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-Consegues ouvir? -Sim.
-A corda está mesmo por baixo dele. -Sim, obrigada.
-Quanto tempo passou? -Três horas.
Não gosto deste sítio.
-É assustador. -Para. É apenas uma corda.
Não é apenas a corda.
Esperem.
Aqui estão eles.
É o Nilsen e os homens dele.
Mais ninguém.
Encontraste alguma coisa?
Não.
Amanhã, vou pedir uma equipa maior.
Vamos alargar o perímetro de busca.
Querem dizer que vão desistir da corda?
Seguimo-la durante vários quilómetros e não encontrámos nada.
Vamos continuar, amanhã,
mas temos de estar preparados para tudo.
Se calhar, encontraram um obstáculo
que os obrigou a deixarem a corda e perderam-se.
Solicitei um helicóptero para sobrevoar a zona e pouparmos tempo.
Estamos a fazer os possíveis para encontrá-los, Sra. Mueller.
Já passaram dois dias.
Por favor, não perca a esperança.
A Corda
Para fazermos observações em tempo real,
temos de associar os telescópios.
Senão, teremos de comprimir os dados para analisá-los mais tarde.
No ano passado, associaram os telescópios, em Dwingeloo.
Podíamos ligar-lhes. Provavelmente, têm alguns conselhos.
O Lautenbach doutorou-se comigo.
-Posso ligar-lhe. -Malta?
Desculpem estragar-vos a festa, mas podemos falar do problema?
A colheita começa em dez dias.
E falta-nos o nosso analista-chefe,
a diretora do departamento científico
e o Bernhardt, o nosso patrão.
O que fazemos?
Continuamos a trabalhar.
Eles vão voltar.
Sou a única a ver o problema?
Eles vão voltar a tempo.
Eles vão voltar.
-Bernhardt? -Não, sou eu, o Ulrik.
-O que estás aqui a fazer? -Estou a fazer café.
Bati, mas vi que estavas a dormir.
Pensei que ias gostar.
Não o devia ter feito. Com licença.
Ulrik?
Sim, estou aqui.
-O que se passa? Quem são aquelas pessoas? -São as famílias.
As famílias?
Vou recebê-las.
Sou o capitão Erik Nilsen. Sou responsável pela operação de resgate.
Aqui, estamos longe de tudo e a busca será difícil.
Portanto, são todos bem-vindos a juntarem-se à busca.
Temos recursos limitados e muita área a cobrir.
Então, qualquer ajuda seria bem-vinda.
Se não puderem juntar-se à busca, podem ajudar-nos a coordenar aqui.
Eles desapareceram há dez dias.
Dez dias é muito tempo.
Mas é possível sobreviver com água e muito pouca comida durante mais tempo.
Ouçam, por favor!
Não mais do que três metros entre dois homens!
Caminhamos em linha reta!
Está errado.
Têm de seguir a corda!
Sra. Mueller!
Já fizemos isso.
Seguimos a corda durante três dias, mas não encontrámos nada.
Normalmente, as pessoas deixam vestígios, como lixo, pegadas e fogos.
Os meus homens não viram nada.
Talvez por causa da chuva.
É improvável.
Acredito que mudaram de rumo por alguma razão.
Porquê? Porque o fariam?
Por várias razões.
Temos de considerar outras opções, agora.
-Têm de seguir a corda, por favor. -Não estou aqui pela corda.
Estou aqui pelas pessoas.
Por favor, deixe-me fazer o meu trabalho.
Está quase de noite.
Não conseguiremos voltar, esta noite.
Eles estão à nossa espera. O Bernhardt ficará furioso.
Podem safar-se sem nós por um dia, certo?
Fomos um pouco longe, sim, mas não acham empolgante?
Café?
Obrigada.
Chamo-me Fanny. Sou a mulher do Serge.
-Prazer em conhecê-la. Sou o Ulrik. -Sim, eu sei.
-Posso? -Sim.
-O que faz, exatamente? -Eu?
Não, quero dizer, aqui. Sei que é astronomia, mas...
Parecem todos muito concentrados.
É porque estamos a preparar-nos para iniciar uma nova colheita.
Uma colheita de dados.
Estamos a estudar um fenómeno astronómico chamado FRB,
ou fenómeno repetidor.
São como emissões de rádio que vêm do outro lado do universo.
Até agora, pensávamos que aconteciam aleatoriamente sem motivo.
Contudo, pensamos que podemos prever quando e onde vão acontecer.
Pelo menos, é a teoria do Bernhardt e da Agnès.
E quanto à colheita?
Concretamente, viramos as nossas orelhas em direção a uma parte do céu.
E, se não estivermos enganados, vamos ouvir um repetidor.
E se não ouvirem nada?
Significaria que tudo isto foi em vão.
E qual é o objetivo?
No fundo, pensamos que os repetidores
vão ajudar-nos a compreender a formação do universo.
-Sim. -Bem...
Nem a minha vida consigo compreender.
Acha que eles se perderam?
O seu marido conhece a floresta como a palma da mão.
Saber que ele está com eles é animador.
O que sabe sobre o Serge?
Não muito.
Ele não fala muito.
Com licença.
Agnès, estás bem?
Não.
Não estou bem.
Tenho saudades tuas.
E eu tuas.
O Bernhardt ainda está lá fora.
Pode estar ferido.
Pela primeira vez, sinto que estou a traí-lo.
Enquanto ele não voltar, não pode acontecer nada entre nós.
Percebes?
Sim. Sim, percebo.
E se ele não voltar?
Lamento, mas é uma possibilidade a cada dia que passa.
Cala-te.
-Aonde vais? -Trabalhar.
Sente-se bem?
Quer que paremos?
Vai passar.
Continuem.
Eu apanho-vos.
Sophie, o que se passa?
-Sophie, está tudo bem? -Caíste?
Ajudem-me!
O que aconteceu?
-O que aconteceu? -Não sei.
É...
Pensei...
-Não sei. -Como se sente?
Sinto-me bem.
-Sinto-me bem. Estou bem. -De certeza?
-O que fazemos? -Temos de voltar.
Não, vamos continuar.
Não passámos a noite aqui para nada. Vamos continuar.
-Temos de voltar. -Não podemos voltar, agora.
Digo, se conseguires.
Sim, consigo.
Consigo.
-Sophie! -Mais uma hora?
-Está bem. Vamos lá. Mais uma hora. -Sophie.
Está bem.
Quem está aí?
Chamo-me Fanny Morel. Desculpe.
Ainda não fomos apresentadas. É a Agnès.
-Sim. Boa noite. -Boa noite.
-Estou a fazer chá. Quer? -Não, obrigada.
-Posso ajudá-la? -Não.
Conheço bem o local.
Acha que eles vão parar de procurar?
Não sei. Desculpe. Tenho muito trabalho.
Pode ficar, por favor? Estou sozinha.
Não se preocupe com o seu marido.
Ele sabe bem o que faz.
É o que todos dizem.
Como se o Serge estar com eles fosse reconfortante.
Sim, é de confiança.
Sabia que eu e o Serge perdemos a nossa filha há 15 anos?
Não.
Ela estava a brincar perto da piscina. Ele devia estar a vigiá-la.
Encontrei-a quando voltei do trabalho.
Ela tinha oito anos.
Nem imagina a raiva que eu sentia dentro de mim.
Quase nos matei aos dois.
Estávamos a voltar do funeral. Eu estava a conduzir.
Olhei para o Serge e dei uma guinada.
Ele não fez nada para me parar.
Embatemos numa árvore.
Fiquei em coma durante dois dias.
Depois, quando acordei,
soube que queria viver
com ele.
Ele é o homem que amo.
Está chocada?
-Acha estranho? -Não.
Ninguém compreende.
A minha família não compreende. O meu pai não nos quer ver mais.
Mas não sinto raiva.
O Serge tem raiva suficiente pelos dois.
Depois, um dia, fartou-se de viver comigo,
de eu lhe dizer diariamente que o amava.
Então, partiu.
Desde que ele vive e trabalha aqui,
todos os dias, sinto que alguém me ligará e dirá que ele morreu num acidente.
Não se pode contar com o Serge para aguentar.
Percebe?
Só espero que alguém faça o que não consegui fazer.
Salvá-lo.
Dormiste bem?
Como um bebé.
Temos de voltar, agora.
Vais ficar bem?
Está tudo bem? O que se passa?
Já não tenho dores.
Não tenho dores, de todo.
É a primeira vez em oito anos.
Então, está bem.
Sim.
Estou bem.
Creio que é a corda.
Creio que me fez alguma coisa.
Como assim?
Partiremos em dez minutos.
Vamos continuar mais um pouco.
Estás a brincar?
Mais uma ou duas horas. Deve levar a algum lado.
E os outros? Estão à nossa espera.
É cedo. Mais uma hora e voltamos.
Dois dias na floresta sem equipamento e sem comida.
É demasiado.
Mesmo que nos desloquemos rápido, teremos de passar outra noite cá.
Consigo aguentar, no mínimo, mais um dia. E vocês?
Podem acontecer muitas coisas num dia.
Acho mesmo que devemos voltar.
Leïla?
Leïla?
Leïla?
Leïla!
Não!
Leïla!
Liguei a Paris.
Vão manter a subvenção, mesmo na ausência do Bernhardt e dos outros.
Vão ajudar-nos a encontrar substitutos para eles.
Liguei ao Perez. Ele consegue estar aqui em dois dias.
Trabalhou muito com o Bernhardt, no Chile.
Em dois dias?
Falta uma semana para a colheita.
A Kapoor deixou o Lovell, ontem. Ela estará aqui, amanhã.
-Susan Kapoor? -Sim. Não perguntei. Ela voluntariou-se.
Posso ligar ao Murray.
É do Green Bank. É um bom analista.
Mas não tão bom como a Leïla.
Precisará de um mês para ficar a par, para aprender o dossiê FRB todo, certo?
Estou só a dizer.
Também precisamos de outro operador de telescópio.
Não posso fazer tudo sozinho.
Vai chover.
O Bernhardt não levou um casaco.
Viram os outros a levarem algo para a chuva?
Liguem a essas pessoas.
Digam-lhes para não virem.
Não estarão prontas a tempo.
O que estás a dizer? Vamos parar?
Não, vamos continuar.
Vamos fazer tudo sozinhos. Como sempre.
Vamos fazer turnos duplos.
-Já fazemos. -Então, triplos.
A colheita começa daqui a sete dias.
Podemos fazê-la todos juntos. Não precisamos de ninguém.
É impossível eles virem aqui para serem glorificados em vez do Bernhardt.
É o projeto dele. Ele está nisto há 15 anos.
Liga a Paris. Diz-lhes que vamos safar-nos.
Só nos apoiarão, se aceitarmos a ajuda deles.
Não sei se vão manter a subvenção, se...
Tranquiliza-os. Sê convincente.
Liam?
Sim.
Suponho que possa operar o telescópio sozinho,
se deixar de dormir.
-Hélène? -Como queiram.
Obrigada...
...por me apoiares.
Posso passar a noite contigo, se quiseres.
Só para estarmos juntos.
O que dirá o Bernhardt, se voltar durante a noite?
Não. Eu durmo no sofá, totalmente vestido.
Isso é gentil. Obrigada.
Mas prefiro estar sozinha.
-Compreendes? -Sim, claro.
Se não te sentires bem, chama-me.
-Há uma pequena fenda ali. -Acha que eles se afogaram?
Vejam. Estão a puxar a corda!
Sim, eles passaram.
-Eles passaram. -É demasiado perigoso.
Não me parece.
Vejam. Podemos passar.
Há uma corrente forte. Não vão conseguir voltar.
Encontraremos outro caminho.
Sophie, se te acontecer alguma coisa, serei o culpado.
Serge, não estamos no observatório.
A decisão é minha.
A responsabilidade é minha. É minha testemunha?
Ele tentou dissuadir-me e eu decidi ir.
Podes afogar-te. Percebes?
Não o faça.
É só uma corda.
Talvez.
-Creio que há alguma coisa para mim ali. -Não sabe isso!
Não sei, mas acredito.
Não tem de vir comigo. É melhor regressar.
Leva-a de volta.
Talvez eu consiga fazê-lo.
Tenho um mau pressentimento. Dani, deixe-me levá-la de volta.
Não o obrigo a nada.
Dani!
Respire.
Vai ficar tudo bem.
Vejam!
Quem fez aquilo?
Esperem.
Vejam. Ali também.
O que aconteceu aqui?
Parece que se mataram uns aos outros.
Por causa da corda?
Não devemos tocar-lhes.
É melhor voltarmos.
Então?
Temos de comer alguma coisa. Não temos escolha.
Os corpos estão mesmo ao nosso lado.
Eles não se importam. Coma.
Leïla, vem comer.
Estás zangado comigo?
Queres matar-te? É isso?
Lamento.
Pensei que estávamos no fim. Queria ver o fim.
Porquê?
Não sei. É importante.
Não, não é importante.
Tu e eu. Isso é importante.
O resto, isto tudo, é uma merda.
Porque me segues sempre?
Segues-me sempre como um cão.
-Porque me falas assim? -Responde-me.
Sou eu quem decide onde vivemos. Sou eu quem decide quando teremos filhos.
Sou eu quem decide tudo.
Só segues alegremente.
Mas... Desculpa, mas pensava...
Pensava que era normal decidires quando estás pronta para ter filhos.
O que queres?
Pensas que é fácil ser responsável por alguém?
Constantemente?
Não achas que eu gostaria que fizesses a tua parte?
Diz o que queres, para variar.
Quero que voltes comigo.
Não quero voltar.
Se nos levantássemos bem cedo, amanhã, poderíamos andar mais quilómetros.
-O que foi? -Vamos voltar.
Deixei-vos fazer o que queriam, mas isso acabou.
-Não volto para debaixo de água. -Arranjaremos outro caminho.
-E a corda? -A corda que se lixe.
-Serge, ouve... -Não, não está em discussão.
Acho que comeste alguma coisa estragada.
Olá, como chegaste aqui?
Está frio ali.
Pensei em aproximar-me do fogo.
Como te chamas?
Raimund.
O que te aconteceu, Raimund?
Segui a corda com os outros.
Tivemos um desentendimento.
As coisas descontrolaram-se.
Lamento. Quando foi isso?
Há muito tempo.
O que se passa?
Tens razão. Aquelas latas parecem-me estragadas.
Não estou a falar disso.
O que se passa?
Acho que tenho medo da corda.
Porquê?
Não quero morrer.
Então, não morras.
Olha quem fala.
Quando eu era criança...
...estava triste.
Constantemente.
Portanto, comecei a falar com Deus.
E Ele respondia, sabes?
Então, tínhamos conversas inteiras.
Não muito diferentes da que estamos a ter.
Um dia, Ele parou de falar.
Como se desistira de mim.
-Quem? -Deus.
-Presta atenção, Raimund. -Desculpa.
Passado algum tempo, também desisti.
Paraste de acreditar.
Pergunto-me...
Foi a coisa certa a fazer?
Depende.
Levou a mais tristeza?
Não sei. Talvez.
Faz-te sentir triste ou feliz?
Faz-te sentir bem ou infeliz?
É bastante simples, na verdade.
Acho que quero saber o que está no fim da corda.
Isso deixar-te-ia feliz?
Não sei. Sim.
Não tens medo da corda.
-Não tenho? -Não.
Tens medo de que a corda possa levar-te a acreditar novamente.
-Estou confusa. -Só que não devias estar.
Escolheste mergulhar naquela gruta.
Esquece isso.
És uma ótima miúda, Dani.
Obrigada, Raimund.
Queres que te enterremos a ti e aos teus amigos, antes de irmos?
Não sei quanto aos outros.
Contudo, gosto de estar aqui, ao ar livre.
Adoro observar as estrelas, à noite.
São lindas.
Pois são.
Se o Bernhardt e a Agnès estiverem certos, devemos ouvir um FRB a qualquer altura.
Quanto tempo vai durar?
Apenas alguns segundos.
-Só isso? -Sim.
A janela fecha-se.
Tens alguma coisa?
Não, pensei que sim.
Acabou.
Vá lá.
Malta, ao trabalho. Deve ter-nos escapado algo.
O que se passa?
Porque é que ninguém diz nada?
O que foi?
Está a nevar.
-Talvez ela volte. -Ela é a minha mulher, Serge.
-Vou procurá-la. -Partimos há quatro dias.
-Vai procurá-la. Nós vamos voltar. -Vou contigo.
-Também eu. -O quê?
-Dani, não. -Porquê?
Porque é perigoso!
Vou partir, agora. Quem vem?
Leïla?
Joseph, abranda.
-Fiquem aqui, se quiserem. Vou continuar. -Espera.
Já passaram três semanas.
Por causa da falta de pistas e, agora, com a ocorrência de neve e de frio,
temos de imaginar o pior.
Portanto, decidimos cancelar a busca.
Lamento.
O que lhes vai dizer quando eles voltarem?
Tem de continuar.
Simplesmente... envie outro helicóptero.
Não posso mobilizar recursos desses com a neve.
Ninguém tem nada a dizer?
Sra. Mueller, por favor, ouça-me. A neve...
Exatamente!
Eles estão algures lá fora.
Está a nevar e vão estar 20 graus negativos, porra!
Então, é bom que faça alguma coisa. Encontre-os!
Porque é que ninguém diz nada?
-Digam qualquer coisa! -Pare, por favor!
Está a magoar toda a gente!
Dizemos-lhe que acabou!
-Acabou. -Agnès.
-Ulrik. -Sim?
Temos de seguir a corda.
Continuo a dizê-lo. Eles estão no caminho da corda.
Agnès, acalma-te. Compreendemos-te. Estamos nisto todos juntos.
Então, porque é que ninguém diz nada?
Porque acabou! Acabou! Percebes?
-Gostarias disso, certo? -O quê?
Sim, achas que vais poder reconfortar a pobre Agnès, certo?
És um belo amigo do Bernhardt.
-Sou eu. -Eu sei.
Posso entrar?
Peço desculpa.
Lamento. Não devia ter falado contigo assim em frente aos outros.
Também sinto falta dele.
O que queres que faça?
Se não tivesse partido a perna, teria ido com os outros.
Será que terias chorado por mim?
Importa por quem choro?
Para mim, importa. Sim.
Acabou, Agnès.
O Bernhardt, os nossos amigos,
Hellig, a colheita...
Acabou tudo.
Ele está lá.
Ele está no fim da corda. Basta-nos segui-la.
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