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Estão a olhar para Hong Kong, a minha casa desde o fim da II Guerra Mundial.
Eu tenho um letreiro de néon pendurado no coração desta cidade internacional...
que diz "Don Benton - Agência de Viagens".
Don Benton, é esse o meu nome.
E a agência de viagens? É esse o meu negócio.
E neste meu modesto estabelecimento...
reúnem-se todos os ingredientes da civilização...
da realeza aos impostores,
da nata da sociedade à escumalha das sarjetas.
E Hong Kong tem espaço para todos eles...
e isso faz com que ela seja, praticamente, a cidade mais excitante do mundo.
Das luxuosas "villas" no topo...
até às ruas estreitas da zona ribeirinha...
a cidade é uma "colmeia", a fervilhar com energia humana.
Três milhões de pessoas acotovelam-se...
num "rochedo" ao largo da China comunista continental...
cada um concentrado numa feroz busca pessoal.
De quê?
Comida, dinheiro, prazer, amor...
talvez até algumas informações.
E, para mim, Hong Kong é uma cidade onde o meu conhecimento do tempo da guerra...
me permite ganhar algum dinheiro.
A minha agência de viagens irá desembarcar-vos com rapidez, cortesia e conforto...
em qualquer sítio no Sudeste Asiático...
desde que os seus governantes não desaprovem as vossas caras ou...
as vossas políticas.
Actualmente, alguns deles conseguem ser algo difíceis de satisfazer.
Miss? O Sr. Benton está?
- Não. Chegará em breve. - Está bem, vou esperar.
Não querem turistas na Indonésia?
Todos esses formulários e fotografias.
Submetemo-los, pagamos as taxas.
- E que taxas! Qualquer um pensaria... - É o consulado, senhora.
Eles lamentam imenso, mas, não podem emitir os vistos antes de vocês terem os bilhetes de avião.
Quer dizer que também ainda não tem os bilhetes?!
A companhia aérea lamenta imenso, mas, não pode emitir os bilhetes de avião sem os vistos.
- Muito difícil para nós, senhora. - Difícil para vocês?!
- Por favor, senhora... - Bom dia, Sr. Benton.
Olá. Está tudo bem?
Claro, excepto aqui as suas amigas no Consulado da Indonésia.
- Planeamos partir hoje. - Problemas com os vistos?
Bem, é algo difícil apressar estas pessoas.
Apressar?! Já passaram 3 semanas.
Bem, estas repúblicas mais novas, receio que utilizem...
a sua nova e recente independência como um fato novinho em folha.
Presumo que nós fôssemos iguais, em Washington, há 200 anos.
Sim, mas, nós não estávamos de férias nessa altura.
Swee Kim, liga ao Hussein.
Ele é um dos nossos motoristas.
Ele é indonésio e tem familiares no consulado.
Tenho a certeza de que se o enviarem lá com um pequeno presente...
cerca de 20 dólares deverão chegar...
terão os vossos vistos aqui dentro de uma hora.
Obrigado. Muito obrigado.
Posso falar consigo em privado, Sr. Benton?
- Sobre a viagem? - Bem, poderá ser.
Algo um pouco fora do comum.
Bem, com certeza.
Sente-se.
"Chungking, 1938". Inimigo difícil, os japoneses.
Muito. Naqueles dias, voar ainda era divertido.
Pelo menos, pilotávamos aeronaves, não computadores electrónicos.
"Do Chula da Tailândia, para um bom amigo do país".
O príncipe parece considerá-lo um herói.
Pude aconselhá-lo sobre a colecção de jade dele.
Agora, o que é que eu posso fazer por si, senhor...?
Johnson. Sam Johnson.
Sim. Você veio via Manila.
Vejo que está atento às chegadas.
Bem, as viagens são o nosso negócio, Sr. Johnson.
- Além disso, temos lá um escritório. - E bons conhecimentos noutros sítios, disseram-me.
Conseguimos cobrir a maioria dos portos aqui.
Não, referia-me a conhecimentos pessoais.
Não era amigo de Lee Huan Ho, o erudito, em Xangai?
Bem, não use isso contra o pobre homem. Ele está morto.
Sim. Suponho que ele não tivesse ficado muito feliz com o novo regime.
E o Padre Rodriguez, que tinha a missão em Amoy.
Como é que sabe tudo isso?
Através de amigos comuns.
Para ser franco, ouvi falar muito de si.
Está na China há muito tempo, Sr. Benton.
Voou com os "Tigres Voadores" do General Chennault,
a transportar munições e alimentos para os chineses.
Na nossa guerra, nós combatemos os japoneses novamente no Pacífico.
Você fala cantonês e, acredito, malaio.
O seu conhecimento dos chineses e dos costumes deles é...
digamos, pouco habitual?
E se fôssemos directos ao assunto, Sr. Johnson?
O que é que está a tentar "vender-me"?
Bem, digamos que uma ideia de que você deveria conhecer um amigo meu.
Alguém que pretende a sua ajuda.
Um chá, Tai Ko?
Agradeço-te, Swee Kim. Mas, agora, estou ocupado.
Quando os pés estão "contentes", a mente está calma para a contemplação.
Esta é a minha irmã.
Parece que é o meu aniversário.
Fui ordenado a viver dez mil anos.
- Claro. - Gosta?
Sim, Swee Kim. Gosto muito deles.
Agora, deixas as coisas do chá e vai-te embora. Tenho uma visita.
- Quer beber um chá? - Obrigado.
É um pequeno costume chinês. Não tem de bebê-lo.
Estava a dizer?
Estava a falar sobre o meu amigo.
Sim, o... indivíduo que se quer encontrar comigo.
Bem, porque é que ele não vem cá?
Bem, é um assunto bastante confidencial, Sr. Benton.
Ele acha que seria melhor discuti-lo noutro sítio.
Mas, primeiro, ele queria confirmação de alguns factos menores.
A sério?
Bem, irei confirmar-lhe alguns agora mesmo.
Sou um agente de viagens e o meu negócio não é assim tão confidencial...
que não possa ser falado em voz alta.
Bom dia, Sr. Johnson.
- Quer um chá, Tai Ko? - Obrigado, Swee Lim.
Outra irmã?
Esta cavalheiro estava mesmo de saída.
O Sir Arthur Cragg ligou, Tai Ko.
Ele quer falar consigo sobre a reserva para as férias dele, nas Filipinas.
Bem, liga-lhe e diz-lhe que...
eu próprio levarei o horário.
Eu... irei no próximo comboio para o topo.
- Ainda aqui está, Sr. Johnson? - Estou de saída.
Mas, terá notícias nossas novamente. Provavelmente, do meu chefe, Sr. Orme.
E... vou precisar de um carro.
Tai Ko, o seu sapato!
O meu negócio com o Sir Arthur levou-me à "villa" dele no topo...
onde as casas dos ricos "taipans" têm uma das melhores vistas da Ásia.
Foi uma pausa agradável do calor e da agitação do porto...
e tive pena por ter de regressar.
Olá. O ar é tão agradável aqui no topo,
que é uma pena ter de descer até à cidade, sabe.
Sim.
Dê-me licença.
É uma óptima vista, Sr. Benton.
A melhor do mundo.
Já nos conhecemos?
Não, não presencialmente, mas, o meu nome é Orme.
Charles Orme, de Washington D.C.
Entendo.
Sim, bem me parecia que sim.
Já leu o jornal desta manhã?
"Mistério do avião desaparecido da Ilha Formosa."
- Li. - Notícia interessante.
- Para alguns, talvez. - Para inúmeras pessoas.
E, certamente, para nós.
Nós?
Bem... digamos que, para um determinado departamento dos Governo dos EUA?
Consegue adivinhar porquê.
Sou um péssimo adivinho, Sr. Orme.
Bem, estritamente entre nós, estamos preocupados com este avião desaparecido.
Porquê? Isso não é mais um problema para os nacionalistas chineses na Ilha Formosa?
Também nos preocupa. É por isso que estou tão contente por conhecê-lo.
Não o entendo, Sr. Orme.
- Bem, acredito que nos possa ajudar. - Como?
Há alguém a bordo daquele avião cuja segurança é...
bem... importante para o Ocidente.
Tudo o que eu sei é aquilo que toda a gente sabe.
Houve um tufão e o contacto via rádio perdeu-se...
mesmo antes do avião desaparecer.
Estava fora da rota.
As últimas indicações dizem-nos que estava a dirigir-se para Cantão.
Pode ter aterrado no continente.
Tentou contactar o aeroporto em Cantão?
Hong Kong tem tentado falar com eles desde que o avião foi declarado atrasado.
Uma pura perda de tempo.
- Especialmente se... - Se foi obrigado a aterrar.
Bem, porque é que veio falar comigo?
Porque você tem contactos, Sr. Benton.
Contactos em muitos locais.
Talvez até em Cantão.
Refere-se a... trabalho infiltrado?
Lamento, deixo isso para as autoridades.
Sr. Orme, eu sou um empresário.
Não me posso envolver em nada político,
nada que possa prejudicar as minhas relações com o governo comunista...
como eles são.
São os interesses do nosso país que estamos a discutir, Sr. Benton.
Hong Kong é a minha casa.
Não me posso dar ao luxo de arriscar a posição que construí aqui.
- Tai Ko. Cho chei. - Cho chei ah yik.
Oferecer-lhe-ia boleia, mas, a família requer a minha presença.
- A família? - Sim. A família dele... e a minha.
Eu também não estava a brincar.
Foi uma família chinesa que eu acabei por conhecer e amar...
durante a guerra contra os japoneses.
Nesses maus e velhos dias, ajudamo-nos mutuamente muitas vezes.
Agora, eles chamavam-me "filho"...
e nos seus assuntos familiares, eu estava tão envolvido como nos meus.
Como vais, meu velho rapaz?
Anda. Senta-te aqui.
E aqui estão os teus rebuçados, está bem?
- Tai Ko! - Olá, querida!
Como estás?
Estás a esforçar-te?
O que é isto tudo?
"O cérebro. O assento do intelecto."
A avó não concorda.
Ela diz que o assento do intelecto está no estômago.
Ela é uma mulher prudente. Onde é que ela está?
No jardim, à sua espera.
Bom dia, Mãe.
Querias falar comigo?
Sim, "Sing Shang".
Nem os criados me deixam esquecer que estou um ano mais velho hoje.
Outro ano mais idiota. Ainda sem um filho.
Queres dizer sem uma mulher para me dar um filho.
Mandaste-me chamar para me dizer isso novamente?
Não.
Saberás alguma coisa sobre o "navio voador" que se perdeu?
O avião da Ilha Formosa?
Não, nenhum dos meus passageiros estava a bordo.
Passageiros?! Estás a pensar nos passageiros?!
E o teu irmão?!
Jimmy?
Ele era o piloto?
Ontem à noite, um homem "sampan" veio cá com uma mensagem do povo do rio.
O avião do Jimmy caiu perto de Chinan Fu.
Bem, então, o Johnson tinha razão.
Essa ilha fica no interior do estuário, perto de Cantão. É território comunista.
O Jimmy está em segurança?
A mensagem veio do Jimmy.
Ele diz que o povo do rio o recolheu e o escondeu numa cabana fora da vila piscatória.
E os outros?
Não sei. Ninguém abre a boca.
Bem, ele está entre amigos.
Mas, eles irão precisar de dinheiro.
Provavelmente, irão tentar contrabandeá-lo a bordo de um junco para o tirarem de lá.
Dinheiro não serve de nada. O povo dos juncos está muito assustado.
Demasiados barcos no rio.
Lanchas-canhoneiras e patrulhas. Eu sei.
E se eles forem apanhados com um oficial da Ilha Formosa a bordo...
Com ou sem lanchas-canhoneiras, temos de trazer o Jimmy para casa.
Sim, temos. Mas, como?
Trata tu disso.
Eu trato disso?
Peço para o oficial lhe passar uma multa, sem mais nem menos?
Alguém tem de ir.
Sim. Alguém.
Tu não, Tai Ko. Já fizeste muitas coisas por nós demasiadas vezes.
Ouve, Tai Tai. Há muito tempo, quando um determinado aviador louco estava em apuros,
quem é que o acolheu e o alimentou?
Quem é que arriscou a vida para escondê-lo dos japoneses? Lembras-te?
Há muito tempo. Maus tempos. É melhor esquecê-los.
Por mim não, velha mãe.
Esse homem "sampan", onde é que ele está?
Na cozinha, a dormir. Apareceu aqui na última noite.
Dei-lhe porco e arroz. Ele está muito mal do estômago.
Pobre diabo. Ele estava a precisar, presumo.
Bem, dá-lhe mais um pouco, porque eu vou precisar dele e do barco.
Não te preocupes, mãe. Eu... vou trazer o Jimmy para casa.
Tem cuidado. Não quero perder dois filhos.
Bom tempo para velejar, Sr. Benton.
Acho que estaremos lá dentro de, aproximadamente, cinco horas.
Isso significa que chegaremos a casa de manhã bem cedo?
- Penso que sim. - Óptimo.
- Chinan Fu? - Sim, Chinan Fu.
Pára os motores.
Tai Ko!
Espera aí!
Don! Don!
Rápido! Os motores!
Don!
Vamos, Jimmy. Deste lado.
- Aqui, Jimmy. Tudo bem? - Muito bem.
Ah Hong, vamos sair daqui.
Claro que fui enganado. As direcções via rádio que recebi...
mostrou-me que estava na rota perfeita para Hong Kong, 145 km a Sul.
E lá estava eu, sobre Cantão.
Quando me apercebi, dois "MiG's" estavam a seguir-me, a ordenar-me para aterrar.
Porque é que não o fizeste?
Talvez estivesse irritado.
Seja como for, apercebi-me de que havia nuvens baixas sobre o estuário e "mergulhei".
E também pensei que tinha conseguido, mas, depois, estourei com o meu motor direito.
Tive de aterrar na água.
Alguém ficou ferido?
Não, penso que não.
E antes que pudesse dizer "Comunistas", o sítio estava repleto de lanchas.
À espera, presumo.
Tiraram toda a gente do avião, apenas três passageiros e a tripulação,
e afundaram o avião. Eu vi.
Quem eram os passageiros?
Dois homens e uma mulher.
- Americanos? - Um dos homens, penso eu.
Onde é que tu estavas?
Na água. Assim que me apercebi do que eles estavam a tramar, saltei borda fora.
Eles... não te viram?
Claro. E também se despediram de mim com uma "chuvada" de balas traçantes.
Voltei a mergulhar. Nadei durante o que me pareceram horas.
No fim, emaranhei-me numa rede de pesca.
Pertencia a um velhote de Chinan Fu.
Eles trouxeram-me para a ilha e esconderam-me naquela cabana deserta.
- Naquela aldeia, os habitantes são corajosos. - Sim.
Bem, é melhor tentares dormir um bocado.
Chegaremos pela manhã cedo.
Para o Ah Hong.
Ele merece-o.
É bom ver Hong Kong outra vez.
- Sabes, quando esta história for divulgada... - Não deverá ser divulgada.
Não até sabermos aquilo que as autoridades têm a dizer.
Vou contactar o teu Quartel-General, na Ilha Formosa.
Entretanto, será melhor não falares com ninguém.
Será melhor para quem?
Será melhor para todos os envolvidos, e tu estás incluído.
Vou levar-te directamente para casa.
Jimmy! Olá, Jimmy!
Obrigado, Tai Ko.
Por ter levado o Jimmy a uma pescaria?
Bem, o que é que a Tai Tai te disse?
Nada.
Mas, quando partiste...
a Swee Lim e eu vimo-la a queimar paus de incenso em honra de Kwan Yin,
a rezar pelos filhos dela.
Então, durante a noite toda, nós também rezamos, pelos nossos irmãos.
Obrigado, Swee Kim.
Presumo que ela te deve ter ouvido.
A deusa da misericórdia ouve sempre.
Um dia verás, quando a tua mulher lhe pedir um filho.
Bem, ela terá de me providenciar uma mulher primeiro, Swee Kim.
Talvez também lhe peça isso.
Tai Ko, Tai Ko, vem brincar connosco.
Bem, aqui estamos, mãe. Sãos e salvos e com muita fome.
Óptimo.
Desculpa por te ter preocupado demasiado, avó.
É melhor pedires desculpa ao Tai Ko.
Sim, avó.
Anda cá.
Jimmy, meteste-te em problemas?
Muitos problemas, até o Tai Ko me ter encontrado.
Não é isso. Refiro-me a problemas mais sérios.
Não. Passa-se alguma coisa?
Em breve, verás.
Olá, Inspector. Veio juntar-se à reunião familiar?
Receio que não, Sr. Benton. Estou aqui por assuntos oficiais.
Com este homem.
Acabou de chegar a Hong Kong?
- Claro. Aterrei... - "Sampan", esta manhã cedo?
Bem, é claro que sim. Ele veio comigo.
Lamento, Sr. Benton. Deixe isto comigo, por favor.
- Como é que se chama? - Mao Chi Mei. Jimmy para os meus amigos.
Capitão, Força Aérea Nacionalista Chinesa.
Documentos? Alguma coisa que o identifique?
Eu posso identificá-lo. Conheço-o desde que ele era um...
Sr. Benton, por favor. Então?
Não, não tenho. Despenhei-me no estuário há duas noites.
Tudo aquilo que eu tinha está no fundo do rio.
Então, receio que tenha de vir comigo.
Isto é ridículo.
Tudo aquilo que precisa de fazer é ligar para o Controlo Aéreo, e eles verificarão o...
Nós sabemos disso, Sr. Benton.
Eu não tentaria interferir, se fosse a si.
Vamos, jovem.
Está bem, está bem, eu irei. Isto é um erro perfeitamente idiota.
Sem pressa, por favor.
Eles vêm de longe, sem comida na barriga ainda.
Um belo pato assado no forno. Também é suficiente para o Inspector.
Não adianta, Tai Tai. Ele tem de ir.
A Polícia é toda igual. Apenas...
Então, então, mãe, não se preocupe.
Eu... vou mudar estas coisas, descer e ver o que posso fazer.
Tem de comer primeiro. As flores da sabedoria brotam de um estômago repleto.
Pois, mas, uma barriga vazia aguça o engenho da língua.
O que é que se passa aqui, Taylor?
Não demorou muito a cá chegar, Sr. Benton.
Não, não demorei muito a cá chegar,
mas, deixou-me à espera tempo que chegasse.
Lamento. Em que é que lhe posso ser útil?
Sabe muito bem o que é que pode fazer por mim.
Liberte o Jimmy Mao.
Onde é que está o Superintendente?
Um momento, Sr. Benton.
Ainda ontem me disse...
que não se queria envolver em assuntos desta índole.
Então, talvez fosse melhor se continuasse a não se envolver.
Bem, quando me abordou, eu não sabia...
que o Jimmy Mao era o piloto daquele avião.
Isso faz alguma diferença?
Conheço-o e à família dele há muitos anos,
tal como a maioria dos membros da vossa força policial.
Seja como for, não pode mantê-lo aqui sem uma acusação definitiva.
Verdade. Existe uma acusação.
De quê?
Contrabando de ópio.
O Jimmy Mao? Contrabandista de ópio?
Isso é uma sugestão idiota, e você sabe disso.
Do que é que estão a tentar acusá-lo?
Prendemos o Mao para própria protecção dele.
Se a história dele bater certo, então, é essencial que os comunistas não saibam da fuga dele.
Bem, escolheram a forma mais rápida para lhes dizer.
Pensamos que não.
Ninguém iria associar o Huan Ling Foo, detido por um crime de contrabando,
com o piloto nacionalista, o Capitão Mao.
Vim dizer-lhe que, se o Mao não fosse libertado imediatamente...
eu iria contratar o melhor advogado em Hong Kong para o defender.
Mas, antes de decidir agir conforme me dizem...
talvez me possam dizer o que é que está por detrás de tudo isto.
Eu trouxe-o para cá, lembra-se?
Acho que pode confiar na discrição do Sr. Benton, Sr. Orme.
Obrigado, Inspector.
Sabe que tínhamos um "correio" a bordo daquele avião...
que transportava informações importantes para o Ocidente.
Sem dúvida, num determinado campo, de vital importância.
De que "campo" estamos a falar?
Digamos "científico"?
Agora, compreende porque é que é essencial que descubramos...
o que é que aconteceu àquele correio.
E como é que aconteceu.
O Jimmy diz que ele foi enganado. Acham que ele estava a mentir?
A mentir ou não, os indícios são de que o outro lado sabia...
o que é que aquele avião estava a transportar.
E, se a operação tiver sido planeada com antecedência...
sugere mais uma possibilidade.
Conivência do piloto.
O Jimmy não trabalharia para os comunistas.
Espero que tenha razão. Enquanto isso, como deverá compreender...
ele está mais seguro sob nossa custódia.
Está bem.
Não iria debater isso. Por enquanto.
Queriam que eu vos ajudasse.
Obrigado, Benton, mas, está tudo sob controlo.
O Serviço está a realizar as suas próprias investigações.
Nesse caso...
- Tem noção, é claro, de que... - Não se preocupem.
Manterei a boca fechada.
Tai Ko. Tai Tai.
Não é bom.
Viste o Jimmy?
Não.
E também não irá tentar vê-lo, até que eu lhe diga.
A Polícia é toda igual.
Fazem um enorme alarido porque o Jimmy teve um acidente.
Bem, algumas pessoas pensam que, talvez, não tenha sido um acidente.
Não foi a Polícia. O Superintendente está do nosso lado.
Deste-lhe um presente?
Talvez ele queira mais?
- Não importa. - Não, mãe, não.
Ninguém quer um presente. Eles... querem provas.
E as provas estão algures naquele rio.
E?
Swee Kim, vou partir para o continente.
Não para Cantão?
Não, não, a porta de entrada para Cantão.
Caso contrário, uma visita de rotina ao nosso escritório em Macau.
Telegrafe ao Pereira e diga-lhe para se encontrar comigo nos barcos.
Hong Kong... Macau...
Cantão.
Para ilibar o nome do Jimmy, eu tinha de descobrir o que é que tinha realmente acontecido...
àquele avião desaparecido e trazer provas da história do Jimmy.
Então, nessa tarde, fiz a travessia a bordo do "Tong Shan"...
para o território português de Macau,
um posto de escuta útil no limiar da Cortina de Bambu.
Sr. Benton!
Peço desculpa pelo atraso, Sr. Benton.
Temos uma onda de turistas entre mãos, neste momento.
Não peça desculpa por isso. Precisamos deles.
- Compreendeu o meu telegrama? - Sim, senhor, e coloquei os pés ao caminho.
Don Benton. Está bem.
Mas... ninguém aqui parece saber nada sobre o avião desaparecido.
As... autoridades portuguesas dizem
que nenhum dos nossos cidadãos nacionais estava a viajar a bordo,
então, não estão interessadas. Mas, é muito triste o que aconteceu ao piloto.
O que é que ele tem?
Bem, lembro-me que ele era seu amigo.
Foi sugerido que o avião se perdeu...
com todos os seus ocupantes, no tufão.
Bem, tenho razões para acreditar que não se perdeu.
- Já... tentou o povo do rio? - Sim, senhor.
Os homens "sampan" que contratamos para os nossos barcos turísticos.
Um deles parece ter ouvido alguma espécie de rumor.
Ele está no cais, agora.
- É de confiança? - Bem, como barqueiro, sim.
Quando decide aparecer.
Acredito que ele faça algum contrabando à parte.
Mas, ele diz que conhece a mãe do piloto.
Mao Tai Tai?
- Gostaria de falar com ele. - Ah Wing!
Ah Wing.
- Sr. Benton. - Como está?
Olá, Ah Wing.
Então, és amigo da... Mao Tai Tai?
Sim.
A tua licença de trabalho, Ah Wing. É melhor mostrar intenção de contratá-lo.
Conheces... muitos sítios por aqui?
Sim. Macau, Cantão, Pearl River... Chinan Fu.
Ouviste alguma coisa sobre Chinan Fu?
Há três dias, muito nevoeiro.
Os pescadores ouviram um som de um hidroavião, muito próximo da água.
Depois, o barulho desapareceu. Assim como o hidroavião.
Obrigado. Talvez trabalhes para mim um dia.
É... a informação que queria?
- Confirma-se. - Bem, tudo bem.
Agora, terá tempo para jantar comigo antes de partir.
Antes de quê?
Bem, o... "Tong Shan" zarpa às sete.
Claro, se preferir apanhar o barco nocturno...
Sr. Pereira, está a tentar ver-se livre de mim?
Nada disso, Sr. Benton. Apenas...
O que é que tem em mente?
Bem, até saber a natureza das suas perguntas...
não me pareceu muito importante, mas...
O Ivano Kang está aqui.
Ivano Kang!
Ele chegou a Cantão ontem, proveniente de Moscovo.
Agora, um homem na posição dele não voa 8050 km para nada, Sr. Benton.
Não. Não, não voa.
E ele foi visto em Macau ontem à noite, no casino.
Bem, talvez ele só queira alguma acção nas mesas de póquer.
Achas que ele voltará?
É claro que sim. Fica, apenas, a uma hora e pouco de carro.
Agora, Macau é, digamos, território neutro, mas, francamente, Sr. Benton...
Acha que poderá ser perigoso para mim permanecer aqui?
Sr. Benton, é perigoso para qualquer pessoa que demonstre demasiado interesse...
nos acontecimentos que ocorreram no estuário.
Já me conhece, Sr. Benton. Se houver alguma coisa que eu possa fazer por si...
Bem, obrigado, Pereira. Pode-me levar a casa...
e pedir à sua encantadora esposa se me pode dispensar um quarto.
Você... vai ficar?
Acho que também eu quero alguma acção nas mesas de póquer.
Sr. Benton! Há muito tempo que não o via.
Olá, Liang Ti!
Tenho andado demasiado ocupado a enviar-te turistas ricos.
Então, agora, veio pessoalmente...
com os bolsos cheios de dólares para perder nas mesas.
Bem, há aqui uma chamada Jasmine Bud. Uma querida.
Não?
Meramente para visitar velhos amigos?
Bem, para ver uma velha amiga, Liang Ti.
Nunca pensei que meras palavras me pudessem fazer sentir tão feliz, Don.
Mesmo que saiba que não são verdadeiras.
Alguma vez te menti, Liang Ti?
Está metido em problemas, Don?
Não, é... para um amigo mútuo.
Eu... estou a tentar descobrir o que é que aconteceu a um determinado avião.
Aquele que desapareceu?
Bem, o que é que o faz pensar que eu sei alguma coisa a respeito dele?
Tem muitos visitantes de Cantão.
Bem, há um, mas, não me parece...
Miss Liang Ti, alguém quer trocar mais dinheiro.
Até mais tarde. Divirta-se, Don.
Peço desculpa.
Quem é que está aí dentro?
A Liang Ti disse que talvez quisesse algo para beber.
Brandy? Champanhe?
Traga-me, apenas, uma garrafa de cerveja fresca.
Jogue. Já venho ter consigo.
Boa rapariga. Fica por aqui. Trazes-me sorte.
Obrigado, querida.
Então!
Ora, ora, ora, o meu velho amigo, Sr. Benton!
E, tal como todos os americanos, cheio de pressa.
Coronel Kang.
Peço desculpa por aparecer assim de repente, mas...
alguém lá fora está algo sensível.
- Talvez fosse eu. - Não, Sr. Benton. Você não, tenho a certeza.
Mas, agora que aqui está, porque é que não fica algum tempo...
e esquece aqueles perturbadores?
Obrigado, mas, não me quero intrometer na sua pequena festa.
Um bom vinho é algo que deve ser partilhado entre amigos.
Assim como as mulheres adoráveis.
Consuela...
Peach Blossom...
Tanya.
Tanya...
ou Kuma San.
Se alguma delas despertar as suas fantasias...
Bem, como é que alguém pode escolher entre tanta beleza?
Talvez algo mais forte o ajude a decidir.
Eu sou conservador.
Limito-me à melhor mistura do mundo.
Champanhe...
- Vodka... - E Sam Shui.
Lembra-se?
Dificilmente me poderia esquecer disso!
Convenceu-me a experimentá-la uma vez.
Não, não, desta vez acho que...
Ficarei pela cerveja.
Então, está aqui de férias?
Não oficialmente, estou aqui em negócios, mas...
às vezes, uma pessoa procura alguma forma de relaxamento.
Como concordo consigo.
Considero um grande alívio escapar para as luzes brilhantes de Macau.
Actualmente, Moscovo e Pequim têm uma certa austeridade puritana.
E com razão, mas, com o tempo, podem tornar-se um pouco...
sufocantes.
Como é que está o negócio das viagens?
A prosperar, espero?
Bem, prosperaria muito mais se pudesse reservar viagens para os meus clientes para a China.
Mas, naturalmente, devia visitar Cantão e falar com as autoridades sobre isso.
Está a brincar?
Ando a tentar há anos e, ainda assim, não consegui um visto.
Evidentemente, não abordou as pessoas certas.
Verei aquilo que posso fazer.
Kong-mi-ye?
Bem, Sr. Benton, se me der licença um momento,
apenas para descansar um pouco, num local mais isolado.
Estas viagens. Tão cansativas.
Coronel Kang.
Vê-lo-ei em Cantão.
O Kang manteve a sua palavra... e rápido.
Cedo na manhã seguinte, um mensageiro estava à espera no meu escritório, em Macau...
com um visto para Cantão.
Apanhei o próximo barco, e, muito rapidamente...
estava a dar entrada no hotel.
Bem-vindo à Nova China, Sr. Benton.
Leva esta chave.
O número 51 está reservado para si, senhor. Um belo quarto com vista para a zona ribeirinha.
Reservado? Alguém foi muito gentil.
Com os cumprimentos da "China Travel Service", senhor...
que espera que desfrute de uma visita feliz e instrutiva a Cantão.
Eu também espero que sim. Mais alguma coisa?
Sim, senhor. O próprio Director telefonou acerca de uma entrevista.
Se lhe for conveniente, ele enviará um carro às 16:00.
Gostaria de ver o seu quarto, agora?
Não, acho que gostaria de dar um pequeno passeio.
Devo levar um guia?
Não, senhor. Pode ir onde quiser.
Nunca ninguém se perde em Cantão.
Compreendo.
Pode-me dizer onde poderei comprar uma recordação ou duas?
O que é que gosta, senhor? Uma bela seda de Cantão?
Não, não... talvez alguma porcelana.
Vá até à Rua dos Oleiros, senhor. Inúmeras lojas lá, todas juntas.
Obrigado.
A Rua dos Oleiros não foi difícil de encontrar,
mas, aquilo que eu pretendia era a loja de um tal Han Po.
A minha amiga Liang Ti, responsável pelo casino em Macau,
tinha-me dado o nome dele como um homem em quem eu podia confiar.
Todos os melhores períodos: Ming, Kang Hai...
Fracas cópias dos mestres, como vê.
Se alguma interessar ao cavalheiro?
Bem, esta interessa-me muito.
Essa?
Talvez algo menos imperfeita do que as outras.
Imperfeita?
Isto é verdadeiro.
O segredo desse esmalte perdeu-se há 500 anos.
Tem razão. É... uma excelente cópia.
Por um minuto, deixei-me levar.
Ando à procura de algo...
fora do comum.
Algo fora do comum?
Talvez lhe possa mostrar algo aqui?
Um destes, talvez?
Uma indigna tentativa no estilo Sung.
É um óptimo trabalho, Han Po.
Qualquer um seria enganado.
Você não.
Os Ming não o enganaram.
Será assim tão perigoso, então, possuir uma peça como aquela?
Perigoso não, mas, imprudente.
Actualmente, coisas com um determinado valor...
Não compreenderia, "Sin Shang".
- Um artesão precisa... - Eu sei, eu sei.
Eu também adoro coisas antigas.
Porque é que um homem instruído vem ter comigo, um imitador?
Fui enviado aqui por uma amiga, uma mulher chamada Liang Ti.
Uma do meu clã. O que é que ela percebe de olaria?
Não muito, mas, ele conhece os homens.
Ela falou de um homem que eu poderia encontrar aqui.
Qual homem?
Alguém cujo coração é como as coisas que ele molda.
Preciso da sua ajuda, Han Po.
"Sin Shang"...
esta cidade vive em sussurros, todos de espiões.
Espiões em terra... e no ar.
Há três noites, alguns foram capturados e trazidos para cá.
Sabe-se alguma coisa deles?
Apenas que três eram estrangeiros.
Sobe onde é que eles estão agora?
Onde?
Se o cavalheiro regressar daqui a dois dias...
será esmaltado e ficará pronta para ser levada.
Dois dias?
Porque não amanhã?
Amanhã, todas as lojas deverão fechar, até que o massacre termine.
O...?
Qual massacre?
Esta noite é... a Noite dos Pardais.
A Noite dos...
De momento, é tudo o que posso fazer.
Mas, acho que é isto que o cavalheiro procura.
Sr. Benton.
Conversou bastante sobre negócios com o Director da agência de viagens?
O Director falou imenso, ponto.
Talvez falemos de negócios amanhã.
O que é tudo isto?
"Cultural Association", "Agricultural Cooperative",
"Economic Study Group"...
Com os cumprimentos do oficial de informação, senhor.
É uma boa leitura de cabeceira.
Obrigado...
Nada como alguma diversão na cama.
Sr. Benton?
Senhora, enganou-se no quarto.
Não, não me enganei.
Tive muito cuidado para encontrar o quarto certo.
Bem, é muito gentil da sua parte, mas...
tive um dia longo.
Nunca pensei que você fosse um idiota.
Mas...
talvez esteja do lado deles?
Do lado de quem?
Refere-se àqueles tipos com quem você estava a dançar a conga no corredor hoje.
Estava a tentar falar consigo.
Então, quando isso não funcionou, deu um dólar ao empregado...
e ele deu-lhe o meu nome e número do quarto. Correcto?
Errado.
Custou-me dez dólares.
Bem, sinto-me lisonjeado.
Mas, odeio ver bom dinheiro desperdiçado.
Foi?
Bem...
depende daquilo que pretenda.
Eu podia dizer-lhe, se você parasse de deambular pelo quarto dessa forma.
Senhora, eu ia-me deitar.
Não se preocupe. Irá fazê-lo muito em breve, prometo.
Podia tentar ser bem educado.
Está bem.
- Está melhor? - Muito melhor.
Don Benton, americano.
Importa-se que eu lhe chame Don?
Senhora, pode chamar-me aquilo que quiser.
Porque é que veio a Cantão?
Para ver os chineses.
Lamento desiludi-la, senhora.
Apenas pensei que...
você fosse alguém oficial, alguém capaz de me ajudar.
Eu sou... estritamente um cidadão privado,
mas, se houver alguma coisa que um simples empresário possa fazer, eu...
- Gostaria de tentar. - Numa perspectiva meramente de negócios, é claro.
Poderia até misturar algum prazer...
se soubesse do que se tratava.
Estava naquele avião, não estava?
Sim.
Também não foi nada divertido.
Quando nos despenhamos, eu...
Pensei que nos iríamos afogar.
- Mas, eles apareceram e levaram-nos. - A nós? Onde é que estão os outros?
Não sei. Eles mantiveram-nos separados.
Eles lembraram-se que eu sou uma mulher.
- Não me diga. - Isso não os impediu de me revistarem!
Depois, começou o interrogatório.
Horas e horas intermináveis.
Pequenos cavalheiros perfeitos, mas, eles nunca desistem.
Já passaram três dias.
Não sei o que é que eles querem de mim.
Bem, talvez eles também não saibam.
Está presa?
Não oficialmente.
Mas, não posso abandonar o hotel.
Eu...
ouvi falar de pessoas que foram mantidas presas durante meses. Até anos.
Às vezes, simplesmente desaparecem.
Deve haver algo que possa fazer por mim.
Senhora, não sou homem de deixar ficar mal uma senhora em apuros, mas...
há seiscentos milhões de pessoas lá fora e eu sou, apenas, um indivíduo.
Talvez quando eu regressar a Hong Kong, possa entrar em contacto com o seu Cônsul ou...
Ou chamar os Fuzileiros. Muito obrigada.
Tentou contactar algum dos outros?
Como é que eu poderia?
Não vi nenhum deles desde que nos levaram para terra.
A todos?
Todos excepto o piloto. Ele tentou fugir.
Eles alvejaram-no com metralhadoras na água.
Pobre miúdo.
Nunca teve hipótese.
Viu aquilo? Pode testemunhar?
Bem, claro, quando sairmos daqui.
O desenho dos três peixes significa alguma coisa para si?
Sabe disso?
Sim, é o nome da casa para onde eles me levaram inicialmente.
Lavagem cerebral de luxo.
Mas, não estamos a afastar-nos do...?!
De que lado é que veio? Da varanda?
Sim. Do quarto 26.
- Falarei consigo mais tarde. - Certo.
Qual... é o seu nome?
- Lola. - Lola.
Lola Sanchez.
Sr. Benton. Que agradável vê-lo em Cantão.
Não me convida a entrar?
Não me diga que precisa de um convite.
Venha cá, Sr. Benton.
Isto é algo que não deve perder.
Bem, o que é?
O espírito da Nova China. Nada o impedirá de singrar.
Nenhum homem ou criatura, por mais pequena que seja.
- Nem sequer os pardais? - Pardais?
Talvez partilhe o habitual sentimentalismo capitalista acerca dos pequenos animais?
Não tenho qualquer sentimento para nenhum dos lados.
Sabia que o pardal come 5,5 kg de cereais por ano?
Assim tanto?
O suficiente para alimentar uma família de seis pessoas durante várias semanas.
Não me diga.
Esta noite, em Cantão, haverá um milhão de pardais.
Amanhã, não haverá um único.
Bem, o que é que vai fazer? Enviá-los para as minas de sal?
Um pardal só consegue permanecer no ar duas horas sem pousar.
A um determinado sinal, eles serão obrigados a voar...
e serão mantidos em voo até que caiam... exaustos.
O resto é, meramente, um problema sanitário.
"O massacre dos pardais".
A eliminação organizada de uma gananciosa praga, Sr. Benton.
Verá a fabulosa disciplina de uma cidade inteira.
Todos os homens, mulheres e crianças estarão nas ruas...
com tambores, gongos, chocalhos, fogos de artifício...
qualquer coisa que faça barulho.
Bem, talvez alguns gostem de pardais?
O povo da China alcançou a sabedoria.
O sentido de dever delas anula as suas preferências individuais.
Demasiado prudentes para correrem certos riscos, talvez.
Acerca da sabedoria...
Deixe-me dar-lhe um pequeno conselho.
Bem, gosto sempre de ouvir, Coronel.
Os quartos de hotel não são locais para conversas privadas.
Há tantas formas...
pelas quais elas podem ser...
ouvidas.
Não.
Sim.
Você...
Não, meu amigo. Não é assim tão óbvio.
"Não sou homem para negar ajuda a uma senhora em apuros".
Isso é muito lisonjeador.
Lembra-se, literalmente, das minhas palavras.
Estou decepcionado consigo, Sr. Benton.
Obtive-lhe uma autorização de permanência para que pudesse fazer os seus negócios legitimamente...
e não para que conspirasse com pessoas detidas para investigação.
Aquela rapariga estava assustadíssima e pediu-me para ajudá-la.
Algo que você sabe muito bem.
O que é que tem contra ela, afinal?
Ela entrou no país ilegalmente.
As autoridades têm de cumprir o seu dever...
e tem de admitir que eles não estão a fazê-lo de forma indelicada.
E as outras pessoas naquele avião?
A sua autorização de permanência aqui expira amanhã à noite, Sr. Benton.
Aconselho-o, como amigo, a concluir os seus negócios rapidamente...
e a regressar a casa.
Obrigado, Coronel. É isso que estou a planear fazer.
Fico contente por ouvir isso, para seu próprio bem.
Entendo que o chefe do nosso serviço de viagens...
irá vê-lo novamente, amanhã às 11:00.
Estará aqui um carro para levá-lo até lá e, depois, de regresso a Macau.
Isso é o que eu chamo uma verdadeira hospitalidade oriental.
Bem, se não se importar, gostaria de me deitar cedo.
Tenha uma boa noite, Sr. Benton.
Serviço de quartos, por favor.
Podem enviar-me um paquete? Obrigado.
Se o cavalheiro no número 51 sair esta noite...
comuniquem-me isso por telefone.
Não quero que ele seja seguido. Entendido?
Entendido, senhor.
Chá de jasmim, senhor?
Mantemos a água quente a noite inteira.
Serve o quarto 26?
Sim, senhor.
Uma senhora europeia muito simpática. Deu-me um presente.
Bem... aqui está outro.
Pode levar-lhe uma mensagem?
Não posso, senhor.
A senhora foi-se embora recentemente.
Embora? Embora para onde?
Chá muito bom, senhor. Feito especialmente para o cavalheiro.
"Eles levaram-me para a Rua dos Salgueiros. Lola."
Lola. Lola Sanchez.
Ela tinha-os visto alvejar o Jimmy na água.
Era essa a prova de que eu necessitava para ilibar o nome dele.
Onde quer que ela estivesse, eu tinha de encontrá-la e, se possível, libertá-la.
"A Rua dos Salgueiros."
Foi um golpe de sorte ela ter tido tempo de deixar aquele bilhete.
Ou não terá sido?
O Kang tinha ouvido o suficiente da nossa conversa...
para se aperceber do motivo da minha visita a Cantão.
E qual era o verdadeiro interesse dele em detê-la?
Os três peixes!
Olá!
Pensei que tinha perdido a coragem.
Coragem, o tanas!
Nunca tive tanto medo na minha vida.
Que sítio é este, afinal?
Esqueça. Está aqui.
Eu tive de providenciar uma fuga. Há um barco à espera na zona ribeirinha.
- Venha, vamos. - Ainda não.
Bem, o que é que se passa?
Temos de esperar.
Durante alguns momentos.
Eu...
Não tinha a certeza antes, mas... agora já sei.
Já sabe o quê?
A razão pela qual veio a Cantão.
Você, o simples empresário...
que gosta de misturar negócios com prazer.
Sou eu.
Você é, estritamente, negócios.
E também não é assim tão simples.
Veio até aqui para descobrir o que é que aconteceu...
ao avião desaparecido e às pessoas que nele viajavam.
Em particular, ao seu "correio".
Não demorou muito a encontrar-me.
Você é...?!
Nunca pensei que o nosso pessoal conseguisse agir tão rapidamente.
Deve ser um dos nossos melhores agentes.
Bem, eu... eu não diria tanto.
Bem, posso tranquilizá-lo imediatamente.
Mantive a mensagem em segurança.
Manteve?
- Bem, onde é que ela está? - Aqui.
É assim que eu trabalho. Nunca escrevo nada em papel.
Já ouviu falar de memórias fotográficas?
- Claro, claro. - Bem, não é assim tão raro.
Tudo o que tenho de fazer é olhar para a página.
Mesmo que não compreenda uma única palavra...
consigo reproduzir cada palavra e cada ponto.
Entendo.
- É outro dos seus talentos. - Outro?
Esqueça.
Eles... sabem disso?
Sim. É isso que me tem mantido em segurança.
Eles querem-na muito, mas, sabem que não adianta ameaçarem-me.
Nem sequer com tortura?
No meu caso, eles não têm a certeza de que isso não anularia o seu próprio propósito.
Sabe, se eu morrer, a informação morre comigo.
É por isso que eles têm recorrido a métodos mais suaves.
Quer dizer... até agora.
Agora, está com medo que a paciência deles se possa estar a esgotar?
Bem, com medo não, apenas...
a ponderar as possibilidades.
É um trabalho estranho para uma rapariga, trabalhar contra o seu próprio país.
Nunca tive um país ao qual pertencesse.
Bem, você não é chinesa nem americana...
então, dificilmente poderia haver qualquer motivo patriótico.
Existem outros.
Seja como for, porquê preocuparmo-nos com os motivos?
Eu não mudaria a minha vida.
Tem as suas compensações, sabe.
Excitação...
perigo...
Você é uma rapariga engraçada.
Porquê?
Porque gosto de viver perigosamente?
É, nesse momento, que sentimos o verdadeiro "sabor" da vida.
Com o perigo, os meus olhos, os meus ouvidos...
todos os meus sentidos ficam mais alerta.
Cada sentimento intensificado 100 vezes.
É, nesse momento, que realmente me sinto viva.
Então, para si, o perigo é uma espécie de droga?
Para si não?
Tudo aquilo que tem de fazer é olhar para si, e...
O homem prudente nunca chega demasiado cedo.
Ou demasiado tarde.
Peço desculpa por ter quebrado essa regra.
Não peça desculpa.
- Afinal, você é o anfitrião. - O anfitrião?
E um anfitrião tem um dever para com os seus convidados.
Infelizmente, o nosso negócio está a tornar-se algo urgente.
Mas, graças a si, minha cara e encantadora jovem...
sabemos agora tudo aquilo que precisamos de saber...
no que diz respeito ao propósito da visita do Sr. Benton a Cantão.
Então, um dos nossos pequenos problemas já foi resolvido.
Fico contente por ouvir isso.
Importa-se de partilhar a solução comigo?
Ainda está a fazer o seu papel, meu amigo?
Vamos mantê-lo preso como um espião.
Espião por convite. Você arranjou-me a licença, lembra-se?
Mas, você pediu-a, lembra-se?
Naturalmente, estamos interessados em saber quão muito...
ou quão pouco os seus superiores sabem sobre o avião.
Espero que seja suficientemente sensível para nos dizer.
E, nesse caso, poderemos deixá-lo ir.
A seu devido tempo.
Generoso como sempre, Kang.
Meu amigo, já mostrou todos os seus trunfos.
Porque é que não admite que perdeu o jogo?
Odiaria ser obrigado a envolver-me a qualquer situação desagradável.
E também odeio negociar com o estômago vazio.
Como diz o sábio...
"Onde a amizade existe, qualquer acordo encontra uma porta aberta."
Acontece que eu tenho de regressar a Moscovo de manhã cedo.
O meu avião parte às 07:00, então, antes dessa hora ímpia...
temos de chegar a um acordo em todos os assuntos pendentes.
Incluindo as nossas negociações consigo, minha querida.
E, se me permite a audácia...
constato que elas já se arrastaram durante demasiado tempo.
São necessárias duas pessoas para negociar, Sr. Kang.
"O ganancioso corvo-marinho perde o melhor peixe."
A propósito, se a presença do Sr. Benton a incomoda...
ele poderá ser facilmente "removido".
Não, eu... prefiro que ele esteja presente.
Tenho a certeza de que ele será muito útil.
Curvo-me perante os desejos da senhora.
Como quiser.
Bem, já fiz a minha oferta...
que é bastante superior ao limite original.
Tem exactamente meia hora para aceitar.
E se eu não o fizer?
Este é um local muito agradável.
Muito mais agradável do que a prisão.
Tenho a certeza de que não me enviaria para lá, Sr. Kang.
Você é uma mulher deveras fascinante,
mas, é dispensável.
Como qualquer ser humano.
Alguns não são.
Não se tiverem o tipo de seguro adequado.
Seguro?
Chamo-lhe a minha apólice de risco vocacional.
Muito útil.
Muito poucas apólices se aplicam a terramotos e maremotos...
e, posso-lhe garantir, o nosso poder é muito similar.
Tenho a certeza de que há um dentista em Detroit...
que estaria muito interessado em ouvir isso.
O que é que disse?
Ou a mulher que gere uma loja de vestidos, em Dallas.
Ou, talvez, o vendedor de automóveis usados, em Seattle.
- Estas pessoas são...? - Uma lista dos amigos do Sr. Kang na América.
É uma lista longa. Eu sei-a de cor.
E os nomes que correspondem às profissões.
Acho que já disse o suficiente.
Você tornou, agora, deveras impossível que nós...
alguma vez a deixemos sair daqui.
Isso seria deveras infeliz.
Para si, Sr. Kang.
Sabe, a lista não está, apenas, na minha cabeça
Também existe uma cópia escrita,
num cofre no Chase Bank, em Washington.
Se eu não estiver de regresso dentro de uma semana a partir de amanhã,
eles têm instruções para ligar para um número não listado,
e alguém virá buscá-la.
É claro que poderá estar a mentir.
Mas, esse é um risco que não se atreve a correr.
Não fique assim tão sorumbático, Sr. Kang.
Afinal, ainda está na licitação.
Licitação?
Não estava ciente de que iria haver um leilão.
É exactamente isso que é.
E, graças a si, por reunir os principais licitadores.
Você quer aquela fórmula desesperadamente.
Aqui o Sr. Benton, tenho a certeza, não quer que eu lha venda.
Afinal, demorou muito tempo a desenvolver.
Seria uma pena que...
se tornasse inútil, só porque os amigos do Sr. Kang também a querem.
Isto é deveras irregular.
Gostaria de fazer negócio sob as minhas próprias condições.
De forma justa, é claro, mas, ainda assim, sob as minhas próprias condições.
Mas, a senhora quer um leilão.
Então, dela deverá ter um leilão.
Para ser justo, devo salientar uma pequena falha na sua suposição.
Quanto é que poderá valer cada licitação sua?
Para ser muito franco, você está em grande desvantagem, Sr. Benton.
Não é um agente livre.
Isso poder-se-á arranjar facilmente.
Tenho a certeza de que a Miss Sanchez estará disposta a estender...
a sua apólice de risco vocacional para que ela me cubra também.
- Irá fazê-lo, senhora, não irá? - Certamente.
Se você for o comprador.
Espero que isso o encoraje a licitar mais alto.
É claro que...
tornaria as coisas mais fáceis se...
a proposta do Sr. Kang vencesse.
Mas, é realmente uma questão de indiferença para mim.
Indiferença?
Bem...
quase.
Lamento deixá-lo numa situação desagradável. Eu...
Gosto de si.
Mas, não nos podemos dar ao luxo de ter sentimentos pessoais na nossa profissão.
E você é uma profissional, minha querida.
Ambos podemos apreciar isso. Não podemos?
Azeda!
Mas, lidar com uma agente dupla pode ser muito difícil.
Elas são autênticas mercenárias.
Mas, o que é que um homem pode fazer?
Suponhamos que adicionamos a pequena questão de 20% à oferta original?
Acho que tenho o direito de saber qual é a oferta original.
Caso contrário, como poderei licitar?
Certamente.
Sr. Kang acabou de licitar no valor de 150 mil dólares.
Não, não licitei. Foram 120 mil.
Acho que posso fazer um pouco melhor do que isso.
160. Em dinheiro.
Será que ouvi 160?
Repito... 160.
Mais não?
É a oferta final?
Uma...
Duas...
Não é nada. Apenas os pardais.
- É a nossa oportunidade. - Não. O leilão ainda não acabou.
Você vem comigo.
Ou não terá a hipótese de vender essa informação agora.
Idiota! Acha que me pode arrastar daqui?
Terá sorte em conseguir escapar sozinho.
Não tem escolha. As suas impressões digitais estão na arma.
Se a encontrarem aqui com isso...
Vamos, vamos.
Vamos.
Apanhem-nos.
Por aqui.
Vamos, é melhor irmos.
Don...
Don...
perigo...
perigo é quando...
alguém, realmente, ganha vida.
Sr. Benton?
Sr. Benton, o barco está pronto.
Transportamo-la?
Não importa. Um homem irá mais rápido.
Venha, venha.
Porque é que demorou tanto tempo?
Sr. Benton, vim logo que a minha secretária me entregou a mensagem.
- Conseguiu o cartão de embarque? - Sim, está aqui.
Lamento, eu teria cá estado para o receber...
só que você chegou mais cedo do que eu esperava.
Deixei Cantão com alguma pressa, no Expresso Sampan.
Encontrou aquilo que procurava?
- Sim. - Óptimo.
E ainda mais.
Então, eu... acho melhor que vá directamente para a sua cabine.
Sr. Pereira, o que é que há em mim que parece deixá-lo assim tão nervoso?
Não é nada. Não é nada.
Apenas que o barco está pronto para zarpar.
Todas as vezes que chego aqui a Macau...
você parece querer empurrar-me para o interior de um navio a vapor.
Sr. Benton, há dois anos que trabalho para si.
Agora, durante esse tempo...
você apareceu aqui, em Macau, em inúmeras ocasiões.
Agora, nenhuma delas poderá ser chamada...
nem pelo melhor rasgo de imaginação...
uma visita de rotina. Alguma coisa sempre acontece...
e sou sempre eu que fica no meio dela!
Por falar nisso... há uma rapariga que foi baleada no cais, em Cantão.
- Compreende aquilo que quero dizer? - Gostaria que tomasse...
- as providências necessárias. - Sim, mas, senhor....
Passaporte?
Duvido. Ele memorizou tudo.
O quê?
Ela é aquilo que podemos chamar uma cidadã do mundo.
Sr. Benton, sabe que é impossível entrar em Cantão...
Sr. Pereira, está no negócio das viagens.
Criatividade... é esse o símbolo da nossa empresa.
Sim, mas, Cantão não é um... Eu...
Mereça o seu dinheiro, Sr. Pereira.
Muito bem, senhor.
Até breve.
Mal posso esperar.
A prisão não engordou o Jimmy.
Swee Lim, certifica-te de que ele come um belo e grande jantar.
Qualquer um pensaria que eu passei semanas lá.
Quatro dias. Demasiado.
Mas, foi para a própria segurança dele, senhora...
até o Sr. Benton ter encontrado a Miss Sanchez, e confirmado a sua versão da verdade.
Que rapariga tão linda!
Procure raparigas bonitas em Hong Kong.
Ainda assim, sua irmã.
Ouviu isto, Tai Ko?
Bem, odeio ter de abandonar as celebrações familiares, mas...
hora de expediente, sabem.
Bem, boa sorte, Jimmy...
e não se envolva em mais incidentes.
As outras pessoas não o conhecem como nós.
O Inspector tem de comer mais.
Prato mais pedido a sair.
Pato à cantonesa, Bill. A especialidade da Tai Tai.
Tem de experimentar.
Eu não. A Swee Kim fez.
Ela é óptima cozinheira.
Tai Ko, o melhor agente de viagens em Hong Kong.
Saúde!
Saúde, Tai Ko!
Voltarei para o almoço.
Se precisar de mim, poderá ligar-me para casa do Sir Charles.
O comboio, Tai Ko!
Bom dia, Sr. Benton.
Este é o seu escritório, Sr. Orme?
Não, não, apenas subo num minuto e desço no minuto seguinte.
Seja como for, fico contente por ter a oportunidade para lhe agradecer a ajuda...
na resolução do caso da Lola Sanchez.
Pensei que estava a ajudar no caso do Jimmy Mao.
Poderá gostar de saber que a lista que ela deixou...
com apólice de seguro provocou uma enorme agitação em Washington.
Aquele seguro tinha um prémio e tanto.
Sabe, gostava que reconsiderasse a minha oferta.
Precisamos de um homem infiltrado aqui.
É uma vida tranquila para mim de agora em diante.
Bem, pense nisso. Enfim, espero vê-lo novamente em breve.
Não, não espera!
Bem, seja como for, não...
não muito em breve.
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