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IRMÃS, ANO DE 1918 UMA MANHÃ SOMBRIA
ALEXEI TOLSTOI THE ROAD TO CALVARY
BASEADO NO LIVRO HOMÓNIMO
EPISÓDIO 7
... acidentalmente saltou da janela e quase morreu.
Que país!
O império foi para o Inferno!
A guerra está lix...
Desculpe... perdida para os alemães. Que pena.
Claramente, ocuparão as partes do sul e centro da Rússia.
E iremos viver na Russland. Estou encantado com isso.
- Pai... - Estou!
Entraremos ao serviço e instrução dos alemães,
e, quem sabe, talvez se tornem humanos. Graças a Deus.
A ordem acima de tudo.
Nem pensar, Dmitri Stepanovich! Somos mais que estrume alemão.
Defenderemos a Rússia
e puniremos severamente os responsáveis.
Em menos de nada.
Está a delirar... Que lhe chamo? Meu caro genro...
Quem defenderá isso?
Quem? Os desertores que fugiram da frente,
deram à sola? - Pai!
Sim! Adeus!
Obrigado pelo pequeno-almoço.
Atacar!
Em frente, irmãos!
Em frente!
Para onde correm?
Para onde? Fiquem parados!
- Viva! - Vão!
Fiquem parados!
Vão!
Onde... Mas que Diabo?
- Zhukov? - O quê?
Telegin!
Desculpa, não sabia que eras tu.
E se soubesses...
Zhukov!
Zhukov!
Lamento, Zhukov...
É uma guerra. Desculpa.
Perdoa-me, Zhukov.
Camaradas, se não estão registados no departamento do trabalho, podem ir.
Como me registo?
Organize a documentação.
A lista está colocada.
Volte ao departamento.
Os seus documentos serão processados entre as 8 e as 9 da manhã.
Quando se registar, volte cá.
Mas que é isto?
Que devemos fazer?
- Por Deus! - Camaradas!
Quanto mais toleraremos isto? Todos os dias...
Sabes, há duas semanas que venho cá.
Não há trabalhos nem pensões.
- Disseram que davam comida... - Camaradas!
Recorremos à classe trabalhadora alemã...
Mas quando acontecerá?
... francesa, inglesa, para forçar os seus governos assassinos
a concluírem imediatamente um tratado de paz honesto e democrático
com a nova Rússia.
Abaixo a guerra imperialista.
Salve a irmandade das nações!
Então?
Podes aquecer o samovar, por favor?
Acabei de o fazer.
Meu caro genro!
Que não tem nada e mais ainda...
Como estão as coisas?
O mesmo de sempre.
- Não há emprego. - Vamos?
Quer que lhe diga porque não arranja trabalho?
Porquê?
Porque não quer trabalhar para os bolcheviques.
Acredite ou não, não quero.
Estou curioso, qual é o problema deles?
São diferentes do czar no quê? Se me perguntar a mim, em nada.
Poder é poder, não importa onde.
Veja o Semyon Semyonych Govyadin.
Ele puxou uns cordelinhos e quem diria?
Já é um homenzinho.
Costumava ser como nós, já agora.
- Tinha uma mentalidade liberal. - Pai, para!
Não podemos seguir o exemplo do Govyadin.
Querida, é uma questão de opinião. Por exemplo, hoje, ofereceram-me
a hipótese de me tornar o chefe dos hospitais da cidade.
E eu não me vou fazer de difícil nem recusar. Queres saber porquê?
Porquê?
Porque, até ao verão,
Samara será ocupada pelos alemães.
E adorava sobreviver até ao verão.
Posso perguntar-lhe onde arranja o material médico?
- Dizem que não há na cidade. - Sim.
Por isso, dou clisteres. Sim.
Se formos ao fundo das causas subjacentes da nossa abençoada anarquia,
esbarraremos contra um estômago bloqueado.
Por isso, clisteres para todos!
Seria bom começar por si.
Pai.
Tu e o teu naturalismo...
Para aí!
Anda cá.
Sabes, este teu marido...
... é um militar, não uma menina.
E, enquanto viver na minha casa...
... tem de deixar de lado...
... a sua nobre sensibilidade.
Vai dizer-lho.
Ainda não acabei.
Porque não tem ele um emprego?
Não está disposto a trabalhar para os bolcheviques...
Então, porque está ele disposto a encher-se do meu pão e manteiga?
Vai dizer-lho!
- Mortes? - Algumas.
Telegin!
- Vivo? - Vivo.
Vai, eu ligo-o.
- Que tens aí? - Nada, só um arranhão.
Mais não seja, que cara é essa? Devias estar entusiasmado.
O oficial Branco que me atingiu
foi o tenente Zhukov.
Escapámos dos alemães com ele.
As coisas são assim agora.
Habitua-te.
Temo não conseguir.
Não faz mal.
Vais conseguir.
Camarada Sapozhkov!
- Camarada Sapozhkov! - Sim?
Há uma coluna com uma bandeira branca.
Quem? Para quem? Fica melhor.
Parecem civis.
Civis?
Alto! Parem.
Como é que passaram pelo Exército Branco?
Deixaram-nos passar. Tiveram pena de nós e deixaram.
Camarada, deixe-nos passar também, por amor de Deus!
Se conseguíssemos chegar a Rostov.
- A partir daí, é como Deus quiser. - Afastem-se...
Venha cá.
Pare.
Bessonov? És tu?
Talvez seja o Bessonov, talvez não.
Só Deus sabe.
Reconheces-me?
Sapozhkov!
Sim.
- Vejam a carroça. - Sim, senhor.
É um mandato.
Usa-o para arranjares um bilhete na estação.
Para comer num bufete ou resolver qualquer problema.
Tem o meu selo e assinatura.
Obrigado.
- Passem! - Obrigado.
Obrigado.
Cerrar fileiras!
Continuem!
Precisa de um carregador?
Negativo.
Sua Graça.
Sua Graça.
Sei que precisam de um guarda noturno numa loja.
Obrigado, mas tenho de recusar. Tenho mulher.
Não a posso deixar sozinha à noite.
Sua Graça...
Quero dizer-lhe... Ouvi de um velho amigo...
Precisam de militares na Milícia dos Trabalhadores.
Eles aceitam ex-oficiais.
Obrigado.
Camaradas, o crime é um fenómeno temporário.
Assim que conseguirmos criar uma sociedade justa,
ele acabará por desaparecer.
Até lá, há que lutar contra os rebeldes com brutalidade.
A situação é esta:
Fomos destacados para tratar dos roubos e assaltos.
Sabe, é uma cidade portuária.
Há muitos tipos duros.
Como os apanham?
Bem, os ladrões e os assaltantes normais são muito fáceis de apanhar,
mas temos uns convidados especiais cá.
Esses são difíceis de apanhar.
Uma miúda num restaurante vê um cliente e leva-o para o quarto.
E ele acaba com uma pancada na cabeça e sem dinheiro nem relógio.
O mais provável é que ela seja só o isco.
O seu parceiro mata e rouba.
- Cherchez la femme? - O quê?
Quer dizer "procurar a mulher".
A miúda não nos acharia apetecíveis.
Temos ar pobre.
Mas tu, camarada Roshchin, pareces um saco de dinheiro.
Dinheiro é mesmo o que não tenho.
Primeiro,
ela não sabe disso. Segundo...
Isto dá-lhe para champanhe e uma bela refeição.
Tome.
Mais uma coisa...
O meu revólver. No caso de ser preciso.
Boa noite, que deseja?
- Champanhe e foie gras. - Não temos isso de momento.
- Sugiro costeleta de porco. - Traga o que tiver.
Posso pedir um cigarro?
Claro. O prazer é meu. Sente-se.
O seu champanhe.
É solteiro?
Como pode ver.
Eu também.
Amei um homem, certa vez.
Mas apaixonou-se por outra.
Engraçado, não?
Porquê?
Às vezes, isso acontece.
Mas só vivo uma vez.
Por isso é que dói.
Voilà.
Posso comer um pouco?
Onde está o Vadim? Não percebo.
Pareces uma leoa às voltas na jaula. Acalma-te.
E o Nikolai Ivanovich, que Deus dê paz à sua alma...
... não era apenas responsável, mas...
... rico.
E eu fiquei de mente tranquila, quando te casei com ele.
E este...
... é um snob e mais nada. - Pai, para.
Eu amo o Vadim!
O quê? Amor?
Que amor?
Em alturas destas, o amor é um luxo inaceitável!
Tens de pensar na sobrevivência.
E esse teu "marido" não está a ajudar.
- Pai! - Querida...
Tenho pena de ti...
- Ele vai arrastar-te para o fundo... - Casei com o Nikolai
porque te ouvi!
- E foi a coisa certa. - E fui infeliz muitos anos!
Deixa-me viver à minha maneira, pai!
De que maneira falas?
Onde está? És uma tonta...
Como a tua mãe.
Tenho pena de ti. Ele vai arrastar-te para o fundo, filha.
Céus.
Que fiz para merecer isto?
Diz-me.
Vamos para o meu quarto.
Porque não? Vamos.
QUARTOS
Entra.
Senta-te.
Ou deita-te, se quiseres.
Está trancada!
Abram a porta!
Abram a porta!
Abram!
Abram a porta!
Roshchin!
Ali estão eles! Ali!
Bolas! Fugiram de novo!
Irão tentar fugir da cidade.
A sério? Achas que os assustaste assim tanto?
Ele tem um braço.
Falta-lhe o braço direito, isso é característico.
O mais importante é pormos outros atrás dele, se quiser fugir da cidade.
Vem buscar o teu salário.
E precisas de uma licença. Amanhã, alistas-te.
Onde estiveste?
Estava tão preocupada. Não sabia que pensar.
- Não acreditarás, mas estive a trabalhar. - Conseguiste trabalho? Onde?
Na Milícia dos Trabalhadores.
Uma coisa inútil, mas que paga.
Estás feliz?
Só porque estás ao meu lado.
Diz-me, porque...
... não podemos apenas viver?
Trabalhar e amarmo-nos um ao outro?
Porque Deus pôs-nos a viver nestes tempos.
Não chores.
Não chores.
Acalma-te.
Não posso continuar na cidade com esta falta de braço.
Partamos para Rostov.
Arkady, paremos com isto.
Temos dinheiro suficiente para assentar e ter uma vida pacífica.
Não sejas tonta, Liza. Não há paz em lado nenhum.
É a beleza da situação. As pessoas mudam-se constantemente,
procuram segurança.
E cá estamos! Teremos milhões, em breve.
E iremos para onde quiseres. Queres ir para Paris?
Não falo francês.
Não precisas, quando tens dinheiro.
E não o poderemos gastar aqui, de qualquer modo.
Factos são factos.
Os bolcheviques conseguiram um tratado de paz com os alemães.
E gostaria de propor um brinde.
Bebamos à vitória da revolução global.
Apenas temos de acabar com a escumalha Branca.
E pronto. Criem o mundo novo que quiserem.
Sim!
Porque não bebe?
Eu faço parte dessa escumalha Branca.
Meu Deus, ele está a brincar.
Porquê? Brincadeiras à parte.
Obrigado pela hospitalidade, Dmitri Stepanovich,
lidaremos com os da sua laia amanhã.
- Boa noite, Semyon Semyonych. - Sim.
Bem...
Saiam!
Saiam da minha casa.
- Pai! - Não.
Saiam.
O Dmitri Stepanovich tem razão, não posso ficar nesta casa.
Nesse caso, saímos juntos.
- Nesse caso, já vão tarde. - Vadim!
Com licença. Deixem-nos passar.
Katya, anda cá.
- É tua? - Sim.
Deita-te. Dorme.
E tu?
Sentar-me-ei aqui contigo. Ainda não quero adormecer.
Vadim Petrovich? É o senhor?
- Krasilnikov? - Sou eu.
- Olá! - Pareceu-me ouvir uma voz familiar.
Sim.
Katya, apresento-te Alexei Krasilnikov, o meu camareiro.
- Prazer. - Praticamente, um anjo da guarda.
- É a sua mulher? - Sim, Ekaterina Dmitrievna.
Encantado.
Para onde vão?
Para sul. Para fugir o mais possível ao regime.
Onde é que nos podemos esconder dele? Está por todo o lado.
- Estás cansada? - Exausta.
Não faz mal.
Vais dormir um pouco. Descansa.
Espero que o regime não dure muito.
Engana-se, Vadim Petrovich.
Que queres dizer?
As pessoas estão a favor deste regime.
Não pode fazer nada em relação a isso.
O general Kornilov, um militar, que pôs a Cruz de São Jorge no meu peito,
tentou angariar aldeias cossacas para a Assembleia Constituinte e falhou.
Agora, corre como um cão numa alcateia nas planícies de Kuban.
Não, Vadim Petrovich. Rostov é uma má ideia.
Sabes que mais, Krasilnikov, vivo neste país.
Nada receio. - O país é seu,
mas o regime parece que não.
Agora, é um forasteiro aqui.
Obrigado pela tua candura.
Deixe-se disso. Não é preciso cerimónias.
Sua Graça,
vá para Paris. Já não se enquadra aqui.
Certo. É tarde. Hora de ir para a cama.
Boa noite.
"Se alguma vez precisares da minha vida, podes tirar-ma.
Amo-te infinitamente.
O teu, Ivan."
É como o sol, enfermeira.
Quando entrou no quarto, a dor desapareceu.
Talvez tenha sobrevivido para que tal beleza
viesse a cuidar de mim.
Sou um tonto com sorte.
Dar-lhe-ei morfina mais tarde.
A dor desaparecerá.
Onde foi ferido?
Perto de Rostov.
O meu marido está a lutar lá.
Ivan Illich Telegin. Conhece-o?
O camarada Telegin?
Lutámos juntos.
Um homem extremamente corajoso.
É verdade?
Conhece-o?
Porque mentiria?
Nunca conheci ninguém mais corajoso.
Ele não cedia perante as balas.
Daria a vida pela causa revolucionária.
Obrigada.
Vivo, graças a Deus.
Mentiste-lhe?
Sim. Um pouco...
Ficas com a direita, eu, com a esquerda.
- Seremos apanhados. - Se formos, queixas-te depois.
Deixa os sacos. Apenas malas e malas de viagem.
Vai.
Porque paraste?
É ele.
Quem?
O cliente do hotel.
Vai, mexe-te.
Porque estás parado? Vamos!
Já te apanho.
Vamos!
- Vamos embora. - Espera.
Ajuda-me.
- Que se passa contigo? - Nada. Dói-me as costas.
Dashenka...
Dashenka, porque estás aqui?
O teu turno acabou há horas.
Sabes, Marusya,
achei que ficar sozinha era bom.
No entanto...
... é um teste.
E estou a chumbar.
É melhor ficar aqui, no hospital.
Aqui, sou útil.
Porque continuas a vir trabalhar?
- É hora. - Mais três meses.
O Seryozha diz
que quanto mais me mexer, mais fácil será.
Marusya, despacha-te. Vamos!
Vai.
Graças a Deus, por fim, chegamos.
Obrigado.
Mantém-te forte, estamos quase.
- Dê-me a mão. - Nada de empurrar, por favor.
- Menina, dá-me a tua mão. - Afaste-se! Vá.
Comamos aqui.
Vadim.
Porque estamos aqui?
Não te preocupes. Tenho um amigo em Rostov que nos ajudará.
Desculpe.
Podemos sentar-nos aqui? As outras mesas estão cheias.
Claro.
Obrigado.
Katya, senta-te.
- Que servem aqui? - Algo a que chamam "rasstegay".
Que posso trazer-vos, camaradas?
Chá e rasstegay.
Para a senhora e para mim.
O chá é self-service.
Costumava ser um restaurante de primeira classe.
Tinham comida razoavelmente boa.
Entradas quentes, sopa de esturjão.
Em breve, camaradas, este restaurante
será nacionalizado e só servirá água quente.
Se, claro, o samovar não for roubado.
Sim, os selvagens ganharam.
Não por muito tempo, espero.
No entanto, para já, tudo é desagradável.
A cidade parece abandonada.
Para onde foram todos?
Os oficiais foram com o general Kornilov.
As senhoras esconderam as peles e tornaram-se plebeias.
À espera da mudança do regime.
O regime atual não é bom para os da nossa classe.
Em breve, quem tem sangue nobre será pendurado em estacas.
Que devemos fazer?
Ir para a frente e exterminar a escumalha. Não há outra forma.
Vadim! Rogo-te!
Peço desculpa.
Vou buscar água quente.
As minhas desculpas por...
Deixe-me apresentar.
- Savenkov. - Roshchin.
- Se escolher juntar-se ao Kornilov... - Fá-lo-ei.
Nesse caso...
... aceite isto.
E esconda-a de imediato.
Que é isto?
Chamemos-lhe...
... uma carta de recomendação.
Terá de cruzar a linha da frente ilegalmente.
Para conseguir a confiança deles, dê isto ao general Romanovski,
o segundo comandante.
A honra é minha.
- É minha. - Boa sorte.
Alto!
Vadim!
Meu Deus...
Vadim Petrovich!
Meu caro!
Estou tão feliz!
Tão feliz!
A minha mulher, Ekaterina Dmitrievna.
É um prazer.
Deixe-me apresentar-me.
Sergei Alekseevich Tyotkin.
Sim. O seu marido e eu lutámos juntos.
- Na Galícia. - É um prazer.
Sim. Permita-me.
Apesar de... Peço desculpa.
Estou a fazer graxa. Dá uma confusão e um cheiro horrível.
Graxa? Porquê?
Que queres dizer? Para vender e me sustentar.
O seu marido salvou-me a vida.
Pois, acredite ou não.
Devo-lhe uma.
Para, Sergei Alekseevich.
Ajuda-nos a encontrar um quarto, para começar.
Desculpa, um quarto?
Podem ficar em minha casa. Tenho um quarto vago.
Não é grande, mas Ekaterina Dmitrievna... tem um toucador. E um feto.
- Não sei. Não é estranho? - Por favor! Que tem de estranho?
E então?
Bem, devem estar esfomeados! A Sofia Ivanovna arranja-vos de comer.
É tudo o que temos.
Percebem, a situação é...
... dura...
Não podemos ter grandes vidas.
Se conseguirmos uma galinha, temos muita sorte.
Obrigada, está delicioso!
Em todo o lado... é revoltante...
As pragas do Egito.
Quem me dera que afugentassem os bolcheviques.
Que pensam disto na capital?
Para com isso.
Para com isso. Eles... não te olharão com bons olhos por essas palavras.
Sabes que mais?
Que me deem um tiro.
Não ficarei calada.
Não prestem atenção.
Ela é generosa e compreensiva, uma excelente dona de casa.
Mas todos estes acontecimentos...
... acabaram por a enlouquecer um pouco...
Louca, porquê? Ela tem toda a razão.
Toda a razão.
Temos de acabar com a doença bolchevique, antes que prejudique todo o país.
E estás, desculpa dizê-lo, a fazer graxa de sapatos.
Sabes, Vadim Petrovich, meu caro...
... para mim, é tudo o mesmo, quer esteja a fazer graxa ou...
... a apanhar fezes.
Desculpe, Ekaterina Dmitrievna.
Sobrevivi à guerra mundial.
E conseguirei adaptar-me a qualquer regime.
Se vir que faz as pessoas felizes. Sim.
Não olhem para mim assim, não sou um bolchevique.
Eu sou neutro.
Mas não lutarei contra a minha gente.
Nem pensar.
És tenente-coronel no Exército russo. Sentas-te aqui, enquanto nas imediações,
o Kornilov luta contra os Vermelhos! - Sim!
Acredites ou não, Roshchin, estou sentado.
E continuarei.
Estou cansado de viver nas trincheiras.
Já não quero usar estrelas.
Bem, então...
Obrigado pela hospitalidade.
- Vadim! - Apesar de lamentar...
... perder um camarada. - Vadim!
- Vadim! - Vamos, Katya!
Por favor, para. Isto está errado.
Não podes continuar com essa atitude e esses pensamentos.
- Para de falar, por favor. - Não. Amo-te e quero que caias em ti.
Deve-se viver em amor, não ódio!
Vai para o Inferno e leva o teu amor contigo!
Vai encontrar um judeu para ti! Ou um bolchevique!
Ao Inferno com isso!
Ficaremos juntos, como um só!
E morreremos!
Isso mesmo, camaradas!
Lutaremos por uma boa causa! Sim!
Continuem.
Já passámos, rapazes.
Meu Deus, Sonya, que se passa?
As famílias estão a separar-se. Os amigos também.
De onde vem esta loucura?
- Dos bolcheviques. - Os bolcheviques de novo!
E diz-me, de onde vêm os bolcheviques?
Eles não caíram do céu, pois não? Não.
Somos os culpados, porque...
... permitimos isso.
E os que o permitiram terão de sofrer.
Sim...
Não!
Vai viver connosco, Ekaterina Dmitrievna.
- E pronto, não discuta. - Seryozha...
- Oh, és uma bênção. - Obrigada.
Seryozha...
Há uma estrada que atravessa o país.
Vão matar-nos a todos.
Talvez?
Preciso de um plano.
Para a esquerda!
Há novos recrutas, camarada Sapozhkov.
Voluntários.
É um oficial?
Formei-me no corpo de cadetes.
- Porque veio? - As minhas convicções trouxeram-me.
Trabalhei na Milícia dos Trabalhadores em Samara e vim lutar.
Em nome da revolução.
Tens documentos da Milícia dos Trabalhadores?
Aqui tem.
A linha da frente está a dez quilómetros.
Há lá oficiais Brancos, que podem ter sido seus colegas de escola.
Percebe?
Sim, senhor.
Aos vossos postos, camaradas.
Ser-vos-á dado comida e armas.
- Bem-vindos. - Dispensados!
Venham ao meu gabinete.
Venham comigo.
Come.
O pão ainda está quente.
Quando acabaremos com os Brancos?
Estou ansioso por pôr esses sacanas burgueses a sangrar.
Lembrar-me de quantos matei...
... é um verdadeiro prazer.
Alguém te espera em casa?
- Ninguém. - Como eu.
A minha mulher morreu e o meu filho um pouco mais adiante.
Ninguém está à nossa espera, soldado.
Só resta uma coisa.
Acabar com a cambada Branca, até não restar nenhum.
Certo.
Come.
Escumalha.
Disseram que o posto fronteiriço foi destruído pelos circassianos.
De manhã, o Kornilov chegará cá.
Com todos os seus homens.
Não temos tempo para solidificar a nossa posição.
Precisamos de cobertura.
Voluntários?
Eu.
Eu.
Venham comigo.
E tu, Ivan Illich?
- Há quanto tempo lutas? - Vários meses.
Eu também.
Ao regressar da frente alemã,
à ida para casa, os Brancos destruíram a nossa aldeia.
Levaram os cavalos,
por isso, juntei-me aos Vermelhos para reaver os meus bens.
E agora, Krasilnikov?
- Vais roubar os Brancos? - Não é roubo.
Despojos de guerra, troféus.
E se tivesses mantido a tua terra?
- Juntavas-te ao Exército? - Não, para quê?
Sou um camponês, afinal. Preciso de lavrar o solo.
É uma zona de descanso.
Não atacarão sem a nossa informação.
- Uma palavra e morres. - Que fazem?
Vamos!
Mexe-te!
Silêncio!
Não sufoques.
Se gritares, mato-te.
- Não vou gritar. - Como te chamas?
Valeryan Onoli...
Judeu.
Os meus avós são franceses. Não sou judeu, mas russo.
Russo!
Deixamos-te viver se contares tudo.
Tudo o que perguntar.
Solta-o.
Estamos cercados, rapazes!
Cercaram-nos, cuidado!
Estão a cercar-nos!
A tentar passar, sacana!
Viste os teus amigos, foi?
Toma isto, sacana!
Toma isto, sacana!
Não te mexas!
- Quem és? - Capitão Roshchin,
com uma mensagem para o general Romanovski.
Segue-me.
As metralhadoras estão aqui
e aqui. As patrulhas, ali e ali.
Dá-lhe comida.
- Aqui tens, aceita. - Obrigado.
Soltem-me.
Para que precisam de mim agora? Sabem tudo o que querem.
Se eles me matarem, que ganham com isso?
Porque lutamos entre nós? É tudo russo. Não somos os inimigos que nos separaram.
Tu...
És inteligente, não?
Porque lutas pelos Vermelhos?
Essa escumalha estúpida e gananciosa!
Para de choramingar, Onoli.
Russo, olha para ele. Não te lembraste disso quando me roubaste.
Não roubei ninguém!
Alguns dos teus, então.
E fiquei sem um único trapinho.
- Que estás a fazer? - Toma.
Aceita, sim.
Um relógio de ouro.
Pavel Bure...
Autêntico.
E aqui...
Tenho dinheiro.
Aceita. Leva tudo.
Mas soltem-me!
O Branco está a falar verdade.
É mesmo ouro.
E então?
Talvez o possamos libertar?
É russo, afinal de contas.
Estás louco?
Ele voltará para os seus.
- E lutará contra os nossos. - Não! Juro!
Vou voltar a casa!
A Rostov! Estou farto desta guerra!
Precisamos de o soltar.
Que disseste?
Queres ir a tribunal?
Vá, dispara.
Salvaste-me da morte. Agora, mata-me.
Mas que raio?
O francês foi-se embora.
Desculpa, Ivan Illich.
Que estás...
Não vou voltar!
Eu junto-me aos Verdes! Ou ao pai Makhnó.
Vais desertar?
- Sacana! - Chama-me o que quiseres.
Adeus, Ivan Illich.
Se tiver um filho, chamo-lhe "Ivan"! Como prometi!
Legendas: Vânia Cristina
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