All language subtitles for Yo.Nena.Yo.Princesa.2021

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Original subtitles

Baseada em fatos reais.

Manú, está fazendo o quê? Aqui sozinho, meu amor?

Vai jogar bola com os meninos, vamos.

Outra vez?

- Deixa que chore. - Não, não posso.

Algo está acontecendo.

Ai, você me assustou! O que aconteceu?

Algum dia farás o que te peço?

Não vou deixar que chore mais.

É só uma noite, nada mais.

Adormecerá só de cansaço, já verás.

Não.

Elias já acordou, meu Deus!

É... Onde estão os fósforos?

Estão aqui os fósforos.

- Você está me escutando? - Não, não está me escutando.

Quero pegar a outra mamadeira.

Não podemos continuar assim. Todas as noites o mesmo.

Aguentar, fazer o quê!

Vai dormir, eu amanhã levo ele no hospital.

Outra vez?

É, outra vez, até entender o que ele tem.

Quanto tempo faz que lhe detectaram asma?

Dois meses, mais ou menos, desde que chora.

Veste ele.

Chora o dia todo, Chora a noite toda.

É mesmo, sempre. Bom, está bem.

- A noite inteira chora. - Já está. Tranquilo.

Você pode ficar quieto, Manú? Pode ficar quieto, por favor?

Bem. Tem que ser contundente. Não faça diferença com ele.

Não fazemos diferenças, doutor.

São gêmeos. Tratamos do mesmo modo.

Acontece que Elias não é como Manuel.

- Ele faz coisas... - É meio raro.

- Diferente. - Ele é raro.

Chora a noite toda, dorme mal.

Está sempre mal. Chora com angústia o tempo todo.

Não acontece nada. Pode ficar tranquila.

Vou lhe dar umas gotinhas para dormir.

Desculpe, que gotinhas? O que acontece com ele?

- Pronto. - O que está acontecendo com ele?

Fala o que te disse o outro dia no aniversário.

Parabéns a vocês!

Nesta data querida!

Felicidades, aos gêmeos!

Muitos anos de vida!

Você, Manú.

Presentes!

Que lindo! Quero ver?

Que lindo carrinho!

Uau! Que lindo!

- É muito bonito! - Posso ver?

Manú?

Onde se escondeu meu garotinho?

Embaixo da cama?

Como eu gostaria de achar esse, garotinho!

Onde estará?

Embaixo da cama da mamãe?

Frio...

Frio...

Morno, morno, morno...

Vai esquentando cada vez mais...

Achei!

Você me assustou, meu amor.

Estava aqui.

Quer bolo?

Olha que está delicioso, do jeito que você gosta, de doce de leite!

Posso entrar aí com você?

Pode?

Bom, vou entrar.

Vou me esconder aqui com você.

Gosta do meu vestido?

Gosto?

A vovó me deu de presente faz tempo. Gosta dele?

É meu.

Bom, está bem.

Vamos, que nos estão esperando.

Mamãe.

Sou menina, sou princesa.

O neurologista disse que ele não tem nada.

Ele não tem nada mesmo, Gaby.

Não tem nada.

Ele não tem nada.

Mamãe, mamãe.

O que foi, meu amor?

Fazendo o quê, acordado?

Quero o meu vestido.

Vem. Vamos para a cama, eu me deito com você.

Vem, Manuel, brincar comigo...

Vamos, Manú, brinca.

À noite demorou para dormir e hoje amanheceu assim.

Ele não tem nada.

Como que não tem nada? Tem ferimentos, cai o cabelo...

A pele é a primeira capa do nosso corpo,

é muito sensível, e

geralmente, expressa coisas que nos acontecem.

Ele está triste ou nervoso por algo?

Isto, sem dúvida, é psicossomático, fica tranquila.

Se ele estiver feliz, estiver tranquilo, o cabelo crescerá rápido.

Quero meu vestido rosa.

Vem para cá! Olha!

- Não gosto. - É o teu pijama, Manú.

Meu vestido?

O vestido não é para dormir. E é coisa de menina.

Não quero isto. Não gosto.

Quero calcinha.

Vem, senta aqui um pouquinho.

Não posso, mãe. Hoje tenho que entregar doze pizzas.

Não aguento mais.

Dorme com uma canetinha rosa, como se fosse uma boneca.

Embaixo da cama ele dorme.

Veste a minha roupa, não brinca como o Elias.

Seus olhos. Você viu os olhos tristes que tem?

Diga, diga alguma coisa, mãe, O que acontece com ele?

Eu sou uma péssima mãe?

Não, minha querida.

Então, me diga a verdade, Como você vê isto?

Diga-me, mãe, necessito que você me diga.

Tudo vai estar bem.

Quando não souber o que fazer,

existe uma só resposta.

Qual?

Amor.

Sabe?

Eu trouxe para você...

o telefone de una psicóloga.

Justo eu, que não acredito nisso.

Porque, como os médicos não acharam nada...

Sim.

- Olá, papai! - Olá, meu amor, olá.

- Olá, meu amor. - Olá, pai...

É necessário aplicar um método corretivo.

As crianças necessitam limites.

Necessitam sentir a autoridade dos pais.

E como seria isso?

Cada vez que Manuel diga que é uma menina,

dirão firmemente que não.

Têm que aplicar o "não".

Mas nós sempre dizemos...

É preciso ver de que maneira dizem.

Vocês dizem com firmeza?

Guillermo?

O senhor é o pai.

O senhor sabe o que é a lei do pai?

Desculpe-me, doutora, o que vem a ser um método corretivo?

Exatamente isso.

Digam toda vez que for necessário,

"Manuel, não está certo que faças isto,

ou aquilo, porque você é homem.

Porque você é menino”.

- Nós dizemos. - Digam com convicção.

Ele chora, fica triste.

Gabriela,

toda criança que começou a chorar parou.

É simples: ele está pondo vocês à prova.

E se vocês derem o braço a torcer,

ele vai fazer o que quiser a vida toda,

e terão que assumir as consequências disso.

Nós psicólogos estamos cansados de escutar os pais

queixarem-se de que seus filhos adolescentes se drogam

e não assumir que foram eles os que não puseram o limite a tempo.

Eu entendo, mas esse não é o problema do Manuel.

- Manuel não se droga. - Gaby...

O problema, Gabriela, é o limite,

e o limite, a Manuel, tem que ser imposto com um método.

E o método corretivo é aplicado com convicção.

Se os pais fossem menos fracos com os caprichos de seus filhos,

haveria menos delinquência, menos droga e menos desvio sexual.

Trata-se da saúde mental e física do seu filho.

Tire dele tudo o que for de menina que estiver ao seu alcance.

Não sejam fracos.

Está claro?

Eu me ocuparei disso, doutora.

Não é Manuel que decide se é menino ou menina.

Nasceu homem, tem pênis,

é um homem.

É ele que está equivocado.

E os senhores, como pais, têm a obrigação de corrigi-lo.

Que bonito que fica! Agora, meu nariz.

Ai, que lindo!

- Eu é que pinto você agora. - Bom.

Nossa! Mas está ficando lindo!

Agora eu? Mas o que é isto?

Não, isso é muito!

Olá.

Olá.

Tira isso da cabeça, Manú, ok?

Não.

Vamos, filho, tire isso.

- E o vestido também. - Não, meu.

Eu te disse para tirar isso! Tira logo isso! Me larga...

Deixa comigo. Vamos.

Estão brincando comigo, deixa que me encarrego.

- Por favor, Manuel. - Não...

Anda, tira, estou dizendo. Por favor. Sim?

Vamos.

Estava comigo, me encarrego. Deixa comigo. Tranquilo.

Isso que ele tem na cabeça é de menina,

e Manuel é um menino, ficou claro, pra você?

Vê como você me pintou. O que é isto?

Agora virei um palhaço?

Vai me acompanhar até o banheiro?

Para tirar tudo isto?

Bom.

Vamos.

Sou um palhaço?

O que acontece?

A psicóloga disse que o tratamento que temos que fazer

é corrigir as confusões de Manuel.

Mas, que confusão? Estávamos brincando.

Deixa ele comigo, Silvia.

Bom, não, me encarrego eu e depois vou embora.

Vamos ao banheiro! Vem!

Vamos ao banheiro! Vamos ao banheiro!

Guarda teus brinquedos, Elias!

O senhor, amanhã às 11 pode vir e pegar a camionete.

Elias.

Sem problema, me paga a semana que vem.

Venham jantar!

- Bem, falta pouco para o Natal. - Uh, é mesmo!

- Vem o Papai Noel? - Claro!

Já, pensaram no presente que Papai Noel vai trazer?

- Já. - Já.

Bem, vamos fazer um jogo, então.

Manú, que presente você acha que Elias gostaria de receber?

Um carrinho azul.

E você, Elias, o que acha que Manú gostaria de ganhar?

- Uma boneca cor de rosa. - Não.

Isso é de menina.

- Você quer uma boneca rosa? - Não.

O que você quer?

Um carrinho vermelho.

- Não te escuto. - Um carrinho vermelho.

Muito bem.

Vamos jantar!

- Olá, bom dia, mãe! - Olá, meu amor!

Estão lá dentro. Elias está brincando com carrinhos

e Manú está desenhando.

Está bem, vai tranquila.

- Vou amassando o de amanhã? - Bom.

Que acontece? Estás bem?

Só vou te pedir uma coisa.

A psicóloga disse que o que temos que fazer

é corrigir tudo o que diga Manuel como menina.

Tudo o que for de menina, com firmeza, dizemos que não.

Temos que agir todos assim.

Fazê-lo entender que ele é um menino.

Então, te peço, por favor, que faça isso também.

Entendeu, mãe?

Está bem.

- Gosta de vir na oficina do papai? - Gosto.

Por que Manú sempre vai ao doutor? Está doente?

Não, é para cuidar, meu amor, nada mais.

- Oh, olha quem vem. - Olá, mãe!

Ah! Meu garotinho!

Olá, meu amor.

E? Como estão? Como foi?

Bem.

Bem, tudo bem. Disse que não tem nada.

Ah, são dois touros! O não? Hein?

Fazendo o quê com a canetinha rosa?

- Dá aqui. - Não.

Que combinamos, Gaby?

- Graças a isso pudemos ir ao médico. - Ah, Sim?

- Dá a canetinha. - Não.

- Dá-me. - Não.

- Dá a canetinha! - Não.

Dá isso!

Entramos em casa, e conversamos no jantar.

- Dá a canetinha. - Não.

Dá-me.

Dá a canetinha, o que combinamos?

Isto é de menina, e você é menino.

Quando vai entender?

Que faz aqui?

- Não pode dormir no chão. - Pode, sim.

Nada vai acontecer.

Que seja macho!

Não quero um filho marica.

Cuidado! Pronto!

Devagar ao atravessar!

Olá, sobrinhos, olá!

E para a vovó nada?

Venha para cá!

Olá, olá, olá!

- Sorte na escola hoje! - No jardim!

Verdade! No jardim! É que cresceram tanto, até me confundo.

A gente se vê depois!

Tchau, Gaby.

Bom dia, bom dia! Bem-vindos! Como estão?

Bem, queridas crianças, queridos pais,

bom, estamos aqui, começando um novo ano

com muita alegria e felicidade,

e quero lhes dizer que todas as professoras e a direção do jardim

estamos mui contentes em poder recebê-los

e lhes prometo que vamos fazer tudo

para que este seja um ano muito especial.

Muitas brincadeiras. Têm vontade de brincar?

De disfarçar-se? De fazer música? De aprender cantigas novas?

Aprenderemos muitas cosas lindas,

receberemos novos amigos,

porque tem muitas crianças novas que estão entrando este ano no jardim.

Portanto os receberemos com muito amor,

com muito carinho, lhes dou a bem-vinda.

E quero dizer-lhes a todos os pais,

que sempre terão as portas abertas.

Agradeço por virem, não tenho muito tempo, mas necessitava vê-los.

Tranquila precisa de algo?

Em que podemos ajudar?

Manuel.

É simples. Silvia e mamãe já sabem,

mas eu queria que estivessem todos.

Manuel está fazendo um tratamento para que tenha limites sobre...

o que já sabemos. Não?

Que se disfarça de menina.

- Brinca com coisas de menina. - Sim.

Eu vou explodir, pai!

Eu queria eles aqui, os dois.

Há momentos em que não posso olhar pra ele.

Observo muito ele todos os dias.

É como que se sente menina.

É isso o que tem que corrigir.

Venho lhes pedir isso.

Todos temos que manter o tratamento.

Para mim, as coisas são branco ou negro, bom o mau,

macho ou macho!

Acho muito bem.

Manú é menino, por Deus!

Homem nasceu.

Tem que ensinar a que não faça coisas de menina.

Manú, o que faz aqui sozinho, meu amor?

Vai jogar bola com os meninos, vamos.

Mesmo que viva triste?

Mesmo que não seja feliz? Mesmo que perca cabelo?

Mesmo que tenha asma?

Gaby, trabalho na saúde,

o único que vejo é um menino que brinca.

Esse tratamento é o único que temos.

Temos uns aos outros...

Gaby, quando precisar, eu posso cuidar dele.

Sim?

Olá, meu amor. Foi tudo bem?

Olha, mamãe, que bonito! Loana me deu.

Como vai?

- Eu sou a mamãe de Loana. - Ah, como vai.

Devolva as pulseiras da Loana.

- Amanhã. - Não, agora.

Não.

Ela empresta, hein?

- Não, tem que devolver já. Manuel. - Não.

- Manuel, devolve agora já... - Não.

- Manuel. - Não.

- Manuel, dá-me as pulseiras. - Não quero!

Elias! Vai jogar bola um pouco lá no quintal,

eu te aviso quando estiver pronta a comida.

- Manú, me dá, tira isso. - Não.

- Tira as pulseiras, vamos. - Não.

Manuel chega. Não quero gritar.

Já te dissemos que com isso não pode brincar.

- Dá-me as pulseiras. Tira isso, Manuel. - Não.

- Chega. Dá aqui as pulseiras. - ¡No!

Dá logo Manuel! Você tem que obedecer.

Portanto, dá as pulseiras. Manuel tira

já as pulseiras, eu te peço, por favor!

Manuel, basta, basta.

Basta, basta, basta!

Manuel, você vai fazer eu chorar a final...

Não chora, mãe.

Não aguento mais.

Não chora mamãe, sou menino.

Olá.

Olá.

O que acontece?

Nada, por quê?

Porque te conheço, Gaby, o que acontece?

Nada.

Eu passo o dia todo fora,

chego, te encontro assim, e me diz que não acontece nada.

Pode me incluir, por favor? O que está acontecendo?

Isto acontece.

Tem uma criatividade tremenda para conseguir, fazer, coisas de menina.

E te juro que lhe digo o tempo todo. Eu juro.

Não grita com ele, por favor.

Olá, meninos.

Olá, papai.

Olá.

Manú,

filho.

Da onde saiu isto?

De onde você tirou?

Loana.

- Loana lhe emprestou. - Gabriela.

Até quando vamos continuar com isto, filho?

O que dissemos sobre as coisas das meninas?

O que te disse papai...

- das bonecas... - Guillermo...

dos vestidos?

Que te disse papai das fivelas de cabelo,

das pulseiras, dos sapatinhos de salto alto?

O que te disse papai?

Que te disse o papai, por favor?!

Fale. O que te disse?

Pedi para não gritar com ele...

As coisas de menina, são de menina, e você é menino.

Menino como teu irmão, entendes isso?

Como...? O que devo fazer para que me entendas? Fala!

- Pedi para não gritar com ele. - Você, cala a boca!

Sai. Estou falando com o meu filho.

É uma questão entre o meu filho e eu. Saia!

Amanhã você vai e devolve... Sim?

Porque se não, te juro...

Basta! Não o ameace mais, não grite mais com ele! Chega!

Até quando com o método corretivo da psicóloga?

Há quase seis meses. Manuel não muda.

Cada dia está pior, está sofrendo, você não vê?

Prefere que seja marica?

Não me importa o que for, que seja o que quiser,

mas o tratamento lhe faz mal.

E se eu não estiver de acordo, hem?

Não me importa se não estiver de acordo.

Acha que eu gosto do que acontece?

Baixa a voz!

Não é capaz de ver como ele está?

É teu filho!

Você só sabe gritar e repreender,

é só isso que ele tem de você.

Meu filho fará o que eu disser.

Teu filho fará o que quiser, o que sentir,

o que puder. E o único

que deveria importar é que seja feliz.

Feliz, nada mais.

- Está louca. - Sim, estou louca.

Louca estou de ver essa tristeza nele,

não entender o que é, o que acontece há anos.

Ou vai dizer que você está bem?

FESTA DE "MACACOS E BAILARINAS”,

OS MENINOS DISFARÇADOS DE MACACOS, AS MENINAS DE BAILARINAS.

A condição humana não é binária.

A infância transgênero sempre existiu.

- Olá, Gaby. - Olá, Sil, como vai?

Escuta, o canal de documentários.

Já.

Entendi o que acontece com Manú.

Sharon se auto percebeu como menina desde os 3 anos.

Seus pais procuravam respostas sem descanso em todos lugares possíveis.

Médicos, psicólogos, psiquiatras...

Mas a resposta estava em Sharon.

Hoje tem sete anos.

Levou-nos tempo entender e aceitar, mas...

quando deixamos de lutar e entendemos o que acontecia,

Sharon começou a ser feliz.

Amo minha filha.

Sempre fui pai de uma menina.

Só quero que sorria.

Desde que começou a expressar, sempre foi feminino.

E as dúvidas e a dor eram nossas.

Ela só queria que a amássemos.

Te amo, Sharon.

Olá, meu nome é Sharon.

Sou uma menina com pênis.

Manú.

Manú, onde você está?

O que você faria se dissessem que seu filho é uma menina transgênero?

Silvia me disse que têm vários artigos e vai me trazer.

Não quero um filho marica.

Eu quero um filho feliz.

Coitadinho...

Não corte nunca mais o cabelo dele.

Desculpa.

Tantos meses lutando...

Nunca mais...

vou te deixar sozinha.

Desculpa, por favor.

Prometo que vou te acompanhar.

Eu prometo que serás a princesa mais bonita do mundo.

Desculpa, pronto.

Já entendi, meu amor.

Agora sim.

Já entendi.

Para que serve tudo isto?

Eu acho que é útil.

Olha, sublinhei aí.

Tem muitos casos no mundo,

inclusive no documentário, com os testemunhos,

é como se estivesse falando Manuel.

Repito, o que quer com tudo isto?

Bom, a resposta, a verdade, não tenho.

Eu acho que...

o tratamento não dá resultado.

E lhe trago um documentário da Inglaterra

e muitos artigos da internet que falam das pessoas transgênero.

Artigos da internet.

Sim, de profissionais prestigiosos que...

que falam da auto percepção precoce.

Sei perfeitamente o que falam,

e se querem contatar-se com essas pessoas da Inglaterra,

com essa gente da internet, façam.

O conveniente, será terminar com o tratamento

e continuarem com outro profissional.

Tudo o que aconteceu com o tratamento foi sofrimento

e retrocesso, nada mais.

Não opino o mesmo.

A forma de evitar o sofrimento é resolver o problema.

E para isso há um método.

E para o cumprir devidamente.

Todo o resto, absolutamente todo o resto é

palavreado. Nada disso é verdade.

Trouxemos meu filho com uma única pergunta.

Por que diz que é menina?

Está cada dia pior. O tratamento...

não funciona,

Trouxe com todo respeito algo que...

que poderia ajudar, a senhora diz que é tudo mentira.

Então me explique, responda, diga o que sucede com meu filho.

O que sucede em sua casa?

O que sucede em sua casa, Gabriela?

O que acontece com seu filho em sua casa?

Porque aqui Manuel vem, faz a sessão perfeitamente

e se comporta como menino.

Porque está reprimido.

A senhora pede para fazer desenhos,

e ele sabe perfeitamente

onde e quando lhe convém expressar o que sente.

O que acontece na sua casa?

O que diz seu o marido?

Nós psicólogos, trabalhamos com o que vemos em sessão.

Somente com o que veem em sessão?

A senhora é parte do que sucede a Manuel.

Ele é inteligente e sabe o que a senhora prefere. Percebe?

Trabalho com crianças faz trinta anos.

Então, sabe perfeitamente como sofrem

quando lhes impõem o que deve ser.

Para encerrar este processo,

lhes mandarei um e-mail

confirmando meu diagnóstico e o tratamento.

Sim, estamos de acordo,

Manuel é muito inteligente,

e sabe, e sente perfeitamente que é um menino.

Aqui, a merenda...

Vamos comer.

Que gostoso! Quero comer.

Aqui está.

Adoro teu cabelo.

O teu também.

Mas o meu cabelo é curtinho.

Algum dia vai crescer.

Quer ser bailarina comigo?

Ía adorar.

- Pronto? - E o papai?

Está trabalhando. Chega tarde hoje.

- Não vou ser macaco. - Vai ter que ser, Manú.

A professora disse que as meninas são bailarinas.

Eu vou ser um macaco.

E eu sou menina.

- Olá. -Olá. - Olá, pai. -Vem, Manú.

Olá, meu amor.

Olha o que trouxe.

Olhem.

Obrigado, papai, te amo!

Eu também te amo.

Vem, Manú.

Para você.

Obrigada por vir.

Justo íamos te ligar para consultar sobre a mensalidade.

Vem, senta. Acho que são quase três meses, deixa eu ver.

Não se preocupem, fim de mês já estará tudo pago.

Ah, tudo bem. Então ficamos tranquilos.

Bem, eu venho por outro assunto também.

Sim, diga.

A verdade é que necessitamos ajuda.

Sim, como não. Diga em que posso ajudar.

Manuel está passando um momento...

bastante especial com o tema da sua identidade.

Sim...

Bueno, está triste, e nós queremos cuidar dele.

E ele não se sente bem.

Na realidade, não se sente cômodo

no papel de macaco.

Ele preferia ser bailarina.

Era isso? Não se preocupe.

Ele tem que ser macaco.

Pense que ele está listado como Manuel.

E é assim. Os meninos são macacos, as meninas são bailarinas.

Mas, calma, por que quando vier, cuidamos dele.

Estamos para isso, aliás.

- Não me entende. - Entendo perfeitamente.

Sei que você também me entende.

Manuel...

é macaquinho.

Inclusive há meia hora chegaram os disfarces.

Vou buscar dos teus filhos, caso queiram ensaiar em casa.

Não entendo o “cuidamos dele"!

Não imaginam a cara dela. Sorria enquanto me dizia que não.

É uma empresa. O que podemos esperar?

Escolas particulares são assim. O único que importa é a mensalidade.

Mas a mensalidade está em dia?

Eu tenho dinheiro. Vou lá pagar, aproveitamos dizer algumas coisas.

Eu também.

É tão bom sentir vocês perto...

Isso vai ser sempre assim, você sabe.

O que eu acho é que devemos conseguir uma roupa de bailarina urgente.

Não, não vou tirar a autoridade do colégio.

Só queremos que Manú seja feliz. É ou não?

- Ele é feliz sendo bailarina. - Tudo bem, mas...

Temos que conseguir uma roupa de bailarina.

- Vamos ver isso. - Não sei como.

Silvia tem razão.

Até o último momento, não sabemos o que vai acontecer.

E se não estiver pronta, podemos perder a oportunidade.

Deves estar pronta para o que for, Gaby.

Eu quero te ajudar.

Posso...

Posso fazer a roupa de bailarina para...

para minha sobrinha.

Eu posso fazer um arranjo, um coquinho.

Isso faço bem.

E eu faço a saia tutu.

- Não quero ser macaco! - Vamos, Manú.

A professora disse que tem que praticar. Vamos.

Elias, como o macaco faz?

Mostra, quero ver... Vamos.

Ai, que medo me deu!

Vamos, Manú. Agora você.

Não, quero ser bailarina.

Vem.

- Você quer ser bailarina? - Quero.

- Vai ser bailarina. - De verdade?!

- Vai sim. - Mas fazemos um trato.

No jardim vai ser macaco e aqui...

Vai ter a festa de bailarina com toda a família.

Verdade!

Lembra? No jardim vai ser menino e aqui você põe o disfarce.

- Vamos tirar as medidas? - Vamos!

Bravo!

Muito bem!

Bravo!

Bravo!

Bravo!

Parece tão feliz...

É.

Tudo está mais claro que nunca.

Também acho, Gaby.

- Está maravilhosa. - Vou cumprimentar.

Escuta, estive averiguando algumas coisas.

- Eu conto amanhã. - Não, me conta já.

Sabe o que é a "CHA"?

Comunidade Homossexual Argentina.

É uma entidade mui prestigiosa.

No hospital, me deram o telefone de uma psicóloga que trabalha aí.

Eu procurei na internet,

e mandei um e-mail,

e contei tudo o que acontece com Manú.

Acho que você deveria ligar para ela.

Olá?

Boa tarde, eu queria falar com a doutora Valeria Paván.

É, ela mesma.

Eu sou Gabriela, a mãe de Manuel.

Minha irmã Silvia me passou seu telefone.

Ah, sim, como vai? Estava esperando teu telefonema.

Em que posso ser útil?

Bem, estou procurando ajuda para...

para entender...

Mamãe.

Incomoda essa calça. Não quero roupa de menino.

Para saber o que fazer...

Quando chegarmos na casa da vó,

você põe a roupa que está dentro da sacola, como sempre.

Bom.

O pai poderá acompanhá-los na primeira entrevista?

Sim, claro.

Bem. E Manuel gosta de desenhar?

Ele adora.

Então, peço para trazer todos os desenhos que puder do último ano.

Espero vocês amanhã. Às 16 está bem?

Sim, quando disser. Perfeito. Onde é?

Há duas quadras da Plaza de Mayo.

Moram longe?

Não, tudo bem, doutora, obrigada.

Entrem, por favor.

Obrigada.

- Com licença... - À vontade.

Foi fácil chegar?

- Sim. - Sim, sim.

Querem usar o banheiro, tomar algo...?

Vou ao banheiro, com licença.

Bem, aí, em frente.

Sente-se, Gabriela, quer um copo d’água?

- Sim obrigada. - Bem.

- Manú ficou com algum familiar? - Com a minha mãe.

Bem, os dois, porque são gêmeos.

É, contou sua irmã no e-mail que me mandou.

Estava morta de sede.

Um pouco.

Eu...

trouxe os desenhos.

Fantástico.

- Com licença. - Pois não.

Quanto tempo faz que Manuel se manifesta assim?

Desta maneira.

Desde o aniversário de dois anos, doutora.

Esse dia me disse que era menina.

Contem um pouco o que sentiram, que ocorreu...

quando lhes disseram que iam ser pais de dois meninos.

E...

uma emoção muito grande, doutora.

Queríamos ser pais, e...

e vieram dois menininhos, dois machinhos.

Na barriguinha, ele...

já sonhava com que iam trabalhar com ele na oficina...

e que um ia ser eletricista,

o outro ia a ser mecânico,

também, que pudessem estudar...

Ter uma vida "digna", como se diz, não?

Disso se trata, não?

Claro, totalmente, ter uma vida digna.

Sim?

Para começar, temos que estar os três de acordo.

Sobre o que fazer com tudo o que for acontecendo.

Mas?

Sim, isto recém começa.

Quando digo "entrar em acordo" não quero dizer que me obedeçam, não...

É aceitarem mudar a ótica.

Deixar de ver com olhos próprios,

e começar a ver com os olhos de Manuel.

Como pais, fazer...

tudo o que Manuel precisa para ser feliz.

¡Cuidado ao atravessar!

- Vamos brincar de "A bela e a fera"! - Outra vez, não!

Brincam enquanto preparo o jantar.

Vamos, vamos.

Se aqui estão, é porque querem acompanhar Manuel

no processo da sua identidade. É isso?

É.

Fomos a muitos lugares, médicos de todas as especialidades,

psiquiatras, terapeutas,

e uma psicóloga com a qual todos sofremos muito também.

Durante meses tentamos corrigir a conduta de Manuel.

Mas, quando vimos o documentário,

começamos a entender,

isso nos ajudou.

Conheço o documentário, sim.

A ignorância sempre é escura e provoca injustiças, não?

Viu o documentário, Guillermo?

Vi.

O que achou?

Duro...

Duro, muito duro.

Eu não vou te julgar.

Este não é um caminho fácil para ninguém.

Mas a verdade está junto a vocês e se chama Manuel.

Acho que tem muitas possibilidades de que Manuel seja uma menina trans.

Como é...?

Uma menina trans é uma menina transgênero.

- Transexual? - Não.

Transexual é uma construção da identidade sexual na idade adulta,

com intervenção hormonal, genital...

E como seria, doutora? Explique.

Transgênero é aquela pessoa que não se sente cômoda

como gênero atribuído ao nascer

baseado no seu genital.

A construção de identidade de uma pessoa

não tem a ver com os seus genitais,

mas com a auto percepção do seu gênero.

O que você sabe que é.

Mas tranquilos, vamos trabalhando devagar...

com Manuel,

vamos cuidar dele,

sobre tudo.

- Sim? - Sim.

Se...

soubéssemos...

que Manuel é uma menina trans,

O que farão?

E... bom...

aceitaremos o que ele decidir.

Bem.

Até a próxima semana a esta mesma hora! Tragam Manuel.

Sim.

Desculpa, mas preciso saber quanto sai o trabalho.

O quanto puderem dar...

Estará bem.

O dinheiro não será problema.

Muito obrigada.

E o que fazemos até a semana próxima?

Com o quê?

Com Manuel.

Se refere a o que faremos com Manuel porque cada dia que passa,

tudo que pede ou tudo que faz, Manuel é mais feminino e é...

difícil.

Quando uma pessoa manifesta quem é,

há um só caminho...

deixar ser.

"Vamos, diz que me ama, diz que me ama".

Não quero brincar mais de "A bela e a fera".

Por favor, justo quando você tem que dizer que me ama...

Uf... "Te amo, minha Bela".

"Até a esquina ida e volta".

Quer conversar?

Do quê?

Não sei, de tudo...

Ou ao menos do que passou hoje.

Para quê? Se tudo o que digo e penso não serve de nada.

O que diz?

O que escutou.

Passo o dia todo trabalhando fora.

Me consumo...

trabalhando fora.

Sou quem mantém esta casa, quem sustenta esta casa,

mas cada dia que passa é pior,

porque você me deixa fora.

E eu tenho a culpa?

Vai, me deixa em paz.

Vou embora.

Melhor que fique.

Quer falar do quê?

Do sutiã de Manuel na entrada ou da psicóloga?

Porque ela sabe tudo, não?

Por que ela perguntou para mim o que eu achava...

do documentário, não a você? Por quê?

Não sei.

Sabe o quê?

Um lixo eu achei esse documentário.

Gringos que simulam ser "superados",

Eles se fazem de bonzinhos, que entendem seus filhos,

que amam eles. Tudo para a televisão.

Quando apaga a câmara,

bebem umas cervejas e ficam adormecidos num sofá.

E você adora isso, faz saltar as lagriminhas.

Você pensa que descobriu a pólvora?

E ainda, achou essa mulher

que te diz o que querias ouvir.

- Eu não quero nada. - Fecha a boca!

Estou falando.

Nunca me deixa falar.

Respeita-me.

Vê como nem mesmo posso dizer o que me acontece?

Você veio para perguntar e responder, e depois...

contar aos teus irmãozinhos tudo o que faz por Manuel?

A mãe que se sacrifica e o pai que não serve para nada!

Manuel...

é o que você precisa,

e eu te pedi,

mas você adora que meu filho seja marica.

Adora!

E assim se faz de vítima,

mas você não me deixa ser o pai que necessito.

Você.

Por isso não te agradava a psicóloga.

Porque dizia que eu era a lei, o homem da casa,

a lei da casa, e não paraste

até conseguir que Manuel pusesse esse sutiã.

Na porta da casa, na frente de todos!

O que direi a meus amigos?

O que pensarão os vizinhos? Diga!

O Quê?

Está arruinando nossa vida! Está destruindo nossa vida!

Nossa família, o futuro, tudo!

Vai embora!

E não fale mais comigo. Saia!

Saia!

O que está fazendo?

- Eu perguntei o que está fazendo. - Cuidando.

Tem que haver intimidade. É importante.

Mentira. Cuidando de você mesmo. Está se escondendo,

cobrindo tudo para que não vejam Manuel.

É minha casa e faço o que quiser.

É a casa de Elias e de Manuel, e faz meses

que fazemos tudo o que você quer.

Isso você não vai fazer, pode tirar já.

Não vou tirar nada.

- Se você não tira, tiro eu... - Não vou tirar.

- Não vai esconder nenhum dos nossos filhos... - Espera.

Por ser diferente.

-Para! Para!

Não vai esconder, não vai fechar,

não vai transmitir a Manuel que se envergonha dele.

O que faz?

Isto, na minha casa, não. Na minha casa, isto não.

Isto não...

Para, louca, para!

- Louca está demais, hein! - Cala a boca.

- Não vou fechar a boca. - Vou te bater.

- Vai fazer o quê! - Te mato a sopapos!

Basta, basta!

Mato você. Sai daqui!

Basta!

O pior que pode acontecer às crianças é isto.

Que os pais não estejam unidos.

Vou tirar tudo isto.

Olá!

Não sabe que vontade eu tinha de te conhecer.

Meu nome é Valeria.

Querem entrar?

Quer entrar?

Tiveram boa viagem?

Três ônibus.

Três ônibus? Ah um montão!

- Moram longe? - Não, um pouco.

Eu gosto de viajar.

É? Eu também. Adoro viajar.

Querem sentar?

Se quiser, saio um pouco.

Não é preciso.

Como quiser. Ou como quiser Manú.

A intenção aqui é que todos se sintam cômodos.

Viu o que tem aí?

Para desenhar?

Canetinhas de todas as cores.

Todas as cores?

Isso, todas as cores.

Tenho uma ideia. Sabe como se chama?

Não.

Se chama "sim a tudo".

Tudo sim?

Tudo sim, sim.

Quer se vestir no banheiro? Quer?

Mamãe pode te ajudar.

Não, eu vou.

Está bem?

Sim.

Quer um copo d’água?

Não, melhor vou caminhar um pouco.

Bom, como quiser.

Quarenta minutos. Sim?

Se quiser ir antes, te aviso.

Manú.

Vou comprar algo gostoso para comer e volto logo para te buscar. OK?

De chocolate!

- O que é isto? - Uma princesa.

Uma princesa. E a parte de cima...

é um desenho espetacular.

Um, um, um, um.

Um, um, os dois.

Um, mais rápido, um, um, um, um, os dois.

Despenteada!

O gorila...

Tenho uma... surpresa...

O quê?

Toma.

- Para mim? - Sim.

2 de outubro, primeiro encontro. Durou aproximadamente 40 minutos.

Sem cortes.

Manuel é...

empática, amável, tem um bom humor.

Gestos e condutas femininos sem imposições.

Habilidades motoras fina sutilmente avançada, precoce para sua idade.

É...

perceptiva,

é muito inteligente,

uma inteligência emocional que o conecta a outros a grande velocidade.

Não vejo em sua conduta manipulações de nenhuma índole.

É... autêntica, é muito autêntica.

É notável como sabe

onde pode e onde não pode se expressar.

Em todo momento, sua auto percepção é de menina.

- Entre. - Obrigada.

Está se trocando.

Como está?

É um amor de pessoa.

Um amor.

Não impeçam.

Deixe brincar com o que quiser.

Concentre-se no que lhe disse: deixe-a ser.

Sim.

Quantos meninos conhece assim?

Nenhum.

Desta idade, nenhum.

Adolescentes, sim, muitos, mas tão pequenos...

É muito valente Manuel, hein?

Muito valente.

E não é uma frase o que estou dizendo.

Que na sua idade foi capaz de impor o que sente assim...

Ai, Gabriela...

É pura valentia.

- Vou pagar. - Não, não.

Eu e minha equipe decidimos não cobrar.

Fique tranquila por isso. Não...

Vamos acompanhar toda a família e a Manuel em tudo o que precisarem.

Mas eu trouxe dinheiro.

Sim, mas com certeza vai ter onde gastar.

Vamos, vamos.

Gosta?

Eu gosto.

Não é disfarce.

É roupa.

Vamos levar.

É para o menino?

Sim.

Tenho para menino um conjunto de calça e camisa espetacular.

Obrigada, mas queremos a saia.

Temos um suéter também, que não se faz bolinhas.

Você é vendedora? Eu compro a saia. Vende ou não?

Manú sai e você entra no chuveiro. Vamos!

Eu tomei banho ontem!

Por isso, mesmo.

- Olá, Elias. - Olá, pai.

Vai me comprar calcinha um dia?

Hoje te comprei uma saia.

Mas quero calcinha.

Não sou menino. Não quero cuecas.

Eu não tenho pênis.

Responde, mãe. Responde.

Bom, meu amor Eu te compro uma.

Manu,

você tem pintinho.

Elias tem, eu não.

Tem, meu amor, você também tem.

Não, meu pintinho não está, se foi ao jardim.

O pinto não sai.

Por onde você faz xixi, então?

Você também tem?

Não.

E por onde sai o xixi?

Pela vagina.

E por quê você não tem pintinho?

Porque não sou uma menina tão...

especial como você.

Eu quero ser uma menina comum.

Olá, papai. Como estás? Como foi no trabalho?

Te amo.

O que faz aí embaixo, Manuel?

Brincava com o quê?

Nada.

- Mostra. - Não.

- Mostra para mim. - Não.

Mostra ou tiro de você.

- Outra vez trazendo coisas do jardim? - Não.

Não mintas.

Não mente. A psicóloga deu para ele.

Deixa que ele responda.

-Amanhã você devolve. Dá isso -Não.

- Dá aqui, te digo! - Não.

Dá isso já!

- Minha boneca rosa. - Chega, Manuel.

- Guillermo, por favor. - Minha boneca...

- Basta, Manuel. - Devolve, por favor.

Por quê?!

Até quando vamos continuar com isto?

Até quando?

Você sabe perfeitamente por quê quer esta boneca.

Porque sou menina e me chamo Luana!

Bom, pronto.

Devolvo a chave, pode ficar com tudo.

Posso saber aonde vai?

Não.

E as crianças?

Têm uma mãe que cuidará deles.

Isso você também deveria fazer.

Eu fiz até onde pude.

Pôde pouco.

A vida é dura com aqueles que dão pouco.

- Você diz por você? - Sim, por mim.

Por isso posso te dizer.

Mas...

Aqui estou.

Olhando para você.

Oxalá algum dia...

você possa deixar de olhar pela janela.

Fiquem aqui.

Aonde vai o papai?

Mamãe, mamãe, mamãe!

O que foi?

Ficamos adormecidos! Ficamos adormecidos!

- Ficamos adormecidos! - Que horas são?

Ai, não...

- Vamos no jardim? - Ver desenhos?

Sim, ver desenhos... Não, vamos logo.

Coloca o tênis.

Manú, se troca. Vamos.

Se não me chama de Luana, eu não te obedeço.

Trocar de roupa, Luana. Já.

Achei que não vinha mais.

Adormeci.

Que raro você se adormecer.

O que aconteceu?

Foi embora.

Acontece que eu queria uma família com ele.

Não sei como vou fazer agora com...

com as contas, com as coisas...

Eu nem sei para onde foi.

Mas, você sabe que devo estar bem. Devo permanecer bem.

Pelas crianças, devo ser forte, firme.

Não podem me ver assim.

Gaby, se você está triste, vão te ver triste.

É assim. Eles vão perceber mesmo.

Como estão hoje?

Elias está...

um pouco... estranho, está...

preocupado.

E Lulu...

à sua maneira, também, é estranho para ela

porque, por um lado, não tem seu pai.

Mas, por outro lado, não tem mais que fingir.

Eu acho mesmo que algum dia...

as crianças...

vão entender que seu pai foi embora.

Manuel.

Eu não sou Manuel.

Aqui ainda não te conhecem, por isso te chamam assim.

Sim? Sim, já vamos.

- Sente-se, por favor. - Obrigada.

Vamos ver, mãe: seguro social e documento.

Aqui está, doutora.

O seguro social foi cancelado.

Como?

Foi cancelado quase um mês atrás.

Se quiser, pode pagar como particular.

Não, mas eu não trouxe hoje.

Calma, não se preocupe, da próxima vez, já sabe.

Bom.

Vamos ver, campeão, o que aconteceu?

Manuel, certo?

- Luana. - Como?

Me chamo Luana e tenho febre.

Sim, doutora, Manuel é Luana. Ela é uma menina trans.

Mas o documento diz Manuel. Eu não posso pôr Luana.

Por favor, doutora.

Meu nome é Luana.

- Aqui diz Manuel. - Meu nome é Luana.

Querido, aqui diz Manuel.

Meu nome é Luana!

Luana!

Que bom que veio!

Sabe como eu já sentia sua falta?

- Se sente melhor? - Sim.

Sim? Que bom!

Tem coisas novas.

Sim, tem coisas novas.

Que eu comprei especialmente para você.

Além disso pensei, que poderia trazer o seu irmão para eu conhecer.

Elias é muito engraçado.

Sim?

Você está bem?

Se nota. Mas olha para ela.

Olha.

Relaxa, seu processo vai bem.

O duelo é assim.

É que, às vezes não aguento mais.

Bastante bem até, para quem não aguenta mais. Olhe para você.

Você está aqui. Não?

E para ir pensando...

assim como cuidamos Luana emocionalmente,

também tem que cuidar dela legalmente.

Fala do documento?

Sim, Luana tem direito a sua identidade,

Vai lhe fazer bem.

Isso em uma sociedade se reflete no documento.

Eu contei o que aconteceu com a médica?

Isso vai acontecer, com a educação e tudo mais.

A identidade é uma das coisas mais importantes na vida.

É um caminho que tem que começar a percorrer.

Você será capaz?

Só um tempinho, meu amor,

pego o pedido de amanhã e já vamos para casa, OK?

- Bom, mãe. - Bem, já volto.

- Gosta? - Adoro.

Voam.

Gostaria de aprender?

Quero voar como elas.

- Olá. - Olá.

Precisam de alguma coisa?

Queria consultar sobre aulas para ela.

Ótimo, o grupo dela é bem bonito.

- Quer começar na próxima semana? - Sim.

Deve trazer uma fotocópia do documento da menina

e preencher um formulário, que é uma autorização.

Segundas e quartas-feiras a esta hora, e pronto.

Bom, obrigada.

O que acontece?

Não, acontece que temos um problema com o documento dela.

Não tem problema, me traz quando puder,

ou não tem?

Tem documento sim, mas com nome de menino.

Se enganaram ao registrar.

Não, é uma menina trans.

Qual é o problema?

Traz o documento que tiver.

Aqui vamos tratar como outra menina mais.

- Como é seu nome? - Luana.

- Luana? - Sim.

Adoro seu nome.

Eu vou adorar te ensinar a patinar.

- Te vejo na segunda, ok? - Bom.

Não compre nem patins nem joelheiras, nós te emprestamos.

- Vou continuar com a aula. - Tudo bem.

- Tchau. - Tchau.

Ela me tratou bem, mãe.

Sim, meu amor.

- Luana! - Que?

Você quer começar agora?

Quero!

É muito gostoso patinar, um dia você vem me ver?

Vamos ver.

Ver que?

Se eu tiver tempo.

Que? Anda muito ocupado?

Vou ver o quê? Com certeza cai o tempo todo.

Nada a ver! Não caio nada.

Nunca.

Diz a verdade, não acredito.

E se eu cair, o quê? Eu me levanto de novo.

- Não, é mamãe? - Hein?

Se eu cair, me levanto de novo.

Vou me trocar para ir na casa da vovó, mãe.

Não, Luana, espera.

Não muda. Vamos assim.

Não tem problema.

Mas todo mundo me vê.

Quem é você?

Menina ou menino?

Uma menina.

Bem.

Então, vamos atravessar a rua,

pega na mão da mamãe bem forte,

sem vergonha.

E nada,

nada...

mau vai passar.

Entre, espere um segundo.

OK, perfeito, para amanhã, então. Muito obrigada.

Olá.

Como vai?

Bem, venho pagar.

Ótimo, vem, espere um segundo, que já recebo.

Bem, pago a dívida e sei que já estão cobrando

a inscrição para o próximo ano, então já pago também.

Bem.

Sim, entre!

Diretora, podemos ligar para os pais do Manú? Olha como veio vestido.

Vem, meu amor.

Bem, pode ir. Obrigada.

Você falava sobre a inscrição do próximo ano. O custo.

Não, eu só vou cobrar a dívida,

justo íamos te ligar porque queremos ser organizados

e avisar com tempo que estamos sobrecarregados de alunos.

Para que tenham tempo de buscar outro jardim.

Não entendo.

É o que te disse,

que não temos mais vagas

para o próximo ano.

Entendo perfeitamente.

Estamos em outubro, e já sabem que não há mais

lugar para meus filhos para o próximo ano.

Exato.

Pago a dívida. Amanhã já não virão mais.

Bom dia, esperam alguém?

Olá, bom dia, queria falar com a diretora.

Sou eu.

- Olá. - Olá.

Sente-se, por favor.

Vinha perguntar por vagas.

Você deve perguntar na secretaria, aí te informam tudo.

Posso adiantar que estamos sobrecarregados.

Já não temos vagas para o próximo ano.

É que não é para o próximo ano. É para agora.

Mas já estamos quase no fim do ano.

É que justo agora ficaram sem escola.

Como eles ficaram sem escola?

Eles iam a um jardim particular. São gêmeos.

Eu os vi lá fora, a menina e o menino.

Mas a menina tem documento masculino.

É uma menina trans.

Eu sei que...

que é difícil, e há muito para entender, mas...

devem continuar estudando, ir ao jardim,

devem ter amigos...

Luana, minha filha, no documento aparece como Manuel.

Existe uma lei de identidade de gênero, suponho que já sabe.

Mas cuido para que o direito ao estudo não seja negado a ninguém.

Nesse caso, já mesmo, ficam matriculados aqui.

Estão matriculados na escola estadual

e querem te conhecer.

Sim, já me ligaram.

Tenho uma reunião com a diretora e a psicopedagoga.

Ah, bom!

Valeria, às vezes não sei o que responder a Luana.

Tem coisas que diz ou perguntas que me faz que

não sei o que responder.

Na verdade. Sempre. Sim.

Quando perguntam, já sabem a resposta,

perguntam só para confirmar.

A verdade é uma ferramenta de cura, Gabriela.

Como o documento?

Como o documento. Sim.

Vamos com o advogado da comunidade

que vai assinar no Registro Civil.

Luana vai ter seu documento.

E eles vão dar?

Devem dar.

A Lei apóia. É só um processo administrativo.

Temos que cuidar...

para não judicializar o processo,

e para isso é necessário que o pai também assine.

Você vê isso possível?

Vou tentar.

Já é tarde, não?

- Será que vem? - Acho que não.

Ele me disse que sim.

Lá vem o papai.

Bom dia, Guillermo,

sou o advogado que ajuda com o processo da documentação para Luana.

Se precisar de ajuda, pode contar comigo também.

Bem.

Antes de entrar, preciso que me diga se está disposto a assinar...

para que Luana possa ter acesso ao direito à documentação.

Vim para isso.

Desculpem, nunca fizemos isto antes, tive que baixar o formulário da internet.

Ambos os pais assinam, promove o letrado,

e o requerente.

Parabéns.

Com este formulário, e aqui mesmo,

podem retirar a partida de nascimento retificada,

e com isto, o documento é imediato.

Obrigada, pai.

Então, Luana sempre na fila das meninas.

Sempre.

Não mais diremos "os meninos por aqui as meninas por ali"

porque organizaremos grupos não bináries.

Excelente.

E quando Luana quiser ir no banheiro?

Sempre no banheiro de meninas. Sempre com a porta fechada.

Nunca, e muito menos ela, vai querer expor sua intimidade.

Luana sempre vai querer ir no banheiro de meninas.

Gabriela, estamos em uma escola pública.

Trabalhamos para que todes estejam bem.

Obrigada.

Desculpe, algumas coisas são óbvias, mas nada melhor que tirar dúvidas.

Estamos aprendendo.

Reaprendendo.

Gabriela, no arquivo da Luana só falta agregar seu documento.

Logo que você tiver...

Precisamente, o conselheiro tutelar nos convocou na próxima segunda

para conhecer a Luana, e continuar com o processo,

nem bem saia...

trazemos para cá.

- Bom dia. - Bom dia.

Bom dia, Doutor.

Olá.

Olá, sou Luana.

Luana.

Que bom conhecer você.

Obrigada, quem é você?

Eu sou o conselheiro tutelar.

Para quê?

Dentro da justiça,

minha ocupação é cuidar dos menores.

E as crianças trans?

Sim, também.

Olha, devo falar com mamãe e papai,

Você pode esperar com a minha secretária?

Certeza que vai poder desenhar o que quiser.

É só um momento.

Vai me dar o meu documento?

Agora comento tudo a mamãe e papai.

Bom.

Que bonita é.

Obrigado por trazê-la, queria conhecer.

Obrigado, Doutor.

Bom, o senhor dirá.

Estou...

honestamente, impactado.

Comento que vejo a uma menina, sem dúvidas...

mas devo dizer que os citei para lhes comunicar a resolução.

Por ser muito pequena, o documento foi rejeitado.

Mas, como pode ser?

Cumprimos todos os requisitos que estabelece a Lei de Identidade de Gênero,

como pode ser?

O Código Civil estabelece que a criança é uma menor impúbere

e, por tanto, é absolutamente incapaz de tomar decisões

porque pode estar viciada ou influenciada na sua decisão.

O senhor acha que Luana foi influenciada?

A lei diz que os menores de 14 anos podem

acessar ao processo como apoio dos representantes,

que somos nós, seus pais, e um advogado.

Sim, mas o Código Civil diz que é uma menor impúbere

por ter cinco anos.

Por isso a juíza tomou essa decisão.

E quando deixa de ser impúbere?

Aos oito anos.

Muito bem.

Ou seja, minha filha vai continuar tendo uma vida de porcaria.

Cheia de injustiça, de violência, sem direitos por ser menor de idade.

Minha filha tem direitos!

Olha, se dependesse de mim,

eu daria o documento agora mesmo.

Se continuarem com o processo, e verem o que eu vi,

que é uma menina,

vão dar o documento.

Isto não deve ser judicial. Para quê está a lei?

A lei proíbe judicializar este processo, Doutor.

O senhor sabe.

O que teme?

A infância é o único que nos salva ou nos destrói para sempre.

A decisão está tomada.

E devem ser notificados.

Levanta, levanta!

Levanta, levanta, levanta!

Levanta, levanta!

- Falta muito, mãe? - Vamos ver, meu amor.

Vinte minutos. Chegamos um pouco antes.

Quer conhecer a casa das bonecas rosa?

- Quero! - Vem.

Você me espera aqui?

Bom.

- Boa tarde. - Boa tarde, senhora.

Pode me dizer onde deixar uma carta para a Presidência?

Aqui mesmo, de segunda a sexta, das oito às doze horas.

Mas, será entregue?

Todas as cartas são entregues, senhora.

Vê aquela menina ali na porta?

Sim.

É minha filha,

tem um documento que diz que é masculino.

Há meses lutando para que se respeite sua identidade,

já não sei o que fazer.

Sem o documento, tudo é muito difícil.

A educação, os médicos, os papéis, a vida.

Desculpa, não aguento mais.

O senhor acha que realmente poderá...

entregar a carta...

à Presidente?

A senhora traz a carta...

dou a minha palavra...

que vai ser entregue.

Senhora Presidente,

meu nome é Gabriela Mansilla,

tenho uma filha trans de quase seis anos.

Antes da Lei de Identidade de Gênero, seu psicodiagnóstico foi F64.2,

"Transtorno da identidade sexual em crianças".

Mas está progredindo em questão judicial,

e hoje a lei 26743 diz que não é um transtorno.

Que essa doença não existe.

Aplicaremos um método corretivo.

Fiz todos o processo que a Lei de Identidade de Gênero requer

segundo o estipulado para os menores de 14 anos...

Você vai me dar meu documento?

Para obter seu documento,

mas foi negado.

Faz quatro anos que desenvolve sua vida como menina,

inclusive com a ajuda da CHA, Comunidade Homossexual Argentina.

Vai ao pré-escolar a uma escola estadual,

que respeita sua identidade.

Mas, legalmente, não existe.

E é aí que está mais exposta.

Como exemplo, na área da saúde,

como não coincide seu nome no documento que tem,

ao chamá-la por esse nome, lhe gera angústia e frustração.

Não há processo que possa ser feito sem que a afete.

Com ajuda psicológica constante que recebe,

ainda assim é difícil superar cada momento.

Peço-lhe encarecidamente que interceda

para que se cumpra a Lei de Identidade de Gênero,

porque, se não, desrespeitamos os direitos das crianças.

Sendo este um caso excepcional,

protegeríamos sua integridade psicológica

com apenas um documento

que lhe dê o seu devido lugar como pessoa na área jurídica.

Como mãe farei tudo o que estiver ao meu alcance e mais

para conseguir que minha filha seja uma pessoa

totalmente inserida na sociedade.

Mamãe, como faço para ter angina como você?

Do que se ri?

Angina é uma doença da garganta.

Vagina ou pênis são partes do corpo

com as que nascem as pessoas.

E não muda?

Não na tua idade.

Quando sejas grande, e se você decidir,

sempre com médicos e se...

realmente estiver decidida e depois de pensar muito...

uma pessoa pode ser operada.

Quer que eu te conte algo?

O que?

Tem muitas partes do meu corpo que eu não gosto,

e eu queria mudar e não posso.

E às vezes me dói.

E sabe o que eu faço?

Não.

Me abraço, assim, forte, bem, bem forte...

fecho os olhos assim,

e penso...

que mereço ser feliz,

e em todas as pessoas que me amam como eu sou,

sem ter que mudar nada.

Assim...

aprendi a amar meu corpo.

Você quer praticar comigo?

Sim.

Nos abraçamos forte,

fechamos os olhos com força,

e pensamos que merecemos ser felizes,

e amamos...

o nosso corpo assim...

como ele é.

Pronto.

Te ajudou?

Sim.

Você me ama muito?

Mais do que a mim.

Sabe por que te amo?

- Porque sou diferente? - Não.

Porque você é única.

E muito...

muito,

mas muito valente.

Eu sei como ser valente, mamãe.

Os valentes não mentem, é não mentir e pronto.

Como todos sabem, um tempo atrás

tornou-se do conhecimento público o caso de uma menina trans...

de quase seis anos.

E muita coisa se disse.

É sempre mais fácil buscar responsáveis,

jogar culpas,

ou ser indiferente ante a dor do outro.

Hoje, em nossos estudos, depois de muito insistência,

porque, claro, não é fácil aceitar a se expor,

nos visita, pela primeira vez frente à câmara,

Gabriela,

a mãe da Luana.

Boa tarde.

Obrigada por estar aqui.

Não, obrigada a você.

E desculpas por ter demorado tanto em aceitar.

Não é fácil para mim. Simplesmente, não me...

interessa que me conheçam.

Minha única motivação...

é que Luana, minha filha,

seja respeitada na sua identidade.

Até agora só fomos escutadas pelo INADI,

que é o organismo contra a discriminação,

e a SENAF, a Secretaria da Infância, Adolescência e Família.

Mas precisamente, a Justiça...

Não faz cumprir a lei.

Claro.

O primeiro que devemos dizer, e talvez muitos não saibam,

é que na Argentina existe uma lei que obriga

a ser respeitada a identidade de gênero de todes,

inclusive dos menores.

É isso.

E a identidade de gênero não está determinada pelos genitais,

e sim como cada persona se auto percebe.

No caso da minha filha, não foi respeitada.

Luana manifesta que não pertence

ao gênero que lhe foi atribuído ao nascer.

Se auto percebe.

Não existe manipulação.

Culturalmente, é vista como um menino, pelos seus genitais,

tem acompanhamento terapêutico, apoio jurídico.

Ela é uma menina trans.

E nada pode modificar seu ser.

Todos nos auto percebemos,

mas encaixamos dentro de uma norma, dentro do esperado.

Não a deixam ser menina por ter pênis.

Hoje isto se torna de conhecimento público

quando Luana e seus pais foram solicitar a modificação do documento.

- O que aconteceu? - Nada.

Sem a ouvir,

e sem a conhecer, lhe negaram seu direito.

Muitos pais dizem que dariam a vida...

por seus filhos,

e eu, o único que fiz, foi escutá-la.

Estamos ao vivo em casa da Gabriela.

Existem alguns manifestantes.

Dona Gabriela, pode nos dizer umas palavras?

A transexualidade é satânica!

A transexualidade é satânica!

Atrás desta porta são cometidos estragos!

A alma de um menino inocente está sendo possuída.

A blasfêmia tem que ser desmascarada.

Fora da minha casa!

Não tem idéia do que se sente ao ser discriminado.

Nada, ninguém,

machucará a minha família.

Ninguém...

- Saiam! Fora! - Uma barbaridade esta gente!

Saiam! Fora daqui!

Salve, Jesus!

- Fora daqui! - Salva-o!

As crianças estão vendo na televisão.

- Tranquilos. - Vão embora...

Já irão.

Devemos ser valentes. Tranquilos.

Já vão embora.

Olá.

Boa tardes, com a senhora Gabriela Mansilla, por favor?

É, ela mesma.

Muito prazer, senhora. Meu nome é Juan Álvarez.

Sou o chefe de Gabinete da província.

Pois não.

Ligo para comunicar-lhe

pessoalmente que, para o governo nacional como para o provincial,

o que aconteceu com sua filha no Registro Civil...

é inadmissível.

E retificaremos a partida de nascimento de Luana

para que possa ter seu documento.

Verdade?

Sim, senhora.

Luana terá seu documento.

Fique tranquila.

Vai ser cumprida a lei.

Luana!

- Filha, meu amor! - Que?

Você conseguiu.

Que?

Vão te dar o documento. Conseguimos, meu amor.

Pronto.

Já é a hora.

Ai, que lindo que estás!

Está bem, mãe?

Meu amor, te amo.

E para a vovó?

Bom, vamos, vamos, vamos.

Estou bonita?

Está muito bonita, Luana.

CHEFIA DE GABINETE

Hoje é um dia que, com certeza, nós que estamos aqui...

vamos lembrar por toda a vida.

E, sem dúvidas, Luana, certamente muito mais.

Porque, junto a sua mãe e toda sua família,

lutaram muito para ser escutados.

Cada um será responsável por seus atos, mas...

hoje...

viemos para reparar e comemorar.

Um documento não é só um papel ou um processo burocrático.

É, institucionalmente e em todo mundo,

o elemento que nos identifica em formato físico.

A impressão digital de cada um.

A representação de um direito humano

que não pode ser alienado nem roubado.

E que deve representar também...

o que cada um de nós sente ser.

A importância incalculável da nossa identidade.

O mundo já não é o de anos atrás.

Evolui minuto a minuto.

E o binômio homem-mulher...

foi deixado atrás.

Levará tempo para a sociedade compreender,

mas as leis estão para ser cumpridas

e para empurrar este motor de mudança que devemos assumir.

Luana,

você nos ensinou muito a todos.

Serás para sempre memória, nosso emblema.

Porque, junto com sua mãe,

você enfrentou uma batalha...

tão incalculável.

Sofreu, e isso nos dói.

Não estivemos quando necessitava.

Mas agora...

ninguém poderá tirar tua conquista.

Ninguém mais...

poderá violar teus direitos.

É um orgulho para mim...

fazer a entrega neste ato...

de seu Documento Nacional de Identidade.

Obrigado pela paciência,

sua força,

e sua valentia.

Querida Luana,

aqui está, para sempre,

teu documento.

LUANA É A PRIMEIRA MENINA NO MUNDO QUE AOS 6 ANOS

CONSEGUIU OBTER UM DOCUMENTO ONDE UM ESTADO RECONHECE

SUA IDENTIDADE DE GÊNERO SEM NECESSIDADE DE INTERVENÇÃO JUDICIAL.

¡Olá! Como é seu nome?

Eh... Luana.

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