactas.
Normalmente, com o tempo, os aviões desfazem-se no leito do mar.
Ver algo assim é espetacular.
Poderão ser estes os destroços do avião de resgate Mariner?
O próximo passo é registar qualquer pista que possa identificar a aeronave.
Avistam suportes por baixo das asas
que parecem ter sido montados para flutuadores de pontão.
Parece ter-se tratado de uma aeronave anfíbia.
As escotilhas nas laterais da fuselagem são o que esperaríamos ver num Mariner.
A forma do estabilizador frontal parece familiar aos mergulhadores
das fotografias do avião.
Tudo sugere tratar-se do avião anfíbio de resgate Mariner
mas a equipa ainda não encontrou provas definitivas.
É um avião, sem dúvida. Quero ter cuidado com o que digo,
mas tem características interessantes,
muitas coisas que esperaríamos num avião de resgate.
Quero voltar e analisar as fotografias e os vídeos.
Estou muito entusiasmado.
É algo que tem de ser investigado.
Mike precisa da opinião de um perito para identificar o avião,
por isso mostra as filmagens a um historiador de aviação,
Roy Stafford.
Roy é um antigo piloto da Marinha Americana
e uma autoridade em aeronaves militares americanas.
Este é o início do mergulho. Chegámos ao fundo
e seguimos a corrente, para encontrar os destroços.
Aqui, começamos a encontrar destroços.
Mergulhámos com a esperança de encontrar o PBM-5 Martin Mariner,
mas, ao ver algumas das características,
vemos coisas inconsistentes.
Não sabemos de que avião se trata.
Pelo sistema de travagem e pelo pneu,
seria um avião posterior à II Guerra Mundial.
Posso dizer-lhe já isso.
Obviamente, é parte do "cockpit", a parte de cima das janelas.
Roy está seguro que não se tratam dos destroços do Mariner que procuram.
Se não são os detroços do avião de resgate desaparecido, de que se trata então?
A resposta pode ajudar a resolver outro mistério do Triângulo.
Isto é importante. Esta janela pode ser para uma câmara.
Exatamente. E vemos várias no interior.
Era notórias e chamaram-nos a atenção.
- Vemos que é um bimotor. - Isso ajuda a decidir.
Só há duas possibilidades, com dois pilares, um de cada de lado.
Pode ser um RB66, que não teria razão para estar nessa região,
ou o A-3 da Marinha.
Não demora muito até que Roy identifique o tipo de avião.
É, sem dúvida, um A-3 Skywarrior.
Ao comparar a fuselagem
e os pilares por baixo das asas,
os pormenores horizontais,
o trem de aterragem é recolhido na fuselagem,
tudo isso indica que se trata de um A-3 Skywarrior.
O A-3 Skywarrior era a maior aeronave de carga lançada de um porta-aviões,
na Marinha Americana, na altura.
Os documentos da Marinha mostram que em 1960
uma delas se despenhou ao tentar aterrar num porta-aviões nesta região.
É provável tratar-se dos destroços do A-3 descobertos por Mike e pela sua equipa.
Mas o Flight 19 e o avião de resgate Mariner continuam perdidos.
A busca continua. Sabemos que está no mar,
só temos de descobrir onde.
Se drenássemos a vasta Planície Abissal em torno das Bahamas,
algures encontraríamos certamente a “patrulha perdida”.
Com base no estado de outros destroços encontrados no fundo marinho
este é o aspeto que esperaríamos depois de sete décadas no mar.
À medida que drenamos ainda mais água do Triângulo das Bermudas,
avançando mais fundo,
encontramos outros fenómenos bizarros.
Nas Bahamas, relatos antigos falam de monstros marinhos
escondidos em grutas submersas.
Criaturas que consomem pessoas e navios.
Agora, cientistas descobrem a verdade extraordinária
por detrás destas lendas.
Apenas a 80 km da costa da Florida,
no ponto mais ocidental do Triângulo das Bermudas,
estão as Bahamas.
Um arquipélago com mais de 700 ilhas.
É aqui que encontramos
uma das forças naturais mais misteriosas do Triângulo.
Redemoinhos que, segundo lendas locais,
são capazes de afundar pessoas e navios.
Com os oceanos drenados até cerca de 5 km,
uma paisagem deslumbrante revela-se.
As Bahamas estão no topo de um vasto planalto calcário
que se eleva do leito marinho.
É conhecido como o Grande Banco da Bahamas.
Penhascos mais altos do que quaisquer outros encontrados em terra,
elevam-se a quase 4 600 m,
cerca de três vezes a altura do Grand Canyon.
Mais próximo da linha da costa, outro fenómeno.
Algumas das mais estranhas formações rochosas encontradas no mundo.
São chamados de Buracos Azuis.
Gigantescas cavernas submarinas
que se estendem por centenas de metros.
O Buraco Azul de Dean é o maior e mais profundo de todos.
Tom Iliffe é um dos peritos mundiais em Buracos Azuis
e conhece bem os perigos.
Houve casos em que se aproximam demasiado da berma
e há uma inclinação muito íngreme de areia, que vai dar ao buraco.
Se não tiverem cuidado, podem dar um passo a mais
e deslizam para dentro do buraco.
Ao longo dos anos, o Buraco Azul de Dean tirou várias vidas.
Os nativos mantém a distância,
alertados por relatos sobrenaturais.
Nas Bahamas, há muitas histórias e lendas
sobre os buracos azuis.
Uma delas diz que um monstro, Luska, vive no buraco azul,
e a água que entra e sai é o Luska, esse monstro,
que inspira e expira a água.
Há histórias de navios que se aproximam do buraco azul
e que são sugados pela inspiração do Luska.
Tom observou redemoinhos no Buraco Azul de Dean
tal como os descritos em lendas.
Quando a maré sobe, vi até três turbilhões,
ou remoinhos, a sugar a água para a gruta.
Tom está ansioso por encontrar
uma explicação racional para este estranho fenómeno.
Há um efeito de maré em ação, mas poderá haver outras forças
a operar nas profundezas inexploradas do Buraco Azul?
A única forma de descobrir é mergulhar.
Tom tem explorado Buracos Azuis nas Bahamas durante mais de 20 anos
e nunca deixam de impressionar.
São portais para outro mundo.
Quando mergulhamos aqui, visitamos um lugar sem igual.
Os Buracos Azuis são uma formação pouco comum
que os geólogos pensam agora compreender.
Na última Idade do Gelo, os níveis marinhos eram inferiores.
Nessa altura, todo este calcário estava exposto.
Água ácida das chuvas infiltrou-se no calcário,
desgastando grandes vazios na rocha.
Eventualmente, o teto destes vazios colapsou,
criando a forma em garrafa típica dos Buracos Azuis.
Com a subida do nível do mar no final da Idade do Gelo,
toda a formação foi submersa.
À medida que Tom mergulha no Buraco Azul de Dean,
este alarga subitamente.
Quando chegamos aos 18 metros de profundidade,
temos uma câmara com uns 45 metros de largura.
À medida que descemos, aos 25 metros de profundidade,
a câmara tem o dobro da largura,
com cerca de 90 metros.
Depois, a 36 m de profundidade,
Tom encontra o que parecem ser túneis laterais
que se ramificam a partir do túnel central.
São pequenos mas exercem uma poderosa força de sucção.
Têm correntes fortes, que nos tentam sugar.
Avançámos pouco,
mas, no regresso, tivemos de nos puxar, literalmente,
para conseguirmos sair.
A 46 m de profundidade, Tom está no limite para este mergulho.
Nunca se aventurou mais fundo.
Um número pequeno de especialistas tentaram-no,
um deles descendo a uns impressionantes 200 m de profundidade.
Mas as profundezas permanecem amplamente inexploradas.
No entanto, sabemos o suficiente para, ao drenarmos o Buraco Azul de Dean,
revelarmos não só a vasta gruta em forma de garrafa
mas também uma rede de túneis e fissuras
nas suas profundezas.
É o fluxo de água a entrar e sair destes túneis
que cria o efeito de redemoinhos,
e não os monstros marinhos míticos.
Sem água, o Buraco Azul de Dean
é uma estrutura geológica ominosa, no entanto, totalmente natural.
Talvez, os Buracos Azuis das Bahamas estejam a ceder os seus segredos,
mas ainda há muitos outros fenómenos por explicar no Triângulo das Bermudas.
Estranhos relatos de muralhas de água gigantescas que aparecem do nada.
E uma substância que cobre o leito marinho
com o potencial para destruir navios.
Março de 1918.
Um navio cargueiro, da Marinha Americana, parte dos Barbados.
O USS Cyclops é um enorme cargueiro de 19 mil toneladas.
Transporta uma carga de um minério de manganês
e tem a bordo 309 homens.
A um dia de viajem do porto, ao entrar em algumas das águas mais profundas
em toda a área do Triângulo das Bermudas.
O Cyclops desaparece simplesmente.
Nenhum vestígio do enorme navio ou da sua tripulação foi recuperado.
Para Marvin Barrash, a história está marcada pela tragédia pessoal.
O meu tio-avô, Lawrence Merkel, era bombeiro a bordo do navio.
Tinha 20 e poucos anos e foi um dos 309 a desaparecer.
Quando um navio desaparece, costumamos encontrar algo.
Pode ser parte de um salva-vidas,
carga ou um bocado de destroço, acaba por aparecer alguma coisa.
Neste caso, não apareceu nada.
A falta de detritos rapidamente originou teorias descabidas.
Surgiram várias histórias bizarras.
Um jornal de Washington DC dizia
que foi invadido e transformado num navio pirata,
que se encontrava na Amazónia.
Outros diziam que foi eliminado por um submarino alemão,
ou até por um ser marinho gigantesco, como um polvo.
Houve imagens desses incidentes em alguns jornais do país.
Marvin adotou como objetivo de vida
descobrir o que realmente aconteceu ao Cyclops.
Examinou todos os documentos e registos ligados a este navio.
Demorou décadas de meticulosa pesquisa
mas agora acredita ternidentificado uma falha fatal no navio.
Chegou a ser o maior e mais rápido navio da Marinha dos EUA.
Tinha um fundo plano e virava facilmente.
Num dia, virou cerca de 50 graus, para um lado,
e 40 e muitos para o outro lado.
Em muitos navios,
isso teria sido uma catástrofe.
Dada a tendência do navio para virar,
terá acontecido algo para o tombar?
Algo extraordinário?
Durante séculos, marinheiros têm contado relatos de escarcéus.
Enormes muralhas de água que aparecem do nada
devastando qualquer navio no seu caminho.
A ideia dos escarcéus faz parte das lendas há centenas de anos.
Os marinheiros voltam e dizem ter visto essas ondas,
terem sobrevivido a escarcéus.
Segundo o Dr. Simon Boxall,
estes velhos relatos do mar não podem continuar a ser ignorados.
Com satélites, podemos observar o mundo inteiro em poucos dias.
Ao longo dos últimos 20 anos,
observámos e medimos grandes vagas,
que, em certos casos, têm mais de 30 metros.
Elas existem.
Ondas gigantes têm, ocasionalmente, sido captadas em vídeo.
Esta, no inverno de 2012,
embateu contra uma embarcação de resposta de emergência no Mar do Norte.
Dados os padrões climáticos extremos do Triângulo das Bermudas,
poderão escarcéus, de escala semelhante, ocorrer aqui?
Temos o Atlântico Norte, tempestades equatoriais
e furacões frequentes.
E temos tempestades que vêm do Golfo do México.
Tudo isso se une para criar
um mar muito confuso e turbulento, com escarcéus.
Terão os turbulentos mares do Triângulo,
produzido uma onda suficientemente grande para afundar o Cyclops?
Há muito que se pensa no Triângulo das Bermudas
como um local de mistérios.
Agora, usamos tecnologia de ponta para o drenar,
camada a camada,
dissipar os mitos e descobrir o que realmente se passa.
Mas, por vezes, apenas a ciência experimental
é suficiente de abordar enigmas há muito estabelecidos.
Na Universidade de Plymouth no sul de Inglaterra,
o tanque de ondas do Laboratório COAST
é um dos mais avançados tanques de ondas do Reino Unido.
Pode simular uma grande variedade das condições oceânicas
que ocorrem no Triângulo das Bermudas.
Os cientistas estão a levar o conceito de escarcéus
ou ondas gigantes muito a sério.
Vamos focar-nos nos 16 metros.
Hoje, os oceanógrafos conduzem uma experiência
para determinar se um escarcéu poderia ter afundado uma embarcação
como o navio desaparecido da Marinha Americana, o Cyclops.
A equipa lança um modelo à escala, comparável em tamanho ao Cyclops.
Vão colocá-lo diretamente no caminho de um escarcéu.
Primeiro, geram um padrão normal de ondas.
Com ondas equivalentes a cerca de 7,6 m, a embarcação permanece estável.
Mas, quando simulam o impacto de duas frentes de tempestade convergentes
rapidamente se dá interferência no padrão de ondas.
Subitamente, saído do nada,
um escarcéu.
É o equivalente a uma onda com mais de 15 m de altura
e o seu impacto no modelo à escala é demasiado evidente.
Há provas de que um escarcéu possa ter afundado o Cyclops.
Mas há outro fenómeno bizarro que poderia ser responsável pela perda do navio.
Para o vermos, precisamos drenar ainda mais água do Triângulo das Bermudas.
No leito marinho, a profundidades abaixo de 335 m,
podem ser encontrados depósitos de um estranho material, leitoso e ceroso.
Um único pedaço pode cobrir uma área maior do que Manhattan.
Trata-se de hidrato de metano.
Esses hidratos de metano formam-se quando o material da superfície,
material orgânico, peixe e plantas mortos e plâncton,
afunda até ao leito
e é decomposto por bactérias e micróbios.
Estas filmagens mostram aglomerados de hidrato de metano no leito marinho.
O metano também pode ficar preso em bolsas
abaixo da superfície do fundo do oceano.
Em 1981, no Mar do Sul da China,
um navio de perfuração atingiu uma bolsa de gás superficial
causando uma libertação.
À medida que o gás subiu à superfície, tornou o navio instável,
levando-o a virar e eventualmente naufragar.
Qualquer perturbação de grande escala no leito marinho,
tal como um terremoto ou derrocada,
poderia deslocar blocos substanciais de hidrato de metano
que se transformariam em gás à medida que flutuam até à superfície.
Uma libertação de hidrato de metano
poderia ter levado o USS Cyclops virar.
Especialmente, tendo em conta que a sua construção o deixa vulnerável a tal.
A única maneira de determinar o que realmente aconteceu ao navio
é encontrar os seus destroços.
Estudei o que pude sobre
a distância que o navio pode ter percorrido
e creio que estava a um dia do porto.
Deve ter afundado a noroeste de Porto Rico.
Marvin tem esperança que os destroços possam ser encontrados um dia.
Encontrar a última morada do Cyclops, do meu tio-avô
e de todos os que serviram com ele seria muito importante.
Se os cálculos do Marvin estão corretos,
o navio não será fácil de recuperar.
Drenar a área revela uma fossa
com cerca de 8 km de profundidade.
A Fossa de Porto Rico.
É aqui que o Triângulo atinge o seu ponto mais profundo.
De facto, é o pronto mais profundo do Atlântico.
À medida que os cientistas exploram estas enorme formação submarina
descobrem que pode esconder
o mais mortífero de todos os segredos do Triângulo das Bermudas.
A origem de um potencialmente devastador tsunami.
A parte mais profunda do Triângulo das Bermudas,
a Fossa de Porto Rico,
pode esconder o seu segredo mais mortífero.
Os cientistas apressam-se a explorar as regiões mais inacessíveis destas águas.
Aqui, nos laboratórios de Remote Imaging da National Geographic Society,
desenvolveram uma nova tecnologia para filmar o oceano profundo.
Chama-se drop cam.
Perfeito. Está pronto.
Após anos de desenvolvimento,
Eric Berkenpas, engenheiro chefe,
está preparado para testar a sua câmara no oceano ao largo do Chile.
Não é propulsionada. Um peso puxa a câmara para o fundo.
Ainda sentíamos um nó na barriga, quando a lançámos ao mar.
Quando a equipa a lançou na Fossa de Porto Rico
demorou uma hora e meia para percorrer os 8 km até ao fundo.
Foi programada para passar várias horas no leito do oceano,
depois voltar à superfície e transmitir a sua posição.
Sentimos um grande alívio
quando ouvimos o sinal VHF no transmissor de rádio
e vemos a posição no satélite.
Estas são das primeiras imagens do fundo da Fossa de Porto Rico,
8 km abaixo.
O projeto deu-nos uma janela
para uma das grandes regiões inexploradas do planeta Terra.
Mas as suas imagens são uma espécie de retratos instantâneos,
captando, de cada vez, uma área de apenas alguns quilómetros quadrados.
Para drenarmos toda a Fossa de Porto Rico, precisamos de muito mais dados.
O cientista do Levantamento Geológico dos Estados Unidos, Uri ten Brink,
está a tentar mapear toda a formação
e acredita que há uma necessidade urgente para tal.
Começámos a investigar esta fossa
porque é muito semelhante, geometricamente, à fossa de Samatra,
onde aconteceu o sismo e o tsunami de 2004.
Foi uma grande preocupação aqui,
porque um sismo de magnitude 9 na fossa de Porto Rico
pode causar um tsunami
que atinge a Costa Leste dos EUA e até a Europa.
A equipa de Uri lança veículos subaquáticos remotamente operados,
os chamados ROV,
para analisarem a fossa e investigarem o nível de ameaça de tsunami.
Os ROV disparam pulsos de sonar
para obter as leituras mais precisas.
O seu mapeamento 3D revela a imensidão
dos vastos desfiladeiros subaquáticos.
Em alguns dos vales e fendas,
há, por vezes, paredes que podem ter mil metros de altura.
Há muito que os geólogos sabem que a fossa se formou
quando a placa tectónica Norte-Americana
subductou por baixo da Placa das Caraíbas,
simultaneamente deslizando ao longo dela.
Mas o que os novos dados sugerem
é que este terreno pode ser propenso a deslizamentos de terra subaquáticos.
Podem mover rochas em áreas com centenas de quilómetros quadrados,
do tamanho de cidades grandes e maiores.
As rochas podem ter 200 metros ou mais de espessura.
No total, falamos de 10 a 20 km ao cubo, por vezes.
Portanto, um deslizamento desta escala
pode ameaçar o leste dos EUA com um tsunami,
tal como Uri receava.
Pensamos em Boston, Charleston, Baltimore.
Pensamos nas centrais nucleares que existem ao longo da costa.
Temos de nos preparar.
O impacto aterrador de um tsunami,
numa central nuclear mal preparada,
é agora bem compreendido,
depois do desastre de Fukushima, em 2011.
Para que um tsunami equivalente atinja os EUA
terá de haver um terremoto de magnitude 9 na fossa.
Para compreender as probabilidades de um terremoto desta escala,
a equipa de Uri recolheu amostras de rochas do fundo da fossa
e analisou-as em laboratório.
O que descobriram servirá de alívio
a quem viver na costa este.
Para quem viver perto da fossa poderá revelar-se perigoso.
Pelo que analisámos,
não sabemos se será capaz de produzir sismos tão fortes.
Não digo que não é capaz de produzir sismos fortes,
de magnitude 8 a 8,5, isso pode acontecer.
Podem não atingir a Costa Leste dos EUA,
mas causarão muitos estragos nas Caraíbas.
Também é possível que um terremoto centrado na fossa
desencadeie uma libertação de hidrato de metano,
mais uma pista de que estas talvez sejam responsáveis
por alguns dos notáveis desaparecimentos da região.
Os dados completos de Uri, permitem drenar
800 km da Fossa de Porto Rico.
Dada a sua vasta escala e profundidade imensa,
não é surpresa que muitos dos navios e aviões desaparecidos no Triângulo
continuem perdidos.
Há penhascos espetaculares
com vários quilómetros de altura.
É uma paisagem verdadeiramente magnífica
no fundo do Oceano Atlântico.
A 8 km de profundidade.
Drenar o Triângulo das Bermudas
mostrou-nos, pela primeira vez,
um vasto leque de terreno variado.
Incluindo algumas das formações mais estranhas
que existem nos nossos oceanos.
Os mitos e lendas do Triângulo são persistentes e têm raízes profundas.
Mesmo assim descobrimos que os perigos apresentados por esta região
não provém de fenómenos sobrenaturais.
Mas sim de forças reais e mortíferas
da própria Mãe Natureza.
Tradução e Legendagem Ana Rita Santos
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