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Alcatraz. O Rochedo.
A prisão mais infame da Terra.
Alcatraz foi a prisão perfeita para a época,
era a grande arma contra o crime.
Os piores da América: Al Capone,
"Machine Gun" Kelly e Whitey Bulger estiveram aqui presos.
A ilha está apenas a dois quilómetros de terra,
mas era quase impossível escapar.
Os prisioneiros que tentaram enfrentaram águas gélidas,
correntes fatais, nevoeiro desorientador
e predadores temíveis.
Para compreender estas forças perigosas,
uma nova investigação irá vasculhar o fundo do mar
e drenar a água da Baía de São Francisco.
Revelará os segredos do mar com imagens computadorizadas incríveis.
Conseguirá o mundo subaquático explicar
a reputação do Rochedo de prisão inescapável?
Em 1962, três homens fugiram de Alcatraz.
Drenar a Baía irá explicar o que lhes aconteceu?
Lançaram-se à água na zona norte,
partiram numa jangada e nunca mais foram vistos.
Terão alcançado terra e a liberdade?
Ou terão as correntes ferozes moldadas pelo leito do mar
decidido o seu destino?
Poderá a paisagem subaquática mostrar porque Alcatraz
poderá ser o sítio mais seguro
quando o próximo terramoto atingir a Califórnia?
Que segredos serão revelados quando drenarmos Alcatraz?
DRENAR ALCATRAZ
A ilha de Alcatraz está isolada no meio da Baía de São Francisco.
Uma grande massa de água, na costa oeste dos EUA.
Nesta paisagem dramática,
Alcatraz e os resquícios da famosa prisão federal dos EUA
estão a pouco mais de dois quilómetros do centro da cidade.
Durante 29 anos,
reteve alguns dos criminosos mais perigosos e infames da História.
Alcatraz era o fim da linha e foi construída para isso.
Era o sítio para onde levavam e isolavam os arruaceiros,
líderes de gangues, os mais problemáticos.
Os presos mais arruaceiros iam para Alcatraz.
Oficialmente, ninguém conseguiu fugir com sucesso do Rochedo.
Mas por que razão, preso algum conseguiu escapar de Alcatraz?
Para responder a isto,
usaremos leituras de sonar de alta resolução
para "ver" as profundidades escondidas da Baía de S. Francisco.
Pela primeira vez, imagens computadorizadas de ponta
transformam as leituras em imagens incríveis do fundo do mar.
É Alcatraz como nunca vista.
Agora, a ilha é um museu gerido pelo Serviço Nacional de Parques.
Mais de um milhão de pessoas visitam-na anualmente.
Um homem viu-a tornar-se numa das atrações mais visitadas de sempre.
O ranger John Cantwell trabalha na ilha há mais de 25 anos.
Ele conhece a sua história.
Usamos uma expressão em Alcatraz: "camadas de história".
A primeira camada seria quando o Exército esteve em Alcatraz.
Chegou em 1853 e construiu uma fortaleza para proteger o porto.
O Departamento Federal das Prisões assume o controlo em 1934
e geriu a ilha durante 29 anos como uma prisão de segurança máxima.
A justiça americana reservava Alcatraz para os piores dos piores.
A prisão foi fortificada para garantir que não saíam daqui.
Estou na Broadway, o corredor principal das celas.
Como era uma prisão de segurança máxima,
havia muita segurança. Um agente por cada três presos.
Eram vigiados constantemente.
Contavam os reclusos desta prisão 12 vezes por dia.
As fugas eram suprimidas com força extrema.
Mas fugir era uma tentação constante.
A liberdade estava a umas braçadas de distância.
O castigo de Alcatraz era este,
ver o que se passava do outro lado da Baía.
Está tudo à vista
e os homens que estavam encarcerados em Alcatraz podiam vê-lo.
Todos os que cumpriram pena aqui pensaram em como escapar.
A liberdade parecia tão perto que para alguns era irresistível.
O número oficial de tentativas de fuga é 14.
Cinco homens não foram encontrados.
Para escapar da ilha,
os reclusos tinha de fugir da prisão primeiro.
Uma das tentativas de fuga mais famosas
será a de Roe e Cole em 1937.
Cortaram as janelas e saltaram para a Baía de São Francisco.
Andaram barcos à procura deles e nunca os encontraram.
A versão oficial é que foram levados para o mar.
Correntes poderosas não eram o único perigo
que esperava os fugitivos.
As histórias de Alcatraz referem que havia tubarões na Baía.
Em 1959, um estudante foi aqui morto por um grande-tubarão-branco.
Em 2015, a lenda do tubarão de Alcatraz foi filmada
quando turistas viram um tubarão atacar uma foca no cais da ilha.
Mas o medo dos tubarões não impedia as tentativas de fuga.
E estas tornaram-se mais fáceis
quando a estrutura de Alcatraz começou a desfazer-se.
O edifício estava a envelhecer. O cimento começa a rachar e lascar,
aço e arame farpado enferrujam.
É quase impossível fazer uma prisão à prova de fugas.
No ano anterior ao encerramento da prisão,
houve duas tentativas notáveis.
Em 1962, dois homens chegaram à água.
John Paul Scott e Darl Parker
fugiram pela cave do prédio da prisão.
Cortaram duas barras da janela da cave, saíram por aí.
Seguiram através dos tubos,
subiram de gatas até ao telhado da zona das celas,
e desceram pela parede oeste da ilha de Alcatraz.
Desceram por esta estrada e lançaram-se à água.
Encontraram Darl Parker naquela pedra.
Uma pequena Alcatraz a 47 metros da zona norte
a acenar ao guarda e a dizer para o ir buscar.
Mas encontraram John Paul Scott ao pé da ponte Golden Gate.
John Paul Scott foi oficialmente o único recluso
a ter atravessado a Baía a nado.
Mas estava tão exausto quando o encontraram
que foi logo enviado de volta para Alcatraz.
Houve outra tentativa de fuga em 1962,
a mais conhecida da história da prisão.
Três reclusos: Frank Morris e os irmãos Clarence e John Anglin
planearam a fuga durante meses
e conseguiram abandonar a ilha numa jangada feita por eles.
Mas nunca mais foram vistos.
O caso continua aberto. O registo diz que ter-se-ão afogado.
É um dos grandes mistérios de Alcatraz.
Terão sido Morris e os irmãos Anglin
os únicos a alcançar a liberdade?
Alcatraz fechou na primavera de 1963.
Oficialmente, ninguém escapou com sucesso.
Mas o seu poderio enquanto prisão
não pode ser explicado apenas pela grossura das paredes
nem pela vigilância dos guardas.
As águas à volta do Rochedo também eram uma barreira mortífera
para escapar.
A Ciência já consegue explicar como e porquê a Baía era tão perigosa.
Imaginem poder esvaziar a Baía
e drenar a água à volta de Alcatraz.
Pela primeira vez, combinamos leituras de sonar de alta definição
com imagens computadorizadas de ponta
para mostrar o mundo escondido do fundo do mar
e a paisagem notável.
Finalmente, temos uma vista desimpedida de Alcatraz.
É um rochedo que nasce na Baía de São Francisco.
Está isolado, mas vê-se bem da costa.
Conseguimos tocar-lhe, mas fica a dois quilómetros.
Drenando a Baía vemos Alcatraz como um pináculo rochoso
que surge do fundo do mar.
Está rodeado de picos montanhosos.
São todos antigos sobreviventes de uma época de terramotos.
Tom Parsons é um geofísico
do Serviço Geológico dos Estados Unidos.
Estudou esta zona durante décadas.
Estamos no Golden Gate,
sobre montanhas formadas há 100 milhões de anos.
Estamos entre as falhas paralelas de Santo André e Hayward,
ambas ajudam a acomodar o movimento de placas
entre as placas tectónicas do Pacífico e Norte-Americana.
São Francisco fica no limite da placa Norte-Americana.
Quando a placa do Pacífico passa por ela indo para norte
acumula-se tensão nas maiores falhas da zona:
A falha de Hayward e, mais visivelmente, a de Santo André.
Esta zona é muito volátil, cria grandes terramotos.
Já os vimos em 1906, 1868.
Foram terramotos devastadores para São Francisco.
Os efeitos terríveis do terramoto de 1906,
7,9 na Escala de Richter,
são recordação de como a geologia violenta da zona
ameaça a existência de uma grande cidade.
Há mais de 100 milhões de anos,
a paisagem era completamente diferente.
Havia uma terceira placa entre as duas maiores
chamada Farallon.
A Farallon ficava entre as placas do Pacífico e da América do Norte.
Foi empurrada ao longo do tempo para debaixo da placa Norte-Americana.
O movimento da Farallon
foi o catalisador que criou a Baía de São Francisco e Alcatraz
enquanto se alojava sob a placa Norte-Americana.
Este processo chama-se subducção.
Enquanto a Farallon desaparecia
fragmentos da crosta terrestre eram empurrados para cima
criando um vale e montanhas.
Alcatraz fazia parte da zona costeira
que subiu com a subducção da placa Farallon.
A zona da Baía era um vale florestal
com várias montanhas rochosas.
Uma destas montanhas era Alcatraz.
Há 10 mil anos, com o fim da última era glaciar
a zona foi inundada por milhares de milhões de litros de água derretida
criando o que chamamos a Baía de São Francisco.
Alcatraz tornou-se numa ilha.
Esta fotografia de 1853,
mostra a ponta da montanha afogada como um rochedo no meio da Baía.
Alcatraz pode parecer tranquila e isolada,
mas está rodeada de forças naturais poderosas.
Drenando a Baía,
explicamos porque a ilha ganhou uma reputação fatal
e o que terá acontecido na fuga de 1962 de Alcatraz.
Vamos tirar a tampa à Baía de São Francisco, drenar a água
e descobrir porque era tão perigoso escapar de Alcatraz.
Durante mais de três décadas, houve 14 tentativas de fuga.
Uma delas tornou-se lendária.
A tentativa mais famosa deverá ser a fuga de 1962.
Frank Lee Morris e os irmãos Charles e John Anglin
correram um risco audacioso pela liberdade.
A tentativa de fuga foi muito engenhosa.
Implicou roubar imenso material.
Dúzias de gabardinas de plástico,
cola, motores elétricos para serem transformados em berbequins.
Eles fizeram um periscópio, uma lanterna.
Tinham de usar estas ferramentas caseiras para fugir da prisão.
A abrir!
Estamos na cela de um dos irmãos Anglin.
Foram engenhosos e criaram uma porta nas traseiras da cela.
Criaram um berbequim com o motor de um aspirador,
meteram uma broca na ponta
e fizeram buracos no cimento para o libertar à volta do ventilador.
Cabeças de bonecos eram feitas de cimento,
colaram cabelo humano nas cabeças e pintaram o rosto.
Com as luzes apagas, parecia que estavam a dormir na cela.
Na zona das celas, as luzes apagam-se às 21h30.
Foi quando fugiram.
Quando as luzes se apagam,
colocam as cabeças, sobem até ao telhado
e têm desde as 21h30 às 6h30 do dia seguinte para chegar ao continente.
Com mais de 50 gabardinas coladas umas às outras,
os fugitivos fizeram uma jangada e coletes salva-vidas.
Era o seu caminho para a liberdade.
Levaram tudo para o telhado e arrastaram-no para a borda da água.
Foi aqui que entraram na água.
Frank Lee Morris e os irmãos Anglin desceram esta encosta,
trouxeram a jangada, encheram-na aqui
sentaram-se e avançaram pela noite.
Vasculharam as águas em busca destes três homens,
mas nunca encontraram a jangada nem os homens.
Os documentos oficiais do FBI
indicam que os três homens e a jangada foram levados pelo mar.
Os corpos nunca foram recuperados.
Mas terá sido isto o que aconteceu?
Ter-se-ão perdido pelo mar? Ou chegaram ao continente?
Para compreender o destino dos três fugitivos e da jangada,
cientistas estudam a geologia da própria Baía.
Poderá o leito do mar oferecer uma resposta?
Patrick Barnard do Serviço Geológico dos Estados Unidos
explorará a paisagem aquática na entrada da Baía de S. Francisco.
Ele espera que a análise o fundo do mar
explicará as correntes fortes à volta de Alcatraz
que tornavam as fugas tão perigosas.
Vamos mapear desde a zona oeste da ponte Golden Gate até à costa.
Vai ser interessante ver o que há no leito dessa zona.
É a primeira vez que "scanners" multifeixe
são usados para explorar como o próprio leito
terá influenciado o destino dos prisioneiros.
O scanner é incrível porque filma o fundo do mar em alta resolução.
Recolhemos uma medição de metro em metro ao longo do leito.
Vemos pormenorizadamente o aspeto do fundo do mar.
Esta tecnologia espantosa
projeta milhares de ondas sonoras no leito do mar.
As ondas refletem os contornos,
dando à equipa uma visão do fundo sem precedentes.
Começam a investigação no local mais icónico de São Francisco.
Estamos por baixo da ponte,
na zona mais apertada do estreito de Golden Gate.
A roxo estão as zonas mais fundas do canal.
Têm 92 metros de profundidade, neste local.
Após várias passagens sobre o canal fundo,
o ecrã mostra uma paisagem subaquática estranha.
Estamos a ver um chão sem características.
Esta parte central do trajeto está limpa até à rocha.
Drenar a água debaixo da ponte Golden Gate,
revela um desfiladeiro imenso.
É muito mais fundo que o resto da Baía.
Grande o suficiente para esconder um prédio de 30 andares.
Mas o que acontece ao fundo do mar
quando o "scanner" multifeixe se dirige para o oceano?
Agora estamos a mais de um quilómetro a oeste da ponte.
Mas o fundo continua a ser só pedra.
Quanto mais longe da ponte,
menos funda fica a água.
A leituras do sonar sugerem uma transformação dramática
na paisagem subaquática.
O fundo está a mudar, vemos muitos mais sedimentos.
Remover a água revela uma visão incrível.
Estamos a ver umas dunas muito grandes
a surgir das profundezas do estreito de Golden Gate.
Estas formações no fundo do mar são enormes.
As dunas maiores medem cerca de 200 m de comprimento,
6 m de altura. As maiores chegam aos 10 metros.
Ficam a poucos metros da entrada do porto.
Se andássemos por ali, pareceria o Saara.
Estas dunas gigantes são causadas pela força das marés
do estreito de Golden Gate.
A água rápida recolhe areia e solta-a quando abranda.
As dunas no monte da Baía de São Francisco existem
porque temos um estuário grande e toda a corrente associada a isso,
cerca de dois triliões de litros de água passam ali em cada maré.
A força das marés empurra água pelo canal estreito.
A pedra sólida do desfiladeiro não se desgasta.
O estreito funciona como uma mangueira quando a água sai.
E o fluxo é 160 vezes maior
que o volume de água que cai nas Cataratas do Niágara.
Temos areia e terra a serem levadas por uma passagem estreita
e quando se alarga
o material fica depositado no leito.
A paisagem drenada mostra como a geologia do leito do mar
influencia as fortes correntes da Baía de São Francisco.
O desfiladeiro afunila a água tornando-a numa corrente de jato.
Indo para oeste, além da ponte, seguimos o fundo do mar
enquanto este passa de 100 metros de profundidade para apenas 40.
A drenagem mostra como as correntes libertam toneladas de areia,
criando dunas gigantes com até 10 metros de altura.
Mas o que esta paisagem subaquática do Golden Gate
tem a ver com as fugas de Alcatraz?
Os reclusos tinham de enfrentar estas correntes velozes
ao fugir do Rochedo.
Terão Frank Morris e os irmãos Anglin
sido apanhados por estas correntes malditas?
Os registos da investigação do FBI de 1962
mostram as tabelas das marés de 11 de junho.
Das 21h às 3 da manhã houve uma forte maré vazante
que atingiu o pico às 23h46.
Quando se terão lançado à água os fugitivos
na sua jangada improvisada?
Assim que as luzes se apagaram, às 21h30,
assim que puderam saíram das celas,
gastaram cerca de hora e meia a levar tudo o que precisavam
pelo ventilador até ao telhado,
desceram pelo outro lado e lançaram-se à água.
Creio que começaram a remar assim que entraram na água.
Digamos que pelas 23 horas.
Os três reclusos estariam na água no pico da maré,
enquanto esta baixava e ia para o mar.
O que aconteceria se a sua jangada feita de gabardinas se rompesse
e eles tivessem de nadar pelas fortes correntes?
Se tentassem escapar pela zona norte da ilha,
principalmente durante a maré vazante, como em 1962,
quando as correntes são extremamente fortes e vão para o mar,
seria muito difícil fugir daquela corrente a nado.
Hora e meia depois estariam no mar alto.
Morris e os irmãos Anglin tiveram de lutar
contra a corrente mais rápida e mortífera da Baía.
E estas correntes não são misericordiosas.
Já destruíram embarcações maiores que uma jangada.
A Baía de São Francisco é um cemitério de barcos.
Drenar a Baía de São Francisco
revelou um desfiladeiro imponente sob a ponte Golden Gate
e dunas gigantes que surgem no leito do mar.
São provas do imenso fluxo de água que atravessa a Baía.
A quatro quilómetros a este da ponte está Alcatraz.
Este é um bom exemplo das marés à volta da ilha de Alcatraz.
Esta maré deve ir a uma velocidade de cinco nós.
É possível nadar de Alcatraz até ao continente.
Mas apenas durante o breve período em que as marés viram
e a corrente abranda.
Já nadei este percurso com a água calma
e não me apanham aqui a tentar chegar a São Francisco.
Correntes ferozes eram apenas um dos desafios
dos presos que tentavam fugir.
Havia outros perigos mortíferos.
Bill Baker é dos poucos reclusos vivos de Alcatraz.
Foi enviado para o Rochedo durante três anos em 1957,
após ter tentado fugir de outras prisões.
Mas escapar de Alcatraz era outra história.
Pensei muito nisso, mas não descobri maneira de vencer a água
porque a água mata por estar fria.
Aquela água é o muro que nos mantinha aqui
e matou muita gente que tentou escapar.
E torna-se muito desagradável
após olharmos para ela.
A água gélida que assustou Bill Baker
é causada pelo surgimento de correntes frias do oceano profundo.
Estas substituem as águas superficiais mais quentes
que são levadas pelos ventos fortes da Baía de São Francisco.
A temperatura média vai de uns gélidos 11
a 16 graus Celsius.
Nestas condições, a hipotermia venceria qualquer nadador.
Mas quando a água fria se mistura com ar quente,
cria outro assassino que invade silenciosamente a Baía:
o nevoeiro.
O nevoeiro espesso pode ser amigo do recluso
escondendo a fuga de Alcatraz.
Em 1937, dois homens fugiram
do edifício industrial para o nevoeiro.
Fugiram entre as contagens.
Tinham 45 minutos até os agentes descobrirem que tinham fugido.
Para Ralph Roe e Ted Cole,
o nevoeiro encobria-os assim que saíssem da ilha.
Mas a brancura também era uma ameaça.
Se alguém escapasse para a Baía com nevoeiro
seria uma situação impossível,
muito perigosa e desorientadora.
Seria o pior que poderia acontecer
a alguém que quisesse escapar.
Jan Null sabe tudo sobre nevoeiro.
É meteorologista local de São Francisco há anos.
Mas o nevoeiro está tão presente nesta parte do mundo porquê?
O mecanismo que cria o nevoeiro de São Francisco
é a circulação da brisa marinha.
Quando esse ar passa sobre a água gélida da costa da Califórnia
condensa, forma a brisa marinha,
o nevoeiro que se espalha para o continente.
O nevoeiro só chega a São Francisco por uma zona.
A única folga ao nível do mar para o nevoeiro passar
é o Golden Gate.
É nessa zona que haverá mais nevoeiro.
Concentra-se na ponte, vai para Alcatraz e para Berkley.
Quando Roe e Cole escaparam,
depressa desapareceram no meio da brancura.
Foi em dezembro, estava frio.
Uma testemunha viu-os.
Disse que os viu na água a serem levados.
Tenho quase certeza absoluta de que não sobreviveram.
O nevoeiro denso impossibilitou o salvamento.
Roe e Cole nunca mais foram vistos.
O FBI especulou que terão morrido na água gélida.
O nevoeiro da Baía de São Francisco
e as correntes muito rápidas são uma combinação fatal.
Ao retirar a água vemos os resultados desta mistura fatal.
Há artefactos fantasmagóricos ao longo do fundo do mar,
dúzias de barcos afundados.
A Baía de São Francisco é um cemitério de barcos perdidos.
Há um, a este da ponte de Golden Gate,
ao lado do desfiladeiro, com uma história trágica para contar.
Os destroços pertencem ao City of Chester.
Mas como aqui chegou?
Agosto de 1888.
O City of Chester dirigia-se para o estreito de Golden Gate.
Em agosto temos nevoeiros densos por aqui.
Estava nevoeiro, ele ia para o estreito,
quando um grande transatlântico ia a entrar.
Era muito maior, muito mais rápido.
Agora, 130 anos depois,
o historiador do Parque Nacional Steve Haller
e o arqueólogo Peter Gavette procuram a embarcação perdida.
O City of Chester afundou-se num instante,
em cerca de 60 metros de água.
Estamos sobre o local onde está.
A sonda multifeixe permite visualizar a embarcação afundada.
Conseguimos ver a grande estrutura. Aqui é a popa.
É fantástico que o City of Chester não esteja coberto de sedimentos.
Com a informação do scanner
podemos ver o naufrágio do City of Chester como aconteceu.
Usando informação do "scanner",
podemos limpar os restos do City of Chester.
Mostrará provas de como aconteceu o desastre?
Conseguimos ver onde foi feito o dano fatal ao navio
e vemos como esta parte da proa
está despegada do resto do navio. Partiu a quilha.
O navio drenado é a cena do crime,
mostrando provas nítidas do seu destino.
Conseguimos ver onde foi atingido,
mesmo a bombordo, mesmo ao pé da proa
e quase se partiu em dois.
No meio do nevoeiro, o City of Chester
e o transatlântico Oceanic da White Star
estavam em rota de colisão.
Só se viram quando já era tarde demais.
Correntes poderosas levaram-nos um contra o outro.
O City of Chester segue para bombordo,
o Oceanic acerta-lhe de lado,
é uma embarcação muito maior, e parte-lhe o casco.
O pequeno navio ficou ferido fatalmente.
O City of Chester afundou-se em seis minutos,
matando 16 tripulantes.
É um de muitos náufragos
do fundo da Baía de São Francisco.
Resultado das forças naturais extremas
que tornam esta Baía tão perigosa.
São as mesmas forças que os fugitivos de Alcatraz
tinham de enfrentar.
Os mais famosos: Frank Morris e os irmãos Anglin,
que escaparam da prisão a 11 de junho de 1962.
Quais as suas hipóteses nestas condições?
Se pensarmos nos dois navios
e na situação em que um corta o outro ao meio,
quais as hipóteses de três homens num barco de borracha a esvaziar-se?
Mas poderão as correntes fortes da Baía ter ajudado os fugitivos?
Poderão ter sido empurrados para terra e para a liberdade?
Em 1962,
três reclusos embarcaram numa fuga lendária de Alcatraz
numa jangada improvisada.
Desde então, houve rumores muito distintos sobre o seu destino.
Há quem diga que os viu no continente,
mas isso vai contra o relatório oficial do FBI,
que refere que o seu objetivo era Angel Island.
Uma viagem de três quilómetros a norte de Alcatraz.
Eles fizeram o que ninguém tinha conseguido:
saíram da ilha com vantagem
e nunca mais foram vistos.
O relatório oficial sobre estes três homens
diz que começou a entrar água na jangada,
eles estavam na Baía de São Francisco,
ficaram hipotérmicos e a corrente levou-os para o Pacífico.
Mas isto nunca foi provado.
E quando a história se espalhou pelo mundo,
houve entusiasmo e intriga.
Parece ter sido a primeira fuga de sucesso da história da prisão.
O FBI procurou pela Baía durante semanas.
O objetivo era encontrá-los mortos ou vivos.
A fuga despoletou a maior caça ao homem na história de São Francisco.
Apesar de nunca terem encontrado os corpos,
o FBI encontrou provas da fuga.
Encontraram dois coletes insufláveis,
dois remos de contraplacado
a flutuar em sítios diferentes da Baía.
O outro colete foi recuperado ao pé da ponte,
numa praia a norte. Não havia falta de provas da fuga.
As provas estavam espalhadas pela Baía,
sem sinal dos homens.
Como aconteceu isto? Terão os três homens escapado?
Será possível que a corrente tenha seguido a favor dos fugitivos
empurrando-os até à costa?
Patrick Barnard e o colega do USGS Josh Logan
vão explorar esta teoria intrigante.
Usarão boias de ponta com sensores GPS
para monitorizar a corrente.
As condições são semelhantes às da fuga de 1962.
Estamos no pico de maré vazante.
A água move-se a metro e meio por segundo, ou 5,5 km/h.
O GPS vai registar a localização a cada cinco segundos.
Conseguirei ver no portátil em tempo real.
E veremos a direção e a velocidade a que a água vai.
Vamos registar já. Vou lançar a boia.
A boia é lançada a norte de Alcatraz,
na rota dos fugitivos para Angel Island.
No início, o trajeto da boia parece confirmar a teoria
de que os homens foram levados para o mar.
Está a ir à deriva, a uma média de 6 km/h neste momento.
Em 15 minutos percorremos metade da distância entre Alcatraz e a ponte.
Parece ir em direção ao meio do estreito de Golden Gate.
Mesmo com ventos fortes contrários,
a corrente rápida leva a boia para o mar.
Mas, de repente, acontece o inesperado.
Ia a 6 km/h até atingir aquela zona
e abrandou para 1 km/h.
A boia parou antes de chegar à ponte.
Não era o que a equipa tinha previsto.
Parece que abrandou porque está no meio de um redemoinho.
É muito interessante.
Viram que estava a ir para sudoeste em linha reta,
até se ter cruzado com o redemoinho depois abrandou e mudou de direção.
Um redemoinho é criado por água com movimentos circulares,
como um refluxo de corrente lento.
Será que drenar a água da Baía de São Francisco,
revelará o que causa um redemoinho tão grande?
A este da ponte há algo invulgar no fundo do mar.
Ao pé da ponte, temos uma zona pouco funda
com um afloramento rochoso no fundo do mar,
isto causa o espraio de muita água
e a separação do fluxo que causa este redemoinho.
A corrente funda corre diretamente até esta parede rochosa,
levando a água agitada até à superfície.
Isto cria o redemoinho gigante que parou a boia no mesmo sítio.
Drenar a Baía de São Francisco
mostra como a corrente poderosa de superfície,
que matou homens, é formada pelas formas do fundo do mar.
O leito do mar tem outras características estranhas
que explicam o resultado trágico de outra tentativa de fuga.
O ladrão condenado Aaron Burgett
tentou alcançar a liberdade em setembro de 1958.
O seu amigo Bill Baker era recluso na altura.
Ele era novo. Como disse, era forte.
Ele era... forte que nem uma mula.
Enquanto trabalhava no lixo, Burgett dominou um guarda
e saltou para a água a oeste de Alcatraz.
Não sabiam o que lhe tinha acontecido e fecharam-nos a todos.
Havia barcos à volta da ilha dia e noite,
com holofotes.
A cada dia que passava acreditávamos que tinha fugido.
Apesar das esperanças dos presos,
duas semanas depois, as autoridades encontraram Burgett.
Mas o corpo dele apareceu e acabou-se.
Fiquei muito triste porque queria que ele tivesse conseguido.
Curiosamente, o corpo foi encontrado
a poucos metros de Alcatraz.
Porque não foi levado para o mar pela corrente forte da Baía?
As pistas poderão estar nas águas pouco profundas à volta da ilha.
Nunca foram mapeadas com rigor.
Agora, o professor Rikk Kvitek
da Universidade de Monterey, na Califórnia,
usará uma embarcação de topografia única para explorar o território.
Foi criada para ir aonde uma embarcação normal não consegue ir.
Vai até águas pouco profundas, ao pé de pedras
e está equipada com os sonares
encontrados numa embarcação hidrográfica,
mas é tudo manuseado por uma pessoa.
Após um dia por estas águas, ao longo dos penhascos a oeste,
a pesquisa do Prof. Kvitek ajuda a explicar
o que aconteceu ao corpo de Aaron Burgett.
O fundo do mar à volta de Alcatraz
mostra imensos pedregulhos e fendas.
Quando Burgett se afogou, o corpo deve ter ido ao fundo
e ficou preso nas rochas.
Enquanto se decompunha,
os gazes que se formavam no corpo tê-lo-ão levado até à superfície.
Os fugitivos de 1962 não tentaram nadar até à liberdade.
Usaram uma jangada feita por eles.
Mas onde acabaram, perdidos no mar ou a salvo no continente,
é o verdadeiro mistério.
Patrick Barnard e Josh Logan
esperam confirmar como o fundo da Baía de São Francisco
influencia as correntes de superfície.
Querem descobrir o trajeto feito pelos fugitivos em 1962.
A primeira boia ficou presa num redemoinho gigante.
Agora, lançam duas boias novas em locais diferentes
ao longo do caminho para Angel Island.
Vamos lançá-la um pouco mais a norte
de onde lançámos a última boia.
Ambas as boias começam a viagem em direção a Golden Gate.
A segunda vai para o mesmo redemoinho que a primeira.
Mas a terceira segue diretamente para a ponte.
Esta parece ir para a ponte
em vez de ficar presa no redemoinho que vimos a sul.
Momentos depois ultrapassa a ponte.
A terceira boia foi diretamente para fora do canal principal
e acelerou.
O fundo do mar drenado
mostra porque a boia se dirige para sudoeste.
Ao seguir ligeiramente mais para norte
passa ao lado da parede rochosa e não é apanhada pelo redemoinho.
Depois, a corrente forte leva-a pelo desfiladeiro
e através da ponte Golden Gate.
Em breve, a boia chega ao vasto oceano.
Esteve na água durante uma hora
e fez 6,8 km à velocidade máxima de 10 km/h.
Vai de encontro às previsões do modelo.
Surpreendeu-me que as duas primeiras não tenham conseguido.
Mas ficaram presas nos redemoinhos
e esta foi mais certeira como o modelo previu
chegando aos 10 km/h.
É uma velocidade superior àquela que um humano atinge.
Se ficaram presos nos redemoinhos, os fugitivos não se salvaram.
Tiveram de lutar contra a corrente forte para chegar a terra.
Quem tenta remar até terra vai para sudoeste
e deverá ir atravessado.
O teste da boia explica muita coisa do relatório do FBI, de 1962.
As duas boias presas no redemoinho tomaram direções distintas.
Incluindo uma que voltou na direção de Alcatraz.
Isto explicará porque os destroços da jangada dos reclusos
foram encontrados perto da ilha após a fuga.
O percurso da terceira boia
mostra que se os reclusos se afogaram como o FBI acredita
os corpos terão sido levados para o mar pela corrente feroz.
Mas o teste mostra uma coisa certa:
a Baía de São Francisco é imprevisível.
O campo da corrente é tão complexo
que basta estar uns metros para cada lado da zona principal do canal
para acabar em sítios diferentes.
Podiam acabar a 10 km em direção ao mar ou de volta a Alcatraz.
Mas para os três reclusos, se chegaram ao vasto oceano,
tinham mais um desafio mortífero,
pois devido à grande quantidade de grandes-tubarões-brancos
esta zona é conhecida como o Triângulo Vermelho.
Em junho de 62, seria época de afloramento costeiro como agora.
Há muitos nutrientes na água, muitos peixes e predadores grandes.
Poderia haver mais tubarões-brancos na zona do que no resto do ano.
Se chegaram tão longe, mortos ou vivos,
poderão ter sido comida para os tubarões-brancos.
Os corpos dos três reclusos nunca foram encontrados.
Mas a Ciência mostrou que é improvável que tenham sobrevivido.
A prisão infame fechou as portas em 1963
com um recorde impecável.
Oficialmente, ninguém escapou com sucesso de Alcatraz,
apesar de muitos terem tentado.
As condições à volta da ilha é que a tornaram numa prisão inescapável.
A Baía era a parede mais formidável da prisão.
Diria que a Baía criou a reputação de Alcatraz.
A prisão perfeita nasceu de uma geologia extraordinária.
Desfiladeiro fundo, dunas gigantes subaquáticas,
pilares de rocha no estreito de Golden Gate, correntes fortes
e grandes predadores que vagueiam pelas águas à saída da Baía.
Tudo fenómenos naturais
que tornaram impossível escapar do Rochedo.
Mas existe outra grande força natural na Baía de São Francisco
que envergonha o poder das correntes oceânicas.
Drenando o oceano Pacífico temos a primeira pista.
Sob as águas fundas na costa de São Francisco
encontra-se a infame falha de Santo André.
As placas tectónicas causaram grandes terramotos no passado.
O mais mortal em 1906.
Morreram mais de três mil pessoas.
Mas poderá um terramoto ainda mais mortífero atingir a zona?
O chamado "grandalhão".
Na nossa previsão consideramos um terramoto
que começará na zona mais a sul da falha de Santo André,
atravessando a Baía indo para norte, percorrendo toda a falha de Santo André.
Esse terramoto terá cerca de 8,2 a 8,4 de magnitude.
A destruição seria muito maior
do que aquela causada pelo terramoto de 1989.
Se houver um terramoto dessa escala em San Francisco
causará muitas mortes, muitos edifícios ruirão.
Autoestradas, outras infraestruturas ficarão em perigo.
Se acontecesse, haveria destruição considerável
na cidade, na Baía e ao longo da Califórnia.
Um terramoto forte levaria partes da cidade a colapsar no mar.
Grande parte do centro da cidade seria destruído.
A engenharia da ponte de Golden Gate seria levada ao limite.
Mas quando o fogo e o fumo desaparecerem,
um local permanecerá de pé.
Durante um terramoto, Alcatraz seria um santuário
porque foi construída sobre rocha muito forte.
Não colapsará com os tremores como terrenos mais suaves.
Está ali há 100 milhões de anos, aguenta-se bem num terramoto.
Se os geólogos estiverem corretos,
e, quando o terramoto de Santo André vier, Alcatraz for a zona segura,
isso será uma grande ironia.
A ilha da qual tantos homens quiseram escapar
é o local que oferecerá refúgio.
Ao drenar Alcatraz e revelar os segredos do fundo do mar,
surge uma perspetiva diferente da ilha.
As explicações por detrás dos mistérios mais lendários
implicam mais que a própria prisão.
A geografia da Baía de São Francisco,
as águas, as pedras, o vento e o nevoeiro.
Uma rede bem tecida que torna a fuga de Alcatraz impossível.
A não ser que chegue "o grandalhão".
Ao drenar a água à volta de Alcatraz
os segredos do Rochedo foram revelados.
Traduzido por: Ana Rita Santos
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