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Dois anos antes da abolição da escravatura
e três anos antes da Proclamação da República
os cafés e as livrarias eram os principais pontos de encontro
dos intelectuais e boêmios da cidade:
Olavo Bilac, o príncipe dos poetas.
Marquês de Salles
boêmio e enfant gâté da corte.
Chiquinha Gonzaga
maestrina, exímia pianista e compositora.
José do Patrocínio
romancista e combativo jornalista.
Salomão Calif
o alfaiate que vestia metade da cidade elegante.
Miguel Solera de Lara
dono da principal livraria, ''O Recanto de Afrodite''.
Lutavam pela libertação dos escravos
e discutiam as idéias republicanas.
Nanine, pegue as coisas para sairmos.
Todo dia, nós duas falávamos de você
pois ninguém ousava dizer seu nome.
Era ela quem me consolava
me dizia que a gente voltaria a se ver.
Não estava mentindo.
Viu lindos países?
Você me levará lá?
Não foi nada.
Entende, a felicidade não irrompe assim num coração
desolado há muito tempo
sem lhe causar opressão.
Nanine, me dê um xale, um chapéu.
Armand voltou, quero viver.
Tenho que viver. Não posso
Você falará de mim, às vezes, não é, Armand?
Me dê a sua mão.
É estranho
O quê?
Não estou mais sofrendo.
Sinto um bem-estar, como nunca senti.
Mas quero viver.
Sinto-me bem.
Ela morreu.
Bravo! Bravo! Bravo! Bravo!
Viva o Imperador!
Viva a Rainha do talento!
Que espírito!
Que resposta!
Espero que Sua Majestade tenha gostado do espetáculo.
Só lamento que os nossos palcos
ainda não estejam à altura dos teatros europeus.
Um palco é só um palco. O mundo é um palco.
O que conta é o que se põe em cima.
Então, hoje, tivemos o maior e mais iluminado
palco do mundo.
Notei seu atraso.
Uma amiga minha e também uma de suas maiores admiradoras
a Baronesa de Avaré.
Quem?
Dalia Maria Luíza Catarina de Albuquerque.
Nossa Baronesa era possuidora de um raríssimo violino
um Stradivarius.
Pois bem, foi roubado e
desde então, Maria Luíza está inconformada.
Entendo. E a polícia, o que diz a polícia?
Bem, o violino foi um presente meu e
apesar de nossa amizade ser puramente platônica
a Imperatriz não veria com bons olhos esta história nos jornais.
Entendo seu problema, Majestade.
Talvez, eu possa ajudar.
Sente.
Ao senhor e a sua Marquesa, quer dizer, Baronesa.
Imagine, Sr. Imperador, que sou muito amiga de Sherlock Holmes
o maior detetive do mundo.
Naturalmente Sua Majestade ouviu falar dele.
Devo confessar minha ignorância, Madame.
Holmes é o primeiro detetive do mundo
que usa um método dedutivo racional.
Uma vez, Holmes encontrou as jóias perdidas de uma cantora russa
examinando as roupas que ela usou num banquete
oferecido ao Imperador.
A mim?
Não, Majestade. Napoleão III.
E então?
Pelo estado avançado da rigidez cadavérica
a morte deve ter acontecido na madrugada de ontem.
A vítima aparenta ter entre quinze e vinte anos de idade
Saraiva, isso dá pra ver.
Delegado Mello Pimenta, irei lhe dizer uma coisa: praxe é praxe!
O fígado estava comprometido.
Provavelmente devido à excessiva ingestão de bebidas alcóolicas.
Se não tivesse morrido do ataque assassino
seria, com certeza, candidata a uma cirrose precoce.
Era uma prostituta.
A causa da morte se deve ao dilaceramento
da laringe e da faringe
num corte horizontal desferido da esquerda para a direita.
O agressor possui uma grande força física.
As orelhas também foram extirpadas, com grande habilidade
Saraiva, não há nenhum detalhe que tenha passado desapercebido
no primeiro exame?
Será que foi vingança?
O toque final. Literalmente.
O que é isso?
Parece uma corda de bandolim.
Bem, pelo menos uma pista. Uma corda de bandolim.
Ou de cavaquinho, ou sei lá De um instrumento musical.
Será que o assassino era músico?
Pode ser, pode não ser.
Agora pela violência do crime
e pelo lugar onde eu encontrei a corda
o que sei que ele é maluco, não é?
Nessa livraria, vendem-se livros, Sr. Bilac
o senhor não está numa biblioteca.
Ah, é? Preferirias que eu dobrasse a página
estragando o volume?
Que raio de livreiro é você?
Miguel, já recebeste o último livro de Èmile Zola, "Germinal"?
Muito interessante, por sinal.
Fala sobre uma rebelião de mineiros.
Não é rebelião, Miguel, é greve.
Não é a mesma coisa?
Para alguns, é. E é por isso que a polícia da corte
continua forjando processos contra nós, os abolicionistas.
É por essas e outras que irei morar em Londres
e abrir uma livraria no East End.
Esta cidade não pode abrir mão do Recanto de Afrodite.
Só a doença de minha mãe ainda me prende a terras brasileiras.
Pois não sei de onde tirou esta anglofilia.
Então não sabe que tudo o que acha está em Paris?
É inútil falar de Shakespeare
a ouvidos de Moliere.
Não te zangues, Miguel. Se quiser mesmo ir, vai.
Dinheiro não te falta
Vocês, por acaso, leram o Múcio Prado hoje?
"Tive, anteontem, o prazer de cear
com a extraordinária Sarah Bernhardt
mulher de radiante beleza e talento.
A divina atriz revelou à socapa
a este humilde escrevinhador que o nosso mui amado monarca
anda preocupado "
"Acolhendo sugestão da própria Sarah Bernhardt
nosso prestimoso Imperador convidará um detetive inglês
para vir desvendar o mistério do roubo
do famoso violino Stradivarius
pertencente a Dalia Maria Luiza Catarina de Albuquerque.
Quem teria oferecido tão régio presente
à bela Baronesa de Avaré?"
Então, Sua Majestade tem o atrevimento de dar, a esta mulher
um violino cobiçado no mundo inteiro?
Uma jóia em forma de rabeca!
Que absurdo!
Não sei onde este rapaz foi colher esta notícia.
Ah, mas da mesma fonte onde o senhor foi lançá-la.
Dos lábios de uma atriz!
E além do mais, tem a audácia
de convidar um detetive inglês para fazer as investigações.
O que que te deu?
O senhor quer desmoralizar de vez com a nossa polícia?
Já sei, já sei, já sei
Não quer dar ouvidos à razão.
Então, resta-me só
pedir-lhe licença e retirar-me.
Mais um pedacinho de bolo de fubá?
Não. Só o refresco, obrigado.
É uma estranha leitura para uma baronesa.
Ora, meu caro Miguel, é bom saber o que se passa
quando a aristocracia se esquece do seu povo.
Depois, você sabe que sou nobre por casamento.
Meu pai era açougueiro
como muitas pessoas da corte fazem questão de lembrar.
Prefiro dizer que ele era um abastado proprietário de loja de carnes.
Ah! Finalmente chegou o meu Balzac.
"Splendeurs et miseres des courtisanes".
Que título sugestivo, não acha Miguel?
O Imperador.
Irei aproveitar para sair que me esperam na livraria.
Já sei, já sei, já sei
Agora chega, não é hora para brincadeiras.
Já leu a Gazeta?
Achei sua caricatura divertidíssima.
Talvez a barba esteja um pouco longa
Não é disso
Ah, já me amofinei o bastante por causa deste furto.
Afinal, vão-se os anéis
ficam os dedos.
De qualquer forma, vai ser divertido receber
na corte um detetive inglês
Lastimo que você encare tudo de maneira leviana.
A Imperatriz está possessa.
Sem falar que agora todos sabem
que o violino foi dado por mim.
Como sabem?
Quem, senão eu, teria coragem
de fazer uma loucura dessas?
Meu amigo, acho que você enfiou
a carapuça, como dizem.
Poderia perfeitamente ter comprado um Stradivarius.
Meu marido deixou-me bastante dinheiro, como bem sabe.
"Dalia Maria, a Baronesa É jovem muito prendada
Viuvinha com certeza rica
Bela e cobiçada."
O que dirão se souberem que estamos na mesma sala?
Provavelmente se recusarão a acreditar
desviando os olhos como fazem ao tropeçar
com os negros e mendigos sujos que encontram na cidade.
Se a paisagem é terrível, fecha-se a janela
não é assim?
Não quer jantar conosco, Haroldo?
Não posso. Eu já tenho um compromisso.
Como é seu nome?
Glória.
Glória, que nome lindo!
Para Glória, bela jovem brasileira
que me assistiu em Le Passant, no Rio.
Pronto, minha querida. Boa sorte.
Saraiva!
Vê sem as orelhas e outra corda.
Mais uma prostituta?
Não. Moça de família, camareira do Palácio Imperial.
Chama-se Glória Meireles.
É a sobrinha daquele pintor, o Vitor
- Vitor Meireles. - É esse mesmo.
Meu Deus um amigo do Imperador
Era só o que me faltava
O que é isso na mão dela?
Saraiva.
Você me dá licença.
Sarah Bernhardt.
Às suas ordens.
Às suas ordens.
Comissário de polícia seu criado.
Sente, por favor.
Cuidado para não cortar as suas!
- O quê? - As orelhas
Bem sabe que não gosto quando faz essas pilhérias.
Vem, toma seu café antes que esfrie.
Este caso está se tornando uma maçada.
Não sei por onde começar.
Por que não pedes ajuda a este detetive inglês
que o Imperador contratou para desvendar o caso
do caríssimo violino da Baronesa de Avaré?
Violino?
Será que é corda de violino?
Este vestido preto!
Não, pegue um dos meus vestidos de baile, um branco.
A saia está coberta de rosinhas.
É esse que quero. É esse que quero.
Não! Bom, é esse que quero.
E verá como sou bonita e como!
Mais uma vez, estará com Frou-Frou.
Pobre Frou-Frou.
Um rato enorme!
É só isso que se vê nesse teatro!
Que vergonha!
Estas luzes!
Minhas cenas matutinas parecem ocorrer à meia-noite!
Como é que se pode trabalhar nestas condições?
E esse clima terrível!
Só me falta agora pegar a febre amarela.
O que é que vim fazer neste país?
Parece uma selva!
E o senhor, o que está fazendo aqui? Quem é o senhor?
Chefe de polícia Mello Pimenta, seu criado.
Sente, por favor, Madame.
Ah, que surpresa!
Fala francês?
Não falo francês.
Ele não sabe falar francês, Madame.
Desculpe-me se o fiz esperar, estávamos ensaiando.
Ela pede desculpas pela espera.
Madame, reconhece isso?
Sim. Uma linda moça que estava na saída do teatro.
Ela deu o autógrafo na saída do teatro
mas não conhece a garota.
Foi assassinada! Assassinada!
Madame podia me informar se ela estava acompanhada?
Ele quer saber se a senhora lembra se ela estava acompanhada.
Não lembro.
Quer dizer, ela parecia estar sozinha.
Talvez houvesse alguém com ela
mas não lembro.
Ela não se lembra.
A madame está um pouco atrasada, mais alguma coisa?
Espero que o senhor prenda o selvagem que matou aquela pobre menina.
Boa sorte nas suas investigações
ou, como nós do teatro dizemos na França, merde!
Ela lhe desejou boa sorte.
Merde para a senhora também.
"Os cavalos não galoparão pelas ruas
exceto a cavalaria em casos urgentes.
Serão construídos urinadores públicos
para evitar que os cidadãos façam suas necessidades
nas calçadas.
E finalmente serão retiradas todas as escarradeiras das ruas."
Será que essa lei vai pegar?
Amanhã vou buscar o detetive inglês no cais.
Parece que vem com um médico.
O homem é doente ou hipocondríaco?
Um amigo inseparável.
Será que o sujeito é maricas?
Só faltava essa. Um inglês maricão.
Já não bastam os nossos!
Outro dia, um me pediu uma calça com a braguilha
às costas para facilitar-lhe o vício!
"Pago o que for preciso dinheiro há, dinheiro há "
Falando sério. Não me conformo de se trazer um detetive inglês
para procurar uma rabeca.
Uma rabeca não.
Um Stradivarius que vale uma fortuna.
Não tanto quanto a vida dessas moçoilas.
Especialmente com essa polícia, que se preocupa mais
em perseguir aqueles que lutam contra a escravidão
do que em salvar vidas!
Calma, Sr. Bilac. Não há nada contra si.
É tudo exagero dos jornais.
Afinal, se os nossos jovens não puderem mais
escrever manifestos, o que será do país?
Vim só tomar uma cerveja.
Traz uma Dois Machados.
Curiosa coincidência
Sabe que estávamos falando do caso das meninas assassinadas.
Uma espiga, não, delegado?
Duas lindas moças, vítimas o mesmo bárbaro assassino.
E como é que o delegado sabe que se trata da mesma pessoa?
Só neste ano já somam quinze assassinatos
na cidade.
Suponho.
Foram mortas com o mesmo tipo de arma.
Que arma?
Um objeto cortante, afiado.
Ora, delegado. Existem vários objetos cortantes
que podem produzir resultados parecidos.
Qualquer cozinheira sabe disso.
Viva, Chiquinha! Nossa detetive de saias!
Quem sabe Dona Chiquinha pode nos ajudar com seus dons
Isto é sigiloso.
Foram achadas junto a
enroscadas ao corpo de cada uma das moças
Quero saber a que instrumento musical pertencem.
Elementar, meu caro.
São cordas de violino.
A primeira e a última. O sol e o mi.
Digo-lhe mais, só as encontrará na Viola D'Ouro.
Devia seguir o conselho do comandante
e tentar a água de coco, Watson.
É uma delícia e muito refrescante.
Watson, Watson!
Ah, não, de novo!
Sugiro pedirmos que se levante a capota para refrescar.
Aconselho que não o faça.
No Brasil, não é chique andar de capota levantada.
Acho que é para dar a impressão
de que aqui não faz tanto calor assim.
Curioso.
Não vejo nenhum índio.
Nem verá, Dr. Watson.
Já somos quase civilizados.
E depois, os índios são livres como a natureza.
Contamos com os escravos negros.
Disse que a viagem ia lhe ser bastante instrutiva, Watson.
Se bem que os negros, alguns, são muito
muito
Como eu diria "preguiçosos" em inglês?
Lazy.
Então o senhor Holmes fala português?
Suponho que sim.
E onde, diabos, foi que você aprendeu a falar esta língua?
Em Macao, na China, um ano antes de te conhecer, Watson.
Estive lá durante seis meses
para estudar venenos orientais
e o maior especialista desta matéria
era um cientista português, Nicolau Travessa.
Ele testava, em si mesmo, os venenos.
Nunca ouvi falar.
Claro, Watson.
Por que um cirurgião médico do exército
de Sua Majestade Britânica ia saber de venenos exóticos?
E vocês ainda se correspondem?
Não, infelizmente morreu
com um concentrado de veneno dos escorpiões africanos.
Ah! Obrigado.
Impressionante, o que é isso?
Feijoada. Feijões pretos cozidos com vários tipos de carne:
orelha e pé de porco, carne-seca, paio
linguiça e outras variedades. Um primor.
Estou a regalar-me a suas terras.
Já estou lamentando minha partida para a Argentina.
Sei que vou sentir uma falta imensa deste caloroso público.
Acho que vou tentar a coisa marrom.
Ou será muito pesado para um estômago inglês?
Evite as carnes, se você estiver com receio.
Como é mesmo o nome daquele prato?
Vatapá. Uma especialidade baiana.
Uma delícia!
Sr. Holmes, experimente mais uma costelinha com pimenta malagueta
com pirão, receita infalível para uma digestão leve.
Obrigado. Mas olhe que ainda vou comer
mais uma fatia de peixe com dendê.
Seria bom não exagerar no dendê.
E o Imperador, não gosta de feijoada com vatapá?
Ordens médicas, Sr. Holmes.
Não posso acreditar que estas iguarias possam fazer mal a alguém.
A Madame só vai comer salada?
Sou como o Imperador.
Meu médico me proibiu de comer muitos alimentos:
carne vermelha, ovos, caviar, fígado de ganso, cassoulet
tudo o que é bom, faz mal.
Concordo plenamente!
Espero que o seu amigo não se aborreça.
Sinto-me mais à vontade falando a sós com o senhor.
É um assunto delicado, o senhor entende.
Não se preocupe com Watson, Majestade.
Sei que está cansado da viagem.
Não pretendo tomar o seu tempo mais do que o necessário.
Nem sei por onde começar.
Experimente começar do início.
Não foi nada.
Perdão.
Pois bem, o último violino fabricado por Antônio Stradivarius
foi um instrumento chamado, com razão, de "O Canto do Cisne".
A sonoridade do instrumento é quase inacreditável.
O único detalhe, que por sinal comovente
que trai o tremor dos seus dedos idosos
são os entalhes ligeiramente incertos
das duas aberturas que formam o sistema acústico do tampo superior.
Espero não estar sendo maçante
Não, não, de forma alguma. Antes de mais nada
digo, o quanto admiro Sua Majestade
por esta postura de patrono das artes.
Eu já conhecia o talento musical dos brasileiros
pois tive o privilégio de assistir à estréia
de "O Guarani" no Scala de Milão.
Tinha só dezesseis anos, mas lembro-me
como se fosse hoje.
Foi a minha primeira ópera.
Fantástico!
Havia já algum tempo, a minha amiga, a Baronesa de Avaré
manifestou a vontade de ter um Stradivarius.
E o senhor sabe como são os caprichos femininos.
Por isso, continuo solteiro.
Tout est bien qui finit bien.
A não ser pelo fato do Stradivarius ter sido roubado.
Pois é, parece-me que é hora
de termos uma conversa com a Baronesa.
Quero saber exatamente como o violino desapareceu.
Meu cocheiro irá levá-lo até a residência da Baronesa.
Espero que as minhas investigações tenham sucesso.
Por agora, resta-me só agradecer
a Sua Majestade pelo magnífico almoço.
Eram mágicas as iguarias com que fomos brindados.
Boa tarde.
Aceita um cafezinho?
Foi moído agora.
Esses doces de batata são da Castellões
uma de nossas melhores confeitarias.
Bem, não sei em que posso ajudá-los.
A Baronesa ficaria espantada
de como são importantes os pequenos detalhes
para quem faz o exercício da dedução.
Por exemplo: sou capaz de dizer que a Baronesa é viúva
que o seu marido era dono de uma apreciável fortuna
que morreu em consequência de um acidente de caça
que caçava à beira de um rio
que era bem mais idoso do que a senhora
e que ao morrer, lhe deixou todos os seus bens.
Mas é espantoso! Como deduziu tudo isso?
Li no Compêndio da Nobiliarquia Brasileira
que encontrei no hotel
Gostaria de saber exatamente de onde
o instrumento desapareceu.
Não foi aqui em casa.
Notei que uma das cravelhas do instrumento estava frouxa
dificultando a afinação.
Pedi então que um dos meus criados o levasse
até a loja Viola d'Ouro
Hum que café magnífico!
Baronesa, o mundo ainda se vai render à qualidade
do café brasileiro.
Posso falar com o criado que levou o instrumento?
Ah, sim.
Este é Mukumbe. Meu anjo da guarda.
Foi escravo de meu pai mas hoje é um homem livre
alforriado por mim.
É ele quem cuida de tudo aqui.
Não sei bem por quê, mas sinto-me segura em sua companhia.
Queria saber se por acaso notou
se alguém o seguia quando foi à loja de consertos.
Não, senhor.
Não existe homem vivo ou assombração que venha atrás de mim
quando eu ando pelas ruas.
E tem a certeza de que o violino estava na caixa?
Tenho, sim, senhor.
Vi quando a sinhá guardou antes de me entregar.
Foi depois da gente tocar uma valsinha por aqui.
Esqueci de dizer. Mukumbe também é um exímio pianista.
Toca cravo e órgão
quando há missa aqui na capela.
O que foi, Holmes?
O núbio toca piano.
Também falo inglês.
É verdade.
Quando meu falecido pai me mandou estudar na Inglaterra
fez questão que Mukumbe me acompanhasse.
E também não sou núbio.
Minha família vem do Congo.
E que tipo de música toca?
Depende. Na igreja, música sacra.
Mas quando eu toco com sinhá, polcas, valsas
mas o que gosto mesmo é do maxixe e do samba.
Maxixe?
Sente a brisa, Watson?
Para falar a verdade, Holmes, sinto os mosquitos.
Gostaria de voltar para o hotel.
Que paisagem!
Que cidade maravilhosa!
Com uma flora como esta
se eu fosse um inseto, também viria para cá.
Nunca senti tanto calor.
Ah, essa sua inadaptabilidade, Watson!
Por mim, só preciso de uma água de coco para ajudar a digestão.
Alguma idéia do violino?
Parece que o destino me leva sempre
aos crimes mais escabrosos.
Não estamos mais procurando um simples ladrão de violinos.
Isso estava no hotel.
" Bem-vindo, senhor. Holmes. Preciso ajuda.
Dois estranhos assassinatos de jovens mulheres.
Assassino corta orelhas e deixa cordas.
Espero vê-lo logo. Atenciosamente, Inspetor Pimenta."
Precisamos encontrar esse policial que pede auxílio.
Estamos atrás de um assassino de mulheres.
Um requintado assassino de mulheres
que adora música como nós, Watson.
Como você deduziu que são a mesma pessoa?
Ora, Watson, por que o delegado iria me procurar se não fossem?
Pensei que você fosse aproveitar esta viagem
para desanuviar a cabeça dos problemas policiais.
Precisa repousar, Holmes.
Afinal, até Cristo descansou no sexto dia.
Foi Deus quem descansou, Watson, e no sétimo dia.
Watson, acho que realmente devemos ir para o hotel.
Meu caro amigo!
O que foi, meu amigo?
Meu estômago continua me atormentando, Watson.
Você já tomou remédio, espere fazer efeito.
Só preciso de um pouco de ar puro.
É um tanto tarde, mas vou com você.
Pode deixar. Eu me cuido sozinho.
Hum belíssima
Boa noite, Seu Isidoro.
Boa noite. Deseja alguma coisa?
Um litro de leite, por favor.
Pra você tudo
Aí está.
Obrigada.
- Boa noite. - Boa noite
Socorro!
Socorro! Socorro!
Ali, um homem tentou me matar.
Não saia daqui, eu já volto.
Aqui é Sherlock Holmes.
Pare ou eu atiro!
Merda!
Tem certeza de que é aqui que ela foi atacada?
Absoluta. E olhe como ela se defendeu:
com uma garrafa de leite.
O assassino, Watson, deve estar machucado.
Ela deve ter comprado o leite por aqui.
Uma mulata de seios fartos?
Isso mesmo. Sabe onde eu posso encontrá-la?
Sei que ela é atriz
mas acho difícil conseguir alguma coisa com ela.
Eu já lhe disse que se trata de uma investigação.
Só nós conhecemos o valor de uma verdadeira mulata, não é, patrício?
Boa tarde.
Não há a menor dúvida.
São cordas muito finas, feitas de tripa.
De excelente procedência.
Posso perguntar onde o senhor encontrou?
Pode. Eu é que não posso responder.
É uma investigação sigilosa.
Então devem estar relacionadas com o caso das moças mortas.
Ultimamente alguém veio comprar cordas?
Só um violinista chamado Haroldo
que está tocando nos espetáculos de madame Sarah Bernhardt.
- Haroldo - Sim.
Quantas cordas ele comprou?
Um jogo completo. Quatro cordas. Um jogo completo.
Quatro cordas
Delegado Mello Pimenta, eu presumo.
Pois não. Como sabem que sou eu?
Simples. Fui à polícia e na delegacia
me disseram que eu o encontraria aqui.
Sherlock Holmes e meu amigo Dr. Watson.
Não sabia que falavam nosso idioma.
Só eu.
O Dr. Watson não entende nenhuma palavra.
Do you Watson?
Oh never mind Como vê
Foi ótimo tê-lo encontrado.
Fui eu que o encontrei, meu caro Pimenta.
Peço que me espere dois minutos. Preciso ter uma conversa
com o Sr. Peruggio.
Com licença
Foi descuido meu, Sr. Holmes.
Descuido meu Coloquei o instrumento aqui.
É que arrombaram a loja e roubaram o violino.
O que é que eu posso fazer?
Se calhar, só não percebo porque deixou um violino
tão valioso ao alcance do maganão.
Sei que aqui roubam de tudo
comida, vestimentas, botas, tudo
mas nunca imaginei que estes iletrados
fossem roubar um violino.
Sinceramente, acho que o seu descaso desagradou
muito à Baronesa e, é claro, ao Imperador.
A Baronesa e o Imperador
Céus! É malária!
Depressa, Holmes, precisamos de quinino.
Por isso é que, nos trópicos, nunca me afasto de minha maleta.
Lamento informar que este pobre italiano
só teve um ataque de nervos, comum aos latinos.
Não espera que eu entenda essa língua de pagãos!
O senhor tem alguma idéia de quem possa ter roubado o violino?
Não, senhor. Nenhuma
Até a próxima, Sr. Giacomo.
Fico satisfeito que não seja malária.
Para suas crises nervosas, recomendo chá de camomila.
Tenho muita coisa para lhe dizer.
Acho não ser necessário.
Já sei que além de cortar as orelhas
com uma adaga, o assassino coloca a corda de seu violino
junto aos pêlos pubianos das coitadas
e depois sai a tocar pelas ruas.
Espantoso.
Várias pessoas disseram à polícia que ouviram o som de alguém
tocando violino pelas ruas
Mas o jornal não fala do assassino tocando.
Isso sei porque estive com seu assassino ontem à noite.
Ele levava consigo o instrumento.
Devia ser para tocá-lo, mas eu impedi.
Uma mulher linda, uma mestiça.
Quadris largos. Seios fartos.
Tenho que encontrá-la seja lá como for.
Temos que encontrá-la.
Porque, se ela viu o rosto do assassino
viu também o rosto do ladrão de violinos.
Mas por que será que ele deixa as cordas?
- Posso examiná-las? - Certamente.
- Nenhum sinal das orelhas? - Não.
Do que vocês estão falando, Holmes?
Do assassino.
Em toda a minha carreira, nunca vi nada semelhante.
O homem é um demente e gosta de assassinar mulheres em série.
É o que eu chamaria de "serial killer".
Como eu poderia dizer "serial killer" em português?
Assassino serial?
Assassino serial.
Essa expressão define bem o nosso assassino.
Já matou duas.
Se ele continuar arrancando as cordas
este problema será solucionado muito em breve.
Claro!
Pense comigo.
O violino tem quatro cordas: G, D, A, E.
Se ele já utilizou duas cordas, faltam ainda mais duas.
O senhor quer dizer então que ele vai matar mais duas?
O nosso trabalho será evitar esses crimes, delegado.
O senhor percebe que a minha situação é muito delicada?
Daqui a pouco vão começar a pensar
que o Imperador não confia no seu Chefe de Polícia
nem mesmo para descobrir o roubo de uma rabeca.
Stradivarius.
- Stradi quê? - Stradivarius.
Ou vários ou um só, é rabeca.
Pimenta, você contou para este detetive inglês
a respeito do nosso suspeito principal, o Haroldo?
Não. Mesmo porque não temos todas as evidências.
Você é autoridade. Polícia não precisa de evidências.
Mas estamos falando de um serial killer.
Serial o quê?
Serial Killer.
Serial Killer.
Foi o nome que o Sr. Holmes deu
a este criminoso que mata em série.
Digo-lhe, Dr. Coelho Bastos, não sei se será tão fácil assim
descobrir o homem porque ele mata sem motivos.
E a primeira coisa que aprendemos na polícia
é saber o móbil do crime.
Vamos evitar um constrangimento, Pimenta.
Vamos prender logo este homem para mostrar ao Imperador
que a nossa polícia não precisa de detetive inglês.
Me explico num momento
E há de entender-me afinal:
Que no corpo e no pensamento
Sou um ser insexual "
Pelo visto o senhor já está
se acostumando ao nosso Brasil.
É um lugar fascinante
estou encantado com os costumes.
E o povo é extremamente cordial.
No entanto, há uma coisa que não entendo.
Os trajes
Por que todos os homens se vestem de preto, à européia
num país tropical?
O Sr. Holmes há de nos entender
mas a civilização tem o seu preço
Forrobodó é folguedo de reis
Forrobodó de preto forro
Tem um forrobodó na praia
Tem um forrobodó no morro
Forrobodó de D. Pedro é que nem
Forrobodó do seu lacaio
Faz rebolar até um poste
Não há quem não goste De um forrobodó.
Delegado, encontrei um violino.
Sem cordas. Guarde isso aí.
Foi o Gouveia, não foi?
Meu caro, você está numa enrascada. Levem-no.
Mas não estou entendendo, Coelho Bastos
o Stradivarius foi ou não foi encontrado?
Majestade, para lhe responder
irei ter que usar um termo técnico.
Não, não o violino ainda não foi encontrado.
Mas Sua Majestade pode ficar tranquila
porque nós vamos achar esse Stradivarius.
O importante é que o assassino já foi capturado
e tudo leva a crer que o ladrão do violino
é mesmo o Killer serial, não o Kerial siller
o assassino, Majestade!
Acho excelente essa idéia do projeto ferroviário.
Vou tomar todas as providências para que um estudo seja encaminhado.
Que proje Mas, oh ah o projeto!
Perfeitamente, Majestade!
Uma boa tarde.
Projeto muito importante.
O Brasil precisa de estradas de ferro.
Oui, oui, oui, oui!
Quantas vezes eu terei que dizer?
Foi a minha mulher que fez isso.
Ela é maior do que eu. Tem mais de cem quilos.
E as orelhas?
Comia as orelhas?
Orelhas? Do que o senhor está falando?
Você já tem quatro passagens na polícia
e não tenho pressa.
Vai confessar.
Não estou mentindo.
Foi minha mulher, eu já disse
ela me engana com o Sargento Gouveia
que mora lá na minha rua.
Cada vez que eu reclamo, a Marieta me bate
e aí o Sargento vai à delegacia e dá queixa ao contrário.
Diz que fui eu que a espanquei.
Como é que você aprendeu a falar francês?
Foi uma bolsa de estudos que eu ganhei de Sua Majestade.
Fui estudar música em Paris.
E por que é que você não larga a sua mulher?
Não há de ser pela beleza.
A Marieta é muito ciumenta.
Se eu a deixar, ela me mata.
Holmes, enquanto você encomenda suas roupas
eu poderia aproveitar para fazer a barba e cortar os cabelos.
Ótima idéia, Watson.
Por mim, vou deixar meus cabelos crescerem
mas acho que este estilo mais romântico não lhe ficaria bem.
Um momento!
Sabe que não falo uma palavra deste idioma.
Explique ao homem como quero o meu corte.
Watson, já é hora de você aprender alguma coisa.
Basta você entrar e dizer ao barbeiro: " Barba e cabelo".
" Barba e cabelo", certo
Disse a Mr. Holmes que o senhor era o melhor alfaiate da cidade.
Não vá me decepcionar, Calif.
A roupa é pra algum evento especial?
Tenho aqui as melhores e mais lindas flanelas
e casimiras de sua terra.
O que prefere?
Olha, nem uma coisa nem outra.
Gostaria que o senhor me fizesse quatro fatos de linho branco.
Linho?
Mas ninguém que seja de qualidade usa isso por aqui.
Isso é coisa de zé-povinho.
Pois então, inaugurarei a moda.
Que seja linho, então.
E branco, não se esqueça.
É mais adequado ao calor dos trópicos.
E quanto ao estilo, senhor Holmes? Tem alguma idéia?
Nada de muito especial.
Faça-me as sobrecasacas folgadas com espaço para o revólver.
E desejo algibeiras profundas, pois carrego sempre comigo
o fumo e a lupa.
Noto que o senhor é extremamente bem-dotado.
Não diga disparates, senhor Salomão. É o meu cachimbo
Barba e cabelo.
Eu já entendi, senhor.
Quero saber se o senhor quer que apare
ou faça um corte completo?
Barba e cabelo!
Ah, é para aparar?
Barba e cabelo.
É para cortar.
Guarde o troco.
Ah, meu senhor
Olá! Que bom vê-lo.
Acho que lhe devo um pedido de desculpas.
Desculpas? E por que a senhorita deveria pedir-me desculpas?
Afinal, o senhor salvou-me a vida
e eu nem sequer esperei para agradecer.
Dadas as circunstâncias, é bastante compreensível.
Como descobriu que eu trabalho aqui?
Ah, esqueces que sou detetive?
Sherlock Holmes, às suas ordens.
O detetive inglês? Eu li muito sobre o senhor no jornal.
É um prazer! Ana Candelária.
A senhorita dar-me-ia imenso prazer
se aceitasse um convite para cear comigo
e com o Delegado Mello Pimenta.
Estamos a investigar esses crimes horríveis
e a presença da senhorita é imprescindível
para ajudar a solucionar o caso.
Claro. O que eu mais quero é que vocês encontrem este assassino.
E por favor, me chame de Ana.
Com certeza, se me chamares simplesmente de Sherlock.
Não entendo por que é que a senhorita não foi à delegacia
contar o seu encontro com o assassino.
Tive medo. Não sabia como ia ser recebida.
O senhor sabe que a nossa profissão
ainda é confundida com a das prostitutas.
Nossa polícia trata a todos com muito respeito.
Mesmo as prostitutas.
A senhorita poderia me dar uma descrição do agressor?
Impossível, delegado.
Ele usava uma capa, uma máscara que cobria o rosto
e um chapéu enterrado na cabeça.
Foi tudo tão rápido.
Se não fosse Sherlock, eu não estaria aqui.
Pelo visto pode ser qualquer um.
Até alguém que estivesse aqui, observando-nos.
Como?
Então o senhor acha que ele poderia frequentar o nosso restaurante?
Não acho nada.
Mas pelo que sabemos, até podia ser o senhor.
Também não exageremos, Sr. Holmes.
E agora, se me dão licença
tenho que acompanhar a senhorita até a sua casa.
Para onde vamos, Holmes?
Você fica, Watson.
O Sr. Marquês terá prazer em sua companhia.
O método dedutivo, minha querida Ana, tem suas limitações.
Como eu poderia deduzir que um dia tão quente
se iria transformar numa noite tão agradável?
- Onde quer ir? - Gostaria de conhecer o seu hotel.
Dizem que os apartamentos são maravilhosos!
Para o hotel.
Nossa, como é macia!
E o quarto é muito mais bonito do que eu estava imaginando.
Posso lhe oferecer alguma coisa? Chá, xerez, cocaína?
- Cocaína? - Sim, é um excelente estimulante.
Aprendi a usá-la com um amigo, Sigmund Freud, um médico de Viena.
Pensei que eu fosse estimulante o suficiente.
Ana, há uma coisa terrível que tenho que confessar.
O quê?
Eu, sou
sou virgem.
Fez algum voto de castidade? Ou
Não, de forma alguma. Só que antes de eu te conhecer
eu nunca tinha pensado em sexo.
Tinha a mente completamente voltada para a criminologia.
Quer dizer que sou a primeira mulher da sua vida?
Compreendes agora por que eu queria fazer uso da cocaína?
Meu amor, essas drogas só afastam o desejo.
O que precisa é relaxar.
- O que é isso? - São cigarros índios
feitos com cannabis, uma planta asiática.
E para que servem?
Diz a bula que é ótimo para roncadura
asma, falta de sono, impotência.
É um santo remédio.
Além de tudo, abranda sumamente os nervos.
A não ser pelo cheiro, eu não sinto nada.
Calma, sempre demora um pouco.
Que engraçado
Nunca tinha reparado nesse papel da parede.
Notou, Ana, que lindos pássaros?
Parece que os bichos estão todos a girar.
Que legal! Os pássaros todos a voar.
- Tem piada, não tem?! - Tem.
O quê?
Escuta, está a ouvir?
Os insetos.
O quê?
As cigarras, Holmes.
- As cigarras? - As cigarras!
Que foi?
Sabe do que tenho ganas?
De quê? Quero que faça tudo o que quiser comigo.
- De comer doces. - Doces?
Não sei por que tenho uma vontade irresistível de comer doces.
Olha, irmã.
Que lindo!
Bom dia, meu amigo, acho que já é hora de se vestir.
Por Zeus, meu amigo, o que é isso?
Não disse que eu deveria me acostumar aos hábitos do país?
Vêm da região nordeste.
Devo dizer que as sandálias são muito confortáveis.
Pode ser, mas têm um cheiro muito forte.
E você parece
Foi o que mais me agradou.
São de couro de bode.
O odor me lembra o tabaco turco que eu fumava em Ancara.
Mas este não é o cheiro da sandália.
O que anda fumando, Holmes?
Uma erva maravilhosa, Watson.
Não quer experimentar?
Sabe que abandonei o vício do fumo.
Causa sérias doenças.
É verdade.
Vamos.
Chá e torradas.
Que tal o meu português, Holmes?
Andei aprendendo algumas palavrinhas.
O português é uma língua fascinante.
Sabe como se diz eu te amo, em português?
O Sr. Holmes deseja mais alguma coisa?
Cocadas. Traga-me um prato com bastante cocadas.
Te amo, Watson.
Com licença, Sr. Holmes,
- Bom dia, Inojozas. - Bom dia.
Não precisa dizer nada.
Presumo que o senhor sofra de doença conhecida como dança
de São Vito e que ontem teve uma discussão com sua esposa.
Além disso, está me trazendo um bilhete da Srta. Ana Candelária
e teve que se atracar com um cigano cujos brincos não eram de ouro.
Como o senhor chegou a esta conclusão?
Elementar, meu caro.
A dança de São Vito provoca tremores incontroláveis
o que explica estas manchas da sua lapela
causadas por um copo de água derramado.
A discussão com a esposa é facilmente explicada
pela falta de aliança no dedo, cuja marca ainda aparece.
E quanto à briga com o cigano?
Brigou com ciganos?
Disse que ele brigou com ciganos.
- Disse isso? - Disse.
Qual é o melhor lugar para se agarrar um cigano durante uma briga?
Pelos brincos. Assim eles ficam completamente indefesos.
E os brincos, não sendo de ouro
deixam manchas esverdeadas de azinhavre, como estas.
Pegarei o meu casaco, Watson, e já volto.
A respeito da dança de São Vito, recomendo-lhe pastilhas de ópio.
Mas, Sr. Watson, não sofro de doença alguma.
Minha roupa está molhada porque estava chovendo hoje cedo.
Não é só isso. Não sou casado
e o que tinha no dedo não era uma aliança
era um anel, que tirei porque estava apertado.
Sim, e as manchas na sua mão?
Estava escrevendo uma carta para um amigo.
Aquela carta que o Sr. Holmes pegou me sujei de tinta.
Vejo que me enganei em uma de minhas deduções, a carta não era para mim.
Não tem importância.
Acertar três em quatro deduções já é uma performance razoável.
Vim avisar que o delegado Mello Pimenta telefonou.
Está esperando vocês na praça da Rua dos Inválidos.
Com licença, senhores.
Bom dia, Sr. Holmes.
Dr. Watson, este é o nosso médico legista, Professor Saraiva.
Um colega seu, Watson, médico legista.
Como vai?
Uma especialidade fascinante.
Os legistas são os únicos médicos que sabem de tudo.
Infelizmente, só quando é tarde demais.
Já sabem quem é a garota?
Já. Chamava-se Albertina de Lurdes Calixto.
Era da Roda.
Percebo. Mais uma prostituta.
Não, não, Sr. Holmes.
A Roda é uma instituição beneficente
para recém-nascidos e abandonados.
A moça era filha de um agente funerário chamado Josué Calixto
e trabalhava na entidade, caridosamente.
E quem descobriu o corpo?
Uma das irmãs de caridade da Santa Casa da Misericórdia.
A Roda fica perto.
Já estive lá, fazendo umas perguntas.
Descobriu se tinha inimigos?
Se alguém a seguiu?
Ninguém sabe. Era uma moça muito querida.
Há um sentimento de indignação e tristeza por parte de todos.
As pistas são as mesmas.
O que mais me preocupa é que o violino ainda tem uma corda.
Não se importa se eu fizer uma pequena investigação?
De forma alguma. É um favor que nos faz.
O que houve, meu velho?
Nada, só uma mal-estar. Vertigo.
Uma hipoglicemia.
Hipoglicemia.
Acho que, ontem à noite, abusei de umas ervas que me deu uma amiga minha.
Uns cigarros de índios.
Vejo que o senhor experimentou o nosso pango.
Pango?
É como os negros chamam a cannabis.
Havia um lindo canteiro delas cultivado atrás da cozinha
do palácio de Sua Majestade, em São Cristóvão.
Acho melhor o senhor voltar para o hotel
enquanto sigo com o Saraiva até o Instituto Médico Legal
para acompanhar a autópsia.
De maneira nenhuma, fazemos questão de assistir à necrópsia.
Se me permite, o melhor remédio
para esta sensação matutina é uma boa cachaça.
Não acho aconselhável dar cachaça
ao Sr. Holmes a esta hora, Saraiva.
Bobagem.
Sigo para o Instituto.
Não sei, Holmes, pelo cheiro me parece algo fortíssimo.
Talvez seja conveniente não bebê-la pura.
Que faço, então? Ponho um pouco de água?
Acho que o sumo de fruta seria melhor.
Laranja ou limão.
São ótimos remédios.
Já conhecemos suas comprovadas propriedades contra o escorbuto.
Olha, meu amigo sugere
que eu ponha um pouco de sumo de laranja ou de limão na bebida.
- Tem alguma dessas frutas? - Temos limões.
Talvez seja bom adicionar um pouco de gelo e açúcar
Holmes, para compensar a queima produzida pelo álcool.
E gelo e açúcar, por favor.
Se cortamos a fruta assim
em pedaços
e adicionamos o açúcar
é melhor colocar os pedaços inteiros, e espremer
Mas que mixórdia é aquela que eles estão fazendo?
Sei lá.
Acredito que agora pode beber, sem perigo.
Aquilo é invenção daquele caipira ali.
- Qual deles, o grandão? - Não, não. O grandão está só bebendo.
Quem preparou tudo foi o menorzinho, o caipirinha.
Professor, há algo aqui que me causa estranheza.
Não sei, me dê a impressão de que os órgãos internos
foram recolocados na cavidade.
Como se o assassino os tivesse arrancado para fora
e depois reposto no lugar.
Homessa! Pois não é que o senhor tem razão!
Watson
veja isto!
Há sinais nítidos de unhas e linhas microscópicas na carne
como se o assassino tivesse passado numa superfície áspera.
Pelas impressões profundas dos dedos, é possível que ele
Não, seria horrível demais!
É isso mesmo. Exatamente o que pensei.
Será que ele come as orelhas? Talvez seja um canibal.
Diga, senhor Holmes, por favor!
Sei que é pavoroso, mas tenho quase a certeza de que o assassino
que esse monstro esfregou o fígado na cara.
À noite, a barba já começa a crescer
e estas pequenas estrias foram seguramente feitas
pela fricção dos pêlos da barba.
Anathema!
Anathema!
Anathema!
Minha filha
minha filha.
minha filhinha
Oh! Por que Deus não me levou no seu lugar
Sr. Calixto
sou o delegado Mello Pimenta.
Sei que este é um momento muito difícil, mesmo assim,
tenho que fazer algumas perguntas.
O senhor sabe se a sua filha havia feito novas amizades?
Não, era inteiramente dedicada aos órfãos.
Ultimamente o senhor viu alguém rondando a sua casa?
Não. Ela era muito amada.
Gostaria de ficar a sós com a minha filha alguns momentos.
Quem é o patologista encarregado?
Sou eu, Saraiva.
Se o senhor terminou os seus exames
eu gostaria de empregar todo meu talento de agente funerário
para dar à infeliz menina a aparência que tinha em vida.
Não quero que a vejam desse jeito
nem quero o caixão fechado.
Claro, é o mínimo que podemos fazer.
Meus Sentimentos.
Meus Sentimentos.
Meus pêsames!
Acredito que isso lhe pertence.
"Prezado chefe, no momento em que leres estas mal traçadas linhas
estarei me preparando para executar
linhas mais bem traçadas no corpo de outra catraia.
O que é preciso para que me descubram?
Que se encontrem as jóias da Coroa?
Que assine meu nome por extenso nas carcaças das putas?"
" Pensei que o inglês fosse mais esperto do que você
para ler as minhas pistas, mas, pelo visto, é tão burro
que merecia orelhas maiores
do que todas as que já cortei, juntas.
Espero que estejam se divertindo tanto quanto eu.
Façam logo alguma coisa, pois estou com fome
e ainda me resta uma corda para o Concerto, Final.
Falando em corda, cordiais saudações".
"Oluparun".
Não me parece muito esclarecedor
Me parece que o homem faz só troças de nós.
Acho que está enganado, querido.
A mim, parece que ele insinua frequentar a corte.
E a senhora sabichona poderia me dizer por quê?
Bem, primeiro, trata-se de pessoa letrada.
Concordo. Notei inclusive que ele teve o cuidado de escrever
em rabiscos para não ser identificado pela sua caligrafia.
Depois, quando ele fala das jóias da Coroa e de um Concerto, Final
pode estar indiretamente se referindo ao recital beneficente que o violinista
José White vai organizar esta semana em homenagem à Princesa Isabel.
Portanto, o assassino deve ter acesso à corte
e por isso fazer parte dela.
E como sabe disso tudo?
De ler a coluna social do Múcio Prado.
Minha senhora
faço questão de cumprimentá-la pela sua inteligência
e pela sua capacidade de dedução.
Agradecida.
E o que quer dizer "Oluparun"?
Não sei.
Bom, a mim interessa só que lhe agrade as minhas qualidades culinárias.
E o que foi que preparou hoje?
Fígado guisado à Ia nature.
Senhoras e senhores.
Yo sé que hoje tenemos acá el Sr. Sherlock Holmes
que como todos sabem es un fenomenal detetive inglês.
Pero que pocos conhecem es su habilidad como violinista.
Yo pediria que el senhor nos desse
Ia honra y el placer de tocar com nosostros.
Bravo! Bravo!
Congratulações, meu amigo!
Não sabia que o Marquês tocava violino de uma forma tão brilhante.
Memorável! Quero beijar os heróis.
Impossível dizer quem foi o melhor. Bravo!
Sr. Holmes, quando quiser participar de uma das minhas revistas
não se faça de rogado.
O número é digno de qualquer teatro.
Muito obrigado!
Vendo uma apresentação como a desta noite
lamento um pouco menos o roubo do meu Stradivarius.
Jamais conseguiria tocar desta forma.
Obrigado.
Extraordinário. Uma fusão de Paganini com d'Artagnan.
Obrigado.
Toda gente pensa que esses jardins assimétricos são invenções dos ingleses.
E?
Mas não são, meu amor.
Eles começaram a ser usados na China, no reinado de Long-Teching
e só depois, mais tarde, é que foram transportados à Europa, pelos ingleses
- Entende? - Entendo
Estou louca para te dar um beijo!
Ana, vamos para a sua casa?
Não posso. Minha zeladora é muito severa.
Então vamos para o meu hotel?
É muito longe Não pare! Não pare!
Polícia!
- Estão presos! - Tenha calma, seu guarda.
Garanto-lhe que não estávamos a fazer nada de reprovável.
Estávamos só a conversar.
Portugueses são muito abusados mesmo.
Está pensando o quê? Tem que respeitar a lei.
Isso aqui não é mais colônia não!
Está muito enganado, meu caro, senhor.
Sou inglês e meu nome é Sherlock Holmes.
Não me interessa quem é o senhor.
Eu flagrei os dois num atentado à moral
e aos bons costumes.
Isso aqui é o Passeio Público, cidadão, não é a casa da mãe Joana!
Vamos todo mundo para o xadrez!
A moça não tem nada a ver com o acontecido.
Está certo, mas se precisar, depois vai prestar depoimento, viu moça?
Vamos?
É grave, viu? Muito grave o que o senhor fez.
Eu já lhe disse que não tenho explicações a dar.
Faça-me o favor de chamar o delegado Mello Pimenta.
Não sei como é lá em seu país.
Mas, aqui, a lei é igual para todos. Todos!
Garanto que se vai arrepender desta imprudência.
Parece que a imprudência foi o senhor que cometeu, não é?
Guarda, por favor, leve a celebridade para a prisão.
Eu exijo, pelo menos, uma cela separada!
Soltem esse homem!
Soltem esse homem!
O senhor está bem, Sr. Holmes?
Vim assim que a Srta. Candelária me informou desse despautério.
Estava a sua procura.
Temos um encontro com o Dr. Nina Milet
um famoso criminalista e patologista baiano
que poderá nos ajudar.
Pois então? O que quer dizer Oluparun?
É lorubá Nagô.
Significa "o Destruidor", "o Exterminador".
Então o assassino é um negro?
Pelo visto, além de lutarmos pela abolição dos escravos
nós vamos ter que pelejar pela inocência dos negros.
Sabe bem o quanto nosso marquês é precipitado.
Provavelmente trata-se de um mestiço.
Como é que o senhor pode fazer uma afirmação leviana dessas?
Sr. Holmes, aqui no Brasil só pretos e pobres vão presos.
- E abolicionistas, é claro. - E detetives, não se esqueça.
É meramente científico.
Leia o "Essai sur I'inégalité des races humaines", de Gobineau
amigo íntimo de nosso Imperador.
Como os negros pertencem a uma raça inferior
a mestiçagem provoca a criação de seres degenerados
e muitos deles já nascem com propensão
a moléstias mentais e estigmas criminosos.
São absurdos como estes que atrasam
a causa abolicionista.
O senhor deveria se envergonhar do que disse!
Meu caro, falo com conhecimento de causa.
Os estudos de craniologia e craniometria não mentem
Sei bem dessas teorias, Dr. Nina
mas parece-me um pouco precipitado atribuir a negros
a existência de crimes.
Se assim fosse, Londres e Paris seriam cidades pacatas.
Senhores, isto não leva a nada.
Vamos por pontos
Por que o Stradivarius da Baronesa?
Para chamar a atenção sobre o seu poder.
O homem deixa pistas de propósito, como um desafio.
É provável que tenha uma vontade inconsciente de ser apanhado.
Parabéns, Miss Gonzaga. Penso exatamente o mesmo.
Por que ele só mata mulheres?
Porque elas são mais frágeis.
Nem todas.
Porque ele as odeia.
Talvez, para ele, a mulher simbolize a perversão de costumes
que campeia os nossos dias.
Quem sabe ele tem medo delas?
É possível.
Ele tem medo de alguma coisa que elas despertam nele.
Ou que não conseguem despertar.
Chamam de crueldade o que faço.
Por quê?
Não é diferente do que leio no manual sobre o trinchar animais
Não chamam este ritual de crueldade
só porque os animais imolados seem de alimento.
É essa a diferença.
Comer, talvez eu deva comer
Provar finalmente da carne.
Tinham razão, os escravos
Quando eu era criança, nas noites de Magia Negra
na fazenda, assustados me chamavam de "Oluparun".
Não acho que o preparado de aguardente funcione
como preventivo dos efeitos da erva índia.
Veja que interessante, Watson.
Temos três crimes
e em cada vítima foi encontrada uma corda de violino.
G, D, A, E, certo?
Elementar, meu caro Holmes.
Agora veja o nome das vítimas.
A primeira: Eurídice. A segunda: Glória.
A terceira seria Ana, mas eu a salvei.
E ele matou Albertina, percebes?
Claro, existe uma relação entre a nota musical e o nome da vítima.
Isso.
A próxima vítima deve ser alguém com a letra D.
Só uma letra, isso é quase nada, Holmes.
Estamos atrasados.
Watson, pense D.
A partida de Sarah Bernhardt me faz lembrar que mais dia menos dia
você também vai nos deixar.
Por que não venha comigo para Londres?
Não vamos continuar.
Ficaremos aqui, cara Enone
sinto-me fraca, minhas forças me abandonam.
Meus olhos estão cegos pela luz do dia que revejo.
E meus joelhos estão trêmulos e não mais me sustentam.
Ai de mim!
Ela entende francês, Holmes?
O que foi?
Que mão inoportuna arrumou meus cabelos na testa
com todos estes nós?
Tudo me aflige e me faz mal, tudo conspira contra mim.
O que está havendo?
Lamento, mas os senhores não poderão retornar ao teatro hoje.
O que foi? O núbio não quer nos deixar ver a peça?
Não sou núbio, Dr. Watson.
Seja breve. Tenho uma senhorita à espera.
Meu babalorixá Obá Shité III
ordenou que eu os conduzisse até o seu ilê.
Quem?
Meu grande pai, o grande sacerdote do candomblé.
Ele disse que seu pai, Rei Obá Shité III nos espera.
Pois diga ao Rei Obá Shité III que o Imperador Dom Pedro II nos espera.
Ele tem uma importante informação sobre quem está assassinando as moças.
O núbio tem razão, meu caro Watson, precisamos ir.
E já corre em minhas veias ardentes um veneno que Medéa
trouxe à Atenas.
O veneno chega no meu coração
e este coração moribundo é tomado por um frio gélido!
Agora enxergo através de uma névoa e vejo os Céus
e o marido para quem minha presença é um insulto.
A Morte remove o brilho dos olhos que a macularam
e devolve à luz do dia toda sua pureza.
Você é filho de Xangô.
O seu orixá, o santo que te protege.
É para usar sempre essa guia, filho.
E nunca te esqueças:
Xangô é seu pai. Xangô é o seu protetor.
Não entendo.
Os orixás te chamaram aqui
mas não querem mais se manifestar.
Sinto muito, meu filho.
Parece que está havendo uma corrente impedindo o jogo.
Mukumbe, diga a este senhor
que jamais me sujeitarei a essas feitiçarias!
- O que está havendo? - Nada demais.
O Dr. Watson virou no Exú?
É problema
Sei que o senhor tem a melhor das intenções
mas posso lhe garantir que não temos tempo
para nenhuma cerimônia de iniciação.
Uma pomba-gira.
- Uma o quê? -É um exu-fêmea.
É um demônio com jeito de mulher-dama.
Só costuma baixar nas mulheres ou então em
esse moço é adé?
- O que é isso? - Efeminado
Não, ele é inglês.
Vai ver que a pomba-gira se confundiu.
Como é?
Quero oti! Quero itaba, seus merdas!
E pode acendê as inãs!
É incrível!
O Dr. Watson nunca falou dessas línguas!
É a pomba-gira que está pedindo charuto e cachaça.
Que dizê que suncê que sabê quem é o ziriquili?
Exatamente. Queremos saber quem é o serial killer.
Mas suncê conhece o zirikili!
Já saiu com ele!
Já andou com suncê.
Suncê só não descobre
só pensa na muié ou nim fumá itabojira no cachimbo
Tá zovindo, zoreiudo?
Suncê num tem zovido, portuga das Inglaterra?
Tá meió que as nêga!
O zirikili é um okorin de owô odara
e ainda vai kufá outra obirin com a obété.
Ela disse que o serial killer é um homem com muito dinheiro
e que ainda vai matar uma outra moça com a sua adaga.
E por que ele faz isso?
Por quê? Porque zirikili é kolorí
Como é? Quero menga!
Quero ejé!
senão, não subo!
Oluparun! Oluparun!
Será que eu posso perguntar o nome do assassino?
Não adianta.
Quando ela pede para desincorporar, é porque não quer dizer mais nada.
Então, podemos ir?
Certamente nada de extraordinário ocorrerá esta noite.
Não se lembra de nada?
Lembro muito bem.
Entramos aqui e aquele africano fantasiado
mexeu em algumas conchas.
Fora isto, nada.
Vamos, homem!
Diga-me o nome do serial killer!
Meu caro, acho que o sol dos trópicos cozinhou-lhe os miolos.
Por que raios eu conheceria esse abominável assassino?
Mas, Watson
Passem bem, senhores.
Depois de longos anos fantasiando enfermidades
minha mãe morreu da febre devastadora de uma varíola.
Não sinto dor, nem pena.
Uma sensação de liberdade me invade a alma.
Apesar das orelhas e das cordas
não fui descoberto.
E agora nada me impedirá
É chegada a hora de abater a prostituta que
com sua devassidão, peerteu o néscio Imperador dos trópicos.
Penso nos anjos.
Não nos guardiões das almas e portadores das alvíssaras
mas naqueles que o senhor manda à terra para cumprir
seus mais terríveis desígnios.
Os mensageiros das pestes, os carrascos de Deus.
Mukumbe?
Você?
Quase morro de susto!
Onde já se viu, chegar assim, a essas horas
e sem ser anunciado?
Soube que sua mãe morreu.
Fiquei consternada.
Sei o quanto você a amava.
Então não sabe que causa má impressão
visitar jovens viúvas de madrugada?
Clemência!
Não, no rosto não.
Não!
Não há mais dúvidas, meu caro Pimenta.
Desde o início dos crimes que o assassino visava a Baronesa.
O D da corda que faltava era de
Dalia Maria Luiza Catarina de Albuquerque.
Acredito que pelo menos tenha se encerrado
o ciclo de crimes dessa maldita rabeca.
Com licença, Sr. Holmes. Passou-se algo terrível.
Arrombaram os seus aposentos.
Sinto muito.
O que foi, Holmes?
Ele disse que alguém entrou no meu quarto.
Holmes, olha
"Adeus!"
Lamento que a sua visita ao Brasil
tenha se dado em condições tão nefastas.
Gostaria de convidá-los para espairecer em Petrópolis
porém os deveres de Estado me obrigam a permanecer no Paço.
Já mandei reservar as passagens do navio
- que parte amanhã para a Inglaterra. É muita gentileza de Sua Majestade.
Vimos agradecer a generosa hospitalidade e devolver
"O Canto do Cisne"
finalmente encontrado em funestas circunstâncias.
Perdão, Sr. Holmes, mas "O Canto do Cisne"
me traria dolorosas recordações de minha terna amiga.
Só de olhá-lo meu coração se faz aos pedaços.
Entendo, Majestade. Mas o que devo fazer?
Afinal, é um Stradivarius.
O senhor sabe que, oficialmente este violino nunca existiu.
Peço-lhe que fique com ele.
Não sei se posso aceitar um presente tão valioso.
Claro que pode, será o nosso segredo
uma recordação de sua passagem pelos trópicos.
Em Roma, quando César chegava vitorioso das batalhas
e a multidão o aclamava entusiasmada,
fazendo-lhe as honras de uma divindade
ele costumava ter ao seu lado um escravo que lhe sussurrava aos ouvidos:
"É calvo, velho e barrigudo ".
Queria com isso lembrar-se de que era só humano.
A humildade é a mãe de todas as virtudes.
Guarde "O Canto do Cisne" como um troféu do escabroso caso
que não conseguiu resolver.
O único conforto que nos resta é sabermos que terminaram
as cordas e o violino foi devolvido.
Deduzo que chegaram ao fim os crimes
do violinista louco.
Outra brilhante dedução, Sr. Holmes!
Não sei como consegue.
Elementar, meu caro Pedro.
Não entendo por que é que me quiseste ver neste teatro vazio.
Perdão, amor
é que quando quero refletir sobre algo importante
venho aqui.
Clareia-me as idéias como a Igreja para algumas pessoas.
Em que pensavas?
No seu convite para ir com você a Londres.
Então?
Procura entender, querido.
Em Londres, eu seria como um peixe fora d'água.
Quanto tempo duraria nosso amor em meio a uma terra estranha?
Ana, em Londres você serias minha mulher.
Serias Ana Candelária Scott Holmes.
Poderia trabalhar.
Os teatros ingleses são dos melhores que existem.
Estou só começando. Minha carreira não é lá grande coisa.
Quero fazer o meu próprio caminho, Holmes
E você tem seus crimes para cuidar
Parto amanhã.
Venha ao meu embarque?
Não.
Não terei forças para ver você no cais.
Então é
adeus?
Não quero que te vás sem te sentir pelo menos uma vez dentro de mim
Não se esqueçam que em Londres terá sempre um lugar
no 221 b da Baker Street.
E quando vocês vierem ao Brasil
faço questão que se hospedem em minha casa.
Muito obrigado.
Mas apesar de eu amar esta terra, acho que as recordações
que vou levar são muito dolorosas para que isso aconteça.
Miguel!
- Bom dia, senhores. - Bom dia.
Sr. Holmes, quer dizer que viajaremos juntos?
Que feliz coincidência!
Vai a passeio?
Não, de mudança. Eu pretendo morar em Londres.
Então você sais à francesa mesmo quando vai para a Inglaterra.
Conhece muito bem esta minha antiga aspiração
ter uma pequena livraria em Londres e levar uma vida pacata.
Se precisar de alguma coisa, estou à sua disposição.
Gostaria de retribuir a generosa hospitalidade
que recebi nesta terra.
Nunca vão saber.
O obtuso detetive não conseguiu ler
os sinais, tão evidentes, que deixei.
Reconheço que usei um jogo de cartas marcadas.
Na Inglaterra, as notas musicais da escala diatônica
são sempre designadas por letras:
G, D, A, E.
O estúpido inglês nem por um momento
pensou na classificação usada por nós latinos
Mi de Miguel, Sol, de Solera
Lá de Lara.
Miguel Solera de Lara
E o Ré de Recanto de Afrodite, a minha livraria.
Afrodite, a Deusa venerada pelas putas
e protetora de todas as rameiras.
Tão óbvias, as orelhas.
Orelhas de livro, livreiro.
Pena que no português dos lusitanos
as orelhas sejam abas.
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