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HELLIG, NORUEGA
Merda!
Idiota.
A Corda
-Estás bem? -Sim.
Encontrei uma corda.
Uma quê?
Uma corda.
É a Hélène a ligar.
-Anda à tua procura. -Eu sei, eu sei.
-É Paris. -Eu sei.
Há algum problema?
Não.
Estamos à espera desta chamada há 15 anos.
Não a podia atender sem ti.
-Tens medo? -Claro que tenho.
Seja o que for, tenho orgulho em ti, Dr. Mueller.
E eu em ti, Dra. Mueller.
Estou.
Sim, acabou de chegar. Vou passar.
Sim, Hélène, sou eu.
Passa-mos, sim.
Ainda tem os analgésicos que lhe receitei?
Devia tomá-los agora.
Vão impedir-me de trabalhar?
Seja como for, não vai conseguir trabalhar.
O que devo fazer?
Descanse o máximo possível.
Fique em casa.
Tente dormir um pouco, Sophie.
As suas filhas podem ir aí ajudá-la?
Não.
Elas estão longe.
Não quero voltar a fazer-lhes isto.
Quanto tempo tenho?
Umas semanas.
Talvez menos, é difícil dizer.
Mas os medicamentos ajudá-la-ão.
O que é isso?
Interferência.
-Que interferência? -Não sei.
É a função do Ulrik saber isso.
Porque é assim tão difícil respeitar a zona de silêncio?
Estamos longe de tudo.
O Ulrik não pode fazer mais patrulhas.
Enfim, escrevi o algoritmo novo para filtrar a RFI.
-Um algoritmo novo? -Não se perde tempo com alertas falsos.
A ser validado pelo conselho científico.
Vou pôr isso na ordem do dia.
O que foi?
Alguma notícia de Paris?
-Saberás mais tarde, como todos. -Por favor!
Como todos.
-A sério? -Vamos.
Vamos mudar de assunto. E a Leïla?
Região de Sagitário, vamos.
O que foi?
Lembra-me alguém.
Fiquei surpreso por me terem pedido para a ir buscar se estamos quase a fechar.
Pensei que ainda não era certo.
Olá, sou a Dani.
Bernhardt Mueller.
Sabia que eu vinha?
Sim, claro.
Parece muito jovem, só isso.
Eu sei, mas tenho 23 anos.
Obrigada.
Não apanhei o seu nome.
Serge.
Obrigada, Serge.
Não há wi-fi aqui.
E os telemóveis são proibidos.
Por causa da interferência.
As últimas famílias partiram há um ano.
Há mais espaço para todos.
Este não é o maior,
mas é o mais próximo dos escritórios.
Quando neva, é mais cómodo. Vai ver.
É perfeito.
UMA SEGUNDA OPORTUNIDADE PARA O HOMEM
UM ENSAIO SOBRE O FIM DE DEUS
Foi o Bernhardt que te falou nisto?
Ele sabe?
Encontrou-a ontem à noite.
Podia já estar aqui.
Passo por aqui todos os dias. Não estava aqui ontem.
Aonde achas que vai dar?
Não é possível.
Espera, espera.
Espera. Ulrik!
Anda!
Acho que vejo o fim!
Espera!
Saltei sem olhar.
Não podes ficar assim.
Temos de o tirar.
Não. E se atingiu uma artéria?
Temos de o tirar.
-Acho que vou desmaiar. -Vamos.
Não, espera!
Um... dois... três!
Atenção, por favor.
Reunião do pessoal todo dentro de dez minutos no átrio.
Obrigado.
Sim, estão aqui todos. Senta-te aqui.
Muito bem. Por favor.
Então, antes de tudo,
o Ulrik está bem, está a descansar.
Também gostaria que déssemos as boas-vindas
à Dani Johannes, que chegou esta manhã.
Bem-vinda. Veio como parte da parceria com a UCL, em Londres.
Vai ficar connosco nos próximos seis meses,
portanto, estejam à vontade para lhe mostrar como as coisas funcionam.
Tive notícias de Paris ontem.
Então...
Temos luz verde.
Começamos oficialmente a nossa campanha do repetidor daqui a duas semanas.
Tivemos quatro anos difíceis,
mas vamos mostrar que a melhor compota é feita em frascos velhos.
Os nossos telescópios podem não ser de última geração,
mas são de uma sensibilidade excecional.
E graças aos esforços de todos,
talvez tenhamos uma hipótese
de resolver o mistério dos repetidores antes do mundo inteiro.
Obrigado por confiarem em mim. Estou orgulhoso de nós.
-Aos repetidores! -Aos repetidores!
Mesmo que ainda não compreenda o que são.
São o que talvez vá salvar este sítio do esquecimento.
Ainda é preciso que a teoria esteja certa.
Vós de pouca fé.
Os repetidores são como sinais muito fortes...
Não vale a pena.
Como não? Eu explico-te.
Não é preciso. A Leïla já tentou. Não é para mim.
Não vais ficar?
-Lamento. -Diz à Leïla que gostaríamos de a ver.
-Eu digo-lhe. -Temos de preparar a campanha.
Temos de lançar testes novos, fazer cálculos novos. Duas semanas é pouco.
Eu entendo. Vou vê-la.
Agora mesmo.
Eu sei.
És demasiado simpático.
Ela está a fazer a parte dela.
Sim, mas a ciência não é algo que se faça sozinho, em privado.
Temos de trabalhar juntos para fazer avanços, não é?
Sophie...
Sim?
-Aos repetidores. -Aos repetidores.
Aos repetidores.
Entre.
Que horas são?
Oito.
-Já comeste? -Sim.
Olha para mim.
Não, desculpa.
Não comi.
Toma.
Obrigada.
Trouxe-te uma colher.
A reunião correu bem?
Recebi um e-mail do Bernhardt sobre o financiamento. Deve estar contente.
Chegou uma aluna nova.
E o Ulrik feriu-se na floresta.
-Como foi isso? -Não percebi bem.
Parece que descobriu uma corda.
Uma corda?
-Que tem isso a ver? -Não sei.
Estão a comemorar no átrio.
Queres ir?
Vai indo tu.
Vá lá. Precisas de sair.
Porquê?
Para me agradar?
Imagina uma estrela de neutrões
que emite, em intervalos regulares,
fluxos de partículas sobrecarregadas.
É uma espécie de erupção solar, estás a ver?
Mas um milhão de vezes mais forte.
Este grande arroto do espaço
encontra outras nuvens de partículas e campos magnéticos.
Onda de choque!
Esta onda de choque propaga-se através do universo na forma de um clarão.
Os FRB são isso. Fast radio bursts.
Pensava que o francês era obrigatório aqui.
Pois, rajadas rápidas de rádio.
Desculpa, quero dizer os repetidores.
Não estudei só filosofia. Também estudei cosmologia.
Está bem.
Pronto, toda a gente me deixou passar por estúpido.
Tenho a impressão de que os FRBs, desculpem, os repetidores, estão na moda.
Sim, há 50 teorias diferentes sobre o assunto.
Incluindo aquela que diz: "Pronto, é isto."
Vão ganhar o Nobel da Astrofísica.
Então, fazem isto pela glória?
Não, não só por isso. Achamos que podemos usar FRBs
para sondar as galáxias mais distantes.
Se resultar, seria como ter relés para os nossos telescópios,
mas a milhares de milhões de anos-luz da Terra.
Não haveria um canto do universo que nos escapasse.
Na verdade, é como se o universo fosse um quarto enorme no escuro,
com apenas algumas luzes noturnas que iluminam quase nada.
Vês?
Compreender os FRB seria como
acender a luz no quarto todo.
"E Deus disse: 'Que se faça luz!'"
Não, não posso.
-Vem. -Vai indo tu.
-Para com isso. -Não posso!
Não, Joseph. Não posso.
Não podemos continuar assim.
Eu sei.
Quero ajudar-te, mas não me dizes o que se passa.
Não sei o que se passa. Se soubesse, não seria tão difícil.
Tenta só.
Tento ser feliz, mas não consigo.
É como se tivesse um...
... um buraco no fundo de mim.
Um buraco negro que suga tudo lá para dentro.
Não sei o que é.
É normal ter medo.
Não estás a ouvir.
Não tenho medo. Tenho vergonha.
Tenho vergonha, pois tenho tudo o que preciso para ser feliz e não consigo.
Lamento.
-Quem é? -O Ulrik.
Então, ele está bem?
Não, ainda tem muitas dores.
Ulrik, anda cá.
Então?
Que é isso de uma corda?
Que é isso? É uma corda.
Que queres que te diga?
É mesmo assim tão comprida?
É... Não sei. Quanto tempo caminhámos? Vinte minutos?
Quase meia hora. Não chegámos ao fim.
Mas... É uma piada, não é?
Quero dizer, que mais poderia ser?
Achas que rasguei a perna por uma piada?
Não, eu acredito em ti, mas quero dizer...
-Alguém nos está a pregar uma partida. -Mas quem?
Estamos a centenas de quilómetros de alguém.
Devíamos investigar.
É o nosso dever científico.
Mas, amigos, é só uma corda.
Pronto, está bem. Amanhã, vou ver.
A sério?
-O que foi? Só vou ver, mais nada. -Não.
-Sim. -Não podes ir sozinho para a floresta.
Serge, vens comigo?
-Se quiseres. -Aí tens.
-Não vou sozinho. -Mas...
Que se passa convosco?
A colheita começa daqui a duas semanas.
Não é o momento certo para uma caminhada na floresta.
Amanhã é domingo.
Sim, mas estou à espera das tuas correções.
O teu artigo sobre a megaesfera de estrela de neutrões.
Se queremos que nos publiquem, é o momento,
porque depois vamos estar assoberbados.
Portanto, nada de caminhadas para ti.
Isto é muito injusto.
-Joseph, tu vens? -Porque não?
Também podes propor à Leïla.
Talvez.
Dani, vens?
Está bem.
Preciso de beber algo. Andamos para trás e para a frente.
Estamos a ficar malucos. Quem quer beber algo?
Um uísque!
Que grande merda!
Merda, merda, merda!
Que foi, que foi, que foi? Tu, tu, tu.
És bonito.
Como sabes isso?
Sei e pronto.
Aonde vais?
Lá fora.
Vou caminhar com os outros.
Foi bom ontem à noite?
Aonde vão?
Ver a corda.
Olha para mim.
Joseph?
Olha para mim.
Posso ir contigo?
Tens a certeza?
Não, não morri.
Bem...
Agora é uma pequena expedição.
Vamos?
O que estás a fazer?
Ninguém trabalha hoje.
Quero estar pronta.
Posso ajudar-te?
Não. Descansa.
Como está a tua perna?
Não me impede de trabalhar.
Que foi?
Recebi uma foto da minha filha.
Está grande.
Como estás?
Bem.
Posso contar contigo a partir de amanhã?
-Prefiro trabalhar sozinha agora. -Sim, eu sei.
Mas a colheita é um trabalho de equipa.
Vais ter de fazer um esforço.
Se é muito complicado para ti,
posso contactar outra pessoa.
Outro analista. Mas preciso de saber já.
Estás a tentar assustar-me?
-Está a resultar? -Um pouco.
-Podes contar comigo. -Obrigado.
Que se passa, Leïla? Diz-me.
É bom teres vindo hoje.
Sem dúvida.
O seu trabalho é sobre quê?
Estou a fazer uma tese sobre a intencionalidade na física quântica.
Escolha, Deus, livre-arbítrio...
E, na verdade, gostaria que fosse a minha orientadora.
Quer que oriente uma tese sobre Deus?
Sim, exatamente. É ateia. É perfeito.
E você, é crente?
É complicado.
A minha família é muito religiosa.
E aos 13 anos, percebi que não precisava de Deus para...
-Para me defender. -Bem dito.
Então, as coisas são complicadas com a minha família.
A minha mãe queria que arranjasse emprego como estagiária
na embaixada da Etiópia em Londres.
Devia começar amanhã. Não sabem que estou aqui.
Está bem?
Quer que diga aos outros para esperarem?
Não, vamos.
A minha tia tomava a mesma medicação.
Está doente há muito tempo?
Ninguém sabe aqui. Ninguém sabe nada.
Não direi nada.
Obrigada.
Em que estádio está?
No pior, terá de arranjar outra pessoa para orientar a sua tese.
Posso voltar consigo se quiser. Faria mais sentido.
Não, quero mesmo fazer este passeio.
Olha. Foi ali que estivemos há pouco.
O que fazemos?
Voltamos?
Ouçam, vamos voltar.
Isto é ridículo. Esta corda é interminável.
Mas não chegamos ao fim.
Porque temos de chegar ao fim?
Venham ver!
É quente. A água é quente.
Sim.
Vens?
Para onde foi a minha esposa?
Ela está aqui?
Aonde vais?
Vou fazer xixi.
Vamos, se nos despacharmos,
chegamos mesmo ao cair da noite, talvez antes.
Se passarmos pela fenda lá atrás.
E se continuarmos?
Daqui a três horas, será noite.
Esta corda é mesmo intrigante. Não querem saber aonde vai dar?
Mas não íamos passar a noite aqui fora, Sophie.
Esperam-nos.
Os outros vão ficar preocupados e não temos como contactá-los.
Podemos fazer dois grupos. Os que querem voltar podem fazê-lo.
Sophie, o que se passa?
Amanhã, devemos começar a trabalhar.
Eu sei. E começaremos.
Caminhamos mais duas horas, até a noite cair.
Ou encontramos o fim e damos a volta, ou paramos
e dormimos aqui fora. Amanhã, levantamo-nos e voltamos ao meio-dia.
Mas porque temos de chegar ao fim?
Não sei.
Não arriscamos perder-nos.
Volte também, aproveite.
Vou ficar.
Então, vocês vêm?
Nós também vamos ficar.
Toma, leva a minha lanterna.
Trá-los de volta, sim?
Não estou aqui?
Estou só a passear.
Em geral, os FRBs são detetados
por volta dos 1,4 gigahertz.
Só registámos uma ocorrência a 8 gigahertz.
Mas buscas em frequências ultrabaixas ainda não deram em nada.
Mas não quer dizer que não venham a dar.
Exato.
Temos de estar prontos a captar um sinal de frequência baixa.
Que limiar achas?
Setecentos gigahertz?
Porque não 400?
É o limiar de sensibilidade do telescópio.
Isso assusta-te?
Sabes que gosto de desafios.
São quase oito horas.
Eles disseram uma ou duas horas.
Não percebo.
O quê? Não tardam a chegar.
Podem chegar daqui a dez minutos.
-Dez minutos? -Ou até cinco.
Tenho de fechar a porta.
Que importa isso?
A minha perna!
Agnès.
Disseste que voltavas antes do anoitecer.
Eu...
Eu...
Lamento.
Estás bem?
Demasiado rápido...
... contigo.
Eu sei.
Agnès.
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